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Guias e Dicas
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Desenvolvimento de Interlíngua em Comunidades de Pescadores: Dicionários Pedagógicos, Manuais, Projetos, Pesquisas de Literatura

Este documento discute a importância do uso de dicionários pedagógicos de qualidade na aquisição/aprendizagem de crianças em fase inicial de escolarização, especificamente na comunidade de pescadores artisanais da ilha de amparo. O texto aborda a necessidade de selecionar unidades lexicas adequadas para os dicionários pedagógicos, baseadas em critérios sociolinguísticos-antropológicos-contrastivos, e a importância de estudar a oralidade dessas comunidades para o resgate e preservação do vernáculo. O documento também apresenta um perfil socioinstrucional da comunidade de pescadores de amparo e discute a interferência do estilo de vida urbano na constituição dialetal dessa população.

Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas

2013

Compartilhado em 06/04/2013

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adilson-do-rosario-toledo-6 🇧🇷

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bg1
http://dx.doi.org/10. 5007/1984-8420.2011v12nespp26
26
Work. Pap. Linguist. Florianopolis, n.esp. 26-46, 2011
ORIENTAÇÕES METODOLÓGICAS PARA A CONSTITUIÇÃO DE UM
BANCO DE DADOS LEXICAL PARA A ELABORAÇÃO DE DICIONÁRIOS
PEDAGÓGICOS
METHODOLOGICAL GUIDELINES FOR THE CONSTITUTION OF A LEXICAL
DATA BANK FOR THE ELABORATION OF PEDAGOGICAL DICTIONARIES
Adilson do Rosário TOLEDO
Docente da Universidade Estadual do Paraná – UNESPAR
Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução – PÓS-DOC PGET/REUNI/UFSC
Adja Balbino de Amorim Barbieri DURÃO
Docente do Programa de Pós-Graduação em Linguística – UFSC
Docente do Programa de Pós-graduação em Estudos da Tradução – UFSC
Professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem – UEL
Bolsista de Produtividade do CNPq
Resumo
Este trabalho se insere na área da Lexicografia (BÉJOINT, 2000; BORBA, 2003; WELKER,
2004; WERNER, DURÃO, RUANO, 2009; DURÃO, 2009, 2010), mais especificamente, no
campo da Metalexicografia, na interface com a Linguística Contrastiva (LADO, 1957) em seu
modelo contemporâneo (SELINKER, 1994; DURÃO, 2007). O objetivo fundamental desta
pesquisa é a investigação de metodologia adequada para a elaboração de dicionário pedagógico
contrastivo em língua materna. Parte-se do pressuposto de que as estratégias de
desenvolvimento de interlíngua, na aquisição/aprendizagem de crianças em fase inicial de
escolarização, ficam potencializadas com o uso de dicionário pedagógico de qualidade, cujas
unidades léxicas sejam originadas da própria comunidade de fala. Um dos recursos
metodológicos à disposição para a construção de um Banco de Dados Lexical para este fim
pode estar nos fundamentos da Teoria da Variação e Mudança Linguísticas (WEINREICH,
LABOV, HERZOG, 1968; LABOV, 1972; SILVA-CORVALÁN, 1989; TARALLO, 1990). O
trabalho se desenvolverá em três etapas coordenadas: análise instrumental, coleta de dados e
apresentação de resultados.
Palavras-chave: Interlíngua. Dicionário. Aquisição. Aprendizagem.
Abstract
This work is inserted in Lexicographic studies (BÉJOINT, 2000; BORBA, 2003; WELKER,
2005; WERNER, DURÃO, RUANO, 2009; DURÃO, 2009, 2010), specifically in the field of
Metalexicography, in the interface with Contrastive Linguistic studies (LADO, 1957) in its
contemporary model (SELINKER, 1994; DURÃO, 2007). The main purpose of this research
deals with the methodological investigation to construct a pedagogical contrastive dictionary in
the mother tongue. We suppose that the strategies of interlanguage development in
acquisition/apprenticeship can be potentialised with the use of a quality adequate pedagogical
dictionary. But the lexical units must be generated from the inner community of speech. We can
find methodological approaches at our disposal to construct a Lexical Data Bank in the
Empirical Foundations of a Theory of Language Change (WEINREICH, LABOV, HERZOG,
1962; LABOV, 1972; SILVA-CORVALÁN, 1989; TARALLO, 1990). This work will be
developed in three coordinated phases: instrumental analysis, data collection, and presentation
of results.
Keywords: Interlanguage. Dictionary. Acquisition. Apprenticeship.
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ORIENTAÇÕES METODOLÓGICAS PARA A CONSTITUIÇÃO DE UM

