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saude, ansiedade ...
Tipologia: Notas de estudo
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Folha de Rosto
Créditos Copyright © 2011 by Ana Beatriz Barbosa Silva Todos os direitos desta edição reservados à Editora Objetiva Ltda. Rua Cosme Velho, 103 Rio de Janeiro — RJ — Cep: 22241-090 Tel.: (21) 2199-7824 — Fax: (21) 2199-7825 www.objetiva.com.br Capa Dupla Design | Ney Valle Imagem de capa iStockphoto/ © Viktor Pravdica Ilustração de miolo Margareth Baldissara Revisão Rita Godoy Bruno Fiuza Tamara Sender Conversão para e- book Abreu’s System Ltda. CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO- NA-FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ S578m Silva, Ana Beatriz B. (Ana Beatriz Barbosa) Mentes ansiosas [recurso eletrônico] : medo e ansiedade além dos limites / Ana Beatriz Barbosa Silva ; [ilustração Margareth Baldissara]. - Rio de Janeiro : Objetiva, 2011. recurso digital : il. Formato: ePub Requisitos do sistema: Modo de acesso: 149p. ISBN 978-85-390-0302-0 (recurso eletrônico) 1. Ansiedade. 2. Transtornos da ansiedade. 3. Livros eletrônicos. I. Título. 11-6193. CDD: 616.8522306 CDU: 616.89-008.441-
Dedicatória
A Mirian Pirolo, minha amiga de ofício, de valores, de fé e de coração.
— Tiiia, qual a diferença entre medo e ansiedade? — Onde é que você viu isso? — No papel com a sua letra no seu escritório. — Ah, bom! Então vamos lá: medo é algo que a gente teme e tenta evitar, por exemplo, medo de altura, do escuro etc. Já a ansiedade é uma sensação ruim que aperta o peito da gente. — Hum, entendi. Então, criança tem medo e adulto tem ansiedade, pois tem vergonha de dizer o que lhe causa medo. — Pode ser. — Tiiia, posso dormir com você? — Por quê? — Porque tenho medo de escuro e de monstros. — Tá bom! Vem pra cá pertinho. — Tiiia, se você sentir ansiedade, pode apertar minha mão, tá? — Pode deixar, meu anjo, eu já estou apertando a sua mão. Nesse dia, no auge dos seus 7 anos, meu sobrinho, Guiguinho, me ensinou que todo mundo tem medo e ansiedade, não importando a idade que se tenha. Medo e ansiedade são "primos-irmãos" e sempre estarão juntos. As palavras maltraçadas a seguir são pra você, meu lindo! Nossas mãos estarão sempre entrelaçadas, nos dando coragem para enfrentar os desafios
da vida. Beijos com amor. Tia Ana. Quer saber de uma coisa? Todo mundo tem medo, uns têm medinhos, outros medões, mas no fundo tudo é medo puro e simples. Sentimos medo de manhã, às vezes à tarde e muito mais à noite, não necessariamente nessa ordem. Medo de não ver o pôr do sol, de não poder ir à praia no domingo, de jogar a bola para fora do gol, da areia quente, de que o chope esquente ou a onda se arrebente. Medo de cair, de sair, de se divertir, da felicidade, da fatalidade, da bala perdida, da fome, de ter e de perder, seja lá o que for!
