Intertextualidade
Você sabe o que é intertextualidade?
É um conceito que aparece muito nas provas de vestibulares e do Enem.
Vamos falar disso um pouco nesta aula.
A definição de intertextualidade é muito simples.
A gente vai pensar em intertexto.
Nós estamos dizendo que se trata da presença de elementos de um texto.
Então, nós temos elementos de um texto em outro texto.
Literalmente, é quando nós temos um texto dentro de outro texto.
É lógico que, para nós conseguirmos compreender essas relações, nós precisamos ter repertório cultural.
Para nós enxergamos um texto dentro do outro, nós precisamos conhecer o primeiro texto.
Esse “conhecer” significa que nós precisamos ter esse repertório cultural.
Conhecer primeiro o texto significa ter leituras.
Então, para que a intertextualidade se efetive, nós precisamos ser leitores atentos, profícuos e que praticam isso sempre para identificar esse texto dentro do outro texto.
Vamos para um exemplo rapidamente!
Todos conhecem a música “Cálice”.
Então, nós temos aqui a música “Cálice”, de Chico Buarque de Holanda, que foi escrita no período da Ditadura, criticando-a.
A brincadeira foi com a palavra “cálice”, em que aqui está escrito
“cálice de vinho”, mas seria a ideia de “cale-se”, no sentido de calar a boca.
Então, você tem: “Pai, afasta de mim esse cálice.
Pai, afasta de mim esse cálice de vinho tinto de sangue”.
A ideia de vinho tinto de sangue seriam as mortes que a Ditadura promoveu, ou seja, promoveu a violência.
Ele vai continuar: Como beber dessa bebida amarga, tragar a dor, engolir a labuta”.
Então, “tragar a dor” é sugar essa dor e engolir a labuta, que é o trabalho.
“Mesmo calada a boca, resto peito”.
Então, mesmo que a gente não possa falar, resta o peito, que é o coração dele batendo em desespero.
“Silêncio na cidade não se escuta.
De que me vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra.
Outra realidade menos morta.
Tanta mentira, tanta força bruta”.
Nessa letra, nós identificamos outro texto.
Qual texto?
Um texto bíblico.
Nós temos aqui um texto bíblico.
Por quê?
Observe que ele fala: “De que vale ser filho da santa?
Melhor seria ser filho da outra”.
Estamos falando de Maria e de Madalena.
Então, nós precisamos conhecer elementos bíblicos para entendermos essa referência.
Temos aqui uma marca de intertextualidade nesse trecho.
E aí nós temos um outro cantor atual, porque essa letra foi produzida em 1970 ou 1980.
Nós temos, na atualidade, o cantor Crioulo, que é um rapper.
Nós temos o Chico Buarque, que produz músicas populares brasileiras e nós temos aqui uma referência do rap, em que ele vai escrever com o título “Cálice”, mas no formato dele.
Ele coloca: “Há preconceito com o nordestino.
Há preconceito com um homem negro.
Há preconceito com o analfabeto.
Mas não há preconceito se um dos três for rico, pai.
A ditadura segue meu amigo Milton.
A repressão segue meu amigo Chico”.
Olha a intertextualidade explícita aqui!
Como assim explícita?
É marcada.
Ele faz referência.
Ele cita dois cantores e, para você entender Milton e Chico, você tem que conhecer Milton Nascimento e Chico Buarque.
“Me chamam Crioulo e o meu berço é o rap.
Mas não existe fronteira para a minha poesia, pai”.
Ao invés de falar “Afasta de mim esse cálice”, ele fala “Afasta de mim a biqueira, pai.
Afasta de mim as biate, pai.
Afasta de mim a coqueine, pai, pois na quebrada escorre sangue”.
Então, aqui ele está fazendo a referência dele.
Qual é a referência dele?
A biqueira, que seria a ideia de drogas que ocorrem nos becos.
Do mesmo jeito é a “coqueine”, que seria a cocaína.
Então, nós temos essas referências.
Observe que ele faz intertextualidade.
Para você entender o texto do Crioulo, deve entender a intertextualidade.
Para você entender o texto do Crioulo, você precisa conhecer o texto do Chico para fazer sentido.
É um texto dentro do outro.
É exatamente isso que nós denominamos de intertextualidade.