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A crise em perspectivA: 1929 e 2008
Frederico M azzucchelli^1
RESUMO
No contexto de elevada incerteza decorrente da crise
econômica mundial, é inevitável que surjam comparações entre o momento atual e a experiência dramática da Grande
Depressão, que subverteu o mundo entre 1929 e 1933. Mas, apesar das perdas financeiras e da desaceleração da econo-
mia, a disposição para a intervenção estatal é hoje um elemento determinante que diferencia nitidamente as iniciativas
da política econômica. Este é um fator decisivo que projeta um futuro menos sombrio para a evolução da crise atual.
PALAVRAS-CHAVE: crise econômica; crise de 1929; intervenção do
Estado; capitalismo.
SUMMaRy
In the current context of high uncertainty, many parallels
have been traced between the economic crisis of 2008 and the Great Depression, that stirred the world between 1929
e 1933. However, despite the financial losses that recently occurred, the disposition for state intervention in our days is
much higher and thus an important element in the formulation of economic policies. This is a difference that suggests
a less catastrophic outcome to the current crisis.
KEYWORDS: economic crisis; crisis of 1929; state intervention; capitalism.
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[1] Sou especialmente grato a Mar- cos Antonio Macedo Cintra pela ini- ciativa em publicar estas páginas, inicialmente destinadas a meus alu- nos. Coube a Marcos a concepção e confecção das tabelas, a cuidadosa elaboração das referências bibliográ- ficas, bem como as precisas e detalha- das informações sobre as transfor- mações recentes do sistema financei- ro mundial, a extensão da crise atual e as reações dos governos. Apenas sua exagerada modéstia impediu que este artigo fosse assinado em co-autoria.
A profundidade da crise que assola parte significa-
tiva do sistema financeiro mundial provocará, certamente, impactos
sobre a evolução dos agregados econômicos reais (produção, inves-
timento, emprego etc.). Já se torna evidente que a economia mundial
ingressou em uma fase de desaceleração ou recessão, cujo desfecho é
ainda desconhecido. Segundo as projeções do Fundo Monetário
Internacional (FMI), a economia mundial deverá desacelerar do
patamar de 5% ao ano, entre 2006 e 2007, para 2,2% em 2009 (ver
Tabela 1). Nesse último ano, as economias avançadas deverão apre-
sentar queda no Produto Interno Bruto (PIB) de 0,3%. A média da
taxa de crescimento dos países em desenvolvimento cairá de 8%, em
2007, para 5,1%. O dinamismo do comércio internacional também
aponta para um acentuado arrefecimento, caindo de 7,2%, em 2007,
para 2,1%, em 2009. É inevitável, neste contexto de elevada incerte-
za, que surjam comparações entre o momento atual e a experiência
dramática da Grande Depressão, que subverteu o mundo, sobretudo
entre 1929 e 1933.
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Seguramente, o peso da riqueza financeira em relação ao produto,
a sofisticação (e opacidade) das operações financeiras e a interliga-
ção entre os vários segmentos dos mercados em escala global são hoje
infinitamente maiores do que no final da década de 1920. A dimen-
são recente alcançada pela riqueza financeira (US$ 229,7 trilhões em
dezembro de 2007, mais de quatro vezes superior ao PIB mundial —
ver Tabela 2) e a escala real ou nocional das perdas incorridas sugerem
que estamos diante de um processo monumental de desvalorização de
ativos, muitas vezes superior ao que se assistiu há quase oitenta anos.
De acordo com a Federação Mundial das Bolsas de Valores, a desva-
lorização da riqueza acionária global somou US$ 29,5 trilhões entre
outubro de 2007 e outubro de 2008. Segundo o Banco da Inglaterra,
os bancos ingleses registraram perdas com marcação a mercado da
ordem de £ 10 bilhões ao mês, entre maio e outubro de 2008, soman-
do £ 122,6 bilhões. Nos Estados Unidos, Reino Unido e área do euro,
as perdas com marcação a mercado sobre ativos financeiros por ban-
cos podem atingir US$ 2,8 trilhões. A conclusão que daí poderia advir
é que o curso dos acontecimentos será, em conseqüência, mais dramá-
tico e doloroso do que em 1929-1933.
A CRiSE EM PERSPECTiVA: 1929-2008 ❙❙ Frederico Mazzucchelli
TabEla 1 indicadores selecionados — Variação anual — em %
Fonte: FMI, World Economic Outlook Update , Washington, D.C., November 6, 2008. Notas: (a) Projeções.