do preconceito, do politicamente correto, do jeitinho brasileiro, da corrupção, da inflação, da humilhação, da falta de profissionalismo dos políticos, da inveja, da tristeza, das escolhas, do seu corpo, do passado, do presente e do futuro. Medo de gastrite, otite, sinusite, faringite, meningite, hepatite, celulite e tudo o que é "ite". Medo da responsabilidade, da liberdade, da igualdade, da fraternidade, do recomeço, de cantar, de dançar, das crenças, das encrencas, de dar e receber opinião, de ter voz e voto, de não ter voz e voto, de aturar gente de má índole, de má vontade e sem educação. Medo de casar, de se divorciar, de casar de novo, de não poder mais voltar. Medo de se perder, de endurecer o coração, de não sonhar e de nunca mais se achar. Medo de errar, de não ter o que dizer, de falar demais, de se calar diante da covardia, de engolir o choro da emoção, de não crer e não ter fé em Deus, em si e na vida. Medo da enchente, de não gostar de gente, do ladrão, de não ser o único e virar nenhum na multidão. Medo de pensar "inho" e acabar tendo uma vidinha cercada de gentinha, de
perder o emprego, de nunca mudar de emprego por puro medo da mudança, medo da mediocridade e da maldade. Medo da ditadura, do neoliberalismo, do comunismo, do nazismo, do radicalismo, da guerra, da bomba de Hiroshima, de Nagasaki, do tsunami, do Katrina, do terremoto, da chacina, da rebelião, do vandalismo, da escravidão, da sofreguidão, da falta de poesia, da realidade nua e crua. E, por fim, o medo de não ter coragem para enfrentar tudo isso, mesmo que isso não tenha fim... Ana Beatriz Barbosa Silva
Era junho de 1999 e ainda me lembro da situação como se fosse hoje, ou melhor, aqui e agora! Basta fechar os olhos que a fatídica cena se manifesta num telão virtual na minha mente. Sentados à mesa de um agradável café de Ipanema, estávamos eu, meu marido, minha cunhada e um casal de amigos muito querido. O final de tarde estava extremamente agradável, com uma leve brisa e uma luminosidade avermelhada dos típicos dias de sol no outono carioca. Todos ríamos muito, embalados por algumas taças de excelente vinho indicado pelo casal amigo. Além disso, havia uma bela trilha sonora ao fundo com o "fino" da bossa nova, adocicando nossos ouvidos e corações. Não pude deixar de citar a célebre história que Vinicius de Moraes contava para definir São Paulo. Após ser muito bem tratado em "Sampa" e curtir a boemia da maior cidade do país, perguntaram a Vinicius o que ele estava achando da cidade. O "poetinha", após refletir entre uma dose de uísque e três tragadas de cigarro, respondeu: "Estou adorando São Paulo, tudo muito grandioso, organizado, boas pessoas, bons restaurantes, ótima vida noturna e cultural... mas tem um problema: a gente anda e anda e nunca chega em Ipanema!" Tudo estava mais do que perfeito! Era sexta- feira e todos davam muitas risadas com os "causos" engraçados que cada um de nós contava. O local estava apinhado de gente que parecia também estar se divertindo bastante. Tudo realmente parecia perfeito! Até hoje não sou capaz de descrever, exatamente, como tudo
café, inclusive nós. Mas, de repente, nos demos conta de que Lena e João não estavam conosco. Entramos novamente no café, agora vazio, e lá estava ela, em pé na cadeira, toda encolhida, numa atitude reflexa de proteção. João sapateava para lá e para cá, fazendo, literalmente, a "dança da barata". De súbito, uma pisada certeira e "pimba": "tá lá o corpo estendido no chão" – ou melhor, a barata morta. Em segundos, o café encheu novamente, e João recebeu uma salva de palmas, com direito a assobios e tapinhas nas costas. Nascia um herói em pleno café de Ipanema!
É claro que ao recordar ou contar essa história me pego dando boas e gostosas risadas. Por outro lado, fico perplexa e bastante intrigada com o tamanho e a intensidade da reação que algumas pessoas tiveram naquele dia. Não era um simples medo ou nojo daquele inseto: era pavor, terror mesmo, o que tomou conta da minha amiga, da "senhorinha" e de mais algumas pessoas que não pude observar com clareza, dada a velocidade e intensidade dos eventos ao meu redor. Reconheço que as baratas são verdadeiras pragas, insetos asquerosos e repugnantes para muita gente; no entanto, são incapazes de nos devorar feito feras famintas. Confesso que sempre me interessei pelo comportamento humano e, por isso mesmo, o medo, as fobias e a ansiedade sempre me despertaram, além de curiosidade, muitos questionamentos existenciais. Em função disso, há muitos anos venho dedicando parte do meu tempo a me aprofundar nesse universo tão intrigante. Até que ponto o medo é necessário para a
