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Tipologia: Notas de estudo
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Muitas pessoas e instituições contribuíram para a elaboração desta pesquisa. À minha orientadora Lígia Bellini, agradeço o incentivo, a compreensão, a confiança e o exemplo de seriedade, competência e profissionalismo. Aos professores Cândido da Costa e Silva e George Evergton Sales Souza agradeço a colaboração e a participação na minha banca examinadora. Aos professores Lina Aras e João José Reis agradeço as sugestões feitas ao projeto original desta dissertação. Agradeço a atenção de Soraia Ariane e de todos os funcionários, professores e colegas do curso de História da Universidade Federal da Bahia nos oito anos que estudei na graduação e pós-graduação da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas. Minhas irmãs Márcia e Emília e meus cunhados, Romano e Roberto, me deram tranqüilidade e segurança para dedicar meu tempo aos estudos. Minha tia Coriolinda sempre me apoiou com grande entusiasmo; minha mãe Alice torceu por mim. Agradeço ainda a valiosa colaboração do Padre Carlos Bresciani S. J., do historiador Carlos Bahia e de todos os funcionários do Arquivo da Comissão Inaciana da Bahia (COHIBA), onde adquiri a maioria das fontes utilizadas na elaboração deste trabalho. Também coletei fontes e pesquisei nas seguintes instituições: Biblioteca Nacional de Lisboa, Biblioteca Municipal de São João da Madeira, Arquivo da Revista Brotéria de Lisboa, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Biblioteca do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Biblioteca da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, Biblioteca da Academia de Letras da Bahia, Biblioteca Pública do Estado da Bahia, Centro de Estudos Baianos – Biblioteca Frederico Edelweiss e Biblioteca da Fundação Clemente Mariani na Bahia.
Esta dissertação tem por objetivo traçar uma biografia do livro História da Companhia de Jesus no Brasil , escrito pelo Padre Serafim Leite entre 1933 e 1950. Explora inicialmente o processo de formação religiosa e intelectual do autor como membro da Ordem dos Jesuítas, procurando estabelecer relações entre sua trajetória e características da obra estudada. Em seguida, com base na proposta de abordagem da chamada história do livro e da leitura, analisa a obra como resultado de práticas da escrita, examinando sua concepção, o método e as fontes utilizados na sua redação, assim como seu itinerário editorial. Por fim, considerando a necessidade de vincular, em um mesmo projeto, o estudo da produção, da transmissão e da apropriação dos textos, examina o livro como objeto de práticas da leitura, compondo um quadro do público leitor, das apropriações da História e da repercussão do texto.
Palavras-chaves: História da Companhia de Jesus no Brasil ; Serafim Leite; História do livro; Jesuítas.
This dissertation is concerned with the biography of a book — the História da Companhia de Jesus no Brasil , written by Serafim Leite from 1933 to 1950. It first explores the author’s religious and intellectual formation as member of the Society of Jesus, seeking to establish links between his trajectory and characteristics of the work studied. Then, based upon approaches of the so-called history of the book, it analyses the História as the result of writing practices, by examining its conception, the method and sources used, as well as its editorial itinerary. Lastly, considering the need to combine, in the same project, the study of the production, transmission and reception of the texts, it investigates the book as object of reading practices, composing a picture of its public, the book’s appropriation by the readers and its repercussions.
Key words: História da Companhia de Jesus no Brasil ; Serafim Leite; History of the book; Jesuits.
