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Ciência e ideologia, Notas de estudo de Engenharia Mecânica

Metologogia do trabalho científico

Tipologia: Notas de estudo

2013

Compartilhado em 19/10/2013

jose-cruz-7
jose-cruz-7 🇧🇷

4.8

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CIÊNCIA, UNIVERSIDADE E IDEOLOGA:
a política do conhecimento
Simon Schwartzman
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CIÊNCIA, UNIVERSIDADE E IDEOLOGA:

a política do conhecimento

Simon Schwartzman

Esta publicação é parte da Biblioteca Virtual de Ciências Humanas do Centro Edelstein de Pesquisas Sociais - www.bvce.org

Copyright © Copyright © 2008, Simon Schwartzman2008 desta edição on-line: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais Ano da última edição: 1980

Nenhuma parte desta publicação pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer meio de comunicação para uso comercial sem a permissão escrita dos proprietários dos direitos autorais. A publicação ou partes delapodem ser reproduzidas para propósito não-comercial na medida em que a origem da publicação, assim como seus autores, seja reconhecida.

ISBN 978-85-99662-50-

Centro Edelstein de Pesquisas Sociais www.centroedelstein.org.br Rua Visconde de Pirajá, 330/1205Ipanema - Rio de Janeiro - RJ CEP: 22410-000. BrasilContato: [email protected]

  • Apresentação
  • Capítulo 1 - Ciência, Tecnologia, Tecnocracia e Democracia
  • Capítulo 2 - Os mitos da ciência
    • Os mitos da ciência
    • A antiga síntese: o progresso através da ciência
    • Tese: o rei filósofo
    • Antítese: o reino da ciência
    • A nova síntese: ciência, tecnologia e desenvolvimento econômico
  • Capítulo 3 - Por uma Política Científica
    • Política científica e planejamento econômico
    • A legitimidade da política
    • Política científica de projetos de impacto
    • Política de integração ensino-pesquisa
    • A política científica da comunidade acadêmica
    • A política científica do desenvolvimento tecnológico
    • Política científica das tecnologias de grande porte
    • Conclusões e proposições finais
  • Capítulo 4 - Universidade, Ciência e Subdesenvolvimento
    • Universidade, Ciência e Subdesenvolvimento
    • Dois exemplos pioneiros: a Índia e o Japão
    • A experiência Ibérica
    • Ciência e as universidades na América Latina
    • A Universidade de São Paulo
    • Turquia: um contra-exemplo?
    • Conclusão
  • Capítulo 5 - A Crise da Universidade
    • Os ideais da universidade
    • A crise
    • A crise do ideal de democratização
    • A crise da educação funcional
    • A crise da qualidade
    • A crise da universidade científica e crítica
    • Para uma nova agenda
    • Conclusão: problematizar a universidade e a educação
  • Capítulo 6 - O Espaço Acadêmico
    • O Espaço Acadêmico
    • A liberdade acadêmica
    • As regras do jogo
    • A questão da qualidade
    • Quem avalia?
  • Capítulo 7 - Miséria da Ideologia
    • A vitória da ideologia
    • Política e vida quotidiana
    • O ópio dos intelectuais
    • A volta do sagrado
    • A ideologia e a questão da objetividade
    • A politização do conhecimento e a questão da sociologia
    • O impacto da ideologia
    • Post-scriptum: o fim da ideologia?

Apresentação

O que une as questões da ciência, da universidade e da ideologia entre si é que todas fazem parte de um todo maior que é a política do conhecimento. Esta política pode e deve ser pensada em dois sentidos. Por um lado, é necessário fazer algo com nossas instituições científicas, educacionais, artísticas e culturais é necessária uma política adequada da cultura e do conhecimento. Por outro lado, os cientistas, estudantes, professores. artistas, escritores e intelectuais constituem um grupo social extremamente ativo, ou seja, fazem política constantemente.