BANCO DE DADOS LEXICAL PARA A ELABORAÇÃO DE DICIONÁRIOS

PEDAGÓGICOS

METHODOLOGICAL GUIDELINES FOR THE CONSTITUTION OF A LEXICAL

DATA BANK FOR THE ELABORATION OF PEDAGOGICAL DICTIONARIES

Adilson do Rosário TOLEDO Docente da Universidade Estadual do Paraná – UNESPAR Pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução – PÓS-DOC PGET/REUNI/UFSC

Adja Balbino de Amorim Barbieri DURÃO Docente do Programa de Pós-Graduação em Linguística – UFSC Docente do Programa de Pós-graduação em Estudos da Tradução – UFSC Professora colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem – UEL Bolsista de Produtividade do CNPq 

Resumo Este trabalho se insere na área da Lexicografia (BÉJOINT, 2000; BORBA, 2003; WELKER, 2004; WERNER, DURÃO, RUANO, 2009; DURÃO, 2009, 2010), mais especificamente, no campo da Metalexicografia, na interface com a Linguística Contrastiva (LADO, 1957) em seu modelo contemporâneo (SELINKER, 1994; DURÃO, 2007). O objetivo fundamental desta pesquisa é a investigação de metodologia adequada para a elaboração de dicionário pedagógico contrastivo em língua materna. Parte-se do pressuposto de que as estratégias de desenvolvimento de interlíngua, na aquisição/aprendizagem de crianças em fase inicial de escolarização, ficam potencializadas com o uso de dicionário pedagógico de qualidade, cujas unidades léxicas sejam originadas da própria comunidade de fala. Um dos recursos metodológicos à disposição para a construção de um Banco de Dados Lexical para este fim pode estar nos fundamentos da Teoria da Variação e Mudança Linguísticas (WEINREICH, LABOV, HERZOG, 1968; LABOV, 1972; SILVA-CORVALÁN, 1989; TARALLO, 1990). O trabalho se desenvolverá em três etapas coordenadas: análise instrumental, coleta de dados e apresentação de resultados. Palavras-chave : Interlíngua. Dicionário. Aquisição. Aprendizagem.

Abstract This work is inserted in Lexicographic studies (BÉJOINT, 2000; BORBA, 2003; WELKER, 2005; WERNER, DURÃO, RUANO, 2009; DURÃO, 2009, 2010), specifically in the field of Metalexicography, in the interface with Contrastive Linguistic studies (LADO, 1957) in its contemporary model (SELINKER, 1994; DURÃO, 2007). The main purpose of this research deals with the methodological investigation to construct a pedagogical contrastive dictionary in the mother tongue. We suppose that the strategies of interlanguage development in acquisition/apprenticeship can be potentialised with the use of a quality adequate pedagogical dictionary. But the lexical units must be generated from the inner community of speech. We can find methodological approaches at our disposal to construct a Lexical Data Bank in the Empirical Foundations of a Theory of Language Change (WEINREICH, LABOV, HERZOG, 1962; LABOV, 1972; SILVA-CORVALÁN, 1989; TARALLO, 1990). This work will be developed in three coordinated phases: instrumental analysis, data collection, and presentation of results. Keywords : Interlanguage. Dictionary. Acquisition. Apprenticeship.

1 INTRODUÇÃO

A interlíngua pode ser definida como o sistema linguístico de aprendizes de línguas e socioletos (DURÃO, 2007). No enfoque do letramento, o estudo dos estágios de interlíngua acontece mediante a análise de um sistema gramatical funcional em contraste com o sistema gramatical canônico apregoado pela escola. Neste caso, o desenvolvimento de interlíngua pode ser estimulado através de vários recursos didático-instrumentais, como o reforço das estratégias cognitivas inerentes ao aprendiz, a exposição a materiais didáticos de qualidade e atividades sociointerativas extraclasse. A respeito desta temática, Toledo (2011) afirma que o desenvolvimento de interlíngua no letramento de crianças em fase inicial de escolarização pode ser potencializado pelo uso de dicionário pedagógico adequado.

