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ALBUQUERQUE, M.^ O^ processo^ interétnico em unìa feitoria quirrhentisln no^ Brasil.^ R¿vårra dc Arqueologìa. Sño Paulo, 7:99-123, 1993.
O PROCESSO INTERÉTNICO
EM UMA FEITORIA^ QUINHENTISTA NO BRASIL
Marcos Albnqilerque*
RESUMO: No início cla colonização portuguesa (^) no Bras¡l, foi instalacla ern 1516, por Cristovão Jaques, (^) no litoral rìorte (lo (^) Estado de Per¡lam- buco, uma Feitoria, corn a função cle proteção (^) contra as piratarias, e de servir de entreposto colnercial clas "riquezas^ da terra". A documentação textual ernbora localize inrprecisamente esta Feitoria, eln frente a parte sul da illn cle Itanraracá, pennitiu se arrtever a possibilidacle de uln estudo arqueológico cle um clos prirneiros contatos i¡rterétnicos no Brasil (^) co- lonial. A (^) ¡lesquisa arqueológica realizacla perrniliu (^) a localização e o aces- so à interpetação cle parte desta urriclade fr¡rrcional integrante (^) do siste¡na cotonial português no Brasil. A clistribuiçño es¡racial do rnaterial arqueo- lógico, tanto horizontal quanto vertical, l¡ern corrro a análise cle labora- tório, fonreceram elernentos significativos para o entendimento do con- tato entre portrrgueses e inclígenas, estes enì estágio tribal, beln corno clo processo cle fixaçâo lusitana lla área e o gra<lrral (^) desaparecinrento das populações n¡tivas.
Século XVL O mundo europeu prepara-se para enfrentar grandes
e significativas modificações (^) nos mais diferentes segmentos que o coln-
punha. Idéias novas, alterações cosmogônicas, ebulição nos meios reli-
giosos que se (^) encontravanr relativamente apaziguados com a concilia-
ção entre^ a^ razão^ e a^ fé,^ obticla através^ cle^ Tornás^ cle^ Aquino^ em^ séculos
anteriotes; a Ciência ernbrionária conft¡nclindo-se coln a bruxaria; a
estagnação do pensamento criativo, corrobofacla por franciscanos e
dominicanos, mas que clescle o século XIII já^ apresentava conflitos
internos, haja vista a previsão de urn cle seus (^) monges, Roger Bacon, acusado cle btuxatia por efetuar experiências físicas e químicas.
Icléias nrais arrojadas surgiram no ntunclo europeu, na segunda
metacle clo século XVI. Idéias como as de Francis Bacon (L56L-L626),
* Universiclaclc Fedederal de Penlnlllbuco.
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ALBUQUERQUE, M.^ O^ proccsso^ interétnico em^ urìì¿r^ feitoria^ quirrhentista^ no Brasit.^ À¿vrsta tle Arqueologia. São^ Paulo, 7:99-123, 1993.
que admitia a coexistência entre aspectos lnateriais e espirituais, otl as
idéias de Descartes (1596-1650), que procurava ulna concepção global para todas as ciências. Aspectos estes que são cle suma itnportância
para a compreensão cla época que será tratacla, em virtude cle suas
concepções se apresentaretn opostas às cle^ Aristóteles que constituíanr-
se eln um dos susteutáculos da Igreja de então. As novos icléias apre-
sentavam-se de^ forma incipiente^ e^ conflituosa^ no^ início^ do século^ XVI,
molnento enì que a Europa foi ainda abalada pelas viagens de Marco
Polo, Colombo, Cabral,^ e^ outras viagens que^ se^ sucecleram^ nos^ pri-
meiros anos do século XVI e desempenharam^ ufir^ papel^ catalisaclor^ no
processo cle transformação clo ideário europeu cle então. Transforma-
ções que se^ fizeram uotar^ nas concepções^ cle^ "tnunclo",^ cle^ "faça",^ de
"clllturas", cle "cosmogonias".^ Viageus que vieram a alterar o^ rumo^ da
econotnia eutopéia tros séculos subseqiielrtes.
Iniciava-se, uos pritnórclios clo século^ XVI, sobretudo^ cotn^ os
descobritnerrtos clas Atnéricas, urn fetrôtneno intercultural, que^ poste-
riormente claria surgiurento à cotrstituição cle^ utn "Sistenra Murrclial".
A Europa, treste períoclo, já^ se encolrtrava eln pleno^ processo^ cle
articulação econômica, cotrstituitrclo-se eln ulì1 sistetna razoavelnretrte
integrado, uo qual havia tuna tranra cle relações econôtnicas entre^ as
diferentes unidacles acltr-riusitrativas que^ emergiratn após a^ quecla^ do
Irnpério Rotnano. Essa trarna de relações, que^ interligava sistetnatica- nrente a Europa ao Oriente, não tinha, até etrtão, incorporado as Amé- ricas.
