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estar, em que se destacam, entre outros móveis, os estofados e o sofá, ... Na ocasião, na própria CIMO, inicia-se a preocupação com a segmentação.
Tipologia: Provas
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Neste capítulo nos ocuparemos inicialmente em apresentar um resumo sobre as origens e o desenvolvimento do sofá no mundo ocidental, desde seus possíveis primórdios ao final do século XX no Brasil. Para tal, procuramos observar a evolução técnica e produtiva do sofá, ficando atentos àqueles que, no período, atuaram como agentes nas instâncias de produção, de legitimação e recepção desse campo. Na segunda parte do capítulo nossa intenção será investigar o que contribuiu para a atual configuração espacial das casas e apartamentos, destacando aí a sala de estar dos lares dos agentes pertencentes às camadas médias baixas da cidade do Rio de Janeiro, que acreditamos que seja similar a de muitas localidades espalhadas pelo Brasil. Para esse intento, tivemos de levantar as informações pertinentes desde o início do período colonial aos dias atuais. Dessa forma, acreditamos que seria possível entender o espaço da sala bem como da sua ocupação e o papel atribuído ao sofá nessa prática. Nossa motivação teve base no forte caráter social que o móvel sofá traz consigo desde os primeiros modelos que foram usados pela aristocracia francesa, não apenas para impressionar e acomodar confortavelmente as visitas em diferentes cômodos, até naqueles mais íntimos e privados, como os aposentos das senhoras, dentro dos quais podiam ser encontrados sofás tipo cama conhecidos por lit à la turque (OATS, 1991: 107), que eram usados para conversar de forma mais descontraída e reservada. A nosso ver, mesmo considerando que as casas atuais sejam mais simples, equipadas com uma única sala intitulada desde o século XIX como sala de estar, de acordo com DeJean (2012: 79), acabou convertendo-se em um ambiente caótico por funcionar, ao mesmo tempo, como área de exibição e conforto, pelo menos na Europa (que em termos espaciais não deve diferir tanto daqui), esse caráter parece permanecer até hoje. Dessa forma procuramos, sempre
que possível, entender como o espaço da sala veio sendo configurado e como se davam as relações dentro dele.
O sofá, fragmentos de uma origem e seu desenvolvimento
Considerando nosso objeto de estudo e suas peculiaridades, bem como o fato de estarmos em uma nação relativamente jovem às europeias, entendemos que seria oportuno apresentar um breve olhar sobre o desenvolvimento que o sofá sofreu desde as fases iniciais de sua elaboração e utilização na Europa até chegarmos ao Brasil. Lembrando que nesse momento nossa atenção voltou-se para instâncias de produção. Para atingir esse objetivo, destacamos os trabalhos de Oates (1991), que se preocupou em apresentar um vasto levantamento do mobiliário para diferentes finalidades, compreendendo o período que vai do Antigo Egito até o século XX, sempre que possível, procurando relativizar sua análise contrapondo a configuração estética, os materiais e as técnicas construtivas empregadas nos móveis desse largo período; Edwards (1994), que faz uma análise detalhada do desenvolvimento do campo de produção do mobiliário no século XX no espaço social da Inglaterra, procurando observar o circuito que vai da produção ao consumo, também se preocupando em apresentar os “avanços” de processos e de materiais nesse âmbito e por último DeJean (2012), que orientou seu trabalho para o que chamou de século do conforto, que teve início em 1670 na França, procurando enfatizar as mudanças ocorridas no interior das casas, como o quarto de dormir, o banheiro e a sala de estar, em que se destacam, entre outros móveis, os estofados e o sofá, ressaltando nesse contexto a noção