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Atividade sobre engenharia, Exercícios de Engenharia Econômica e Distribuição de Energia

Descreva detalhadamente o conteúdo do documento (ex. índice de temas, disciplina, ano, curso, autor, professor...). Documentos com descrição clara são mais baixados

Tipologia: Exercícios

2025

Compartilhado em 29/05/2026

clecio-bruno
clecio-bruno 🇧🇷

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bg1
36
ENERGIA E
EQUIDADE
Ivan Illich
1973
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Baixe Atividade sobre engenharia e outras Exercícios em PDF para Engenharia Econômica e Distribuição de Energia, somente na Docsity!

ENERGIA EEQUIDADE

Ivan Illich

1973

Excerto de: Apocalipse motorizado : a tirania do automóvel em umplaneta

poluído

/^

Ned

Ludd,

(org.)

;^

[tradução

Leo

Vinicius

ilustrações de Andy Singer]. -- 2. ed. rev. -- São Paulo : ConradEditora do Brasil, 2005. -- (Coleção Baderna)

.

Reproduzido e distribuído sem autorização e sem intenção de lucro.Toda propriedade é um roubo.O conhecimento é de todos.

Amor, Anarquia e Bicicleta

Bibliografia de Ivan Illich (em espanhol)

^

La sociedad desescolarizada (1971) ^ La convivencialidad (1973) ^ Energía y equidad (1974) ^ Alternativas ( ^ Juicio a la escuela (1975) ^ Némesis médica (1975) ^ Educación sin escuelas (1976) ^ La escuela y la represión de nuestros hijos (1979) ^ Para Schumacher (1981) ^ El género vernáculo (1982) ^ Ecofilosofías (1984) ^ El H2O y las aguas del olvido (1985)

metabólica do ser humano pela potência da máquina, ilusão que leva,neste

momento,

os

países

ricos

à^

paralisia

e^

fatalmente

desorienta

qualquer plano de desenvolvimento nos países pobres.

Ao difundir o pânico de uma iminente e inevitável “crise de energia”, os ricos prejudicam ainda mais os pobres do que ao vender os produtos desua indústria. Construir as próprias centrais nucleares nos Andes coloca umpaís no Clube dos Exploradores, ao passo que a importação de carros ouaviões

apenas

acentua

sua

dependência.

Ao

incorporar

o^

medo

da

insuficiência de energia para o “progresso” em direção a tais metas, ospobres aceitam a explicação que os ricos apresentam sobre a crise noprogresso e se colocam ao mesmo tempo em desvantagem na corrida docrescimento a que se obrigam. Optam por uma pobreza modernizada, emvez de eleger, com o uso racional das técnicas modernas, o acesso a ummodo de produção que reflita maturidade política e científica. Na minhaopinião, é da maior importância enfrentar a realidade que é oculta poresse conceito de “crise”. É preciso reconhecer que a incorporação de algoacima de um certo quantum de energia por unidade de produto industrialinevitavelmente tem efeitos destruidores, tanto no ambiente sócio-políticoquanto no biofísico. O ABUSO POLÍTICO DA CONTAMINAÇÃO

A

atual

“crise”

energética

foi

precedida

por

uma

análoga

“crise”

ecológica: abusa-se de ambas com fins de exploração política. É necessárioentender que a segunda não encontra solução mesmo que se encontremformas de produzir energia abundante e limpa, isto é, sem efeito destruidorsobre o meio-ambiente.

Os métodos utilizados hoje para produzir energia, em sua crescente maioria, esgotam os recursos e contaminam o ambiente. Ao ritmo atual desua

utilização,

o

carvão,

o^

petróleo,

o

gás

natural

e^

o^

urânio

serão

consumidos dentro do horizonte de tempo de três gerações, e até lá terãotransformado

tanto

o^

ser

humano

quanto

sua

atmosfera

de

forma

definitiva. Para transportar uma só pessoa em um Volkswagen por umadistância de 500 km, são queimados os mesmos 175 kg de oxigênio queum indivíduo respira em todo o ano. As plantas e as algas reproduzemoxigênio suficiente para os três bilhões de seres humanos que existem. Masnão podem reproduzi-lo para um mundo automobilizado, cujos veículosqueimam, cada um, pelo menos 14 vezes mais oxigênio do que queima umindivíduo. Os métodos usados para produzir energia não apenas são caros– e portanto são recursos escassos –, mas são igualmente destrutivos, aponto de engendrar sua própria escassez. Os esforços das três últimas

como os cegou para reconhecer a solução evidente para resolver a Guerrado Vietnã.

De onde nos encontramos agora, partem dois caminhos na direção da maturidade tecnológica. Um é o caminho da libertação da abundância, ooutro é o da libertação da dependência. Ambos têm o mesmo destino: areestruturação

do

espaço

que

oferece

a^

cada

pessoa

a^

experiência,

constantemente renovada, o conhecimento de que o centro do mundo éonde ela vive.

As pessoas que têm os pés na terra, que dominam sua morada, que exercem seu poder inato de mobilidade sabem onde está o centro da Terra.Sabem viver em uma vizinhança, conhecer seus vizinhos, parar para falarcom a pessoa que encontram na esquina, passear e sentar em um bancona calçada.

O tráfego da abundância atropela e chacoalha os ricos. A libertação dessa abundância começa com o domínio sobre a aceleração destruidorado tempo alheio. Os velozes são empurrados de um lado a outro, sãolançados de uma via rápida a outra e apenas tropeçam em outros usuáriosimpulsionados a rumos diferentes. Vêem os rostos anônimos dos demais nocruzamento de dois circuitos. Esse é um mundo de órbitas sem centro.

A solidão da abundância acabará quando os usuários romperem com a servidão do transporte supereficiente. A libertação da abundância ocorreráquando romperem os circuitos velozes que se estendem ao território, queagora está rodeado por esses circuitos, tomando de volta a posse da terracom seus pés.

A libertação da dependência começa no outro extremo. Rompe com a opressão do povoado e do vale, deixa para trás o tédio dos horizontesestreitos e sufocantes e o mal-estar de um mundo fechado em si mesmo.Expandir a vida para além do raio da tradição, sem inseminá-la com osventos

da

aceleração,

é^

uma

meta

que

qualquer

país

pobre

poderia

alcançar em poucos anos. Contudo, é uma meta que poderão alcançarsomente

aqueles

que

rechaçam

a^

oferta

do

desenvolvimento

de

um

monopólio industrial, sobre a produção feita em nome de uma ideologia deconsumo indefinido de energia. O que agora ameaça tanto os países ricoscomo os países pobres é exatamente o contrário. Mais que aos xeiquesárabes

e^

às

companhias

petrolíferas

internacionais,

a^

crise

energética

recentemente “descoberta” traz vantagens às classes governantes e a seuslacaios

profissionais.

Em

vez

de

identificar

o^

mínimo

de

combustível

necessário para a maior mobilidade pessoal, eles tratam de nos obrigar aconsumir o máximo de meios de transporte que o combustível disponívelpode fazer funcionar. Os engenheiros de tráfego impõem limites de 80km/h

na

estrada,

porque

a

tal

velocidade

a

eficiência

dos

motores

é

determinar seus privilégios de classe, a acentuar a escassez de tempo e amanter as pessoas mais firmemente nos trilhos traçados para elas.