Do mestno moclo que se fez uso clo conceito cle sistema para
clelineanrento de um quaclro colnpreensivo cla trama de relações eco-
nômicas entre as^ unidades aclmiuistrativas que,^ cla^ Europa ao Orietrte,
emergem após a^ quecla^ do^ poder^ ronlano,^ pocle-se^ enfocar sob^ utna
ótica sistêmica as relações entre os grupos que^ até o^ século^ XVI^ ocu-
pavam as Américas. Não se pretende^ cleste moclo afinnar ou^ tnesmo
propor (^) a existência de uma econornia integrada, ou rneslno amplatnen-
te articulada, colrÌo no caso da econonria clo Sistema Europeu, mas
sugerir que, através do cotnércio cle longa distância, clos cleslocamentos de Inassas, clas próprias guerras sistematicalnente encetaclas, das rela-
ções aincla que tênues,^ entre^ os cliferentes sisternas^ culturais,^ abrangeu- clo tribos, estados autigos, ou meslno envolvenclo grupos^ de caçaclores,
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ÂLBUQUERQUE, M. O processo irrterétnico euì urìrÍr feitoria quinlrerttista no^ Brasil.^ .Revisf¿ de Arqueologia. Sño Paulo, 7:99-123, 1993.
cidos principalmente com tribos e bandos que^ se localizavatn na ver-
tente atlântica da Arnérica do Sul.
O Sistema Atnericano, portanto, configurava-se de^ fortna^ bastante
diferenciadâ, o que^ traria reflexos nas relações, nas modaliclacles^ de
contato estabeleciclo. Os^ subsistemas^ de^ defesa,^ socialização, ideoló-
gico, etc., dos grupos mais complexos com os quais contataram os
espanhóis, diferiarn substancialmente dos congêneres encontrados^ pe-
los portugueses. As cluas clistintas realiclades, em uma visão^ macro,
estimularian processamentos diferenciados entre a nova orclem sistê-
mica que se estabelecia. Os portugueses, após 16 anos clos descobrimentos, estal¡eleceram-
se na América, no^ litoral^ uorte do atual^ Estaclo^ cle^ Pernambuco,^ através
cla instalação,^ por Cristovão^ Jaques,^ cla^ primeira Feitoria^ Real^ uo Bra-
sil. O estudo^ arqueológico^ da^ átea^ eln^ que^ se^ instalou^ esta^ Feitoria,
objeto central cleste^ trabalho,^ reflete^ a^ preocupação^ voltada^ Para o
entenclimento cle^ um^ clos^ prirneiros^ contatos^ cle^ méclia^ duração^ entre
portugueses e indígenas no Brasil, alérn cle representar a oportunidade
de avaliação clo processo^ clesenvolvido^ por^ ocasião^ clos^ ptimeiros^ con- tatos permanentes entre europeus^ e^ indígenas na costa leste da^ América
do Sul.
A feitoria de Cristovão Jaques^ e^ o^ sistenta^ colonial^ português
Os primeiros anos após o clesetnbarque cle^ Cabral^ nas^ terras^ ame- ricanas, foram lnarcaclos por uma ação muito moclesta cle Portugal. As
expeclições cle^ reconheciurento^ cla^ costa,^ (t501^ e^ 1503),^ davam^ conta
cle que, do ponto cle vista do interesse tnercautilista, a costa atlântica
não apresentava^ atrativos imecliatos.^ O^ Trataclo^ cle^ Torclesilhas,^ que
legava a Espanha e Portrtgal^ as^ terras a^ Oeste^ cle^ Cabo Vercle, confere
a estes reinos toclo o contiuetrte atnericauo.
Envolvido clescle^ o^ século^ XV^ em^ ulna crise interna^ de^ crescimen-
to, o aurneuto cla população portuguesa se^ reflete na^ ampliação^ da
população urbana, pronrovenclo^ o^ crescitnento^ clas^ cidades. Paralela-
nrente, a monetarização da agricultura promovia uma crise rural, com
o empobrecitnento da aristocracia.
ro
ALBUQUERQUE, M. O (^) ¡rroccsso interétnico enr urììa feitoria quirrhe¡rtista no B¡asil. R¿visfa de Árqueologio. Sño Paulo, 7:99-123,1993.
A econotnia urbana, funclamentalmente relacionacla ao comércio,
encontrava-se alicerçacla nos produtos provenientes clo Oriente. Deste comércio resultou a retenção do ot¡ro português, que veio a constituir
"os tesoufos orietrtais", que não tornavam a circular nos meios nrer-
catrtis. A retenção clo ouro no Oriente, associaclo a monetarização da
agricultura, couduziu à carência cle metais, exiginclo de Portugal novas
fontes de aporte de ouro. Por outro laclo, o cotnércio cle longo curso
coln o Orietrte era clis¡renclioso e onerava consicleraveltneute os bens
aclquiriclos. Ora, o sistema econôrnico português, que já^ era controlaclo
pela burguesia, defrotrta-se colrl cluas sitrrações extrelnarnente conìpto-
metedo¡as par¿ì o seu equilíbrio: o alto custo cla mercacloria e o etn-
pobrecinento cla aristocracia, seu principal consumiclor.
O clesequilíbrio clo sistetna ecotrôrnico português operou colno
elemeuto cle (^) retroalitnetrtação clo mesmo, na busca de uur reequilíbrio.
Deste ntoclo, descle o século XV, Portugal persegue o objetivo de
encoutrar lìovas foutes para o courércio. Este objetivo coufigurou-se
quer pela busca cle (^) um acesso (^) nlerìos olìefoso para (^) o Oriente, quer pela busca cle (^) fotrtes alternativas par¿ì (^) as especiarias, visanclo aincla a cles- coberta cle (^) nretais preciosos.
A trova^ rota^ para^ o^ Oriente, que^ contornava pelo nrâr o sul cla
!^.
Africa, iria peruritir^ ao sisteun econôlnico 1:ortuguês utna altenrativa
à onerosa rota terrestre. Esta perspectiva atraiu cle tal forma as atetrções
portuguesas que as novzrs terras clescobertas tla Aurérica foratn prati-
catnente relegaclas ao abanclono.
