



































Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity
Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium
Prepare-se para as provas
Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity
Prepare-se para as provas com trabalhos de outros alunos como você, aqui na Docsity
Encontra documentos específicos para os exames da tua universidade
Prepare-se com as videoaulas e exercícios resolvidos criados a partir da grade da sua Universidade
Responda perguntas de provas passadas e avalie sua preparação.
Ganhe pontos para baixar
Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium
.....,. ... ...... .. .... .... ..........
Tipologia: Resumos
1 / 43
Esta página não é visível na pré-visualização
Não perca as partes importantes!




































Argumento: Como diz Gil Vicente. a Barca do Inferno prefigura o destino das almas que chegam a um braço de mar onde estão ancorados dois batéis: um que se dirige para o Paraíso, e outro que transportará as almas para o Purgatório ou para o inferno: aquela tripulada por um Anjo: esta, pelo Diabo e seu Companheiro. Neste primeiro auto Gil Vicente faz chegar à margem as almas representativas das várias classes sociais e profissionais de seu tempo: a nobreza, representada pelo fidalgo; o clero, pelo frade amancebado; a mesteiral, pelo sapateiro; a judicial, pelo corregedor e pelo bacharel procurador: a dos agiotas e ladrões, pelo judeu, pelo onzeneiro e pelo enforcado; a dos mistificadores, pela alcoviteira. Para estes o destino é inapelavelmente o reino de Satanás. Não obstante todos argumentem com inúmeras razões o seu direito de embarcar no batel do Paraíso, apenas se salvam, neste primeiro juízo um parvo (porque “deles é o reino do Céu”) e quatro cavaleiros — que combateram pela fé de Cristo. Considerações sobre a peça: Esta peça. representada na câmara da rainha D. Maria, suscitou ao Poeta uma continuação que terminou na belíssima trilogia das barcas: a do Inferno, a do Paraíso (1518) (também em português) e a da Glória (em espanhol, no ano de 1519), sendo que as duas Últimas foram representadas respectivamente no Hospital de Todos os Santos em Lisboa e em Almeirim. É muito admissível a hipótese de Oscar Pratt, que supõe ter sido o A ato da Barca do Inferno reencenado posteriormente na câmara da rainha enferma D. Maria, depois de haver sido representada ao rei D. Manuel, no Natal de 1516, por ordem de D. Leonor, protetora do Poeta. O auto aparece, pela primeira vez impresso, no ano de 1517, de cuja edição se conserva um exemplar na Biblioteca Nacional de Madri, e em cuja cota se refere que fora composto “por contemplação da sereníssima e muito católica rainha D. Leonor nossa senhora e representada por seu mandado ao poderoso príncipe e mui alto rei D. Manuel”. Só assim se explica que na edição da Copilaçam o editor mencionou haver sido o auto representado na câmara de D. Maria. É curioso ainda observar que são três os destinos e apenas duas barcas ancoradas: a que conduz ao Inferno e a que leva ao Paraíso. O poeta deve ter ideado primitivamente uma peça com as duas embarcações colocadas ao lado da praia purgatória aonde chegam as almas e se reparam para a viagem sentenciada. Mais uma prova de que o prolongamento da peça nas outras duas — a do Purgatório e a do Paraíso — não estava no espírito do artista quando compôs a primeira.