Pensar nessas questões é enfrentar os temas mais clássicos da sociologia do conhecimento. Como conhecer de forma adequada o mundo em que vivemos? Como distinguir o conhecimento verdadeiro do falso? Qual o papel do conhecimento na organização da sociedade no progresso social, na conquista da felicidade humana? Qual a função política do conhecimento? Quais são os determinantes sociais dos diversos tipos de conhecimento? Que é, afinal, o conhecimento "científico?” Como ele se diferencia do conhecimento prático, do conhecimento ideológico e da tecnologia? Qual a relação entre o conhecimento e a ética? Essas questões têm sido centrais no pensamento filosófico de todos os tempos, e é também crucial no pensamento social e político contemporâneo. Elas foram básicas para Marx, em sua crítica à ideologia e em sua tentativa de dar ao método dialético hegeliano uma base empírica; para Auguste Comte, com sua teoria dos "três estados" de desenvolvimento da humanidade, do teológico ao metafísico e ao científico; para Émile Durkheim, em seu estudo sobre a formação de conceitos a partir de representações religiosas; para Max Weber, em suas pesquisas históricas sobre as origens da racionalidade; para Karl Mannheim, em seus ensaios sobre a ideologia e a utopia; para Gramsci, em seus escritos sobre os intelectuais; e assim por diante.

Sem pretender enfrentar essas questões no mesmo nível de tão ilustre linhagem, os trabalhos reunidos neste volume referem-se, também, à questão do conhecimento, a partir, basicamente, de duas preocupações. A primeira, mais geral, é com a maneira por que se diferenciam e se inter- relacionam as diversas formas de conhecimento o científico, o técnico, o ideológico e seu uso social e político. A segunda, mais específica, é com as condições de surgimento e desenvolvimento do conhecimento científico em países subdesenvolvidos, dos quais faz parte o Brasil e aqui um tema é o do relacionamento entre a atividade científica e o sistema universitário.

A sociologia do conhecimento tem sua origem na noção, estabelecida principalmente a partir de Marx, de que as diversas formas de conhecimento não se desenvolvem no vácuo social, em função da simples acumulação de informações, conceitos e teorias. Existem épocas e situações históricas que favorecem mais o surgimento de certo tipo de estudos do que outros, existem grupos

as atuais desventuras pelas quais passamos. Chamar atenção para o aspecto político da ciência, por exemplo, significa apostar na idéia de que a busca de conhecimento superior não é um simples mecanismo cego que responde a processos autônomos e não controlados de crescimento histórico, mas algo que tem uma potencialidade de liberação humana e que merece, sempre, ser buscado e incentivado. Nesse sentido, a atividade científica e a liberdade intelectual merecem e necessitam ser defendidas e estimuladas o que não significa, obviamente, que não exista um amplo espaço para escolhas, preferências e opções. A última proposição mais geral, pois, que preside esses trabalhos é que não existe, certamente, uma Razão hegeliana nem um futuro científico positivista a nos aguardar no fim da história; mas que, apesar disso, o conhecimento é melhor do que a ignorância, e que esse valor deve ser explorado e maximizado em todos os momentos.

Diversas partes deste livro apareceram anteriormente em artigos de revistas acadêmicas ou jornais em versões distintas. Elas foram escritas visando públicos e momentos distintos, e isso se reflete em certa diferença de estilos. No entanto, havia uma preocupação e uma temática comum a todas elas, que só agora, quando postas lado a lado, podem ser melhor compreendidas.

Capítulo 1

Ciência, Tecnologia, Tecnocracia e Democracia^1

Um dos supostos mais difundidos no século XIX era o de que, graças à ciência, a humanidade poderia livrar-se da política. A ciência era considera- da o domínio da lógica e da razão, enquanto a política era a órbita da emoção e da paixão. Esperava-se que a ciência alcançasse o Reino da Razão através de diversos meios. Em primeiro lugar, daria fim à pobreza, o que se supunha traria felicidade e paz. Em segundo, ensinaria as pessoas a pensar racionalmente, o que levaria ao comportamento racional em todas as esferas de atividade. E, finalmente, as próprias questões sociais e políticas poderiam ser tratadas de maneira científica, o que eliminaria disputas irracionais e produziria a melhor das sociedades.