Em sua clinâmica, etrtretanto, o Sisteura Europeu não conrparti-
lhava clo clesinteresse português. Deste rnodo, o aparente equilíbrio
proporciouaclo pelo Trataclo cle Tordesilhas quanto ao dornínio clas ter-
ras atnericanas é substatrtivarnente abalado, na oportuniclacle ern que
outros povos, integrantes do Sistenla Europeu e alijaclos clo clorlríl-rio
clas Auréricas pelo refericlo Trataclo, reiviuclicavarìr o clireito cle ex-
ploração.
A exploração^ clas terras atnericanas, pertenceutes^ a Portugal, por
parte de outros povos, foi tentacla tanto 1>or vias legais conìo pela ação
cle flil¡usteiros que^ "infestavaln" a costa, negociando os produtos cla
terra corn os inclígenas. As contíuuas itrvesticlas cle outros povos, sobretudo franceses, itr-
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ALBUQUDRQUE, M. O processo i¡tterélnico erìì r.una (^) fcitoria quinhelrtista no Brasil. Revisf¿ dc Arqteologia. Sio Paulo, (^) 7:99-123, 1993.
até o ano de 1535, quando chega Duarte Coelho, primeiro Donatário
cle Pertmmbuco, que iria desencaclear um processo de ocupação e po-
voamento clas novas terras. Sabe-se aincla, que em colìseqüência (^) clos sucessivos ataques franceses à Feitoria, Pero Lopes (^) de Souza manclou
levantar unr forte próximo^ à Feitoria com o objetivo de resguardá-la.
Este forte, cotrforme a clocunrerrtação resgatacla, provavehnente teria
siclo construíclo em madeira. A fortificação nas proxirnidades cla Fei-
toria continua senclo rnencionada até a retiracla dos holancleses em
O litoral sul clo atual Estado de Pernanrbuco é mencionado por
diferentes documentos do século XVI, antes lnesrno cla clivisão do
território etn Capitanias. Conclições favoráveis à aportagem, reconhe-
cicla clesde o início clo século XVI, concluziran a que a áreas nas
proxirnidades cla Ilha de Itarnaracá fosse registracla na cartografia por-
tuguesa, pelo nrenos já^ em 1519, no planisfério feito em Sevilha e
atribuído a Jorge Reinel, e num dos mapas clo Atlas cle Lopo Honrenr
de Peclro e Jorge Reiuel, cerca cle l5l9-22.
O "porto cle Pernarnbuco" é assinalaclo na porção continental, em
freute cla barra sul clo catral que separa a ilha de "Ascensão" (Itama-
racá). Próximo a este porto, em 1516, fora lnanclaclo Cristovão Jaques
erguer "urna casa cle rninha feitoria" para o "trato clo pau-brasil". Refe-
renciais cartográficos, bern coltÌo cloculnentos textuais, registram a cle- notninação Pernanrbuco (com varizintes) para o porto (^) e algunras vezes
referinclo-se à baía. O vocábulo é cle origem Tupi
possivelmente
Paranã-buc - furo ou arrebentação clo mar, entretalrto a ilha foi "l¡a-
tizacla" corn lìolne cristão "Ascensão". Fosteriortnente fixou-se tatn-
bétn para a ilha o topônirno cle origern Tupi, Itarnaracá. Pocle-se inferir
pela acloção do topôuimo cle origem inclígena, que já^ nas prirneiras
abordagens a estas terras, havia-se estabelecido contato com os inclí-
genas locais, claí o enr¡rrego clo vocábulo Tupi.
Docunrentos históricos praticarnente não fazetn mençño à presen-
ça inclígena nas^ irnecliaçöes cla^ Feitoria,^ entretanto^ é^ cle^ se^ supor^ que
o "trato^ clo pau-brasil" se fizesse colr a participação dos inclígenas
conlo ocorria em outros portos, seja corn portrrgrteses, seja conr fran-
ceses, algunras vezes refericlos corÌro rnais hábeis que (^) os nossos cles- cobriclores (^) no trato colì1 os itrclígenas. Deste moclo, lresta nova fronteira
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ALBUQUERQUE, M. O processo^ inlerétnico enì urna feitoria quinhentista^ no Brasil.^ rt¿visl¿ de Arqucologio. São Paulo, 7:99-123, 1993.
da expansão lusitana, pode-se^ supor^ que a^ rnodaliclade^ de contato em-
pregada, pelo menos cle início, seria do tipo comercial e pacífico, onde
os índios forneciam aos portugueses os produtos de seu interesse.
As referências históricas, etnográficas e arqueológicas, assitn co-
mo a confluência lingüística do termo Pernambuco para aquele porto,
permitem supor uma maior probabilidade cle que os inclígenas que
teriam participaclo dos^ prirneiros^ contatos^ na Feitoria,^ fossem Tupi.
