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Curso de Imersão em Terapia Intensiva Neuro 2005 da Associação de Medicina Intensiva Brasileira
Tipologia: Notas de aula
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Não perca as partes importantes!










Hemorragia Subaracnóide (HSA)
Os principais objetivos deste capítulo são:
B. Epidemiologia
A hemorragia subaracnóide (HSA) é uma patologia freqüente e devastadora. As principais causas de HSA são:
Neste capítulo será discutida a HSA causada por ruptura de aneurisma (HSAa). A incidência anual de HSAa nos Norte Americanos é de 10 a 28 casos por 100.000 pessoas. Ocorrem em torno de 28.000 HSAa/ano nos EUA. Diferente dos outros tipos de AVE, a HSA não diminuiu sua incidência nos últimos anos. A incidência aumenta com a idade (pico com 55 a 60 anos) e é mais freqüente nas mulheres. A morbi-mortalidade da HSAa permanece muito elevada.
Aproximadamente 10% a 15% dos pacientes morrem antes de qualquer atendimento médico. A mortalidade total varia de 40% a 50% após 30 dias da hemorragia. Dos pacientes que sobrevivem, até 50% permanece com seqüelas graves.
C. Fatores de risco
Os principais fatores de risco para ruptura de aneurismas cerebrais são os seguintes:
D. Aneurisma não roto
Nos aneurismas não rotos estão incluídos os aneurismas que são diagnosticados acidentalmente (assintomáticos) e os aneurimas que produzem outros sintomas que não da hemorragia (compressão do terceiro nervo com dilatação pupilar). O risco anual de HSA por um aneurisma não roto é estimado em torno de 1% a 2%. O tamanho do aneurisma é um fator de risco para futura ruptura. Os aneurismas com menos de 3 mm de diâmetro têm baixo risco de sangramento, enquanto que os com mais de 10 mm têm alto risco de romper. A maioria dos aneurismas rotos tem de 5 a 7 mm de diâmetro. Em pacientes com aceitável risco cirúrgico, a clipagem de aneurismas não rotos, com mais de 5 a 7 mm de diâmetro, é recomendada.
em mais de 92% dos casos. A sensibilidade da TCC diminui depois dos primeiros dias. Este exame pode evidenciar as seguintes alterações:
Tabela 2. Escala de Fisher
Grupo Fisher Sangue na TCC
1 Nenhum sangue subaracnóide detectado
2 Sangramento difuso ou sangue no espaço subaracnóide com < 1 mm de espessura 3 Coágulo ou sangue no espaço subaracnóide com > 1 mm de espessura
4 Coágulo intraventricular ou intraparenquimatoso com ou sem HSA difusa
exame para detectar sangue subaracnóide na fase aguda da HSA. A sensibilidade da RNM é máxima com 10 a 20 dias após o sangramento, sendo assim será excelente no diagnóstico tardio da HSA.
F. Tratamento
A abordagem clínica dos pacientes com HSA será de acordo com as condições neurológicas no momento da internação. Os principais objetivos são otimizar a oferta de oxigênio para o tecido cerebral e prevenir o ressangramento e o vasoespasmo cerebrais.
1. Oferta de oxigênio cerebral : esta depende primariamente do fluxo sangüíneo cerebral (FSC) e do conteúdo arterial de oxigênio.
1a. Fluxo sangüíneo cerebral : a manutenção de um ótimo FSC depende diretamente de uma adequada pressão de perfusão cerebral (PPC). A PPC é a
2. Ressangramento : a incidência de ressangramento é de 15% a 20% nos primeiros 14 dias pós HSA (4% no 1º dia e 1,5% nos próximos 13 dias). Aproximadamente 50% dos casos ressangram em 6 meses. Dos que ressangram, mais de 50% evoluem ao óbito. A mais freqüente causa de morte nos pacientes com H-H I e II é o ressangramento. Os pacientes com H-H > III tem maior risco de ressangramento. O ressangramento deve ser suspeitado nos pacientes que apresentam uma piora neurológica súbita e não têm o aneurisma clipado. O diagnóstico é confirmado com a TC cerebral. As principais medidas para prevenir o ressangramento são:
2a. Repouso no leito e controle da hipertensão arterial: Estas são pouco efetivas na prevenção do ressangramento. No entanto, ambas devem ser adicionadas às demais medidas do protocolo de prevenção do ressangramento.
