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Impacto do Bolsa Família na Votação de Dilma Rousseff em 2010: Análise Estatística, Notas de estudo de Estatística

Um estudo sobre o impacto do programa bolsa família nas eleições presidenciais de 2010 no nordeste do brasil, especificamente no percentual de votos válidos recebidos pela presidente dilma rousseff. O artigo utiliza um modelo de regressão beta para identificar os fatores que influenciaram o percentual de votos de dilma naquela região e quantificar o impacto dos gastos com o programa bolsa família. Além disso, o documento discute a migração de votos causada pelo programa de assistencialismo e as propostas eleitorais de dilma na campanha de 2010.

Tipologia: Notas de estudo

2015

Compartilhado em 05/06/2015

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pedro-almeida-49 🇧🇷

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Artigo original DOI: 10.5902/2179460X16021
Ciência e Natura, Santa Maria, v. 37 n. 1, 2015, p. 12–22
Revista do Centro de Ciências Naturais e Exatas - UFSM
ISSN impressa: 0100-8307 ISSN on-line: 2179-460X
Estimativas de votos da presidente Dilma Rousseff nas eleições
presidenciais de 2010 sob o âmbito do Bolsa Família
Estimates of votes for Dilma Rousseff in 2010 elections under the scope of the
Bolsa Família Program
Pedro M. de Almeida Junior1e Tatiene C. Souza2
1Departamento de Estatística, Universidade Federal de Pernambuco, Cidade Universitária, Recife/PE, 50740–540, Brasil
2Departamento de Estatística, Universidade Federal da Paraíba, Cidade Universitária, João Pessoa/PB, 58089–900, Brasil
Resumo
O objetivo deste artigo é avaliar o impacto dos gastos com o programa Bolsa Família nas eleições presidenciais de 2010. Ajustou-se
o modelo de regressão beta para explicar o percentual de votos válidos da presidente Dilma Rousseff no segundo turno nas eleições
de 2010 no Nordeste. Alguns fatores como o percentual de pobres, o PIB municipal, o percentual de votos de Lula em 2006 e o
gasto per capita com o programa Bolsa Família exerceram efeito positivo em relação ao percentual de votos da candidata Dilma
nas eleições de 2010. Com o impacto do Bolsa Família nas eleições de 2010, verificou-se que se não houvesse gasto com o Bolsa
Família, a votação da candidata Dilma teria uma redução de aproximadamente 2.125 milhões de votos na região Nordeste nas
eleições de 2010.
Palavras-chave: Bolsa Família, percentual, região Nordeste, modelo de regressão beta.
Abstract
The purpose of this paper is to evaluate the impact of the Bolsa Família program’s expenses during the presidential elections
of 2010. The beta regression model was adjusted in order to explain the percentage of valid votes from the Northeast region
in Dilma Rousseff during the second round of the 2010 elections. Factors such as the poverty ratio, the municipal GDP, the
percentage of votes Lula got in 2006 as well as the Bolsa Família program’s per capita spending all had a positive impact on
the percentage of votes in Dilma in the 2010 elections. We’ve established the impact of the Bolsa Família program in the 2010
elections: had the program being given no budget during the 2010 elections, President Dilma would have lost approximately
2,125 million votes from the Northeast region.
Keywords: Bolsa Família program, percentage, region Northeast, beta regression model .
Recebido: 29/10/2014 Revisado: 21/12/2014 Aceito: 12/01/2015
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Baixe Impacto do Bolsa Família na Votação de Dilma Rousseff em 2010: Análise Estatística e outras Notas de estudo em PDF para Estatística, somente na Docsity!

Artigo original DOI: 10.5902/2179460X

Ciência e Natura, Santa Maria, v. 37 n. 1, 2015, p. 12–

Revista do Centro de Ciências Naturais e Exatas - UFSM

ISSN impressa: 0100-8307 ISSN on-line: 2179-460X

Estimativas de votos da presidente Dilma Rousseff nas eleições

presidenciais de 2010 sob o âmbito do Bolsa Família

Estimates of votes for Dilma Rousseff in 2010 elections under the scope of the

Bolsa Família Program

Pedro M. de Almeida Junior

e Tatiene C. Souza

Departamento de Estatística, Universidade Federal de Pernambuco, Cidade Universitária, Recife/PE, 50740–540, Brasil

