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como elaborar um questionario
Tipologia: Notas de estudo
1 / 19
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Planejamento
de Pesquisa para as Ciências Sociais
UnB/ Instituto de Psicologia/Laboratório de Psicologia Ambiental
ARTMUT
ÜNTHER
O autor é professor titular no Departamento de Psicologia Social e do Trabalho,Instituto
de
Psicologia,
Universidade
de
Brasília.
para
contato:
[email protected] Ref:
D:\Publications\Serie PPCS\01questionario\01Questionario.wpd // 2004 II 28 21: Uma versão anterior deste texto foi publicado como capítulo do livro editadopor L. Pasquali, (1999).
Instrumentos psicológicos: manual prático de elaboração
. Brasília,
DF: UnB, LabPAM/IBAPP.
Como citar este texto:
Günther, H. (2003).
Como Elaborar um Questionário
(Série: Planejamento de
Pesquisa nas Ciências Sociais, Nº 01). Brasília, DF: UnB, Laboratório dePsicologia Ambiental.
Como Elaborar um Questionário
1
1 Vide nota de rodapé 5. São três os caminhos principais para compreender o comportamento humanono contexto das ciências sociais empíricas: (1) observar o comportamento queocorre naturalmente no âmbito real; (2) criar situações artificiais e observar ocomportamento ante tarefas definidas para essas situações; (3) perguntar àspessoas sobre o que fazem (fizeram) e pensam (pensaram). Cada uma das trêsfamílias Hartmut Günther ([email protected])
de
técnicas
para
conduzir
estudos
empíricos
observação,
experimento e
survey
— apresenta vantagens e desvantagens distintas (Kish,
1987). Tais vantagens estão ligadas à qualidade e à utilização dos dados obtidos,a serem consideradas pelo pesquisador quando escolher a mais apropriada paraseu objetivo de pesquisa. Não obstante as variações dentro de cada uma destastrês grandes áreas, podemos afirmar que o ponto forte da observação é orealismo
da
situação
estudada;
que
o^
experimento
possibilita
tanto
a
randomização de características das pessoas estudadas quanto inferênciascausais; e que o levantamento de dados por amostragem, ou
survey
, assegura
melhor representatividade e permite generalização para uma população maisampla.
O presente capítulo trata da elaboração de um questionário, instrumento principal para o levantamento de dados por amostragem. Fink & Kosecoff(1985) definem
survey
, termo inglês geralmente traduzido como levantamento de
dados, como “método para coletar informação de pessoas acerca de suas idéias,sentimentos, planos, crenças, bem como origem social, educacional e financeira”(p. 13). Importante apontar que ‘levantamento de dados’ traduz, apenas, o termo survey
. Como dados também são levantados através de observações, de
experimentos, de busca em arquivos, além da interação pergunta—resposta, seráutilizado o termo
survey
neste capítulo. O segundo ponto a observar é que,
embora a qualificação ‘por amostragem’ seja necessária para que os resultadosde um
survey
possam ser generalizados para uma população maior, não
entraremos em detalhes sobre a questão, concentrando o capítulo na construçãode um questionário
O instrumento utilizado no
survey
, o questionário, pode ser definido como
“um conjunto de perguntas sobre um determinado tópico que não testa ahabilidade do respondente, mas mede sua opinião, seus interesses, aspectos depersonalidade e informação biográfica” (Yaremko, Harari, Harrison & Lynn,1986, p. 186). Observa-se que a maneira de apresentar o conjunto de perguntasnão faz parte da definição. O questionário pode ser administrado em interação
2
Como Elaborar um Questionário
UnB/IP/Laboratório de Psicologia Ambiental
pessoal – em forma de entrevista individual ou por telefone; e pode serauto-aplicável – após envio por correio ou em grupos. Nas definições de
survey
Trataremos do desenvolvimento de um instrumento para
survey
em cinco
Na elaboração de um questionário para um
survey
, deve-se partir da seguinte
reflexão: qual o objetivo da pesquisa em termos dos conceitos a serempesquisados e da população-alvo? Utilizando-se como ponto de partida asconsiderações de Schuman & Kalton (1985), sumariadas na Figura 1, verifica-seque os objetivos de uma pesquisa levam necessariamente à relação conceito/item
e^
à^
relação
população-alvo/amostra.
Os
dois
binômios
são
correspondentes: item e amostra constituem a parte prática dos termos abstratosconceito e população, respectivamente. No desenvolvimento precisam sertratados paralelamente, i.é, ao determinar os itens em função dos conceitossubjacentes há que se levar em conta o binômio população-alvo/amostra, damesma maneira que a determinação da amostra a partir de uma população-alvoexige consideração do binômio conceito/item.
Imaginemos uma pesquisa tipo
survey
com o objetivo de conhecer opções de
lazer (conceito) entre jovens (população-alvo) de uma cidade. Lembramos,inicialmente, que os objetivos podem ser muito diferentes. Por exemplo: (a)avaliar as opções existentes (esporte, teatros, cinema, bares, clubes, etc.); (b)levantar a necessidade de opções novas e/ou adicionais; ou (c) estudar, entre osjovens, o bem-estar psicológico relacionado às opções de lazer disponíveis.
Como Elaborar um Questionário
5
influencia o planejamento da administração do instrumento, bem como acodificação das respostas, seu processamento e, eventualmente, as possíveisanálises. Considerem-se os exemplos seguintes. Hartmut Günther ([email protected])
Uma pesquisa que visa determinar a satisfação com a disponibilidade de opções básicas de lazer como quadra de esporte, clubes, teatros, pode ter comopopulação-alvo ‘jovens com telefone em casa’. Caso o pesquisador tenha àdisposição recursos para contratar entrevistadores, treiná-los e instalar dez linhastelefônicas e microcomputadores para registro das respostas no ato da entrevista,será possível levantar dados junto a um grande número de pessoas dentro depouco tempo.
Quando se pretende explorar conceitos como clima social, confiança mútua e solidariedade entre moradores de um bairro periférico, idealizando comopopulação-alvo jovens desconfiados, é exigido outro tipo de instrumento, outramaneira de aplicação e administração, resultando em método de codificação,processamento e análise diferentes.
