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Crisálidas - Machado de Assis
Tipologia: Notas de estudo
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CRISÁLIDAS Machado de Assis
QUE A MÃO do tempo e o hálito dos homens Murchem a flor das ilusões da vida, Musa consoladora, É no teu seio amigo e sossegado Que o poeta respira o suave sono.
Não há, não há contigo, Nem dor aguda, nem sombrios ermos; Da tua voz os namorados cantos Enchem, povoam tudo
De íntima paz, de vida e de conforto.
Ante esta voz que as dores adormece, E muda o agudo espinho em flor cheirosa Que vales tu, desilusão dos homens? Tu que podes, ó tempo? A alma triste do poeta sobrenada À enchente das angústias, E, afrontando o rugido da tormenta, Passa cantando, alcíone divina. Musa consoladora, Quando da minha fronte de mancebo A última ilusão cair, bem como Folha amarela e seca Que ao chão atira a viração do outono, Ah! no teu seio amigo Acolhe-me,— e haverá minha alma aflita, Em vez de algumas ilusões que teve, A paz, o último bem, último e puro!
ERAS PÁLIDA. E os cabelos, Aéreos, soltos novelos Sobre as espáduas caíam... Os olhos meio cerrados De volúpia e de ternura Entre lágrimas luziam... E os braços entrelaçados, Como cingindo a ventura, Ao teu seio me cingiam...
Depois, naquele delírio, Suave, doce martírio De pouquíssimos instantes Os tous lábios sequiosos. Frios, trêmulos, trocavam Os beijos mais delirantes E no supremo dos gozos Ante os anjos se casavam Nossas almas palpitantes..
Depois... depois a verdade, A fria realidade, A solidão, a tristeza; Daquele sonho desperto, Olhei... silêncio de morte Respirava a natureza — Era a terra, era o deserto, Fora-se o doce transporte,
Entre as quinze primaveras De sua vida cansada Nem uma flor de esperança Abria a medo. Eram rosas Que a douda da esperdiçada Tão festivas, tão formosas, Desfolhava pelo chão. — Pobre criança, se o eras! — Os carinhos mal gozados Eram por todos comprados, Que os afetos de sua alma Havia-os levado à feira, Onde vendera sem pena Até a ilusão primeira Do seu doudo coração! Pouco antes, a candura, Coas brancas asas abertas, Em um berço de ventura A crianca acalentava Na santa paz do Senhor; Para acordá-la era cedo. E a pobre ainda dormia Naquele mudo segredo Que só abre o seio um dia Para dar entrada a amor.
Mas, por teu mal, acordaste! Junto do berço passou-te A festiva melodia Da sedução ... e acordou-te Colhendo as límpidas asas, O anjo que te velava Nas mãos trêmulas e frias Fechou o rosto... chorava!
Tu, na sede dos amores, Colheste todas as flores Que nas orlas do caminho Foste encontrando ao passar; Por elas, um só espinho Não te feriu... vais andando... Corre, criança, até quando Fores forçada a parar!
Então, desflorada a alma De tanta ilusão, perdida Aquela primeira calma Do teu sono de pureza; Esfolhadas, uma a uma Essas rosas de beleza Que se esvaem como a escuma
Que a vaga cospe na praia E que por si se desfaz;
Então quando nos teus olhos Uma lágrima buscares, E secos, secos de febre, Uma só não encontrares Das que em meio das angústias São um consolo e uma paz;
Então, quando o frio 'spectro Do abandono e da penúria Vier aos teus sofrimentos Juntar a última injúria: E que não vires ao lado Um rosto, um olhar amigo, Daqueles que são agora Os desvelados contigo;
Criança, verás o engano E o erro dos sonhos teus- E dirás, - então já tarde, - Que por tais gozos não vale Deixar os braços de Deus.
JÁ RARO e mais escasso A noite arrasta o manto, E verte o último pranto Por todo o vasto espaço.
Tíbio clarão já cora A tecla do horizonte, E já de sobre o monte Vem debruçar-se a aurora.
À muda e torva irmã, Dormida de cansaço, Lá vem tomar o espaço A virgem da manhã.
Uma por uma, vão As pálidas estrelas, E vão, e vão com elas Teus sonhos, coração.
