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texto abrangente sobre o tema
Tipologia: Notas de estudo
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ca do debate no sentido “naturalista”, no qual um campo de saber, cujos códigos são legiti- mados socialmente, aparece em supremacia, no sen- tido axiológico, em relação a outros. Neste sentido, cultura e comunicação, seriam campos de maior im- portância do que o cotidiano, de acordo com uma “arqueologia” das ciências humanas e sociais; consi- derando os padrões utilitários e racionais das ciênci- as modernas. Em outra perspectiva, poderíamos pensar inver- tendo a lógica das hermenêuticas, como a comunica- ção e as mídias procuram se apropriar dos aspectos estéticos e filosóficos do cotidiano, através de leitu- ras preferenciais.^1 De algum modo, a quebra da hegemonia da cultu- ra sobre a comunicação e destas sobre o cotidiano, em se tratando da análise dos fenômenos culturais, tem sido mais evidenciada pelos pedagogos e antro- pólogos; menos pelos sociólogos e teóricos da comu- nicação. Estes, na maioria, presos a esquemas tauto- lógicos responsáveis pela perpetuação de modelos comunicacionais que não interagem com a comple- xidade dos movimentos sociais. Para alargar nossa compreensão, poderíamos cons- truir a seguinte questão: para que servem a cultura e a comunicação na vida cotidiana?
De acordo com Michel Maffesoli: “... o cotidiano não é um conceito que se pode, mais ou menos utilizar na área intelectual. É um estilo no sentido [...] de algo mais abrangente, de ambiente, que é a causa e o efeito, em determinado momento, das relações soci- ais em seu conjunto [...] De tudo o que foi dito, deve- se lembrar que o estilo pode ser considerado, stricto sensu, uma encarnação ou ainda a projeção concreta de todas as atitudes emocionais, maneiras de pensar e agir, em suma, de todas as relações com o outro, pelas quais se define uma cultura”.^2 Nesta primeira assertiva, partindo da citação de Michel Maffesoli, podemos dizer que há dois mo- mentos, nos quais a cultura e a comunicação come- çam a interagir com o cotidiano:
ainda, que é geral na extensão de uma sociedade dada, apresentando uma existência própria, independente das manifestações individuais que possa ter”.^3 “é preciso, sobretudo, pensar a cotidianidade em relação ao imaginário social de cada povo: as riquezas estéticas traduzidas nos ritmos, nas imagens e na fala” No primeiro ponto, se faz necessário verificar se é possível estender o conceito de estilo às formas coti- dianas. Assim, evitaremos pensar o estilo como algo pessoal, mas estabelecido nas tribos e comunidades. Para não cair na armadilha positivista “o estilo é o homem”, preferimos utilizar o conceito de formis- mo sociológico, tomado emprestado a Simmel. Nes- te sentido, podemos pensar a forma como a “gra- maticalidade do invisível” que liga signos de diferenças semânticas e estabelece territórios sintáticos capazes de dialogar entre si, estabelecendo o formismo social. Maffesoli define o formismo como “(...) um polí- pode que tem implicações estéticas, éticas, econômi- cas, políticas, e, evidentemente, gnosiológica”.^4 As formas na vida cotidiana têm a função de ligar os fatos sociais, através da sinergia ou das sinestesi- as produzidas por cada cidadão. Assim, os indiví- duos geram fatos sociais, de acordo com a anomia estabelecida em cada momento sociocultural, e, ao mesmo tempo, reconhecem as alteridades de outras formas culturais. Dirimindo as distâncias entre fato social e formas sociais, podemos afirmar que a cultura e a comuni- cação não estão fora da cotidianidade, o que signifi- ca o modus como os autores sociais qualificam os objetos do imaginário. Em outras palavras, a rever- sibilidade do taedium vitae? O tédio da vida? Em manifestações estéticas. Para efeitos didáticos, poderíamos estabelecer três elementos constitutivos da vida cotidiana:
Um dos problemas de representação da vida cotidi- ana nas mídias é o ser caráter disjuntivo. Ou seja, as editorias de cidades ou gerais? Algumas têm como título “cotidiano”? Mostram o dia-a-dia dos cida- dãos através de uma lógica da irrupção social. Os fatos cotidianos aparecem isolados dos estatutos so- ciais e das forças estético-ideológicas empreendidas na luta pela ocupação dos espaços na sociedade. O cotidiano das camadas periféricas dos grandes centros urbanos é sempre o que não deu certo, o fracasso de uma atitude social, ou mesmo, a de- monstração da exclusão dos indivíduos do processo de “modernização”, como uma ameaça aos “vence- dores” que já ultrapassaram os conceitos da moder- nização e podem usufruir da “livre” circulação de bens simbólicos. Há uma mudança nos cenários sociais que favore- ce à “desregulamentação” do social em detrimento
