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Nesta conversa, cornélio e cândida discutem sobre vinho, casamento, infidelidade e raiva. Cornélio está desesperado por encontrar a chave do carro e compra vinho para se consolar. Cândida expressa sua opinião sobre o casal alberto e verônica, que se separaram recentemente. A conversa se torna cada vez mais enigmática e confusa, com cornélio questionando a identidade de uma certa vagabunda e a natureza de sua relação com o marido de sua melhor amiga.
Tipologia: Exercícios
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Personagens
Cândida (Mulher) Cornélio (Marido)
CÂNDIDA (Entra. Ao celular. Aguardando ser atendida.) - Atende, imbecil! Atende! Eu estou esperando. (Pausa.) Dou-lhe uma... Dou-lhe duas... Dou-lhe cinco! Dou-lhe uma porrada quando você chegar em casa! CORNÉLIO Alô! CÂNDIDA Por que você não atende quando eu ligo? CORNÉLIO Eu atendi, amorzinho. CÂNDIDA Atendeu porque você sabia que eu ia ficar puta da vida. CORNÉLIO Mas agora que eu atendi, não há mais razão pra brigar. CÂNDIDA E se você não tivesse atendido? CORNÉLIO Mas eu atendi, amorzinho, não está ouvindo a minha voz não? CÂNDIDA Você demorou pra atender.
CÂNDIDA (Pega uma banana e começa a descascá-la.) - Cornélio, você é cego? Já deviam ter-se separado há muito tempo. CORNÉLIO Pra mim eles eram um casal feliz. CÂNDIDA O que é um casal feliz pra você? CORNÉLIO É o casal que anda abraçadinho. CÂNDIDA Você está de brincadeira. CORNÉLIO De vez em quando eles se abraçavam. CÂNDIDA Como é que você sabe? CORNÉLIO Eu via. CÂNDIDA Onde? CORNÉLIO Não sei... Não me lembro! CÂNDIDA É o mesmo Cornélio de sempre. Diz que matou a cobra, mas não consegue mostrar o pau. CORNÉLIO O que é que você está comendo? CÂNDIDA Não te interessa, imbecil. CORNÉLIO Pra que essa festança toda? CÂNDIDA Que festança, Cornélio? CORNÉLIO Você me pediu pra comprar uma garrafa de vinho caro. CÂNDIDA Ah, sim! Pedi. Eu quero comemorar a (Com cinismo.) cagada da Verônica. Faz dois anos que eu estou esperando por este momento. CORNÉLIO Mas faz só dois anos que eles se casaram. CÂNDIDA Pelo menos boa memória você tem. CORNÉLIO Vinte e seis de junho.
CÂNDIDA A vagabunda da Verônica jamais podia ter-se casado com o vagabundo do Alberto. CORNÉLIO Se os dois são vagabundos, por que é que não podem viver juntos? CÂNDIDA Por que homem vagabundo, Cornélio, é homem interessante, homem másculo, homem que faz as pernas da mulher tremerem quando o vagabundo olha pra ela. Homem vagabundo é homem que já mandou a mãe tomar no cu faz tempo! CORNÉLIO Você está querendo dizer o quê? Que eu não sou homem de verdade? CÂNDIDA Não, você não é. CORNÉLIO O que é que eu sou então? CÂNDIDA É pra mim que você vem perguntar? CORNÉLIO Você é minha mulher e deve ter um conceito a meu respeito. CÂNDIDA Prefiro me calar. CORNÉLIO Eu tenho conceitos formados a seu respeito. CÂNDIDA Não faço questão de ouvir. CORNÉLIO Você é a mulher mais maravilhosa do mundo. CÂNDIDA Pra que esse charminho agora, Cornélio? Até parece que você andou aprontando alguma coisa. Melhor calar a boca e trazer logo o vinho. Duas garrafas! CORNÉLIO Duas?! CÂNDIDA Quero ficar bêbada em cima do túmulo da Verônica. CORNÉLIO (Assustado.) - Ela morreu!? CÂNDIDA Não, imbecil!