Por outro lado, relato etno$istóricos dão conta de que os índios que
compartilhavam a Ct¡ltura cle Floresta Tropical, na clesignação de Ste-
ward (1948),^ conro se^ atril¡ui^ aos^ Tupi,^ mesmo^ antes^ da^ influência
colonizaclora, estavanr^ provavelmente afeitos^ à^ prática^ do^ comércio,
deslocanclo-se eln suas canoas à^ lougas distâncias, levando^ seus^ pro-
clutos. Deste tuoclo, o contato comercial coln os portugueses não esta-
ria conrpletarneute fora dos padrões^ culturais iudigenas, o^ que^ facili-
taria seu estabelecirneuto.
fnteresse histórico pela área
Descle o século anterior vários historiadores têm clemonstraclo^ in- teresse eur estuclar a região. Urna sucessño cle acontecimentos envol-
vendo este local corroborou para o incremento deste interesse. Dentre
eles clestaca-se o fato cla Feitoria, funclacla etn 1516, ter servido de
referencial para a iustalação dos rnarcos clivisórios entre as Capitanias
cle Pernambuco e cle Itamaracá. Foi aincla treste potto que clesembarcou
o prinreiro Donatário cle I'ernalnbuco, colno aincla aquelas que o acolìt-
panhavatn com a missão de clar início ao povoamento cla Colônia. A
necessidacle de garatrtir a fazenda real arnrazenada^ na Feitoria,^ conclu-
ziu Pero Lopes^ cle^ Sonza,^ etn^ 1532,^ a^ tnanclar^ contruir^ unr^ recluto
contra os ataques franceses, que^ por^ cluas^ vezes^ a saquearatn. Esta
construção por seus objetivos, representa o iuício da irnplantação de
um sistema cle clefesa da costa brasileira. Por ocasião da ocupação
holanclesa, a área é novanrente fortificada, teudo siclo instalaclo um
forte para garantir a passagem cla barra dos Marcos, topôtritno que
persiste aincla nos clias atuais. Os produtos^ cla terra americana aclquiriclos pelos europeus através
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ALBUQUERQUE, M. O processo interétnico crìì urììa feitoria qrrirrlrentidta no Brâ3i[. Rcvrsla de Arqucologia. Sño Paulo, 7:99-123, 1993.
tipo cle fenômeno é bem mais abrangente, e pode ser entenclida tauto
no senticlo clas interrelaçoes entre povos europeus, qÌranto^ naquele,
entre clistintos gnrpos que ocuparam o colttiltente americatro^ no^ século
XV ou nlesmo a 3.000^ a.C.
As transformações lìo^ processo^ histórico^ dos grupos hutnanos^ na-
tivos clas Américas, procluziclas^ pela^ chegacla^ de^ europeus^ Ro Novo
Munclo, têm^ sido^ freqüentemente^ mencionadas^ tanto^ em^ estudos^ his-
tóricos, quanto arqueológicos. Entretanto, no estudo clas relações entre europeus e^ inclígeuas,^ têm merecido^ atenção^ diferenciacla aquelas^ que envolvem os estaclos antigos americanos e o sistetna colonial espanhol,
ainda que os estudos envolvenclo outros impérios coloniais, estejam
setrclo tambem clesenvolvidos. De fato, o estuclo clo processo cle transformação do moclo de vida
dos grupos americanos sob^ iufluârcia^ dos sisteluas^ culturais^ europeus
tem rnostrado^ resultaclos^ diferenciados.^ A^ acloção^ de^ elementos^ clo^ mo-
clo cle vida europeu é bastante diferenciado entre os gnrpos americauos,
e por^ vezes atinge mais efetivanìente^ apelìas^ parte de sua^ estrutura.
Pode-se observar que existe urna^ significativa diferença^ entre^ os contatos estabelecidos sol¡ orientação religiosa e^ aqueles^ promovidos
por leigos. Mestno que as instituiçoes religiosas tenhatn agido sob os
auspícios clas irrstituições governamentais,^ as diferenças^ cle itrteresse,
cle olrjetivos a^ serem alcançados^ entte^ umas^ e^ outras^ é^ evidente. Foi
assitn na orientação^ clos^ cotrtatos^ clos^ espanhóis^ cotn^ as^ culturas stll-
americanas, eln colnparação^ com^ as^ tnissões clos^ Sete Povos,^ por
exemplo. Eviclentelnente, este exemplo abrange grupos cle cotnplexi-
clacle cultural notaclamente cliferenciacla, e que^ se enquadrariatn em
categorias teóricas cle contatos clistir-rtos. Entretatrto, o processo cle se-
cularização clas missões^ eviclencia^ a^ clistinção entre os^ objetivos^ cle^ uts
e de outros.
Os efeitos clos contatos através clo^ processo^ cle^ aculturação^ diri-
gicla, promovido pelos espanhóis, tem sido objeto de estudo itrtegraclo
cle cliferentes áreas. Sol¡retudo as tnissões franciscanas^ da^ Califónria
têm siclo objeto cle um atnplo progralna^ cle^ pesquisa^ envolvenclo^ estu-
clos etnohistóricos, antropológicos e arqueológicos. Por outro laclo,
não se^ tem^ estabeleciclo^ um^ progratna^ cle^ estuclos^ especificamente^ vol-
taclo ao processo^ cle^ muclança^ cultulal^ entre^ os^ grupos^ alnelicanos^ clo
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ALBUQUERQUE, M. O processo (^) interétnico etn unìa feitorir quinhentisla no Brasil. iR¿v¿sla de Arqucologia. Sño Paulo, (^) 7:99-123,1993.
sul, promovidos^ pela ação colonial portuguesa. A classificação esque-
mática do processo de aculturação nas Américas, proposta por Service
(1955), (^) está fundamentalmente alicerçada no quadro (^) atual das popula- ções e sistemas^ culturais^ sul-americanos.^ Está^ voltada basicamente^ pa- ra o munclo espanhol da América, entretanto, rnuitos (^) de seus conceitos
poderão ser válidos para aplicação no mundo lusitano.