estropiações fonéticas e morfológicas; a do Frade, acostumado à sua terminologia interjectiva de juras e invocações à Providência, como fórmulas inteiramente vazias de sentido; a do Corregedor, entrelaçando na sua gíria profissional passagens em latim macarrônico (sempre com o intuito de impressionar os incautos); a da Alcoviteira, astuciosa, lisonjeira e galantemente hipócrita: Barqueiro, manos, meus olhos, ...................... Anjo de Deus, minha rosa, ...................... meu amor, minhas boninas, olhos de perlinhas finas, etc. etc. Quando Gil Vicente apresenta alguma personagem inculta a proferir termos que não são do vocabulário, tem ele consciência disso, mas cria para o caso soluções estilísticas verdadeiramente surpreendentes: o Lavrador (o que aparece na Embarcação do Purgatório) não diria espontaneamente a palavra culta inventário: Gil Vicente cria então um rodeio expressivo, apelando para certos processos psíquicos da linguagem e deturpando a palavra e o gênero: E de tudo fiz aquesta como homem diz... avantairo. (Ao dizer aquesta... puxa o lavrador pela memória, e no intervalo da fala invoca um expediente de recheio — como homem diz (— como se diz)... e solta finalmente o vocábulo, estropiado na sua forma rústica: avantairo. Aquela qualidade primordial da arte vicentina, que é o seu lirismo, — e sem a qual alguns historiadores da literatura portuguesa julgaram não ter condições de sobrevivência o teatro vicentino —, falta completamente nesta peça. Nela não há um só momento de efusão lírica. A peça vale pela palpitante atualidade com que Gil Vicente passou em revista a sociedade de seu tempo, espectadora da própria representação, e advertida numa lição edificante, dos pecados que a privam da sua salvação eterna. Fontes: Conquanto se invoquem as reminiscências e os motivos mais heterogêneos, desde os Diálogos dos Mortos de Luciano de Samósata (especialmente os diálogos X e XIX) à Divina Comédia de Dante; desde o temário tradicional das barcas na literatura religiosa medieval até ao “exemplo” das duas barcas (a das virtudes e a dos pecados), que ocorre no Leal Conselheiro de D. Duarte; desde a tradição clássica da barca de Caronte à Dança dos Mortos, tão
freqüentes no fim da Idade Média e com resíduos ainda no folclore português de Trás-os- Montes; desde enfim aquela literatura escatológica de viagens ao inferno, ao purgatório e ao paraíso nas lendas dos santos irlandeses até a Vita Christi de Ludolfo de Saxônia, — não obstante a influência de todo esse manancial de vária procedência, folclórica e literária —, Gil Vicente parece haver realizado a seu modo, com os recursos magistrais de seu talento dramático, uma obra teatral que paira muito acima de todas as sugestões que a tradição lhe ofereceu. Respingam-se aqui e ali passagens que denunciam as possíveis fontes inspiradoras; mas as grandes obras são geralmente frutos de uma convergência de sugestões de toda sorte; e o timbre do artista está na manipulação dos materiais acumulados e na síntese recriadora de todo esse mundo de reminiscências. Miguel Asín Palácios, no exaustivo e apaixonante trabalho de garimpo realizado pela escatologia da Divina Comédia de Dante, mostrou-nos a imensa dívida do poeta italiano para com a literatura escatológica muçulmana; não obstante, o poema permanece como obra de gênio inimitável e altamente representativa do espírito cristão da Idade Média. Ainda que o poderoso talento dramático vicentino dispensasse os recursos da cenografia, não teria sido difícil para Gil Vicente um cenário adequado à representação deste auto, com dois batéis colocados, em oposição, à margem da ribeira. Os cronistas da época atestam a existência de um vigoroso teatro alegórico ao tempo do reinado de D. João II, de puro e quase exclusivo efeito cenotécnico que Gil Vicente por certo reconheceu. Testemunho desses espetáculos comuns durante as bodas reais encontra-se, por exemplo, na Crônica de D. João II de Garcia de Resende, numa descrição que faz dos momos representados por ocasião do casamento do infante D. Afonso. “... E assim vinha uma nau a vela, cousa espantosa, com muitos homens dentro, e muitas bom bordas, sem ninguém ver o artificio como andava, que era cousa maravilhosa.” Gil Vicente mesmo, quando esteve em Évora durante os espetáculos comemorativos das núpcias do príncipe herdeiro D. Afonso (filho de D. João II) com a infanta D. Isabel de Aragão, deve ter aprendido a técnica dos entremeses aí representados luxuosamente; um dos cenários consistia mesmo “num navio a vela movendo-se no palco sobre o qual fingiam as ondas do mar etc. etc.” O Cronista desse reinado, Garcia de Resende, fala nesses batéis tripulados por fidalgos, sulcando “ondas do mar de pano de linho, e pintadas de maneira que parecia água”
— À barca, à barca, oulá, que temos gentil maré! — Ora venha em frente, a ré! COMP. — Feito! Feito! DIABO — Bem está! Vai ali, nest’hora má, retesa aquele palanco e despeja aquele banco para a gente que virá. À barca, à barca, uuh! Depressa, que se quer ir! Oh que tempo de partir! Louvores a Belzebu! — Ora, sus, que fazes tu? Despeja todo esse leito!