de conforto, comodidade e sofisticação. Antes de prosseguirmos, gostaríamos de deixar patente nossa desconfiança por esse tipo de estudo falsamente chamado de histórico. Temos por princípio teórico discordar de uma noção frequente. Essa noção afirma que fazer história é indicar factualmente dados, o mesmo que descrever sistematicamente as características de um objeto seguindo a linha do tempo. Esse tipo de viés metodológico hoje é tido como erro científico, além do mais se aproxima de ideologias passadistas que examinam os fenômenos históricos, sejam em objetos, sejam nas ações de homens e mulheres, procurando identificar essências
noção de privacidade, que por sua vez também é um arbitrário cultural, uma noção simbólica. A necessidade de deslocamento estendia-se também àqueles que tinham posses. Os dominantes da época, reis e outras autoridades, motivados pela falta de alimentos, pelas guerras ou por doenças, mudavam-se com certa constância e consigo levavam seus pertences. Assim sendo, precisavam que seus objetos de uso fossem portáteis, o que de acordo com DeJean (2012: 156) justifica “as palavras francesas para móveis […] meuble (móvel), mobilier (mobília), do latim mobilis , o que pode ser movido”. Nesse ensejo é oportuno lembrar que a privacidade no morar não poderia ser concebida com as pessoas nômades, possuindo residências em múltiplos lugares. Com as contribuições das pinturas flamengas como as de Jan Van Eyke e Robert Campin (Figura 4)^10 , é possível imaginar a simplicidade dos móveis das casas burguesas do século XV. Esses móveis que eram trazidos pelos mercadores flamengos que os colocavam no interior de suas casas, a exemplo dos costumes que ocorriam na França e na Borgonha, “refletiam não o gosto pessoal, mas a sua categoria ou posição social”, conforme nos atesta Oates (1991: 42). Daí pode-se inferir que os móveis não eram apenas necessários para o uso material ou físico, mas tinham uma importante dimensão simbólica, pois, entre outras coisas, visavam distinção social.
(^10) Considerando a originalidade da obra em relação à época em que foi realizada e por quem foi realizada, conforme alerta Burke (2001: 102), entendemos que os móveis e demais elementos dos interiores representadosmanifestam o estado da arte de então.
Figura . Acesso em 15–1432. Disponível em: out. 2013.
Por todo esse período a confecção dos móveis era oriunda das guildas de marceneiros, as quais detinham a responsabilidade e exclusividade no fornecimento desses produtos. É desnecessário dizer que o Renascimento trouxe contribuições para os interiores europeus no caminhar desse período. Um bom exemplo nesse sentido foram os assentos que funcionavam como caixas ou baús com trincos, hoje em dia chamados de “ cassone ”^11 , dentro dos quais se guardavam pertences valiosos. Esse tipo de baú, com o tempo, ganhou encosto e posteriormente braços, passando a ser chamado de “ cassapanca ”, que pode ser considerado um sofá primitivo na visão de Oats (1991: 56). Eles obedeciam o mesmo conceito dos modelos antepassados, com a virtude de poderem ser ricamente decorados por meio do
entalhe ou da pintura. Algumas “ cassapancas ”, embora ainda pudessem ser transportadas, já indicavam que a tendência de uso seria a de funcionar estacionada em algum local do ambiente, conforme pode ser visto na Figura 5. Especialmente na região da Itália de hoje, merecendo destaque Roma, Veneza e Florença, houve uma sequência de eventos iniciada com migração de letrados gregos, fugidos da invasão de Constantinopla pelos turcos, que trouxeram para essas localidades importantes conhecimentos da antiguidade clássica como o
(^11) O termo é italiano, mas sabemos que esses baús foram empregados por toda Europa.
Figura 5 Modelo de Cassapanca, Florença século XVI. Disponível em: . Acesso em 15 out.2013.