Em suma, embora este capítulo trate da construção do questionário para survey
s de maneira geral e faça considerações sobre sua aplicação, o leitor deve
Diante do fato de que o respondente de um
survey
gasta seu tempo e faz algum
esforço mental, uma reflexão básica deve ser: quem deseja algo de quem numadeterminada pesquisa? A disposição do respondente em revelar algo sobre simesmo, permitindo ao pesquisador obter os dados desejados, varia conformea situação. Mencionem-se alguns exemplos: confessionário (padre — fiel),interrogatório
(policial
suspeito),
declaração
de
renda
(receita
contribuinte), seleção e concurso (comissão de admissão — candidato), prova(professor
aluno),
aconselhamento
(psicólogo
cliente
voluntário),
6
Como Elaborar um Questionário
3 Vide, também, Günther, Brito & Silva (1989) para uma discussão mais ampla deste assunto.
UnB/IP/Laboratório de Psicologia Ambiental
manicômio (psiquiatra — paciente), procura de emprego (funcionário de RH —candidato), pesquisa de opinião e marketing (firma de pesquisa, podendo ou nãooferecer brindes — respondente), pesquisa social acadêmica (pesquisador —‘sujeito’).
A este trabalho interessam os dois últimos exemplos, caracterizados pelo fato de que o pesquisador não tem poder sobre o respondente e precisa convencê-lode que vale a pena participar da pesquisa. A seguir consideramos alguns aspectosdo contexto social e cultural desta interação pergunta-resposta: (a) o fundocultural, (b) o background do pesquisador, (c) o contexto da pesquisa e (d) obackground do respondente (Pareek & Rao, 1980, p. 154)
ACKGROUND
ULTURAL
Até onde se aceita ser indagado por um estranho acerca de assuntos pessoais?Quais assuntos são considerados ‘públicos’? Quais são ‘privados’? As vertentessão nível de reticência e cortesia (senso de obrigação de agradar o outro) e,finalmente, levar tal interação a sério, fornecendo respostas autênticas. B
ACKGROUND DO
ESQUISADOR
Nesta dimensão entram as considerações: imagem e afiliação do pesquisador,inclusive a imagem da organização à qual o pesquisador é afiliado; a distânciasocial e cultural pesquisador/organização e respondente; relevância do assuntopara o respondente; viés do pesquisador/organização. C
ONTEXTO DA
ESQUISA
Além do ambiente físico e social no qual a pesquisa seria conduzida (p. ex., nacasa do respondente, num local público como shopping, no local de trabalho dopesquisador ou do respondente),
relevância e sensitividade temática terão
notável influência sobre a disposição do respondente de participar da pesquisa.Acrescenta-se relevância cultural e aspectos de desejabilidade do tema (i.é àépoca de Natal será difícil realizar uma pesquisa autêntica sobre a desejabilidadeem dar esmolas a crianças pobres). O potencial do instrumento de aprofundar,com tamanho e estrutura adequados, é importante para a consecução de dadosválidos.
Como Elaborar um Questionário
7
B Hartmut Günther ([email protected])
ACKGROUND DO
ESPONDENTE
No que diz respeito às características do respondente, há que considerarinicialmente a distância entre opinião pública e particular. Estamos interessadosna opinião do respondente, não na opinião de outros. Relacionada a este aspectoencontra-se a situação do respondente que se considera capaz de opinar sobrequalquer assunto. Embora uma experiência anterior como participante empesquisa possa ser desejável, a experiência não é recomendável quando sepesquisa um mesmo assunto; quando a participação for recente, não se devetentar pesquisar o respondente se ele se mostrar desinteressado.
Ao
desenvolver
o^
instrumento,
convém
lembrar
essas
dimensões
Consideramos, inicialmente, as razões que levam uma pessoa a responder a uminstrumento de pesquisa. Falando de
survey
via correio, Dillman (1978) afirma
que “o processo de mandar um questionário a respondentes em potencial,conseguir que completem e devolvam o questionário de maneira honesta podeser visto como caso especial de ‘troca social’ ” (p. 12). Aplicando a teoria detroca social a
survey
, Dillman chega à seguinte conclusão, “Assim, há três coisas
que precisam ser feitas para maximizar a resposta a
survey
: minimize o custo para
o respondente, maximize as recompensas para fazê-lo e estabeleça confiança deque a recompensa será concedida” (p. 12). Traduzida em detalhes operacionais,o autor aponta as ações que um pesquisador poderia fazer num
survey
Recompensar o respondente: a) demonstrando consideração; b) oferecendoapreciação verbal usando uma abordagem consultiva; c) apoiando seusvalores; d) oferecendo recompensas concretas; e) tornando o instrumentointeressante; 2
Reduzir o custo de responder: a) fazendo com que a tarefa pareça breve; b)reduzindo esforços físico e mental requeridos; c) eliminando a possibilidade
8
Como Elaborar um Questionário
UnB/IP/Laboratório de Psicologia Ambiental
de embaraços; d) eliminando qualquer implicação de subordinação; e)eliminando qualquer custo financeiro imediato; 3
Estabelecer confiança: a) oferecendo um sinal de apreciação antecipadamente;b)
identificando-se
com
uma
instituição
conhecida
e^
legitimada;
c)
aproveitando outros relacionamentos de troca (Dillman, 1978, p. 18). Consideramos que as recomendações se aplicam a qualquer tipo de
survey
, não
apenas
aos
enviados
por
correio.
Pode-se
observar
a^
estrutura
de
um
instrumento de
survey
de maneira mais ampla. Numa afirmação clássica, Bingham
e Moore (1934) definem entrevista como “conversa com um objetivo”. Damesma maneira que qualquer interação social consiste em um cumprimento, nainteração em si e em uma despedida, o instrumento que estrutura a interaçãoentre pesquisador e respondente num
survey
deve refletir as três fases. No
cumprimento — a introdução — reconhece-se o outro e estabelece-se o nívelde confiança apropriado e necessário. Segue-se a transação social em si, ainteração pergunta—resposta. Na despedida reforça-se qualquer sinalização debenefícios (futuros) já demonstrada. Estes segmentos correspondem, de maneirageral, aos pontos 3, 2 e 1 de Dillman, respectivamente. INTRODUÇÃO
STABELECER
ONFIANÇA
A primeira tarefa é estabelecer contato com o respondente em potencial eassegurar
sua
cooperação.