―O que está escrito permanece; sempre pode testemunhar e não se deixa corrigir ou explicar com tanta facilidade quanto a palavra.‖ Santo Inácio de Loyola, 1542.^1
―Nenhuma outra Ordem Religiosa como a de Jesus cultivou tanto a História, revelando tanta confiança no seu julgamento.‖ José Honório Rodrigues, 1979.^2
Esta dissertação tem como objetivo geral traçar uma biografia de um livro: a História da Companhia de Jesus no Brasil , do Padre Serafim Leite. Composta por dez volumes publicados entre 1938 e 1950, a obra em questão conta a história dos jesuítas no Brasil colonial, a partir da compreensão que os inacianos tinham de si mesmos. Não se trata aqui de um resumo do livro ou de mais um exame crítico acerca do seu conteúdo. Baseado nas ―práticas‖ - um dos elementos centrais da nova história cultural -, este estudo visa analisar o processo de produção e de recepção da História da Companhia de Jesus no Brasil e, desta forma, abordá-la como objeto de práticas da escrita e da leitura, respectivamente. Além dos autores, o processo de concepção, redação, divulgação e difusão de uma obra escrita que antecede o leitor e a leitura pode envolver colaboradores, copistas, glosadores, pessoas responsáveis pela censura e pelo marketing, editores legais e piratas, vendedores, distribuidores e outros profissionais ligados ao mercado editorial, a depender do tipo de texto (manuscrito ou impresso) e do suporte físico (livro ou outro). Já o processo de leitura, interpretação do que foi lido e uso de um texto pode ser feito por diferentes tipos de leitor; e através de várias formas de leitura: em voz alta, silenciosa, em público, privada, lenta ou intensiva, rápida ou extensiva. Sem consumo e apropriação, o texto deixa de cumprir o seu papel social. Abrangendo uma quantidade ilimitada de questões em torno de elementos fundamentais - autor, texto, suporte material, leitor e leitura - as pesquisas sobre o ato de escrever e de ler, nas últimas
quatro décadas na Europa, deram grande contribuição ao gênero histórico denominado pelos franceses de ―história do livro‖.^3 Considerado um dos maiores expoentes do tema na atualidade, o historiador francês Roger Chartier enfatizou a necessidade de vincular, em um mesmo projeto, o estudo da produção, da transmissão e da apropriação dos textos. E assim trabalhar, ao mesmo tempo, com a crítica textual, a história do livro e a história do público receptor.^4 Relegada até meados da década de 1990 aos estudiosos de biblioteconomia e às coleções de livros raros nos Estados Unidos, a história do livro ainda é pouco explorada entre nós. Em seu estudo sobre a publicação da Enciclopédia , a obra máxima do Iluminismo, o historiador americano Robert Darnton sugeriu uma combinação entre o empirismo britânico e a história total francesa para o desenvolvimento de uma história do livro original na América. Darnton considerou a inadequação das fontes o maior obstáculo para o pesquisador nesse campo do conhecimento histórico.^5 De fato, o historiador do livro dificilmente tem como saber por onde uma obra já circulou e como ela se relacionava com os hábitos de leitura de determinadas épocas. Embora exista um número ilimitado de objetos escritos sobre uma infinidade de assuntos, autores, editores e leitores realmente não costumam registrar nem tampouco conservar dados sobre a produção e a recepção de obras. Além disso, as fontes oficiais nada revelam sobre a relação dos leitores comuns com os livros. Entretanto, a regra geral admite exceções. Entre os documentos preservados ao longo dos séculos, podemos encontrar registros sobre a escrita e a leitura de algumas obras. A conservação desses dados ocorre por razões diversas, tais como o impacto social do objeto escrito, a repercussão entre os leitores, a importância histórica do texto, o sucesso editorial do empreendimento e o interesse pessoal de produtores e receptores. Tais aspectos podem oferecer condições de possibilidade para uma abordagem dessas obras de acordo com os preceitos da história do livro, independente dos registros perdidos ou destruídos intencionalmente. No caso da História da Companhia de Jesus no Brasil , as informações divulgadas pelos jesuítas sobre a redação do livro, as críticas de leitores publicadas em periódicos
