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Colonização Portuguesa no Brasil: Primeira Feitoria em Pernambuco, Esquemas de Grandezas e Unidades

A instalação da primeira feitoria real portuguesa no brasil, em pernambuco, em 1516, por cristovão jaques. O texto aborda a importância da feitoria como entreposto comercial e proteção contra piratas, além de ser o início da implantação do sistema colonial português no país. O documento também discute os efeitos do contato entre portugueses e povos indígenas, as diferentes complexidades culturais em interação, e a importância da arqueologia na compreensão histórica desses contatos.

Tipologia: Esquemas

2020

Compartilhado em 05/01/2020

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raphael-vicent 🇧🇷

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ALBUQUERQUE, M. O processo interétnico em unìa feitoria quirrhentisln no Brasil. R¿vårra
dc Arqueologìa. Sño Paulo, 7:99-123, 1993.
O PROCESSO INTERÉTNICO
EM UMA FEITORIA QUINHENTISTA NO BRASIL
Marcos Albnqilerque*
RESUMO: No início cla colonização portuguesa no Bras¡l, foi instalacla
ern 1516, por Cristovão Jaques, no litoral rìorte (lo Estado de Per¡lam-
buco, uma Feitoria, corn a função cle proteção contra as piratarias, e de
servir de entreposto colnercial clas "riquezas da terra". A documentação
textual ernbora localize inrprecisamente esta Feitoria, eln frente a parte
sul da illn cle Itanraracá, pennitiu se arrtever a possibilidacle de uln estudo
arqueológico cle um clos prirneiros contatos i¡rterétnicos no Brasil co-
lonial. A ¡lesquisa arqueológica realizacla perrniliu a localização e o aces-
so à interpetação cle parte desta urriclade fr¡rrcional integrante do siste¡na
cotonial português no Brasil. A clistribuiçño es¡racial do rnaterial arqueo-
lógico, tanto horizontal quanto vertical, l¡ern corrro a análise cle labora-
tório, fonreceram elernentos significativos para o entendimento do con-
tato entre portrrgueses e inclígenas, estes enì estágio tribal, beln corno
clo processo cle fixaçâo lusitana lla área e o gra<lrral desaparecinrento das
populações n¡tivas.
Século XVL O mundo europeu prepara-se para enfrentar grandes
e significativas modificações nos mais diferentes segmentos que o coln-
punha. Idéias novas, alterações cosmogônicas, ebulição nos meios reli-
giosos que se encontravanr relativamente apaziguados com a concilia-
ção entre a razão e a fé, obticla através cle Tornás cle Aquino em séculos
anteriotes; a Ciência ernbrionária conft¡nclindo-se coln a bruxaria; a
estagnação do pensamento criativo, corrobofacla por franciscanos e
dominicanos, mas que clescle o século XIII apresentava conflitos
internos, haja vista a previsão de urn cle seus monges, Roger Bacon,
acusado cle btuxatia por efetuar experiências físicas e químicas.
Icléias nrais arrojadas surgiram no ntunclo europeu, na segunda
metacle clo século XVI. Idéias como as de Francis Bacon (L56L-L626),
* Universiclaclc Fedederal de Penlnlllbuco.
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ALBUQUERQUE, M.^ O^ processo^ interétnico em unìa feitoria quirrhentisln no^ Brasil.^ R¿vårra dc Arqueologìa. Sño Paulo, 7:99-123, 1993.

O PROCESSO INTERÉTNICO

EM UMA FEITORIA^ QUINHENTISTA NO BRASIL

Marcos Albnqilerque*

RESUMO: No início cla colonização portuguesa (^) no Bras¡l, foi instalacla ern 1516, por Cristovão Jaques, (^) no litoral rìorte (lo (^) Estado de Per¡lam- buco, uma Feitoria, corn a função cle proteção (^) contra as piratarias, e de servir de entreposto colnercial clas "riquezas^ da terra". A documentação textual ernbora localize inrprecisamente esta Feitoria, eln frente a parte sul da illn cle Itanraracá, pennitiu se arrtever a possibilidacle de uln estudo arqueológico cle um clos prirneiros contatos i¡rterétnicos no Brasil (^) co- lonial. A (^) ¡lesquisa arqueológica realizacla perrniliu (^) a localização e o aces- so à interpetação cle parte desta urriclade fr¡rrcional integrante (^) do siste¡na cotonial português no Brasil. A clistribuiçño es¡racial do rnaterial arqueo- lógico, tanto horizontal quanto vertical, l¡ern corrro a análise cle labora- tório, fonreceram elernentos significativos para o entendimento do con- tato entre portrrgueses e inclígenas, estes enì estágio tribal, beln corno clo processo cle fixaçâo lusitana lla área e o gra<lrral (^) desaparecinrento das populações n¡tivas.

Século XVL O mundo europeu prepara-se para enfrentar grandes

e significativas modificações (^) nos mais diferentes segmentos que o coln-

punha. Idéias novas, alterações cosmogônicas, ebulição nos meios reli-

giosos que se (^) encontravanr relativamente apaziguados com a concilia-

ção entre^ a^ razão^ e a^ fé,^ obticla através^ cle^ Tornás^ cle^ Aquino^ em^ séculos

anteriotes; a Ciência ernbrionária conft¡nclindo-se coln a bruxaria; a

estagnação do pensamento criativo, corrobofacla por franciscanos e

dominicanos, mas que clescle o século XIII já^ apresentava conflitos

internos, haja vista a previsão de urn cle seus (^) monges, Roger Bacon, acusado cle btuxatia por efetuar experiências físicas e químicas.

Icléias nrais arrojadas surgiram no ntunclo europeu, na segunda

metacle clo século XVI. Idéias como as de Francis Bacon (L56L-L626),

* Universiclaclc Fedederal de Penlnlllbuco.