Para além do subequipado e do superindustrializado está a eficácia pós- industrial,

um

mundo

no

qual

a modalidade industrial

complementa

a

produção social sem monopolizá-la. Em outras palavras, existe um lugarpara um mundo de maturidade tecnológica. Em termos de circulação, esseé^

o^

mundo

daqueles

que

ampliaram

seus

horizontes

cotidianos

a^

quilômetros, montados em sua bicicleta. Ao mesmo tempo, é marcado poruma variedade de motores subsidiários disponíveis para quando a bicicletanão for suficiente e quando um aumento do impulso não se torne umobstáculo à equidade, nem à liberdade. É também o mundo da grandeviagem, onde todo lugar está aberto a qualquer pessoa, a seu arbítrio e asua velocidade, sem pressa ou medo, por meio de veículos que cruzam asdistâncias sem fraturar a terra sobre a qual o ser humano tem caminhadocom seus pés por centenas de milhares de anos.

O mundo superindustrializado não admite diferenças no estilo de produção e de política. Impõe suas características técnicas às relaçõessociais. O mundo da maturidade industrial permite uma variedade deescolhas políticas e culturais. Essa variedade certamente diminui à medidaque uma comunidade permite que a indústria cresça à custa da produçãoautônoma. O raciocínio sozinho não pode oferecer a medida para fixar onível de eficácia pós-industrial e maturidade tecnológica que se ajuste auma sociedade concreta. Apenas pode indicar, em termos dimensionais, oraio dentro do qual devem se ajustar essas características tecnológicas.Somente um processo político, dentro de uma comunidade histórica, podedecidir quando deixam de valer a pena a programação, a distorção doespaço, a escassez do tempo e a desigualdade. O raciocínio podeidentificar a velocidade como um fator crítico do transporte, mas não podefixar limites políticos factíveis.

As velocidades máximas do transporte de pessoas tornam-se operantes somente quando refletem com transparência o interesse próprio de umacomunidade política. A expressão comum desse interesse não é possível emuma

sociedade

na

qual

uma

classe

monopoliza

não

somente

os

transportes, mas também as comunicações, a medicina, a educação e oarmamento. Não tem importância o fato de esse poder ser exercido pelosproprietários legais ou pelos gerentes entrincheirados na indústria, ou seesta última é propriedade legal dos trabalhadores. Esse poder deve serexpropriado e submetido ao juízo da pessoa comum. Sua reconquista seinicia ao reconhecer que o conhecimento especializado cega os burocratascautelosos diante da forma evidente de dissolver a crise de energia, assim

décadas foram orientados para se produzir mais petróleo, refiná-lo melhore controlar sua distribuição. A ênfase agora está se deslocando para abusca de fontes de energia abundantes e limpas, e motores comparáveisem potência aos atuais, que sejam mais rentáveis e menos venenosos. Estáclaro, porém, que automóveis que não envenenam o ambiente, nem emsua manufatura nem em seu uso, custariam várias vezes mais do que osque temos agora. A promoção da técnica limpa quase sempre constitui apromoção

de

um

processo

de

luxo

para

produzir

bens

de

primeira

necessidade.

Em

sua

forma

mais

trágica

e^

ameaçadora,

a^

quimera

energética

se

manifesta

na

chamada

“Revolução

Verde”

(^2)

.^

Os

grãos

milagrosos

introduzidos

na

Índia

poucos

anos

fazem

sobreviver

os

famintos, vítimas do crescimento industrial, multiplicando-os. Essas novassementes

acumulam

energia

na

forma

de

água

bombeada,

adubos

químicos e inseticidas. Seu preço é pago não tanto em dólares, mas sim emtranstornos sociais e destruição ecológica.

Dessa

forma,

os

quatro

quintos

menos

industrializados

da

espécie

humana,

que

passam

a^

depender

mais

da

agricultura

“milagrosa”,

começam a rivalizar com a minoria privilegiada em matéria de destruiçãoambiental. Há somente dez anos, podia-se dizer que a capacidade de umrecém-nascido norte-americano envenenar o mundo com seus excrementostecnológicos era 100 vezes maior do que a de seu contemporâneo deBengala. Graças à dependência da agricultura “científica” a que o bengalêsé^

acometido

hoje,

sua

capacidade

de

destruir

o^

ambiente

de

forma

irreversível

se

multiplicou

por

um

fator

de

cinco

a^

dez,

enquanto

a

capacidade do norte-americano para reduzir a contaminação do planetadiminuiu um pouco.

Os ricos tendem a acusar os pobres de usar sua pouca energia de forma ineficiente

e

daninha,

e^

os

pobres

acusam

os

ricos

de

produzir

mais

excrementos

porque

devoram,

sem

digerir,

muito

mais

que

eles.

Os

utópicos prometem soluções milagrosas aos dois, como a possibilidade derealizar rapidamente uma diminuição demográfica, ou a dessalinização daságuas do mar por energia de fusão.

Os

pobres

se

veem

obrigados

a

basear

suas

esperanças

de

sobre-

vivência em seu direito a um ambiente regulamentado que a generosidade 2 Saudada como a solução para a fome do mundo, a chamada Revolução Verde rendeu a seu idealizador, Norman E. Borlaug, o Prêmio Nobel da Paz de 1970. Foia realização dos sonhos das grandes companhias agroindustriais. O plano susten-tava-se no uso de sementes híbridas, que exigiam a adubação química intensiva e acrescente utilização de defensivos agrícolas. Embora no primeiro momento tenhasignificado um enorme aumento de produtividade, com o tempo revelou-se um pro-blema econômico, social e ecológico para os países do Terceiro Mundo. (N. E.)

transformá-la em usuário. O fato de que nossos contemporâneos, em suamaioria, estejam amarrados em seus bancos por um cinto de segurançaideológico

não

basta

para

que

o^

direito

fundamental

à^

liberdade

de

movimento torne-se obsoleto. A mobilidade humana é o único padrãoválido para poder medir a contribuição que qualquer sistema de transportepode trazer à circulação. Quando o trânsito se vê restringido por ele, otransporte faz a circulação declinar.

Para poder distinguir o transporte que mutila o direito de movimento daquele que o amplia, deve-se reconhecer que o veículo a motor podeentravar a circulação triplamente: quebrando seu fluxo, criando gruposisolados e hierarquizados de destino e aumentando a perda de tempovinculada à circulação. Vimos que a chave das relações entre o transporte ea qualidade da circulação é a velocidade do veículo. Também vimos que,passado certo limite de velocidade, o transporte afeta a circulação de trêsmodos: a entrava ao saturar de vias e carros um ambiente físico; transfor-ma o território em uma teia de circuitos fechados e estanques; e subtrai aoindivíduo

tempo

e^

espaço

de

existência,

convertendo-o

em

presa

da

velocidade. O contrário também é verdadeiro: abaixo de determinado nívelde velocidade, os veículos motorizados podem complementar ou melhoraro tráfego, permitindo às pessoas fazer coisas que não poderiam fazer a péou de bicicleta. Os motores podem ser usados para transportar o doente, oaleijado, o idoso ou simplesmente o preguiçoso.