A ação portuguesa em relação aos grupos indígenas variou em seus
métodos ao longo clo espaço, e sobretudo ao longo do tempo. Uma
sucessão de postos comerciais, rnilitares e (^) religiosos foram utilizados,
isolada ou conjuntamente, ampliando as fronteira do sistema colonial
português. Variou, ainda, em função dos objetivos buscados e da estra-
tégia empregacla nos cliferentes casos. Ao que parece, a intensidade clas
reações ao contato, neln selnpre esteve em relação direta com a proxi-
rnidacle física clos grupos, ou seja, não se restringiu ao contato direto
entre os gmpos alnericanos e europeus. Posey (1987) estudando a
transtnissão inclireta cle cloenças (^) européias entre grupos (^) que não tinharn siclo contatados, chama a atenção para (^) os efeitos cla interferência a longa
clistância. Ou seja, o contato indireto, quer por via cle outros grupos,
quer aqueles em que os animais seriam transrnissores (^) indiretos de cloen- ças, e^ que teriatn promoviclo^ fortes^ repercussões^ na^ clensidade^ popula- cional (^) cle grupos não contatados diretarnente. Etnbora muitos pesquisaclores^ se terrham ocnpaclo (^) enr estudar as conseqüências da introclução cla cultura européia através de portugue-
ses no Brasil, os estuclos relativos ao processo cle muclança cultural
não foram ainda significativanrente clesenvolvidos.
No Brasil, áreas como a Etnologia, a Arqueologia e a História,
que (^) traclicionalmente cleserrvolveln tais estudos, parece que buscaram
se ater a rnornentos clistintos entre si: a História ocupando-se primor-
dialmeute com a sociedacle colonial, pouca atenção enrprestando às
sociedades uativas; a Etnologia centranclo a atenção nas socieclades
indígenas, buscanclo sol¡retudo entenclê-las em si próprias; a Arqueo-
logia em parte, voltacla às socieclacles indígenas e suas distribuições
espaço-temporais (^) e em parte, voltacla aos sítios históricos, (^) enfocando
a sociedacle colouial. Tenr-se ainda um pequeno número de estudos
arqueológicos voltados para os contatos entre as sociedades colonial e
indígena.
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entre a^ ilha e o continente à^ altura da barra, mantendo esta posição no
sentido oeste. Este canal afasta-se clo continente à altura cla (^) desemboca-
dura clo^ rio Igaraçu, para em seguicla aproximar-se cla costa continental,
em urn trecho^ cle aproximadamente^400 metros, lnornerrto eln que
começa a assumir a clireção No¡te. Nesta direção, prossegue colrtornan-
do a Ilha, distanciatrclo-se do cotrtinente. Aparentemente cotrfusa, a suA
identificação, bem como a sua navegação, inclusive por^ barcos de tnaior calaclo, é extremamente sinrples para os conhecedores da região.
O trecho clo litoral eln que o canal se encontra afastado da costa,
tanto na ilha quanto^ no continente, apresenta-se coberto por^ ÌJrn clepó-
sito de grã muito fiua, cle pouca profuncliclacle, emerginclo nas marés
baixas. A cartografia cla época iclentifica esta áreas colno "baixios",
portanto (^) inadequaclos para a aportagern.
Após o reconhecimento cartográfico/textual da área, foi clesenvol-
viclo utn levantatnento cle c¿ìlrlpo que estetrcleu-se ao longo clo litoral,
no sentido Norte/Sul, abrangenclo urna faixa de 400 metros de terra
finne à borcla clo Canal.
Esta prospecção inicial objetivou a iclentificação cle vestígios ar-
queológicos que remolrtasseur ao século XVI, bem colno a localização
do marco divisório clas Capitanias. Esta tarefa apresentou resullaclos
positivos tro trecho elÌl que, clo ponto cle vista geonrorfológico, aten-
cleria à conclição de porto buscacla pelos portugueses. O ciesbarranca-
mento procluziclo pelas águas clo Caual, punha à mostta farto rlraterial
arqueológico proveniente cle clois sistetnas culturais clistintos: o portu-
guês e o ameríndio. Face a esta coustatação, o local foi selecionaclo
para o proceclitnetrto cle escavações sisteuráticas, que foraln realizaclas
en 1967 (Albuquerque,^ 1969, 1982, 1984).
As escavações arqueológicas revelaraln, através cla análise estra-
tigráfica e do material arqneológico, que se tratava cle unr sítio no qual
as camaclas mais profunclas registraranr uln contato irrterétrrico que
rentontava ao século XVI. Um outro potrto tanrbérn eviclenciacJo coln
as escavações, é o fato cle que a sua ocupação (^) se prolongou pelo século
subseqtiente, atinginclo possiveltnente o século XVIII, mourento em
que o sítio teria siclo al¡anclonaclo, não se eviclencianclo registro cle urna
ocupação posterior cle asselrtarnento no local.
Cotn base na análise clo registro arqueológico, pocle-se observar
ill
ALBUQUERQUE, M.^ O^ processo^ interétnico ent untâ feitoria quinhentisfa no^ Brasil.^ /t¿r'isfa dc Arqucologia. Sño Paulo, 7:99-123, 1993.
que, quando da chegada clos portugueses na área, o^ terraço^ sobre o^ qual se itrstalararn, apresentava uma cota mais^ baixa,^ ern^ méclia cefca^ cle^2 ll1.
Por outro lado, observou-se ailrcla^ que^ possiveltnente^ este^ terraço^ se
prolongava em direção ao canal,^ mostrando-se^ tnais largo^ cerca^ cle^ 5 m.