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ALBUQUERQUE, M.^ O^ proccsso^ interétnico em^ urìì¿r^ feitoria^ quirrhentista^ no Brasit.^ À¿vrsta tle Arqueologia. São^ Paulo, 7:99-123, 1993.

que admitia a coexistência entre aspectos lnateriais e espirituais, otl as

idéias de Descartes (1596-1650), que procurava ulna concepção global para todas as ciências. Aspectos estes que são cle suma itnportância

para a compreensão cla época que será tratacla, em virtude cle suas

concepções se apresentaretn opostas às cle^ Aristóteles que constituíanr-

se eln um dos susteutáculos da Igreja de então. As novos icléias apre-

sentavam-se de^ forma incipiente^ e^ conflituosa^ no^ início^ do século^ XVI,

molnento enì que a Europa foi ainda abalada pelas viagens de Marco

Polo, Colombo, Cabral,^ e^ outras viagens que^ se^ sucecleram^ nos^ pri-

meiros anos do século XVI e desempenharam^ ufir^ papel^ catalisaclor^ no

processo cle transformação clo ideário europeu cle então. Transforma-

ções que se^ fizeram uotar^ nas concepções^ cle^ "tnunclo",^ cle^ "faça",^ de

"clllturas", cle "cosmogonias".^ Viageus que vieram a alterar o^ rumo^ da

econotnia eutopéia tros séculos subseqiielrtes.

Iniciava-se, uos pritnórclios clo século^ XVI, sobretudo^ cotn^ os

descobritnerrtos clas Atnéricas, urn fetrôtneno intercultural, que^ poste-

riormente claria surgiurento à cotrstituição cle^ utn "Sistenra Murrclial".

A Europa, treste períoclo, já^ se encolrtrava eln pleno^ processo^ cle

articulação econômica, cotrstituitrclo-se eln ulì1 sistetna razoavelnretrte

integrado, uo qual havia tuna tranra cle relações econôtnicas entre^ as

diferentes unidacles acltr-riusitrativas que^ emergiratn após a^ quecla^ do

Irnpério Rotnano. Essa trarna de relações, que^ interligava sistetnatica- nrente a Europa ao Oriente, não tinha, até etrtão, incorporado as Amé- ricas.

Do mestno moclo que se fez uso clo conceito cle sistema para

clelineanrento de um quaclro colnpreensivo cla trama de relações eco-

nômicas entre as^ unidades aclmiuistrativas que,^ cla^ Europa ao Orietrte,

emergem após a^ quecla^ do^ poder^ ronlano,^ pocle-se^ enfocar sob^ utna

ótica sistêmica as relações entre os grupos que^ até o^ século^ XVI^ ocu-

pavam as Américas. Não se pretende^ cleste moclo afinnar ou^ tnesmo

propor (^) a existência de uma econornia integrada, ou rneslno amplatnen-

te articulada, colrÌo no caso da econonria clo Sistema Europeu, mas

sugerir que, através do cotnércio cle longa distância, clos cleslocamentos de Inassas, clas próprias guerras sistematicalnente encetaclas, das rela-

ções aincla que tênues,^ entre^ os cliferentes sisternas^ culturais,^ abrangeu- clo tribos, estados autigos, ou meslno envolvenclo grupos^ de caçaclores,

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ÂLBUQUERQUE, M. O processo irrterétnico euì urìrÍr feitoria quinlrerttista no^ Brasil.^ .Revisf¿ de Arqueologia. Sño Paulo, 7:99-123, 1993.

cidos principalmente com tribos e bandos que^ se localizavatn na ver-

tente atlântica da Arnérica do Sul.

O Sistema Atnericano, portanto, configurava-se de^ fortna^ bastante

diferenciadâ, o que^ traria reflexos nas relações, nas modaliclacles^ de

contato estabeleciclo. Os^ subsistemas^ de^ defesa,^ socialização, ideoló-

gico, etc., dos grupos mais complexos com os quais contataram os

espanhóis, diferiarn substancialmente dos congêneres encontrados^ pe-

los portugueses. As cluas clistintas realiclades, em uma visão^ macro,

estimularian processamentos diferenciados entre a nova orclem sistê-

mica que se estabelecia. Os portugueses, após 16 anos clos descobrimentos, estal¡eleceram-

se na América, no^ litoral^ uorte do atual^ Estaclo^ cle^ Pernambuco,^ através

cla instalação,^ por Cristovão^ Jaques,^ cla^ primeira Feitoria^ Real^ uo Bra-

sil. O estudo^ arqueológico^ da^ átea^ eln^ que^ se^ instalou^ esta^ Feitoria,

objeto central cleste^ trabalho,^ reflete^ a^ preocupação^ voltada^ Para o

entenclimento cle^ um^ clos^ prirneiros^ contatos^ cle^ méclia^ duração^ entre

portugueses e indígenas no Brasil, alérn cle representar a oportunidade

de avaliação clo processo^ clesenvolvido^ por^ ocasião^ clos^ ptimeiros^ con- tatos permanentes entre europeus^ e^ indígenas na costa leste da^ América

do Sul.

A feitoria de Cristovão Jaques^ e^ o^ sistenta^ colonial^ português

Os primeiros anos após o clesetnbarque cle^ Cabral^ nas^ terras^ ame- ricanas, foram lnarcaclos por uma ação muito moclesta cle Portugal. As

expeclições cle^ reconheciurento^ cla^ costa,^ (t501^ e^ 1503),^ davam^ conta

cle que, do ponto cle vista do interesse tnercautilista, a costa atlântica

não apresentava^ atrativos imecliatos.^ O^ Trataclo^ cle^ Torclesilhas,^ que

legava a Espanha e Portrtgal^ as^ terras a^ Oeste^ cle^ Cabo Vercle, confere

a estes reinos toclo o contiuetrte atnericauo.