Para
estabelecer
confiança,
o^
pesquisador/
entrevistador precisa apresentar-se e indicar com e para quem trabalha. A seguir,precisa capturar o interesse do respondente pelo tema, por quê o tema éimportante, especialmente para o respondente. Nada melhor para expressarapreciação do que ressaltar o quanto opiniões e experiências do respondente sãoimportantes.
Do ponto de vista prático, o primeiro passo neste processo é uma boa apresentação do instrumento e/ou da pessoa que o administra. Caso oquestionário seja remetido pelo correio, irá acompanhado de uma carta deapresentação da qual constará a informação sobre quem está “por trás dapesquisa e para quê serve”. Em se tratando de entrevista, o entrevistador podeexplicar quem ele é, para quem trabalha, identificar-se (p. ex., com crachá) ouentregar alguma carta ao candidato a respondente. Como os primeirosmomentos decidem sobre a disposição do respondente em cooperar, é aí quequalidade e quantidade de informação sobre a pesquisa precisam se concentrar.
Como Elaborar um Questionário
11
ouvido. Por esta razão, não se deve fazer promessas irreais como “Suaparticipação nesta pesquisa é importante, uma vez que suas respostas resultarãona melhoria da sua vida”. A afirmação é irresponsável e anti-ética, além de serpercebida como engodo pelo respondente, minando a credibilidade daspesquisas. Hartmut Günther ([email protected])
Comunicar resultados e/ou facilitar o acesso a eles é forma importante de recompensar
os
respondentes.
Se
a^
‘conversa
com
um
objetivo’
foi
suficientemente interessante para que o participante mantivesse o nível deatenção, os resultados — apresentados em linguagem não acadêmica — tambémserão. Além do mais, na hipótese de os resultados provocarem reflexão ouconscientização entre os respondentes sobre o tema da pesquisa, os resultadosconterão uma semente para possível melhoria da vida dos respondentes, numadada temática. R
ECOMPENSAS E
NCENTIVOS
INANCEIROS
Por serem mais concretos, incentivos/recompensas financeiras e brindesmerecem maior reflexão. Aplica-se a estes, mais explicitamente do que aosdemais incentivos, a norma de ética 6.14(b) da
American Psychological Association
“Psicólogos
não
oferecem
incentivos
financeiros
excessivos
ou
impróprios ou outros incentivos para obter participantes para pesquisa,especialmente quando isto possa obrigar participação” (APA, 1992, p. 1609).Esclarecendo,
a^
questão
não
é^
‘se’
mas
‘quanto’
é^
possível
pagar
aos
participantes de uma pesquisa.
Embora do ponto de vista prático o problema seja muitas vezes resolvido pela limitação de recursos do pesquisador, vale lembrar que quanto maior adistância social e/ou financeira entre pesquisador e respondente, maior apossibilidade de criar dependência no incentivo a ponto de o respondente serprivado do direito de suspender sua participação a qualquer momento e dizer(ou fazer) o que julga necessário para continuar na pesquisa (não por acaso seutiliza a palavra obrigado).
Considerando a norma de ética 6.06(d) “psicólogos tomam medidas razoáveis para implementar proteções apropriadas dos direitos e do bem-estar dosparticipantes humanos...” (APA, 1992, p. 1608), parece razoável tentar oferecerrecompensa no caso do respondente perder uma renda por causa da suaparticipação na pesquisa, como é o caso de pessoas que trabalham por contaprópria, cujo tempo significa dinheiro, sejam profissionais liberais ou crianças
12
Como Elaborar um Questionário
UnB/IP/Laboratório de Psicologia Ambiental
de rua (Günther & al., 1989). Em suma, o pesquisador tem de contrabalançarque o respondente não deve perder recursos e assegurar que a compensação nãoseja
excessivamente
generosa
ou
desproporcional,
de
modo
a^
causar
‘dependência’ que possa ser explorada. A questão se apresenta justamente comos socialmente mais fracos (p. ex. crianças, idosos e/ou pobres) ou dependentes(crianças, estudantes ou idosos), visto verificar-se relativa ausência de estudoscom respondentes socialmente mais poderosos que o pesquisador.
Mangione (1998) enumera uma série de estudos que demonstram que a oferta de incentivos financeiros tende a aumentar a taxa de resposta em
survey
pelo
correio. Afirma que “o que é surpreendente nestes resultados de pesquisa nãoé o fato de que pagamento adiantado de recompensa tem algum impacto, masque não parece ser necessária uma grande recompensa para obter taxas deresposta maiores” (p. 409), mencionando-se valores de aproximadamente umdólar
norte-americano.
Conclui
sua
discussão
afirmando:
chave
da
efetividade parece estar em criar um clima no qual o pagamento antecipado sejavisto como algo para se sentir bem, em vez de uma técnica manipulativa queconstranja
o
respondente
a^
participar”
(p.
Aspecto
semelhante
é
acrescentado por Singer, van Hoewyk e Maher (1998), quando argumentam queo
pagamento
de
incentivos
a^
respondentes
não
cria,
necessariamente,
Como fazer a tarefa ser breve e fácil, ou pelo menos não torná-la aborrecedoraou aversiva? Uma estrutura bem pensada contribui significativamente parareduzir o esforço físico e/ou mental do respondente, além de assegurar quetodos os temas de interesse do pesquisador sejam tratados numa ordem quesugira uma ‘conversa com objetivo’, mantendo-se o interesse do respondente emcontinuar. Antes de mais nada, focalizar-se no objetivo da pesquisa, nasperguntas que o pesquisador quer responder por meio dela. Saber claramentepor que está incluindo cada item no instrumento. Saber o que as respostasimplicam para o andamento da pesquisa. No estudo piloto, haveria margem parauma ‘pescaria’, i.é, para incluir itens sobre os quais o pesquisador não temcerteza se vale perguntar. Mas o instrumento final deve conter apenas os itensque serão analisados.