com os seus vinhos! CÂNDIDA Duas garrafas! Por que hoje a minha felicidade vai ser em dose dupla. CORNÉLIO O que foi que a Verônica fez de tão errado? Vocês sempre foram grandes amigas. CÂNDIDA Grandes amigas, Cornélio! CORNÉLIO Não são? CÂNDIDA Desde quando? Você está fazendo muita pergunta. Só compra os vinhos. CORNÉLIO Eu estou entrando no carro, depois a gente se fala. CÂNDIDA E por que é que você tem que entrar no carro agora? CORNÉLIO Por que eu acabei de sair da casa da mamãe e estou indo ao supermercado comprar duas garrafas de vinho pra minha mulher pular em cima do túmulo da Verônica, que devia ter morrido, mas acabou vivendo, indevidamente! CÂNDIDA Você falou tudo isso dentro ou fora do carro? CORNÉLIO Eu já liguei o carro, Cândida. Depois a gente conversa. CÂNDIDA Por que é que você não pode falar dentro do carro? Tem alguma vagabunda aí? CORNÉLIO Nem vagabunda, nem vagabundo. CÂNDIDA Vagabundo eu sei que não tem. CORNÉLIO Obrigado pela parte que me cabe. CÂNDIDA Compra um queijo também. CORNÉLIO Mas aí já vai começar a ficar caro! CÂNDIDA Além de imbecil, é pão-duro! CORNÉLIO Eu vou desligar o telefone.
CÂNDIDA Você não dirige com a língua. CORNÉLIO Não se dirige falando ao celular. CÂNDIDA Eu quero queijo parmesão. CORNÉLIO Mas é muito caro! CÂNDIDA Parmesão. Eu mereço. CORNÉLIO Provolone. CÂNDIDA Parmesão! CORNÉLIO Vou pensar. CÂNDIDA Quem pensa aqui nesta casa sou eu. CORNÉLIO Tudo bem, eu não vou pensar. CÂNDIDA Dois vinhos portugueses e um parmesão uruguaio. CORNÉLIO Porra, caralho, fodeu! Foi embora o meu dinheiro. CÂNDIDA Você trabalha pra quê? CORNÉLIO Pra sustentar uma mulher maravilhosa. CÂNDIDA Isso já é obrigação sua. Pra que mais você trabalha? CORNÉLIO Pra comprar queijo parmesão uruguaio pra ela. CÂNDIDA E duzentos gramas de presunto espanhol. CORNÉLIO Meu dinheiro não é merda! CÂNDIDA Não é merda, imbecil, porque seu cu fedido não tem competência pra cagar dinheiro. CORNÉLIO Só mesmo te amando. CÂNDIDA E você sabe que eu, às vezes, te odeio. CORNÉLIO Por isso somos felizes.
CORNÉLIO Eu vou levar pelo menos vinte minutos pra chegar lá. CÂNDIDA Eu ligo pra saber se você chegou. CORNÉLIO Espera eu te ligar. CÂNDIDA E se você não ligar? CORNÉLIO Eu vou ligar. CÂNDIDA Não vai me mandar um beijo? CORNÉLIO Beijos! CÂNDIDA Me liga daqui dez minutos. CORNÉLIO Meia hora. CÂNDIDA Você não me mandou beijos. CORNÉLIO Acabei de mandar. CÂNDIDA Eu não ouvi. CORNÉLIO Beijooo! CÂNDIDA Calma, espera aí, não desliga. Eu ainda não te contei o motivo do quebra pau. Você acredita que a Verônica... (Cornélio desliga o telefone e joga-o no banco do passageiro. Cândida percebe que ele desligou.) Alô! Cornélio... Alô, alô, Cornélio! Filho da puta. (Cândida põe-se em seguida a digitar. Aguarda ser atendida. Telefone de Cornélio toca.) Atende esse telefone, imbecil! (Pausa.) Não vai atender. Dou-lhe uma... Dou- lhe duas... Dou-lhe três... CORNÉLIO Alô! CÂNDIDA Você desligou o telefone na minha cara. CORNÉLIO Eu?! CÂNDIDA Tem mais algum imbecil aí?