Em muitos pontos^ do^ terraço,^ o^ arenito que^ lhe^ servia^ cle^ l¡ase^ se
encontrava afloraute. A análise cla estratigrafia^ do sítio,^ clo^ ponto^ cle
vista cla sua formação, clemonstrou que a área se cotrstitui^ eln^ utn local
de acumulação receute, trão tenclo entretanto, origem^ maritilra,^ como
assinala a cartografia geomorfológica atual. Sua classificação geomor- fológica como terraço marinho é perfeitarnente conrpreensivel,^ consicle-
ranclo-se a generalização empregacla à^ escala elìr que^ a^ área^ foi^ tnapeada.
Errtretanto, a constatação cle urna origetn contilrental do^ seclitnento que
constitui aquela porção clo "terraço", assllme utn itrteresse^ particular-
rnente itnportante ua análise do processo^ cle instalação clos^ portttgueses. Eviclentemente, ao se analisar a clistribuição vertical^ clos^ elementos^ clo conteúdo do sítio, chama a ateução, o fato cle utn material arqtreológico
dataclo cle cerca de 476 auos^ BP,^ esteja sob^ utn^ pacote sedituentar^ de
aproxitnaclamente 2In, em algutts pontos.^ A^ posição^ cle^ acanratneltto^ clo
conjunto dos artefatos naquela profuncliclade,^ exclui^ a possibiliclacle^ cle uma migraçño vertical clos rnestnos.^ Talnl¡étlr,^ a cor(esponclêucia^ eutre a seqüência estratigráfica registradâ^ Para as^ peçâs, e a^ cronologia^ reco- trhecicla para^ os^ artefatos,^ concluzetn^ a^ afastar-se^ a^ possibiliclacle de que a migração vertical^ clas^ peças as^ teria^ levaclo^ a clescelrcler^ até a^ profun- didacle registrada, que^ eln^ alguus pontos atinge o areuito.^ Descartacla^ a
hipótese cle rnigração clas^ peças,^ há^ que^ se^ acltnitir^ que^ o^ pacote sedi-
nrentar se teria fotmaclo entre os séculos^ XVI^ e^ XX;^ e^ explicar^ o^ fator
que teria levado a cleseucadear o increnrento na velocidacle^ do^ processo morfogenético.
Consideranclo-se alguus elementos relacionaclos às^ práticas^ de
comportamento que poclem^ ser infericlas^ através^ cla^ clocumetrtação^ tex-
tual, pode-se^ adnritir^ que^ a^ instalação clo^ elelneuto europeu em^ ultta
cleterminacla área era acompanhacla por^ unìa prática^ cle^ clestnatalttettto,
seja para o uso cla rnadeira para construçño, seja para^ o^ uso de^ lenha
como cotnbustível, ou seja aincla para silnplestnente afastar^ cle^ seu
assentamento "o^ perigo na proxirniclade^ colìt^ a^ lnata"^ (Freyre,^ 196l).
Possivehnente a aceleração clo processo seclilnentar que^ constituitl^ o
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ALBUeUEReUE, M.^ O processo^ interétnico enì^ urnÍì^ feitoria quirrltentisla no^ Brasil.^ R¿vlst¿ de Arqucologia. Sao^ Paulo,^ 7:99-123'^ 1993.
material utilizado na^ construção^ cla^ estrutura mais^ antiga,^ inclui^ além
de pedra consolidada por^ argamassa^ de^ cal,^ fragtnentos^ de^ telhas.^ A
estrutufa mais recente além do^ material^ citaclo^ inclui^ ainda fragmentos
cle tijolos. Observa-se ainda uma^ nítida^ diferenciação nas^ argamassas
de cimentação,^ aincla^ que^ em^ ambas se tenha^ utilizado^ cle^ cal^ prove-
niente da^ calcinação^ de^ conch.as^ de moltlscos.^ Pode-se^ observar con- chas que^ escaparaln à^ trituração,^ em^ meio^ cla^ argatnassa.^ Vale salientar
que, segunclo a^ clocutnentação^ histórica,^ as^ coustruçöes^ portuguesas
em Pernambuco, sobretuclo^ no^ século^ XVII^ caracterizavatn-se pelo
uso da taipa e^ cla^ peclra^ rejuntada^ com cal. O^ uso^ do^ tijolo,^ foi^ pouco
significativo no^ conjultto,^ a^ pouto^ cle^ ter^ siclo^ o^ emprego^ cle^ tijolos
utilizaclo como^ eletnento^ cle^ clistinção entre^ as^ construções^ holanclesas
e portuguesas.^ Por^ outro^ lado,^ coln^ base^ na^ iconografia,^ percebe-se
que o uso da telha^ cle^ barro cozido^ se^ fazia^ presente^ meslllo^ nas colls-
tiuções cle^ taipa.^ A^ palha era^ aincla^ utilizacla na cobertura^ deste^ últirno
tipo cle construção.^ É^ cortt^ a^ presença holallclesa^ em^ Pernâlìtbuco^ que
se clifutrclem as^ constrttções^ etn^ tijolos,^ que^ iniciahnente eratn iurpor-
tados cla Europa^ e^ posteriorlnente^ procluziclos^ em^ lnaior^ escala^ na^ re-
gião, Vaie salieutar que o^ lnaPa^ cle^ Moreno, de^ 1609,^ em que relaciotla
as pfaças fortes do Brasil,^ assinala^ tla^ Il[a^ de^ Itamaracá,^ uma^ olaria,
elrtretanto, ttão faz tnençño à^ fortificação^ que^ teria sido^ levantacla^ por
Pero Lopes de Sousa pafa garantir^ a^ Feitoria.^ Tarnbém não menciona a Feitoria. Segunclo a^ clocuurentação^ textual, dois tipos de^ construção
teriam sido edificaclas na^ área:^ a Feitoria^ e o^ forte.