os prazeres mundanos e o exercício das armas. Aos 26 anos, entrou no serviço militar.^6 Em 1521, foi gravemente ferido por uma bala de canhão quando defendia a Praça de Pamplona, então sitiada pelas tropas francesas que invadiram a Espanha. Sofreu várias intervenções cirúrgicas, mas a bala fragmentou a sua perna direita, deixando-o coxo para o resto da vida. Enquanto se recuperava em Loyola, Iñigo leu os únicos livros existentes no castelo de sua família: a Vida de Cristo de Ludolfo da Saxônia e a vida de santos na Legenda Áurea de Jacopo da Voragine.^7 A leitura dessas obras e o longo período de convalescença e reflexão deram início à conversão radical de Inácio, para lutar pelo que ele chamaria de Reino de Cristo. Ao deixar o castelo de Loyola, substituiu seus trajes e sua espada pelo bastão de peregrino e roupas de mendigo e se entregou a uma nova vida de orações, penitências, meditações, confissões e mortificações extremas, em direção a Jerusalém. Entre outros lugares, Inácio permaneceu por quase um ano na vila de Manresa, perto de Barcelona, onde escreveu o conteúdo básico dos Exercícios Espirituais.^8 Iniciado em 1522, o livro apresenta uma série de instruções e exercícios para ajudar na ―consolação‖ (entendida pelo fundador como um crescimento no Espírito e não uma conquista psicológica) e no desenvolvimento espiritual dos fiéis e dos próprios jesuítas. Compilados por Inácio a partir das Sagradas Escrituras e de sua experiência espiritual, os Exercícios Espirituais foram aprovados pelo Papa Paulo III e publicados em Roma, na sua versão final, em 1548.^9 Roland Barthes definiu os Exercícios como um texto múltiplo formado por outros quatro, cuja função consiste em determinar uma escolha. O primeiro texto é o que Inácio dirige ao diretor do retiro; o segundo é o que o diretor dirige ao exercitante; o terceiro é aquele que o exercitante dirige a Deus; e o quarto texto é o que Deus dirige ao exercitante. Os quatro textos preparam e sancionam uma escolha prática - uma decisão onde o exercitante elege entre fazer uma coisa ou outra, sob a intervenção de uma resposta divina. O próprio Inácio deu uma lista das matérias sobre as quais se pode fazer
eleição: o sacerdócio, o casamento, os lucros, a maneira de dirigir uma casa, quanto é preciso dar aos pobres, entre outras.^10 Os Exercícios Espirituais constituem a primeira experiência prática a ser feita por todos aqueles que ingressam na Companhia. Através dela, o candidato deve examinar a própria consciência, revolvendo toda a vida passada e contemplando cenas da vida de Cristo, segundo a capacidade de cada um. Usados duplamente como instrumento de prática e de ensino pelos jesuítas, os Exercícios são considerados a expressão viva do espírito inaciano, pelo qual se deve regular e interpretar todas as leis da ordem.^11 Em 1523, Inácio de Loyola finalmente chegou à Terra Santa, com a intenção de ficar para ―ajudar as almas‖ - a expressão mais usada nos documentos da ordem após a fundação oficial da Companhia. Para os jesuítas, alma era sinônimo da pessoa total e poderia ser ajudada de muitas maneiras, seja provendo alimento para o corpo ou ensinamento para o espírito, priorizando sempre uma melhor relação com Deus.^12 Entretanto, sem o apoio dos franciscanos para permanecer em Jerusalém, Inácio percebeu a necessidade de se preparar melhor para atingir seus objetivos e decidiu regressar à Europa para estudar. Nos anos seguintes, estudou gramática em Barcelona (1524) e assistiu aulas nas Universidades de Alcalá (1526) e Salamanca (1527). Nas horas vagas, Inácio continuou a mendigar para sua subsistência e começou a orientar, por meio dos Exercícios Espirituais e do ensino do catecismo, um grande número de pessoas que reunia nas ruas. Sua prática pastoral, sem completar os estudos exigidos para a pregação religiosa, e seu estilo de vida mendicante chamaram a atenção dos tribunais eclesiásticos e Inácio acabou processado e preso duas vezes (1527).^13 Já livre e declarado isento de erro na vida e na doutrina pela Inquisição, Inácio decidiu terminar seus estudos em Paris, onde finalmente conseguiu permissão para exercer sua atividade apostólica, sobretudo o ensino dos Exercícios Espirituais. Na França, estudou latim e humanidades no Colégio de Montaigu (1528); e artes e filosofia