Departamento de Estatística, Universidade Federal da Paraíba, Cidade Universitária, João Pessoa/PB, 58089–900, Brasil

Resumo

O objetivo deste artigo é avaliar o impacto dos gastos com o programa Bolsa Família nas eleições presidenciais de 2010. Ajustou-se

o modelo de regressão beta para explicar o percentual de votos válidos da presidente Dilma Rousseff no segundo turno nas eleições

de 2010 no Nordeste. Alguns fatores como o percentual de pobres, o PIB municipal, o percentual de votos de Lula em 2006 e o

gasto per capita com o programa Bolsa Família exerceram efeito positivo em relação ao percentual de votos da candidata Dilma

nas eleições de 2010. Com o impacto do Bolsa Família nas eleições de 2010, verificou-se que se não houvesse gasto com o Bolsa

Família, a votação da candidata Dilma teria uma redução de aproximadamente 2.125 milhões de votos na região Nordeste nas

eleições de 2010.

Palavras-chave: Bolsa Família, percentual, região Nordeste, modelo de regressão beta.

Abstract

The purpose of this paper is to evaluate the impact of the Bolsa Família program’s expenses during the presidential elections

of 2010. The beta regression model was adjusted in order to explain the percentage of valid votes from the Northeast region

in Dilma Rousseff during the second round of the 2010 elections. Factors such as the poverty ratio, the municipal GDP, the

percentage of votes Lula got in 2006 as well as the Bolsa Família program’s per capita spending all had a positive impact on

the percentage of votes in Dilma in the 2010 elections. We’ve established the impact of the Bolsa Família program in the 2010

elections: had the program being given no budget during the 2010 elections, President Dilma would have lost approximately

2,125 million votes from the Northeast region.

Keywords: Bolsa Família program, percentage, region Northeast, beta regression model.

e-mail: [email protected]

Recebido: 29/10/2014 Revisado: 21/12/2014 Aceito: 12/01/

13 Almeida Junior e Souza: Bolsa Família nas eleições 2010

1 Introdução

O

s programas assistenciais ou também conhecidos

como programas de transferência de renda, tem

sido apontado como possibilidade de solução

para a crise do emprego e enfrentamento da pobreza,

sendo defendidos por políticos, organizações sociais e

estudiosos das questões sociais (Silva et al., 2012). As-

sim, estes programas tem como objetivos principais a

redistribuição de renda para tornar a sociedade mais

igualitária no aspecto econômico e social, além de per-

mitir a inserção social e profissional dos cidadãos, numa

conjuntura de pobreza e desemprego.

No Brasil, a primeira proposta para a criação de um

programa nacional de assistencialismo, foi introduzida

pelo senador Eduardo Suplicy, do Partido dos Trabalha-

dores de São Paulo. O Programa de Garantia de Renda

Mínima (PGRM), foi aprovado no Senado Federal, em

1991 (Silva et al., 2012). Este foi o marco inicial dos

programas de assistencialismo no Brasil. Apesar das

críticas e algumas limitações, foi de suma importância

para o início da discussão em relação as políticas de

redistribuição de renda. A partir dai, surgiram novas

propostas de programas com o objetivo de erradicar a

pobreza extrema e diminuir a desigualdade social.

As cidades de Campinas (SP), Ribeirão Preto (SP),

Santos (SP) e Brasília (DF), foram as pioneiras na im-

plantação de programas assistenciais no Brasil em 1995.

Destes, o Programa de Garantia de Renda Familiar Mí-

nima (PGRF) de Campinas e o Programa Bolsa Escola

de Brasília destacaram-se como modelos de programas

de transferência de renda (Silva et al., 2012). No governo

do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, no penúl-

timo ano de seu segundo mandato (1999-2002), tem-se

em destaque a transformação do Programa de Garantia

de Renda Mínima, em Programa Nacional de Renda

Mínima vinculado à educação chamado Bolsa Escola, a

criação do Programa Bolsa Alimentação e Auxílio Gás.

No Governo do ex-presidente Lula estes programas fo-

ram unificados em um só programa intitulado como

Bolsa Família (Presidência da República, 2004).