Envolvido clescle^ o^ século^ XV^ em^ ulna crise interna^ de^ crescimen-

to, o aurneuto cla população portuguesa se^ reflete na^ ampliação^ da

população urbana, pronrovenclo^ o^ crescitnento^ clas^ cidades. Paralela-

nrente, a monetarização da agricultura promovia uma crise rural, com

o empobrecitnento da aristocracia.

ro

ALBUQUERQUE, M. O (^) ¡rroccsso interétnico enr urììa feitoria quirrhe¡rtista no B¡asil. R¿visfa de Árqueologio. Sño Paulo, 7:99-123,1993.

A econotnia urbana, funclamentalmente relacionacla ao comércio,

encontrava-se alicerçacla nos produtos provenientes clo Oriente. Deste comércio resultou a retenção do ot¡ro português, que veio a constituir

"os tesoufos orietrtais", que não tornavam a circular nos meios nrer-

catrtis. A retenção clo ouro no Oriente, associaclo a monetarização da

agricultura, couduziu à carência cle metais, exiginclo de Portugal novas

fontes de aporte de ouro. Por outro laclo, o cotnércio cle longo curso

coln o Orietrte era clis¡renclioso e onerava consicleraveltneute os bens

aclquiriclos. Ora, o sistema econôrnico português, que já^ era controlaclo

pela burguesia, defrotrta-se colrl cluas sitrrações extrelnarnente conìpto-

metedo¡as par¿ì o seu equilíbrio: o alto custo cla mercacloria e o etn-

pobrecinento cla aristocracia, seu principal consumiclor.

O clesequilíbrio clo sistetna ecotrôrnico português operou colno

elemeuto cle (^) retroalitnetrtação clo mesmo, na busca de uur reequilíbrio.

Deste ntoclo, descle o século XV, Portugal persegue o objetivo de

encoutrar lìovas foutes para o courércio. Este objetivo coufigurou-se

quer pela busca cle (^) um acesso (^) nlerìos olìefoso para (^) o Oriente, quer pela busca cle (^) fotrtes alternativas par¿ì (^) as especiarias, visanclo aincla a cles- coberta cle (^) nretais preciosos.

A trova^ rota^ para^ o^ Oriente, que^ contornava pelo nrâr o sul cla

!^.

Africa, iria peruritir^ ao sisteun econôlnico 1:ortuguês utna altenrativa

à onerosa rota terrestre. Esta perspectiva atraiu cle tal forma as atetrções

portuguesas que as novzrs terras clescobertas tla Aurérica foratn prati-

catnente relegaclas ao abanclono.

Em sua clinâmica, etrtretanto, o Sisteura Europeu não conrparti-

lhava clo clesinteresse português. Deste rnodo, o aparente equilíbrio

proporciouaclo pelo Trataclo cle Tordesilhas quanto ao dornínio clas ter-

ras atnericanas é substatrtivarnente abalado, na oportuniclacle ern que

outros povos, integrantes do Sistenla Europeu e alijaclos clo clorlríl-rio

clas Auréricas pelo refericlo Trataclo, reiviuclicavarìr o clireito cle ex-

ploração.

A exploração^ clas terras atnericanas, pertenceutes^ a Portugal, por

parte de outros povos, foi tentacla tanto 1>or vias legais conìo pela ação

cle flil¡usteiros que^ "infestavaln" a costa, negociando os produtos cla

terra corn os inclígenas. As contíuuas itrvesticlas cle outros povos, sobretudo franceses, itr-

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ALBUQUDRQUE, M. O processo i¡tterélnico erìì r.una (^) fcitoria quinhelrtista no Brasil. Revisf¿ dc Arqteologia. Sio Paulo, (^) 7:99-123, 1993.

até o ano de 1535, quando chega Duarte Coelho, primeiro Donatário

cle Pertmmbuco, que iria desencaclear um processo de ocupação e po-

voamento clas novas terras. Sabe-se aincla, que em colìseqüência (^) clos sucessivos ataques franceses à Feitoria, Pero Lopes (^) de Souza manclou

levantar unr forte próximo^ à Feitoria com o objetivo de resguardá-la.

Este forte, cotrforme a clocunrerrtação resgatacla, provavehnente teria

siclo construíclo em madeira. A fortificação nas proxirnidades cla Fei-

toria continua senclo rnencionada até a retiracla dos holancleses em

O litoral sul clo atual Estado de Pernanrbuco é mencionado por

diferentes documentos do século XVI, antes lnesrno cla clivisão do

território etn Capitanias. Conclições favoráveis à aportagem, reconhe-

cicla clesde o início clo século XVI, concluziran a que a áreas nas

proxirnidades cla Ilha de Itarnaracá fosse registracla na cartografia por-

tuguesa, pelo nrenos já^ em 1519, no planisfério feito em Sevilha e

atribuído a Jorge Reinel, e num dos mapas clo Atlas cle Lopo Honrenr

de Peclro e Jorge Reiuel, cerca cle l5l9-22.

O "porto cle Pernarnbuco" é assinalaclo na porção continental, em

freute cla barra sul clo catral que separa a ilha de "Ascensão" (Itama-

racá). Próximo a este porto, em 1516, fora lnanclaclo Cristovão Jaques

erguer "urna casa cle rninha feitoria" para o "trato clo pau-brasil". Refe-

renciais cartográficos, bern coltÌo cloculnentos textuais, registram a cle- notninação Pernanrbuco (com varizintes) para o porto (^) e algunras vezes

referinclo-se à baía. O vocábulo é cle origem Tupi

possivelmente

Paranã-buc - furo ou arrebentação clo mar, entretalrto a ilha foi "l¡a-

tizacla" corn lìolne cristão "Ascensão". Fosteriortnente fixou-se tatn-

bétn para a ilha o topônirno cle origern Tupi, Itarnaracá. Pocle-se inferir

pela acloção do topôuimo cle origem inclígena, que já^ nas prirneiras

abordagens a estas terras, havia-se estabelecido contato com os inclí-

genas locais, claí o enr¡rrego clo vocábulo Tupi.