O desenvolvimento de interlíngua, em termos de aquisição/aprendizagem de conceitos empíricos fora do ambiente escolar (práticas socioeducativas) e conceitos teóricos e científicos no ambiente escolar, tem lugar juntamente com o desenvolvimento cognitivo. No processo de aprendizagem linguística, o conhecimento teórico e científico deve ser pensado em termos de letramento de qualidade (escrita com autoria, leitura com proficiência e oralidade com argumentação). Assim, o desenvolvimento de interlíngua na alfabetização se concretiza com o letramento de qualidade.

Os primeiros estímulos para o desenvolvimento de interlíngua podem ser dados, na educação infantil, pelos chamados exercícios de prontidão. Já na fase de alfabetização, a criança passa a testar diversas hipóteses (estratégias cognitivas) de aprendizagem que a incentivam na aquisição do sistema léxico-gramatical. As principais delas são a memorização, a transferência e a sobregeneralização de regras que se revelam nas diversas habilidades linguísticas.

Em seu estudo, Toledo (2011) prioriza o aspecto lexical, que reflete diretamente o conteúdo semântico da gramática e constitui o todo léxico-semântico da língua. No processo de aquisição/aprendizagem linguística, o domínio e o aprimoramento do conjunto léxico-semântico da língua funcionam como instrumentos estimulantes do desenvolvimento de interlíngua. Um dos recursos privilegiados para o reforço da memória léxico-semântica no letramento está no uso adequado do dicionário pedagógico. A mesma pesquisa concluiu que, em sua maioria, os dicionários à disposição nas escolas não cumprem com o papel pedagógico que, algumas vezes, dizem desempenhar.

Este fato permitiu a proposição de novas pesquisas no intuito de estudar o assunto. As duas questões básicas que afloram destas reflexões gravitam em torno da arquitetura de dicionários (entre eles, o dicionário pedagógico) e a seleção das unidades léxicas de entrada. Para se estudar a arquitetura que vai modelar a construção de um dicionário qualquer, deve-se pautar por uma consistente base lexical. Logo, a constituição de um banco de dados lexical precede à idealização da arquitetura do dicionário. Neste contexto, surgiu o presente trabalho, que se insere na área dos estudos lexicográficos, mais precisamente da Metalexicografia (BÉJOINT, 2000; BORBA, 2003; WELKER, 2005; WERNER, DURÃO, RUANO, 2009; DURÃO, 2009, 2010), na interface com a Linguística Contrastiva (LADO, 1957) em seu modelo contemporâneo (SELINKER, 1994; DURÃO, 2007).

Normalmente, os lexicógrafos pautam a seleção de verbetes que compõem seus dicionários pelo aspecto referencial ou funcional. No primeiro caso, as unidades léxicas remetem a uma língua hipotética e idealizada, muito embora descrita em vários dicionários (entre os quais o Novo Dicionário da Língua Portuguesa , de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira) como formada de palavras e expressões vivas. No segundo caso, a seleção das unidades léxicas que figurarão no dicionário pretende direcionar-se pelo uso real e, portanto, teoricamente, tais dicionários concebem a língua como fato social.

2.1 A questão do isolamento das comunidades

O Brasil está passando por um processo rápido de urbanização. O termo urbanização pode ser entendido, basicamente, segundo duas acepções: a) pelo aspecto demográfico, trata-se do êxodo da população do campo em direção às cidades; b) pelo aspecto da qualidade de vida, refere-se ao acesso aos bens de consumo e serviços a que aspira a população do campo, na tentativa de aproximação aos estilos de vida da população das cidades. Neste último caso, embora a vantagem da modernidade que possa trazer o estilo de vida das cidades não seja uma opinião unânime, a urbanização está representada na energia elétrica, que possibilita maior acesso às diferentes mídias, na instalação de rede de saneamento básico, em melhor acesso aos recursos de saúde e educação, em incremento comercial, etc. 

Bortoni-Ricardo (2011), enfocando o primeiro aspecto, comprova a interferência do estilo de vida na constituição dialetal e, consequentemente, na organização léxico-semântica da língua. Esta pesquisadora empreendeu um trabalho exaustivo de documentação e análise do surgimento de um dialeto urbano entre a população de migrantes de Brazlândia, cidade-satélite de Brasília, oriundo da transformação de um dialeto rural pelo contato com o dialeto urbano de Brasília. Bortoni-Ricardo (2011), embasada no conceito de redes sociais, discute feições fonológicas e morfossintáticas do surgimento desse dialeto que a autora denomina de rurbano e pode ser considerado como uma categoria dialetal intermediária entre o dialeto rural e o dialeto urbano. A leitura do trabalho de Bortoni-Ricardo (2011) permite supor que, atualmente, em consequência da era da informação, poucas são as comunidades verdadeiramente isoladas.