As motocicletas podem transportar pessoas através de morros, mas só devem fazê-lo sem causar danos, isto é, se não colocam em desvantagemuma maioria que tem que subir a pé. Os trens podem estender o raio devivência para uma maioria, mas desde que ofereçam igual oportunidade atodos de estar mais próximos uns dos outros. Um sistema de transportebem desenvolvido, com velocidades máximas de 25 km/h, teria permitidoao policial Fix perseguir Phileas Fogg

9 ao redor do mundo não em oitenta

dias, mas em quarenta. Porém, num sistema assim, o tempo empregadopara

viajar

pertence

de

modo

dominante

ao

viajante:

mais

baixa

a

velocidade, menor é a expropriação de tempo alheio que pratica o viajante.

A

coexistência

de

veículos

movidos apenas

com a

força

de

energia

metabólica humana e de outros auxiliados por motores deve ser ponderadasomente se for concedida preferência absoluta à autonomia de movimentodo ser humano e se for protegida a geografia humana contra aquelasvelocidades que a distorcem em geografia veicular. 9 Fix e Phileas Fogg são personagens do romance Volta ao Mundo em Oitenta Dias,de Júlio Verne. (N. T.)

Neste ensaio meu argumento procederá de forma análoga. Assinalarei que no desenvolvimento de uma sociedade moderna existe um momentoem que o uso de energia ambiental excede por um determinado múltiplo ototal da energia metabólica humana disponível. Uma vez ultrapassada essaquota de alerta, inevitavelmente os indivíduos e os grupos de base têm queabdicar progressivamente do controle sobre seu futuro e submeter-se cadavez mais a uma tecnocracia regida pela lógica de seus instrumentos.

Os ecologistas têm razão ao afirmar que toda energia não metabólica é contaminadora: é necessário agora que os políticos reconheçam que aenergia física, passado certo limite, torna-se inevitavelmente corruptora doambiente

social.

Mesmo

que

se

con-siga

produzir

uma

energia

não

contaminadora,

e

produzi-la em

quantidade,

o uso

maciço de

energia

sempre terá sobre o corpo social o mesmo efeito que a intoxicação por umadroga fisicamente inofensiva, mas psiquicamente escravizante. Um povopode escolher entre uma droga substitutiva, como a metadona, e umadesintoxicação realizada por vontade própria no isolamento, mas não podeaspirar simultaneamente à evolução de sua liberdade e convívio por umlado, e a uma tecnologia de alta energia por outro.O MARCO LATINO-AMERICANO

A chamada crise de energia é um conceito politicamente ambíguo. Da maneira como é usada atualmente, serve aos interesses imperialistas tantoda

Rússia

como

dos

Estados

Unidos.

Serve

de

explicação

para

limitar

privilégios àqueles que cooperam mais diretamente no desenvolvimentodesses privilégios. Na América Latina, a difusão do pânico serviria paraintegrar o continente mais perfeitamente como periferia de um mundo cujocentro se encontra onde se utiliza mais energia per capita. Não existemovimento de libertação verdadeiro que não reconheça a necessidade deadotar uma tecnologia de baixo consumo energético.

Discutir a crise de energia equivale a se colocar numa encruzilhada. À esquerda

se

abre

a^

possibilidade

de

transição

a^

uma

economia

pós-

industrial, que põe a ênfase no desenvolvimento de formas mais eficientesde trabalho manual e na realização concreta da equidade. Seríamos assimconduzidos

a^

um

mundo

em

que

todas

as

aspirações

realistas

são

satisfeitas sem luxo. À direita é oferecida a opção de atacar a escalada deum crescimento que poria a ênfase na capitalização e no controle socialnecessários para se evitar níveis intoleráveis de contaminação. Nesse caso,seríamos

conduzidos

a^

transformar

os

países

latino-americanos

em

participantes de terceira ordem no apocalipse industrial, em direção aoqual marcham os países ricos. Estados Unidos, Japão, Alemanha já estão a

ponto de perpetrar o auto-aniquilamento social, numa paralisia causadapelo superconsumo de energia. Insistindo no sonho de fazer trabalhar asmáquinas no lugar do ser humano, desintegram-se politicamente, mesmoantes

de

se

verem

sufocados

em

seus

próprios

dejetos.

Existem

certos

países, como a Índia, a Birmânia e espero que ainda por certo tempotambém a China, que são todavia bastante operantes no uso de seusmúsculos, precavendo assim o aumento do desenvolvimento energético.Podem ainda limitar o uso de energia ao nível atual, tratando de usar seuswatts para fins cada vez mais altos qualitativamente e cada vez mais bemdistribuídos.

É possível que deem o exemplo de uma economia ao mesmo tempo pós-industrial e socialista, para a qual deverão manter uma tecnologia comum baixo consumo de energia e decidir, desde agora, viver abaixo do nívelde consumo de energia mecânica por pessoa que os países ricos deverãorecuperar para poder sobreviver.

A América Latina se encontra dentro de uma terceira situação. Suas indústrias estão subcapitalizadas e seus subprodutos, física e socialmentedestrutivos,

são

menos

visíveis

que

nos

países

ricos,

exceto

nos

casos

particulares da Cidade do México e de São Paulo. Um número menor depessoas

tem

consciência

de

estar

sofrendo

justamente

por

causa

do

aumento da potência da máquina industrial e, portanto, menos pessoasestão dispostas a levar a sério a necessidade de limitar o desenvolvimentode tal potência. Por outro lado, todos os países da América Latina possuemuma infra-estrutura física que, a priori, permite ao não-escolarizado, aonão-motorizado,

ao

não-eletrificado

e

ao

não-industrializado

participar

humanamente no processo de produção. Aqui, a ideia de uma alternativaao desenvolvimento da indústria pesada implica já a renúncia ao que seestá fazendo ou se crê poder fazer amanhã: uma renúncia ao carro, àgeladeira, ao elevador e, em muitos casos, até ao concreto armado que jáestá

na

vila

ou

na

casa

do

vizinho.

Na

América

Latina

existe

menos

consciência da necessidade de um modelo alternativo de tecnologia do quenos países ricos, e tampouco se vislumbra uma renúncia ao modelo dosricos, coisas a que os chineses poderiam se permitir, se assim o quisessem.O PODERIO DE ALTA VOLTAGEM

Tanto os pobres como os ricos deverão superar a ilusão de que MAIS energia é MELHOR. Para tanto, é necessário, antes de qualquer coisa,determinar o limite de energia acima do qual o poder mecânico exerce umefeito corruptor. Esse efeito corruptor pode ser controlado em dois níveiscaracterísticos. Uma sociedade pode sacrificar sua própria sobrevivência,

trocá-lo. O mesmo se pode dizer a respeito das estradas. Para que ummaior número de cidadãos possa chegar às suas casas de carro, mais oterritório

nacio-nal

é^

corroído.

Inevitavelmente

o^

carro

está

ligado

à

estrada, diferentemente da bicicleta. Onde não pode ir montado nela, ociclista

a^

empurra.