Embora questionados tanto pela experiência histórica quanto intelectualmente, esses supostos não desvaneceram. Conservam o vigor de mitos e ideologias que justificam as atividades dos cientistas e dos que usam a ciência, ou sua cobertura, para quaisquer metas que tenham em vista. Na realidade, a ciência não eliminou, nem sequer reduziu a presença da política na vida social. Mas eliminou sua base de legitimidade, fazendo-a ser desdenhada como desprezível, irracional e indigna. Afastada a política do caminho, está aberta a via pela qual a ciência e a tecnologia podem transformar-se em tecnocracia. Podemos compreender melhor esse processo se olharmos mais de perto cada um dos meios pelos quais a ciência supostamente faria desaparecer a política.

Uma das importantes percepções da década de 1970 é que o crescimento da ciência e o desenvolvimento tecnológico não têm fronteiras abertas, mas estão aproximando-se de certos limites que já se percebem. Esses limites estão sendo postos pela exaustão previsível dos recursos naturais e de novas áreas a explorar, e pelas restrições que as sociedades estão começando a impor à constante expansão dos complexos científicos e tecnológicos. A decisão de não produzir o avião de transporte supersônico SST nos EUA, a interrupção do programa lunar, as campanhas contra a energia nuclear, as indecisões e dificuldades referentes à energia termonuclear, as resistências e limitações impostas nos EUA à pesquisa sobre a recombinação do DNA, tudo isso representa uma nova tendência e um desafio aos quais a ciência norte-americana não estava acostumada. No prefácio de recente número da revista Daedalus dedicada aos "Limites da investigação científica", a situação atual é comparada com a de vinte anos atrás, quando o conceito de limites, "tão significativo no contexto do mundo contemporâneo, pareceria impróprio, até absurdo, para uma

(^1) Publicado originalmente como "Science, Technology, Technocracy and Democracy" em Cândido Mendes, editor, The Controls of Technocracy , Rio de Janeiro, Conjunto Universitário Cândido Mendes, 1979; e em Interciencia (Caracas), 4, 4. Tradução do inglês de Waldívia Marchiori Portinho.

culturais e sociais era irresistível, e foi sempre um elemento essencial nos supostos que cercam a ciência ocidental.

Um exame mais acurado mostra que havia duas maneiras basicamente contraditórias de sustentar essas pressuposições. A primeira fazia parte da tradição do liberalismo econômico e político. Apoiava a liberdade de pensamento e pesquisa em base individual, e a eliminação das barreiras institucionais e morais capazes de limitar a liberdade individual. O racionalismo científico dos indivíduos se agregaria naturalmente, ao que se supunha, para constituir uma sociedade racional e eficiente, da mesma forma que o racionalismo econômico de indivíduos se somaria para constituir uma economia próspera. A economia, nesse contexto, era a ciência social privilegiada. Ela fornecia um modelo analítico para a compreensão da racionalidade individual e uma justificação lógica para os valores econômicos, sociais e políticos do liberalismo.

A visão alternativa tem seu melhor representante no positivismo de Comte. Em certo sentido, era o resultado do desencanto com as promessas do liberalismo e com os benefícios da racionalidade individual. Seu alvo era produzir um plano para a organização da sociedade, e fazer com que os indivíduos a ele se submetessem; na esfera social, a sociologia era a disciplina predileta. Em sua versão durkheimiana, os fatos sociais eram coisas que tinham existência própria; os indivíduos eram levados por eles em seu comportamento, e tinham a ilusão da independência e da autonomia. Os positivistas, porém, eram evolucionistas, e para eles a sociedade ainda deveria alçar- se a níveis mais elevados de racionalidade, o que seria alcançado me diante a descoberta das leis, mecanismos e procedimentos técnicos que desvelariam um futuro que se supunha preordenado pelo processo evolucionário. A liberdade era o conhecimento da necessidade. Nesse sentido, o evolucionismo positivista incorporava a história.

É curioso verificar como ambas essas perspectivas extremas, cada uma à sua maneira, negavam legitimidade à política. A economia liberal estava atrelada ao entendimento das estruturas econômicas através do comportamento racional de indivíduos no mercado. Tudo que prejudicasse esse processo era considerado basicamente irracional, inoportuno e ineficiente. Esses elementos não-racionais mais tarde foram considerados como variáveis exógenas, institucionais e culturais, que balizavam o escopo do comportamento econômico mas não podiam ser submetidas elas mesmas à análise econômica. Mais recentemente, surgiu uma tendência para estender a lógica da racionalidade individual a outras áreas do comportamento social, incluindo o sistema político, a comunidade científica, as instituições educacionais, e decisões concernentes ao casamento e à criação dos filhos. Em todas essas áreas, admitia-se que os indivíduos "votassem com os pés": comprar ou não determinado produto, fazer ou não determinado investimento, aceitar ou não um emprego, ter ou não um filho, votar ou não num candidato, pertencer ou não a um partido político,

escolher um ou outro campo de investigação científica. Albert Hirschman chamou mecanismo de saída a esse processo, que exclui outras formas de comportamento e participação social baseados em sentimentos e compromissos de lealdade, identificação, solidariedade, ação coletiva. Essas "vozes" como ele as chama são formas essencialmente políticas de participação social que a perspectiva estritamente econômica tende a eliminar ou invalidar intelectualmente.^4

Na perspectiva positivista, a política está presente, porém como um conflito entre luz e sombra, ciência e ignorância. De um lado está a ciência, o conhecimento; do outro existe apenas ignorância e atraso. A vida política, portanto, não é vista como a interação contínua de grupos distintos que possuem seus próprios valores, preferências e direitos legítimos. Não há lugar para as "regras do jogo" aceitas de comum acordo, pois não há um jogo a ser vencido com lisura, mas uma guerra a ser ganha de qualquer modo.

De que maneira o marxismo, em sua tentativa de unir a economia inglesa ao pensamento social francês, encarou a política? Basicamente, o marxismo aceitou a lógica da racionalidade individual, mas procurou colocá-la numa perspectiva histórica e evolucionista. O capitalismo era considerado o máximo da racionalidade, mas trazia em si mesmo os germes de sua substituição por uma ordem ainda mais elevada de organização social. A tese fundamental é bem conhecida: o comportamento econômico individual, privado, e a apropriação dos meios de produção iam de encontro ao crescente processo de socialização das forças produtivas. A lógica do capitalismo não era mero resultado de unia multiplicidade de ações individuais, mas possuía uma dinâmica própria que arrastava os indivíduos em sua senda. A contradição básica da sociedade capitalista tendia a traduzir- se no conflito de classe com vistas ao controle dos meios de produção. A política, nesse contexto, era essencialmente a transição da ação individual para a coletiva.

Desse modo, o marxismo tentava responder à questão deixada em aberto pelo positivismo ou pelo "socialismo utópico" a respeito de quem deveria liderar as transformações que suscitariam a sociedade aperfeiçoada. A resposta era: a classe operária, agindo como um organismo coletivo em favor dos interesses de cada um de seus membros. Nesse sentido, a contradição entre a racionalidade individual e a coletiva podia ser resolvida, pelo menos conceitualmente. Cada pessoa e grupo social tinha um interesse "objetivo" que era independente de sua vontade, mas ao mesmo tempo lhe atribuía determinada posição na luta de classe, na qual sua vontade deveria exercer-se na direção correta. Não se tratava, é claro, de uma luta de iguais: apenas um lado estava destinado a vencer, e contava com a ciência ao seu dispor; o outro dispunha apenas de ideologia. Nesse sentido,

(^4) 3. Hirschman, Albert, Exit, voice and loyalty - responses to decline in firms, organzations and states,. Harvard University Press, 1970

Em termos muito gerais, as sociedades modernas testemunharam um processo duplo e contraditório de modernização social que pode ser descrito em termos da clássica dicotomia entre Gemeinschaft e Gesellschaft, ou seja, comunidade e sociedade. A tradição sociológica supunha que a modernização poderia identificar-se com a transição da primeira para a segunda, de pequenas comunidades para grandes sociedades, da homogeneidade para a diversidade. Organizações produtivas cada vez maiores, vastas concentrações urbanas, sistemas complexos de divisão do trabalho, sistemas de estratificação social baseados numa pluralidade de afiliações institucionais e de posições sociais - relativas à profissão, vizinhança, antecedentes educacionais, religião da família, grupo lingüístico - todos esses processos pareciam confirmar essa hipótese. Contudo, o que não foi bem entendido por muitos - exceto, talvez, por Durkheim - é que algumas das características das antigas comunidades também se expandiam e se recriavam numa escala muito maior do que jamais.

O crescimento da Gemeinschaft nas sociedades modernas chamou a atenção dos cientistas sociais nos termos da "sociedade de massa", tradição de investigação que é pelo menos tão antiga quanto a de Tocqueville. Mais recentemente, a noção de uma "aldeia global" criada pela expansão dos modernos sistemas de comunicação social fez de McLuhan um profeta dos tempos modernos. Basicamente, o que caracteriza a nova Gemeinschaft é a crescente padronização dos hábitos, padrões de comportamento, sistemas de valores, e assim por diante, que deriva do moderno sistema de produção de massa, comunicações de massa e mercados de massa. O que existe de paradoxal é que esses sistemas de massa, para existir e operar, exigem estruturas altamente complexas de produção, administração, contabilidade e comercialização - em outras palavras, uma Gesellschaft muito complicada. É como se os cidadãos das sociedades modernas se relacionassem entre si de duas maneiras simultâneas e opostas. Na qualidade de produtores e assalariados, ocupam postos que exigem formação especializada e participação em estruturas profundamente complexas e diferenciadas. Na qualidade de consumidores, são conduzidos a um mundo de faz-de-conta que resolve a complexidade da sociedade em termos muito familiares: os mesmos produtos a comprar, as mesmas novelas a acompanhar na TV, os mesmos clubes pelos quais torcer, as mesmas lojas onde comprar, hotéis das mesmas cadeias onde se hospedar, o mesmo Deus e a mesma bandeira a venerar. Como no filme de Kubrick, 2001 - Uma odisséia no espaço , tudo é familiar ao fim da jornada.

Em países ricos, o processo da crescente massificação é limitado por diversos mecanismos. Antes de mais nada, pela contradição entre as estruturas de produção e de consumo de que participam os indivíduos. Depois, pela diversidade de padrões alternativos de consumo, organizações e instituições de lazer, e organizações voluntárias, que podem ser criados e adotados

tendo em vista a própria abundância de recursos. Isso, porém, é muito mais difícil em países mais pobres, nos quais a transição da Gemeinschaft tradicional para a moderna é muito mais violenta, sendo particularmente reforçada pelo papel que a tecnologia moderna desempenha.

A tecnologia moderna, de fato, tende a enfatizar processos de economia de mão-de-obra, que de maneira típica afetam muito mais pessoas através de seus produtos do que através de suas exigências gerenciais. A adoção de tecnologias de baixo coeficiente de mão-de-obra exerce atrativo óbvio sobre sistemas econômicos onde a mão-de-obra é cara e escassa, mas não parece fazer muito sentido em sociedades que se caracterizam por forças de trabalho baratas e abundantes. Contudo, há várias razões pelas quais essas sociedades tendem a buscar tecnologias que poupam mão-de-obra com tanto interesse. A primeira é que elas têm um déficit crônico de certos produtos e serviços essenciais - como serviços de saúde, alimentos, transporte, energia, educação - e os sistemas de grande escala e alta tecnologia parecem, à primeira vista, mais apropriados para produzi-los de maneira rápida e eficiente. A segunda é que esses países sofrem de um déficit crônico de mão-de- obra semi-qualificada, mas com freqüência contam com uma relativa abundância de quadros de formação especializada. Esses quadros especializados preferem sistemas de alta tecnologia e tendem a pressionar em favor deles, por serem compatíveis com seu nível de formação e habilitação e não exigirem a incorporação de vastas forças de trabalho semi-qualificado no sistema produtivo. A terceira é que existe um processo de "transferência de tecnologia" dos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento que tende a transferir os padrões organizacionais e tecnológicos dos países centrais para os periféricos.

A conseqüência é que o número de pessoas integradas nos setores produtivos dessas sociedades tende a ser muito menor do que o número dos consumidores ou usuários potenciais desses produtos. Numa situação de mercado, os que não produzem não ganham dinheiro, e portanto não podem consumir. Se essa situação não é atendida, gera o que tem sido chamado de "sociedades dualistas", nas quais um setor reduzido evolui para uma moderna economia de mercado enquanto o setor mais amplo permanece de fora, como uma reserva de mão-de-obra não qualificada. Essa situação não é isenta de problemas: o dualismo pode conduzir a situações políticas altamente perigosas, e também significa uma restrição de mercado para os bens e serviços produzidos pelo setor moderno da sociedade. Assim, manifesta-se uma crescente pressão no sentido de fornecer serviços de um setor ao outro, pela expansão dos sistemas de saúde e de órgãos de planejamento urbano, campanhas referentes a habitação, saúde e nutrição etc. Sejam quais forem os benefícios reais desses serviços, eles criam um novo mercado para os profissionais formados nas universidades do país, pela adoção de novas técnicas de comunicação de massa e educação, pela organização de

postulados ocidentais de modernização mediante tecnologias cada vez mais complexas a sofisticadas.

Sem tentar avaliar as conquistas reais em cada uma dessas áreas - existe muitíssima ilusão a pouquíssima informação no Ocidente a respeito de tudo o que se refere à China - é bem claro hoje que a explicação para os eventuais êxitos chineses não se relaciona com a adoção de tecnologias descentralizadas e menos sofisticadas^6 , mas, ao contrário, com a adoção de uma tecnologia muito complexa a abrangente de organização social e de produção. O que os países socialistas têm, a falta aos países capitalistas, são essas vastas redes da organização social que unam a sociedade de baixo para cima, a partir de cada oficina a área residencial. A experiência social em que se fundamenta essa processo parece estranha à tradição ocidental de individualismo, mas é bastante conforme à tradição asiática de impérios burocrático-patrimoniais de larga escala e complexas estruturas familiares e locais de inter-relações sociais.

Qual o fundamento desse tipo de organização social? Segundo a clássica posição marxista, esse seria o coroamento natural da maturação das sociedades capitalistas e da socialização dos meios de produção. Estamos, contudo, tratando de países subdesenvolvidos. Karl Wittfogel, em sua obra Oriental Despotism , tentou explicar o complexo sistema de organização social das sociedades asiáticas pelas necessidades de produção mediante a irrigação agrícola. A militarização de sociedades baseadas na guerra predatória também pode ser mencionada como explicação. A experiência do socialismo contemporâneo, porém, mostra a existência de um vigoroso elemento de voluntarismo social na criação dessas sociedades - com Lênin e o partido bolchevista, na União Soviética, ou com Mao e seu exército na China. A escolha de tecnologias aplicadas à produção econômica e ao bem- estar social, ao invés de ser a causa, parece ser apenas uma opção inerente a esses sistemas de mobilização e controle social em larga escala.

Em resumo, o que os países socialistas parecem ter conseguido é um sistema eficaz de incorporação de grandes massas de população nas sociedades modernas através de alguma espécie de organização social que ignora as exigências estritamente tecnológicas de mão-de-obra das organizações produtoras modernas. Nessas sociedades, a política é considerada passada, mas, como sempre, é apenas reprimida. A coesão da vasta teia da integração e participação social é assegurada por um amplo e complexo sistema de doutrinação ideológica, formação política e controle social de pessoa a pessoa. A dissidência só é tolerada dentro de limites restritos e cambiantes, e a coerção formal e informal é sempre uma possibilidade. A tecnocracia no sentido da dominação política por

(^6) Ver a defesa da tecnologia de "dimensões humanas" em E .F. Schumacher, Small is beautiful - economics as if people mattered. Harper & Row, 1973. (tradução brasileira: O negócio d ser pequeno - um estudo de economia que leva em conta as pessoas. 2 ed., Rio, Zahar, 1979); e Amory B. Lovins , Soft energy paths. Cambridge, Mass., Ballinger Publ.,

cientistas e engenheiros não é muito manifesta - mas a dominação tecnocrática por aqueles que controlam os sistemas de organização social (o Estado, o partido, os sindicatos) é geral.

Se for correto o dito até agora, algumas conclusões parecem impor-se a respeito das relações entre a ciência, a educação, a tecnocracia e a democracia. As primeiras conclusões ou proposições são negativas: a ciência e a tecnologia não podem, por si mesmas, eliminar a escassez do meio social, e portanto não podem eliminar a política. Existem algumas razões claras para isso, que se relacionam com as estruturas econômicas e sociais que limitam e restringem os usos positivos e negativos do conhecimento científico. Se é ilusório acreditar que a ciência e a tecnologia, graças a seu crescimento, podem salvar a sociedade, é também ilusório supor que a volta a pequena escala, à tecnologia humanizada e "maleável", poderia produzir o mesmo resultado. Existem, porém, algumas outras razões mais profundas e filosóficas. A escassez não é apenas questão de necessidades absolutas, mas também de valores relativos ou posicionais, escassos por definição; e a política, bem entendida, é uma atividade essencialmente humana ou, como pensava Hannah Arendt, uma característica fundamental da condição humana.

As mesmas conclusões negativas podem ser aplicadas às incursões da ciência positivista na esfera da vida social. Os debates sobre as possibilidades epistemológicas das ciências sociais empíricas às vezes não se dão conta do ponto principal. A questão não é a possibilidade ou não de haver uma ciência positiva da sociedade (que, naturalmente, é possível), mas o que essa ciência pode fazer pela sociedade. O comportamento político certamente pode ser estudado de modo empírico e manipulado mediante técnicas de controle social, se alguém dispuser de suficiente poder; porém, somente em Walden, de Skinner, isso representaria a eliminação real da política e da sociedade humana como a compreendemos.

O poder da ciência na sociedade é muito mais limitado do que muitos cientistas gostariam que fosse; o poder dos cientistas sociais é ainda menor, ainda mais quando comparado com suas aspirações ainda maiores. Uma coisa que os cientistas sociais podem fazer, todavia, é tentar eliminar os mitos tecnocráticos do imperialismo científico que herdamos do século XIX. Isso tornaria a política uma atividade mais digna, legitimaria a diversidade e o pluralismo, e eliminaria uma das mais importantes justificativas ideológicas para o domínio tecnocrático. Como subproduto, isso poderia até mesmo resultar em melhor ciência.

Que efeitos redundariam para a democracia? Pode-se ter igualdade sem política numa utopia skinneriana, ou política com desigualdade e injustiça em sociedades modernas e estratificadas; em ambos os casos, os ideais democráticos não estarão sendo satisfeitos. Eu afirmaria que, imediatamente acima do nível de satisfação das necessidades básicas, existe um limite para a igualdade de que se pode usufruir numa sociedade sem política. A vida política é preciosa porque,

Capítulo 2

Os mitos da ciência

Os mitos da ciência Em um artigo publicado em 1966 na revista Science o falecido Homi J. Bhabba, um dos pais da tecnologia nuclear da índia, transmitia uma noção bastante simples e aparentemente convincente a respeito das relações entre ciência e desenvolvimento econômico e social: o que os países desenvolvidos têm e os países subdesenvolvidos não têm, dizia, é uma ciência moderna e uma economia baseada em tecnologia também moderna. Para desenvolver os países subdesenvolvidos é, portanto, necessário estabelecer neles a ciência moderna e transformar suas economias tradicionais em economias baseadas na ciência e tecnologias modernas.^7 A explosão nuclear da índia em 1974 e o lançamento de seu primeiro satélite no ano seguinte não deixaram dúvidas quanto ao sucesso da Índia em se apropriar de algumas das mais sofisticadas da tecnologia moderna. A questão a respeito de quanto esses sucessos ajudaram a modernizar a economia do país é, no entanto, muito mais duvidosa.

O relacionamento entre ciência, tecnologia e desenvolvimento é, naturalmente, muito mais complicado do que a citação acima deixa transparecer. Essa complexidade deriva, na realidade, da própria complexidade do conjunto de atividades, instituições e corpos de conhecimento que estão implícitos no termo "ciência". Mais ainda, as percepções que possamos ter do que é a ciência e de como eia se relaciona com processos seculares de transformação social são freqüentemente perturbadas pela nuvem de mitos que sempre cercaram a atividade científica.^8

Esses mitos devem ser levados bastante a sério. Não se trata de simples erros que poderiam ser afastados com melhor conhecimento a respeito da verdadeira natureza da atividade científica e seu relacionamento com o meio social. Mitos, conforme definição corrente de dicionário, são uma "narrativa comumente legendária que apresenta partes das crenças de um povo ou explica uma prática ou um fenômeno natural". Os mitos sobre a ciência são uma das formas pelas quais as sociedades percebem e justificam suas crenças no progresso, e uma das formas pelas quais os cientistas explicam e justificam suas práticas. Enquanto a realidade é contraditória e complexa, os mitos tendem a ser simples de entender e ter uma coerência que obedece muito mais às suas funções

(^7) Bhabba, H. J., "Science and the problems of development,” Science , 151. 4 de fevereiro de 1966. (^8) Esse relacionamento persistente e aparentemente ilegítimo entre a racionalidade humana, a ciência, e seu oposto, o mito, tem prendido frequentemente a atenção de quem examina a atividade científica sob a luz das ciências sociais. Ver, por exemplo, o livro de Kalman H. Silvert, The social reality of scientific myth. New York, American University Field Staff, 1969, e Jean-Jacques Salomon, "Science policy and its myths", in Public Policy. 1972, 1, pp. 1-33.

sociais do que aos cânones da lógica formal; isso significa que eles não são necessariamente coerentes, mas trazem, muitas vezes, contradições e ambigüidades em seus supostos e implicações.^9

Uma das possíveis utilidades da dialética é ajudar a entender situações ambíguas e contraditórias, e isso pode ser útil nesta exposição. Para efeito de clareza, e sem maiores pretensões à ortodoxia dialética, examinaremos primeiro a síntese indiferenciada, ou seja, o mito do progresso social através da ciência, que será dividido em dois, a "tese" e a "antítese". Esses dois mitos, ou sub- mitos, desenvolvem-se de maneira simultânea e contraditória, e não existe aqui nenhuma pretensão de estabelecer a precedência histórica e temporal de um em relação ao outro.

A tese é o mito do Rei Filósofo, ou seja, a idéia de que o mundo deve ser ordenado segundo os cânones da racionalidade superior a ser proporcionada pelos que sabem. Ele nos permite, entre outras coisas, pensar nas idéias modernas de planejamento, incluindo o planejamento da própria ciência, assim como examinar a questão do papel social dos cientistas e intelectuais. A antítese é a idéia de que a sociedade humana tende naturalmente à racionalidade, e que os cientistas participam disso ao serem, simplesmente, leais às suas vocações específicas. Discutiremos isso em termos do mito do Reino da Ciência, no qual cabe uma seção especial dedicada à República dos Cientistas. O principal suposto da antítese é que o mundo é naturalmente harmônico, a Razão impera, e conseqüentemente os cientistas podem viver em uma República. A tese, ao contrário, acredita que o mundo em si é desordenado, e por isso necessita de uma direção esclarecida, a ser exercida pelos homens de conhecimento superior. A união entre essas duas visões antagônicas é tentada na nova síntese, que postula a identidade entre ciência, tecnologia e desenvolvimento.

Chamar atenção para esses mitos não significa dizer que eles sejam necessariamente errados ou ilusórios. O que dá força a um mito é que ele captura uma parte significativa da realidade social, como ela é e como ela é percebida pelas pessoas, e transforma tudo isso em verdades generalizadas. Quando se diz, por exemplo, que ciência e tecnologia são duas faces da mesma moeda - um postulado central do mito da nova síntese - o verbo ser significa que isso é assim, mas também que isso deve ser assim, e que será sempre assim, onde quer que ciência e tecnologia se desenvolvam. Esta combinação de afirmações empíricas, normativas e preditivas é que faz dos mitos algo tão presente, mas ao mesmo tempo tão imune a qualquer tentativa de refutação empírica ou lógica.

Se os mitos sobre a ciência são importantes nos países onde a atividade científica mais se desenvolveu, eles se tornam ainda mais cruciais em países subdesenvolvidos onde a ciência moderna entra, freqüentemente. pela via de políticas governamentais explícitas que se guiam, via de regra, pelos mitos, sempre muito mais acessíveis à percepção e ao entendimento do que a própria

(^9) Nesse sentido "mito" significa o mesmo que ideologia; mas as ideologias tendem a ser mais abrangentes e de conteúdo político mais explícito, enquanto os mitos tendem a ser mais particularizados.