corte, passou a se chamar Manufacture Royale des Meubles de la Couronne Gobelins , a partir de então atuando como fábrica de estofados juntamente a outros tipos de móveis, bem como da tapeçaria, sob a supervisão do pintor Charles Le Brun. Pode-se dizer que, em um curto espaço de tempo, os móveis produzidos pela então nova Gobelins refletiam projetos genuinamente franceses (DEJEAN, 2012: 158). Com o tempo, a qualidade na execução e na elaboração dos modelos, bem como a preocupação com sua funcionalidade, com vistas à divisão de ambientes que vinha sendo implementada, assim como o início da diferenciação para o atendimento do poder de compra das diferentes classes sociais, propiciou a difusão desses móveis, vindo a influenciar o gosto de toda Europa no final do século XVII até meados do XVIII. A França então tornou-se referência em móveis e decoração de interiores (OATS, 1991: 91). O frenesi de consumo por móveis residenciais no final do século XVII pode ser justificado pelo surgimento da forte noção de lar, de um espaço privado, que corria algumas regiões europeias, o que inclusive acelerou a mudança do foco da atenção dos arquitetos do exterior para o interior das construções (DEJEAN, 2012: 19). Todos esses avanços no campo da produção de móveis não foram acompanhados pelo dos assentos na mesma intensidade. Não resta dúvida de que na época deva ter existido uma forte resistência às mudanças de comportamento, ou do habitus social do período, pois até então poucos eram aqueles que vaziam jus ao privilégio de sentar, mas os assentos já existiam e eram usados, conforme pode ser confirmado por meio da observação das pinturas de
Figura Disponível em: . Acesso em 25 nov.
interiores das casas burguesas na Holanda^13 , no período entre 1650 a 1700, aí incluídos Pieter de Hooc, Jan Steen (Figura 6), Emmanuel de Witt e Johannes Vermmer. A despeito dos gêneros de suas representações, os ambientes retratados tinham poucos móveis que permitiam o sentar e, pelo menos aos nossos olhos, aparentavam ser muito desconfortáveis, daí podermos, com muito cuidado, inferir a nossa dúvida de saber se podemos estabelecer uma linha de continuidade histórica entre esses móveis e os que possuímos nos dias de hoje e que chamamos de sofá. Se assim era com as cadeiras, tudo indica que com os estofados a raridade deveria ser muito mais significativa. Não só pela complexidade de construção como pelos custos no uso de enchimento e de tecidos. A bem da verdade, não era difícil encontrar quem fizesse uso de almofadas no chão (DEJEAN, 2012: 21).
Curiosamente, o primeiro móvel que se assemelha a um sofá, entendido como um assento para duas ou mais pessoas, geralmente almofadado, foi o modelo conhecido como Knole na região de Sevenoak, na Inglaterra, por volta de 1620 (Figura 7). O modelo possuía apoio para cabeça, que correspondem a braços laterais, articulados por meio de dobradiças e regulados por meio de um tipo de corda (OATS, 1991: 95). Mas será na França em 1685, reinado de Luís XIV, que surgirá o primeiro modelo de sofá que na verdade correspondia a um canapé totalmente acolchoado e
(^13) Não podemos deixar de mencionar que as "pinturas de interiores domésticos devem ser vistas como um gênero artístico com suas regras próprias em relação ao que deve ou não ser mostrado" (BURKE, 2004: 109), contudo, entendemos que os móveis retratados são evidências da realidade tecnológica da época, conforme jáexplicitado na nota 9.
Figura 7 Sofá Knole, disponível em. Acesso em 20 jan. 2015.
A partir dessas considerações podemos entender as relações sociais ainda em voga nos dias de hoje entre os estofadores, os estabelecimentos comerciais de tecidos e os clientes que desejam reformar sofás antigos. Temos verdadeiras empresas que funcionam oferecendo sofás reconstituídos aos clientes de melhor poder aquisitivo, como a Viterbo no Rio de Janeiro. É oportuno salientar que a autonomização progressiva do sistema de relações de produção, circulação e consumo de móveis já vinha ocorrendo associada a importantes transformações como a constituição de uma ampla gama de consumidores, o surgimento de produtores e empresários que gradativamente passaram a impor critérios técnico-normativos que regulavam o acesso de pretendentes a atividades no campo, a ampliação das instâncias de consagração que concorriam pela legitimidade simbólica dos modelos (BOURDIEU, 1997: 99-100), conforme poderá ser verificado abaixo e ao longo desta exposição. Na passagem do século XVII para o XVIII foram lançados artigos e publicações especializadas que versavam sobre móveis e decoração de interiores, que também apresentavam as novas plantas residenciais propostas por arquitetos renomados (DEJEAN, 2012: 10), enfim, podemos verificar o surgimento de outros modos de “valorização” dos objetos usados no interior das casas que se ocupavam da consagração ou legitimação simbólica de um objeto de uso, o sofá. Evidenciando algo que se autonomizava simbolicamente em relação aos outros objetos empregados nas residências. Rapidamente, as inovações nos primeiros modelos de estofados, sofás, poltronas ou correlatos, foram sendo implementadas, sendo que algumas permanecem até a atualidade como referência para a fabricação desses produtos. Na verdade, gostaríamos de ressaltar que o modo de construção do sofá até hoje permite modificações constantes na sua constituição, mas ele é essencialmente o mesmo objeto, com a ressalva: mais uma vez julgamos que não se trata do exame de uma coisa física, mas de uma noção simbólica sobre algo que possui uma semelhança formal. Uma das técnicas mais sofisticadas e engenhosas de estofamento conhecida por “ Châssis ” ou estofamento em chassis (1700 – 1715) caracteriza-se por uma estrutura avulsa aplicada sobre a estrutura e não diretamente sobre o conjunto tornando possível a substituição do tecido de forma prática e rápida sem a necessidade de aquisição de um novo sofá, permitindo o seu proprietário acompanhar a última moda da decoração (DEJEAN, 2012: 180).