O Cadastro Único (CadÚnico) é um instrumento que

possibilita conhecer a realidade socioeconômica das fa-

mílias, possibilitando identificar as famílias de baixa

renda existente no país, trazendo informações de todo o

núcleo familiar, das características do domicílio e das for-

mas de acesso a serviços públicos essenciais (Ministério

de Desenvolvimento Social e Combate à Fome, 2010a).

O Bolsa Família é executado pelos municípios e cabe a

eles realizarem o cadastramento das famílias, através do

CadÚnico. A seleção das famílias que vão ingressar no

programa é feita pelo Ministério do Desenvolvimento

Social e Combate a Fome (MDS), ver Almeida (2011).

O Bolsa Família (BF) é um programa de transferência

de renda com condicionalidades

1 que destina benefícios

monetário para famílias em situações de vulnerabilidade

social. O programa Bolsa Família oferece às famílias três

tipos de benefícios, são eles: básico, variável e variável

para jovem. O benefício básico é permitido às famílias

em situação de extrema pobreza. Os benefícios variável

e variável para jovem são destinados às famílias pobres e

extremamente pobres, contudo, famílias que apresentam

em sua composição gestante, nutrizes, crianças ou ado-

lescentes com até 15 anos de idade recebem o benefício

variável, enquanto que as famílias que tenham adoles-

centes entre 16 e 17 anos de idade recebem o benefício

chamado variável para jovem.

Nas eleições presidenciais em 2006, o ex-presidente

Luiz Inácio Lula da Silva, filiado ao PT, destacou-se pelo

seu desempenho eleitoral, principalmente nas regiões

mais pobres. O eleitorado de Lula havia sofrido altera-

ção, em 2006 os votos recebidos migraram para lugares

menos desenvolvidos e urbanizados (Canêdo-Pinheiro,

2009). Existem evidências que esta migração de votos

foi causada pelo programa de assistencialismo Bolsa Fa-

mília, ver Zucco (2008), Carraro et al. (2007) e Souza e

Cribari-Neto (2013).

A região do Nordeste é o segundo maior sítio elei-

toral no Brasil (Tribunal Superior Eleitoral, 2010b). No

ano de 2010, 22% do eleitorado nordestino era benefi-

ciado pelo Bolsa Família e mais da metade das famí-

lias beneficiadas pelo programa são da região Nordeste

totalizando 6.385.327 milhões de famílias beneficiadas

(Marques, 2013), importante citar que o Nordeste é a

região com maior gasto per capita com o programa Bolsa

Família. Estes fatores contribuíram para a escolha da

região Nordeste como unidade de observação do nosso

estudo.

A candidata Dilma Rousseff filiada ao Partido dos

Trabalhadores (PT) foi ministra de minas e energia em

2002, e ministra chefe da casa civil em 2005. Foi es-

colhida pelo PT para ser a candidata à presidência nas

eleições de 2010. Uma das principais propostas eleitorais

feita por Dilma na campanha das eleições de 2010 foi a

ampliação de programas sociais, dentre eles se destacam,

o Bolsa Família, Minha Casa Minha Vida e ProUni.

O resultado da eleição de 2010 na região Nordeste,

em favor a candidata Dilma foi muito bom, dado que

venceu em todos os Estados. Assim, seria crucial ana-

lisar o desempenho da candidata Dilma nessa região

do Brasil. Como em eleições passadas, também existem

As condicionalidades são em relação à saúde e à educação. No

tocante à saúde, as famílias devem participar de ações de acompa-

nhamento, cuidar da frequência escolar das crianças e adolescentes

e participar de ações de educação alimentar, saúde e do estado nu-

tricional dos filhos; com relação à educação, os responsáveis legais

devem matricular e acompanhar. Em caso de descumprimento destas

condicionalidades o benefício de toda família pode ser bloqueado ou

até cancelado, ver Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à

Fome (2004).

15 Almeida Junior e Souza: Bolsa Família nas eleições 2010

independentes é

`( β , γ ) =

n

t= 1

` t

( μ t

, φ t

),

em que

` t

( μ t

, φ t

) = log Γ( φ t

) − log Γ( μ t

φ t

)

− log Γ(( 1 − μ t) φ t) + ( μ t φ t − 1 ) log y t

  • {( 1 − μ t

) φ t

− 1 } log( 1 − y t

).