os alicerces em ruílla^ evidenciaclos^ pelas escavações^ arqueológi-
cas não representatn^ a^ totaliclade^ cla^ estrutura^ original.^ O^ alicerce^ da
parede sul, no setrticlo leste-oeste foi^ eln^ parte^ relnoviclo, bem colllo
foi removido parte^ clos^ alicerces das^ parecles^ nofte^ e^ oeste.^ No^ seu
conjunto a estfutufa permite iclentificar^ clois vãos^ de^13 e^ 33,75^ rn2,
respectivamente; entretanto apesar^ clas^ mutilações pode-se^ observar que a estrutura coutinuava ern^ direção^ ao canal.^ Não^ é^ possível^ aincla urn diagnóstico seguro qrìanto^ à^ função^ da estrutura fepresentacla pelos alicerces exutnaclos,^ face^ às^ mutilações^ que lhes^ foram^ imputaclas.^ Eu-
tretanto, consicleranclo-se a^ clisposição^ e^ alììplitude^ clos^ vãos,^ não^ se
deve afastar a hipótese cle^ tratar-se^ cle^ uln^ recluto.^ O fato^ clos^ alicerces
terem siclo em parte^ removidos, pode-se^ atribuir^ a^ uma prática^ colnun
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ALBUQUERQUE, M. O processo^ interét¡rico em urna feitoria quinhentista no Brasil. R¿yisl¿ dc Arqucologia. São Paulo, 7:99-123, 1993.
de re-utilização do material de construção. Esta mesma prática pode
justificar o fato de os alicerces não estarem à superfície, mas a 40 cm
de profundidade.
Reflexos do contato através do material arqueológico
A análise do conteúdo do sítio arqueológico permite se inferir
que por ocasião da instalação da Feitoria, o local escolhido não cor-
responclia a um assentamento inclígena. Entretanto, haveria habitações
indígenas nas proximidades e possivelmente o contato entre europeus
e inclígenas precedeu^ a itnplautação da Feitoria. Tais contatos devern
ter siclo anristosos, vez que^ além de não haver menção nos clocumen-
tos a conflitos com os indígenas, a associação entre o material indí-
gena e o colonial já^ nas camadas mais antigas reflete urn possível
intercâmbio entre os grupos.^ A análise do conjunto do registro arqueo-
lógico reflete aincla alguns aspectos relacionados ao processo de acul-
turação. Iniciahnente observa-se que^ existe urna uniformidacle tecno-
lógica no conjunto de cerâmica utilitária portuguesa (produzida em
argila). As variações observadas se refleteln apenas na incidência pro-
porcional clas fonnas. Não se tem indícios de que a cerâmica (^) colonial
tenha siclo em qualquer momento de fabricação local, antes sugere,
que tenha sido aportada da Europa. A cerâmica indígena, entretanto
apresenta algutnas variações ern terrnos tecrrológicos. Estas alterações não são cle caráter brusco, antes se apresentarn (^) cle modo graclual. São determinadas por alterações (^) em operações essenciais, o que resulta em uma perda gradual na qualiclacle^ do produto à medida que se prolonga
o contato. Entretanto, esta perda de qualiclacle não reflete necessaria-
mente uma tentativa de assirnilação de paclrões portugueses, seja na
forma, seja ua clecoração. Reflete-se sobretudo através do que se po-
deria chamar de unr cleclirio no esmero, na elaboração do vasilhame;
a cerâmica se tornou mais grosseira.
Um outro aspecto a ser consideraclo em tennos das relações inter-
culturais, está relacionado à função clos vasilhames indígenas (^) resgataclos
no sítio. A maior incidência recai sobre as formas de contenção de
alimento sóliclo. São tijelas quadrangulares (^) e circulares corn decoração
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ALBUQUERQUE, M. O processo interétnico enì ulììa feitoria quinhelrtista no Brasil. R¿r'rsl¿ de ArqueologÍa. São Paulo, 7:99-123, 1993.
português à economia do sistema mundial. Este sítio, no entanto, não
fornece dados diretos acerca cla interferência do contato no sentido de
avaliar-se efeitos sobre as culturas locais pela integração ao sistema.
Do ponto de vista europeu, esta integração parece ter tido naquela
ocasião um caráter bastante frouxo, flutuante lneslno, vez que encon-
tram-se referências que (^) clão conta de que a interação indígena se al- terna entre portugueses, (^) outros grupos das urriclades clo sisterna euro-
peu principalnrente franceses. Esta alternância é registracla eln um
lneslno ponto do litoral, o que pennite supor que os contatos portu-
gueses e franceses, no caso, tertham sido estabeleciclos coln o nlesltìo
grupo.
As referências textuais clestacam que o principal objetivo colner-
cial português seria o pau-brasil, "feitoria para o trato do brasil", en-
tretanto, não teria sido este o único elenrento aclquiriclo pelos (^) europeus.