Docunrentos históricos praticarnente não fazetn mençño à presen-

ça inclígena nas^ irnecliaçöes cla^ Feitoria,^ entretanto^ é^ cle^ se^ supor^ que

o "trato^ clo pau-brasil" se fizesse colr a participação dos inclígenas

conlo ocorria em outros portos, seja corn portrrgrteses, seja conr fran-

ceses, algunras vezes refericlos corÌro rnais hábeis que (^) os nossos cles- cobriclores (^) no trato colì1 os itrclígenas. Deste moclo, lresta nova fronteira

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ALBUQUERQUE, M. O processo^ inlerétnico enì urna feitoria quinhentista^ no Brasil.^ rt¿visl¿ de Arqucologio. São Paulo, 7:99-123, 1993.

da expansão lusitana, pode-se^ supor^ que a^ rnodaliclade^ de contato em-

pregada, pelo menos cle início, seria do tipo comercial e pacífico, onde

os índios forneciam aos portugueses os produtos de seu interesse.

As referências históricas, etnográficas e arqueológicas, assitn co-

mo a confluência lingüística do termo Pernambuco para aquele porto,

permitem supor uma maior probabilidade cle que os inclígenas que

teriam participaclo dos^ prirneiros^ contatos^ na Feitoria,^ fossem Tupi.

Por outro lado, relato etno$istóricos dão conta de que os índios que

compartilhavam a Ct¡ltura cle Floresta Tropical, na clesignação de Ste-

ward (1948),^ conro se^ atril¡ui^ aos^ Tupi,^ mesmo^ antes^ da^ influência

colonizaclora, estavanr^ provavelmente afeitos^ à^ prática^ do^ comércio,

deslocanclo-se eln suas canoas à^ lougas distâncias, levando^ seus^ pro-

clutos. Deste tuoclo, o contato comercial coln os portugueses não esta-

ria conrpletarneute fora dos padrões^ culturais iudigenas, o^ que^ facili-

taria seu estabelecirneuto.

fnteresse histórico pela área

Descle o século anterior vários historiadores têm clemonstraclo^ in- teresse eur estuclar a região. Urna sucessño cle acontecimentos envol-

vendo este local corroborou para o incremento deste interesse. Dentre

eles clestaca-se o fato cla Feitoria, funclacla etn 1516, ter servido de

referencial para a iustalação dos rnarcos clivisórios entre as Capitanias

cle Pernambuco e cle Itamaracá. Foi aincla treste potto que clesembarcou

o prinreiro Donatário cle I'ernalnbuco, colno aincla aquelas que o acolìt-

panhavatn com a missão de clar início ao povoamento cla Colônia. A

necessidacle de garatrtir a fazenda real arnrazenada^ na Feitoria,^ conclu-

ziu Pero Lopes^ cle^ Sonza,^ etn^ 1532,^ a^ tnanclar^ contruir^ unr^ recluto

contra os ataques franceses, que^ por^ cluas^ vezes^ a saquearatn. Esta

construção por seus objetivos, representa o iuício da irnplantação de

um sistema cle clefesa da costa brasileira. Por ocasião da ocupação

holanclesa, a área é novanrente fortificada, teudo siclo instalaclo um

forte para garantir a passagem cla barra dos Marcos, topôtritno que

persiste aincla nos clias atuais. Os produtos^ cla terra americana aclquiriclos pelos europeus através

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ALBUQUERQUE, M. O processo interétnico crìì urììa feitoria qrrirrlrentidta no Brâ3i[. Rcvrsla de Arqucologia. Sño Paulo, 7:99-123, 1993.

tipo cle fenômeno é bem mais abrangente, e pode ser entenclida tauto

no senticlo clas interrelaçoes entre povos europeus, qÌranto^ naquele,

entre clistintos gnrpos que ocuparam o colttiltente americatro^ no^ século

XV ou nlesmo a 3.000^ a.C.

As transformações lìo^ processo^ histórico^ dos grupos hutnanos^ na-

tivos clas Américas, procluziclas^ pela^ chegacla^ de^ europeus^ Ro Novo

Munclo, têm^ sido^ freqüentemente^ mencionadas^ tanto^ em^ estudos^ his-

tóricos, quanto arqueológicos. Entretanto, no estudo clas relações entre europeus e^ inclígeuas,^ têm merecido^ atenção^ diferenciacla aquelas^ que envolvem os estaclos antigos americanos e o sistetna colonial espanhol,

ainda que os estudos envolvenclo outros impérios coloniais, estejam

setrclo tambem clesenvolvidos. De fato, o estuclo clo processo cle transformação do moclo de vida

dos grupos americanos sob^ iufluârcia^ dos sisteluas^ culturais^ europeus

tem rnostrado^ resultaclos^ diferenciados.^ A^ acloção^ de^ elementos^ clo^ mo-

clo cle vida europeu é bastante diferenciado entre os gnrpos americauos,

e por^ vezes atinge mais efetivanìente^ apelìas^ parte de sua^ estrutura.

Pode-se observar que existe urna^ significativa diferença^ entre^ os contatos estabelecidos sol¡ orientação religiosa e^ aqueles^ promovidos

por leigos. Mestno que as instituiçoes religiosas tenhatn agido sob os

auspícios clas irrstituições governamentais,^ as diferenças^ cle itrteresse,

cle olrjetivos a^ serem alcançados^ entte^ umas^ e^ outras^ é^ evidente. Foi

assitn na orientação^ clos^ cotrtatos^ clos^ espanhóis^ cotn^ as^ culturas stll-

americanas, eln colnparação^ com^ as^ tnissões clos^ Sete Povos,^ por

exemplo. Eviclentelnente, este exemplo abrange grupos cle cotnplexi-

clacle cultural notaclamente cliferenciacla, e que^ se enquadrariatn em

categorias teóricas cle contatos clistir-rtos. Entretatrto, o processo cle se-

cularização clas missões^ eviclencia^ a^ clistinção entre os^ objetivos^ cle^ uts

e de outros.