— Em boa hora! Feito, feito! DIABO — Abaixa, infeliz, esse cu! Faze aquela corda lesta e alija aquela driça. COMP. — Oh caça! Oh iça! iça! DIABO — Oh, que caravela esta! Põe bandeiras, que é festa. Verga alta! Âncora a pique!
— Não senhor, que este fretastes, e primeiro que expirastes me tínheis dado sinal. FIDALGO — Que sinal foi esse tal? DIABO — De que vós vos contestastes. FIDALGO — A estoutra barca me vou. Hou da barca, para onde is? Ah barqueiros! Não me ouvis? Respondei-me! Hou lã! Hou! ... Por Deus, bem fadado estou! Quanto a isto é já pior. Que jericos, oh senhor! —Cuidam cá que sou um grou! ANJO — Que mandais? FIDALGO — Que me digais, pois parti tão sem aviso, se a barca do Paraíso é esta em que navegais. ANJO — Esta é; que demandais? FIDALGO — Que me deixeis embarcar; sou fidalgo de solar. é bem que me recolhais. ANJO — Não se embarca tirania neste batel divinal. FIDALGO — Não sei porque haveis
por mal que entre minha senhoria. ANJO — Para vossa fantasia é mui pequena esta barca. FIDALGO — Para senhor de tal marca não há aqui mais cortesia? Venha a prancha e o atavio, levai-me desta ribeira! ANJO — Não vindes vás de maneira para entrar neste navio. Essoutro vai mais vazio: a cadeira entrará e o rabo caberá e todo o vosso senhorio. Ireis lá mais espaçoso, com fumosa senhoria, cuidando na tirania do pobre povo queixoso! E porque de generoso desprezastes os pequenos, achar-vos-eis tanto menos quanto mais fostes fumoso. DIABO — À barca, à barca, senhores! Oh! que maré tão de prata! Um ventozinho que mata e valentes remadores! e cantando: “vos me venirés a la mano e la mano veniredes, e vos veredes peixes nas redes.
— Quantas mentiras que lias e tu... morto de prazer! FIDALGO — Para que é escarnecer, que não havia mal nem bem? DIABO — Assim vivas tu, amém, como amor te fez viver. FIDALGO — Isto quanto ao que eu conheço... DIABO — Pois estando tu expirando, se estava requebrando com outro de menos preço. FIDALGO — Dá-me licença, te peço, que vá ver minha mulher. DIABO — E ela, por não te ver, despenhar-se-á de um cabeço. Quanto ela hoje rezou, entre seus gritos e gritas, foi dar graças infinitas a quem na desabafou. FIDALGO — Quanto ela bem chorou! DIABO — Não há aí choro de alegria? FIDALGO — E as lástimas que dizia? DIABO — Sua mãe as ensinou. Entrai, meu senhor, entrai;
Ei-la prancha, ponde o pé! FIDALGO — Entremos, pois que assim é... DIABO — Ora agora descansai, passeai e suspirai, enquanto virá mais gente, fidalgo — O barca, como és ardente! Maldito quem em ti vai! (DIZ O DIABO AO MOÇO DA CADEIRA:) Tu, seu moço, vai-te dai, que a cadeira é cá sobeja: cousa que esteve na igreja não se há de embarcar aqui. Cá lha darão de marfi, marchetada de dolores, com tais modos de lavores que estará fora de si... À barca, à barca, boa gente, que queremos dar à vela! Chegar a ela! Chegar a ela! Muitos e de boa mente! Oh que barca tão valente. (VEM UM ONZENEIRO E PERGUNTA AO ARRAIS DO INFERNO:) Para onde caminhais? DIABO — Oh! que má-hora venhais, onzeneiro meu parente! Como tardastes vós tanto? ONZENEIRO — Mais quisera eu lá tardar... Na safra do apanhar me deu Saturno quebranto.