Como Elaborar um Questionário
13
Hartmut Günther ([email protected])
Um primeiro princípio de estruturação
é direcionar-se do mais geral para o mais
específico; do menos delicado, menos pessoal, para o mais delicado, maispessoal. Esta ordem se aplica a conjuntos temáticos de itens e a um grupo deitens que tratam de uma temática em comum.
Aplicada à seqüência de conjuntos temáticos de itens, significa que o primeiro conjunto de itens/perguntas deve ser mais geral e menos sensível. Esta partepode até consistir, especialmente em entrevistas pessoais, de uma ‘conversapreliminar': Numa pesquisa hipotética entre jovens de um bairro sobre opçõesde lazer, realizada em forma de entrevista pessoal, a parte formal da coleta dedados poderia ser precedida de perguntas gerais sobre a situação do respondentena cidade e no bairro:As perguntas iniciais serviriam menos para obter informação do respondente emais para estabelecer um relacionamento de confiança entre respondente epesquisador. Deve-se atentar para que essas perguntas terão de ser repetidas demaneira formal adiante, dentro da entrevista, enquadrando-se as duas primeirasentre os itens do conjunto sócio-econômico e a terceira no conjunto de itenssobre satisfação com o bairro.
Após conseguir convencer um respondente em potencial a dar sua atenção pelo argumento de que a pesquisa trata de assunto de interesse do respondente,não convém começar a interação por perguntas burocráticas (nome, sexo, idade)e até delicadas (renda familiar). Em outras palavras, se o participante concordaem responder a pesquisa, porque considera a temática interessante, a primeirapergunta (e as seguintes) deve(m) tratar desta temática. Conquistado e mantidoo interesse do respondente, podem ser levantadas perguntas não tão obviamenterelacionadas à temática inicialmente sugerida. Lembre-se o contexto social dapesquisa social. Contrária à situação de concurso ou procura de emprego, naqual o respondente está na situação de pedinte, podendo ser sujeitado a qualquertipo de ficha a preencher, a pesquisa social representa uma situação na qual opesquisador é o pedinte. Como itens pessoais e sócio-econômicos podem terconteúdos sensíveis como idade, nível educacional (não é fácil admitir baixonível educacional de si ou da família), renda individual ou familiar, chegando a
Há quanto tempo mora nesta cidade?[Caso apropriado] Onde morava antes?Em geral, está satisfeito em morar aqui?
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Como Elaborar um Questionário
UnB/IP/Laboratório de Psicologia Ambiental
estilo de vida, preferências sexuais etc., os itens só terão respostas autênticasquando o participante desenvolver certo grau de confiança no responsável pelapesquisa (representado, no caso de interação pessoal, pelo entrevistador). Maisuma vez vale a reflexão: ‘É necessária esta pergunta; é necessário este item?’
Somente o último conjunto de itens trata das características sócio-econômicas do respondente. Um erro mais que comum é começar um instrumento com olevantamento
de
dados
pessoais,
às
vezes
até
chamando
seção
de
“Identificação”. Em se tratando de pesquisa, não convém identificar orespondente. Pelo contrário. Geralmente há que assegurar que a pesquisa nãovisa identificar indivíduos, mas que perguntas sócio-demográficas comoeducação, estado civil, sexo, idade, composição da família, renda, tempo demoradia, etc. servem apenas para caracterizar a amostra. Perguntar o nome noinício de uma entrevista pessoal pode facilitar trato interpessoal, mas mesmosem registrá-lo pode contradizer qualquer afirmação sobre o caráter confidencialda entrevista.
Dependendo do assunto, a regra ‘do geral para o específico’ pode ser aplicada à seqüência dos itens, dentro de um grupo que trata de uma temática emcomum. Ressalta-se que ao tratarem aspectos de um conjunto que constitui umaescala, os itens devem ser misturados para evitar que dois deles sejamapresentados um após o outro, ao se tratarem aspectos semelhantes.
Um segundo princípio de organização
do instrumento é que, na medida apropriada,
deve seguir uma ordem lógica. Usando uma hipotética pesquisa sobre moradia,pergunta-se inicialmente sobre a cidade, depois sobre o bairro, a rua e o prédioonde o respondente mora. Além de progredir do geral para o específico,aproxima-se do respondente. Uma pergunta sobre o relacionamento entremoradores da cidade é menos pessoal, menos ameaçadora do que sobre orelacionamento do respondente com seu vizinho. Fazendo perguntas maispessoais só após haver estabelecido bom nível de confiança, o entrevistadorcontribui para obter respostas autênticas. Assim, perguntas pessoais sobre orespondente constituiriam o último conjunto:
Concluindo, gostaríamos de fazer algumas perguntas para melhorcaracterizar os respondentes desta pesquisa ...
Como Elaborar um Questionário
17
Da mesma maneira que perguntas abertas servem no início da entrevista paraestabelecer um clima receptivo entre pesquisador e respondente, servem, no fimdo levantamento, para capturar justamente aquelas opiniões não cobertas pelositens fechados. Além de um ‘apanhado final’ ao concluir o questionário ou aentrevista, as perguntas abertas podem ser feitas no fim de um conjunto deperguntas, vez que servem para reforçar a essencial percepção do respondentede que o pesquisador tem interesse na opinião dele, respondente. Há quelembrar: perguntas abertas, especialmente em questionários auto-aplicáveis,exigem mais esforço do respondente; aumentando o custo de resposta diminuia probabilidade de completar e devolver o questionário. Hartmut Günther ([email protected])
Sumariando, enfatize-se que sempre convém realizar um estudo piloto para verificar se e como as perguntas estão sendo entendidas pela população-alvo.Esta regra não tem exceção. Quando se trata com nova população-alvo ou novoquestionário, deve-se realizar um novo pré-teste. C
ONSIDERAÇÕES
EMÁTICAS
No início do capítulo citamos a definição de Fink & Kosecoff (1985) de
survey
como um “método para coletar informação de pessoas acerca das suas idéias,sentimentos, planos, crenças, bem como origem social, educacional e financeira”(p. 13). Implícita nesta definição está a distinção entre itens que tratam deconhecimento, de atitudes e opiniões e de informação factual. Para cada uma dastrês categorias, podemos diferenciar itens mais ameaçadores.