No nosso entender, o hábito europeu de empregar tapetes e tecidos na decoração propiciou aos respectivos produtores um bom e crescente negócio, contudo a inovação citada, isto é, a nova noção de comodidade, conforto e distinção, atrelou a produção de sofás a dos tecidos, abrindo um mercado sem precedentes para o desenvolvimento constantes de novos padrões. Não é à toa que DeJean (2012: 187) afirma que em meados do século XVIII os estofados das residências mais elegantes chegavam a ser trocados 4 vezes ao ano. O estilo francês conhecido por Rococó que “foi o primeiro [...] desenvolvido exclusivamente para o interior, em oposição ao exterior, [tendo sido com esse estilo que vários arquitetos se especializaram na decoração de interiores, que ocorreu] o desenvolvimento do conforto doméstico e, a longo prazo, possibilitou mudanças que se seguiram” (RYBCZYNSKI, 1986: 99-100). Nesse período, os responsáveis pela configuração dos modelos de estofados buscaram inspiração no mundo árabe para o desenvolvimento, por exemplo, das “otomanas” – empregadas nos aposentos mais íntimos, e das “sultanas” – que
tinham as extremidades enroladas (OATES, 1991:107 e RYBCZYNSKI, 1986: 94). Nesses casos, tanto o nome como a “imagem” dos sofás, isto é, aquilo que eles significavam, remetiam a uma atmosfera oriental, ou seja, um ambiente de conforto e sofisticação. Um bom exemplo nesse sentido pode ser caracterizado pelo modelo do tipo cama turca ilustrado na Figura 8. Outros modelos desenvolvidos um pouco
Figura 8 Cama Turca (Lit à la turque) de Jean-Baptiste Tilliard [French, 1686 - 1766] – disponível em . Acesso em 30 out. 2013.
artífices especializados que disputavam entre si seus respectivos espaços no mercado.
