























































































Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity
Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium
Prepare-se para as provas
Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity
Prepare-se para as provas com trabalhos de outros alunos como você, aqui na Docsity
Encontra documentos específicos para os exames da tua universidade
Prepare-se com as videoaulas e exercícios resolvidos criados a partir da grade da sua Universidade
Responda perguntas de provas passadas e avalie sua preparação.
Ganhe pontos para baixar
Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium
é a parte de um livro de Freud, sobre o caso Dora
Tipologia: Resumos
1 / 95
Esta página não é visível na pré-visualização
Não perca as partes importantes!
























































































TÍTULO ORIGINAL: BRUCHSTüCK EINER HYSTERIE-ANALYSE. PUBLICADO PRIMEIRAMENTE EM MONATSSCHRIFT FüR PSYCHIATRIE UND NEUROLOGIE , 18, N. 4 E 5, PP. 285-310 E 408-67. TRADUZIDO DE GESAMMELTE WERKE V, PP. 163-286. TAMBÉM SE ACHA EM STUDIENAUSGABE VI, PP. 83-186.
Se após um longo intervalo me disponho a substanciar, através da comunicação detalhada de um caso clínico e seu tratamento, as afirmações que fiz em 1895 e 1896, sobre a patogênese de sintomas histéricos e os processos psíquicos da histeria, não posso me furtar a este prólogo, tanto para justificar de vários pontos de vista o meu procedimento como para reduzir a uma medida razoável as expectativas que talvez o cerquem. Foi embaraçoso, sem dúvida, ter de publicar resultados de pesquisas que meus colegas não tinham como verificar, ainda mais sendo eles de natureza surpreendente e não muito cativante. E não é menos embaraçoso começar a expor ao juízo público parte do material que me conduziu a esses resultados. Não escaparei a recriminações. Se então elas diziam que eu nada informava sobre meus pacientes, agora dirão que falo de meus pacientes o que não se deve falar. Serão, espero, as mesmas pessoas, que dessa forma apenas mudarão o pretexto para o reproche, e de antemão renuncio a qualquer tentativa de desarmar esses críticos. A publicação de meus casos clínicos ainda é para mim uma tarefa problemática, mesmo não mais cuidando desses incompreensivos malevolentes. As dificuldades são em parte de ordem técnica, e em parte decorrentes da própria natureza das circunstâncias. Se é verdadeiro que as causas das doenças histéricas se encontram nas intimidades da vida psicossexual dos doentes, e que os sintomas histéricos são expressão de seus mais secretos desejos reprimidos, a elucidação de um caso de histeria não poderá senão revelar essas intimidades e trair esses segredos. É certo que os doentes jamais teriam falado, se lhes tivesse ocorrido a possibilidade de uma utilização científica de suas confissões, e igualmente certo que em vão lhes solicitaríamos autorização para publicá-las. Pessoas delicadas, e talvez também timoratas, poriam em primeiro plano o dever da discrição médica e lamentariam não poder contribuir para o esclarecimento científico nesse ponto. Eu penso, no entanto, que o médico assumiu deveres não só para com o doente, mas também para com a ciência — o que no fundo significa: para
excitar ou satisfazer apetites sexuais. De resto, inclino-me a expressar minha opinião a respeito com algumas palavras de outro autor: “É lamentável ter que reservar espaço, numa obra científica, para tais protestos e asseverações, mas não é a mim que se deve recriminar por isso; culpem o espírito da época, graças ao qual chegamos ao ponto de que nenhum livro sério pode estar seguro de sobreviver”.