Mas tu, que o devaneio Inspiras do poeta, Não vês que a vaga inquieta
E quando a voz fatídica Da santa liberdade Vier em dias prósperos Clamar à humanidade Então revivo o México Da campa surgirá
E ao terceiro dia a alma deve voltar ao corpo, e a nação ressuscitará. Mickiewicz
COMO AURORA de um dia desejado, Clarão suave o horizonte inunda. É talvez a manhã. A noite amarga Como que chega ao termo; e o sol dos livres, Cansado de te ouvir o inútil pranto, Alfim ressurge no dourado Oriente.
Eras livre —tão livre como as águas Do teu formoso, celebrado rio; A coroa dos tempos Cingia-te a cabeça veneranda; E a desvelada mãe, a irmã cuidosa, A santa liberdade, Como junto de um berço precioso, À porta dos teus lares vigiava.
Eras feliz demais, demais formosa; A sanhuda cobiça dos tiranos Veio enlutar teus venturosos dias... Infeliz! a medrosa liberdade Em face dos canhões espavorida Aos reis abandonou teu chão sagrado; Sobre ti, moribunda, Viste cair os duros opressores: Tal a gazela que percorre os campos, Se o caçador a fere, Cai convulsa de dor em mortais ânsias, E vê no extremo arranco Abater-se sobre ela Escura nuvem de famintos corvos. Presa uma vez da ira dos tiranos, Os membros retalhou-te Dos senhores a esplêndida cobiça; Em proveito dos reis a terra livre Foi repartida, e os filhos teus—escravos— Viram descer um véu de luto à pátria E apagar-se na história a glória tua.
A glória, não!—É glória o cativeiro, Quando a cativa, como tu, não perde A aliança de Deus, a fé que alenta E essa união universal e muda Que faz comuns a dor, o ódio, a esperança. Um dia, quando o cálix da amargura, Mártir, até às fezes esgotaste, Longo tremor correu as fibras tuas; Em teu ventre de mãe, a liberdade Parecia soltar esse vagido Que faz rever o céu no olhar materno; Teu coração estremeceu; teus lábios Trêmulos de ansiedade e de esperança, Buscaram aspirar a longos tragos A vida nova nas celestes auras. Então surgiu Kosciuszko; Pela mão do Senhor vinha tocado A fé no coração, a espada em punho, E na ponta da espada a torva morte, Chamou aos campos a nação caída. De novo entre o direito e a força bruta Empenhou-se o duelo atroz e infausto Que a triste humanidade Inda verá por séculos futuros. Foi longa a luta; os filhos dessa terra Ah! não pouparam nem valor nem sangue! A mãe via partir sem pranto os filhos A irmã o irmão, a esposa o esposo, E todas abençoavam A heróica legião que ia à conquista Do grande livramento.
Coube às hostes da força Da pugna o alto prêmio; A opressão jubilosa Cantou essa vitória de ignomínia; E de novo, ó cativa, o véu de luto Correu sobre teu rosto! Deus continha Em suas mãos o sol da liberdade, E inda não quis que nesse dia infausto Teu macerado corpo alumiasse. Resignada à dor e ao infortúnio, A mesma fé, o mesmo amor ardente Davam-te a antiga força. Triste viúva, o templo abriu-te as portas; Foi a hora dos hinos e das preces; Cantaste a Deus, tua alma consolada Nas asas da oração aos céus subia, Como a refugiar-se e a refazer-se
A bondade choremos inocente Cortada em flor que, pela mão da morte, Nos foi arrebatada dentre a gente. CAMÕES
SE, COMO OUTRORA, nas florestas virgens, Nos fosse dado—o esquife que te encerra Erguer a um galho de árvore frondosa Certo, não tinhas um melhor jazigo Do que ali, ao ar livre, entre os perfumes Da florente estação, imagem viva De teus cortados dias, e mais perto Do clarão das estrelas.
Sobre teus pobres e adorados restos, Piedosa, a noite ali derramaria De seus negros cabelos puro orvalho À beira do teu último jazigo Os alados cantores da floresta Iriam sempre modular seus cantos Nem letra, nem lavor de emblema humano, Relembraria a mocidade morta; Bastava só que ao coração materno, Ao do esposo, ao dos teus, ao dos amigos, Um aperto, uma dor, um pranto oculto, Dissesse: —Dorme aqui, perto dos anjos, A cinza de quem foi gentil transunto De virtudes e graças.