2b. Terapia antifibrinolítica : reduz o risco de ressangramento. Esta terapia é associada a alto risco de isquemia cerebral, sendo assim não resulta em nenhum benefício na evolução do pacientes com sangramento por ruptura de aneurisma. Não é indicada.
2c. Cirurgia precoce do aneurisma cerebral : previne o ressangramento. É principalmente recomendada para os pacientes com H-H F 0A 3 III e aneurismas não complicados.
2d. Procedimento endovascular: a colocação do coil por via endovascular tem se mostrado uma ferramenta efetiva na prevenção do ressangramento. A decisão entre cirurgia e o procedimento endovascular deve se basear na disponibilidade de operadores hábeis, nas condições do paciente e na configuração do aneurisma. Não esquecendo que a eficácia a longo prazo do procedimento endovascular ainda não foi demonstrada.
3. Vasoespasmo cerebral: é o estreitamento arterial difuso ou localizado secundário a HSA.
3a. Epidemiologia: o vasoespasmo constitui a maior complicação da HSA. Ocorre em 70% de todos os pacientes com HSA e determina isquemia cerebral sintomática ou infarto em 36% destes. O vasoespasmo cerebral é a maior causa de morbi-mortalidade dos pacientes que sobrevivem ao sangramento inicial. O vasoespasmo correlaciona-se a um aumento de 1,5 a 3 vezes da mortalidade nas duas primeiras semanas após a HSA.
3b. Patogênese: o vasoespasmo cerebral é claramente relacionado à presença de sangue no espaço subaracnóide. Estudos indicam a oxi-hemoglobina como o fator precipitante da contração da parede arterial. Fisiopatologicamente ocorre prolongada contração da musculatura lisa, que decorre ou de um efeito direto na fibra muscular ou por mecanismos indiretos como a liberação de substâncias vasoativas da parede arterial ou a produção de radicais livres. A produção de radicais livres inativa o óxido nitrico e ativa a peroxidase lipidica. A contração prolongada da musculatura lisa arterial pode levar a alterações morfológicas, como hiperplasia da íntima ou fibrose subendotelial da parede do vaso. Vários outros mecanismos podem estar associados.
3c. Apresentação Clínica : o vasoespasmo tem início no 3º dia e suas manifestações clinicas podem ser detectadas até 3 semanas após o sangramento. O pico de incidência do vasoespasmo é entre o 4º e o 12º dia depois do sangramento. Neste período é que surgem os déficits neurológicos isquêmicos. Os sintomas desenvolvem-se gradualmente e incluem piora da cefaléia, meningismo, letargia, desorientação, redução do nível de consciência e déficit neurológico focal. Os principais fatores de risco para o vasoespasmo são o grau clínico do paciente (escala de H-H), extensão do sangue na TCC (escala de Fisher) e hipovolemia. O grau na escala de H-H nos sugere qual é o risco do paciente desenvolver
velocidade do fluxo em segmentos proximais nas artérias carótida interna, cerebral média, cerebral anterior, cerebral posterior, vertebral e na basilar, o qual provavelmente é causado por redução da luz do vaso. A velocidade de fluxo de 120 cm/s é associada a um vasoespasmo arteriográfico leve a moderado e a velocidade de fluxo acima de 200 cm/s indica um vasoespasmo severo. No entanto, alguns pacientes podem permanecer assintomáticos mesmo com velocidades acima de 200 cm/s. Este aumento de velocidade pode ser decorrente da terapia hipertensiva/ hipervolemica. Algumas limitações desta técnica incluem a incapacidade de detectar o vasoespasmo na porção distal das artérias e ausência de uma janela transcraniana adequada em até 10% dos pacientes. Pode-se ter aumento da especificidade do DTC realizando o índice de Lindegaard (relação entre a velocidade da artéria cerebral média e a velocidade da carótida interna cervical), com o exame de modo seqüencial e com um examinador experiente.