2003 2004 2005 2006 2007 2008(a) 2009(a)
Produto Interno Bruto Real
Mundo
Economias avançadas
Estados Unidos
Área do Euro
Alemanha
Japão
Reino Unido
Volume do comércio mundial
(bens e servições) 5,4 10,4 7,5 9,4 7,2 4,6 2,
Países emergentes e
em desenvolvimento
África
Europa Central e do Leste
Comunidade de Estados
Independentes
Ásia em Desenvolvimento
Oriente Médio
América Latina
Brasil
[5] Mazzucchelli, Frederico. Os anos de chumbo: notas sobre a econo- mia e a política internacional no entre- guerras. Campinas: Editora Facamp, 2008 (no prelo).
[6] Krugman, Paul. “Não é hora de pensar no déficit”. Folha de S.Paulo , 18/10/2008 (originalmente publica- do no New York Times ).
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setembro de 1936 e, da mesma forma, insistiu na tentativa vã de
impor a deflação como remédio para a depressão. Mesmo após a
desvalorização da libra em setembro de 1931, a Inglaterra, apesar
de praticar uma política de cheap money , permaneceu circunscrita
a uma política fiscal conservadora. Nem mesmo Roosevelt conse-
guiu se desvencilhar do dogma dos orçamentos equilibrados: em
1937, sua tentativa de “sanear” as finanças públicas redundou na
“recessão na depressão” de 1938. Unicamente Hitler, desde 1933,
praticou uma política deliberada de expansão dos gastos públi-
cos. O outrora austero Hjalmar Schacht, que entre 1923 e 1930 foi
o zeloso guardião da moeda alemã, garantiu sua recondução ao
posto em 1933 apenas mediante o compromisso explícito, assumi-
do com o Führer, de envolver diretamente o Reichbank no finan-
ciamento dos gastos do governo^5.
A verdade, assim, é que com a exceção do experimento nazista,
todos — à direita e à esquerda — professavam sua crença mítica nas
virtudes das sound finances. Seria impensável, em 1930 ou 1931, que um
economista escrevesse, poucos dias após ser laureado com o Prêmio
Nobel, que em face da extensão da crise “ não é hora de pensar no déficit”
(Paul Krugman)^6. Ao contrário da experiência traumática da Grande
A CRiSE EM PERSPECTiVA: 1929-2008 ❙❙ Frederico Mazzucchelli
Fonte: World Federation of Exchanges; Bank of International Settlements; IMF, International Financial Statistics (IFS), World Economic Outlook databases as of September 25, 2008; 2003 Bureau van Dijk Electronic Publishing-Bankscope; Standard & Poor’s Emerging Markets Database. Notas: (a) Exclui reservas em ouro; (b) Inclui bônus emitidos por governos, instituições financeiras e corporações no mercado financeiro internacional; (c) Soma da capitalização do mercado acionário, dívidas securitizadas e ativos dos bancos comerciais.
TabEla 2 indicadores selecionados do tamanho dos mercados de capitais, 2007
Mundo
União Européia
Reino Unido
Área do Euro
Alemanha
França
Estados Unidos
Japão
Economias Emergentes
Ásia
América Latina
Europa
PiB Pública Privada
Dívidas (b) Ativos Bancos Total (^) Comerciais Total (c)
Total em %
Total em % do PiB
Reservas (a)
Capitali- zação do mercado acionário
[7] Para uma excelente descrição das operações especulativas durante os anos 1920, ver Galbraith, John K. 1929 : o colapso da Bolsa (São Paulo: Pioneira, 1988 [1954]). Para as inova- ções financeiras recentes, ver, entre outros, Guttmann, Robert e Plihon, Dominique. Consumer debt at the cen- ter of finance-led capitalism (Paris, jan. 2008 [mimeo]); Kregel, Jan. “Minsky’s cushions of safety: Systemic risk and the crisis in the U.S. subprime mortgage market” ( Public Policy Brief , n-º 93, The Levy Economics Institute of Bard College, jan. 2008. Disponível em <http:// www.levy.org/pubs/ppb–93.pdf>, acessado em 23/11/2008); Freitas, M. Cristina P. de e Cintra, Marcos Antonio M. “Inflação e deflação de ativos a partir do mercado imobiliário americano” ( Revista de Economia Política , v. 28, n-º 3 (111), São Paulo, Edi tora 34, jul.-set. 2008 [Disponível em <www.rep.org.br>, acessado em 24/11/2008]).