nossa sobrevivência? Qual a dose de medo saudável, se é que ela existe? O medo é sempre algo que nos protege? Quando é que ele vira uma doença? Segundo o professor Isaac Marks, da Universidade de Londres, é praticamente impossível para nós, seres humanos, vivermos sem medo. E, para provar isso, ele cita situações cotidianas, presentes na vida de todos nós, como o simples ato de atravessar uma rua. O medo de ser acidentado ou atropelado por um automóvel faz com que olhemos de um lado para o outro da rua, antes de nos lançarmos à travessia. Dessa forma, o medo, em uma medida certa, deve ser entendido como uma função do comportamento humano saudável, necessária e imprescindível para a proteção do ser humano diante dos perigos que o rodeiam. Por isso, é absolutamente normal que tenhamos medo de ser assaltados ou atingidos por uma bala perdida; sofrer algum tipo de violência, injustiça ou de perder alguém muito querido. Nessas situações, é natural e provável que todos sintam medo em determinada "dose" (ou intensidade). "Dose" exata para evitar qualquer tipo de ação que venha a aumentar o perigo e a
exposição às situações de ameaça (como bancar o valentão durante um assalto) ou, ainda, para tomar uma atitude coerente, visando reduzir os riscos da situação de perigo (como abrigar-se em local seguro ou deitar-se no chão durante um tiroteio). Como tudo na vida, o medo também requer uma dose ideal de equilíbrio: nem demais, nem de menos; apenas adequado para a prevenção de perigos iminentes. Todos já ouvimos o velho ditado
pessoa. Os transtornos de ansiedade possuem diversos espectros que variam em
grau, intensidade e na forma como se apresentam. Podemos percebê-los em diversas situações, tais como nas lembranças que insistem em nos perseguir após uma experiência traumática (morte de um parente muito próximo, por exemplo); nas fobias ou no medo intenso de falar em público ou participar de eventos sociais; no temor exacerbado de determinados objetos ou animais (elevador, avião, insetos, como vimos com a minha amiga Lena). Também são perceptíveis no terror (pânico) que surge do "nada" e nos dá a sensação de que podemos morrer a qualquer momento; nas preocupações excessivas com os fatos mais corriqueiros e triviais; nos pensamentos obsessivos e comportamentos repetitivos, mais conhecidos como manias, entre outros. Cada um desses transtornos tem características e manifestações distintas, mas todos estão intrinsecamente relacionados ao medo e à ansiedade. Em graus variados, quando os transtornos de ansiedade já estão instalados, inevitavelmente trarão prejuízos significativos para os setores vitais de suas vítimas (vida social, familiar, profissional, acadêmica etc.). Contudo, somente após muito tempo de sofrimento, de peregrinações em vão – entre as mais variadas especialidades médicas e não médicas –, ou quando suas vidas já estão reviradas pelo avesso, é que os pacientes procuram ajuda especializada. A demora para buscar o tratamento adequado se deve a muitos fatores, mas também posso afirmar, sem nenhum receio de incorrer em erros
estatísticos, que a maioria o faz por falta de conhecimento sobre o assunto, pelo sentimento de vergonha em expor tudo o que o aflige ou pela crença errônea de que se trata de mera fraqueza. A ideia de escrever este livro surgiu exatamente em função disso: oferecer informações sobre os transtornos deflagrados pelo sentimento de medo excessivo, visando facilitar a autoidentificação ou o reconhecimento em pessoas próximas e queridas, no sentido de abreviar seus sofrimentos. Felizmente, é possível reverter esses quadros tão dolorosos ou, no mínimo, atenuá-los de forma expressiva, com orientações e tratamentos adequados. Isso significa muito mais do que enfrentar o inimigo que aparentemente pareça
invencível. É restaurar as perdas nos seus diversos setores vitais, libertar-se, renascer e, quem sabe, projetar um futuro próximo de mais confiança e esperança, para que seja possível desfrutar a vida em sua plenitude.
Quando está escuro E ninguém te ouve Quando chega a noite E você pode chorar Há uma luz no túnel Dos desesperados Há um cais de porto Pra quem precisa chegar Eu tô na Lanterna Dos Afogados Eu tô te esperando Vê se não vai demorar
HERBERT VIANNA —
Lanterna dos Afogados
alarme e esperar que a ansiedade cresça um pouco mais e me paralise de alguma forma. Afinal, a ansiedade possui diversas facetas, e todas, a partir de determinada "quantidade", mostram-se disfuncionais, modificando negativamente nosso cotidiano, transtornando nossa vida e, até mesmo, nos paralisando diante de tudo e de todos. É claro que, como boa aluna, tento captar rapidamente a mensagem do mestre cérebro: dou uma parada, faço um flashback básico dos últimos meses e logo identifico o que está me aprisionando. Monto um microprojeto, de curto e médio prazo, com as ações necessárias para que o sonho (aviso) não se transforme em pesadelo real.