— E aonde queres tu ir? ONZENEIRO — Eu para o Paraíso vou. ANJO — Pois quanto eu mui fora estou de te levar para lá: essoutra te levará; vai para quem te enganou. ONZENEIRO — Por quê? ANJO — Porque esse bolsão tomara todo o navio. ONZENEIRO — Juro a Deus que vai vazio! ANJO — Não já no teu coração. ONZENEIRO
— Entra. entra e remarás. não percamos mais maré! ONZENEIRO — Todavia... DIABO — Por força é: que te pese, cá entrarás; irás servir Satanás pois que sempre te ajudou. ONZENEIRO — Oh triste, quem me cegou?! DIABO — Cal’-te, que cá chorarás. (ENTRANDO O ONZENEIRO NO BATEL, DIZ AO FIDALGO, TIRANDO O BARRETE:) Santa Joana de Valdez! Cá é vossa senhoria?! FIDALGO — Dá ao Demo a cortesia! DIABO — Ouvis? Falais vós cortês! Vós, fidalgo, cuidareis que estais em vossa pousada? Dar-vo-ei tanta pancada c’um remo, que arrenegueis! (VEM JOANE O PARVO E DIZ AO ARRAIS DO INFERNO:) Hou daquela! DIABO — Quem é? PARVO — Eu sou. É esta naviarra vossa? diabo — De quem?
— Ao Inferno, entra cá! PARVO — Ao Inferno, em hora-má?! Hiu! Hiu! Barca do carnudo, Pero Vinagre, beiçudo, rachador de Alverca, huhá! Sapateiro de Candosa! Entrecosto de carrapato! Hiu! Hiu! Caga no sapato, filho da grande aleivosa! Tua mulher é tinhosa e há de parir um sapo metido num guardanapo, neto da cagarrinhosa! Furta cebolas! Hiu! Hiu! Excomungado nas igrejas! Burrela, cornudo sejas! Toma o pão que te caiu, a mulher que te fugiu para a Ilha da Madeira! Ratinho da Giesteira, o demo que te pariu! Hiu! Hiu! Lanço-te uma pulha de pica naquela! Hiu! Hiu! Hiu! Caga na vela, ó dom Cabeça-de-Grulha! Perna de cigarra velha, caganita de coelha, pelourinho de Pampulha. rabo de forno de telha. (CHEGA O PARVO AO BATEL DO ANJO E DIZ:) Hou da barca!
— Tu que queres? PARVO — Quereis me passar além? ANJO — Quem és tu? PARVO — Não sou ninguém. ANJO —Tu passarás, se quiseres; porque não tens afazeres por malícia não erraste; tua simpleza te baste para gozar dos prazeres. Espera, no entanto, ai: veremos se vem alguém merecedor de tal bem que deva de entrar aqui. (VEM UM SAPATEIRO COM SEU AVENTAL E CARREGADO DE FORMAS, CHEGA AO BATEL INFERNAL E DIZ:) Hou da barca! DIABO — Quem vem ai? Santo sapateiro honrado, como vens tão carregado! SAPATEIRO — Mandaram-me vir assi ... Mas para onde é a viagem? DIABO — Para a terra dos danados. SAPATEIRO — E os que morrem confessados onde têm sua passagem?