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Conceito de afixação Suas diferenças com outros processos de formação de palavras Noção de palavra complexa e composta em gramáticas antigas
Tipologia: Resumos
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Composição, afixação, sintagmação Graça Rio-Torto
1. INTRODUÇÃO “A composição sempre foi e continua a ser um terreno fértil de reflexão e de polé mica, estando no centro de algumas discussões teóricas sobre a arquitetura da gramática, do léxico, da lexicogénese e da interface léxico‑ morfologia‑sintaxe.” (p.12) “Com o passar dos anos, tenho valorizado menos os quadros teóricos do que os dados empíricos, pois estes permanecem e as teorias mudam.” (p.12) Basicamente, toda a análise é enformada por uma moldura teórica, mas devemos sempre nos manter com enfoque nos dados. Até alguns anos atrás, antes da neurolinguística, defendia-se a existência de uma arquitetura modular e interativa dos componentes da língua, o fonológico, o morfológico, o sintác tico, o semântico, o lexical, o pragmático. (p.12) Para a formação de palavras, [...] todos são mobilizados, sendo que radicais e afixos são encarados como itens lexicais dotados de forma e de conteúdo semântico. (p.12) A partir daí ela expõem como as teorias se dividem ao tratar da formação de palavras, a partir da concepção de léxico. Teorias Lexicalistas X Não Lexicalistas Na teoria lexicalista, que aqui se subscreve, a formação de palavras ocorre por um processo computacional dentro do Léxico, o qual tem capacidade gerativa e de armazenamento das unidades lexicais. (p.13) A Morfologia Distribucional, que goza de hegemonia na atualidade, dispensa a existência do Léxico, pois a Sintaxe tem a capacidade de gerar produtos sintáticos e morfológicos à luz dos mesmos esquemas de construção. (p.13) (não lexicalista) Em resumo, A questão da inexistência do Léxico/Componente Lexical não se alinha com os avanços na neurolinguística sobre o Léxico mental. Existem debates sobre o estatuto do Léxico na arquitetura da gramática e da mente. A autora se funda na seguinte acepção: “We assume […] that the principles needed to construct phrases and sentences are distinct from the principles needed to construct complex words [...]. However, there is a point of contact between them, in that languages can allow word formation of certain sorts to Merge syntactic phrases.” (Lieber & Scalise,
Muitos dos conceitos atuais sobre composição já foram apresentados na obra de Bustos Gisbert de 1986, e alguns termos que consideramos inovadores no século XX têm raízes na tradição gramatical, que merece reconhecimento. 2.1 Palavras “juntas” ou “compostas”: composto como equivalente a ‘complexo’ Na primeira gramática da língua portuguesa (1536) de Fernão de Oliveira, o foco não era tanto a reflexão sobre a composição ou derivação, mas sim sobre a composicionalidade de palavras complexas. Fernão de Oliveira analisou palavras compostas, chamando-as de "dicções juntas" ou "compostas", que envolvem a junção de dois ou mais constituintes lexicais com significado. "aquelloutro" "contrafazer" "refazer" "desfazer" formados pela combinação de "fazer" com os prefixos "contra-", "re-" e "des-". Essa tipologia era baseada na ordem que Dionísio de Tracia diferenciava nomes primitivos de nomes complexos (composto como = de complexo) 2.2 Composição inclusiva da prefixação vs. composição disjunta da prefixação A autora traz um quadro resumindo como os teóricos da época incluíam ou não a composição na prefixação. (fonte: Rio-Torto. G. 2017) João de Barros (1540): «rede‑fole», «arquibanco», «torçicólo» Manuel Said Ali (1931)
● Ele reconhece a existência de uma quarta classe, as 'locuções por justaposição', que completam as construções em análise. ● O critério distintivo entre essas subclasses é a presença ou ausência de elipse. ● Essas classes se aplicam tanto à composição de base latina quanto de base grega, abrangendo compostos sintáticos e assintáticos, bem como compostos formados por preposições e advérbios. 2.4.2 Benveniste (1966) Benveniste (1966) faz uma distinção entre compostos, conglomerados e sinapses: ● (i) Compostos: São sintagmas predicativos convertidos em substantivos/adjetivos, como "meurt-de-faim" (morto de fome). ● (ii) Conglomerados: São locuções adverbiais mais ou menos lexicalizadas, como "dorénavant" (de agora em diante) e "désormais" (desde agora mais). ● (iii) Sinapses: São grupos de lexemas que formam uma designação constante e específica, como "pomme de terre" (batata), "robe de chambre" (roupão de banho), "clair de lune" (claro de lua), "modulation de fréquence" (modulação de frequência) e "avion à réaction" (avião a jato). 2.4.3 Composição no site do Instituto Cervantes A seção "Sobre la formación de palabras en español" no site do Instituto Cervantes, por L. A. Hernando Cuadrado, descreve a composição da seguinte maneira: ● A composição é a formação de palavras por meio da combinação de outras já existentes na língua, usando procedimentos como sinapse, disjunção, contraposição e aglutinação. ● Os tipos de composição dependem do grau de lexicalização, fusão ou independência dos elementos, bem como dos padrões de combinação. São subtipos: (i) Sinapse: os elementos são escritos separadamente e geralmente unidos por preposições (exemplos: letra de cambio, traje de luces). (ii) Disjunção: os elementos, embora não graficamente fundidos, têm um grau maior de lexicalização e seguem a estrutura de N + Adj (exemplos: cajero automático, escalera mecánica).
