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Aprendendo a auscultar as bulhas, entendo a fisiologia e fisiopatologias associadas
Tipologia: Notas de estudo
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1ª bulha cardíaca possui 2 componentes que aparecem na ausculta semiológica ao mesmo tempo: o componente mitral e o componente tricúspide (na maioria das vezes, não tem como separar esses dois componentes na prática) – auscultado como TUM (somatória dos componentes). A distância que existe entre esses 2 componentes é em dezenas de milissegundos, por isso quase não é percebida pelos ouvidos. O componente mitral da 1ª bulha se fecha primeiro, uma vez que o regime pressórico do lado esquerdo do coração é maior. A 1ª bulha se forma pelo fechamento das valvas A-V. O VD começa com uma tensão sistólica de 25 mmHg, sendo que no início da diástole praticamente não tem pressão no seu interior, uma vez que a arquitetura da câmara ventricular D é um espaço de capacitância, para armazenamento de volume, sendo menos complexa. Isso porque ele trabalha com uma tensão sistólica muito menor do que o VE. O VD trabalha o tempo todo sobre baixas pressões. O VE trabalha com uma tensão sistólica de 120 mmHg, funcionando sobre regime pressórico muito maior. Assim, a valva mitral está sobre regime de pressão muito maior do que a valva tricúspide. Da mesma maneira, a valva aórtica está sobre regime pressórico maior que a pulmonar. Por isso, as valvas à esquerda se fecham mais precocemente que as valvas à direita. OBS. No início da diástole, a pressão no interior do VE é em torno de 3-4 mmHg. O componente M1 da 1ª bulha é ligeiramente mais precoce do que o componente T1. O desdobramento fisiológico da 1ª bulha é muito raro de ser auscultado, sendo somente nítido em casos patológicos. Já o desdobramento fisiológico da 2ª bulha pode ser auscultado facilmente (“TRA”). Com as manobras respiratórias podemos testar os desdobramentos da 2ª bulha cardíaca. Na inspiração, há prolongamento do período sistólico à direita, podendo provocar o desdobramento da 2ª bulha. Isso porque a inspiração promove aumento da pressão intrabdominal e, com isso, aumento do RV e diminuição do tempo de diástole. Ao expirar, o diafragma sobe, comprime o pulmão e aumenta o tempo de sístole ventricular esquerda (sobrecarrega de volume o VE, prolongando seu tempo de sístole, fechando a valva aórtica mais tardiamente do que o normal), atrasando o componente aórtico e fazendo ambos os componentes se unirem. Se essa manobra for feita em um processo patológico, por mais que se encurtem as distâncias, as bulhas não vão se encontrar. Ao fazer manobras de inspiração e expiração, conseguimos perceber se um desdobramento de 2ª bulha é fisiológico ou patológico. A manobra expiratória atrasa o componente aórtico de B2. O desdobramento da 2ª bulha mais frequentemente é fisiológico do que patológico. O ponto da 1ª bulha no fonocardiograma corresponde exatamente ao momento em que o ventrículo ultrapassa a pressão dos átrios e se fecham as valvas A-V, sendo que a mitral se fecha primeiro, com uma distancia mínima com relação à tricúspide. Isso é quase imperceptível ao ouvido humano, mas pode ser medido com a fonocardiografia. Da mesma maneira, a 2ª bulha corresponde ao fechamento das valvas arteriais, sendo que o componente aórtico se fecha primeiro do que o pulmonar. As bulhas B1 e B2 são auscultadas como um “TUM-TA”. Um som agudo é diferenciado de um som grave pelo comprimento de onda, sendo que o som agudo possui menor comprimento de onda do que o som grave. Frequentemente, uma amplitude diminuída vem junto com um comprimento de onda menor, caracterizando os sons agudos. A B2 é mais aguda do que a B1. Mas, no contexto dos sons cardíacos, a B1 tbm é aguda se comparada com a B3 e B4. O som da B2 é rápido, seco, de alta frequência e, portanto, mais agudo. B Avaliar:
A - fatores que influenciam a gênese da 1ª bulha: a 1ª bulha é mais audível na ponta do coração, logo não é somente o som das valvas que interfere na 1ª bulha. B – componentes mitral e tricúspide C – hiperfonese e hipofonese D – desdobramentos fisiológicos e patológicos Não é somente o fechamento dos folhetos valvares A-V que provocam o som audível na 1ª bulha. Além disso, as cordas tendíneas (que se inserem na porção basal do mm papilar) e os mm papilares tbm interferem na gênese da 1ª bulha. O mm papilar se prende na ponta do ventrículo e o fechamento da valva gera um som que se transmite para o ápice do ventrículo (é como se a valva se abrisse como um paraquedas). Quando o ventrículo entra em tensão sistólica, a valva teria de ser arremessada para dentro do átrio, entretanto devido à presença das cordoarias tendíneas, esse prolapso não acontece. Por isso, a 1ª bulha é muito audível no foco MITRAL (o som se transmite para a ponta do ventrículo). Foco mitral = linha hemiclavicular + 5º espaço intercostal. Exemplo: Um VD com tensão sistólica ao nível de tensão arterial pode desenvolver insuficiência tricúspide, com congestão venosa sistêmica sendo observada nas veias jugulares. Essa ICC direita grave pode ser causa de uma ruptura do folheto anterior da valva (Como?). Neste caso, o pcte não tem 1ª bulha (1ª bulha afonética) e o sopro é curto, uma vez que as cordoarias tendíneas não conseguem tencionar as comissuras e o som não se forma. Além disso, há hepatomegalia (devido ao reflexo hepatovascular – compressão do hipocôndrio direito); ascite (hepatomegalia provoca hipoalbuminemia, ↓ P coloidosmótica e edema); ↓ taxa de filtração renal; anasarca; síndrome compartimental; edema agudo de pulmão. Rutura da valva mitral (valva em forma de báscula) = ”flail mitral”. São basicamente 4 focos principais de ausculta da 1ª bulha:
A 1ª bulha hiperfonética é a primeira manifestação da estenose mitral! Nem toda bulha hiperfonética é patológica , nem indica estenose mitral, uma vez que pode ocorrer em casos de taquicardia quando fazemos um exercício intenso, por exemplo. O aumento da FC gera uma diástole com período reduzido e, quando o ventrículo começa a gerar pressão na contração isovolumétrica, a valva se fecha rapidamente, gerando bulhas hiperfonéticas. As bulhas da taquicardia são sempre hiperfonéticas. Pacientes com bradicardia tbm podem ter 1ª bulha hiperfonética, uma vez que seu período de diástole está prolongado e o fechamento da valva é lento (permanece aberta por mais tempo), logo quando o ventrículo começa a sístole, a valva se fecha rapidamente, gerando som. Na extrassistolia , o ventrículo tem uma contração precoce e, no momento em que isso acontece, a valva não tem tempo de se abrir e já é obrigada a se fechar abruptamente (a valva se fecha antecipadamente), gerando uma hiperfonese da 1ª bulha (som mais alto que é intermitente, acontecendo somente no momento da extrassístole). Na HAS, podemos ter uma hiperfonese do componente aórtico da B2. Da mesma forma, em casos de hipertensão pulmonar, podemos ter uma hiperfonese do componente pulmonar (tum/ta/ta). Hipofonese de B1:
2 – mesmo que o volume dentro do ventrículo seja normal, se a despolarização daquele ventrículo é atrasada, o início da sístole é atrasado e o fechamento do componente valvar tbm acontece mais tardiamente. Isso acontece em casos de bloqueio de ramos. Em caso de bloqueio do ramo D, enquanto o VE despolariza, há salto tardio de onda despolarizante para o VD e as massas ventriculares direitas despolarizam-se mais tardiamente. Assim, a contração ventricular D fica atrasada, gerando um prolongamento do período diastólico, com fechamento mais lento do componente tricúspide – desdobramento. 3 – anomalia da valva = doença de Ebstein = ao invés do plano do anel tricúspide ser implantado de forma central entre o átrio e o ventrículo, congenitamente ocorre que a valva tricúspide se implanta na porção baixa do átrio (implantação baixa do anel), de forma que o átrio fica maior, ocorrendo uma “atrialização” da porção superior do ventrículo. Devido à implantação baixa da tricúspide, sendo que o anel é mais largo e as válvulas nascem de forma enorme (megalascíneas), isso faz com que as cúspides trabalhem de forma mais lenta (maior ação da força da gravidade), fechando a valva mais tardiamente (a valva abre e fecha vagarosamente), fazendo com que o componente tricúspide fique mais atrasado (isso independe da sístole ser mais rápida ou mais longa e independe tbm de bloqueios de ramos). Essa doença é mais rara que os demais fatores e resulta, além de desdobramento, na hipofonese de B1. Dependendo da implantação do anel pode haver lesão do ramo direito, levando a um BRD, o qual constitui mais um fator para o desdobramento e a hipofonese de B1. Sempre esperamos que o componente mitral seja mais atrasado que o tricúspide, mas se há um gap de mais 0, segundos entre eles, temos um desdobramento patológico. OBS. Desdobramento não paradoxal: os componentes estão afastados, porém o componente mitral ainda se encontra na frente do componente tricúspide (M1 antes de T1). Para que tenhamos um componente T1 postergado, significa que o VD está atrasado na sístole, como, por exemplo, em casos de ICC direita em que há sobrecarga de volume. Além disso, isso pode acontecer em casos de bloqueio de ramo D, uma vez que há um atraso na despolarização dessa câmara, indicando que sua contração tbm está atrasada. Na estenose tricúspide, a valva tem dificuldade de se abrir na diástole, então no momento em que o ventrículo teria que fechar a valva (inicio da sístole), ele já a encontra semifechada. Assim, o ventrículo empurra a tricúspide para o AD, e, quando consegue fechá-la, o faz de forma hiperfonética e mais tardiamente. A lesão mais frequente da valva tricúspide é a insuficiência e não a estenose. Além disso, um acometimento independente da valva tricúspide é raro, sendo mais frequente em associação com lesões das valvas esquerdas. DESDOBRAMENTO PARADOXAL DE B1: OBS. Desdobramento paradoxal: a componente T1 vem antes do componente M1. O mecanismo de um desdobramento paradoxal de B1 é basicamente um aumento no tempo de sístole do VE, que pode ocorrer em casos de sobrecarga de volume, por exemplo.