^1 Agora informarei de que modo, neste caso clínico, venci as dificuldades técnicas para a sua comunicação. Elas são consideráveis, para o médico que diariamente conduz seis ou até oito tratamentos psicoterapêuticos assim, e que não pode tomar notas durante a sessão, pois provocaria desconfiança no paciente e perturbaria a si mesmo na apreensão do material que lhe chega. Também não consegui ainda resolver o problema de como registrar, para a comunicação posterior, um tratamento de longa duração. No caso que segue, dois fatos vieram em meu auxílio: primeiro, a duração do tratamento não se estendeu por mais que três meses; segundo, os esclarecimentos se agruparam em torno de dois sonhos — no meio e no final da terapia —, anotados literalmente logo depois da sessão, e que forneceram um apoio seguro para a trama de interpretações e lembranças a eles ligadas. A história clínica mesma redigi de memória, após o fim do tratamento, enquanto minha lembrança estava ainda fresca e avivada pelo interesse na publicação. Portanto, o registro não é absolutamente — fonograficamente — fiel, mas pode reivindicar um alto nível de confiabilidade. Nada do que seria essencial foi nele alterado, exceto talvez, em alguns lugares, a ordem dos esclarecimentos, algo que fiz em prol da coerência. Disponho-me agora a precisar o que se achará neste relato e o que dele estará ausente. O trabalho tinha originalmente o nome de “Sonho e histeria”, porque este me parecia bem apropriado para evidenciar como a interpretação dos sonhos se entremescla com a história do tratamento, e como pode ajudar no preenchimento das amnésias e no esclarecimento dos sintomas. Não foi sem bons motivos que publiquei um laborioso e exaustivo estudo sobre os sonhos em 1900 , antes dos trabalhos sobre psicologia das neuroses que tinha em mente; e pude notar, pela recepção que lhe foi dada, a precária compreensão que ainda hoje os colegas demonstram face a tais esforços. Nesse caso também não era sólida a objeção de que minhas colocações, por haver omissão do material, não podiam produzir uma convicção baseada no teste controlado, pois qualquer um pode submeter os próprios sonhos à
investigação psicanalítica, e a técnica de interpretação dos sonhos é fácil de aprender, conforme as indicações e os exemplos dados por mim. Hoje, como então, devo afirmar que um aprofundamento nos problemas do sonho é condição prévia indispensável para o entendimento dos processos psíquicos da histeria e demais psiconeuroses, e quem quiser se poupar esse trabalho preparatório não terá perspectiva de avançar mesmo alguns passos nesse campo. Dado que esta história clínica pressupõe o conhecimento da interpretação dos sonhos, a sua leitura resultará bastante insatisfatória para quem não atender esse pressuposto. Tal leitor encontrará nela, em vez do esclarecimento buscado, apenas estranheza, e sentirá a inclinação de projetar a causa dessa estranheza no autor, visto como fantasioso. Na realidade, tal estranheza é inerente aos fenômenos da própria neurose, apenas por nossa familiaridade médica com os fatos é ali escondida, vindo novamente à luz na tentativa de esclarecimento. Só poderia ser totalmente banida se conseguíssemos fazer derivar cada traço da neurose de fatores já conhecidos por nós. Mas tudo indica, ao contrário, que pelo estudo da neurose seremos levados a supor a existência de muitas coisas novas, que então gradualmente poderão se tornar objeto de um conhecimento mais seguro. O que é novo sempre desperta estranheza e resistência. Seria errado alguém crer, porém, que os sonhos e sua interpretação assumem em todas as psicanálises um lugar tão destacado como neste exemplo. Se a presente história clínica parece favorecida no que toca à utilização de sonhos, em outros pontos ela resultou mais pobre do que o desejado. Mas as suas deficiências estão ligadas às mesmas circunstâncias que tornaram possível publicá-la. Já afirmei que não saberia lidar com o material de um tratamento que se estendesse por mais de um ano. Este caso de apenas três meses pôde ser abarcado por inteiro e lembrado; mas os seus resultados permaneceram incompletos em mais de um aspecto. O tratamento não prosseguiu até a meta fixada, sendo interrompido por vontade da paciente ao se chegar a determinado ponto. Nesse momento alguns enigmas do caso não tinham sido atacados ainda, e outros, iluminados incompletamente, quando a continuação do tratamento teria feito avançar até o último esclarecimento possível em todos os pontos. Logo, eu posso aqui oferecer tão só o fragmento de uma análise. Um leitor familiarizado com a técnica exposta nos Estudos sobre a histeria