Grau de ameaça de itens
. Fazem-se perguntas a determinadas pessoas na
expectativa de que as questões lhes digam respeito, que tenham conhecimentoe/ou atitudes e opiniões sobre o assunto. O potencial de uma pergunta afetarum respondente de maneira ameaçadora está implícito nesta constatação. Oassunto
pode
ser
não
muito
familiar;
talvez
seja
desagradável
admitir
desconhecimento. O tema pode ser sensível para o respondente; p. ex.,comportamentos considerados socialmente inaceitáveis. Ao desenvolver itensé necessário verificar até que ponto determinadas perguntas podem constituirameaça ao respondente. Caso existam razões para supor que o tema é sensível,precisa-se
verificar
maneiras
de
obter
a^
informação
sem
provocar
constrangimento. Problema maior do que perder um respondente irritado poruma pergunta é receber respostas não autênticas, pela razão de o respondenteter algo a esconder ou não saber como responder.
18
Como Elaborar um Questionário
UnB/IP/Laboratório de Psicologia Ambiental
Quanto
ao
constrangimento
provocado
por
falta
de
lembrança
de
comportamento, existem maneiras de ajudar o pesquisador a ‘ter sucesso’: fazerperguntas específicas ao invés de gerais, além de detalhar contextos temporaise/ou
espaciais.
Pode
ser
evitado
o^
constrangimento
devido
à^
falta
de
conhecimento, deixando claro que o conjunto de perguntas não constitui umteste e que é natural às pessoas não ter respostas para todos os itens. Implícitonesta afirmação está: deve-se fazer mais que uma pergunta para asseguraravaliação mais discriminada do nível de conhecimento do que seria possível comapenas uma ou duas.
Quanto a perguntas sobre comportamentos socialmente inaceitáveis ou até ilegais, não entraremos nas questões éticas ou jurídicas, mas lembramos que atradição não garante ao pesquisador proteção contra eventual obrigação derevelar suas fontes. Assim, o pesquisador deve lembrar-se da norma 1.14 daAPA “Psicólogos tomam medidas adequadas para evitar prejuízo para seuspacientes, clientes, participantes de pesquisa, estudantes ou outros com as quaistrabalham...” (APA, 1992, p. 1601).
Havendo decidido ser justificável fazer perguntas sensíveis, a regra básica é utilizar perguntas abertas - sugestão que implica em entrevista pessoal comomodo de interação com o respondente. Contribui para tornar uma perguntamenos ameaçadora e contextualizá-la de maneira que sua importância relativa naentrevista seja reduzida.
Menciona-se, adicionalmente, a técnica de resposta randômica pela qual é possível estimar a proporção de respondentes que mantêm atitudes oucomportamentos socialmente inaceitáveis, sem entretanto poder determinar seum determinado respondente assim se comporta. Para maiores detalhes destatécnica veja, por exemplo, Sudman & Bradburn (1982, cap. 3) ou Zdep, Rhodes,Schwarz & Kilkenny (1989).
Itens para avaliar conhecimento
. Embora não seja função da pesquisa social testar
habilidades ou conhecimentos no sentido escolar, sua verificação dentro de umapesquisa é importante. Perguntas de conhecimento importam como filtro antesde serem feitas perguntas sobre atitudes, evitando constrangimentos ao tratarassuntos que o respondente desconhece. Em pesquisas que fazem parte decampanhas publicitárias ou de introdução de novas técnicas (p. ex. cuidados dasaúde) é necessário verificar conhecimentos além de atitudes e práticas atuais.Para reduzir o nível de ameaça, pode-se iniciar a pergunta com frases como“você sabe por acaso...” ou “a propósito...”.
Como Elaborar um Questionário
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São necessários cuidados para evitar adivinhação por parte de respondentes quenão querem admitir falta de conhecimento. Fazendo mais que uma perguntareduz-se a possibilidade de acertar a resposta correta por acaso, especialmenteem se tratando de assuntos com perguntas que requerem sim ou não. Usandoitens de escolha múltipla, as alternativas precisam ser igualmente plausíveis. Épreferível usar perguntas abertas sobre conhecimento de assuntos numéricos (p.ex.. Qual a população do Brasil?). Hartmut Günther ([email protected])
Itens para aferir atitudes e opiniões. Em se elaborando itens para determinar atitudes, há tarefas iniciais. Precisa-se definir claramente o objeto de atitudes, i.é,sobre qual objeto se quer saber algo. Temos: a pessoa X ou as ações da pessoaX ou as filosofias da pessoa X — estas vertentes não são idênticas. É nesteponto que a introdução a um conjunto de itens mostra-se importante. Outroponto a cuidar é a vertente da atitude que está sendo medida: a afetiva, acognitiva ou a comportamental. A primeira vertente trata da avaliação de umobjeto de atitude: “Considero o atual playground um lugar seguro para ascrianças da vizinhança”. A segunda trata de conhecimentos - certos e errados -
Você se considera mais próximo(a) de que religião:
Catolicismo
... 1
Protestantismo
... 2
Que igreja?
______________
< seguem outras religiões existentes na população-alvo>
Você considera sua fé
Muito forte
... 1
Forte
... 2
Mais ou menos
... 3
Não tão forte
... 4
Fraca
... 5
No último mês, você freqüentou os cultos
Quase diariamente
... 1
Duas ou três vezes por semana
... 2
Uma vez por semana
... 3
Semana sim, semana não
... 4
Uma vez
... 5
Geralmente assiste às festas religiosas
... 6
20
Como Elaborar um Questionário
UnB/IP/Laboratório de Psicologia Ambiental
acerca de um objeto: “A caixa de areia do playground é bem protegida decachorros?” A terceira trata de ações passadas ou futuras diante de um objeto:“Durante os últimos 15 dias, usei o playground X vezes”. Como freqüentementenão existe alta correlação entre as três vertentes, deve-se averiguar as três ouaquela que é de interesse principal.