A presente pesquisa desenvolvida entre as comunidades de pescadores artesanais do litoral paranaense aborda o segundo aspecto apontado por Bortoni-Ricardo (2011) e tratará do mapeamento da oralidade dessas comunidades. Relativamente ao isolamento parcial dessas comunidades, desde o princípio dos estudos, concordamos com as argumentações de Bortoni- Ricardo (2011). Ao mesmo tempo, consideramos de muita importância os dados da oralidade dessas comunidades, tanto para a preservação do arcabouço linguístico do português falado no Brasil como para subsidiar um Banco de Dados Lexical para a construção de dicionários.

O interesse por pesquisa desta natureza surgiu a partir do contato frequente mantido pelos pesquisadores com as comunidades de pescadores da região de Paranaguá, litoral do Paraná, a partir do ano 2000. A saber, as comunidades de pescadores artesanais das vilas (ilhas) de Amparo, Piaçaguera, Teixeira, Eufrasina, Europinha e São Miguel (para maiores referências sobre a região, vide Fig. 1). Intuitivamente, percebemos que os habitantes desses locais, em sua quase totalidade, pescadores nascidos ali, recusam a migração para a cidade. Os mais velhos revelam desejar um estilo de vida melhor do que de profissionais da pesca para os filhos. Por sua vez, os jovens consideram melhor o estilo de vida da cidade, embora prefiram, em sua maioria, permanecer no lugar.

No âmbito deste trabalho, as pesquisas iniciaram na localidade de maior contingente populacional, a comunidade de Amparo. Apesar de estarmos apenas nos primeiros meses de pesquisa, algumas informações podem ser apresentadas. A partir dessas informações iniciais, nesta pesquisa procuraremos analisar a interferência do estilo de vida urbano na constituição dialetal da população ribeirinha de Amparo, utilizando um percurso inverso ao percorrido pelos informantes de Bortoni-Ricardo (2011) e as consequências na relação entre lexicalização, conservação e inovação lexical e gramatical (semântica) daí decorrentes. Por outro lado, ressaltamos, de novo, faz-se urgente o resgate e preservação do vernáculo dessas comunidades e o estudo da oralidade de seus integrantes. Um estudo contrastivo diageracional nos permitirá comparar os processos de conservação e inovação linguísticas em curso nessas ilhas por meio do estabelecimento de crenças e atitudes frente ao dialeto urbano.

Ao mesmo tempo, tentaremos propor orientações metodológicas de coleta de dados para a seleção da base lexical para estudos metalexicográficos e também apresentar dados da língua em uso no português do Brasil.

Neste contexto, sobressai a pesquisa de dicionários de caráter contrastivo que sirvam de parâmetro para a construção de dicionários pedagógicos. Partimos do pressuposto de que alguns procedimentos metodológicos utilizados no âmbito das pesquisas da Variação e Mudança Linguísticas (e mesmo da Dialetologia e Etnometodologia) podem servir para este fim, principalmente no que diz respeito à coleta de dados empíricos que permitam amostragens da oralidade dos moradores das comunidades de pescadores dessa região litorânea. A partir da realidade destas comunidades citadas, estudaremos o vernáculo revelado pelas entrevistas com moradores locais.

3 DESCRIÇÃO FÍSICA DA REGIÃO ENVOLVIDA NA PESQUISA

A formação da Villa de Nossa Senhora do Rozario de Pernaguá ou Paranaguá^4 , de acordo com Santos (1850 [1922], p.15) remonta a 6 de janeiro de 1646, com a inauguração do pelourinho. Oficialmente, porém, a fundação da Villa está confirmada pelo mesmo pesquisador com a data de 29 de julho de 1648, quando foi constituído como capitão-mor e ouvidor Gabriel de Lara.