É possível utilizar testes assintóticos para fazer in-

ferência dos parâmetros desconhecidos. Considere, a

hipótese nula, H 0

: β = β

( 0 ) versus a hipótese alter-

nativa H 1 : β 6 = β

( 0 ) , em que, β = ( β 1 ,... , β m)

e

β

( 0 ) = ( β

( 0 )

1

,... , β

( 0 )

m )

para m < k. A estatística da

razão de verossimilhanças é:

w¯ 1

= 2 {l(

ˆ β , ˆ φ ) − l(

˜ β , ˜ φ )},

sendo l(

ˆ β ,

ˆ φ ) o logaritmo natural da função de veros-

similhança e l(

˜ β ,

˜ φ ) o estimador de máxima verossimi-

lhança restrito de ( β , φ ) obtido pela imposição da hi-

pótese nula. Sob condições gerais e de regularidade

e sob H 0

w¯ 1

D

χ

2

m

. Assim, o teste pode ser avaliado

usando os valores críticos aproximados da distribuição

χ

2

m

, em que m é a dimensão do espaço paramétrico sob

a hipótese nula.

2.1 Medidas de diagnóstico e adequabilidade

para modelos de regressão beta

Uma das etapas importante de qualquer ajuste no mo-

delo de regressão são as análises de diagnóstico e resí-

duo, com o objetivo de detectar pontos mal ajustados

ou aberrantes, bem como a existência de observações

extremas (outliers) que podem causar inconsistência no

resultado final do ajuste, e verificar possíveis afastamen-

tos das suposições sobre o modelo. As análises de resí-

duos pode basear-se nos resíduos ordinários ou em suas

padronizações. Para o modelo de regressão beta, Ferrari

e Cribari-Neto (2004) propuseram uma medida global

de qualidade de ajuste, o resíduo componente do desvio.

Espinheira et al. (2008b) propuseram dois novos tipos de

resíduos para regressão beta, são elas: os resíduos pon-

derados e os resíduos padronizados ponderados. Vale

salientar que esses dois tipos de resíduos possuem um

desempenho superior ao resíduo proposto por Ferrari e

Cribari-Neto (2004), especialmente no sentido de iden-

tificar observações influentes para as estimativas das

médias, ver Rocha e Simas (2011).

Para avaliar a qualidade global do ajuste de um mo-

delo de regressão geralmente utiliza-se o coeficiente de

determinação, R

2 , bastante utilizado nos modelos de

regressão linear. Ferrari e Cribari-Neto (2004) propuse-

ram uma medida global chamada de pseudo R

2 , que é

definida como o quadrado do coeficiente de correlação

entre η ˆ e g(y). Na evolução dos métodos de diagnóstico

uma etapa que se mostrou relevante foi a detecção de ob-

servações que exercem efeito desproporcional no ajuste.

Neste contexto, encontram-se a distância de Cook (Cook,

  1. e a alavancagem generalizada (Wei e Fung, 1998).

Na identificação de pontos que exercem influência

em modelos de regressão, uma ferramente chave é a

alavancagem. É medida pelos elementos h tt

da matriz

H que é conhecida como matriz de projeção ou matriz

chapéu e é usada para avaliar a importância individual

de cada observação no próprio valor ajustado. Nos mo-

delos lineares de regressão, é comum utilizar o elemento

htt como medida da influência da t-ésima observação

sobre os valores ajustados. Uma opção é verificar as

observações tais que htt ≥

3 k

n

, em que k é o número de

parâmetros e n é o número de observações, estes pontos

são conhecidos como pontos de alavancagem. A ala-

vancagem generalizada proposta por Wei e Fung (1998)

para modelos de regressão beta com dispersão variável

pode ser visto em Ferrari et al. (2011).

Um outro fator bastante importante para uma aná-

lise de resíduo é a detecção de pontos influentes, isto é,

observações que exercem um peso desproporcional nas

estimativas dos parâmetros do modelo. Uma ferramenta

a ser usada para quantificar o impacto dessas observa-

ções nas estimativas dos coeficientes de regressão é a

distância de Cook, ver Cook (1977). Este tipo de diag-

nóstico pode ser feito utilizando o método de influência

local, ver Cook (1968). A distância de Cook para o mo-

delo de regressão beta definido em (1) apresentada em

Espinheira et al. (2008a) é dada por

LDt =

h

tt

1 − h

tt

(r

pp

t

)

2 ,

em que r

pp

t

é o resíduo padronizado ponderado.

A distância de Cook será grande quando o t-ésimo

ponto fornecer um resíduo padronizado ponderado grande

ou quando htt for próximo de 1. Usualmente na prática

utiliza-se de ferramentas gráficas para detectar pontos

de influência. Uma forma comum de detectar estes

pontos é construindo um gráfico de LD t

versus os ín-

dices das observações, para detectar possíveis pontos

influentes.

2.2 Autocorrelação espacial: Índice de Mo-

ran

A autocorrelação espacial mede o quanto o valor obser-

vado de uma variável em uma região está relacionado

aos valores desta mesma variável nas localidades vizi-

nhas. A autocorrelação espacial está associada à ideia de

que valores observados em áreas geográficas adjacentes

Ciência e Natura, v. 37 n. 1, 2015, p. 12–22 16

se mostram mais parecidos ou diferentes do que o espe-

rado sob a hipótese de que a distribuição das variáveis

é invariante por permutação dos índices que localizam

as áreas no espaço, ver Assunção (2001). Neste contexto,

uma estatística padrão que costuma ser utilizada para

medir a associação espacial entre unidades de área é o

Índice de Moran (Moran, 1950). Considere que zt,... , zn

são as variáveis aleatórias medidas nas n áreas, o Índice

de Moran é obtido por:

I =

n (^) ∑ t 6 =j

w tj

(z t

− z¯)(z j

− z¯)

S 0 ∑

n

t= 1

(z t

− z¯)

2

,

em que z¯ é o valor médio do atributo na região de

estudo e S 0

é

n

t= 1

w tj

e w tj

são os elementos da matriz

quadrada, n x n, W. Essa matriz, denominada matriz

de proximidade espacial (matriz de vizinhanças), é uma

ferramenta essencial para descrever o arranjo espacial

dos dados. Os elementos w tj

(w tj

≥ 0 e wtt = 0) da

matriz W refletem a intensidade da interdependência

existente entre as regiões A t

e A j

, ou seja, representam

o peso ou o grau de proximidade espacial entre as áreas

A t

e A j

. A escolha dos elementos w tj

é arbitrária e pode

ser feita considerando-se vários critérios, neste artigo foi

utilizado o critério do vizinho mais próximo.

O Índice de Moran foi utilizado para verificar a cor-

relação entre os municípios da região Nordeste. O teste

de Moran realizado apresentou p-valor < 2,2 × 10

− 16 ,

então rejeita-se a hipótese nula de que os municípios

não são correlacionados espacialmente aos níveis de sig-

nificância usuais, logo identifica-se que existe correlação

espacial entre os municípios do Nordeste. A correlação

espacial existente nos dados é incorporada ao modelo de

regressão, através da adição de uma variável explicativa

que considera esta dependência espacial (Cribari-Neto

e Pereira, 2013). Assim, foi incorporado aos modelos

como covariáveis, a latitude e longitude dos municípios

da região Nordeste.

2.3 Aspectos computacionais

Para realizar as análises estatísticas, referentes a modela-

gem empírica via modelos de regressão beta e análises

descritivas, foi utilizado o software estatístico R, dispo-

nível no site http://www.r-project.org. O pacote uti-

lizado para modelagem de regressão beta no R foi o

betareg, veja Cribari-Neto e Zeleis (2010).

3 Descrição dos dados

Os dados referentes as covariáveis e a variável resposta

utilizadas nesta pesquisa, foram obtidos a partir do

Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Instituto Brasileiro

de Geografia e Estatística (IBGE), Atlas do Desenvol-

vimento Humano do Brasil (ADHB) e o Instituto de

Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA). Na Tabela 1, são

apresentadas as descrições da variável resposta (Y) e das

covariáveis que foram utilizadas.

Na Tabela 2 estão apresentadas algumas estatísticas

descritivas das variáveis contínuas usadas: mínimo, má-

ximo, primeiro quartil (Q 1/

), mediana, média e terceiro

quartil (Q 3/

). Estas estatísticas foram calculadas com

base nos municípios da região Nordeste do Brasil, com

exceção a Fernando de Noronha, distrito estatual de Per-

nambuco, pelo motivo de não participarem das eleições

e a cidade de Nazária (PI), por não fornecer informações

necessárias sobre as variáveis utilizadas. No total foram

1792 municípios avaliados.

Observa-se na Tabela 2 em relação a variável VOTOS

que o percentual mínimo de votos válidos que a candi-

data Dilma obteve nas eleições de 2010 na região Nor-

deste foi de 0,31 e o percentual máximo, 0,97. O percen-

tual médio de votos da presidente Dilma foi de 0,73 nos

municípios do Nordeste. Também pode ser visto que os

gastos per capita no ano de 2010 com o programa assis-

tencial Bolsa Família na região Nordeste variam entre

R$ 50,54 e R$ 482,80 por família. Apresentando um be-

nefício com valor médio de aproximadamente 183 reais

por família. O terceiro quartil da variável GASTO2010 é

201,4. Isto significa que em 75% dos municípios o valor

do benefício por família é igual ou menor a R$ 201,4.

Em 50% dos municípios do Nordeste o percentual

de analfabetismo é de até 35,52% (Tabela 2). O menor

percentual de analfabetos observado foi de aproximada-

mente 5% e o maior foi de 57%. Em relação ao percentual

de pobres na região Nordeste varia entre 9,84% e 78,23%.

O primeiro quartil da variável POBRES é 34,63, ou seja,

em 25% dos municípios apresentam um percentual de

pobres menor ou igual a 35%.

O percentual da população residente em áreas rurais

no Nordeste é em média de 45% (Tabela 2). O maior per-

centual de pessoas que residem na zona rural foi de 92%.

Também podemos notar que em 50% dos municípios é

de até 45% das pessoas vivem em áreas rurais.

Em relação a variável RENDA o valor médio da

renda per capita da população residente na região Nor-

deste é de aproximadamente R$ 276. Também foi ob-

servado que, a menor renda per capita registrada foi de

96,25 reais por habitante e o maior foi de 1.144 mil reais

por habitante.

O percentual mínimo de votos válidos que a candi-

data Dilma obteve nas eleições de 2010 na região Nor-

deste foi no município de Pilar, no Estado de Alagoas,

e a proporção máxima observada foi em Calumbi, no

Estado de Pernambuco. Vale salientar, que nas eleições

de 2010, a candidata Dilma venceu em todos os Estados

do Nordeste (ver Figura 1).

O menor gasto per capita em 2010 com Bolsa Família

Ciência e Natura, v. 37 n. 1, 2015, p. 12–22 18

Bolsa Família, que é uma das principais fontes de dis-

cussão sobre o resultado das eleições presidências em

Na seleção das covariáveis utilizadas para explicar

a variabilidade da percentual de votos válidos da atual

presidente Dilma Rousseff no segundo turno das eleições

presidências de 2010, foi utilizado o critério de seleção

de modelo AIC (Akaike’s information criterion), proposto

por Akaike (1974).

O modelo de regressão beta, pode admitir estrutura

de regressão para a parâmetro de precisão. Assim inici-

almente, é necessário verificar se a precisão é fixa, isto é,

se há ou não estrutura de regressão, para o parâmetro de

precisão φ. Neste contexto adicionalmente, foi realizado

o teste da razão de verossimilhanças sob um modelo

com precisão variável versus o modelo sem precisão va-

riável, isto é, testamos a hipótese de que a precisão é

fixa, H 0

: φ 1

= · · · = φ q. A partir do teste da razão

de verossimilhanças, a hipótese nula não foi aceita ao

níveis usuais de significância (Espinheira, 2007). Sendo

assim, além de modelar a média, existe a necessidade

de modelar um parâmetro de precisão.

A variável resposta Y, é o percentual de votos válidos

da candidata Dilma Rousseff no segundo turno das

eleições de 2010. As covariáveis selecionadas para o

modelo final foram POBRES, GASTO2010, PREF, LAT,

LONG, VOTOSLULA, PIB2010, RURAL, RENDA e

AN ALF. A Figura 2 apresenta o histograma e o box-

plot da variável resposta VOTOS e identifica-se que a

distribuição dessa variável é assimétrica. Neste contexto,

foi aplicado o modelo de regressão beta com precisão

variável.

O modelo selecionado é dado por:

cloglog( μ t

) = β 1

  • β 2

GASTO 2010 t

  • β 3

PREF t

  • β 4

POBRESt + β 5 LATt

  • β 6

LONG t

  • β 7

VOTOSLULA t

  • β 8

PIB (^2010) t + β 9

AN ALFt + β 10

RURALt,

log( φ t

) = γ 1

  • γ 2

RENDA t

,

para t = 1,... , 1792.

Os coeficientes estimados para o modelo selecionado

acima, está apresentado na Tabela 3. Das covariáveis

selecionadas para o modelo apenas a covariável LAT

não foi significativa, em que apresentou um p-valor de

0,40. Entretanto como a covariável LONG foi signifi-

cativa, então justifica-se o uso da covariável LAT no

modelo, pois não faz sentido utilizar apenas a longitude

do município.

É possível verificar que as covariáveis POBRES, GAS-

TO2010, PIB2010, e VOTOSLULA tiveram uma influên-

cia positiva em relação ao percentual de votos da presi-

dente Dilma Rousseff nas eleições de 2010. Isto é, quanto

maior for o gasto com o programa assistencial Bolsa Fa-

l

l

l

l

l l

l

l

votos

Figura 2: Histograma e box-plot do percentual de votos

válidos no segundo turno de Dilma Rousseff na eleição

de 2010.

mília, percentual de pobres, valor do PIB per capita,

percentual de votos de Lula em 2006 e a proporção de

pessoas que residem na zona rural, estes municípios

tendem a apresentar, em média, um maior percentual de

votos a favor de Dilma. Em contrapartida, as covariáveis

PREF, LAT, LONG e AN ALF exercem efeito negativo.

Em relação a estrutura de regressão para o parâmetro

de precisão ( φ ), é visto que à medida que a covariável

RENDA aumenta, a precisão também aumenta, isto é,

os municípios que apresentam maior renda per capita

tendem a apresentar respostas mais precisas. Importante

citar que, o pseudo-R

2 obtido no modelo selecionado foi

de 0,695.

Com o interesse de realizar uma análise de resíduo e

diagnóstico, existem algumas ferramentas gráficas que

podem auxiliar na detecção de possíveis afastamentos

das suposições feitas para o modelo de regressão. Entre

elas, na Figura 3 é apresentado o gráfico da probabili-

dade normal com envelopes simulados. Foi utilizado

o resíduo de pearson para o modelo selecionado, pode-

se ver na Figura 3 que os resíduos em geral, perma-

necem dentro dos limites de confiança dos envelopes

simulados, então designa-se que o modelo selecionado

aparenta fornecer uma boa representação dos dados.

Adicionalmente foi realizado o teste RESET proposto

por Ramsey (1969). A hipótese nula de que o modelo

estimado está bem especificado não foi rejeitada, em que

o p-valor do teste obtido foi de 0,70, acima dos níveis

usuais de significância. Portanto, o modelo estimado

está bem especificado.

19 Almeida Junior e Souza: Bolsa Família nas eleições 2010

Tabela 3: Coeficientes estimados para as estruturas de regressão para μ e φ , e seus respectivos p-valores.

Modelo para estrutura μ

Variáveis

ˆ β erro padrão p-valor

Intercepto −2,3151 0,0734 < 2 × 10

− 16

POBRES 0,0016 0,0007 0,

GASTO2010 0,0009 0,0002 < 2,65 × 10

− 07

PREF −0,0964 0,0165 < 5,05 × 10

− 09

LAT −0,0012 0,0014 0,

LONG −0,0107 0,0016 < 2,61 × 10

− 11

VOTOSLULA 0,0248 0,0005 < 2 × 10

− 16

PIB2010 0,0023 0,0011 0,

ANALF −0,0028 0,0008 0,

RURAL 0,0021 0,0003 < 9,76 × 10

− 13

Modelo para estrutura φ

Variável γ ˆ erro padrão p-valor

Intercepto 3,6597 0,1009 < 2 × 10

− 16

RENDA 0,0006 0,0003 0,

llllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll

llllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll

lllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll

llllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllll

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l

lll

l

ll

lllll

ll

ll

l

l

ll

lll

l

l

l l

Normal quantiles

Pearson residuals (absolute values)

Half−normal plot of residuals

Figura 3: Gráfico da probabilidade normal com envelo-

pes simulados (resíduo pearson).

Ainda neste contexto, temos na Figura 4 o gráfico

dos resíduos pearson versus os índices das observações.

Pode-se ver, que o modelo de regressão beta selecionado

aparenta estar bem ajustado, dado que apenas 4 resíduos

se encontram fora do intervalo de (−3, 3).

Na detecção de pontos influentes e de alavancagem,

foi considerado a distância de Cook e a alavancagem

generalizada. A Figura 5 apresenta os gráficos da dis-

tância de Cook e da alavancagem generalizada, respec-

tivamente. Nota-se que no gráfico das distâncias de

Cook e da alavancagem generalizada temos uma obser-

vação que destaca-se entre as demais, correspondente

ao município de São Francisco do Conde, no estado da

Bahia. É importante frisar que esse município é o que

possui o maior Produto Interno Bruto per capita entre

os municípios brasileiros. Segundo dados do Instituto

Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a arrecadação

municipal de impostos ligados à produção e refino de

petróleo pela refinaria RLAM, da Petrobras, é de cerca de

200.000.000 de reais por ano. Em 2006 o PIB per capita

era de 128,73, que em 2010 passou para 132,42. Assim,

foi ajustado o modelo sem essa observação e identifica-

se que a covariável PIB2010, deixou de ser significativa

para o modelo. Entretanto, os resultados apresentados

neste artigo são baseados nos 1792 municípios conforme

citado anteriormente (Seção 3).

Em 2010, foram gastos aproximadamente mais de 14

bilhões de reais com o programa Bolsa Família, no Brasil.

Vale salientar, que mais da metade desses gastos foram

aplicados na região Nordeste, em que foram gastos 7

de bilhões de reais, ver Ministério de Desenvolvimento

Social e Combate à Fome (2010b). No ano de 2006 o

gasto per capita com Bolsa Família era R$ 78,77 por

família, em 2010 esse valor era de R$ 142,84, ou seja,

a valor do gasto per capita com o programa na região

Nordeste em 2010 aumentou 64,07 reais, quando se é

comparado com o ano de 2006.

Para obter o impacto dos gastos com programas

assistenciais nas eleições presidenciais de 2010, na região

Nordeste, foi calculado os valores ajustados para cada

t = 1,... , 1792, foi definido a covariável GASTO 2010 =

0 , PREF = 1 para o cenário em que todos os municípios

são governados por prefeitos filiados ao PT, e PREF =

0, caso contrário. As demais covariáveis, iguais aos

seus respectivos valores em cada observação. Assim

obtemos μ t

, em que μ t

= 1 − exp(−exp( η t

)), depois

21 Almeida Junior e Souza: Bolsa Família nas eleições 2010

de pessoas residentes na zona rural e maior o Produto

Interno Bruto per capita do município, maior seria o

percentual de votos da presidente Dilma Rousseff em

Os municípios que têm um número mais elevado

de analfabetos com mais de 25 anos de idade e que

são governados por prefeitos do PT apresentaram uma

redução no percentual de votos da candidata Dilma em

  1. No que diz respeito a estrutura de regressão para

o parâmetro de precisão, foi visto que os municípios que

apresentam maior renda per capita tentem a apresentar

respostas mais precisas.

Por fim, foi calculado o impacto do gasto per capita

do programa Bolsa Família nas eleições presidenciais de

2010, considerando o cenário em que não houvessem

gastos com o Bolsa Família, se em todos os municípios

os prefeitos fossem filiados ao PT e mantendo as demais

covariáveis constantes, a votação da presidente Dilma te-

ria uma redução de aproximadamente 2.125 milhões de

votos na região Nordeste, que equivale a 11,6% de votos

a menos. Em contrapartida, se não houvesse gastos com

o Bolsa Família, se todos os prefeitos da região Nordeste

não fossem filiados ao PT e mantendo as demais covariá-

veis constantes, a votação da presidente Dilma teria uma

redução de aproximadamente 1.233 milhões de votos

nessa região nas eleições presidenciais de 2010, que equi-

vale a 6,7% de votos a menos. Em vista disso, o fato do

município ser administrado por um prefeito filiado ao

PT, não favoreceu a presidente Dilma nas eleições pelo

contrário, de certa forma prejudicou seu desempenho

na votação. Portanto, mesmo que não houvesse gasto

com Bolsa Família, a candidata Dilma venceria na região

Nordeste e seria eleita a Presidente da República, dado

que a diferença de votos válidos entre os candidatos

Dilma e José Serra foi de 10.754.127 votos.

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