No caso do contato coltl os fralrceses, Pereira cla Costa (1985)
registra que (^) "A nan La Pelerine partiu corrduzinclo uru irnportante
carregalnelrto, que montava ern cinco nril quintais de pau-brasil, tre-
zeutos de algodão, seiscentos papagaios, três rnil peles de animais,
trezentos macacos e muitas outtas bugiarias".
Entretanto registra tanrbérn que "a nau eutrou pela barra clo rio
Jussará, ou Santa Ctuz, furrdeou em frerrte à ilha cle Itamaracá, e cle-
sembarcando a sua gente apossou-se cla feitoria cle Pemanrbuco, ape-
nas guanìecicla por seis hornelrs, (^) os quais auxiliaclos por alguns índios,
procuraram contuclo, opof-se ao clesembarqr¡e clos franceses". Estas
referências oferecern cluas vertentes a seretìt observacias. A primeira
clelas, o fato de "ínclios lutarem contra franceses" e de imecliato, ínclios
negociarenr com franceses: a luta teria se dado em defesa da Feitoria,
tendo siclo os portugueses aprisionados (não se faz referência quanto
aos indios) e o cornércio estabeleciclo na segunda. Ao se analisar a
proxirnidacle entre os clois pontos, há que se achnitir que os índios
mencionaclos em alnbos os episódios, integrarialn (^) o meslno grupo cul-
tural, possivelnrente a lìÌeslna alcleia. Os clados etnográficos e etno-
históricos referentes aos Tupi cla costa, pernritern supor que nrais de
um grupo não cleveria lnanter-se ern tal proximidacle. O sistema agrí-
cola clesenvolviclo pelos grupos cle Floresta Tropical exige um amplo
espaço territorial, não apenas para a agricultura, nras aincla para as
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ALBUQUERQUE, M.^ O^ processo^ irrterélnico ern^ urna^ feitoria quinhentista no^ Brasil.^ R¿r'ut¿ dc Arqueologio. São Paulo,^ 7:99-123,^ 1993'
ativiclacles cle^ coleta^ cle^ caça,^ que^ a^ completâm. Deste^ modo,^ deve-se
admitir que^ o território^ em^ áreas^ tão próxirnas não fosse^ ocupaclo^ por
mais cle^ uln^ grupo,^ mesmo^ que^ compartilhassem^ o^ meslno^ sistema
cultural (diferentes^ alcleias^ de^ um^ só grupo).^ A^ ocupação de^ utn^ mes-
mo território geraria conflito decorrente^ cla^ concorrência pelos^ mes-
mos interesses. No caso de relacionaren-se^ a sistemas^ culttlrais dife-
rentes, a concofrência^ ainda^ assim^ se^ eviclenciaria. Aclemais,^ são
freqüentes as^ referências às^ disputas territoriais^ dos^ Tupi.
O segundo ponto^ que^ chama^ a^ atenção^ nos registros^ cle Pereira
da Costa, diz respeito aos^ produtos^ embarcaclos^ pelos^ franceses^ atra-
vés da negociação com^ aqueles ínclios. Observa-se^ que^ são produtos
que no seu conjunto uão^ deveriam^ ter^ siclo obticlos^ pelos^ íudios^ em
uma tneslna região. No^ caso^ do^ pau-brasil,^ sua^ clispersão^ geográfica
é mais atnpla. Entretanto,^ o^ algodão que^ representa^ um^ volume^ sig-
nificativo llo conjultto da^ mercacloria embarcada, correspoude^ a^ um
cultivo de regiões menos úmiclas^ que^ a^ Mata^ Atlântica.^ Seria^ este
algoclão proveniente^ clo^ agreste^ ou^ meslno do^ setni-árido.^ Esta questão se vincula a uma outra em termos^ cle^ área^ de abrangência^ clo^ território
tribal. Mesmo achnitinclo-se a^ grande^ extensão^ temitorial^ de^ um^ clorní-
nio tribal, referências históricas^ e etnográficas^ lnostraln ulna^ multipli-
ciclacle cle grupos que se^ clistribuíam na faixa^ hoje^ abrangicla^ pelo^ es-
taclo cle Pemambuco, eltre as^ zonas^ de^ tnata^ e^ o^ setni-árido.^ Deste
modo, há que se considerar a^ possibilidacle^ cle^ que^ a^ totalidade^ dos
produtos traziclos pafa^ conìercialização^ colll^ os portugueses fosse ob-
ticla em mais cle uln grupo. Os^ ptodutos poderiam^ ser^ traziclos^ aos
portugueses por cada um dos^ grupos,^ ou^ obtidos etn^ cacla^ um,^ através
do grupo que^ tnantilrha^ o^ contato^ collt^ os^ europeus^ lìo^ litoral.^ Em
ambos os casos^ sefia^ necessário^ que^ hotlvesse^ uma^ relação^ pacífica
entre os^ grupos.^ No^ caso^ cle^ aporte^ por^ apenas^ um^ grupo'^ se^ estaria
evidenciando o^ sistetna^ cle^ trocas (comercialização) entre^ os^ grupos
indígenas locais.
Utn ot¡tro potrto^ que luerece lnaiores reflexöes^ diz^ respeito^ ao
volt¡me de^ mercaclorias^ etnbarcadas.^ No^ caso cla^ Feitoria servindo^ de
entreposto, em que poderia-se^ armazen¿tr^ os proclutos,^ pode-se^ adrnitir uma estocagem graclual,^ por um^ período tnais prolongaclo. Neste^ caso, há que^ se cousiderar^ a^ atnplitucle^ do local^ cle^ estocagem,^ visto^ que^ esta
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