O

raio

diário

de

trajetos

aumenta

para

todos

igualmente, sem que por isso diminua para o ciclista a intensidade doacesso. O ser humano com bicicleta se converte em dono dos seus própriosmovimentos, sem estorvar o vizinho. Se existe alguém que ache que emmatéria de circulação é possível conseguir algo melhor, essa é a hora deprovar.

A bicicleta é uma invenção da mesma geração que criou o veículo a motor,

porém

as

duas

invenções

são

símbolos

de

avanços

feitos

em

direções opostas pelo homem moderno. A bicicleta permite a cada umcontrolar

o^

gasto

da

sua

própria

energia.

O

veículo

a^

motor

inevitavelmente torna os usuários rivais entre si pela energia, pelo espaço epelo tempo. No Vietnã, um exército hiperindustrializado não pôde derrotarum povo que se desloca à velocidade da bicicleta. Isso deveria nos fazerrefletir: talvez a segunda forma de emprego da técnica seja superior àprimeira.

Naturalmente,

resta

ver

se

os

vietnamitas

do

Norte

estão

dispostos a permanecer dentro desse limite de velocidade, que é o únicocapaz de respeitar os próprios valores que tornaram sua vitória possível.Até este momento

8 , os bombardeiros americanos os privaram de gasolina,

de motores, de estradas e os obrigaram a empregar uma técnica tambémmoderna, muito mais eficaz, equitativa e autônoma do que Marx poderiater imaginado. Resta ver se agora, em nome de Marx, não se lançam auma

industrialização,

quantitativamente

tão

superior

à

que

Marx

pôde

prever, que torne impossível a aplicação dos ideais que ele formulou.MOTORES DOMINANTES CONTRA MOTORES AUXILIARES

Os seres humanos nasceram dotados de mobilidade mais ou menos igual.

Essa

capacidade

inata

de

movimento

advoga

em

favor

de

uma

liberdade igual na escolha do seu destino. A noção de equidade pode servirde

base

para

defender

esse

direito

fundamental

contra

toda

restrição.

Dentro

dessa

perspectiva,

pouco

importa

qual

seja

a

ameaça

ao

livre

exercício do direito de se mover e escolher seu próprio destino: a prisão, aproibição de cruzar fronteiras ou a reclusão dentro de um ambiente urbanoque

impeça

a

mobilidade

inata

da

pessoa

com

a

única

finalidade

de

8 Este texto foi escrito no início da década de 1970, durante a Guerra do Vietnã. (N.T.)

expande e o coloca em perigo. Acima de um certo ponto, o uso de energiamotorizada inevitavelmente começa a oprimi-lo.

Minha hipótese é de que não pode existir uma sociedade que mereça a qualificação de

“socialista”

quando a

energia mecânica que

ela

utiliza

esmaga

o

ser

humano.

Passado

um

certo

ponto,

inevitavelmente

essa

energia tem tal efeito. Existe uma constante K. Essa constante indica aquantidade pela qual se deve multiplicar a energia mecânica utilizada paratodos os fins na sociedade. Não pode existir essa combinação de sociedade“socialista” se K não permanecer dentro de limites. A sociedade deve serconsiderada

subequipada

para

uma

forma

de

produção

participativa

e

eficaz quando K não alcança o limite inferior. Quando K passa a ser maiorque o valor do limite superior, termina a possibilidade de manter umadistribuição equitativa do controle sobre o poder mecânico na sociedade.Espero elaborar um modelo teórico que ilustre essa hipótese. Se ela estivercorreta,

existe

em

cada

sociedade

concreta

um

“nível

de

energia

de

rendimento mecânico” dentro do qual pode funcionar de maneira ótimaum sistema político participativo. A ordem de grandeza desse nível deenergia é independente do instrumental tecnológico ou da eficiência natransformação da própria energia.

Simultaneamente proponho que se verifique essa mesma hipótese em alguns campos concretos que consomem uma porcentagem importante daenergia mecânica em nossa sociedade. Tais campos seriam a habitação eos aspectos mecanizados da agricultura e do transporte. Decidi formularmeu argumento partindo de uma análise deste último.O PARADIGMA DA CIRCULAÇÃO

Para tanto, apresento para considerações o campo da circulação de pessoas. Permanecerei limitado à análise da circulação das pessoas e desua

bagagem

pessoal,

porque

a^

circulação

de

bens

em

quantidades

superiores exigiria outra abordagem. Na circulação, distinguirei dois meiosde locomoção: o trânsito das pessoas que usam sua própria força paratransladar-se de um ponto a outro e o transporte motorizado. Incluo nacirculação total duas grandes categorias estatísticas de locomoção bemdistintas: a viagem, que a princípio admite a intenção de dormir em outrolugar, pelo menos durante uma noite, e o deslocamento, o trajeto de ida evolta, que termina no mesmo dia em seu lugar de origem. A viagem, assimcomo o deslocamento, pode ter como fim o trabalho, o passeio, o comércioou a participação em atividades sociais.

Com o exemplo da circulação, creio poder deixar claro por que a “crise de energia” é um eufemismo atrás do qual se esconde a ilusão de que o

têm que ficar cada vez mais complexos e dispendiosos, sem que melhore acirculação para ele. A idéia de que por um processo político se poderiaencontrar uma característica técnica tão elementar como a “velocidadecrítica”, sob estudo aqui, lhe parece fruto da imaginação ingênua de umancião, de um inculto, de um luddita ou de um demagogo irresponsável.Seu respeito pelo especialista, a quem não conhece, transformou-se emsubmissão cega às condições estabelecidas por ele. A mistificação própria etípica do homem-cliente é o segundo obstáculo ao controle popular dacirculação.

Há um terceiro obstáculo à construção da circulação: tal reconstrução por iniciativa majoritária é potencialmente um explosivo social. Se em umcampo maior as massas chegarem a entender até que ponto têm sidofantoches de uma ilusão tecnológica, a mesma mutação de consciênciapoderia

facilmente

estender-se

a^

outros

campos.

Se

fosse

possível

identificar publicamente um valor natural máximo para as velocidades dosveículos,

como

condição

para

o^

trânsito

ótimo,

intervenções

públicas

análogas na tecno-estrutura seriam então muito mais fáceis.

A estrutura institucional geral está tão integrada, tão tensa e frágil que a partir de qualquer ponto crítico pode ocorrer um desmoronamento. Se oproblema do trânsito pudesse ser resolvido por intervenção popular e semreferência aos peritos do campo do transporte, então poderia ser aplicadoo mesmo tratamento às questões da educação, da saúde, do urbanismo eaté mesmo das igrejas e dos partidos. Se, para todos os efeitos e sem ajudade

peritos,

os

limites

críticos

de

velocidade

forem

determinados

por

assembléias representativas do povo, seriam então cortadas as própriasbases do sistema político. Sendo assim, a investigação que proponho éfundamentalmente política e subversiva.SOBRE OS GRAUS DE “MOVER-SE”

O ser humano se move com eficácia sem ajuda de nenhum implemento. Caminhando, cria sua rota. A locomoção de cada grama de seu corpo oude

sua

carga,

sobre

cada

quilômetro

percorrido

em

dez

minutos,

lhe

consome 0,75 caloria. Comparando-o a uma máquina termodinâmica, oser humano é mais rentável que qualquer veículo motorizado, que consomepelo menos quatro vezes mais calorias no mesmo trajeto. Além disso, émais eficiente que todos os animais de peso parecido. O tubarão e ocachorro

ganham

dele,

mas

por

pouca

coisa.

