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Livro muito bom todos deveriam ler
Tipologia: Notas de estudo
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Não perca as partes importantes!














Também de Benjamin Alire Sáenz:
Aristóteles e Dante descobrem os segredos do Universo A lógica inexplicável da minha vida
Copyright da edição original © 2021 by Benjamin Alire Sáenz
Publicado mediante acordo com Simon & Schuster Books For Young Readers, um selo da Simon & Schuster Children’s Publishing Division.
Nenhuma parte deste livro deve ser reproduzida, transmitida, armazenada em qualquer sistema de informação, por nenhuma forma ou nenhum meio, gráfico, eletrônico, mecânico, incluindo fotocópias, gravações e transcrições, sem permissão por escrito da editora.
O selo Seguinte pertence à Editora Schwarcz S.A.
Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009.
título original Aristotle and Dante Dive into the Waters of the World capa Chloë Foglia ilustração de capa Mark Brabant lettering de capa e desenhos ao redor © 2021 by Sarah J. Coleman preparação Sofia Soter revisão Renata Lopes Del Nero e Natália Mori Marques
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) (Câmara Brasileira do Livro, sp, Brasil) Sáenz, Benjamin Alire Aristóteles e Dante mergulham nas águas do mundo / Benjamin Alire Sáenz ; tradução Guilherme Miranda. — 1a^ ed. — São Paulo : Seguinte, 2021. Título original: Aristotle and Dante Dive into the Waters of the World. isbn 978-85-5534-181-
[2021] Todos os direitos desta edição reservados à editora schwarcz s. a. Rua Bandeira Paulista, 702, cj. 32 04532-002 — São Paulo — sp Telefone: (11) 3707- www.seguinte.com.br [email protected]
para onde quer que eu fosse, todos tinham algo a dizer sobre amor. Mães, pais, professores, cantores, músicos, poetas, escritores, amigos. Era como o ar. Era como o oceano. Era como o sol. Era como as folhas das árvores no verão. Era como a chuva que punha fim à seca. Era o som suave da água correndo em um riacho. E era o som das ondas batendo na costa em uma tempestade. Era pelo amor que lutávamos todas as nossas batalhas. Era pelo amor que vivíamos e morríamos. Era com o amor que sonhávamos ao dormir. O amor era o ar que queríamos respirar quando acordávamos para cumprimentar o dia. O amor foi a tocha que você carregou para sair da escuridão. O amor tirou você do exílio e lhe deu uma cidadania.
Um
no meu peito. No silêncio do amanhecer, só se ouvia a respiração de Dante. Era como se o Universo tivesse parado o que estava fazendo para olhar dois garotos que tinham descoberto seus segredos. Sentindo a batida do coração dele na palma da minha mão, eu quis enfiar a mão dentro do meu peito, arrancar meu próprio coração e mostrar para Dante tudo que havia dentro. E mais: o amor não estava apenas no meu coração — estava no meu corpo. E meu corpo nunca havia se sentido tão cheio de vida. Eu entendi , finalmente entendi essa coisa que chamam de desejo.
— Não temos que concordar sempre. — É verdade. — Que bom que você é diferente de mim, Dante. Se você fosse como eu, eu não te amaria. — Você disse que me ama? Ele riu. — Corta essa — falei. — Corta o quê? — ele retrucou, e me beijou. — Você tem gosto de chuva. — Eu amo a chuva mais do que tudo. — Eu sei. Quero ser a chuva. — Você é a chuva, Dante. Eu queria dizer: Você é a chuva e você é o deserto e você é a borracha que está apagando a palavra “solidão”. Mas seria falar de mais, e eu era o cara que falava de menos, enquanto Dante era o que falava de mais.
Três
Dante estava quieto. Talvez quieto demais. Ele, que era sempre tão cheio de palavras, que sabia o que dizer e como dizer sem medo. De repente me passou pela cabeça que talvez Dante sempre sentisse medo — assim como eu. Era como se tivéssemos entrado em uma sala juntos e não soubéssemos o que fazer ali. Ou talvez, ou talvez, ou talvez. Eu não conseguia parar de pensar. Fiquei me perguntando se chegaria o dia em que eu pararia. Ouvi a voz de Dante: — Queria ser menina. Olhei para ele. — Quê? — perguntei. — Isso é sério. Você queria mesmo? — Não. Na verdade, eu gosto de ser um garoto. Ou melhor, gosto de ter pênis. — Eu também gosto. — Mas — continuou ele —, pelo menos, se eu fosse uma menina, poderíamos nos casar e, sabe… — Isso nunca vai acontecer. — Eu sei, Ari. — Não fica triste. — Não vou ficar. Mas eu sabia que ele ficaria. Então liguei o rádio e Dante começou a cantar com Eric Clapton e sussurrou que “My Father’s Eyes” talvez fosse a nova música pre- ferida dele. — Waiting for my prince to come — sussurrou. E sorriu. Esperando o meu príncipe chegar… — Por que você nunca canta? — Cantar é coisa de gente feliz. — Você não é feliz? — Acho que só quando estou com você. Eu adorava dizer algo que fazia Dante sorrir.