[8] A aprovação do Gramm-Leach- Bliley Financial Modernization Act (1999) consolidou a expansão dos grandes bancos para as atividades típicas de bancos de investimento (negociação de securities ), adminis- tração de ativos e operação no merca- do de seguros mediante a formação de uma holding financeira ( financial hold- ing companies ), consolidando os cha- mados financial supermarkets (“super- mercados de serviços financeiros”). Ver, entre outros, Braga, José Carlos S. e Cintra, M. A. M. “Finanças dolariza- das e capital financeiro: exasperação sob comando americano” (In: Fiori, José L. (org.). O poder americano. Petrópolis: Vozes, 2004, pp.253-307); Cintra, M. A. M. e Cagnin, Rafael F. “Evolução da estrutura e da dinâmica das finanças norte-americanas” ( Econômica , v. 9, n-º 2. Niterói: UFF, dez. 2007, pp.89-131).
[9] Não se deve esquecer o que Schumpeter denominou como o “remédio caseiro” dos republicanos às crises: a elevação das tarifas, propa- gando a crise em âmbito mundial. Em junho de 1930 foi promulgada a Smoot-Hawley Tariff , que elevou as tarifas sobre os produtos importados para cerca de 45%, nível mais elevado de proteção observado desde 1833. Ver Walton, G. M. e Rockoff, H., His- tory of the American economy. Cincin- nati, Ohio: South-Western Thomson Learning, 2002, p. 224.
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Depressão, a disposição para a intervenção estatal é hoje, portanto,
um elemento determinante que diferencia nitidamente as iniciativas
da política econômica. Este é um fator decisivo que projeta um futuro
menos sombrio para a evolução da crise atual.
Existe, de outra parte, uma clara semelhança em relação à ori-
gem dos distúrbios que resultaram na Grande Depressão e os que
estão por detrás da presente convulsão. Em ambos os casos a débâcle
foi precedida pela fragilidade da regulação e pelo relaxamento na
percepção dos riscos, o que redundou em uma febre especulativa
de conseqüências desastrosas. A inevitável proliferação de ope-
rações financeiras de lastro duvidoso, alavancadas pela expansão
desmesurada do crédito, é um traço comum dos dois momentos
históricos^7. No final da década de 1920 e início da de 1930, era
ainda limitado o grau de regulação e controle exercido pelas autori-
dades monetárias sobre o conjunto dos sistemas financeiros. Nos
Estados Unidos — o epicentro do terremoto de 1929-1933 — era
destacada a proliferação de bancos de pequeno e médio porte, mui-
tos deles fora da área de supervisão do Federal Reserve. Ao mesmo
tempo, a inexistência de um “muro de contenção” entre os bancos
comerciais e os bancos de investimento permitiu que os primei-
ros se envolvessem em operações de alto risco, comprometendo
de modo temerário os recursos dos depositantes (fenômeno que
voltaria a se repetir em 2007-2008)^8.
As respostas iniciais à crise de 1929 (ao contrário das interven-
ções atuais) foram completamente insuficientes e desastradas: as
ações de lender of last resort , do mesmo modo que as iniciativas no
plano fiscal, eram incompatíveis com os mandamentos sagrados do
padrão-ouro. O resultado foi a propagação das quebras, a contra-
ção da produção e a explosão do desemprego^9. O PIB nominal nos
Estados Unidos caiu de US$ 103,7 bilhões em 1929 para US$ 56,
bilhões em 1932, recuperando-se para US$ 101,3 bilhões apenas em
1939 (ver Tabela 3). Entre 1930 e 1933 os Estados Unidos assistiram
a três ondas de liquidação bancária que vitimaram nada menos que
11 mil bancos. Na Alemanha, a quebra do gigante Danat em julho
de 1931, perante a impotência da intervenção do Reichbank, foi um
ponto de inflexão decisivo no aprofundamento do desespero eco-
nômico que terminou por conduzir os nazistas ao poder. No início
de 1933, havia na Alemanha 6 milhões de desempregados formais e
cerca de 3 milhões de desempregados ocultos.
Tanto nos Estados Unidos como na Alemanha a superação dos
desdobramentos mais profundos da crise passou pela imposição de
critérios de regulação mais rígidos sobre o sistema financeiro. Se
Roosevelt, empossado em março de 1933, alcançou um sucesso ine-
gável em quebrar a espiral contracionista foi porque, desde o início,
[10] Mazzucchelli, op. cit.
[11] Ver Schacht, Hjalmar. Setenta e seis anos de minha vida. São Paulo: Edi- tora 34, 1999, pp.367-455.