Com

esse

índice

de

eficiência de menos de uma caloria por grama, historicamente organizouseu

sistema

de

circulação,

preponderantemente

baseado

no

trânsito.

Explorou o mundo, criou culturas, sustentou relações comerciais e, até o

A

maioria

dos

peruanos

e

mexicanos,

para

não

falar

dos

chineses,

encontra-se na postura oposta. O limite crítico da velocidade está para elesmuito à frente do que conhecem por experiência própria. Sim, existemvários

que

guardam

para

a^

vida

a^

lembrança

de

alguma

escapada

motorizada. Recordam o dia em que, no caminhão do exército, foramtransportados para uma manifestação num largo. Em Pequim, recordam avisão do general em seu carro. Mas, mesmo nessas raras ocasiões, nasquais se movem sobre a pista a uma velocidade de 50 km/h, em uma horanão cobrem mais de 30 km. Não assimilam a experiência de ter percorridotal distância em tão pouco tempo. Em Guerrero e em Chiapas, dois estadosmexicanos, em 1970, menos de 1% da população nunca havia percorrido15 km em menos de uma hora. As estradas vicinais sem dúvida tornammais cômodo o deslocamento, tornam possíveis os percursos maiores, masnão os aceleram, passando do limite. Permitem a todos se moverem juntos,levam

o^

camponês

ao

mercado

sem

separá-lo

do

seu

porco

e^

sem

ocasionar a este perda de peso, mas não os fazem chegar mais do que seisvezes mais rápido do que se tivessem ido a pé.

A ordem de grandeza do ponto-limite crítico de velocidade é muito baixa para ser levada a sério pelo usuário e muito alta para despertar o interessedo camponês. Assim, ele se situa, para ambos, no ponto cego do seucampo visual. Ao camponês pareceria voar como um pássaro se pudesse setransladar de sua casa a um campo a 25 km de distância em uma hora oumenos,

ao

passo

que

o

usuário

esquece

que

a^

enorme

maioria

dos

habitantes de Londres, Paris, Nova York e Tóquio gasta mais de uma horapor cada dez quilômetros que se deslocam. O fato de a velocidade críticapara a circulação estar situada em um ponto cego comum ao campo visualdo usuário e do camponês é o que torna tão difícil apresentar o assunto àdiscussão pública. O usuário está intoxicado pelo consumo de altas dosesde energia industrial, e tocar nesse ponto é como tocar numa ferida paraele, enquanto o camponês não vê razão em se proteger de algo que nãoconhece.

A essa dificuldade geral para politizar o tema das velocidades soma-se outro obstáculo ainda mais evidente. O usuário de transportes não é clienteunicamente

das

estradas.

Quase

sempre

um

homem

moderno,

é

igualmente cliente acorrentado a outros sistemas públicos, tais como aescola,

o

hospital

e^

o^

sindicato.

Está

condicionado

a

crer

que

os

especialistas podem compreender os porquês das “características técnicas”segundo as quais funcionam os sistemas: só o médico pode identificar ecurar sua febre, e só o professor titulado deve ensinar o seu filho a ler. Estáacostumado igualmente a confiar nos peritos, já que só eles compreendempor que o trem suburbano parte às 8h15 e às 8h41, ou por que os carros

uso

de

energia

e^

a^

equidade

podem

crescer

no

mesmo

ritmo

indefinidamente.

A^

circulação

oferece

uma

oportunidade

para

expor

a

urgência da análise que proponho, ao mesmo tempo que permite chamar aatenção para a cegueira que existe diante da evidência dessa urgência. E,finalmente, me permito apresentar meu argumento de uma forma tal quepossa ser entendido e verificado em discussões públicas com pessoas comqualquer nível de instrução formal.A INDÚSTRIA DO TRANSPORTE

No momento em que uma sociedade se torna tributária do transporte

não

somente

para

as

viagens

ocasionais,

mas

também

para

seus

deslocamentos cotidianos, se torna visível a contradição entre justiça sociale energia motorizada, isto é, entre a liberdade da pessoa e a mecanizaçãoda rota. A dependência, em relação ao motor, nega a uma coletividadeexatamente

aqueles

valores

que

se

considerariam

implícitos

ao

melhoramento da circulação.

O que segue é evidente para camponeses sensatos e se torna duvidoso para uma pessoa que sobe os degraus da escolaridade: a máquina é umacontribuição positiva, quando seu emprego leva à expansão do raio decirculação para todos, multiplicando os destinos finais, sem que por issoaumente a parte de tempo social dedicado à circulação. Hoje em dia,nenhum sistema motorizado de locomoção chega a aumentar o raio decirculação

ao

mesmo

tempo

em

que

salvaguarda

a^

equidade

na

distribuição dos custos e na acessibilidade aos destinos escolhidos. Diantedessa evidência o camponês e o operário facilmente conseguem entender aarmadilha da aceleração, que rouba o tempo da maioria, ao passo que osuniversitários justificam os privilégios que essa velocidade lhes concedemediante argumentos estranhos ao debate. Estes insistem que os paíseslatino-americanos têm direito de competir com a tecnologia rica, mostramque o transporte gera um aumento importante do PIB e que sem umapolítica de locomoção mecânica das massas não é possível desenvolveraquela forma de controle social que para eles se esconde atrás do idealnacionalista.

Em

minha

análise

do

transporte,

não

me

interessa

identificar

os

benefícios econômicos que ele gera, mas sim a sua contribuição (não comomeio de distinção). É fácil constatar que, onde quer que as máquinas 4 Lembrando que Ivan Illich está usando neste artigo a palavra “transporte” como sinônimo de locomoção motorizada, ou seja, transporte motorizado, e “trânsito”para a locomoção não motorizada. (N. T.)

seriam pagos com fundos públicos, quer dizer, fundos arrecadados pormeio de impostos. A imposição, por sua vez, não seria somente maior paraaqueles

que

ganham

mais,

mas

também

para

aqueles

que

vivem

ou

possuem negócios próximos aos terminais. Além disso, neste sistema, quemchegasse

primeiro

seria

também

o

primeiro

a^

ocupar

seu

lugar,

sem

prioridade reconhecida nem ao médico, nem a quem vai à festa, nem aodiretor. Um mundo utópico semelhante logo se mostraria um pesadelo, noqual todos seriam igualmente prisioneiros do transporte. Cada um privadodo uso de seus pés, incapaz de competir com os veículos, se converteria emagente da proliferação ulterior da rede de transportes. A única alternativaque sobraria se impõe por si só: insistir que a velocidade dos veículosdisponíveis se reduza a um nível que permita ao ser humano competir comela com suas próprias forças. O LIMITE INATINGÍVEL

Deve-se

perguntar

por

que

as

pesquisas

insistentemente

continuam

dirigidas ao desenvolvimento de transportes cada vez mais nocivos, em vezde determinar as condições ótimas de circulação. Na minha opinião, háuma razão óbvia para isso. Não podem ser identificadas as condições parauma circulação ótima sem que seja definido de antemão que a circulaçãoem questão deve ser a locomoção das pessoas e não dos veículos. Noentanto, para poder assentar as metas de um sistema de transportes sob talpremissa, é necessário levar em consideração que as pessoas possuem umacapacidade inata de mover-se sem que para isso necessitem da ajuda depolíticos

e^

engenheiros.