Os efeitos clos contatos através clo^ processo^ cle^ aculturação^ diri-

gicla, promovido pelos espanhóis, tem sido objeto de estudo itrtegraclo

cle cliferentes áreas. Sol¡retudo as tnissões franciscanas^ da^ Califónria

têm siclo objeto cle um atnplo progralna^ cle^ pesquisa^ envolvenclo^ estu-

clos etnohistóricos, antropológicos e arqueológicos. Por outro laclo,

não se^ tem^ estabeleciclo^ um^ progratna^ cle^ estuclos^ especificamente^ vol-

taclo ao processo^ cle^ muclança^ cultulal^ entre^ os^ grupos^ alnelicanos^ clo

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ALBUQUERQUE, M. O processo (^) interétnico etn unìa feitorir quinhentisla no Brasil. iR¿v¿sla de Arqucologia. Sño Paulo, (^) 7:99-123,1993.

sul, promovidos^ pela ação colonial portuguesa. A classificação esque-

mática do processo de aculturação nas Américas, proposta por Service

(1955), (^) está fundamentalmente alicerçada no quadro (^) atual das popula- ções e sistemas^ culturais^ sul-americanos.^ Está^ voltada basicamente^ pa- ra o munclo espanhol da América, entretanto, rnuitos (^) de seus conceitos

poderão ser válidos para aplicação no mundo lusitano.

A ação portuguesa em relação aos grupos indígenas variou em seus

métodos ao longo clo espaço, e sobretudo ao longo do tempo. Uma

sucessão de postos comerciais, rnilitares e (^) religiosos foram utilizados,

isolada ou conjuntamente, ampliando as fronteira do sistema colonial

português. Variou, ainda, em função dos objetivos buscados e da estra-

tégia empregacla nos cliferentes casos. Ao que parece, a intensidade clas

reações ao contato, neln selnpre esteve em relação direta com a proxi-

rnidacle física clos grupos, ou seja, não se restringiu ao contato direto

entre os gmpos alnericanos e europeus. Posey (1987) estudando a

transtnissão inclireta cle cloenças (^) européias entre grupos (^) que não tinharn siclo contatados, chama a atenção para (^) os efeitos cla interferência a longa

clistância. Ou seja, o contato indireto, quer por via cle outros grupos,

quer aqueles em que os animais seriam transrnissores (^) indiretos de cloen- ças, e^ que teriatn promoviclo^ fortes^ repercussões^ na^ clensidade^ popula- cional (^) cle grupos não contatados diretarnente. Etnbora muitos pesquisaclores^ se terrham ocnpaclo (^) enr estudar as conseqüências da introclução cla cultura européia através de portugue-

ses no Brasil, os estuclos relativos ao processo cle muclança cultural

não foram ainda significativanrente clesenvolvidos.

No Brasil, áreas como a Etnologia, a Arqueologia e a História,

que (^) traclicionalmente cleserrvolveln tais estudos, parece que buscaram

se ater a rnornentos clistintos entre si: a História ocupando-se primor-

dialmeute com a sociedacle colonial, pouca atenção enrprestando às

sociedades uativas; a Etnologia centranclo a atenção nas socieclades

indígenas, buscanclo sol¡retudo entenclê-las em si próprias; a Arqueo-

logia em parte, voltacla às socieclacles indígenas e suas distribuições

espaço-temporais (^) e em parte, voltacla aos sítios históricos, (^) enfocando

a sociedacle colouial. Tenr-se ainda um pequeno número de estudos

arqueológicos voltados para os contatos entre as sociedades colonial e

indígena.

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ALBUQUERQUE, M. O (^) ¡rrocesso i¡rterólrrico erìì urììn fcitoria quinhentis(a no Brasil. R¿r,ls/¿ de Arqucologia. Sño Paulo, 7:99-123, 1993.

entre a^ ilha e o continente à^ altura da barra, mantendo esta posição no

sentido oeste. Este canal afasta-se clo continente à altura cla (^) desemboca-

dura clo^ rio Igaraçu, para em seguicla aproximar-se cla costa continental,

em urn trecho^ cle aproximadamente^400 metros, lnornerrto eln que

começa a assumir a clireção No¡te. Nesta direção, prossegue colrtornan-

do a Ilha, distanciatrclo-se do cotrtinente. Aparentemente cotrfusa, a suA

identificação, bem como a sua navegação, inclusive por^ barcos de tnaior calaclo, é extremamente sinrples para os conhecedores da região.

O trecho clo litoral eln que o canal se encontra afastado da costa,

tanto na ilha quanto^ no continente, apresenta-se coberto por^ ÌJrn clepó-

sito de grã muito fiua, cle pouca profuncliclacle, emerginclo nas marés

baixas. A cartografia cla época iclentifica esta áreas colno "baixios",

portanto (^) inadequaclos para a aportagern.

Após o reconhecimento cartográfico/textual da área, foi clesenvol-

viclo utn levantatnento cle c¿ìlrlpo que estetrcleu-se ao longo clo litoral,

no sentido Norte/Sul, abrangenclo urna faixa de 400 metros de terra

finne à borcla clo Canal.

Esta prospecção inicial objetivou a iclentificação cle vestígios ar-

queológicos que remolrtasseur ao século XVI, bem colno a localização

do marco divisório clas Capitanias. Esta tarefa apresentou resullaclos

positivos tro trecho elÌl que, clo ponto cle vista geonrorfológico, aten-

cleria à conclição de porto buscacla pelos portugueses. O ciesbarranca-

mento procluziclo pelas águas clo Caual, punha à mostta farto rlraterial

arqueológico proveniente cle clois sistetnas culturais clistintos: o portu-

guês e o ameríndio. Face a esta coustatação, o local foi selecionaclo

para o proceclitnetrto cle escavações sisteuráticas, que foraln realizaclas

en 1967 (Albuquerque,^ 1969, 1982, 1984).