Desdobramentos fisiológicos – mecanismos:
Se pedirmos a pessoa para inspirar não observaríamos o alargamento do desdobramento, uma vez que ele já está no ponto máximo. Isso indica que é um desdobramento fixo (não modifica com a inspiração) e amplo (está no máximo do distanciamento e é demorado). Tudo que devemos fazer no CIA é não deixar o pcte desenvolver uma hipertensão pulmonar. D - estenose pulmonar congênita (valvular ou infundibular) = a via de saída do VD é curta e estreita, a valva é hipoplásica (Ex: Tetralogia de Fallot), havendo aumento de tempo da sístole ventricular direita. E - insuficiência mitral grave (antecipação do componente A2). Quando o VE entra em sístole ele joga uma qte de sangue retrogradamente para o AE, sendo que parte desse sangue vai pela via de saída. Logo, o tempo de sístole do VE se encurta e fecha-se o componente aórtico mais cedo do que o normalmente. Assim, é o A2 que está adiantado e não o P2 que está atrasado. Utilizamos a inspiração quando quase não observamos desdobramento. Quando há desdobramento audível utilizamos a expiração como contraprova. Num desdobramento de B2, se tivermos P2 caindo depois de A2, e com desaparecimento após manobra de expiração, o desdobramento provavelmente é fisiológico. Se tivermos um componente P2 antes de A2, sempre é um desdobramento patológico. DESDOBRAMENTO PARADOXAL DE B2 (sempre patológico) P2 A2 (o componente aórtico está postergado) Ocorre em casos de tempo de sístole ventricular esquerdo prolongado → estenose aórtica grave com calcificação na via de saída (qto pior a estenose maior é o tempo de sístole). Em casos de estenose aórtica grave, na fonocardiografia vemos B1, um estalido de abertura, sopro em diamante (cresce em direção à mesosístole, tendo maior crescimento nesta fase, e decresce em direção à telesístole) e um componente aórtico postergado em relação a P2. Tanto o clique de estalido de abertura quanto o sopro em mesosístole só acontecem se a valva não estiver calcificada e sua flexibilidade preservada. Além disso, se há calcificação, há estenose e insuficiência e, então, não temos o componente aórtico (não observamos um desdobramento paradoxal). Nestes casos, vemos um sopro sistólico e diastólico. A - ativação tardia do VE : bloqueio de ramo esquerdo (BRE). Já houve despolarização do VD e fechamento do componente pulmonar, mas o componente aórtico fica tardio ( o exemplo clássico é a estenose aórtica ). B - ativação precoce do VD : marcapasso implantado em VD. O marcapasso estimula a parede do VD, fazendo com que a valva pulmonar se feche primeiro, sendo que o componente aórtico só se fecha quando o estimulo passa pelo septo IV e despolariza o VE. Normalmente, o marcapasso é colocado no VD, uma vez que ele está submetido a regimes pressóricos menores e sua arquitetura é menos complexa. C - estreitamento (“angustiamento”) da via de saída do VE : estenose valvar aórtica e cardiomiopatia hipertrófica. Há aumento no tempo da via de saída pelo VE (prolongamento da sístole). D - excesso de volume e aumento do tempo de sístole de VE: PCA (comunica a aorta com o tronco pulmonar). Na vida embrionária existe uma comunicação entre a aorta e a pulmonar, uma vez que o pulmão não é capaz de oxigenar o sangue. Quando a criança nasce, o canal arterial se fecha e o seu não fechamento cria o PCA (ductos arteriosos pérvios). Quando o VE ejeta, parte do sangue da aorta passa para dentro da pulmonar, gerando hiperfluxo nas artérias pulmonares e, assim, há aumento do fluxo de sangue das veias pulmonares para o AE, o que sobrecarrega de volume o VE, aumentado seu tempo de sístole e postergando o componente aórtico. PODE HAVER HIPERFONESE DO COMPONENTE AÓRTICO, mas pode haver tbm normofonese. HIPER E HIPOFONESE DE B Hiperfonese fisiológica (associada a fatores que aumentam a audibilidade do ruído)