Mesmo

que

possa

parecer

estranho

à

pessoa

comum, é exatamente essa mobilidade natural do ser humano que nãoganha significação formal por parte das grandes equipes profissionais, quepreparam

a^

maioria

dos

grandes

estudos

sobre

a^

reorganização

da

circulação necessária para os próximos dez anos.

Assentada a premissa de que o ser humano nasce com alta mobilidade, característica

do

seu

ser

e^

tradicionalmente

satisfatória,

impõe-se

o

problema

de

como

salvaguardar

essa

mobilidade

natural,

apesar

das

medidas que venham a ser tomadas para “melhorá-la”. Uma das formasque garantem o desfrute da mobilidade natural consiste em impor umlimite à indústria de transporte, limite que, em certo nível, ganhe a formade restrição à velocidade. O obstáculo maior para a discussão racional dotema é a ordem de grandeza desse limite de velocidade.

O usuário compreende que algumas velocidades devem ser excluídas, compreende que a generalização do avião supersônico lhe impediria odescanso

e

o

sono

e,

muito

provavelmente,

despojaria

seus

netos

do

tivesse feito a viagem de barco. O próprio pobre do mundo moderno,capaz de acelerar de vez em quando, reforça a ilusão da qual é vítimapremeditada, e se faz cúmplice da destruição do quadro social do espaço.Não somente quem usa o avião, mas também quem defende seu uso,coopera para destruir a relação multimilenar que existe entre o ser humanoe sua geografia.

O americano típico consagra mais de 1.600 horas por ano ao seu automóvel: sentado dentro dele, andando ou parado, trabalhando parapagá-lo e para pagar a gasolina, os pneus, os pedágios, o seguro, asmultas e os impostos para as estradas federais e para os estacionamentospúblicos. Consagra a ele quatro horas por dia, nas quais se serve dele, seocupa dele ou trabalha para ele. Aqui não se levaram em conta todas asatividades orientadas pelo transporte: o tempo que consome no hospital,no tribunal e na oficina mecânica, o tempo passado diante da televisãovendo propaganda de automóveis, o tempo investido em ganhar dinheiropara viajar de avião ou de trem. Sem dúvida, com essas atividades elemovimenta a economia, arruma trabalho para seus colegas, rendimentospara os xeiques da Arábia e justificativa a Nixon para sua guerra na Ásia.Mas se nos perguntarmos de que modo essas 1.600 horas, que são umaestimativa

mínima,

contribuem

para

sua

circulação,

a^

situação

fica

diferente. Essas 1.600 horas lhe servem para fazer 10.000 km de caminho,ou seja, 6 km em uma hora. É exatamente o mesmo que alcançam aspessoas

nos

países

que

não

possuem

indústria

de

transporte.

Porém,

enquanto o norte-americano destina à circulação 25% do tempo socialdisponível, nas sociedades não motorizadas são destinados a esse fim de 3a 8% do tempo social. O que diferencia a circulação em um país rico e emum país pobre não é uma maior eficácia, e sim a obrigação de consumirem doses altas as energias condicionadas pela indústria de transporte.O ESTUPOR INDUZIDO PELA VELOCIDADE

Ao ultrapassar determinado limite do consumo de energia, a indústria do transporte dita a configuração do espaço social. As estradas fazem oscampos recuarem para fora do alcance do camponês que queira caminhar,os viadutos e aeroportos cortam o acesso de um lado a outro do bairro,enquanto

as

ambulâncias

empurram

as

clínicas

para

além

da

curta

distância que se pode cobrir levando uma criança enferma. O carro ou amoto permite ao médico e à parteira viver longe do ambiente em queexercem suas profissões e, quanto mais caros os transportes, mais se tornaum privilégio de ricos ou de altos escalões a visita em domicílio. Quando oscaminhões pesados chegam a um povoado dos Andes, a primeira coisa quedesaparece é uma parte do mercado local. Em seguida, quando chega o

asfalto e um grupo de professores secundários se estabelece no povoado,cada vez mais jovens vão para a cidade, até que não fique uma só famíliaque não espere se encontrar com alguém lá, a centenas de quilômetros.

Frequentemente nos esquecemos que a aceleração das viagens é um fato muito recente. Valéry

5

tinha razão ao afirmar que Napoleão ainda se

movia

com

a

mesma

lentidão

de

César.

Desde

os

tempos

de

Ciro,

o

Grande, rei dos Persas, os impérios contavam com a possibilidade de enviarcartas a uma velocidade de até 160 km por dia. As mensagens em toda ahistória circulavam a uma média de 100 km diários, fossem transportadasem galeras de Constantinopla a Veneza, ou levadas pelos corredores dosFugger, por cavaleiros do Califa, ou pelas rotas do império Inca. O primeirocaminho

entre

Paris

e^

Marselha

ou

Toulouse

para

diligência,

que

normalmente percorria mais de 100 km por dia, antecedeu em apenassetenta anos ao primeiro trem que percorria 100 km por hora em 1853.Mas, uma vez criada a ferrovia, o ser humano se viu pregado a ela. NaFrança, entre 1850 e 1900, a quilometragem por passageiro se multiplicoupor um fator de 53.

Por seu impacto geográfico, definitivamente a indústria de transporte molda uma nova espécie de seres humanos: os usuários. O usuário vive emum mundo alheio ao das pessoas dotadas da autonomia de seus membros.O usuário é consciente da exasperante falta de tempo provocada por terque

recorrer

cotidianamente

ao

trem,

ao

automóvel,

ao

metrô

e^

ao

elevador,

que

o

transladam

diariamente

através

dos

mesmos

canais

e

túneis por um raio de 10 a 25 km. Conhece os atalhos que os privilegiadosencontram para escapar da exasperação engendrada pela circulação, eque os levam aonde querem chegar. Enquanto o usuário tem que dirigirseu próprio veículo de um lugar, em que preferiria não viver, para umemprego que preferiria evitar. O usuário sabe que é limitado pelos horáriosde trem e de ônibus nas horas em que sua esposa lhe priva do carro, masvê os executivos deslocarem-se e viajarem pelo mundo quando e como lhesconvier. Paga seu automóvel do seu próprio bolso, em um mundo em queos

privilégios

vão

para

os

diretores

das

grandes

empresas,

das

universidades, dos sindicatos e dos partidos. Os pobres se amarram a seuscarros e os ricos usam o carro de serviço, ou alugam um carro em algumalocadora.