Para verificar a intensidade da atitude, existem dois caminhos fundamentais. Um consiste em fazer uma série de perguntas e, partindo da soma de respostasnuma determinada direção, inferir a intensidade da atitude. Em se tratando deatitudes religiosas ou políticas, a alternativa é fazer três perguntas, comoapresentadas na página anterior.
A primeira pergunta é mais factual, embora permita inferências inclusive cognitivas. A segunda é uma pergunta afetiva; a terceira, comportamental. Juntaspermitem uma caracterização religiosa do respondente.
Perguntas que contêm dois objetos de atitudes devem ser evitadas. Em vez de perguntar “Você prefere o parque da cidade, que tem campos de futebol, ouos clubes, que geralmente têm bons restaurantes?”, devem ser elaboradas nomínimo duas perguntas: “Você prefere o parque da cidade ou os clubes?”;“Entre as seguintes atividades, de qual você gosta mais como lazer num Duas perguntas unipolares
Em geral, tento evitar conflito com os outros:
Concordo plenamente
... 1
Concordo
... 2
Discordo
... 3
Discordo plenamente
... 4
< seguem algumas outras perguntas > Não levo desaforo para casa:
Concordo plenamente
... 1
Concordo
... 2
Discordo
... 3
Discordo plenamente
... 4
versus uma pergunta bipolar
Tento evitar
Não levo
conflitos com
.... 3 2 1 0 1 2 3....
desaforo para
os outros.
casa.
Como Elaborar um Questionário
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Hartmut Günther ([email protected])
Escala Nominal
. Neste tipo de escala utilizam-se números ou símbolos
somente para identificar pessoas, objetos ou categorias. Exemplos para asciências sociais seriam local de nascimento, sexo, estado civil ou atributos comocor de cabelo ou uso de aparelhos como óculos ou bengala. A forma deapresentar estes itens é a seguinte:
Apontamos para alguns aspectos deste item. Mesmo ao se preparar um instrumento para auto-aplicação, deve-se pensar em um diálogo com orespondente. Contrariamente a uma declaração de renda ou ficha de procura deemprego, convém estabelecer um bom relacionamento com o respondente. Afrase ‘Qual o estado civil de V.Sa?' soa melhor do que solicitar simplesmente‘Estado Civil'. Dependendo da população-alvo, um maior ou um menor númerode alternativas é apropriado: freqüentemente as alternativas ‘solteiro, casado,outro' são suficientes. O importante é que as opções (a) sejam mutuamenteexclusivas e (b) cubram todas as alternativas. Outra maneira de formularalternativas do estado civil é:
Qual o estado civil de V.Sa.?
Solteiro(a)
... 1
Casado(a)
... 2
Vivendo maritalmente
... 3
Desquitado(a)
... 4
Divorciado(a)
... 5
Separado(a)
... 6
Viúvo(a)
... 7
Outro
... 8
Nunca foi casado(a)
... 1
Sempre foi casado(a), i.é, casado(a) e nunca divorciado(a)
... 2
Divorciado(a)
... 3
Casado(a) novamente
... 4
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UnB/IP/Laboratório de Psicologia Ambiental
Dependendo do objetivo da pesquisa, o primeiro ou o segundo exemplo do item‘estado civil’ pode ser mais apropriado. Da mesma forma que a reação inicial doleitor ao segundo exemplo pode ser de estranheza, a maioria dos respondentesa um eventual uso deste item pode assim reagir. É um exemplo concreto dedistinção entre o conceito subjacente a ser analisado numa determinada pesquisa(i.é, as quatro categorias do segundo exemplo) e o que pode, do ponto de vistaprático e conceitualmente factível ser perguntado à maioria dos respondentes.
Escala Ordinal
. Numa escala ordinal, além de identificarem pessoas, objetos
ou categorias, números ou símbolos os ordenam numa dimensão subjacente.Exemplos para as ciências sociais seriam hierarquização de preferência ouimportância entre pessoas ou objetos, status social ou ordem de chegada.Alternativas nos itens de uma escala Likert são outro exemplo, mas serãotratadas separadamente. A forma de apresentar os itens é:A tarefa do respondente é escrever a ordem de importância de realização noespaço indicado. Para cada um dos quatro itens (posteriormente, quatrovariáveis) pode-se determinar uma distribuição de freqüência: quantas vezes‘campo de futebol’ foi primeira, segunda, terceira e quarta escolhida. A partirdisso infere-se sua importância. Igualmente, quais as distribuições para áreas deskate, campo de basquete e campo de vôlei? É possível sumariar os dadosindicando quantas vezes cada um dos itens foi mencionado como o maisimportante ou qual o valor mediano das menções de importância de cada umadas quatro alternativas. Concluindo: os valores modais e medianos podem sercalculados; a média, não.
Como você sabe, a Prefeitura está lançando um programa de opções deesporte
para
os
adolescentes
deste
bairro.
Entre
as
opções
que
apresento, indique qual deve ser realizada primeiro, qual a segunda, quala terceira e qual a quarta:
Número de ordem de importância
Campo de futebol
______
Área de skate
______
Campo de basquete
______
Campo de vólei
______
Outros, quais?
___________
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Escala Intervalar Hartmut Günther ([email protected])
. Numa escala intervalar, as características não somente podem
ser ordenadas conforme uma dimensão subjacente, mas os intervalos entre asalternativas têm tamanho conhecido e podem ser comparados. No caso dejulgamentos acerca de eventos pessoais ou sociais (p. ex. satisfação), determinaro tamanho dos intervalos é problemático. Exemplo clássico de uma escalaintervalar é a utilizada por Milgram (1974) para determinar o grau de obediênciaàs instruções dos participantes. Ostensivamente, o participante aplicava choqueselétricos que variavam entre 15 e 450 volts. O grau de obediência correspondiaà voltagem em que o participante se recusava a continuar aplicando maischoques,
i.é,
quanto
mais
baixa
a^
voltagem,
menos
obediente.