A cidade de Paranaguá está situada na grande baía de mesmo nome, assim descrita por Santos (1850 [1922]):

A grande Bahia terá de comprimento de Leste a oeste, 6 ou 7 legoas, para mais de 3 na maior largura, sua forma mui irregular com vários recantos; a porção mais septentrional he a Bahia dos Pinheiros; a mais çentral, a das Laranjeiras; e a mais occidental a de Antonina, formando todas conjunctamente, hua so no interior das três barras. Neste golfo, estão semeadas mais de 30 ilhas e pequenos ilhotes; alguas com duas e mais legoas de comprido e outras menores; revestidas de verdes mattas, fazendo realçar as agoas azuladas destas Bahias; e no circuito de seus contornos vão dezaguar mais de 80 rios grandes e caudalozos, a mór parte navegaveis, em distançia de 8 a 10 legoas, e immensos ribeirões e galhos lateraes que a elles se vem juntar, e todos vão tributar seu curso nas Bahias (SANTOS, 1850 [1922], p. 59).

A região envolvida na presente pesquisa está localizada na baía das Laranjeiras, que fica de frente para o terminal portuário de Paranaguá. Podemos supor que as vilas de pescadores já existiam na primeira metade do século XIX, conforme comprova a alusão feita à ilha do Teixeira no trecho seguinte:

Continuase agora a descripção da Bahia desde a fóz do Rio Cubatão ao de S. João, e dali pela margem opposta do grande braço que fas a Baía. Para deste lado de Oeste, continua outra costeira te a ponta ou isthmo de terra denominado — dos Pinheiros — e que fica fronteiro da ilha do Teixeira (SANTOS, 1850 [1922], p. 62).

Estas informações servem para comprovar a antiguidade das localidades pesquisadas e para situar a época da ocupação dessas paragens com a colonização de Paranaguá, no século XVII. A  (^4) Respeitamos a grafia de referência neste e em outros casos mencionados a seguir, retirados de Santos

(1850 [1922]).

A constituição da amostra (geral) para a seleção dos informantes foi determinada pelo número estimado de habitantes das localidades envolvidas na pesquisa e obedece à porcentagem de habitantes, a partir da qual se constituiu a amostra. As tabelas a seguir apresentam a distribuição da amostra, de forma a constituir-se o total de 30 informantes que desejávamos entrevistar.

Tabela 1 : Distribuição populacional das comunidades envolvidas na pesquisa

Localidade Número de Famílias Número de habitantes^6

Amparo 120 600 Piaçaguera 35 175 São Miguel 30 150 Europinha 30 150 Eufrasina 30 150 Teixeira 30 150 Total 275 1375

Tabela 2 : Percentual de habitantes de cada localidade em relação ao total do universo

Localidade % Amparo 43, Piaçaguera 12, São Miguel 10, Europinha 10, Eufrasina 10, Teixeira 10, Total 100,

Tabela 3 : Projeção do número de informantes por localidade

Localidade Número de informantes Amparo 13 Piaçaguera 4 São Miguel 3 Europinha 3 Eufrasina 4 Teixeira 3 Total 30

O número de pontos de sondagem foi fixado em cada uma das seis regiões da pesquisa, ou seja, em cada comunidade de pescadores. A seleção dos informantes observa a proporção de informantes em cada vila. De maneira geral, o informante deve preencher o seguinte perfil:

a) Ser nascido no local;

b) Ter idade entre 7 a 80 anos;

c) Escolaridade: ser analfabeto ou ter cursado, no máximo, o ensino médio;

d) Apresentar boa condição de fonação;

6 O cálculo aproximado do número de habitantes estipula em torno de cinco pessoas por família.

e) Aceitar as condições da entrevista;

f) Não se ter ausentado do local por muito tempo.

A partir do exposto, o perfil (geral) dos informantes deve obedecer à seguinte tabela:

Tabela 4 : Perfil dos informantes

Como ressaltamos anteriormente, a coleta de dados iniciou-se na maior comunidade, que é a ilha de Amparo. Os trabalhos em Amparo foram iniciados com uma reunião com os pescadores, convocada pela Associação de Moradores, na qual foi solicitado que eles preenchessem a ficha socioinstrucional (73 pescadores se mostraram dispostos a participar do projeto). A partir disso, e da análise da ficha socioinstrucional, o primeiro procedimento para a coleta de dados foi selecionar 13 informantes que preenchessem aos requisitos apresentados para a pesquisa e que se dispusessem a ser entrevistados. A partir dessa triagem inicial, os informantes foram selecionados e planejamos gravações em vídeo para obtenção de amostra da oralidade da comunidade. É necessário ressaltar que o mesmo procedimento de pesquisa será seguido em todas as localidades.