As escavações arqueológicas revelaraln, através cla análise estra-

tigráfica e do material arqneológico, que se tratava cle unr sítio no qual

as camaclas mais profunclas registraranr uln contato irrterétrrico que

rentontava ao século XVI. Um outro potrto tanrbérn eviclenciacJo coln

as escavações, é o fato cle que a sua ocupação (^) se prolongou pelo século

subseqtiente, atinginclo possiveltnente o século XVIII, mourento em

que o sítio teria siclo al¡anclonaclo, não se eviclencianclo registro cle urna

ocupação posterior cle asselrtarnento no local.

Cotn base na análise clo registro arqueológico, pocle-se observar

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ALBUQUERQUE, M.^ O^ processo^ interétnico ent untâ feitoria quinhentisfa no^ Brasil.^ /t¿r'isfa dc Arqucologia. Sño Paulo, 7:99-123, 1993.

que, quando da chegada clos portugueses na área, o^ terraço^ sobre o^ qual se itrstalararn, apresentava uma cota mais^ baixa,^ ern^ méclia cefca^ cle^2 ll1.

Por outro lado, observou-se ailrcla^ que^ possiveltnente^ este^ terraço^ se

prolongava em direção ao canal,^ mostrando-se^ tnais largo^ cerca^ cle^ 5 m.

Em muitos pontos^ do^ terraço,^ o^ arenito que^ lhe^ servia^ cle^ l¡ase^ se

encontrava afloraute. A análise cla estratigrafia^ do sítio,^ clo^ ponto^ cle

vista cla sua formação, clemonstrou que a área se cotrstitui^ eln^ utn local

de acumulação receute, trão tenclo entretanto, origem^ maritilra,^ como

assinala a cartografia geomorfológica atual. Sua classificação geomor- fológica como terraço marinho é perfeitarnente conrpreensivel,^ consicle-

ranclo-se a generalização empregacla à^ escala elìr que^ a^ área^ foi^ tnapeada.

Errtretanto, a constatação cle urna origetn contilrental do^ seclitnento que

constitui aquela porção clo "terraço", assllme utn itrteresse^ particular-

rnente itnportante ua análise do processo^ cle instalação clos^ portttgueses. Eviclentemente, ao se analisar a clistribuição vertical^ clos^ elementos^ clo conteúdo do sítio, chama a ateução, o fato cle utn material arqtreológico

dataclo cle cerca de 476 auos^ BP,^ esteja sob^ utn^ pacote sedituentar^ de

aproxitnaclamente 2In, em algutts pontos.^ A^ posição^ cle^ acanratneltto^ clo

conjunto dos artefatos naquela profuncliclade,^ exclui^ a possibiliclacle^ cle uma migraçño vertical clos rnestnos.^ Talnl¡étlr,^ a cor(esponclêucia^ eutre a seqüência estratigráfica registradâ^ Para as^ peçâs, e a^ cronologia^ reco- trhecicla para^ os^ artefatos,^ concluzetn^ a^ afastar-se^ a^ possibiliclacle de que a migração vertical^ clas^ peças as^ teria^ levaclo^ a clescelrcler^ até a^ profun- didacle registrada, que^ eln^ alguus pontos atinge o areuito.^ Descartacla^ a

hipótese cle rnigração clas^ peças,^ há^ que^ se^ acltnitir^ que^ o^ pacote sedi-

nrentar se teria fotmaclo entre os séculos^ XVI^ e^ XX;^ e^ explicar^ o^ fator

que teria levado a cleseucadear o increnrento na velocidacle^ do^ processo morfogenético.

Consideranclo-se alguus elementos relacionaclos às^ práticas^ de

comportamento que poclem^ ser infericlas^ através^ cla^ clocumetrtação^ tex-

tual, pode-se^ adnritir^ que^ a^ instalação clo^ elelneuto europeu em^ ultta

cleterminacla área era acompanhacla por^ unìa prática^ cle^ clestnatalttettto,

seja para o uso cla rnadeira para construçño, seja para^ o^ uso de^ lenha

como cotnbustível, ou seja aincla para silnplestnente afastar^ cle^ seu

assentamento "o^ perigo na proxirniclade^ colìt^ a^ lnata"^ (Freyre,^ 196l).

Possivehnente a aceleração clo processo seclilnentar que^ constituitl^ o

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ALBUeUEReUE, M.^ O processo^ interétnico enì^ urnÍì^ feitoria quirrltentisla no^ Brasil.^ R¿vlst¿ de Arqucologia. Sao^ Paulo,^ 7:99-123'^ 1993.

material utilizado na^ construção^ cla^ estrutura mais^ antiga,^ inclui^ além

de pedra consolidada por^ argamassa^ de^ cal,^ fragtnentos^ de^ telhas.^ A

estrutufa mais recente além do^ material^ citaclo^ inclui^ ainda fragmentos

cle tijolos. Observa-se ainda uma^ nítida^ diferenciação nas^ argamassas

de cimentação,^ aincla^ que^ em^ ambas se tenha^ utilizado^ cle^ cal^ prove-

niente da^ calcinação^ de^ conch.as^ de moltlscos.^ Pode-se^ observar con- chas que^ escaparaln à^ trituração,^ em^ meio^ cla^ argatnassa.^ Vale salientar

que, segunclo a^ clocutnentação^ histórica,^ as^ coustruçöes^ portuguesas

em Pernambuco, sobretuclo^ no^ século^ XVII^ caracterizavatn-se pelo

uso da taipa e^ cla^ peclra^ rejuntada^ com cal. O^ uso^ do^ tijolo,^ foi^ pouco

significativo no^ conjultto,^ a^ pouto^ cle^ ter^ siclo^ o^ emprego^ cle^ tijolos