Os homens da classe média, os marchands-merciers, então em evidência, contribuíram para impor o sistema e para orientar o gosto dos que produziam mobiliário fino, sugerindo novas técnicas e alegres combinações de materiais para atraírem novos clientes (OATS, 1991: 110). Dessa forma esses influentes marchands-merciers , por conta de suas práticas profissionais, eram ambulantes, circulando entre diferentes grupos sociais, atuavam como uma espécie de consultores tanto para a instância da produção, apontando as tendências para os lançamentos, como para instância de recepção, que sugeriam aos clientes o que comprar e como combinar. Em outras palavras, o que era produzido certamente poderia ser mais convenientemente consumido. É importante lembrar que na época só existia o sistema de produção artesanal em que a qualidade da matéria-prima e a habilidade do marceneiro e/ou artífice eram determinantes para definir e distinguir os compradores. No início do século XIX o constante e qualitativo crescimento da classe média foi evidentemente acompanhado da popularização dos elementos de mobiliário, que teve o interesse do público alimentado pelas publicações que orientavam a composição de ambientes de bom gosto dentro e fora da França conforme nos atesta DeJean (2012: 208): “Novos desenhos de móveis, o sofá em particular, apareceram pela primeira vez em tratados de arquitetura e manuais de decoração nos anos 1730; foi então que potenciais clientes estrangeiros tiveram o primeiro contato com os modelos até então disponíveis em Paris” (2012: 208). Paralelamente na Inglaterra, o estilo Queen Anne que por conta de sua maior simplicidade, leveza e conforto – novamente gostaríamos de ressaltar que essas noções são arbitrários culturais (sendo que a nossos olhos essa simplicidade pode ser relativizada à complexidade ornamental do estilo Rococó) – ganhava força espalhando-se de forma vigorosa para além de suas fronteiras, como nos EUA e outros territórios do império inglês, sendo considerado um estilo inglês original (OATS, 1991: 112-116). Guardada as devidas proporções, a exemplo do que ocorria na França, o acesso às novidades em termos de mobiliário era privilégio de londrinos abastados, pois “para a pequena aristocracia e as classes médias, as fontes locais de fornecimento bastavam – bom mobiliário, de robusta construção, que refletia, com pequeno atraso, as últimas novidades de Londres. As pessoas de
classes menos abastadas serviam-se dos artífices menos hábeis cujos móveis de sólida construção eram feitos segundo o estilos já fora de moda” (OATES, 1991: 124, o grifo é nosso). Mas os avanços na produção de móveis ingleses eram crescentes, tendo ganhado notoriedade e referência de elevada qualidade com os trabalhos de Thomas Chippendale e de George Hepplewhite, contribuindo juntamente com avanços tecnológicos em diferentes campos, quando, em torno de 1760, a Inglaterra praticamente toma o lugar da França como lançadora de moda. Em meados do século XVIII o estilo neoclássico, um estilo industrial por excelência, avançava contra o Rococó, sendo que no campo dos móveis as alterações eram eminentemente estéticas, pois funcionalmente os móveis eram, conforme já afirmamos mais acima, praticamente os mesmos, inclusive os sofás referenciavam-se quase que por completo aos modelos como de Bergère , de canapé e de sofá às configurações vigentes nos períodos anteriores (OATES, 1991: 133). É oportuno salientar que nesse período houve a preocupação com o registro dos modelos dos móveis por meio de desenhos elaborados por arquitetos e marceneiros (DEJEAN, 2012: 11). Essa preocupação em registrar os projetos mediante representações, que podemos chamar de técnicas, trouxe contribuições relevantes para o controle da qualidade na execução do móvel, seja para o tradicional processo artesanal ou no industrial, que já estava em evolução na Inglaterra e logo se espalharia por toda a Europa. Outro aspecto em que o uso do desenho contribuiu para a consagração simbólica do móvel foi o surgimento de publicações específicas voltadas à produção de móveis, como os manuais de marcenaria desenvolvidos por André
Figura 10 JACOB ROUBO, Desenhos em vista de Grandes assentos (Elévations de plusieurs grand sieges) 1769, disponíveis em: s . Acesso em15 nov. 2013.