(iii) Contraposição: os elementos são mais lexicalizados e escritos na fórmula N-N ou Adj-Adj (exemplos: café-teatro, franco-prusiano). (iv) Aglutinação: é o tipo mais extenso e envolve fusão total e alta lexicalização dos elementos. Exemplos incluem telaraña, aguardiente, agridulce, vanagloria, entre outros. 2.4.4 Val Álvaro (1999) Val Álvaro (1999) divide os compostos por ● (i) na classe lexical dos constituintes (NN, AA, VN, Adv.V, NprepN) ● (ii) nas relações (coordenação,subordinação) que os elementos mantêm entre si e ● (iii) no caráter endocêntrico ou exocêntrico do núcleo. 2.4.5 Manuel Said Ali (1931) O foco de Said Ali era na classe de palavras
3. Afixos e constituintes neoclássicos: problemas de fronteiras ● As fronteiras entre afixos e constituintes eruditos em compostos de "padrão neoclássico" têm sido motivo de questionamento e controvérsia.
atualmente estão sofrendo um processo de ressemantização e funcionamento próximo a um constituinte sufixal. O interessante a se notar é que esses radicais se combinam com bases vernaculares ● -logo ‘especialista’ (epidemiólogo; museólogo ● -grafo ‘estudioso’ (museógrafo; tragediógrafo) ● -latra ‘adicto’ (alcoólatra; cafeólatra) ● ‑ metro ‘medidor’ (loucómetro; bafómetro) ● ‑ cracia (cleptocracia, partidocracia) ● ‑ pedia (dicapedia) [Pra mim, quando o falante cria novas palavras, como por exemplo o dicapedia ele está levando o significado de enciclopédia, etimologia: -pédia conhecimento grego e ensinar no latim, e no português com a sua forma mais conhecida ele virou um item lexicalizado em ‘enciclopédia’ e por isso hoje é utilizado como em automóvel/autoescola] Além disso, eu não acho que Wartburg não foi tão “infeliz” em dizer que a sufixação é uma composição desgastada, ele foi infeliz pra época dele mas foi visionário, visto que o cruzamento vocabular é um processo atual, só que o caso de automóvel o -auto ainda não é opaco, qual o processo que formou dicapedia?] 3.3 Fronteiras dos radicais em posição prefixal e sufixal ● A formação de compostos cultos/neoclássicos desempenha um papel essencial na renovação das línguas técnicas e seus vocabulários especializados. ● Existem pelo menos duas concepções sobre a natureza dos constituintes prefixais greco-latinos: ● Uma abordagem historicista, que os considera como temas em "-o-" ou "-i-". ● Outra que defende que os compostos neoclássicos incluem pelo menos um radical não autônomo de origem grega ou latina, caracterizados pela presença de uma vogal de ligação (representada como VL) entre os elementos compositivos. (a vogal de ligação já não teria mais conteúdo semântico para o falante)
Sobre a vogal de ligação: As vogais de ligação mais usuais são e
(fronteiras com a sintagmação) ● Compostos sintagmáticos : expressões fixas formadas por sintagmas nominais ou preposicionais em línguas românicas ● Estrutura dos compostos sintagmáticos : [NprepN]N, análoga à dos sintagmas nominais com sintagma preposicional [N1[PrepN2]SP]N ● Exemplos de compostos sintagmáticos : boca del estómago, avion à réaction, água-de-colónia, etc. ● Diferença com os sintagmas livres : os compostos sintagmáticos têm estrutura interna fixa e opaca, sem transparência semântica nem permeabilidade a modificadores ● Exemplo de contraste semântico : copo de água (copo que contém água vs. refeição volante servida em ocasiões festivas) ● Compostos sintagmáticos : expressões fixas formadas por sintagmas nominais ou preposicionais em línguas românicas ● Equivalência com o inglês : muitos compostos do inglês têm uma forma [NprepN]N nas línguas românicas, denotando as mesmas realidades (ex: acelerador de partículas, particle accelerator) ● Compostos neoclássicos : compostos com bases greco-latinas, mais fechados e restritos do que os outros tipos de compostos ● Compostos VN, NA e [N PrepN]N : compostos abertos a novas bases lexicais, produtivos e regulares, com propriedades distintivas dos sintagmas livres