completa e não deixasse lugar a dúvidas, não poderia responder a todas as questões levantadas pelo problema da histeria. Ela não pode dar a conhecer todos os tipos da doença, todas as configurações da estrutura interior da neurose, todas as variedades possíveis de conexão entre o psíquico e o somático existentes na histeria. Não é sensato exigir mais de um caso do que aquilo que ele pode oferecer. E quem até hoje não quis crer na validade geral e sem exceções da etiologia psicossexual da histeria, dificilmente obterá essa convicção tomando conhecimento de uma história clínica, fazendo melhor em adiar seu julgamento até adquirir pelo próprio trabalho o direito à convicção.^2
Após haver demonstrado, na Interpretação dos sonhos (publicada em 1900 ), que os sonhos em geral são interpretáveis e que, uma vez completada a interpretação, eles podem ser substituídos por pensamentos formados impecavelmente, inseríveis em lugar conhecido dentro do contexto psíquico, nas páginas seguintes eu gostaria de fornecer um exemplo da única utilização prática que a arte de interpretar sonhos parece admitir. Já expus, em meu livro,^3 como vim a lidar com os problemas do sonho. Eles me apareceram no caminho quando eu me empenhava em curar psiconeuroses através de um método particular de psicoterapia, no qual os doentes me relatavam, entre outros acontecimentos de sua vida psíquica, também os sonhos, que pareciam requerer inclusão na longa teia de conexões urdida entre o sintoma da doença e a ideia patogênica. Aprendi, então, como se deve traduzir a linguagem dos sonhos nas formas de expressão de nossa linguagem do pensamento, compreensíveis sem maior ajuda. Tal conhecimento, posso afirmar, é indispensável para o psicanalista, pois o sonho representa um dos caminhos pelos quais pode atingir a consciência o material psíquico que, em virtude da aversão que o seu conteúdo provoca, foi bloqueado da consciência, reprimido, e assim tornado patogênico. O sonho é, resumidamente, um dos desvios para contornar a repressão , um dos principais meios da chamada forma indireta de representação na psique. Este fragmento da história do tratamento de uma garota histérica deve ilustrar como a interpretação dos sonhos intervém no trabalho da análise. E também me permitirá defender publicamente, pela primeira vez numa extensão que impeça mal-entendidos, parte de meus pontos de vista a respeito dos processos psíquicos e das precondições orgânicas da histeria. Creio que já não preciso me desculpar pela extensão, tendo-se admitido que as enormes exigências que a histeria faz ao médico e investigador são satisfeitas apenas com o mais dedicado aprofundamento, e não com afetado menosprezo. Pois
Não apenas arte e ciência,
propósito subjacente às amnésias é alcançado, com a mesma segurança, pela remoção de um nexo, e o nexo é rompido da maneira mais segura pela alteração da sequência dos acontecimentos. Esta sempre se mostra o componente mais vulnerável do acervo da memória, o mais facilmente sujeito à repressão. Várias lembranças nós encontramos, por assim dizer, num primeiro estágio da repressão; elas se apresentam tomadas pela dúvida. Algum tempo depois, essa dúvida seria substituída pelo esquecimento ou a lembrança equivocada.^6 Esse estado das lembranças relativas à história da doença é o correlato necessário, teoricamente requerido , dos sintomas da doença. Depois, no curso do tratamento, o paciente comunica o que reteve ou o que não lhe ocorreu, embora sempre o soubesse. As paramnésias se mostram insustentáveis, as lacunas da lembrança são preenchidas. Apenas próximo ao fim do tratamento pode-se enxergar uma história clínica coerente, compreensível e sem lacunas. Se o objetivo prático do tratamento é remover todos os sintomas possíveis e substituí-los por pensamentos conscientes, podemos estabelecer como outro objetivo, teórico, a tarefa de curar todos os danos de memória do paciente. As duas metas coincidem; se uma é alcançada, também a outra é obtida; a mesma via conduz a ambas. A natureza das coisas que formam o material da psicanálise faz com que, em nossas histórias clínicas, tenhamos de dar a mesma atenção às condições puramente humanas e sociais dos pacientes que aos dados somáticos e sintomas patológicos. Antes de tudo, nosso interesse se voltará para as relações familiares dos pacientes, e isso, como se verá adiante, não apenas com o propósito de investigar sua hereditariedade.
O círculo familiar da paciente, uma jovem de dezoito anos, compreendia os dois genitores e um irmão, que era um ano e meio mais velho. A pessoa dominante era o pai, tanto por sua inteligência e seus traços de caráter como pelas circunstâncias de sua vida, que forneceram o arcabouço para a infância e a história clínica da paciente. Na época em que iniciei o tratamento da moça, ele era um homem de mais de 45 anos, de energia e capacidade incomuns, um grande industrial em confortável situação econômica. A filha se ligava a ele com afeição especial, e o senso crítico nela precocemente despertado ofendeu-se mais ainda com alguns de seus atos e peculiaridades. Essa afeição era também intensificada pelos muitos problemas sérios de
saúde que ele vinha sofrendo desde que ela tinha seis anos de idade. Naquele tempo, ele adoeceu de tuberculose, e a família precisou mudar-se para uma pequena cidade de clima favorável, numa de nossas províncias do Sul. Lá seus pulmões melhoraram rapidamente, mas devido às precauções necessárias, esse lugar — que designarei como B. — continuou a ser, ainda por uns dez anos, o principal local de residência tanto dos pais como dos filhos. Quando estava bem, o pai se ausentava temporariamente, a fim de visitar suas fábricas; no alto verão, eles iam para uma estação de repouso nas montanhas. Quando a garota tinha cerca de dez anos, um descolamento da retina obrigou o pai a um tratamento na escuridão e teve por resultado uma limitação permanente da vista. A enfermidade mais grave ocorreu uns dois anos depois; consistiu num ataque de confusão mental, seguido de paralisias e ligeiros transtornos psíquicos. Um amigo do doente, que ainda terá um papel na história, convenceu-o a vir até Viena com seu médico para consultar-me, tendo ele melhorado apenas um pouco. Por um momento achei que talvez se tratasse de uma paralisia resultante da tabes, mas decidi-me pelo diagnóstico de uma afecção vascular difusa, e, depois que ele admitiu determinada infecção contraída antes do casamento, prescrevi um enérgico tratamento antiluético, que fez regredirem todos os distúrbios ainda existentes. Foi graças a essa feliz intervenção, creio, que quatro anos depois ele me apresentou sua filha, que então se tornara claramente neurótica, e após mais dois anos a confiou a mim para um tratamento psicoterapêutico. Naquele meio-tempo eu tinha conhecido, em Viena, uma irmã um pouco mais velha desse homem, que evidenciava uma forma grave de psiconeurose, sem sintomas característicos da histeria. Após uma vida marcada por um casamento infeliz, essa mulher faleceu de um marasmo de evolução rápida, cujas manifestações não foram plenamente esclarecidas. Um irmão mais velho desse senhor, que certa vez conheci por acaso, era um solteirão hipocondríaco. A garota, que se tornou minha paciente aos dezoito anos, sempre tivera a simpatia voltada para o lado paterno da família, e, desde que adoecera, via como seu modelo a tia mencionada. Também não havia dúvida, para mim, que tanto pelo talento e a precocidade intelectual como pela predisposição à doença ela pertencia à família do pai. A mãe não cheguei a conhecer. Pelo que me disseram a garota e o pai, tive a imagem de uma mulher inculta, mas
ataques de tosse nervosa, que provavelmente haviam se iniciado com um simples catarro, permaneceram todo o tempo. Quando ela veio a mim para tratamento, tossia de forma característica. Não foi possível precisar o número desses ataques, mas eles duravam de três a cinco semanas, até alguns meses, numa ocasião. Na primeira metade de um ataque desses, o sintoma mais importuno, ao menos nos últimos anos, era a completa perda da voz. Havia muito se estabelecera o diagnóstico de que se tratava de uma enfermidade nervosa; os vários tratamentos costumeiros, inclusive hidroterapia e aplicação local de eletricidade, não surtiram efeito. Crescendo nessas condições, a menina se tornou uma jovem madura, independente em seus juízos, que se acostumou a zombar dos esforços dos médicos e, afinal, prescindiu do auxílio deles. De resto, ela sempre fora contrária a que se consultasse um médico, embora não sentisse aversão pelo médico da família. Toda sugestão de procurar um novo médico despertava sua resistência, e apenas a autoridade do pai a fez vir até mim. Eu a vi pela primeira vez num início de verão, quando ela tinha dezesseis anos de idade. Ela estava com tosse e rouquidão, e já então propus um tratamento psíquico — que não foi feito, pois também esse ataque, que durou mais, acabou espontaneamente. No inverno do ano seguinte, após o falecimento da tia querida, ela se achava em Viena, na casa do tio e das primas, quando adoeceu e teve febre, o que foi diagnosticado como apendicite.^9 No outono que se seguiu, como a saúde do pai parecia autorizar essa decisão, a família deixou definitivamente a cidade de B. e se mudou para o local onde se situava a fábrica do pai. Pouco menos de um ano depois, passou a morar permanentemente em Viena. Nesse meio-tempo, Dora crescera e estava na flor da juventude; era uma moça de traços inteligentes e agradáveis, mas que causava preocupação aos pais. As principais características de seu estado doentio eram o ânimo deprimido e uma alteração no caráter. Era evidente que não estava satisfeita consigo e com seus familiares, tratava hostilmente o pai e já não se entendia com a mãe, que queria absolutamente que ela participasse dos cuidados da casa. Evitava os encontros sociais; tanto quanto permitiam o cansaço e a desatenção de que se queixava, ocupava-se em ir a palestras para mulheres e cultivava estudos relativamente sérios. Um dia, os pais se horrorizaram ao encontrar, dentro ou sobre a escrivaninha da garota, uma carta em que ela se despedia deles, dizendo não conseguir mais suportar a vida.^10 O pai, sendo
um homem perspicaz, imaginou que não havia séria intenção de suicídio por parte da garota, mas ficou abalado, e quando, um dia após uma banal discussão entre ele e a filha, esta perdeu a consciência pela primeira vez,^11 num acesso que depois cedeu à amnésia, determinou-se, apesar da relutância da garota, que ela deveria iniciar um tratamento comigo.
O caso clínico que até agora esbocei não parece, no conjunto, digno de registro. “ Petite hystérie ” com os sintomas somáticos e psíquicos mais comuns: dispneia, tosse nervosa, afonia, possivelmente enxaquecas, também ânimo deprimido, insociabilidade histérica e um taedium vitae provavelmente não muito sincero. Casos de histeria mais interessantes já foram publicados e, com frequência, descritos mais cuidadosamente, pois nada se encontrará, nas páginas seguintes, sobre estigmas da sensibilidade cutânea, limitação do campo visual etc. Permito-me somente observar que todas as enumerações de fenômenos raros e espantosos da histeria não nos fizeram progredir muito no conhecimento dessa enfermidade ainda enigmática. O que nos falta é o esclarecimento dos casos mais comuns e dos sintomas mais frequentes neles. Eu ficaria satisfeito se as circunstâncias me tivessem permitido esclarecer inteiramente esse caso de pequena histeria. Após a experiência adquirida com outros pacientes, não duvido que meus recursos analíticos teriam bastado para isso. Em 1896 , pouco depois da publicação de meus Estudos sobre a histeria , em colaboração com o dr. J. Breuer, solicitei a um eminente colega especialista sua opinião sobre a teoria psicológica da histeria ali exposta. Ele respondeu francamente que a considerava uma generalização injustificada de conclusões que podiam ser corretas para uns poucos casos. Desde então vi numerosos casos de histeria, ocupei-me de cada um deles durante dias, semanas ou anos, e em nenhum desses casos deixei de notar os determinantes psíquicos postulados nos Estudos , o trauma psíquico, o conflito dos afetos e, como acrescentei em trabalhos posteriores, o abalo da esfera sexual. Tratando-se de coisas que se tornaram patogênicas pelo afã de ocultar-se, não se deve esperar que os pacientes as entreguem espontaneamente ao médico, nem satisfazer-se com o primeiro “não” contraposto à investigação.^12
No caso de minha paciente Dora, graças à inteligência do pai, já aqui destacada, não precisei buscar eu mesmo o vínculo entre a enfermidade e a
novamente me fez a exigência de não vê-los mais. Por favor, tente fazê-la mais sensata.” Não harmonizava plenamente com essas afirmações o fato de que o pai, em outras ocasiões, havia buscado atribuir a maior culpa pela natureza insuportável da filha à mãe, que infernizava todos em casa com suas idiossincrasias. Mas eu havia decidido, muito antes, adiar meu julgamento do estado real das coisas até ouvir também a outra parte.
Portanto, a experiência com o sr. K. — a proposta amorosa e a consequente afronta à honra dela — teria proporcionado à nossa paciente o trauma psíquico que Breuer e eu havíamos enunciado como precondição indispensável para a gênese de um estado patológico histérico. Mas esse novo caso também mostra todas as dificuldades que depois me fizeram ir além dessa teoria,^13 acrescidas por uma nova dificuldade de tipo especial. Pois, como frequentemente sucede nas histórias de casos de histeria, o trauma que conhecemos da vida da paciente não serve para explicar a peculiaridade dos sintomas, para determiná-los. Não apreenderíamos mais nem menos do conjunto, se o resultado do trauma tivesse sido outros sintomas que não tosse nervosa, abatimento e taedium vitae. Junte-se também a isso que uma parte dos sintomas — a tosse e a perda da voz — já tinha sido produzida pela doente anos antes do trauma, e que suas primeiras manifestações remontavam à infância, quando ela tinha oito anos de idade. Portanto, se não quisermos abandonar a teoria do trauma, teremos de retroceder à infância, a fim de lá procurar influências ou impressões que ajam de forma análoga a um trauma; e é muito digno de nota que também a investigação de casos em que os primeiros sintomas não apareceram já na infância me levou a seguir a história da vida até os primeiros anos da infância.^14 Depois que as primeiras dificuldades do tratamento haviam sido superadas, Dora me comunicou uma vivência anterior com o sr. K., vivência que se prestava ainda mais a agir como trauma sexual. Ela tinha catorze anos na época. O sr. K. havia combinado com ela e sua esposa que elas iriam encontrá-lo em sua loja, na praça principal de B., para dali assistirem a uma festa religiosa. Mas ele induziu a esposa a permanecer em casa, dispensou os empregados e se achava só quando a menina chegou à loja. Quando se aproximava o momento da procissão, ele pediu que ela o esperasse na porta que ficava junto à escada para o andar de cima, enquanto baixava as
corrediças externas. Em seguida, voltou e, em vez de passar pela porta, subitamente estreitou contra si a garota e aplicou-lhe um beijo nos lábios. Tal situação tenderia a provocar uma nítida sensação de excitamento sexual numa garota de catorze anos que nunca foi tocada. Mas Dora sentiu um forte nojo nesse momento, desvencilhou-se do abraço e correu para a porta da loja. Apesar disso, continuou a ver o sr. K.; nenhum dos dois fez menção dessa breve cena, e ela a teria conservado como um segredo até confessá-la no tratamento. Por algum tempo, em seguida, ela evitou ocasiões em que estaria só com o sr. K. O casal K. havia programado uma excursão de alguns dias, na qual também Dora tomaria parte. Após o beijo na loja ela recusou a participação, sem fornecer motivos. Nesta cena, a segunda mencionada, mas a primeira no tempo, o comportamento da garota de catorze anos já é completamente histérico. Toda pessoa que, numa ocasião para a excitação sexual, tem sobretudo ou exclusivamente sensações desprazerosas, eu não hesitaria em considerar histérica, seja ela capaz de produzir sintomas somáticos ou não. Explicar o mecanismo dessa inversão de afeto é uma das tarefas mais importantes — e, ao mesmo tempo, mais difíceis — da psicologia das neuroses. Eu próprio julgo ainda faltar uma boa parte do caminho para alcançar essa meta; mas nos limites deste trabalho também só poderei apresentar uma parcela do que sei. Enfatizar a inversão de afeto ainda não basta para caracterizar o caso de nossa paciente Dora; é preciso também dizer que houve um deslocamento da sensação. Em vez da sensação genital, que certamente não faltaria numa garota saudável em tais circunstâncias,^15 ocorre nela a sensação desagradável que é própria da mucosa da entrada do canal digestivo — o nojo. Certamente, a estimulação dos lábios pelo beijo influiu nessa localização; mas creio discernir outro fator atuante.^16 O nojo então sentido por Dora não se tornou um sintoma permanente; mesmo na época do tratamento estava presente só de forma potencial, por assim dizer. Ela comia mal e admitiu alguma aversão à comida. Mas aquela cena havia deixado outra consequência, uma alucinação sensorial que, de vez em quando, reaparecia também durante seu relato. Ela afirmava ainda sentir, naquele momento, a pressão daquele abraço na parte superior de seu corpo. Conforme certas regras que conheço da formação de sintomas, juntamente com outras peculiaridades da paciente, de outro modo inexplicáveis — por exemplo, ela não queria passar por nenhum homem que estivesse em
originalmente, a reação ao cheiro (depois também à vista) dos excrementos. Mas os genitais — em especial o membro masculino — podem lembrar as funções excrementícias, pois o órgão, além da função sexual, serve também à da micção. De fato, essa é a de conhecimento mais antigo, e a única que se conhece no período pré-sexual. Assim o nojo se inclui entre as manifestações afetivas da vida sexual. O inter urinas et faeces nascimur , do Pai da Igreja,b^ é inerente à vida sexual e não pode ser separado dela, não obstante todo o esforço de idealização. Mas quero enfatizar expressamente o ponto de vista de que não considero resolvido o problema com a indicação dessa via associativa. O fato de essa associação poder ser despertada não quer dizer que seja despertada. Não o é, em circunstâncias normais. O conhecimento das vias não torna supérfluo o conhecimento das forças que as percorrem.^20
Não me pareceu fácil, além de tudo, dirigir a atenção de minha paciente para seus laços com o sr. K. Ela afirmava que nada mais tinha com ele. A camada superior de tudo o que lhe ocorria durante as sessões, o que lhe vinha facilmente à consciência e que ela se lembrava de ter consciência no dia anterior, sempre se relacionava ao pai. Era verdade que ela não podia perdoar ao pai haver prosseguido os laços com o sr. K. e, em especial, com a esposa deste. A concepção que tinha desses laços era muito diferente daquela que o pai desejava que se tivesse. Não havia dúvidas, para ela, de que o pai tinha uma relação amorosa comum com aquela mulher jovem e bela. Nada que pudesse contribuir para reforçar essa tese havia escapado à sua percepção, que nisso era implacavelmente aguda; aqui não havia lacunas em sua memória. Eles haviam conhecido os K. antes da grave doença do pai; mas a amizade se tornou próxima apenas quando, durante essa doença, a jovem senhora se arvorou em cuidadora do enfermo, enquanto a mãe de Dora se manteve longe do seu leito. No primeiro verão após o seu restabelecimento, sucederam coisas que provavelmente abriram os olhos de todos quanto à verdadeira natureza daquela “amizade”. As duas famílias haviam alugado juntas uma ala de quartos num hotel, e um dia a sra. K. declarou que não podia continuar no quarto que até então partilhava com um dos filhos. Poucos dias depois, o pai de Dora abandonou seu quarto, e ambos tomaram novos quartos no final do corredor, separados apenas por este — quartos que asseguravam maior tranquilidade que os anteriores. Quando ela, depois, fazia objeções sobre a sra. K., o pai dizia não compreender essa hostilidade, pois
seus filhos tinham todos os motivos para serem gratos à sra. K. Ao se dirigir então à mãe, para obter explicação sobre essa frase obscura, esta lhe disse que o pai havia estado tão infeliz, naquele tempo, que decidira cometer suicídio na floresta; mas a sra. K. suspeitando isso, fora atrás dele e o convencera, com suas súplicas, a manter-se vivo para os seus. Dora, naturalmente, não acreditou nisso; segundo ela, os dois foram vistos juntos na floresta e o pai inventou a história do suicídio para justificar o encontro.^21 Após retornarem a B., o pai visitava a sra. K. diariamente, em determinadas horas, enquanto o marido estava no trabalho. Todas as pessoas falavam disso e perguntavam sobre isso a Dora, de maneira insinuante. O próprio sr. K. se queixava amargamente à mãe de Dora, mas poupava ela mesma de alusões ao assunto, o que ela parecia ver como tato da parte dele. Nas caminhadas que faziam todos, o pai e a sra. K. arranjavam as coisas de modo a andarem juntos. Não havia dúvida de que ela recebia dinheiro dele, pois fazia gastos que não podia se permitir com seus próprios recursos ou os de seu marido. O pai também começou a lhe dar presentes caros; para escondê-los, tornou-se especialmente generoso com a esposa e com ela mesma, Dora. E aquela senhora até então doentia, que inclusive tivera de permanecer num sanatório para doenças nervosas durante meses, porque não conseguia andar, ficou saudável e plena de vida. Mesmo após terem deixado B., a relação, que já tinha vários anos, prosseguiu; pois de quando em quando o pai dizia que não tolerava o clima inóspito, que devia fazer algo por sua saúde, e começava a tossir e lamentar- se, até que partia subitamente para B., de onde escrevia as cartas mais alegres. Todas aquelas doenças eram pretextos para visitar sua amiga. Um dia, Dora soube que iriam se mudar para Viena, e começou a suspeitar de algum nexo oculto. De fato, nem três semanas após chegarem a Viena, ouviu dizer que também os K. haviam se transferido para a cidade. Achavam-se aqui naquele momento, e ela frequentemente encontrava o pai na rua, com a sra. K. Também o sr. K. ela via com frequência na rua, e ele sempre a acompanhava com os olhos; e, quando a encontrou sozinha, certa vez, ele a seguiu por um longo trecho, para se certificar de aonde ela ia, se não tinha um encontro amoroso. O pai era insincero, tinha um quê de falsidade no caráter, pensava apenas em sua própria satisfação e possuía o dom de ajustar as coisas para a sua conveniência: comecei a ouvir essas críticas principalmente nos dias em que