do mercado que produzia móveis e estofados principalmente para os menos favorecidos e julgamos que naturalmente ávidos pela arrumação de suas casas, ou seja, ordenação simbólica dos ambientes de acordo com a nova noção. Muitas empresas ou oficinas, ainda arraigadas aos processos mais artesanais, tiveram dificuldades em atender a elevação da demanda, seja por conta dos custos e/ou da lentidão da produção. A necessidade de aumento da capacidade produtiva implicou em mudanças tanto na administração dos processos produtivos quanto na tecnologia. Como exemplo do primeiro caso temos o início da produção de peças separadas para posteriormente serem unidas, como o caso das cadeiras windsor, que no início do século XIX na região de High Wycombe , cidade inglesa especializada na produção e comercialização de móveis, tinha sua produção fracionada envolvendo atividades de diversos artesãos, cada qual responsável pela produção de um componente (assento, pernas, arco do encosto etc.), que era encomendado por um mestre. Este, por sua vez, empregava ou terceirizava armadores que eram responsáveis pela montagem do conjunto e, depois, por sua comercialização (FORTY, 2007: 120- 121). Na França, as grandes oficinas, artesanais ou manufatureiras, já atendiam anteriormente um amplo mercado e se adaptaram bem ao aumento de vendas, como é o caso de “uma grande carpintaria de Paris [que] empregava em 1808, 350 funcionários, produzindo fauteils (poltronas) entre 36 e 4000 francos, e sofás entre 108 e 12000 francos” (PEVSNER, 1971:22, apud. SELLE, 2012: 46). Os valores declarados demonstram a existência de uma gama considerada de produtos, dos mais simples aos mais sofisticados, a exemplo de muitas empresas de estofados da atualidade, indicando uma complexa e organizada administração da produção para que fosse possível dar conta de um grande volume com diferenciação:
Assim, pode ser visto o desenvolvimento precoce de todo um programa de fabricação orientado de acordo com a demanda diferenciada de mercadorias. E é precisamente essa diferenciação da produção em massa e da eliminação progressiva do artesanato qualificado em benefício do operário especializado, que o papel do designer adquire maior relevância (SELLE, 1975: 59). Importante também é evidenciar que essa diferenciação dizia respeito à nova noção simbólica de distinção social que se apressava a ser instalada nos corações e mentes de então.
Quanto aos avanços tecnológicos podemos dizer que, apesar de já haver patentes de máquinas para marcenaria no século XVIII, só em meados do século XIX que a mecanização lentamente começou a se propagar nas marcenarias. Em contrapartida, à medida que os avanços em maquinário foram sendo implementados a demanda pela maestria dos notáveis marceneiros de arte dos séculos XVII e XVIII foi se extinguindo. Enquanto a marcenaria artística enfraquecia, a forte demanda pelo móvel dotado desse arbitrário cultural chamado conforto impulsionava a busca pelos estofados, o que ajudou a promover o estofador à posição de orientação do estilo do mobiliário (OATES, 1991: 170). Muito embora a atividade da decoração já fosse realizada por estofadores e tapeceiros desde o século XVIII, na qual estavam envolvidos a produção direta (ou seu acompanhamento) e o fornecimento de todo um aparato de objetos para a composição do interior, esses profissionais foram gradativamente preteridos pela classe média no final do século XIX, dando lugar aos decoradores independentes que, embora fossem poucos a “influenciar diretamente a decoração da maioria das casas, [...] causaram um efeito considerável na moda dos móveis: em parte, foi graças a eles que a ‘mobília de arte’ passou a ser amplamente fabricada na década de 1880” (FORTY, 2007: 154).
Mesmo assim, no início do século XIX um estilo merece destaque pela grande influência verificada em diferentes regiões da Europa e também no Brasil: o Biedermeier. Esse estilo, que foi desenvolvido entre 1815 e 1848 na Áustria, foi influenciado pelo estilo Império (neoclássico francês) e de certa forma pelo empobrecimento geral de grande parte das camadas sociais europeias, após as guerras napoleônicas, o que alimentou o cultivo da simplicidade e da vida em
Figura 12 Sofá Biedermeier, Praga 1825 Disponível em: Biedermeier_. Acesso emSofa_and_Daybe 30 out. 2013 ds/BI.