O usuário se exaspera pela desigualdade crescente, pela escassez de tempo e pela sua própria impotência, mas, de maneira insensata, põe suaúnica esperança em mais da mesma coisa: mais circulação por meio demais transporte. Espera o alívio através de mudanças de ordem técnica que 5 Paul Valéry, poeta e crítico francês, 1871-1945. (N. T.)

A

circulação

nos

serve

aqui

de

exemplo

para

formular

uma

lei

econômica e política geral: quando um produto excede certo limite deconsumo de energia por pessoa, exerce um monopólio radical sobre asatisfação

de

uma

necessidade.

Esse

monopólio

se

institui

quando

a

sociedade se adapta aos fins daqueles que consomem uma quantidademaior de energia, e se enraíza irreversivelmente quando se começa aimpor a todos a obrigação de consumir o quantum mínimo sem o qual amáquina

não

pode

funcionar.

O

monopólio

radical

exercido

por

uma

indústria sobre toda uma sociedade não é efeito da escassez de bensreservados a uma minoria de clientes, é muito mais a capacidade que temessa indústria de converter todos em usuários.

Em toda a América Latina os sapatos são escassos. Muita gente não os usa jamais. Caminham descalços ou com sandálias, huaraches

6 ou caites

que eles mesmos fabricam. No entanto, nunca a falta de sapato limitou seutrânsito. Porém, umas duas gerações atrás, calçar o povo se tornou emideal

dos

nacionalistas.

Começaram

a

obrigar

as

pessoas

a

se

calçar,

proibindo-as

de

comungar,

graduar-se

ou

fazer

solicitações

públicas

perante um burocrata estando descalças. O poder do burocrata para definiro que é bom para o povo inevitavelmente lhe dá o poder de estabelecernovas hierarquias.

Assim

como

o

calçado,

as

escolas

sempre

foram

um

bem

escasso.

Porém, só o fato de receber uma minoria privilegiada não faz com que aescola seja um obstáculo à aquisição do saber por parte da maioria. Foinecessário estabelecer a escola gratuita e obrigatória para que o educador,convertido em um tamis entre o saber e as massas, pudesse fazer dosubconsumidor de seus conhecimentos um depreciado autodidata.

A indústria da construção poderia nos servir como um terceiro exemplo do que é um monopólio radical. A maioria de nós ainda sabe criar umambiente físico e construir sua casinha. Não é a casa do rico, ou o paláciodo governo o que impede que ela seja feita hoje, mas sim a lei queapresenta a casa profissionalmente construída como modelo, impedindo aautoconstrução moderna à maioria.

Os

elementos

que

fazem

de

uma

indústria

que

consome

grande

quantidade de energia um monopólio radical se tornam visíveis se tratamosde realizar os ideais que hoje regem a circulação. Imaginemos que sejaorganizado um sistema de transportes para uso diário, que realmente sejarápido,

gratuito

e^

igualmente

acessível

a^

todos.

Em

um

mundo

hipermoderno

dotado

de

um

sistema

semelhante,

todos

os

transportes

6 Tipo de sandália de couro, muito comum no México. (N. T.) 7 Sandálias típicas da América hispânica, particularmente a América Central. (N. T.)

prioridade seja sempre o pedestre. A libertação do usuário baseia-se nasua

compreensão

da

realidade:

enquanto

exigir

mais

energia

para

impulsionar

com

mais

aceleração

alguns

indivíduos

da

sociedade,

ele

precipita

a^

corrupção

irreversível

da

equidade,

do

tempo

livre

e^

da

autonomia pessoal. O progresso com o qual sonha não é mais que adestruição mais bem executada.OS SUGADORES DE TEMPO

Em

qualquer

sociedade

em

que

o

tempo

é^

pago,

a

equidade

e

a

velocidade na locomoção tendem a ser inversamente proporcionais. Osricos

são

aqueles

que

podem

se

mover

mais,

ir^

aonde

quiserem,

permanecer onde desejarem e obter esses serviços em troca de uma fraçãomuito pequena do seu tempo vital. Os pobres são aqueles que gastammuito tempo para que o sistema de transporte funcione para os ricos dopaís.

A razão para isso é que a velocidade acaba sendo muito cara para ser realmente

compartilhada:

todo

aumento

da

velocidade

de

um

veículo

ocasiona um aumento correspondente do consumo de energia necessária àsua propulsão.

Não apenas o próprio funcionamento consome energia: quanto maior a velocidade, mais energia se investe na fabricação do próprio veículo, namanutenção da pista e nos serviços adicionais sem os quais ele não podefuncionar.

Não é apenas energia que consome um veículo veloz: mais importante ainda é o consumo de espaço. Cada aumento da velocidade faz do veículoum ser mais ávido por metros quadrados ou cúbicos.

A Alemanha Ocidental consumiu sua terra à razão de 0,2% por ano durante a década de 1950. Nos anos 1960 já havia conseguido cobrirpermanentemente

com

asfalto

do

seu

território.

Os

americanos

requerem, para seus próprios movimentos e para os de suas mercadorias,uma soma de energia superior ao total disponível para a metade de toda ahumanidade,

reunida

na

China,

Índia

e^

no

sudeste

asiático.

Inevitavelmente a aceleração suga tempo, espaço e energia.

Ora, quando a energia requerida pelo usuário ultrapassa uma certa barreira,

o^

tempo

de

algumas

pessoas

adquire

um

valor

muito

alto,

enquanto

o^

da

maioria

é^

depreciado.

Em

Bombaim,

alguns

poucos

automóveis

são

suficientes

para

perturbar

a^

circulação

de

milhares

de

bicicletas

e^

carrinhos

de

tração

humana.

Deslocando-se,

reduzem

seriamente

o^

fluxo

e^

criam

gargalos.

Contudo,

um

desses

escassos

automobilistas

pode

transladar-se

em

uma

manhã

para

a^

capital

da

já ganha da América do Norte em velocidade e em tempo perdido parausufruí-la

O

tempo

carcomido

pela

circulação,

o

ser

humano

privado

de

sua

mobilidade e submetido à dependência de rodas, a arquitetura a serviço doveículo, tudo isso é consequência da reorganização do mundo sujeita àaceleração prepotente. Não muda muito o fato de a máquina ser públicaou privada. A escassez de tempo cresce inevitavelmente com o aumento davelocidade: passando do carro ao trem, que lhe fornece o mesmo serviço, ousuário trabalha duas ou três horas por dia para pagar mais impostos emvez

de

trabalhar

para

pagar

seu

“Ford”.

Inevitavelmente

aumenta

a

programação: em vez de ter que agregar duas horas de trabalho comochofer de seu próprio carro para ir ao trabalho diário na fábrica ou naoficina, agora tem que adaptar seu dia aos horários dos diferentes meiosde transporte público. Assim como os veículos ocupam o espaço e reduzemos lugares onde as pessoas podem parar ou viver, ocupam igualmente maishoras a cada ano, além de imporem seu ritmo ao projeto de cada dia.O MONOPÓLIO RADICAL DO TRANSPORTE

Como indiquei anteriormente, para poder entender a disfunção que analisamos deve-se distinguir entre a circulação, o trânsito e o transporte.Por circulação designo todo deslocamento de pessoas. Chamo trânsito aosmovimentos feitos com a energia muscular do ser humano, e transporte aosmovimentos que recorrem a motores mecânicos para transladar pessoas ebagagens. Sem dúvida, desde tempos imemoriais, o animal tem estadoenvolvido

nas

buscas

empreendidas pelo

ser

humano,

sendo

seu

dócil

veículo. Isso é coisa do passado: o aumento do número de seres humanoscada vez mais exclui o animal de carga de um mundo superpovoado, eagora

os

motores

mecânicos

engendram

a^

forma

não

humana

dos

movimentos.