se propõe essa forma legitimamente. Ocupando o primeiro lugar no Instituto, quanto à dignidade e autoridade, a Fórmula constitui a essência do direito pontifício da Ordem.^17 Além dos votos de castidade, pobreza e obediência comuns a todas as ordens religiosas, os jesuítas faziam um quarto voto especial de obediência ao Papa, pelo qual se comprometiam a seguir sem recusa ou demora a qualquer lugar para o qual o Sumo Pontífice os enviasse, para combater por Deus e servir somente a Ele a ao Papa, seu Vigário na terra. Não por acaso, a Companhia de Jesus logo se espalhou pelo mundo.^18 Mais que um simples gesto de submissão ao Papa, o quarto voto atendia a uma opção dos próprios jesuítas pelo universalismo, feita antes mesmo da aprovação oficial da Companhia. Representava também um apoio da nova ordem ao Sumo Pontífice e à fé católica, enfraquecidos pelo avanço da Reforma Protestante no mundo moderno. Contudo, é importante ressaltar que, apesar de inserida no contexto da Contra- Reforma, a fundação da Companhia de Jesus não se resume ao mito da formação de um exército a serviço do Papa para combater os heréticos protestantes. A atuação da Ordem dos Jesuítas extrapolou os limites das lutas confessionais da Europa do século XVI, propagando a fé católica em terras desconhecidas pelos seguidores do protestantismo e influenciando profundamente a história dos continentes por mais de quatro séculos. Posteriormente, a publicação das Constituições da Companhia como declaração da Fórmula confirmou a intenção dos jesuítas de se dispersarem pelo planeta, deixando inteiramente ao Sumo Pontífice o cuidado desta distribuição. Os inacianos enviados a qualquer lugar do mundo tinham como missão a defesa e propagação da fé e o aperfeiçoamento das almas na vida e na doutrina cristãs, por meio dos ministérios.^19 John O’Malley reconheceu quatro categorias maiores de ministérios dos Jesuítas, sugeridas pela Fórmula e explicadas em outros documentos. São elas: (1) várias formas de ministério da palavra de Deus como a pregação, as preleções sacras, a conversação e publicação, a catequese, as missões na zona rural e o ensino do Cristianismo e dos Exercícios Espirituais ; (2) o culto, orações e administração dos sacramentos, como a Eucaristia e a confissão; (3) certas obras de misericórdia; (4) e os colégios.^20
O texto da Fórmula também autorizava o estabelecimento, pela ordem recém- fundada, de suas Constituições particulares, elaboradas ou modificadas exclusivamente pela Congregação Geral. Composta pelo Superior Geral (o que governa todo o corpo da ordem) com o conselho de seus companheiros, a Congregação Geral é o supremo poder legislativo da Companhia. O Geral tem o poder de decisão do grau e do cargo próprio de cada membro, mas estará sempre dependente da maioria dos votos no conselho, tendo, porém, autoridade para esclarecer dúvidas sobre o Instituto na Congregação.^21 Eleito primeiro Superior Geral da Companhia de Jesus em 1541, Inácio de Loyola começou a escrever as Constituições em 1547, com a ajuda de seu secretário e de outros padres mais competentes. Para tanto, permaneceu em Roma até a sua morte em 1556, sempre revendo e aperfeiçoando as regras para a estabilização orgânica da ordem.^22
Na tentativa de manter a mesma imagem em todas as províncias da Companhia e, ao mesmo tempo, adequar as Constituições aos diferentes costumes das mais diversas regiões do mundo, o fundador apresentou o texto preliminar para ser discutido e ajustado a quase todos os membros mais graduados da ordem, em 1550. Após acatar inúmeras sugestões e observações, Inácio de Loyola finalmente entregou o texto final em 1553, para ser promulgado e aplicado dentro do contexto de cada província.^23 As Constituições ainda foram submetidas a uma última revisão, durante a reunião da Primeira Congregação Geral em Roma, convocada para eleger o sucessor de Inácio como Geral da Companhia, no ano de 1558. O texto das Constituições em espanhol foi confirmado e aceito por unanimidade pela Congregação, sendo traduzido para o latim e impresso em 1559, com a autorização do Papa Paulo IV e da censura do Vaticano. Escritas para detalhar cada ponto exposto genericamente na Fórmula em função da variedade de situações, as Constituições da Companhia de Jesus estão divididas em