Mais
recentemente, Silva (1999) utilizou a adaptação de um velocímetro (vide Figura2) para o grau de concordância com afirmações numa escala de 0 a 100 porcento. Escala de Razão
. Exemplos de escalas de razão utilizadas nas ciências sociais são
salário ou tempo gasto com uma tarefa. A apresentação dos itens reverte aperguntas abertas: Considerando seu tempo livre e de recreação, solicitamos que indique:
V.Sa. é membro de algum clube esportivo?
Sim
Não
Caso sim,
-^
passa quanto tempo por semana nesseclube, em média?
_____ horas
-^
quanto gasta em atividades no clube, alémda mensalidade (em média/mês)?
R$ _____
Figura
2: Velocímetro com escala de 0 à 100
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UnB/IP/Laboratório de Psicologia Ambiental
Neste exemplo, a primeira resposta (sim ou não) representa uma mediçãonominal, enquanto as seguintes representam medições em escala de razão.
Escala
Likert
Esta
mensuração
é^
mais
utilizada
nas
ciências
sociais,
especialmente em levantamentos de atitudes, opiniões e avaliações. Nela pede-seao respondente que avalie um fenômeno numa escala de, geralmente, cincoalternativas: aplica-se totalmente, aplica-se, nem sim nem não, não se aplica,definitivamente não se aplica. As afirmações podem ser auto-referentes: “Euconsidero importante ter uma área de lazer perto de casa”. Ou hétero-referentes:“É importante para uma comunidade ter uma área de lazer”.Dependendo do tema subjacente, as alternativas podem, além da dimensão‘aplica-se’, seguir dimensões como: ‘bom — ruim’ ou ‘concordo — discordo’.Muitas vezes a dimensão utilizada é apenas uma conseqüência da reformulaçãodo estímulo/item. Avaliam-se objetos ou ações como bons ou ruins. A avaliaçãode objetos aplica-se ao respondente, ou concorda-se que objetos ou ações têmuma determinada característica: “As oportunidades de lazer na cidade são: boas... ruins”
vs
. “Existem oportunidades de lazer nesta cidade”: concordo ...
discordo. Convém formular as perguntas de um conjunto de itens de maneiraque seu conjunto possa ser respondido na mesma dimensão (veja Sommer,1991). Inicialmente gostaríamos de saber o que os adolescentes deste bairroacham sobre as opções de lazer oferecidas pela Prefeitura. Para cada opção,avalie:
(1) muito ruim, (2) ruim, (3) razoável, (4) bom ou (5) muito bom
.
Para isto, faça um círculo em volta do número que melhorrepresenta sua avaliação:Campo de futebol:
Muito ruim
... 1
Ruim
... 2
Razoável
... 3
Bom
... 4
Muito Bom
... 5
<seguem-se os demais itens>
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para fins descritivos, moda e mediana em lugar da média; e estatísticasparamétricas para fins inferenciais. Hartmut Günther ([email protected])
Do ponto de vista da análise estatística, medições em nível nominal freqüentemente podem ser convertidas em escalas intervalares. Quando existemapenas duas alternativas, codificadas como ‘0’ e ‘1’, não há necessidade deoperações adicionais. Exemplos são perguntas solicitando respostas como sim vs
. não, presente
vs
. ausente, ou sexo. Já itens oferecendo mais de duas
alternativas, p. ex. estado civil, região de nascimento, afiliação religiosa, podemser convertidos em uma série de alternativas binárias através do processo decodificação
dummy
, permitindo operações estatísticas reservadas a escalas
Até este ponto tratamos do desenvolvimento de um instrumento para
survey
como se fosse independente da maneira de aplicação, i.é, da interaçãopesquisador— respondente. Após considerações gerais sobre esta interação,trataremos separadamente de entrevistas pessoais, entrevistas por telefone,aplicação de questionários pelo telefone e via
Internet
PRESENTAÇÃO DOS
TENS
A apresentação dos itens de um
survey
pode ser conceitualizada como um
estímulo de que se espera alguma resposta, algum comportamento, que por suavez precisa ser de alguma maneira registrado para poder ser analisado. Destamaneira, há potencialmente três atores envolvidos direta ou indiretamente: quemadministra o instrumento, quem responde ao instrumento e quem transcreve ainformação registrada no instrumento para o processamento e a análise dosdados. Enquanto o objetivo da pesquisa é verificar e analisar variações naresposta, devem ser minimizadas a variabilidade no comportamento de quemresponde, a variabilidade atribuível a quem e/ou como se administra oinstrumento e a maneira da transcrição das respostas. Vantagens e desvantagensdas diferentes formas de aplicação de instrumentos de
survey
relacionam-se
diretamente ao poder de minimizar a variabilidade indesejada e ressaltar avariabilidade desejada. A Tabela 2 sumaria esses inter-relacionamentos.
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Como Elaborar um Questionário
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Antes de comentar os quatro modos de apresentar o instrumento de
survey
seguem-se algumas considerações.
Estimulação concorrente
. No caso do instrumento auto-aplicável, é impossível
controlar o ambiente onde o respondente preenche o questionário. Já numainteração pessoal pode-se controlar - até certo ponto - a estimulação concorrentepela escolha do local. Não se deve esquecer que o comportamento doentrevistador
pode
representar
uma
estimulação
concorrente:
imagina-se
manuseando uma prancha com o instrumento, lápis, três fotos - dentre as quaiso respondente deve escolher uma- mais o material usado, além daquele a serusado. Se o entrevistador não for bem treinado, correrá o risco de confundir orespondente antes de obter alguma informação válida. Escolhendo para aaplicação um local calmo, de acesso restrito, com uma boa mesa, reduzem-seinterferências indesejadas.