3e. Prevenção e Tratamento do Vasoespasmo:
Hipervolemia/ Hemodiluição/ Hipertensão (terapia 3H): Esta terapia combinada representa o centro do tratamento da isquemia cerebral frente a uma perfusão cerebral reduzida decorrente do estreitamento vascular (vasoespasmo). A expansão de volume determina aumento do débito cardíaco e este, aumenta o fluxo sangüíneo cerebral nas regiões isquêmicas A capacidade de transporte de oxgênio é constante para hematócritos entre 30% e 40%. A hemodiluição reduz a viscosidade do sangue o que favorece o fluxo da microcirculação. Apesar da terapia hipervolemica, 34% dos pacientes desenvolvem vasoespasmo sintomático e necessitam de terapia hiperdinâmica (vasopressores, inotrópicos). As principais complicações desta terapia são as seguintes: edema pulmonar (17%), infarto miocárdico (2%), hiponatremia, perda da capacidade de concentração da medula renal, complicações do cateter (sepse, trombose subclávia, hemotórax, pneumotórax), ruptura do aneurisma não clipado, infarto hemorrágico e edema cerebral. O aumento de fluxo para as áreas com a barreira hemato-encefálica lesada pode provocar piora do edema cerebral e aumento da pressão
intracraniana. A conclusão do Stroke Council da American Heart Association sobre este tratamento é que: apesar da ausência de grandes trabalhos randomizados, os dados de pequenas séries sugerem que esta terapia dos “3 H” pode reduzir a morbi-mortalidade dos pacientes com HSA e o vasoespasmo clínico.
Prevenir o vasoespasmo clínico: evitar o balanço hídrico negativo (cristalóides), induzir uma moderada hemodiluição e manter a PAM de 10 a 20 mmHg acima do valor basal.
Tratamento do vasoespasmo clínico: A indução de mais marcada hipertensão (vasopressores, inotrópicos) é reservada para os pacientes que apresentam sinais e sintomas de isquemia cerebral. As drogas utilizadas para atingir os objetivos hemodinâmicos são a dopamina, noradrenalina e a dobutamina. Estas medidas são mantidas durante o período de risco do vasoespasmo ou até reversão dos sinais clínicos e do DTC de vasoespasmo.
A hidrocefalia crônica (> 1 mês) ocorre em 23% a 60% dos pacientes após a HSA. Muitos deles são assintomáticos. A derivação do líquido cerebroespinhal é recomendada somente nos pacientes sintomáticos.
4b. Hiponatremia: sua incidência na HSA é de 10% a 34%. Usualmente desenvolve-se vários dias após a HSA e coincide com o período de vasoespasmo. A hiponatremia é mais comum nos pacientes com H-H > III e hidrocefalia. É um fator independente de pior prognóstico. As prováveis causas são: SIHAD (secreção inapropriada de hormônio antidiurético), síndrome cerebral perdedora de sal e hipovolemia. A síndrome cerebral perdedora de sal é a causa mais freqüente. Ocorre natriurese que determina hipovolemia e hiponatremia. O tratamento da hiponatremia consiste da reposição volêmica com solução cristalóide isotônica e em algumas situações de natriurese severa é necessário o uso de solução hipertônica 3% (evitar correção rápida do sódio sérico). Está contra-indicado o uso de restrição hídrica para correção da hiponatremia.
4c. Convulsões: a sua incidência na HSA é de mais de 25%. As convulsões aumentam o risco de ressangrmento. Sendo assim, os anticonvulsivantes profiláticos são indicados no período após hemorragia imediata. A profilaxia é realizada com o hidantal. O uso prolongado dos anticonvulsivantes não é recomendado nos pacientes que não apresentaram convulsão. Deve ser considerado somente naqueles com os seguintes fatores de risco: hematomas, infarto cerebral, convulsão prévia ou aneurisma de artéria cerebral média.
Suspeita clínica de HSA
ABC TCC
Terapia 3 H Prevenção PVC > 12 / PCP > 15 Euvolemia/Hipervolemia leve PAM > 130 mmHg PAM > 10 – 20 mmHg basal Drogas Vasopressoras Hemodiluição Hemodiluição
Pontos Principais
Aneurisma cerebral; Escala de Hunt-Hess; Ressangramento; Vasoespasmo cerebral; Nimodipina; Terapia hipertensiva do vasoespasmo; Complicações da hemorragia subaracnóide;
Sugestões de Leitura
Prevention of Vasoespasm after Aneurysmal Subarachnoid hemorrhage: A Problem of Neurointensive Care. Neurosurgery 2001; 48: 249-