utilizaclo como^ eletnento^ cle^ clistinção entre^ as^ construções^ holanclesas

e portuguesas.^ Por^ outro^ lado,^ coln^ base^ na^ iconografia,^ percebe-se

que o uso da telha^ cle^ barro cozido^ se^ fazia^ presente^ meslllo^ nas colls-

tiuções cle^ taipa.^ A^ palha era^ aincla^ utilizacla na cobertura^ deste^ últirno

tipo cle construção.^ É^ cortt^ a^ presença holallclesa^ em^ Pernâlìtbuco^ que

se clifutrclem as^ constrttções^ etn^ tijolos,^ que^ iniciahnente eratn iurpor-

tados cla Europa^ e^ posteriorlnente^ procluziclos^ em^ lnaior^ escala^ na^ re-

gião, Vaie salieutar que o^ lnaPa^ cle^ Moreno, de^ 1609,^ em que relaciotla

as pfaças fortes do Brasil,^ assinala^ tla^ Il[a^ de^ Itamaracá,^ uma^ olaria,

elrtretanto, ttão faz tnençño à^ fortificação^ que^ teria sido^ levantacla^ por

Pero Lopes de Sousa pafa garantir^ a^ Feitoria.^ Tarnbém não menciona a Feitoria. Segunclo a^ clocuurentação^ textual, dois tipos de^ construção

teriam sido edificaclas na^ área:^ a Feitoria^ e o^ forte.

os alicerces em ruílla^ evidenciaclos^ pelas escavações^ arqueológi-

cas não representatn^ a^ totaliclade^ cla^ estrutura^ original.^ O^ alicerce^ da

parede sul, no setrticlo leste-oeste foi^ eln^ parte^ relnoviclo, bem colllo

foi removido parte^ clos^ alicerces das^ parecles^ nofte^ e^ oeste.^ No^ seu

conjunto a estfutufa permite iclentificar^ clois vãos^ de^13 e^ 33,75^ rn2,

respectivamente; entretanto apesar^ clas^ mutilações pode-se^ observar que a estrutura coutinuava ern^ direção^ ao canal.^ Não^ é^ possível^ aincla urn diagnóstico seguro qrìanto^ à^ função^ da estrutura fepresentacla pelos alicerces exutnaclos,^ face^ às^ mutilações^ que lhes^ foram^ imputaclas.^ Eu-

tretanto, consicleranclo-se a^ clisposição^ e^ alììplitude^ clos^ vãos,^ não^ se

deve afastar a hipótese cle^ tratar-se^ cle^ uln^ recluto.^ O fato^ clos^ alicerces

terem siclo em parte^ removidos, pode-se^ atribuir^ a^ uma prática^ colnun

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ALBUQUERQUE, M. O processo^ interét¡rico em urna feitoria quinhentista no Brasil. R¿yisl¿ dc Arqucologia. São Paulo, 7:99-123, 1993.

de re-utilização do material de construção. Esta mesma prática pode

justificar o fato de os alicerces não estarem à superfície, mas a 40 cm

de profundidade.

Reflexos do contato através do material arqueológico

A análise do conteúdo do sítio arqueológico permite se inferir

que por ocasião da instalação da Feitoria, o local escolhido não cor-

responclia a um assentamento inclígena. Entretanto, haveria habitações

indígenas nas proximidades e possivelmente o contato entre europeus

e inclígenas precedeu^ a itnplautação da Feitoria. Tais contatos devern

ter siclo anristosos, vez que^ além de não haver menção nos clocumen-

tos a conflitos com os indígenas, a associação entre o material indí-

gena e o colonial já^ nas camadas mais antigas reflete urn possível

intercâmbio entre os grupos.^ A análise do conjunto do registro arqueo-

lógico reflete aincla alguns aspectos relacionados ao processo de acul-

turação. Iniciahnente observa-se que^ existe urna uniformidacle tecno-

lógica no conjunto de cerâmica utilitária portuguesa (produzida em

argila). As variações observadas se refleteln apenas na incidência pro-

porcional clas fonnas. Não se tem indícios de que a cerâmica (^) colonial

tenha siclo em qualquer momento de fabricação local, antes sugere,

que tenha sido aportada da Europa. A cerâmica indígena, entretanto

apresenta algutnas variações ern terrnos tecrrológicos. Estas alterações não são cle caráter brusco, antes se apresentarn (^) cle modo graclual. São determinadas por alterações (^) em operações essenciais, o que resulta em uma perda gradual na qualiclacle^ do produto à medida que se prolonga

o contato. Entretanto, esta perda de qualiclacle não reflete necessaria-

mente uma tentativa de assirnilação de paclrões portugueses, seja na

forma, seja ua clecoração. Reflete-se sobretudo através do que se po-

deria chamar de unr cleclirio no esmero, na elaboração do vasilhame;

a cerâmica se tornou mais grosseira.

Um outro aspecto a ser consideraclo em tennos das relações inter-

culturais, está relacionado à função clos vasilhames indígenas (^) resgataclos

no sítio. A maior incidência recai sobre as formas de contenção de

alimento sóliclo. São tijelas quadrangulares (^) e circulares corn decoração

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ALBUQUERQUE, M. O processo interétnico enì ulììa feitoria quinhelrtista no Brasil. R¿r'rsl¿ de ArqueologÍa. São Paulo, 7:99-123, 1993.

português à economia do sistema mundial. Este sítio, no entanto, não

fornece dados diretos acerca cla interferência do contato no sentido de

avaliar-se efeitos sobre as culturas locais pela integração ao sistema.

Do ponto de vista europeu, esta integração parece ter tido naquela

ocasião um caráter bastante frouxo, flutuante lneslno, vez que encon-

tram-se referências que (^) clão conta de que a interação indígena se al- terna entre portugueses, (^) outros grupos das urriclades clo sisterna euro-

peu principalnrente franceses. Esta alternância é registracla eln um

lneslno ponto do litoral, o que pennite supor que os contatos portu-

gueses e franceses, no caso, tertham sido estabeleciclos coln o nlesltìo

grupo.