Pessoas envolvidas na administração de survey
. Quanto aos atores envolvidos na
administração de um instrumento de
survey
, ainda se considera o seguinte: o
primeiro ator, que apresenta o instrumento ao respondente no contexto deentrevistas, precisa ser bem treinado para assegurar que a estimulação seja a maissemelhante possível em todos os contatos com os respondentes. A opiniãoemitida
pelo
respondente
deve
representar
sua
reação
às
alternativas
apresentadas, não a quem as apresentou. Dentro de certos limites, isto pode atéser automatizado quando os itens são apresentados via computador, ougravados, no caso de entrevistas por telefone. Obviamente, quanto maispadronizada a apresentação dos estímulos, i.é, dos itens, mais se perde oelemento humano de uma interação, aspecto que leva em conta a situação e oestado de espírito da situação (vide Krosnick, 1999). A preocupação com umamaior padronização da apresentação dos itens acontece em levantamentos de
Aplicação do Estímulo
: Controle da
variabilidade na Aplicação do Instrumento
Baixo
Alto
Transcrição daResposta
:
Controle da variabilidadena transcrição dasrespostas ao instrumento
Baixo
Entrevista Pessoal
Questionário enviadovia correio ou aplicadoem grupo
Alto
Entrevista viaTelefone
Questionário enviadovia e-mail/internet.
: Formas de aplicação de instrumentos: vantagens e desvantagens
Como Elaborar um Questionário
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dados que: (a) se assemelham a testes, (b) solicitam informações mais objetivasou (c) coletam dados entre muitos respondentes que precisam ser apurados demaneira rápida. Hartmut Günther ([email protected])
Considerando o segundo ator (o respondente), a maneira de apresentar os estímulos, itens, deve corresponder às suas habilidades, sejam intelectuais (saberler) ou físicas (ver, ouvir, discriminar cheiro ou gosto). O que foi dito a respeitoda compreensão da linguagem acima estende-se ao uso de símbolos efotografias. O é entendido e interpretado como ‘concordância'? Aquela foto,caso escolhida pelo respondente como representando um escritório maisconfortável, permite a inferência de que o respondente é dinâmico?
Quanto ao modo de registrar as respostas de um
survey
, convém pensar, desde
o planejamento da pesquisa, no processamento e na análise dos dados.Enquanto respostas a perguntas abertas precisam ser decifradas, transcritas,codificadas, digitadas e verificadas quanto à consistência face às demais respostas(a proverbial mulher de 12 anos que relatou dois abortos e três gravidezes), ouso de um computador na apresentação dos itens e no registro das respostasfacilita a apuração e assegura maior fidedignidade aos dados.
Questionários
que
contêm
apenas
perguntas
objetivas
podem
ser
acompanhados de um cartão especial para registro das respostas, que por suavez pode ser lido mecanicamente. No caso da transcrição por alguém dos dadosregistrados numa folha de respostas, ou no próprio questionário, deve-se pensarnas capacidades de quem transcreve ou digita. Antes do instrumento serentregue ao digitador, deve ter sido ‘limpo' de tal maneira que não requirajulgamento adicional por parte dele (p. ex., o respondente marcou um 3 ou um4 naquele item).
layout
do questionário deve permitir orientação no que diz respeito à
seqüência da informação a ser transcrita. Se há texto como resposta a perguntasabertas, não somente deve ser legível, mas também claro. Outra questãorefere-se ao que deve ser transcrito: o texto todo? apenas uma parte? que parte?O
layout
e as instruções ao respondente devem facilitar a leitura das respostas
pelo digitador. No caso de itens de escolha múltipla, devem ser apresentadosnúmeros em vez de palavras ou letras e pedir que o respondente os circule emvez de marcar com X.
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Como Elaborar um Questionário
UnB/IP/Laboratório de Psicologia Ambiental
NTREVISTA
ESSOAL
Do ponto de vista da estandardização das perguntas e do potencial paratranscrever as respostas, a aplicação pessoal
de
instrumentos é a mais
problemática. Além de exigir treinamento para os aplicadores e para as pessoasque transcrevem as respostas (especialmente a perguntas abertas), é o métodomais demorado e mais caro. Sua vantagem é permitir acesso a informações maisdelicadas, à parte ser indispensável na fase inicial, estudo-piloto de qualquer tipode procedimento.
Em
instrumentos
auto-aplicáveis
pode-se
trabalhar
com
imagens
ou
apresentar várias alternativas a uma pergunta. No caso de entrevistas, tal uso émais complicado. Estímulos visuais podem ser preparados para apresentaçãorepetida a respondentes em entrevistas pessoais. Já no caso de entrevistas portelefone, as alternativas precisam ser curtas para que os respondentes nãotenham dificuldade de lembrá-las. Q
UESTIONÁRIO
UTO
ORREIO OU EM
RUPO
Do ponto de vista da padronização das perguntas, questionários auto-aplicáveisreduzem essa fonte da variabilidade. No que se refere à transcrição dasrespostas, depende da proporção de perguntas abertas. A desvantagem maiscitada de
survey
por correio é a taxa de resposta. Dillman (1972, 1978; Dillman,
Christenson, Carpenter & Brooks, 1974; Dillman & Frey, 1974) apresenta umasérie de procedimentos que se têm mostrado eficazes para assegurar uma taxade devolução acima de 50 por cento. Por outro lado, Krosnick (1999) citapesquisas mais recentes que sugerem que baixas taxas de resposta não significamnecessariamente baixo grau de representatividade, especialmente no caso deamostras probabilísticas (vide também Fraser-Robinson, 1991). E
NTREVISTA
ESSOAL VIA
ELEFONE
Do ponto de vista da padronização das perguntas e do potencial para transcreveras respostas, a entrevista por telefone - especialmente com apoio de computador- tem grande valor. Embora também precise do treinamento dos entrevistadores,reduz-se consideravelmente o uso de papel, visto que as perguntas sãoapresentadas na tela do computador para o entrevistador, que as lê para oentrevistado. A seqüência de perguntas pode ser programada de forma que,dependendo da resposta, uma ou outra pergunta seja indicada para ser apróxima. Admitindo que nem toda a população tem acesso a telefone, é preciso
Como Elaborar um Questionário
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Hartmut Günther ([email protected])
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