estão em provação; (4) como instruir nas letras e em outros meios de ajudar o próximo os que permanecem na Companhia; (5) admissão ou incorporação na Companhia; (6) a vida pessoal dos que foram admitidos ou incorporados na Companhia; (7) as relações com o próximo daqueles que, depois de admitidos no corpo da Companhia, são distribuídos na vinha de Cristo Nosso Senhor; (8) meios de unir com a cabeça e entre si aqueles que estão dispersos; (9) a cabeça e o governo que dela descende; e (10) conservação e desenvolvimento de todo o corpo da Companhia em seu bom estado.^27 A última versão publicada das Constituições da Companhia de Jesus , renovada e aprovada pela 34ª Congregação Geral em 1995, traz como Normas Complementares elementos reformulados da legislação estabelecida depois pelas Congregações Gerais. Tiradas, principalmente, dos decretos das 31ª (1965-1966), 32ª (1974-1975), 33ª (1983) e 34ª Congregações, as Normas Complementares estão organizados sistematicamente segundo a ordem das próprias Constituições e com permanente referência a elas.^28 Pouco antes da sua morte, Padre Inácio ainda escreveu sua Autobiografia , ditada por ele ao padre Luís Gonçalves da Câmara, entre 1553 e 1555. Nela, ele narrou um resumo de sua vida até 1538, ano em que reuniu seus companheiros para logo formarem uma associação permanente. Inácio foi beatificado em 1609 e canonizado em 1622.^29 Já o Ratio Studiorum ou ―Método Pedagógico dos Jesuítas‖ não foi escrito diretamente pelo fundador, mas a pedido dele. Durante quase dois séculos, este Código de ensino pautou a organização e o funcionamento de um dos ministérios mais característicos e importantes da Companhia de Jesus: os colégios. A fundação de colégios para estudantes de fora da Ordem não fazia parte dos planos iniciais de Inácio de Loyola. Mas em 1548, a pedido dos oficiais da cidade siciliana de Messina, o fundador abriu o primeiro colégio da Companhia de Jesus com o objetivo de oferecer um ensino formal gratuito, inclusive aos estudantes da ordem, em
troca de alimentação, roupa e acomodação para os professores jesuítas.^30 Este arranjo não apenas resolveria o problema do financiamento da educação dos membros mais jovens da Companhia, como levaria instrução nas letras aos filhos dos fundadores de Messina. Para tanto, Inácio selecionou um corpo docente internacional e de raro talento, elegendo Jerônimo Nadal como Superior (ou ―Reitor‖) do Colégio. O sucesso do empreendimento foi tanto que incentivou a instituição de outros colégios, transformando a Companhia de Jesus na ordem associada à educação por excelência. Influenciado pelo movimento humanista e por sua própria formação acadêmica, Nadal adotou o método parisiense ( modus parisiensis ) de ensino. Baseado nele e nos primeiros resultados obtidos em Messina, o Reitor escreveu um primeiro plano de estudos da Companhia em 1551, logo enviado a Roma para ser aplicado nos outros colégios que iam se multiplicando pela Europa. Entre 1552 e 1557, Nadal percorreu quase toda a Europa, como delegado de Inácio de Loyola para explicar e promulgar as Constituições da ordem. Durante este período, ele também uniformizou a organização e o funcionamento dos colégios da Companhia então existentes em vários países europeus. Já como Reitor do Colégio Romano - a casa central de estudos da Companhia em Roma -, Nadal revisou o código de ensino escrito em Messina, elaborando um novo tratado entre 1564 e 1566.^31 O trabalho iniciado por Nadal foi continuado por Diego de Ledesma, encarregado de rever e ampliar o programa de estudos do Colégio Romano. Concebido como um plano grandioso que deveria servir de norma para todos os colégios da Companhia, a versão escrita por Ledesma, interrompida com a sua morte em 1575, representou a maior contribuição individual na elaboração do Ratio Studiorum definitivo de 1599. Apesar de recusarem incessantemente pedidos para abrirem novos colégios, os jesuítas fundaram com grande êxito centenas de instituições de ensino antes mesmo da promulgação definitiva do Ratio. Os colégios cresceram em número e também em importância; muitos deles, rapidamente se tornaram centros culturais da sua região. Entretanto, a diversidade de costumes e de ação do corpo docente em cada cidade introduziu alterações nas orientações do plano de estudos do Colégio Romano. Mesmo após a promulgação das Constituições, contendo as regras gerais para a fundação de colégios e universidades da Companhia, a necessidade de um código de ensino legal continuou evidente, para assegurar a uniformidade de orientação da crescente atividade