O problema é que a aplicabilidade de teorias so- bre a vida cotidiana é, em geral, realizada de forma vertical. Nem sequer chegamos a alcançar os níveis analíticos dos tipos ideais weberianos, mas partimos de um “lócus” absoluto, no qual os principais ele- mentos de caracterização do cotidiano dos grandes centros urbanos são: a pobreza econômica, o aniqui- lamento das diferenças étnicas, a baixa taxa de esco- laridade, a precariedade da saúde pública, a violên- cia sexual Para garantir a visibilidade dos desencaixes sociais, as mídias, especificamente os jornais impres- sos, vão utilizar o substantivo feminino violência como o conceito geral capaz de reunir todas as anomalias sociais. Mas, nesta doxa da violência ou da violência da doxa, não são contempladas outras formas de vio- lência, como o “terrorismo cognitivo”, ou seja, a capacidade de distorção de conceitos históricos, a manipulação das palavras em prol de ajustes socio- econômicos e ideológicos. Evidentemente, mostrar o cotidiano como algo incompleto? Desde o buraco na rua, a longa fila de bancos, o desespero dos aposentados do INSS nos postos de saúde, o aumento hodierno dos combustí- veis, a ineficiência do ensino? É uma estratégia de manutenção de um Estado que aceita a sociedade e rejeita o social. Negar o social em detrimento da sociedade é em- pobrecer o caráter epistemológico da vida cotidiana e as múltiplas possibilidades de os seus agentes pro- duzirem intervenções e mudanças inusitadas. Nesta investigação dos fenômenos produzidos no cotidiano, os produtores de linguagens (jornalistas, publicitários, cineastas, relações públicas, bacharéis em turismo) devem ultrapassar estas injunções soci- ais impostas ao nosso dia-a-dia e procurar entender, como diz Georg Simmel “a profunda aparência da vida cotidiana”.^11
Para podermos compreender a comunicação na vida cotidiana é sugerimos pensar nesta proposição de Georg Simmel: “Todos os eventos banais, exteriores, são finalmente, ligados por fios condutores às opções finais, referentes ao sentido e ao estilo de vida”.^12 Como o predomínio é dos sistemas informacio- nais, das comunidades em rede, há um deslocamen- to da principal função da comunicação: reconquis- tar o caráter antropológico e social das comunidades. Uma das primeiras denúncias da perda da função comunitária da comunicação foi feita por Walter Benjamin em seu ensaio O narrador.^13 Evidentemente, a preocupação de Benjamin, acer- ca da forma pela qual se constrói a narrativa na contemporaneidade, nos traz implicações da ordem sociocultural, mas também não deixa de nos alertar para a substituição das narrativas tradicionais por técnicas informacionais. Este é um dos principais problemas de reconhecimento do imaginário da vida cotidiana: o estabelecimento de uma comunicação vertical, mediada por ferramentas eletrônicas com ênfase nas imagens. O não reconhecimento da complexidade da vida cotidiana, na sociedade pós-moderna, ocorre pelo caráter instrumental da informação, do preenchi- mento dos vazios sociais pela quantidade e pela comercialização de conteúdos que não respeitam a alteridade, as diferenças culturais e recriam contex- tos históricos artificiais. A vida cotidiana, sem a efetivação dos processos comunicativos, fica mais confusa, e o grau de sepa- ração entre os homens? A proxemia? Aumenta. Para alguns pesquisadores existe um fosso entre o desenvolvimento tecnológico e o processo comuni- cativo, como afirma Dominique Wolton: “Essa defa- sagem entre a facilidade da Comunicação Técnica e a dificuldade da Comunicação Humana é a primei- ra razão pra que se construa uma teoria da comuni- cação. O canal não basta para criar a relação. É pre- ciso compreender as razões da defasagem entre a eficiência da condição técnica e a dificuldade da comunicação humana e social”.^14 O nosso conflito começa neste abismo entre a téc- nica de informar e as estratégias de comunicação que se estabelecem na vida cotidiana. Do ponto de vista da aluvião de informação, te- mos a ilusão do suprimento das lacunas sociocultu- rais através da difusão de mensagens, no menor espaço de tempo possível, com a aceleração do tem- po social. Nesse sentido, o conhecimento passa a depender da capacidade de deslocamento e estocagem de sig- nos. Isto é a função da “comunicação midiática”. A comunicação midiática se define pela antecipa- ção das realidades através das tecnologias. E aqui não se trata de polarizar a discussão sobre as novas tecnologias à maneira de apocalípticos ou integra- dos, mas de pensar os processos comunicacionais a partir da vida cotidiana, ao contrário das teorias vigentes que pensam o cotidiano a partir da super- posição de conceitos. É proveitoso tomar como alerta esta afirmação de Dominique Wolton: “O mais fácil, na comunicação, ainda são as ferramentas; o mais complicado, os homens e a sociedade. Mesmo que amanhã houves- se 6,5 bilhões de internautas, isto não bastaria para garantir a paz entre as civilizações, as sociedades, as culturas e as religiões”.^15 Evidentemente, estamos enfatizando a função pe- dagógica da comunicação, que pode ser apreendida nas formas da vida cotidiana, como afirma Wolton: “Na verdade o desafio da comunicação não é a ges- tão das semelhanças, mas a gestão das diferenças”.^16 Agora, podemos estabelecer o nosso desafio: