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sobre a história da alimentação e sobretudo dos imigrantes, na cidade do Porto. ... influência destes na gastronomia portuguesa. Influência que se nota na ...
Tipologia: Exercícios
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Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação
Cleucy Ferreira Ayres GASTRONOMIA: CIRCULAÇÃO E INVENÇÃO DE GOSTOS E TRADIÇÕES
Dissertação apresentada à Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, para obtenção do Grau de Mestre em Educação e Formação de Adultos, realizada sob a orientação científica da Professora Doutora Margarida Maria Pereira dos Santos Louro de Felgueiras, da Universidade do Porto.
I
O presente trabalho é de natureza cultural e qualitativa, procurando analisar as trocas culturais entre Brasil e Portugal com base num processo investigativo e reflexivo, sobre a história da alimentação e sobretudo dos imigrantes, na cidade do Porto. Optámos por uma abordagem do quotidiano relacionada com pequenas alterações que se vão realizando ao nível do gosto alimentar e criando assim novas tradições. Como metodologia recolhemos informações especializadas em websites , folhetos, revistas e publicações, a partir da bibliografia proposta, com o objetivo de caracterizar os diversos temas relacionados com a pesquisa. No âmbito de coleta de dados sobre os produtos de origem brasileira, os custos, alterações na economia local em decorrência da diversidade e da procura de tais alimento fizemos levantamentos em supermercados e hipermercados da cidade do Porto. Recorremos a entrevistas a chefes de cozinha de diferentes restaurantes na cidade do Porto para conhecer as alterações que se estão a produzir ao nível da restauração na cidade. Analisámos as entrevistas realizadas segundo dois grandes grupos: um de cozinha tradicional portuguesa e outro de cozinha diversificada portuguesa, procurando identificar as mudanças ocorridas nas ementas sobre a influência de sabores estrangeiros. Diante dos resultados podemos concluir que os chefes de cozinha reconhecem que houve alterações do gosto dos clientes e também alterações nas formas de confeção e apresentação dos pratos, decorrentes das mudanças ocorridas na cidade do Porto. Verifica-se que as mudanças socioeconómicas e culturais interferem diretamente nas práticas alimentares, desde a preparação dos alimentos ao consumo. Entre essas transformações são indicadas o acesso a produtos importados, entre os quais alguns de origem ou usados na culinária brasileira, o afluxo de turistas e a necessidade de responder a novos gostos, os clientes quotidianos, que se tornaram mais preocupados com uma alimentação saudável e a midiatização da gastronomia e a presença de trabalhadores imigrantes na restauração, desde chefes a auxiliares de cozinha. Contudo a presença de trabalhadores imigrantes não parece ser muito valorizada no surgir de alterações culinárias. Este primeiro trabalho sobre as transformações de gostos evidencia a importância dos estudos culturais na compreensão de como a circulação de pessoas (turistas, migrantes) provoca alterações ao nível do quotidiano, que tendem a passar despercebidas.
III
Le travail présenté est de nature culturelle et qualitative, cherchant a analizer les échanges culturels entre le Brésil et le Portugal comme base d´un processus d’investigation et de réflexion sur l´histoire de l´alimentation ,et principalement celle des immigrants, dans la ville de Porto. Nous avons opté pour une approche de la vie quotidienne avec un abordage visant les petits changements qui se réalisent au niveau du goût alimentaire et créent de nouvelles traditions. Comme méthodologie, nous avons récolté des informations spécialisées dans des sites Web, feuillets, revues et autres publications, à partir de la bibliographie, proposée avec l'objectif de caractériser les différents sujets liés à notre recherche. Au niveau du prélèvement de données sur les produits d'origine brésilienne, les coûts et changements dans l'économie locale dûs a la diversité et a la recherche de tels aliments, nous avons étudié les supermarchés et les hypermarchés de la ville de Porto. Nous avons eu recours a des entretiens avec des chefs de cuisine de différents restaurants de la ville de Porto. Nous avons analysé les entretiens réalisés en tenant compte de deux grands groupes :un groupe de cuisine traditionnelle portugaise et un autre groupe de cuisine diversifiée portugaise , en recherchant identifier les changements qui ont lieu dans les menus sous l´´influence des saveurs étrangères. Face aux résultats , nous pouvons conclure que les chefs de cuisine reconnaissent que des altérations du gout des clients ont ainsi comme des altérations au niveau de la forme de fabrication et présentation des plats ont eu lieu comme résultat des changements dans la ville de Porto. Nous pouvons vérifier que les changements socio-économiques e culturels interférent directement dans les habitudes alimentaires et ceci depuis la préparation jusqu´á la consommation. Dans le cadre de ces transformations nous indiquons l´accès aux produits importés, parmi lesquels certains d´origine brésilienne ou utilisés dans la cuisine brésilienne ,l´afflux de touristes et la nécessité de réponse a de nouveaux gouts, les clients du quotidien devenus plus préoccupés par une alimentation saine et la médiatization de la gastronomie et la présence de travailleurs immigrés dans la restauration, du chef de cuisine á l´auxiliaire de cuisine. Cependant la présence des travailleurs immigrants ne semble pas très valorisée en ce qui concerne le surgissement d´altérations culinaires.
IV
Ce premier travail sur les transformations des goûts met en évidence l´ importance des études culturels pour mieux comprendre comment la circulation de personnes ( touristes, migrants ) provoque des altérations au niveau du quotidien, qui ont tendance a passer inaperçues. Leur analyse et reconnaissance peuvent s investi r dans des projets d´ éducation d´ adultes comme facilitateurs de la connaissance et partage de traditions et construction de citoyenneté. Ce que nous avons observé pretends donner un contribut dans la compréhension de la construction de l´univers des saveurs et as circulation entre les peuples.
Mots clé: Gastronomie, Cuisine, Immigration et Circulation des Saveurs, Traditions
VI
to understanding the construction of the universe of tastes and its circulation among peoples.
Key words: Gastronomy, cuisine, immigration and circulation of tastes, traditions
VII
A Deus, por me capacitar e me fortalecer nas horas mais difíceis de confronto com as minhas limitações. Aos meus filhos/a, Janaína Carla e Giordano Bruno, Judy Carolina, sem vocês a vida não teria sentido. Fica um exemplo que nunca é tarde para estudar e adquirir conhecimentos. Aos meus netos: Luís Felipe, João Victor e ao que vai chegar, pela felicidade que se espalhou ao entrar neste mundo, durante este difícil percurso. À minha mãe Maria, in memoriam. Minha mãe, foi o melhor assunto, o melhor curso que frequentei. Minha mãe é o melhor livro que li na minha vida: ela é a morfologia da vida, o formato de tudo que é vivo para mim. Ela me ensinou o tempo todo. Esse aprendizado não sai de mim - a oportunidade de SER. Não sabia ler nem escrever, mas desenhava com perfeição e maestria as diretrizes de um caminho, de um estar na vida com integridade e retidão. Minha primeira mestra na arte de amar, de generosidade, de dedicação e perseverança. Minha avó Sebastiana, in memoriam. Por ter abdicado de seus sonhos e mostrar para seus netos que sonhar seria possível, com honestidade e respeito pelas diferenças. Aos meus irmãos/as, Maria de Lourdes, Wellington, Rosa Maria, Regina Célia, Cleone, Adalberto, Maíza. Obrigada por dividirem comigo este sonho em apoio, em palavras e orações. Às minhas tias: Julieta por ter sempre acreditado em mim como ser humano, como mulher e mãe; tia Rosa Helena, in memoriam, que desde criança me ensinou o amor pelos livros, pela leitura, partindo do princípio que com a leitura atravessaremos qualquer barreira, seja do campo físico ou psicológico. Heliana Alves, por tuas orações, por em momentos de achar que não daria conta e queria desistir, com sua postura e aconselhamentos, me ajudaste a não desistir deste projeto, confiando de que tudo daria certo. Obrigada! Ao Bruno Wanderley, pelo empenho em acreditar que vale a pena, que a idade é um detalhe e senhora de todas as sabedorias. À Arianne e Érica por terem paciência e dedicação para comigo, nas muitas vezes que achava que não iria conseguir, por terem-me ensinado muito; já eram mestras na pedagogia do amor e da ternura. Obrigada!
X
ANEXO N.º2 - Transcrição da entrevista efetuada ao chefe de cozinha da cozinha do Mariz Take-Away - CT02 ................................................................................................................ 87 ANEXO N.º3 - Transcrição da entrevista efetuada a chefe de cozinha do Museu da Avó- CT03 ...................................................................................................................................... 91 ANEXO N.º4 - Transcrição da entrevista efetuada a chefe de cozinha da Casa Aleixo - CT ................................................................................................................................................ 97 ANEXO N.º5 - Transcrição da entrevista efetuada ao chefe de cozinha da Cervejaria Galiza - CT05 .................................................................................................................................... 103 ANEXO N.º6 - Transcrição da entrevista efetuada ao chefe de cozinha do Museu do Presunto - CT06 ................................................................................................................... 109 ANEXO N.º7 - Transcrição da entrevista efetuada ao chefe de cozinha da Alma Portuense I - CD01 .................................................................................................................................... 119 ANEXO N.º8 - Transcrição da entrevista efetuada ao chefe de cozinha da Alma Portuense II
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1.1. Justificação do tema escolhido
Após me formar em Pedagogia e exercer a profissão docente durante oito anos na alfabetização de adultos, educação infantil e coordenadora escolar no Brasil, vim para Portugal e não foi possível exercer a profissão na qual me formei. A partir daí, para minha sobrevivência como emigrante, passei a trabalhar na restauração especificamente na cozinha, como cozinheira onde trabalho até hoje, já lá vão onze anos. A escolha da gastronomia como tema do meu trabalho de dissertação tem por base a minha vivência simultânea como cozinheira e como emigrante. Da recordação de gostos, gestos e cheiros da infância e juventude surgiu a necessidade de refletir sobre as trocas gastronômicas, que a minha presença em Portugal ocasiona para mim e para com os que me relaciono quotidianamente. A profissão que abracei em Portugal permitiu-me unir os conhecimentos gastronômicos brasileiros e portugueses e inventar sabores. Sem o pretender, vejo-me a ser parte dessa construção de sabores e de trocas culturais, que criam as pontes mais sólidas do entendimento entre povos e culturas. Acresce ainda que tenho como objetivo ao regressar ao Brasil ser formadora de adultos na área da gastronomia, investindo a experiência adquirida como cozinheira, na formação de jovens cozinheiros. Como afirmaram Mhoney e Almeida Um formador de cozinheiros deve ter capacidade de ensinar, para além da habilidade operacional, ter competência docente, capaz de discorrer a respeito de cultura, história, contexto e experimentações referente ao alimento. Criar mecanismos para que como formador possa ajudar o aluno a ter capacidade para construir e produzir conhecimentos (2005: 26). A oportunidade de refletir sobre a minha própria experiência profissional com outro olhar, através das Ciências da Educação, permite de alguma forma “transformar o mundo ao mudar o olhar sobre ele, principalmente transformar o mundo com vista à participação nele, uma participação integrada e solidária.” (Freire, 2005: 43).
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1.2. Problemática dos gostos e tradições gastrônomicas
Conhecer as manhas e as manhãs O sabor das massas e das maçãs (Almir Sater)^1
O estudo que proponho tem como base um processo investigativo e reflexivo de âmbito cultural, sobre a alimentação de imigrantes, na cidade do Porto, numa trajetória de troca de saberes e de sabores, invenção de gostos e tradições, que estão na base dos hábitos sociais. Ao mesmo tempo nos traz à memória, um passado distante de saudade e vontade de partilhar diferentes formas de culinária, recriando assim, pratos com novos sabores. Nesta fusão gastronômica, que Rosa Belluzzo em Memórias e Sabor , descreve com propriedade: Reviver a variedade de sabores e aromas, significa valorizar a compreensão da história do quotidiano da família, é lembrar quem somos. Um exercício de auto afirmação em torno da mesa. Os sabores vão se espalhando em meio às idiossincrasias da história. (Herck & Belluzzo,1999:61). Para além das transferências financeiras, os migrantes efetuam para o país de origem transferências de comportamentos, saberes e saber fazer, trocas sociais e culturais, com impactos a diferentes níveis (Ramos, 2009: 63-102). Como Carlo Petrini em sua obra Slow Food (2009) deixou bastante claro, nunca haverá um sistema de transmissão dos sabores que substitua o método do conhecimento direto. Como ensina a ciência gastronômica, o exercício da própria sensorialidade, o provar, a degustação, o contato com produtores e com os chefes são a melhor maneira de aprender a interpretar a realidade. Para realizar esse aprendizado é necessário deslocar- se, encontrar pessoas, frequentar outros territórios e mesas, o que acontece precisamente com as populações migrantes. O autor deixa claro, que é fundamental a circulação de pessoas de uma parte ou outra do globo, sem distinção e sem restrições, para que se dê o crescimento cultural. O valor educacional é incomparável no mundo da produção do alimento se baseado em saberes tradicionais, onde o conhecimento se transmite de maneira direta, suportado pela demonstração empírica, pela experimentação, pelo
1 Almir Eduardo Melke Sater, Violeiro, compositor, cantor, instrumentista e ator brasileiro. Poesia Tocando em frente , 1992
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entre Portugal, Brasil e Costa Africana, colocando no mercado português produtos do Brasil como açúcar, aguardente, couros, café e arroz e comercializando escravos de África para o Brasil, o que terá estado na base da sua enorme riqueza. A manutenção desse comércio num momento em que aumentava a crítica e as pressões da Inglaterra ao esclavagismo terá originado o seu regresso a Portugal, alguns anos após a independência do Brasil. De regresso a Portugal fixou-se em Porto, teve uma participação política e económica ativa, tornando-se sócio e amigo íntimo do ministro Costa Cabral. Esteve presente em diversos negócios no Porto incluindo a Sociedade dos Contratos de Tabaco, Sabão e Pólvora, Companhia Confiança Nacional, Companhia das Obras Públicas, entre outras. (Graça & Felgueiras, 2009: 77-86). Morreu em 24 de Março de 1866, aos 84 anos, tendo deixado em testamento dinheiro para construção de 120 escolas primárias nos principais concelhos do país e para a construção do hospital de alienados Conde Ferreira, no Porto, que se tornou modelo nesta área clínica, além de alguns donativos, também no Brasil. A esse movimento migratório no interior do império seguiu-se a emigração para o Brasil no século XIX, já depois da independência. Essa emigração atingiu níveis crescentes, do período liberal português até ao início da Primeira Guerra Mundial. Os principais pontos de partida para o Brasil foram as ilhas da Madeira e dos Açores e a região Noroeste de Portugal. Este movimento de vai e vem gerou representações populares sobre o Brasil, como terra de oportunidades e sobre os que regressavam ricos, caricaturados nas obras de Camilo Castelo Branco como “o brasileiro”. Foram seguramente estes grupos de emigrantes oitocentistas os que marcaram as representações coletivas sobre Portugal e o Brasil nos dois lados do Atlântico. A emigração para o Brasil continuaria ao longo do século XIX e primeira metade do século XX, levando os governos a tomar medidas para o impedir. São exemplo a obrigatoriedade de possuir o exame da 4ª classe ( Idem : 77-86). Ao longo dos séculos o Brasil recebeu milhões de portugueses, mas a partir dos anos 60 do século XX foi a vez de milhares de imigrantes brasileiros afluírem a Portugal. A emigração para Portugal pode ser dividida em duas fases: antes e depois de
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informáticos e outros profissionais destacados e altamente qualificados. A comunidade brasileira desfrutava de alguma importância na sociedade Portuguesa. Na segunda fase, O número de brasileiros ilegais não parou de aumentar, atingiu tais proporções que o governo português e o governo brasileiro, acabariam por chegar a um acordo para a sua regularização. O acordo firmado a 11 de julho de 2003 previa a legalização de 30 mil imigrantes que não estavam documentados. A verdade é que em 2004 pouco mais de 6 mil viram a sua situação regularizada. Neste ano calculava-se que vivessem em Portugal mais de 100 mil imigrantes brasileiros, um terço dos quais legalizados. Em 2004, a 7 de setembro, em Brasília, o chefe do governo português promete facilitar a legalização de 14 mil novos imigrantes brasileiros. A verdade é que o número de ilegais não parou de crescer. Calcula-se, em 2006, cerca de um quarto dos imigrantes que vem para a Europa, se dirijam para Portugal. Em finais dos anos 80 ocorre a célebre polémica sobre o exercício de atividade dos dentistas brasileiros. O elevado número foi sentido como uma ameaça pelos dentistas portugueses, o que exigiu um acordo entre Portugal e o Brasil. No final da polémica a população ficou a ganhar numa área importante da saúde pública.^2
No ano em que Portugal comemorou 500 anos de chegada ao Brasil, os brasileiros iniciavam uma vasta emigração para Europa, principalmente para Portugal. O número de imigrantes legalizados, em 1999 atingia os 20851, mas a maioria eram clandestinos, com situação irregular, principalmente na construção civil e na restauração. Segundo o estudo publicado pelo Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural Imagens recíprocas entre imigrantes e autóctones , O comissário dos Direitos Humanos Europeu Gil Robles, em seu relatório da visita a Portugal, em Maio de (2003), referiu que:
o aumento do número de estrangeiros em Portugal, seja da Europa de Leste, seja dos países de língua portuguesa foi absorvido sem crescimento de tensões sociais ou raciais. Isto é seguramente um testemunho da abertura geral e da tolerância da sociedade portuguesa e um exemplo para outros países da Europa. (Gil- Robles, 2003: 21.) Através deste estudo acima referido, foi possível verificar que 4 em cada 10 portugueses consideram os imigrantes muito diferentes nos seus “ usos e costumes” e na forma como educam as suas crianças. Esta perceção da diferença leva muitos a ter uma
2 Cf. http://lusotopia.no.sapo.pt/indexBREmigPort.html
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vários continentes, pertencentes a várias raças e etnias, são portadores das mais diversas culturas, professam diferentes convicções religiosas, falam uma vasta pluralidade de línguas. De fenômeno episódico, quase impercetível, a imigração passou a fluxo notório e marcante da nossa vivência colectiva dotando a sociedade portuguesa de uma multiculturalidade que não conhecíamos no passado. (Cruz, 2003:15-16 apud SEF, 2014). É esta realidade da presença massiva de brasileiros e brasileiras a trabalhar na restauração em Portugal, da qual faço parte, que nos levou a procurar conhecer a influência destes na gastronomia portuguesa. Influência que se nota na linguagem, na procura de alguns pratos, bebidas e produtos alimentares no contexto português. Nas palavras de Margarida Felgueiras^5 o emigrante leva consigo mais do que uma bagagem de sonhos e medos; transporta uma cultura que o constituiu como pessoa na sua forma de ver o mundo, de se exprimir, de se relacionar, de se alimentar, vestir, habitar. Gestos e formas que se traduzem em conteúdos materiais e simbólicos concretos, em que a gastronomia é um deles.
1.3. Objetivos do estudo
A festa culinária, une os homens, relembra histórias, ativa memórias, traz ancestrais, santos, deuses, mitos, todos nas mesmas comidas, nos mesmos atos de comensabilidade, de marcar datas, ciclos e eventos que identificam sociedades, e por isso são autorais, próprios, singulares de um povo, de uma região, de uma civilização, de indivíduos…tendo sempre na comida o elo fundamental que identifica e reconhece. ( Lody, 2007:23)
Segundo Santos em A comida como lugar de história (2011:103): “Comer é mais que ingerir um alimento, significa também as relações sociais e culturais que estão envolvidas no ato.” A cultura alimentar está diretamente ligada à existência da pessoa na sociedade. A partir da circulação e fixação de pessoas imigradas na cidade do Porto procura-se mostrar como se repercutiu e consolidou no conceito de gastronomia essa troca de saberes e sabores entre portugueses e brasileiros. Serão abordados as alterações verificadas na oferta gastronômica e de produtos alimentares na cidade do Porto pela presença de emigrantes brasileiros/as. Procuramos conhecer como a circulação de pessoas coloca em
5 Ideias expostas pela Prof.ª Doutora Margarida Felgueiras nas aulas de Educação e Herança Cultural.
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confronto tradições, gostos, memórias pessoais e culturais. A presença de uma forte imigração brasileira na cidade do Porto a partir de 2000, trouxe para a restauração um número considerável de trabalhadores/as. De igual modo, desde 2010 há uma presença significativa de estudantes brasileiros/as na cidade. De que modo essa presença tem influenciado a oferta de novos produtos alimentares de origem brasileira? Até que ponto a presença de cozinheiros/as e auxiliares de cozinha na restauração na cidade do Porto (restaurantes, padarias, confeitarias, hotéis) tem contribuído para uma mescla de sabores, de gostos e de invenção de novos pratos, novas “tradições” gastronômicas? Estas são algumas das nossas interrogações, que guiam este estudo. A circulação de pessoas traz de forma consciente ou subconsciente uma herança cultural que se corporiza quer na linguagem, quer na forma de estar e de olhar o mundo. Nos gestos mais simples do quotidiano, desde o que consumimos numa simples ida ao supermercado ao ato de confecionar os alimentos ou decorar a casa, estão presentes escolhas conscientes mas também “hábitos” culturais, por vezes ancestrais. Lembramos dias festivos, cozinhamos pratos que recordamos de infância, que mães ou avós nos ensinavam. Há toda uma tradição cultural de gestos e de gostos que transportamos connosco e que nos leva a ter saudades de pratos, de paladares. E com estes fluxos de imigração quais os impactos que essas tradições tiveram na alimentação? Na obra de Michel de Certeau, A Invenção do Cotidiano , Luce Giard afirma que “os hábitos alimentares constituem um domínio em que a tradição e a inovação têm a mesma importância, em que o presente e o passado se entrelaçam para satisfazer a necessidade do momento, trazer a alegria de um instante e convir às circunstâncias.” (Giard, 2005: 212).
Definimos como objetivos principais deste trabalho:
1 - Identificar novos gostos e transformações das tradições alimentares na cidade do Porto fruto da imigração brasileira;
2 - Identificar que aprendizagens culinárias adquirem os/as cozinheiros/as no contexto de trabalho quando estão presentes os imigrantes;
3 - Conhecer o consumo de produtos gastronômicos com origem no Brasil.
4 – Que impacto teve sobre a economia local.