Docsity
Docsity

Prepare-se para as provas
Prepare-se para as provas

Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity


Ganhe pontos para baixar
Ganhe pontos para baixar

Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium


Guias e Dicas
Guias e Dicas


1929 e 2008 Crise, Notas de estudo de Química Industrial

Comparação entre as crises de 1929 e de 2008.

Tipologia: Notas de estudo

2016

Compartilhado em 18/03/2016

alexandre-silva-dsq
alexandre-silva-dsq 🇧🇷

5

(4)

7 documentos

1 / 10

Toggle sidebar

Esta página não é visível na pré-visualização

Não perca as partes importantes!

bg1
A crise em perspectivA: 1929 e 2008
Fr e d e r i c o Ma z z u c c h e l l i 1
RESUMO
No contexto de elevad a i ncerteza decorrente da crise
econômica mundial, é inevitável que surjam comparações entre o momento atual e a experiência dramática da Grande
Depressão, que subverteu o mundo entre 1929 e 1933. Mas, apesar das perdas financeiras e da desaceleração da econo-
mia, a disposição para a intervenção estatal é hoje um elemento determinante que diferencia nitidamente as iniciativas
da política econômica. Este é um fator decisivo que projeta um futuro menos sombrio para a evolução da crise atual.
PALAVRAS-CHAVE: crise econômica; crise de 1929; intervenção do
Estado; capitalismo.
SUMMaRy
In the current context of high uncertainty, many parallels
have been traced between the economic crisis of 2008 and the Great Depression, that stirred the world between 1929
e 1933. However, despite the financial losses that recently occurred, the disposition for state intervention in our days is
much higher and thus an important element in the formulation of economic policies. This is a difference that suggests
a less catastrophic outcome to the current crisis.
KEYWORDS: economic crisis; crisis of 1929; state intervention; capitalism.
NOVOS ESTUDOS  82 ❙❙ NOVEMBRO 2008     57
NOVOS ESTUDOS  82 ❙❙ NOVEMBRO 2008      57
[1] SouespecialmentegratoaMar-
cosAntonioMacedoCintrapelaini-
ciativaem publicar estaspáginas,
inicialmentedestinadasameusalu-
nos.Coubea Marcosa concepção e
confecçãodastabelas, acuidadosa
elaboraçãodasreferênciasbibliográ-
ficas,bemcomoasprecisasedetalha-
dasinformaçõessobre astransfor-
maçõesrecentesdosistemafinancei-
romundial,aextensãodacriseatuale
asreaçõesdosgovernos.Apenassua
exageradamodéstiaimpediuqueeste
artigofosseassinadoemco-autoria.
A profundidade da crise que assola parte significa-
tiva do sistema financeiro mundial provocará, certamente, impactos
sobre a evolução dos agregados econômicos reais (produção, inves-
timento, emprego etc.). Já se torna evidente que a economia mundial
ingressou em uma fase de desaceleração ou recessão, cujo desfecho é
ainda desconhecido. Segundo as projeções do Fundo Monetário
Internacional (FMI), a economia mundial deverá desacelerar do
patamar de 5% ao ano, entre 2006 e 2007, para 2,2% em 2009 (ver
Tabela 1). Nesse último ano, as economias avançadas deverão apre-
sentar queda no Produto Interno Bruto (PIB) de 0,3%. A média da
taxa de crescimento dos países em desenvolvimento cairá de 8%, em
2007, para 5,1%. O dinamismo do comércio internacional também
aponta para um acentuado arrefecimento, caindo de 7,2%, em 2007,
para 2,1%, em 2009. É inevitável, neste contexto de elevada incerte-
za, que surjam comparações entre o momento atual e a experiência
dramática da Grande Depressão, que subverteu o mundo, sobretudo
entre 1929 e 1933.
pf3
pf4
pf5
pf8
pf9
pfa

Pré-visualização parcial do texto

Baixe 1929 e 2008 Crise e outras Notas de estudo em PDF para Química Industrial, somente na Docsity!

A crise em perspectivA: 1929 e 2008

Frederico M azzucchelli^1

RESUMO

No contexto de elevada incerteza decorrente da crise

econômica mundial, é inevitável que surjam comparações entre o momento atual e a experiência dramática da Grande

Depressão, que subverteu o mundo entre 1929 e 1933. Mas, apesar das perdas financeiras e da desaceleração da econo-

mia, a disposição para a intervenção estatal é hoje um elemento determinante que diferencia nitidamente as iniciativas

da política econômica. Este é um fator decisivo que projeta um futuro menos sombrio para a evolução da crise atual.

PALAVRAS-CHAVE: crise econômica; crise de 1929; intervenção do

Estado; capitalismo.

SUMMaRy

In the current context of high uncertainty, many parallels

have been traced between the economic crisis of 2008 and the Great Depression, that stirred the world between 1929

e 1933. However, despite the financial losses that recently occurred, the disposition for state intervention in our days is

much higher and thus an important element in the formulation of economic policies. This is a difference that suggests

a less catastrophic outcome to the current crisis.

KEYWORDS: economic crisis; crisis of 1929; state intervention; capitalism.

NOVOS ESTUDOSNOVOS ESTUDOS 8282 ❙❙❙❙ NOVEMBRONOVEMBRO 20082008 5757

[1] Sou especialmente grato a Mar- cos Antonio Macedo Cintra pela ini- ciativa em publicar estas páginas, inicialmente destinadas a meus alu- nos. Coube a Marcos a concepção e confecção das tabelas, a cuidadosa elaboração das referências bibliográ- ficas, bem como as precisas e detalha- das informações sobre as transfor- mações recentes do sistema financei- ro mundial, a extensão da crise atual e as reações dos governos. Apenas sua exagerada modéstia impediu que este artigo fosse assinado em co-autoria.

A profundidade da crise que assola parte significa-

tiva do sistema financeiro mundial provocará, certamente, impactos

sobre a evolução dos agregados econômicos reais (produção, inves-

timento, emprego etc.). Já se torna evidente que a economia mundial

ingressou em uma fase de desaceleração ou recessão, cujo desfecho é

ainda desconhecido. Segundo as projeções do Fundo Monetário

Internacional (FMI), a economia mundial deverá desacelerar do

patamar de 5% ao ano, entre 2006 e 2007, para 2,2% em 2009 (ver

Tabela 1). Nesse último ano, as economias avançadas deverão apre-

sentar queda no Produto Interno Bruto (PIB) de 0,3%. A média da

taxa de crescimento dos países em desenvolvimento cairá de 8%, em

2007, para 5,1%. O dinamismo do comércio internacional também

aponta para um acentuado arrefecimento, caindo de 7,2%, em 2007,

para 2,1%, em 2009. É inevitável, neste contexto de elevada incerte-

za, que surjam comparações entre o momento atual e a experiência

dramática da Grande Depressão, que subverteu o mundo, sobretudo

entre 1929 e 1933.

58

Seguramente, o peso da riqueza financeira em relação ao produto,

a sofisticação (e opacidade) das operações financeiras e a interliga-

ção entre os vários segmentos dos mercados em escala global são hoje

infinitamente maiores do que no final da década de 1920. A dimen-

são recente alcançada pela riqueza financeira (US$ 229,7 trilhões em

dezembro de 2007, mais de quatro vezes superior ao PIB mundial —

ver Tabela 2) e a escala real ou nocional das perdas incorridas sugerem

que estamos diante de um processo monumental de desvalorização de

ativos, muitas vezes superior ao que se assistiu há quase oitenta anos.

De acordo com a Federação Mundial das Bolsas de Valores, a desva-

lorização da riqueza acionária global somou US$ 29,5 trilhões entre

outubro de 2007 e outubro de 2008. Segundo o Banco da Inglaterra,

os bancos ingleses registraram perdas com marcação a mercado da

ordem de £ 10 bilhões ao mês, entre maio e outubro de 2008, soman-

do £ 122,6 bilhões. Nos Estados Unidos, Reino Unido e área do euro,

as perdas com marcação a mercado sobre ativos financeiros por ban-

cos podem atingir US$ 2,8 trilhões. A conclusão que daí poderia advir

é que o curso dos acontecimentos será, em conseqüência, mais dramá-

tico e doloroso do que em 1929-1933.

A CRiSE EM PERSPECTiVA: 1929-2008 ❙❙ Frederico Mazzucchelli

TabEla 1 indicadores selecionados — Variação anual — em %

Fonte: FMI, World Economic Outlook Update , Washington, D.C., November 6, 2008. Notas: (a) Projeções.

2003 2004 2005 2006 2007 2008(a) 2009(a)

Produto Interno Bruto Real

Mundo

Economias avançadas

Estados Unidos

Área do Euro

Alemanha

Japão

Reino Unido

Volume do comércio mundial

(bens e servições) 5,4 10,4 7,5 9,4 7,2 4,6 2,

Países emergentes e

em desenvolvimento

África

Europa Central e do Leste

Comunidade de Estados

Independentes

Ásia em Desenvolvimento

Oriente Médio

América Latina

Brasil

[5] Mazzucchelli, Frederico. Os anos de chumbo: notas sobre a econo- mia e a política internacional no entre- guerras. Campinas: Editora Facamp, 2008 (no prelo).

[6] Krugman, Paul. “Não é hora de pensar no déficit”. Folha de S.Paulo , 18/10/2008 (originalmente publica- do no New York Times ).

60

setembro de 1936 e, da mesma forma, insistiu na tentativa vã de

impor a deflação como remédio para a depressão. Mesmo após a

desvalorização da libra em setembro de 1931, a Inglaterra, apesar

de praticar uma política de cheap money , permaneceu circunscrita

a uma política fiscal conservadora. Nem mesmo Roosevelt conse-

guiu se desvencilhar do dogma dos orçamentos equilibrados: em

1937, sua tentativa de “sanear” as finanças públicas redundou na

“recessão na depressão” de 1938. Unicamente Hitler, desde 1933,

praticou uma política deliberada de expansão dos gastos públi-

cos. O outrora austero Hjalmar Schacht, que entre 1923 e 1930 foi

o zeloso guardião da moeda alemã, garantiu sua recondução ao

posto em 1933 apenas mediante o compromisso explícito, assumi-

do com o Führer, de envolver diretamente o Reichbank no finan-

ciamento dos gastos do governo^5.

A verdade, assim, é que com a exceção do experimento nazista,

todos — à direita e à esquerda — professavam sua crença mítica nas

virtudes das sound finances. Seria impensável, em 1930 ou 1931, que um

economista escrevesse, poucos dias após ser laureado com o Prêmio

Nobel, que em face da extensão da crise “ não é hora de pensar no déficit”

(Paul Krugman)^6. Ao contrário da experiência traumática da Grande

A CRiSE EM PERSPECTiVA: 1929-2008 ❙❙ Frederico Mazzucchelli

Fonte: World Federation of Exchanges; Bank of International Settlements; IMF, International Financial Statistics (IFS), World Economic Outlook databases as of September 25, 2008; 2003 Bureau van Dijk Electronic Publishing-Bankscope; Standard & Poor’s Emerging Markets Database. Notas: (a) Exclui reservas em ouro; (b) Inclui bônus emitidos por governos, instituições financeiras e corporações no mercado financeiro internacional; (c) Soma da capitalização do mercado acionário, dívidas securitizadas e ativos dos bancos comerciais.

TabEla 2 indicadores selecionados do tamanho dos mercados de capitais, 2007

Mundo

União Européia

Reino Unido

Área do Euro

Alemanha

França

Estados Unidos

Japão

Economias Emergentes

Ásia

América Latina

Europa

PiB Pública Privada

Dívidas (b) Ativos Bancos Total (^) Comerciais Total (c)

Total em %

Total em % do PiB

Reservas (a)

Capitali- zação do mercado acionário

[7] Para uma excelente descrição das operações especulativas durante os anos 1920, ver Galbraith, John K. 1929 : o colapso da Bolsa (São Paulo: Pioneira, 1988 [1954]). Para as inova- ções financeiras recentes, ver, entre outros, Guttmann, Robert e Plihon, Dominique. Consumer debt at the cen- ter of finance-led capitalism (Paris, jan. 2008 [mimeo]); Kregel, Jan. “Minsky’s cushions of safety: Systemic risk and the crisis in the U.S. subprime mortgage market” ( Public Policy Brief , n-º 93, The Levy Economics Institute of Bard College, jan. 2008. Disponível em <http:// www.levy.org/pubs/ppb–93.pdf>, acessado em 23/11/2008); Freitas, M. Cristina P. de e Cintra, Marcos Antonio M. “Inflação e deflação de ativos a partir do mercado imobiliário americano” ( Revista de Economia Política , v. 28, n-º 3 (111), São Paulo, Edi tora 34, jul.-set. 2008 [Disponível em <www.rep.org.br>, acessado em 24/11/2008]).

[8] A aprovação do Gramm-Leach- Bliley Financial Modernization Act (1999) consolidou a expansão dos grandes bancos para as atividades típicas de bancos de investimento (negociação de securities ), adminis- tração de ativos e operação no merca- do de seguros mediante a formação de uma holding financeira ( financial hold- ing companies ), consolidando os cha- mados financial supermarkets (“super- mercados de serviços financeiros”). Ver, entre outros, Braga, José Carlos S. e Cintra, M. A. M. “Finanças dolariza- das e capital financeiro: exasperação sob comando americano” (In: Fiori, José L. (org.). O poder americano. Petrópolis: Vozes, 2004, pp.253-307); Cintra, M. A. M. e Cagnin, Rafael F. “Evolução da estrutura e da dinâmica das finanças norte-americanas” ( Econômica , v. 9, n-º 2. Niterói: UFF, dez. 2007, pp.89-131).

[9] Não se deve esquecer o que Schumpeter denominou como o “remédio caseiro” dos republicanos às crises: a elevação das tarifas, propa- gando a crise em âmbito mundial. Em junho de 1930 foi promulgada a Smoot-Hawley Tariff , que elevou as tarifas sobre os produtos importados para cerca de 45%, nível mais elevado de proteção observado desde 1833. Ver Walton, G. M. e Rockoff, H., His- tory of the American economy. Cincin- nati, Ohio: South-Western Thomson Learning, 2002, p. 224.

NOVOS ESTUDOS 82 ❙❙ NOVEMBRO 2008 61

Depressão, a disposição para a intervenção estatal é hoje, portanto,

um elemento determinante que diferencia nitidamente as iniciativas

da política econômica. Este é um fator decisivo que projeta um futuro

menos sombrio para a evolução da crise atual.

Existe, de outra parte, uma clara semelhança em relação à ori-

gem dos distúrbios que resultaram na Grande Depressão e os que

estão por detrás da presente convulsão. Em ambos os casos a débâcle

foi precedida pela fragilidade da regulação e pelo relaxamento na

percepção dos riscos, o que redundou em uma febre especulativa

de conseqüências desastrosas. A inevitável proliferação de ope-

rações financeiras de lastro duvidoso, alavancadas pela expansão

desmesurada do crédito, é um traço comum dos dois momentos

históricos^7. No final da década de 1920 e início da de 1930, era

ainda limitado o grau de regulação e controle exercido pelas autori-

dades monetárias sobre o conjunto dos sistemas financeiros. Nos

Estados Unidos — o epicentro do terremoto de 1929-1933 — era

destacada a proliferação de bancos de pequeno e médio porte, mui-

tos deles fora da área de supervisão do Federal Reserve. Ao mesmo

tempo, a inexistência de um “muro de contenção” entre os bancos

comerciais e os bancos de investimento permitiu que os primei-

ros se envolvessem em operações de alto risco, comprometendo

de modo temerário os recursos dos depositantes (fenômeno que

voltaria a se repetir em 2007-2008)^8.

As respostas iniciais à crise de 1929 (ao contrário das interven-

ções atuais) foram completamente insuficientes e desastradas: as

ações de lender of last resort , do mesmo modo que as iniciativas no

plano fiscal, eram incompatíveis com os mandamentos sagrados do

padrão-ouro. O resultado foi a propagação das quebras, a contra-

ção da produção e a explosão do desemprego^9. O PIB nominal nos

Estados Unidos caiu de US$ 103,7 bilhões em 1929 para US$ 56,

bilhões em 1932, recuperando-se para US$ 101,3 bilhões apenas em

1939 (ver Tabela 3). Entre 1930 e 1933 os Estados Unidos assistiram

a três ondas de liquidação bancária que vitimaram nada menos que

11 mil bancos. Na Alemanha, a quebra do gigante Danat em julho

de 1931, perante a impotência da intervenção do Reichbank, foi um

ponto de inflexão decisivo no aprofundamento do desespero eco-

nômico que terminou por conduzir os nazistas ao poder. No início

de 1933, havia na Alemanha 6 milhões de desempregados formais e

cerca de 3 milhões de desempregados ocultos.

Tanto nos Estados Unidos como na Alemanha a superação dos

desdobramentos mais profundos da crise passou pela imposição de

critérios de regulação mais rígidos sobre o sistema financeiro. Se

Roosevelt, empossado em março de 1933, alcançou um sucesso ine-

gável em quebrar a espiral contracionista foi porque, desde o início,

[10] Mazzucchelli, op. cit.

[11] Ver Schacht, Hjalmar. Setenta e seis anos de minha vida. São Paulo: Edi- tora 34, 1999, pp.367-455.

NOVOS ESTUDOS 82 ❙❙ NOVEMBRO 2008 63

promoveu o saneamento do setor bancário e estabeleceu, na seqüên-

cia, as bases da regulamentação do sistema financeiro por meio de

um conjunto de dispositivos legais criados entre 1933 e 1934 (Glass-

Steagall Act II, Federal Deposit Insurance Corporation, Securities

Exchange Act e Federal Savings and Loan Insurance Corporation).

Além disso, o Emergency Banking Act de 9 de março de 1933 havia

proibido a exportação de ouro e a Thomas Amendment de 19 de abril

autorizara a flutuação do valor do dólar em relação ao ouro e, con-

seqüentemente, do dólar em relação às demais moedas. Os Estados

Unidos abandonaram o padrão-ouro e o dólar entrou em uma pro-

gressiva trajetória de queda. A expectativa era de que, mesmo não

sendo um instrumento suficiente para deslanchar a recuperação, a

política monetária não deveria ser descartada enquanto ferramen-

ta na luta pela reinflação. Com os juros libertos da “escravidão do

câmbio fixo”, a expansão do crédito bancário poderia irrigar a eco-

nomia e estimular a alta dos preços. Com a desvalorização, os cons-

trangimentos do câmbio fixo desapareceriam. A inflação tornara-

se bem-vinda e a política monetária estava doravante autorizada a

assumir um perfil declaradamente expansivo^10. Hitler e Schacht, de

sua parte, converteram o sistema financeiro alemão em um braço

operacional do Reichbank. O nazismo, ademais, impôs o contro-

le absoluto sobre as transações em moeda estrangeira^11. Nos dois

casos, a disciplina sobre as finanças privadas foi essencial para que

as economias se levantassem dos escombros da depressão.

PiB Real 1932=

Produção industrial 1932=

Formação privada bruta de capital fixo (US$ bilhões)

Consumo pessoal (US$ bilhões)

PiB nominal (US$ bilhões)

Fonte: Mazzucchelli, op. cit.

TabEla 3 Estados Unidos: indicadores econômicos selecionados (1929-1941)

64

[12] Ver Belluzzo, Luiz Gonzaga M. “O declínio de Bretton Woods e a emergência dos mercados ‘globaliza- dos’”. Revista Economia e Sociedade , n-º

  1. Campinas: IE/Unicamp, 1995, pp. 11-20; Chesnais, François. “Introdu- ção geral”. In: Chesnais, F. (org.). A mundialização financeira: gênese, custos e riscos. São Paulo: Xamã Editora, 1998, pp. 11-33.

[13] Em 8 de outubro, seis bancos centrais das principais economias avançadas — Estados Unidos, Cana- dá, área do euro, Reino Unido, Suécia e Suíça — realizaram uma ação coor- denada de redução de 0,5 ponto per- centual nas taxas de juros básicas.

[14] Contou com os membros do G (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Cana- dá) mais um grupo de nações emer- gentes que inclui Arábia Saudita, África do Sul, Argentina, Austrália, Brasil, China, Coréia do Sul, Índia, Indonésia, México, Rússia, Turquia, além dos representantes da União Européia e da Espanha.

Da mesma forma, a superação da crise contemporânea deverá con-

templar a implantação de um novo marco de regulação para o siste-

ma financeiro. Como se sabe, foi nos anos 1970 e 1980 que o aparato

regulatório da Golden Age (a chamada “repressão financeira”) foi des-

montado, em nome da imaginada eficiência das “finanças comanda-

das pelo mercado”^12. Hoje, diante do descalabro e descontrole das ope-

rações financeiras que redundaram na atual crise, não há mais quem

negue a necessidade imperiosa de reintroduzir padrões mais rígidos

e rigorosos que disciplinem o funcionamento do sistema financeiro

em âmbito nacional e internacional. Em particular, a regulamenta-

ção sobre o shadow financial system (bancos de investimento, fundos

de investimento, hedge funds , seguradoras) — e a redefinição de suas

relações com os bancos comerciais — é essencial para assegurar uma

estabilidade mínima às economias capitalistas. A consciência de que

é fundamental retomar a regulação sobre o mundo das finanças priva-

das é, assim — paralelamente à pronta decisão de utilizar os recursos

públicos para mitigar a propagação da crise —, um fator essencial. É

claro que a imposição de um novo marco regulatório para as finanças

privadas não se dará em um piscar de olhos. Mas a percepção de sua

urgência, ao mesmo tempo em que o Estado atua diretamente e sem

ressalvas sobre a solvência do sistema financeiro, permite antever —

passada a tormenta — um funcionamento menos turbulento e tem-

pestuoso para o mundo das finanças.

É necessário, ademais, atentar para um dado importante. No iní-

cio dos anos 1930 a coordenação internacional tornara-se uma qui-

mera. Era absolutamente impossível compatibilizar as ações do New

Deal com as propostas nazistas, e ambas com o grupo do ouro lidera-

do pela França ou com a área da libra comandada pela Inglaterra. Na

década de 1930 a ordem internacional se estilhaçou e se formaram

blocos de nações, com os países se envolvendo em ações essencial-

mente defensivas, o que redundou na escalada do protecionismo, nas

desvalorizações competitivas e na busca de soluções autárquicas. A

ausência de coordenação supranacional foi uma característica mar-

cante dos anos 1930. Ela ensejou a tentativa de saídas particularis-

tas para a crise, acirrou as rivalidades nacionais e deu livre curso às

alternativas autoritárias. Felizmente, não é este o quadro que hoje

se apresenta. Mesmo diante das naturais dificuldades em se alcan-

çar soluções consensuais, existe um interesse comum entre os Estados

Unidos, a União Européia, o Japão e a China em evitar a propaga-

ção da crise. Hoje, a ação coordenada (manifestada, por exemplo, na

redução conjunta da taxa de juros)^13 tende a ser mais plausível — e

factível — que as soluções particulares e isoladas ( beggar thy neighbor )

típicas dos anos 1930. No mesmo sentido, podem ser apreendidas as

decisões encaminhadas no primeiro encontro dos países do G20^14

A CRiSE EM PERSPECTiVA: 1929-2008 ❙❙ Frederico Mazzucchelli

[16] Os dados sobre o desempenho econômico dos Estados Unidos, área do euro, Reino Unido e Japão no ter- ceiro trimestre de 2008 já mostraram uma queda acentuada nos níveis de produção, de investimento, de comér- cio exterior e de emprego.

[17] Mandeville, Bernard. Fable of bees, or private vices, public benefits. 2 vols. Indianapolis: Liberty Fund, Ed. Liberty Classics, 1988 [1705]. Ver, tam- bém, Dumont, Louis. Homo aequalis: gênese e plenitude da ideologia econômi- ca. Bauru: EDUSC, 2000, cap. 5.

66

As considerações anteriores indicam que não é previsível para a

crise atual um desdobramento semelhante ao da Grande Depressão.

Nada autoriza, contudo, uma perspectiva candidamente otimista. A

extensão dos estragos é ainda desconhecida e o impacto sobre o setor

produtivo seguramente será profundo^16. Apenas a decidida interven-

ção do Estado tem evitado um descalabro de maiores proporções. A

necessidade de retomar a regulamentação sobre o sistema financeiro

é reconhecida, mas sua implementação certamente será precedida por

desacordos substanciais e demandará tempo para ser efetivada. Da

mesma forma, apesar de o ambiente internacional favorecer a busca

de soluções cooperadas, não se deve imaginar que elas sejam simples e

isentas de contradições, em particular no que diz respeito ao papel dos

Estados Unidos e do dólar no contexto mundial.

A crise atual representa, na verdade, uma derrota fragorosa do libe-

ralismo irrefletido que contaminou os espíritos nos últimos trinta

anos. A fé cega na capacidade de regulação dos mercados é um dogma

que acompanha o capitalismo desde o seu nascimento. Desde a Fábula

das abelhas , de Mandeville (“ vícios privados, virtudes públicas ”)^17 , até os

modelos de expectativas racionais de última geração, o suposto é sem-

pre o mesmo: os mercados possuem uma racionalidade imanente que

garante o funcionamento ótimo da economia. O ambiente dos anos

1920, sobretudo nos Estados Unidos, estava carregado desta convic-

ção. Esta mesma convicção inundou a política, a academia e o mundo

dos negócios a partir da guinada conservadora de Margaret Thatcher

e Ronald Reagan. Os roaring twenties nos Estados Unidos culminaram

com a Grande Depressão, e a euforia das finanças desregulamentadas

culminou no desastre atual. A grande lição que resta destes dois epi-

sódios dramáticos é que, definitivamente, o capitalismo não pode ser

deixado à mercê dos capitalistas...

FredericoMazzucchelli é professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual

de Campinas.

A CRiSE EM PERSPECTiVA: 1929-2008 ❙❙ FredericoMazzucchelli

Recebido para publi ca ção em 20 de novembro de 2008. NOvOs estUDOs CEBRAP 82, novembro 2008 pp. 57-