Quatro
sado. Caí na cama, mas o sono não queria me visitar. Perninha pulou ao meu lado e lambeu meu rosto. Ela se aconche- gou quando ouviu a tempestade lá fora. Me perguntei o que Perninha inventava na cabeça dela sobre trovão ou se os cachorros paravam para pensar sobre coisas assim. Já eu estava feliz pelo trovão. Naquele ano foram tantas tempestades, as tempestades mais maravilhosas que já vi. Devo ter pegado no sono, porque, quando acordei, estava caindo o mundo lá fora. Decidi tomar um café. Minha mãe estava sentada à mesa da cozi- nha, com uma xícara de café na mão e uma carta na outra. — Oi — sussurrei. — Oi — ela disse, aquele mesmo sorriso no rosto. — Você chegou tarde. — Ou cedo, se parar para pensar. — Para uma mãe, cedo é tarde. — Ficou preocupada? — É da minha natureza ficar preocupada. — Então você é como a sra. Quintana. — Você ficaria surpreso em saber que temos muitas coisas em comum. — É, vocês duas acham que seus filhos são os meninos mais lindos do mundo. Você não é de sair muito, é, mãe? Ela estendeu o braço e penteou meu cabelo com os dedos. Então fez aquela cara de quem esperava uma explicação. — Eu e Dante pegamos no sono na traseira da picape. Nós não… — Parei, e dei de ombros. — Não fizemos nada. Ela assentiu. — É difícil, não é? — É — concordei. — É para ser difícil assim mesmo, mãe?
Ela fez que sim. — O amor é fácil e é difícil. Foi assim comigo e com seu pai. Eu queria muito que ele me tocasse. E tinha muito medo. Assenti. — Mas pelo menos… — Pelo menos eu era uma menina e ele era um menino. — Pois é. Ela só olhou para mim daquele jeito como sempre olhava. Me perguntei se um dia eu poderia olhar para alguém daquela forma, um olhar que continha todas as coisas boas que existiam no universo. — Por quê, mãe? Por que tenho que ser assim? Talvez eu mude e passe a gostar de meninas como deveria ser? Digo, talvez o que eu e Dante sentimos… seja só uma fase. Tipo, só me sinto assim com Dante. E se eu não gostar de meninos? E se só gosto do Dante porque ele é o Dante? Ela quase sorriu. — Não se iluda, Ari. Você não vai encontrar uma saída por aí. — Como você pode ficar tão tranquila com isso, mãe? — Tranquila? Não fico nada tranquila. Passei por muitos conflitos comigo mesma sobre sua tia Ophelia. Mas eu a amava. Amava mais do que qualquer pessoa além de você, suas irmãs e seu pai. — Ela fez uma pausa. — E seu irmão. — Meu irmão também? — Só porque não falo dele não quer dizer que não pense nele. Meu amor por ele é silencioso. Há mil coisas nesse silêncio. Eu teria que refletir sobre o assunto. Estava começando a ver o mundo de um jeito diferente, só de ouvir minha mãe falar. Ouvir sua voz era como ouvir seu amor. — Acho que dá para dizer que essa não é a primeira vez em que estou nessa posição. — Ela estava com aquela expressão ferrenha e obstinada no rosto. — Você é meu filho. E eu e seu pai decidimos que o silêncio não é uma opção. Olhe o que o silêncio em relação a seu irmão nos causou… não só a você, mas a todos nós. Não vamos repetir esse erro. — Quer dizer que preciso falar sobre tudo?
Queria tanto me aconchegar nela e chorar. Não porque sentisse vergonha. Mas porque sabia que seria um péssimo cartógrafo. Então me ouvi sussurrar: — Mãe, por que ninguém me falou que o amor dói tanto? — Se eu tivesse falado, teria adiantado alguma coisa?
Cinco
parecia haver alguns dias chuvosos por vir antes que nos deixassem com a seca de sempre. Enquanto levantava pesos no porão, pensei em começar algum hobby. Talvez algo que me tornasse uma pessoa melhor ou pelo menos me fizesse parar de pensar um pouco. Eu não era bom em nada, na verdade. Ao contrário de Dante, que era bom em tudo. Percebi que não tinha nenhum hobby. Meu hobby era pen- sar em Dante. Meu hobby era sentir meu corpo todo tremer quando pensava nele. Talvez meu verdadeiro hobby fosse manter minha vida toda em segredo. Servia? Milhões de garotos no mundo iriam querer me matar, iriam conseguir me matar se soubessem o que vivia dentro de mim. Luta… não era um hobby. Era um dom necessário para sobreviver. Tomei um banho e decidi escrever uma lista de coisas que eu queria fazer: − Aprender a tocar violão Risquei Aprender a tocar violão porque sabia que nunca seria um bom músico. Não fui feito para ser Andrés Segovia. Nem Jimi Hendrix. Continuei a lista. − Me candidatar para a faculdade − Ler mais − Ouvir mais música − Fazer uma viagem (talvez pelo menos acampar — com Dante?) − Escrever no diário todo dia (tentar, pelo menos) − Escrever um poema (besteira) − Fazer amor com Dante Risquei o último item da lista, mas não tinha como riscar da minha mente. Não dava para riscar o desejo que morava dentro de mim.