Abordando os mais variados temas e assuntos, de acordo com os interesses, as necessidades, as atividades e o grau próprios de cada membro na Ordem, as cartas jesuíticas não seguem um padrão único de redação. Contudo, dois pontos comuns a todas elas devem ser observados: a censura e a obrigatoriedade. Limitados pelas normas preliminares estabelecidas por Inácio de Loyola e, depois, pelas Constituições, os inacianos não eram autorizados a escrever livremente sobre suas obras e ações. As cartas tinham objetivos, funções e destinatários definidos legalmente; e muitas delas ficavam restritas ao âmbito interno e ao alto escalão da Companhia. As lacunas deixadas pela falta de acesso aos escritos censurados e pela limitação das fontes divulgadas constituem um obstáculo ao aprofundamento dos estudos sobre os Jesuítas. Ainda hoje, inúmeras cartas permanecem inéditas no Archivum Societatis Iesu Romanum , o Arquivo Geral da Companhia em Roma. Impostas a todos os outros escritos produzidos pelos jesuítas, as regras de censura tinham o objetivo claro de produzir uma determinada imagem da Companhia de Jesus, da qual os próprios jesuítas são os maiores responsáveis. Obrigados a seguir um modelo pré-estabelecido de virtude a partir do qual registravam a sua própria história, os jesuítas construíram uma autodefinição polêmica. A atração exercida pela ordem sobre aliados e inimigos resultou não apenas no fortalecimento institucional da Companhia e sua rápida expansão pelo mundo, como também no movimento de contestação aos inacianos de igual força e dimensão, inclusive no meio eclesiástico. Já a obrigatoriedade exigida dos inacianos em relação à correspondência epistolar não se estendia a todos os outros documentos produzidos pela ordem. Independente da habilidade ou vontade própria, o ato de escrever as cartas jesuíticas era uma imposição a ser cumprida, em função do voto de obediência comum a todas as ordens religiosas. Com a aprovação oficial da Companhia em 1540, os jesuítas logo se dispersaram pela Europa, Ásia, África e América do Sul. Preocupado em conservar a união entre súditos e superiores pelo vínculo da obediência e o controle da ordem à distância, Inácio de Loyola implantou como sistema de comunicação a correspondência epistolar. Por meio das cartas, o fundador pretendia manter o governo central informado sobre as atividades dos missionários pelo mundo e diminuir os efeitos da dispersão e da diversidade dentro da Companhia. Enquanto escrevia em Roma as Constituições, Inácio antecipou algumas regras para a redação e divulgação das cartas jesuíticas e instituiu dois tipos de missivas: a carta principal e as hijuelas.
Na carta principal, se narrariam apenas coisas ―edificantes‖, que pudessem ser mostradas a qualquer pessoa de fora da Companhia. E nas hijuelas , cartas privadas para serem lidas exclusivamente por membros da ordem, seriam relatados em separado o que não fosse edificante e ―outras particularidades impertinentes para a carta principal‖. Inácio definiu como edificantes os relatos das obras pias, pregações, confissões, missões e outras ações que apontassem para a presença divina e estimulassem a fé, a piedade e o aperfeiçoamento espiritual do próximo. E como impertinências os negócios, as doenças, e aspectos de ordem emocional como os sofrimentos e os sentimentos que deveriam permanecer reservados.^37 Antes de enviar cópias das cartas recebidas em Roma para outros jesuítas divulgando as atividades da Companhia no mundo, o Superior Geral ou seu secretário refaziam essas cartas, retirando delas tudo que não provocasse apoio e edificação. Com o rápido crescimento global da ordem e, conseqüentemente, do número de cartas recebidas e enviadas esta prática passou a exigir toda uma estrutura de registros, copistas, envios e arquivos. Numa carta enviada a Pedro Fabro em 1542, Inácio esclareceu como redigia sua correspondência, deixando evidente a sua preocupação com o julgamento da história:
Escrevo uma primeira vez a carta principal. Nela conto coisas edificantes e em seguida, examinando e corrigindo, considerando que todos a verão, reescrevo- a, ou mando escrevê-la outra vez, pois aquilo que escrevemos deve ser mais amadurecido do que aquilo que falamos... Obrigo-me a escrever duas vezes uma carta principal para que nela reine uma certa ordem (...)^38
Além da censura editorial praticada pelos Superiores, Sheila Hue acrescentou que, ao copiarem os originais das cartas para divulgação ou impressão, muitas vezes os copistas, tradutores ou editores modificavam o texto original, fazendo desde pequenos cortes até extensas alterações. Daí a existência de várias versões de uma mesma carta, de acordo com o objetivo de sua publicação ou a intenção de seu editor.^39