Assim sendo, de um universo de 73 pescadores(as) que responderam ao inquérito e se tornaram informantes potenciais, 13 foram contatados e se dispuseram a colaborar. Logo, o universo de participantes potenciais da pesquisa está formado por um leque de 73 sujeitos pescadores e pescadoras e seus filhos, que se organizam de acordo com as tabelas 5 e 6:

Tabela 5 : Participantes potenciais do projeto em Amparo, de acordo com a idade

Tabela 6 : Participantes potenciais do projeto em Amparo, de acordo com o sexo

Homens Mulheres

36 37

Faixa etária

Localidade 

1ª. Faixa (7 a 17 anos)

2ª. Faixa (18 a 29 anos)

3ª. Faixa (30 a 59 anos)

4ª. Faixa (60 anos e acima)

H M H M H M H M

Amparo 1 2 2 2 2 2 1 1 Piaçaguera 1 1 1 1 São Miguel 1 1 1 Europinha 1 1 1 Eufrasina 1 1 1 1 Teixeira 1 1 1

14 – 17 anos 18 – 29 anos 30 – 59 anos 60 anos e acima Total

17 18 34 4 73

no Brasil, em seus aspectos fonológicos, morfossintáticos e léxico-semânticos. Ao mesmo tempo em que serve para aprofundar os conhecimentos sobre a língua portuguesa em uso no Brasil, serve também para fazer a valoração da língua por meio das crenças e atitudes do falante em relação à sua variante linguística.

Isso posto, a constituição de um banco de dados com atenção especial ao aspecto lexical nos permitirá, consequentemente, propor a tipologia para um dicionário pedagógico (contrastivo monolíngue). Os inquéritos linguísticos ficaram constituídos da seguinte maneira:

a) Questionário fonético-fonológico (QFF);

b) Questionário morfossintático (QMS);

c) Questionário léxico-semântico;

d) Conversação livre (CL).

6 CONCLUSÃO

O trabalho de elaboração de dicionários não é tarefa fácil. As principais dificuldades para a construção de dicionários residem na sua delimitação, na sua arquitetura e na escolha da base lexical para seleção de verbetes. Este trabalho pretende ser uma contribuição para este último aspecto.

Neste trabalho, ficou ressaltado que a metodologia de coleta de dados dos campos da Variação e da Dialetologia serve a este papel. Há, porém, necessidade de muitos refinamentos.

Ainda ficam em aberto muitos pontos:

a) quanto à seleção lexical: os campos léxico-semânticos mais adequados, o tipo de entrevistas para coleta de dados, os recursos, as amostragens, etc;

b) quanto à arquitetura de dicionários: o tipo de dicionário e a forma de apresentação das unidades léxicas.

7 REFERÊNCIAS

ALERS. Atlas linguístico-etnográfico da região sul : cartas fonéticas e morfossintáticas. Organizadores: Walter Koch, Cleo Vilson Altenhofen e Mário Silfredo Klasmann. 2ª. Ed. Porto Alegre: Editora da UFRG; Florianópolis: Ed. da UFSC, 2011.

ALERS. Atlas linguístico-etnográfico da região sul: cartas semântico-lexicais. Organizadores: Walter Koch, Cleo Vilson Altenhofen e Mário Silfredo Klasmann. 2ª. Ed. Porto Alegre: Editora da UFRG; Florianópolis: Ed. da UFSC, 2011.

ALIB. Comitê Nacional do Projeto Alib (Brasil). Atlas Linguístico do Brasil. Londrina: Ed. UEL, 2001.

BÉJOINT, Henri. Modern lexicography: an introduction. Oxford: Oxford University Press,

BORBA, Francisco da Silva. Organização de dicionários: uma introdução à lexicografia. São Paulo: Editora UNESP, 2003.

BORTONI-RICARDO, Stella Maris. Do campo para a cidade : estudo sociolinguístico de migração e redes sociais. São Paulo: Parábola Editorial, 2011.

DCE. Diretrizes Curriculares da Educação do Campo. Curitiba: SEED, 2006.

DURÃO, Adja Balbino de Amorim Barbieri. La interlengua. Madrid: arco Libros, 2007.

______ (org.). Por uma lexicografia bilingue contrastiva. Londrina: UEL, 2009. 

______ (org.). Vendo o dicionário com outros olhos. Londrina: UEL, 2010.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 17ª. Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987 [1970].

______. Pedagogia da Esperança: um encontro com a pedagogia do oprimido_._ Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1992.