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promoveu o saneamento do setor bancário e estabeleceu, na seqüên-
cia, as bases da regulamentação do sistema financeiro por meio de
um conjunto de dispositivos legais criados entre 1933 e 1934 (Glass-
Steagall Act II, Federal Deposit Insurance Corporation, Securities
Exchange Act e Federal Savings and Loan Insurance Corporation).
Além disso, o Emergency Banking Act de 9 de março de 1933 havia
proibido a exportação de ouro e a Thomas Amendment de 19 de abril
autorizara a flutuação do valor do dólar em relação ao ouro e, con-
seqüentemente, do dólar em relação às demais moedas. Os Estados
Unidos abandonaram o padrão-ouro e o dólar entrou em uma pro-
gressiva trajetória de queda. A expectativa era de que, mesmo não
sendo um instrumento suficiente para deslanchar a recuperação, a
política monetária não deveria ser descartada enquanto ferramen-
ta na luta pela reinflação. Com os juros libertos da “escravidão do
câmbio fixo”, a expansão do crédito bancário poderia irrigar a eco-
nomia e estimular a alta dos preços. Com a desvalorização, os cons-
trangimentos do câmbio fixo desapareceriam. A inflação tornara-
se bem-vinda e a política monetária estava doravante autorizada a
assumir um perfil declaradamente expansivo^10. Hitler e Schacht, de
sua parte, converteram o sistema financeiro alemão em um braço
operacional do Reichbank. O nazismo, ademais, impôs o contro-
le absoluto sobre as transações em moeda estrangeira^11. Nos dois
casos, a disciplina sobre as finanças privadas foi essencial para que
as economias se levantassem dos escombros da depressão.
PiB Real 1932=
Produção industrial 1932=
Formação privada bruta de capital fixo (US$ bilhões)
Consumo pessoal (US$ bilhões)
PiB nominal (US$ bilhões)
Fonte: Mazzucchelli, op. cit.
TabEla 3 Estados Unidos: indicadores econômicos selecionados (1929-1941)
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[12] Ver Belluzzo, Luiz Gonzaga M. “O declínio de Bretton Woods e a emergência dos mercados ‘globaliza- dos’”. Revista Economia e Sociedade , n-º
- Campinas: IE/Unicamp, 1995, pp. 11-20; Chesnais, François. “Introdu- ção geral”. In: Chesnais, F. (org.). A mundialização financeira: gênese, custos e riscos. São Paulo: Xamã Editora, 1998, pp. 11-33.
[13] Em 8 de outubro, seis bancos centrais das principais economias avançadas — Estados Unidos, Cana- dá, área do euro, Reino Unido, Suécia e Suíça — realizaram uma ação coor- denada de redução de 0,5 ponto per- centual nas taxas de juros básicas.
[14] Contou com os membros do G (Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido, Itália e Cana- dá) mais um grupo de nações emer- gentes que inclui Arábia Saudita, África do Sul, Argentina, Austrália, Brasil, China, Coréia do Sul, Índia, Indonésia, México, Rússia, Turquia, além dos representantes da União Européia e da Espanha.
Da mesma forma, a superação da crise contemporânea deverá con-
templar a implantação de um novo marco de regulação para o siste-
ma financeiro. Como se sabe, foi nos anos 1970 e 1980 que o aparato
regulatório da Golden Age (a chamada “repressão financeira”) foi des-
montado, em nome da imaginada eficiência das “finanças comanda-
das pelo mercado”^12. Hoje, diante do descalabro e descontrole das ope-
rações financeiras que redundaram na atual crise, não há mais quem
negue a necessidade imperiosa de reintroduzir padrões mais rígidos
e rigorosos que disciplinem o funcionamento do sistema financeiro
em âmbito nacional e internacional. Em particular, a regulamenta-
ção sobre o shadow financial system (bancos de investimento, fundos
de investimento, hedge funds , seguradoras) — e a redefinição de suas
relações com os bancos comerciais — é essencial para assegurar uma
estabilidade mínima às economias capitalistas. A consciência de que
é fundamental retomar a regulação sobre o mundo das finanças priva-
das é, assim — paralelamente à pronta decisão de utilizar os recursos
públicos para mitigar a propagação da crise —, um fator essencial. É
claro que a imposição de um novo marco regulatório para as finanças
privadas não se dará em um piscar de olhos. Mas a percepção de sua
urgência, ao mesmo tempo em que o Estado atua diretamente e sem
ressalvas sobre a solvência do sistema financeiro, permite antever —
passada a tormenta — um funcionamento menos turbulento e tem-
pestuoso para o mundo das finanças.