Começando pela estrutura, que nos primórdios era aparente e ricamente trabalhada e passou a ficar escondida pelo estofamento, permanecendo em madeira, não mais trabalhada, e posteriormente, em alguns casos, executada em aço – inicialmente em poltronas – , retornando à madeira associada ou não a algum de seus derivados como o compensado, aglomerado ou o OSB^15. Em relação ao processo para confecção da estrutura, o avanço fica por conta do uso desses derivados que, com espessura controlada, agilizam o processo de corte e montagem. Associada à estrutura, temos um tipo de sistema de amortecimento que sustenta o amortecimento propriamente dito, como: os pedaços de tecido comum combinado ou não com molas, as correias de borracha reforçada que foram inventadas em 1948 pela empresa Pirelli (EDWARDS, 1994: 31), as molas Nosag (do mesmo período) e ultimamente as percintas que podem ser encontradas em lona, brim ou mais atualmente em nylon. Essa parte da estrutura está diretamente associada ao tipo de amortecimento escolhido para o estofado. O amortecimento (ou enchimento) era tradicionalmente feito com penas de aves, pedaços de algodão ou crina de cavalo, o que implicava em uma tarefa demorada, trabalhosa, além de tediosa, sendo que a primeira tentativa de minimizar esse trabalho ocorreu em 1928 com o desenvolvimento de uma espuma de látex com o nome comercial Dunlopillo, da empresa Dunlop, mas que só foi usada para estofados institucionais, assentos de automóveis e dos ônibus em Londres (EDWARDS, 1994: 92). As facilidades que esse material propiciou ao sistema de produção do estofado são inquestionáveis:
A invenção da espuma de borracha [...] produziu uma verdadeira revolução nas técnicas do fabrico de estofos; os estofos passaram a poder moldar-se numa só operação, quer com a forma de coxins soltos quer com a de peças pré-formadas, que, a seguir, eram fixadas à armação da cadeira (OATES, 1991: 207). Contudo, os fabricantes de móveis mais tradicionais foram relutantes à mudança. Só na década de 1960, com o lançamento da espuma de poliuretano flexível, a indústria de estofados conseguiu aceitar a espuma como material de amortecimento. Ela era mais barata que a de látex com a vantagem de poder ser produzida em diferentes densidades e espessuras, além de permitir facilidade no
(^15) OSB: sigla de Oriented Strand Board, painel de partículas orientadas “formado pela aglomeração de camadas de lascas ou fragmentos laminares de madeira reflorestada unidas por meio de colas à base de resinafenólica, ureia-formol ou melamina sob ação de temperatura e pressão” (LIMA, 2006: 108).
recorte e na colagem. Tempos depois, outro tipo de espuma de poliuretano, a flexível integral, permitiria a obtenção de peças prontas desse material por meio de moldes que obedeceriam a forma desejada eliminando a necessidade de corte e outros trabalhos. Com relação aos revestimentos, estes parecem ter sido sempre bem definidos e orientados quanto as possibilidades de montagem, combinações e acabamentos, restando-nos citar que com os avanços propiciados pelo advento dos polímeros termoplásticos, popularmente conhecidos por plásticos, especialmente a partir da Segunda Guerra Mundial, foi possível, já na década de 1960, o emprego pela indústria de estofados do couro sintético, bem como de tecidos feitos de fios plásticos que podem ser confeccionados por diferentes tipos desses termoplásticos. Esse fato inclusive viabilizou a popularização mais abrangente dos sofás e consequentemente o aumento da produção e o crescimento dos lucros, considerando que o couro sintético mimetiza superficialmente a textura do couro natural, assim como os fios sintéticos, em relação àqueles provenientes de fibras naturais, são opções bem mais baratas e ao alcance dos bolsos dos assalariados. Mesmo com todos os avanços implementados, a partir da década de 1950, quando “o ritmo da mudança foi mais rápida, embora muitos dos Fundamentos tenham permanecidos os mesmos” (EDWARDS, 1994: 89), o ramo de estofados parece ter sido o menos afetado pelas mudanças no século XX em relação aos demais segmentos das indústrias de móveis. A exemplo do que ocorreu até o fim do século XIX, no século XX diferentes configurações foram lançadas com objetivos diversos, como o estofamento show- wood , que tinha parte da estrutura exposta demandando um excelente acabamento (quadro de madeira totalmente polido), com assento e encosto de almofadas soltas, que podiam ser montadas e desmontadas (EDWARDS, 1994: 91-92). Outra inovação diz respeito ao design modular^16 do sofá dividido em vários assentos, de forma que as unidades pudessem ser arranjadas, muitas vezes, para fazer um semicírculo diante da televisão, facilmente, de acordo com o espaço disponível ou pelo desejo do usuário. “A única desvantagem parecia ser que o preço se manteve relativamente elevado” (EDWARDS, 1994: 32).
(^16) O design modular a que nos referimos é um tipo de estratégia de projeto que implica no desenvolvimento de sistema, subsistema ou componente padrão que permite que um produto seja montado numa variedade deconfigurações.