FREITAS, Waldomiro Ferreira de. História de Paranaguá: das origens à atualidade. Paranaguá: Instituto Histórico e Geográfico de Paranaguá (IHGP), 1999.

LABOV, William. Sociolinguistic Patterns. Oxford, GB: Basil Blackwell, 1972 [2008]. 

LADO, Robert. Introdução à linguistica aplicada. Tradução e notas: Vicente Pereira de Souza. Petrópolis/RJ: Vozes, 1971.

SANTOS, Antonio Vieira dos. Memória histórica chronológica, topographica e descriptiva da cidade de Paranaguá e do seu município. Curtyba: Tip. da “Livraria Mundial”, 1922 [1850].

SELINKER, L. Rediscovering Interlanguage. London and New York: Longman, 1994.

SILVA-CORVALÁN, C. Sociolinguística: Teoría y análisis. Madrid: Editorial Alhambra,

TARALLO, Fernando. A pesquisa sociolinguística. São Paulo: Ática, 1990. 

TOLEDO, Adilson do Rosário. Desenvolvimento de interlíngua na aquisição/aprendizagem da língua materna de crianças em fase inicial de escolarização. Tese (doutorado em Estudos da linguagem), UEL, 2011.

WEINREICH, Uriel; LABOV, William; HERZOG, Marvin. Fundamentos empíricos para uma teoria da mudança linguística. Tradução: Marcos Bagno. Revisão técnica: Carlos Alberto Faraco. São Paulo: Parábola Editorial, 2006 [1968].

WELKER, Herbert Andreas. Dicionários: Uma pequena introdução à lexicografia. 2ª. ed. revista e ampliada. Brasília: Thesaurus, 2004.

WERNER, R.; DURÃO, Adja B. de Amorim Barbieri; RUANO, Maria Angeles S. Equivalentes léxicos e informação semântica contrastiva no dicionário contrastivo português-espanhol. In: DURÃO, Adja Balbino de Amorim Barbieri (Org.). Por uma lexicografia bilíngue contrastiva. Londrina: UEL, 2009.

ANEXO 2

QUESTIONÁRIOS

1 QUESTIONÁRIO FONÉTICO-FONOLÓGICO

a) Parte geral:

  1. Que nome se dá a um lugar como esse, com águas por todos os lados?
  2. Pai, mãe e filhos formam que grupo?
  3. Crescendo, a menina vira mulher. E o menino?
  4. O irmão de seu pai ou de sua mãe é o que do senhor?
  5. O pai de sua mulher é seu sogro. E o senhor o que é dele?
  6. Se a mulher é comadre, o homem é ...
  7. Se numa casa todos saíram, quem ficou?
  8. Que profissional contratamos para defender nossos interesses na justiça?
  9. Que armas de fogo você conhece?
  10. Se não quer ser incomodado, o senhor diz: me deixa em ........
  11. Qual é o contrário de pouco?
  12. Se alguma coisa não é verdade, ela é ............
  13. O contrario de bom é ..........
  14. No inverno faz frio. No verão faz ..........
  15. Quando a água da chaleira esquenta e borbulha, dizemos que ela está ..........
  16. No ovo frito, há uma parte branca e outra amarela. Que nome elas têm?
  17. A carne de porco não é magra porque tem ........
  18. Como se chama aquele bichinho que se arrasta e solta uma gosma?
  19. O contrário de noite é ..........
  20. Qual o nome do santo casamenteiro de 13 de junho?
  21. Nas festas de igreja, qual o nome da caminhada que o povo faz atrás do andor?
  22. Quando se vem de barco, qual o nome que se dá àquele lugar onde se desce e depois se anda pra chegar até aqui?
  23. Como se chama aquele calendário que fica, geralmente, pendurado na parede?

b) Parte específica:

  1. Qual o tipo de peixe mais comum que vocês pescam por aqui?
  2. Onde, normalmente, vocês pescam por aqui?
  3. Qual o nome que se dá àquele lugar lodoso e com vegetação característica, rico em crustáceos e outros animais, que fica na beirada da praia?
  4. Qual o nome daquele crustáceo que vive entocado nesses lugares?
  5. O que você usa pra pescar?
  6. Qual o nome que se dá ao veículo de locomoção na água?
  7. Qual o nome que se dá àquele pedaço de madeira usado pra impulsionar esse veículo?
  1. Qual o nome daquele crustáceo tortinho, como um anzol?
  2. Onde se pesca esse tipo de pescado?
  3. Como se pesca esse tipo de pescado?
  4. Qual o nome que se dá àquele animal que vive na areia de baixio e se come cozido (lambe-lambe)?
  5. Qual o nome daquele animal que se retira da pedra e se come cru ou cozido?
  6. O frango, depois de grande, é chamado de .........
  7. O ovo que fica muitos dias debaixo da galinha fica ......
  8. Qual o nome que se dá àquela parte amarela que só a fêmea da tainha tem?
  9. Que nome se dá àquela armadilha feita com varas do mangue pra pegar peixe?
  10. Que nome se dá àquela armadilha pra pegar siri?
  11. Que nome se dá àquela armadilha pra pegar passarinho?
  12. Qual o nome do macaco que vive nessas matas?
  13. Aquele animal que vive entocado no mato se chama ..........
  14. De manhã, se toma café com ...........
  15. Aquele fogão antigo, à lenha, chama-se ..............
  16. Qual o nome que se dá àquela época em que fica proibida a captura de peixe, camarão e caranguejo?
  17. Qual o nome daquela coisa enroladinha que se põe na boca e faz fumaça?
  18. Como se chama o tipo de dança mais comum por aqui?
  19. Os fios do violão se chamam ......
  20. Como se chama a parte da camisa que fica na ponta do braço?
  21. Que nome se dá à maquina usada pra puxar a água do poço?
  22. Como se chama a armadilha da aranha pra pegar insetos?
  23. O que o sol faz com a roupa estendida no varal?
  24. Como se chama aquela embarcação grande que fica atracada no porto?
  25. Como se chama a parte de baixo do rosto? (mímica)

2 QUESTIONÁRIO MORFOSSINTÁTICO

I Sobre gênero:

  1. O povo desse lugar diz meu barco, minha casa e não minha barco e meu casa. Como diria para as palavras seguintes: Alface Alfinete Cal Chaminé Dó ( pena, pesar) Gilete Sabonete Pá Saca-rolhas Fantasma Soja Tapa
  2. O povo daqui diz um filho – uma filha; um menino uma menina. Como diria para: a) Um alemão – uma ...... b) Um ladrão – uma ..... c) Um macho – uma .....
  1. E uma quantidade menor?
  2. E uma quantidade menor ainda?
  3. O que você entende por sanga?
  4. O que você entende por sangradouro?
  5. O que você entende por vertedouro?
  6. O que você entende por vertente?
  7. O que você entende por restinga?
  8. Como se chama a água parada depois de uma chuva?
  9. Como se chama uma grande quantidade de água cercada de terra?
  10. O que você entende por cacimba?
  11. O que você entende por água salobra?
  12. Como você chama a terra que fica de um lado e de outro do rio?
  13. Como se chama o lugar onde a água sai da terra?
  14. Quando as águas de um rio passam com muita força, diz-se que ele tem ...
  15. O barco vai andando. De repente, toca no fundo. Que pode ter ali?
  16. Como se chama o lugar onde se pode atravessar o rio a pé, a cavalo ou de carroça?
  17. Como se chama a construção que serve para passar por cima de um rio?
  18. E por cima de um arroio, às vezes com um tronco ou uma tábua?
  19. Qual o nome que se dá quando, num rio, a água começa a girar, formando um buraco que puxa pra baixo?
  20. Quando chove muito, o rio sobre muito e cobre uma grande extensão de terra. Que nome se dá a isso?

b) Fenômenos atmosféricos:

  1. De que lado, normalmente, sopra o vento aqui? Como se chama esse vento?
  2. Que outros tipos de ventos você conhece?
  3. Fenômenos atmosféricos
  4. Astros e tempo
  5. Sistemas de pesos e medidas
  6. Flora
  7. Atividades agropastoris
  8. Fauna
  9. Corpo humano
  10. Cultura e convívio
  11. Ciclos da vida
  12. Religião e crenças
  13. Festas e divertimentos
  14. Habitação
  15. Alimentação e cozinha
  16. Vestuário

4 CONVERSAÇÃO LIVRE

a) O senhor já passou por alguma situação de perigo? b) Se o senhor tivesse que fazer um pedido para benfeitoria neste lugar onde o senhor vive ao Prefeito ou ao Governador, por exemplo, o que pediria? c) Como é a festa mais importante do lugar? d) Quais as lendas do lugar? e) O que o senhor acha do projeto da câmara frigorífica e da câmara de defumação? f) O que o senhor espera para o futuro?