Hoje constato, com bastante frequência, que sonhos com exames escolares são muito comuns entre as pessoas. Diria até que esses são um dos casos mais comuns de situações que provocam ansiedade. Não há dúvida de que muitas pessoas já enfrentaram esse tipo de situação, seja em sonho, seja na vida real, em que provas escolares ou entrevistas de emprego estejam envolvidas. A maioria delas relata que já acordou na véspera de um exame importante com a respiração acelerada, o corpo suado e que passou o resto da noite se revirando na cama. E mais: muitas ainda salientam o fato de que chegaram ao local do exame ou entrevista convictas de não saberem mais nada sobre o que estudaram durante todo o processo preparatório. Sentem que todos os seus esforços, por dias, semanas ou meses, serão perdidos com o irremediável e inexplicável "branco total" do conteúdo estudado. O pior é que, ainda que tudo venha a
dar certo, ou seja, obtenham a pontuação necessária e/ou desejada nas provas ou entrevistas, será muito difícil esquecerem o lado "ameaçador" dessa experiência. Isso ocorre em função de o nosso organismo ser dotado de um mecanismo pré-programado de proteção, conhecido como "reação do medo", que acompanha a espécie humana desde os tempos mais primitivos. A REAÇÃO DO MEDO: REAÇÃO DE LUTA OU FUGA O corpo humano talvez seja a mais criativa e surpreendente invenção de todo o universo. Nosso corpo parece ter sido planejado para nos salvar e nos ajudar a lidar com todo tipo de perigo. Em pequenos fatos do cotidiano podemos ver o quanto essa máquina é programada para nos manter em equilíbrio. Tomemos como exemplo um corte no braço. Em poucos minutos, o corpo reconhece que há um ferimento e aciona uma série de reações mecânicas e bioquímicas que fazem o corte parar de sangrar. Quando o sangue entra em contato com o ar, reage de maneira diferente e começa a coagular. O sangue fica cada vez mais espesso e, em pouco tempo, uma crosta está formada, tamponando totalmente o sangramento provocado pelo ferimento. Depois de alguns dias, essa crosta cai, e toda a área que estava abaixo dela se
encontra sadia novamente. O mesmo mecanismo de proteção é acionado quando nos engasgamos com algum tipo de comida ou bebida. O engasgo sinaliza que algo sólido ou líquido entrou no local errado. No caso, esse local é a traqueia, que é um tubo capacitado para levar o ar inspirado pelo nariz ou pela boca em direção aos pulmões. A traqueia não transporta outro tipo de
acelerada e, sem que tenha tempo de pensar, em frações de segundos, você estará correndo como um leopardo ou lutando com os cachorros como uma fera enlouquecida. Esta é a
reação do medo que existe para nos salvar de todos os perigos. Em princípio, o instinto nos leva a correr como o vento para fugirmos dos cachorros. Após muitos metros de corrida, encontramos um local seguro e ali permanecemos até termos certeza de que os animais não estão mais nos seguindo. Paramos, sentamos no chão e percebemos que nosso corpo está totalmente alterado: o coração bate forte e rápido; a respiração está acelerada e profunda; trememos e suamos por todo o corpo; a boca está seca como uma pedra; estamos tontos; nossas mãos e pés estão formigando; estamos tensos, alertas e vigilantes contra novos perigos. É curioso observar que o medo daquelas feras foi capaz de desencadear em nosso organismo todas essas mudanças e, em momento algum, tivemos medo dessas reações em nosso corpo. Os próprios sentimentos não nos incomodam porque sabemos exatamente a razão disso tudo. Eles fazem parte de nossa reação ao medo. A reação do medo, também chamada de "luta ou fuga", está no centro de vários transtornos do comportamento (ou mentais), conhecidos como transtornos de ansiedade. As sensações envolvidas na reação do medo normal (como instinto de defesa) ou no ataque de pânico (sensação de medo intenso, súbito e anormal) são exatamente as mesmas: taquicardia, sudorese, aceleração da respiração, tremores, boca seca, formigamentos, calafrios etc. A
única diferença – e esta é a grande diferença – é que, no caso dos cachorros, nós sabemos exatamente por que reagimos daquela maneira (por medo das feras). Já no pânico, por exemplo, nós não conseguimos identificar um fator desencadeante ou um estímulo óbvio para causar sentimentos tão fortes. AS FORMAS DA ANSIEDADE PATOLÓGICA: TRANSTORNOS DE ANSIEDADE O medo é um sentimento universal: todos sentem, e diversos estudos demonstram ser uma emoção primária (inata) do ser humano, necessária para proteção e perpetuação da espécie. Está incrustada em nosso DNA e faz parte da nossa existência. Sua abrangência vai desde a decisão de lutar ou