Dentro dessa perspectiva, diferenciam-se duas formas de produção da circulação. O transporte, ou seja, a forma baseada na utilização intensivado capital, e o trânsito, forma baseada na utilização intensiva do corpohumano. O transporte é principalmente um produto da indústria, o trânsitonão o é, nem pode sê-lo. Quem transita é dono de seu próprio ato. Quemusa transporte é passageiro ou usuário, ou seja, cliente de uma indústria. Otransporte

utilizado

é

um

bem

com valor

de troca,

sujeito à

escassez.

Submete-se ao jogo do mercado, organizado como um “jogo de somazero”, de tal maneira que, se alguns ganham, os outros perdem. O trânsito,por definição, possui um valor de uso, que normalmente é do transeunte.Não se vê necessariamente perpassado por algum valor de troca. A criança

força não fazem mais do que pisotear a equidade. Além disso, fazemperder tempo.A ACELERAÇÃO – DIMENSÃO TÉCNICA QUE EXPROPRIA O TEMPO

A velocidade reduz o tempo em um duplo sentido: diminuindo o tempo que necessita o passageiro para cobrir 1.000 km e reduzindo o tempo quepoderia

ser

empregado

em

outra

coisa

que

não

o^

deslocamento.

A

velocidade superior de certos veículos favorece algumas pessoas, mas adependência geral de veículos velozes consome o tempo de todos. Quandoa velocidade ultrapassa certo limite, o tempo total destinado pela sociedadeà circulação começa a aumentar.

O efeito causado pelos veículos superpotentes sobre a quantia cotidiana de tempo disponível de indivíduos e sociedades é pouco conhecido. Asestatísticas nos mostram apenas o preço em dólares por quilômetro, ou aduração em horas por deslocamento. A informação sobre a quantidade detempo no transporte é escassa. Existem poucos dados estatísticos sobrecomo

o^

automóvel

devora

espaço,

como

se

multiplicam

os

percursos

necessários, como se afastam dos destinos almejados e quanto custa ao serhumano motorizado adaptar-se ao transporte e recuperar-se dele.

Nenhum estudo assinala os custos indiretos do transporte. Por exemplo, o preço que se paga por residir em uma área com circulação de fácilacesso, os gastos implicados em se proteger do barulho, da contaminaçãoe dos perigos da circulação.

Contudo, a inexistência de uma contabilidade nacional do tempo social não deve levar-nos a crer que é impossível estabelecê-la, nem deve nosimpedir de utilizar o pouco que já sabemos a respeito.

O que sabemos com certeza é que em todas as partes do mundo, na medida em que a velocidade dos veículos que cobrem os deslocamentosdiários ultrapassa um ponto em torno dos 20 km/h, a escassez de temporelacionada ao desenvolvimento do transporte geral começa a aumentar.Uma vez que a indústria alcança esse ponto crítico de concentração dewatts

por

pessoa,

o^

transporte

faz

do

ser

humano

o^

fantasma

que

conhecemos: um desvairado que constantemente se vê obrigado a alcançardentro das próximas doze horas uma meta que por seus próprios meiosfísicos torna-se inatingível. Na atualidade, as pessoas se veem obrigadas atrabalhar boa parte do dia para pagar os deslocamentos necessários parase

dirigirem

ao

trabalho.

Numa

sociedade,

o^

tempo

destinado

ao

transporte

cresce

em

função

da

velocidade

máxima

dos

transportes

públicos. Por possuir meios de transporte público mais modernos, o Japão

província,

trajeto

que,

duas

gerações

antes,

teria

levado

uma

semana

inteira. Na Tailândia, os transportes tradicionais eram tão bons e flexíveisque nunca os reis puderam impor tributos sobre o movimento do arroz,tantas

eram

as

vias

pelas

quais

se

podia

escapar

da

vigilância

do

arrecadador com botezinhos elegantes e rápidos, usando uma vasta redede canais. Para poder introduzir o automóvel, todo esse sistema, perfeita-mente democrático, foi paralisado, cobrindo-se alguns dos klongs (canais)com asfalto. Alguns pouquíssimos indivíduos podem se mover com rapideze a maioria se tornou dependente, tendo que adquirir “transporte”.

O que é válido na Índia, onde a renda anual por pessoa alcança setenta dólares, é também em Boston, onde a circulação se tornou mais lenta doque na época das carruagens a cavalo. O tempo utilizado em atividadesrelacionadas com o transporte logicamente cresce com os gastos feitos paraacelerá-lo. Uma minoria dos bostonianos pode dar-se ao luxo de viver emarranha-céus perto do trabalho e de usar a ponte aérea para dar uma voltae almoçar em Nova York. Para a maioria, aumenta a quantidade de horasde espera para gerar “transporte”.

Em qualquer lugar, a demanda de circulação cresce com a aceleração dos

veículos

e^

com

maior

apuro

que

a^

possibilidade

de

satisfazê-la.

Passado

certo

limite,

a

indústria

de

transporte

custa

à

sociedade

mais

tempo

do

que

economiza.

Com

aumentos

ulteriores

da

velocidade

de

certos veículos, diminui a quilometragem total viajada pelos passageiros,mas

não

o

tempo

que

lhes

custa

manter

o

sistema

de

transportes.

A

utilidade

marginal

do

aumento

da

velocidade,

acessível

apenas

a^

um

pequeno número de pessoas, ao ultrapassar um limite, traz para a maioriaum aumento da inutilidade total do transporte. A maioria não apenas pagamais, mas também sofre mais danos irreparáveis.

Passada a barreira crítica de velocidade em um veículo, ninguém pode ganhar tempo sem que, obrigatoriamente, faça um outro perder. Aqueleque exige um lugar no avião proclama que seu tempo vale mais que o dopróximo. Em uma sociedade em que o tempo para consumir ou usar foiconvertido em um bem precioso, servir-se de um veículo, cuja velocidadeexceda essa barreira crítica, equivale a aplicar uma injeção suplementar dotempo vital de outros no usuário privilegiado de veículos.

A velocidade serve para medir a dose da injeção que transforma em ganância de tempo para uns poucos a grande perda de tempo de muitos.Inevitavelmente, essa corrida dos ricos contra o tempo e a morte deixaferidos atrás de si. Apresenta problemas éticos de ordem mais universalque a diálise renal ou os transplantes de órgãos, que revoltam tantos.

Ao

ultrapassar

certo

limite

de

velocidade,

os

veículos

motorizados

produzem distâncias que só eles podem reduzir. Produzem distâncias às