CORNÉLIO Não combinamos que eu ligaria assim que eu chegasse no supermercado? CÂNDIDA Não muda de assunto. CORNÉLIO Eu não desliguei o telefone na sua cara. CÂNDIDA Quer saber mais do que eu? CORNÉLIO Eu te mandei o beijo. CÂNDIDA E daí? O que é que você quer que eu faça com a merda do seu beijo? CORNÉLIO Quando a gente manda um beijo é como se a gente avisasse, olha!, eu vou desligar! CÂNDIDA Então é pra isso que você me manda beijo? CORNÉLIO Eu te mando beijo porque eu te amo. CÂNDIDA O que prova que você desligou o telefone na minha cara. CORNÉLIO O beijo também é uma despedida. CÂNDIDA Você está se enrolando todo e não está explicando nada. CORNÉLIO Está bem, se é assim que você quer, eu bati o telefone na sua cara. CÂNDIDA (Em tom de ordem.) - Peça desculpas. CORNÉLIO Pra quê? Não há motivo, eu não fiz nada. CÂNDIDA Peça desculpas pra mim, agora, seu grosseirão de uma merda! CORNÉLIO Porra, mas pra que desculpa? CÂNDIDA Eu estou mandando. CORNÉLIO (Pausa.) - Desculpa. Não fiz por mal. CÂNDIDA Por mim, você já tinha que ter ido tomar no cu faz tempo!
CÂNDIDA Ele quebrou foi pouco. Tinha que ter quebrado mais. CORNÉLIO Você está onde? CÂNDIDA Em casa. CORNÉLIO A Verônica está aí? CÃNDIDA Ela está no hospital, imbecil. CORNÉLIO Meu deus, coitada... Como é que foi acontecer isso com ela...? CÂNDIDA Vem cá! Você está com pena da Verônica? CORNÉLIO Olha a situação dela, Cândida!... CÂNDIDA (Altera-se.) - Eu quero que ela se exploda! Eu quero que aquela vagabunda morra sozinha, que no inferno ela tenha por amiga só a sogra do capeta! E quem sabe, você. Porque assim ela vai saber o que é viver com um bosta de um homem imbecil! CORNÉLIO Você está alterada. CÂNDIDA Você quer que eu fique como? Depois de ver o meu marido ter pena daquela vagabunda? CORNÉLIO (Pausa.) - Como é que você soube disso tudo? CÂNDIDA A Matilde me contou. CORNÉLIO E desde quando você conversa com a Matilde? CÂNDIDA Não posso? Só porque ela é emprega doméstica? CORNÉLIO Aquela mulher é fofoqueira. CÂNDIDA Você acha que o Alberto não é capaz de quebrar três costelas da Verônica? CORNÉLIO Eu nunca imaginei que você tivesse tanta raiva da sua melhor amiga.
CÂNDIDA Melhor amiga o caralho! Se ela fosse minha amiga, ela não teria roubado o meu namorado. CORNÉLIO Que namorado? CÂNDIDA Que namorado, imbecil? O Alberto, lógico! CORNÉLIO O Alberto foi seu namorado? CÂNDIDA Vai me dizer que você não sabia. CORNÉLIO Estou sabendo agora. CÂNDIDA Você acha que você foi o meu único namorado? CORNÉLIO Não se trata disso. É que você nunca me falou nada. CÂNDIDA Por que é que eu tinha que falar? CORNÉLIO Eles frequentaram a nossa casa esses anos todos. CÂNDIDA Baixou aí a dor de corno. CORNÉLIO Você ficou esse tempo todo alimentando essa raiva da Verônica? CÂNDIDA Algum problema? CORNÉLIO Você sempre tratou a Verônica tão bem. CÂNDIDA O (Enfatiza.) Alberto. CORNÉLIO Quando você insistia pra eles dormirem aí em casa, pra não irem embora bêbados, você fazia isto querendo o quê? CÂNDIDA O que você acha? CORNÉLIO Era nele que você pensava quando ia dormir comigo? CÂNDIDA Eu tinha certeza que um dia a vagabunda ia dar as caras. CORNÉLIO Você não respondeu a minha pergunta.