fugir até o acúmulo traiçoeiro que deságua no estresse e na ansiedade, levando ao esgotamento físico e mental. Como visto, um estímulo que desperte o medo é capaz de, em frações de segundos, munir o corpo inteiro de adrenalina e prepará-lo para uma rápida reação física. As respostas físicas e mentais ao medo eram tão essenciais para a sobrevivência de nossos antepassados primitivos que permanecem de forma intensa e muito poderosa até os dias atuais. Infelizmente a manutenção dessa resposta adaptativa, com tamanha intensidade, quase sempre se torna inapropriada no mundo moderno. Afinal, ao evoluirmos, como espécie e civilização, deveríamos ter deixado para trás a necessidade de uma reação tão excessiva. No entanto, nossa reação ao medo continua a se manifestar de forma quase idêntica àquela vivenciada pelos nossos ancestrais mais longínquos. Ao reagirmos, frequentemente de forma exacerbada, aos contratempos
isso acompanhado por manifestações orgânicas tais como palpitações (taquicardia), suor intenso (sudorese), tonturas, náuseas, dificuldade respiratória, extremidades frias etc. Assim, os transtornos de ansiedade correspondem aos estados de ansiedade (estar ansioso) em indivíduos que possuem uma personalidade ansiosa de fundo ou base (ser ansioso). Logo, fisiologicamente pensando, quando o ser se une ao estar em uma personalidade já ansiosa, estados severos de desconforto e sofrimento são gerados. Os transtornos de ansiedade são os rebentos, não desejados, de um casamento que sempre terá de evoluir para um divórcio, às vezes doloroso, mas sempre libertador. Eles podem assumir múltiplas formas, porém todos possuem uma matriz comum, que é a personalidade ansiosa. Esta constatação que, à primeira vista, parece relativamente óbvia só teve seu reconhecimento pela ciência médica há muito pouco tempo, quando se criou o termo espectro da ansiedade, que agrupou os diferentes transtornos sob um mesmo teto. Segundo a Associação de Psiquiatria Americana (APA), os transtornos de ansiedade1 são vários, e a principal característica deles, além da presença de ansiedade, é o comportamento de esquiva, ou seja, a pessoa tende a evitar determinadas situações nas quais a ansiedade exacerbada pode deflagrar. Dentro desse leque, o medo patológico pode se manifestar de diversas formas e em graus de intensidade diferentes, tais como: • Súbitos ataques de pânico, que podem evoluir para o transtorno do pânico. • Fobia social ou timidez patológica, na qual as pessoas percebem ameaças potenciais em situações sociais e em exposição
em público. • Medos diversos ou fobias simples, cuja ameaça provém de estímulos bem específicos (animais, lugares fechados, chuvas, avião etc.). • Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), quando vivemos experiências traumáticas significativas (sequestros, perdas de entes queridos,
acidentes etc.). • Transtorno de ansiedade generalizada (TAG), que se caracteriza por um estado permanente de ansiedade, sem qualquer associação direta com situações ou objetos específicos. • Transtorno obsessivo- compulsivo (TOC), no qual a mente é invadida por pensamentos intrusivos e sempre de conteúdo ruim (obsessões), que desencadeiam rituais repetitivos e exaustivos (compulsões), na tentativa de exorcizar tais ideias. Todos eles têm em comum a presença de sintomas físicos (taquicardia, sudorese, tontura, cólica, náusea, falta de ar) e sintomas psíquicos (inquietação, irritabilidade, sobressalto, insegurança, insônia, dificuldade de concentração, sensação de estranheza). Além dos transtornos anteriormente citados, outras patologias também são descritas em manuais específicos de classificação de doenças mentais e fazem parte dos transtornos de ansiedade. Contudo, não serão objetos deste livro, uma vez que me propus a desvendar ao leitor somente aqueles com os quais me deparo com mais frequência na prática clínica e que considero de maior relevância. Os transtornos de ansiedade ocorrem com uma frequência muito alta na população em geral. Recentes estudos norte-americanos, de abrangência significativa, revelaram que 25% das pessoas apresentam