É necessário, ademais, atentar para um dado importante. No iní-
cio dos anos 1930 a coordenação internacional tornara-se uma qui-
mera. Era absolutamente impossível compatibilizar as ações do New
Deal com as propostas nazistas, e ambas com o grupo do ouro lidera-
do pela França ou com a área da libra comandada pela Inglaterra. Na
década de 1930 a ordem internacional se estilhaçou e se formaram
blocos de nações, com os países se envolvendo em ações essencial-
mente defensivas, o que redundou na escalada do protecionismo, nas
desvalorizações competitivas e na busca de soluções autárquicas. A
ausência de coordenação supranacional foi uma característica mar-
cante dos anos 1930. Ela ensejou a tentativa de saídas particularis-
tas para a crise, acirrou as rivalidades nacionais e deu livre curso às
alternativas autoritárias. Felizmente, não é este o quadro que hoje
se apresenta. Mesmo diante das naturais dificuldades em se alcan-
çar soluções consensuais, existe um interesse comum entre os Estados
Unidos, a União Européia, o Japão e a China em evitar a propaga-
ção da crise. Hoje, a ação coordenada (manifestada, por exemplo, na
redução conjunta da taxa de juros)^13 tende a ser mais plausível — e
factível — que as soluções particulares e isoladas ( beggar thy neighbor )
típicas dos anos 1930. No mesmo sentido, podem ser apreendidas as
decisões encaminhadas no primeiro encontro dos países do G20^14
A CRiSE EM PERSPECTiVA: 1929-2008 ❙❙ Frederico Mazzucchelli
[16] Os dados sobre o desempenho econômico dos Estados Unidos, área do euro, Reino Unido e Japão no ter- ceiro trimestre de 2008 já mostraram uma queda acentuada nos níveis de produção, de investimento, de comér- cio exterior e de emprego.
[17] Mandeville, Bernard. Fable of bees, or private vices, public benefits. 2 vols. Indianapolis: Liberty Fund, Ed. Liberty Classics, 1988 [1705]. Ver, tam- bém, Dumont, Louis. Homo aequalis: gênese e plenitude da ideologia econômi- ca. Bauru: EDUSC, 2000, cap. 5.
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As considerações anteriores indicam que não é previsível para a
crise atual um desdobramento semelhante ao da Grande Depressão.
Nada autoriza, contudo, uma perspectiva candidamente otimista. A
extensão dos estragos é ainda desconhecida e o impacto sobre o setor
produtivo seguramente será profundo^16. Apenas a decidida interven-
ção do Estado tem evitado um descalabro de maiores proporções. A
necessidade de retomar a regulamentação sobre o sistema financeiro
é reconhecida, mas sua implementação certamente será precedida por
desacordos substanciais e demandará tempo para ser efetivada. Da
mesma forma, apesar de o ambiente internacional favorecer a busca
de soluções cooperadas, não se deve imaginar que elas sejam simples e
isentas de contradições, em particular no que diz respeito ao papel dos
Estados Unidos e do dólar no contexto mundial.
A crise atual representa, na verdade, uma derrota fragorosa do libe-
ralismo irrefletido que contaminou os espíritos nos últimos trinta
anos. A fé cega na capacidade de regulação dos mercados é um dogma
que acompanha o capitalismo desde o seu nascimento. Desde a Fábula
das abelhas , de Mandeville (“ vícios privados, virtudes públicas ”)^17 , até os
modelos de expectativas racionais de última geração, o suposto é sem-
pre o mesmo: os mercados possuem uma racionalidade imanente que
garante o funcionamento ótimo da economia. O ambiente dos anos
1920, sobretudo nos Estados Unidos, estava carregado desta convic-
ção. Esta mesma convicção inundou a política, a academia e o mundo
dos negócios a partir da guinada conservadora de Margaret Thatcher
e Ronald Reagan. Os roaring twenties nos Estados Unidos culminaram
com a Grande Depressão, e a euforia das finanças desregulamentadas
culminou no desastre atual. A grande lição que resta destes dois epi-
sódios dramáticos é que, definitivamente, o capitalismo não pode ser
deixado à mercê dos capitalistas...
FredericoMazzucchelli é professor do Instituto de Economia da Universidade Estadual
de Campinas.
A CRiSE EM PERSPECTiVA: 1929-2008 ❙❙ FredericoMazzucchelli
Recebido para publi ca ção em 20 de novembro de 2008. NOvOs estUDOs CEBRAP 82, novembro 2008 pp. 57-