As referências textuais clestacam que o principal objetivo colner-

cial português seria o pau-brasil, "feitoria para o trato do brasil", en-

tretanto, não teria sido este o único elenrento aclquiriclo pelos (^) europeus.

No caso do contato coltl os fralrceses, Pereira cla Costa (1985)

registra que (^) "A nan La Pelerine partiu corrduzinclo uru irnportante

carregalnelrto, que montava ern cinco nril quintais de pau-brasil, tre-

zeutos de algodão, seiscentos papagaios, três rnil peles de animais,

trezentos macacos e muitas outtas bugiarias".

Entretanto registra tanrbérn que "a nau eutrou pela barra clo rio

Jussará, ou Santa Ctuz, furrdeou em frerrte à ilha cle Itamaracá, e cle-

sembarcando a sua gente apossou-se cla feitoria cle Pemanrbuco, ape-

nas guanìecicla por seis hornelrs, (^) os quais auxiliaclos por alguns índios,

procuraram contuclo, opof-se ao clesembarqr¡e clos franceses". Estas

referências oferecern cluas vertentes a seretìt observacias. A primeira

clelas, o fato de "ínclios lutarem contra franceses" e de imecliato, ínclios

negociarenr com franceses: a luta teria se dado em defesa da Feitoria,

tendo siclo os portugueses aprisionados (não se faz referência quanto

aos indios) e o cornércio estabeleciclo na segunda. Ao se analisar a

proxirnidacle entre os clois pontos, há que se achnitir que os índios

mencionaclos em alnbos os episódios, integrarialn (^) o meslno grupo cul-

tural, possivelnrente a lìÌeslna alcleia. Os clados etnográficos e etno-

históricos referentes aos Tupi cla costa, pernritern supor que nrais de

um grupo não cleveria lnanter-se ern tal proximidacle. O sistema agrí-

cola clesenvolviclo pelos grupos cle Floresta Tropical exige um amplo

espaço territorial, não apenas para a agricultura, nras aincla para as

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ALBUQUERQUE, M.^ O^ processo^ irrterélnico ern^ urna^ feitoria quinhentista no^ Brasil.^ R¿r'ut¿ dc Arqueologio. São Paulo,^ 7:99-123,^ 1993'

ativiclacles cle^ coleta^ cle^ caça,^ que^ a^ completâm. Deste^ modo,^ deve-se

admitir que^ o território^ em^ áreas^ tão próxirnas não fosse^ ocupaclo^ por

mais cle^ uln^ grupo,^ mesmo^ que^ compartilhassem^ o^ meslno^ sistema

cultural (diferentes^ alcleias^ de^ um^ só grupo).^ A^ ocupação de^ utn^ mes-

mo território geraria conflito decorrente^ cla^ concorrência pelos^ mes-

mos interesses. No caso de relacionaren-se^ a sistemas^ culttlrais dife-

rentes, a concofrência^ ainda^ assim^ se^ eviclenciaria. Aclemais,^ são

freqüentes as^ referências às^ disputas territoriais^ dos^ Tupi.

O segundo ponto^ que^ chama^ a^ atenção^ nos registros^ cle Pereira

da Costa, diz respeito aos^ produtos^ embarcaclos^ pelos^ franceses^ atra-

vés da negociação com^ aqueles ínclios. Observa-se^ que^ são produtos

que no seu conjunto uão^ deveriam^ ter^ siclo obticlos^ pelos^ íudios^ em

uma tneslna região. No^ caso^ do^ pau-brasil,^ sua^ clispersão^ geográfica

é mais atnpla. Entretanto,^ o^ algodão que^ representa^ um^ volume^ sig-

nificativo llo conjultto da^ mercacloria embarcada, correspoude^ a^ um

cultivo de regiões menos úmiclas^ que^ a^ Mata^ Atlântica.^ Seria^ este

algoclão proveniente^ clo^ agreste^ ou^ meslno do^ setni-árido.^ Esta questão se vincula a uma outra em termos^ cle^ área^ de abrangência^ clo^ território

tribal. Mesmo achnitinclo-se a^ grande^ extensão^ temitorial^ de^ um^ clorní-

nio tribal, referências históricas^ e etnográficas^ lnostraln ulna^ multipli-

ciclacle cle grupos que se^ clistribuíam na faixa^ hoje^ abrangicla^ pelo^ es-

taclo cle Pemambuco, eltre as^ zonas^ de^ tnata^ e^ o^ setni-árido.^ Deste

modo, há que se considerar a^ possibilidacle^ cle^ que^ a^ totalidade^ dos

produtos traziclos pafa^ conìercialização^ colll^ os portugueses fosse ob-

ticla em mais cle uln grupo. Os^ ptodutos poderiam^ ser^ traziclos^ aos

portugueses por cada um dos^ grupos,^ ou^ obtidos etn^ cacla^ um,^ através

do grupo que^ tnantilrha^ o^ contato^ collt^ os^ europeus^ lìo^ litoral.^ Em

ambos os casos^ sefia^ necessário^ que^ hotlvesse^ uma^ relação^ pacífica

entre os^ grupos.^ No^ caso^ cle^ aporte^ por^ apenas^ um^ grupo'^ se^ estaria

evidenciando o^ sistetna^ cle^ trocas (comercialização) entre^ os^ grupos

indígenas locais.

Utn ot¡tro potrto^ que luerece lnaiores reflexöes^ diz^ respeito^ ao

volt¡me de^ mercaclorias^ etnbarcadas.^ No^ caso cla^ Feitoria servindo^ de

entreposto, em que poderia-se^ armazen¿tr^ os proclutos,^ pode-se^ adrnitir uma estocagem graclual,^ por um^ período tnais prolongaclo. Neste^ caso, há que^ se cousiderar^ a^ atnplitucle^ do local^ cle^ estocagem,^ visto^ que^ esta

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