CORNÉLIO E o amante? Já sabem quem é? CÂNDIDA Fazia tudo o que ela queria, o idiota. Freqüentavam um motel na Afonso Pena, daí dá pra você imaginar o quanto a vagabunda custava pro vagabundo. Mas amante é amante, sempre um bicho besta! Se é rico, ele é o capricho da vagabunda. Só rolava vinho português. E queijo parmesão uruguaio. Até nisso ela me imita! Se eu gosto de parmesão uruguaio, a vagabunda gosta de parmesão uruguaio. Se eu gosto de sorvete Haagen Dazs, a vagabunda gosta de sorvete Haagen Dazs... CORNÉLIO Mas, e o amante, quem é? A Matilde não falou nada não? CÂNDIDA Não quis me dizer, a fofoqueira. Só me disse que é o marido da melhor amiga da patroa. A Verônica continua a mesma. Detonando as amigas. Já sei! A Raquel! O amante é o marido da Raquel. Elas são assim as duas! A Raquel tem um marido bonitão! E é rico! (Pausa.) Até orquídeas brancas ele comprava pra vagabunda da Verônica. CORNÉLIO Como é que você sabe? CÂNDIDA As fotos! A Matilde disse que viu tudo. Pelo menos bom gosto o vagabundo do marido da Raquel tem. CORNÉLIO Você também está cobiçando o marido da Raquel? CÂNDIDA Você queria que eu cobiçasse quem? (Com desdém) Você? Se enxerga, macaco! Eu gosto é de homem! CORNÉLIO Eu sou o amante da Verônica! CÂNDIDA Está maluco! CORNÉLIO Pergunta pra Matilde. CÂNDIDA Será que eu estou entendendo o que eu estou entendendo? Você está achando que o amante da Verônica é você? CORNÉLIO Cadê as fotografias?
CÂNDIDA Cornélio, você chega a ser asqueroso. CORNÉLIO Eu posso provar. CÂNDIDA Não perca o seu tempo. CORNÉLIO Liga pro Alberto. CÂNDIDA Mais essa eu tenho que ouvir. Você, amante da Verônica. Você acha que a Verônica, com aquela beleza toda, aquele corpão, aqueles olhos azuis, ia dar mole pra você? Um bosta? Você está se achando quem? O príncipe das Astúrias? É muito mais fácil eu dar pro Alberto do que você, com toda a sua babaquice, comer a boceta da Verônica. CORNÉLIO Mas a Verônica faz amor comigo! CÂNDIDA Cornélio, você já chegou no supermercado? CORNÉLIO Já está na hora de você parar com essa palhaçada! CÂNDIDA O que deu em você agora? Está querendo virar homem? Você já chegou no supermercado? CORNÉLIO Estou no estacionamento. CÂNDIDA Eu quero um vinho português, um vinho italiano, queijo parmesão uruguaio e presunto espanhol. E, pistache! CORNÉLIO Porra, pistache é o olho da cara! CÂNDIDA E eu quero sorvete Haagen Dazs... CORNÉLIO Você está pensando que eu sou rico? CÂNDIDA Você acha que eu ia me casar com um pobretão? CORNÉLIO Eu não vou comprar porra nenhuma! Vai se foder! (Desliga o telefone na cara de Cândida e sai.) CÂNDIDA Não é que o cretino teve a coragem de desligar o telefone na minha cara? Ainda diz que me ama. (Pausa.) Eu vou