Mal havia transposto da existência Os dourados umbrais; a vida agora Sorria-lhe toucada dessas flores Que o amor, que o talento e a mocidade À uma repartiam.
Tudo lhe era presságio alegre e doce; Uma nuvem sequer não sombreava, Em sua fronte, o íris da esperança; Era, enfim, entre os seus a cópia viva Dessa ventura que os mortais almejam, E que raro a fortuna, avessa ao homem. Deixa gozar na terra.
Mas eis que o anjo pálido da morte A pressentiu feliz e bela e pura E, abandonando a região do olvido, Desceu à terra, e sob a asa negra A fronte lhe escondeu; o frágil corpo Não pôde resistir; a noite eterna
Veio fechar seus olhos Enquanto a alma abrindo As asas rutilantes pelo espaço. Foi engolfar-se em luz, perpetuamente, Tal a assustada pomba, que na árvore O ninho fabricou,—se a mão do homem Ou a impulsão do vento um dia abate No seio do infinito O recatado asilo,—abrindo o vôo, Deixa os inúteis restos E, atravessando airosa os leves ares Vai buscar noutra parte outra guarida.
Hoje, do que era inda lembrança resta E que lembrança! Os olhos fatigados Parecem ver passar a sombra dela O atento ouvido inda lhe escuta os passos E as teclas do piano, em que seus dedos Tanta harmonia despertavam antes Como que soltam essas doces notas Que outrora ao seu contacto respondiam.
Ah! pesava-lhe este ar da terra impura Faltava-lhe esse alento de outra esfera, Onde, noiva dos anjos, a esperavam As palmas da virtude. Mas, quando assim a flor da mocidade Toda se esfolha sobre o chão da morte, Senhor, em que firmar a segurança Das venturas da terra? Tudo morre; A sentença fatal nada se esquiva, O que é fruto e o que é flor. O homem cego Cuida haver levantado em chão de bronze Um edifício resistente aos tempos Mas lá vem dia, em que, a um leve sopro, O castelo se abate, Onde, doce ilusão, fechado havias Tudo o que de melhor a alma do homem Encerra de esperanças.
Dorme, dorme tranqüila Em teu último asilo: e se eu não pude Ir espargir também algumas flores Sobre a lájea da tua sepultura; Se não pude,—eu que há pouco te saudava Em teu erguer, estrela,—os tristes olhos Banhar nos melancólicos fulgores, Na triste luz do teu recente ocaso, Deixo-te ao menos nesses pobres versos Um penhor de saudade , e lá na esfera Aonde aprouve ao Senhor chamar-te cedo
Que agonias Sonhos, utopias, Ambições; Vivas e fagueiras, As primeiras Como as derradeiras Ilusões!
Quantas, quantas vidas Vão perdidas, Pombas malferidas Pelo mal! Anos após anos, Tão insanos Vêm os desenganos Afinal.
Dorme: se os pesares Repousares. Vês? —por estes ares Vamos rir; Mortas, não; festivas, E lascivas, Somos— horas vivas De dormir. —"
Tacendo il nome di questa gentilissima DANTE
TU NASCESTE de um beijo e de um olhar. O beijo Numa hora de amor, de ternura e desejo, Uniu a terra e o céu. O olhar foi do Senhor, Olhar de vida, olhar de graça, olhar de amor; Depois, depois vestindo a forma peregrina, Aos meus olhos mortais, surgiste-me, Corina!
De um júbilo divino os cantos entoava A natureza mãe, e tudo palpitava, A flor aberta e fresca, a pedra bronca e rude De uma vida melhor e nova juventude.
Minh'alma adivinhou a origem do teu ser; Quis cantar e sentir; quis amar e viver A luz que de ti vinha, ardente, viva, pura, Palpitou, reviveu a pobre criatura; Do amor grande elevado abriram-se-lhe as fontes Fulgiram novos sóis, rasgaram-se horizontes
Surgiu, abrindo em flor, uma nova região; Era o dia marcado à minha redenção. Era assim que eu sonhava a mulher. Era assim: Corpo de fascinar, alma de querubim; Era assim: fronte altiva e gesto soberano Um porte de rainha a um tempo meigo e ufano Em olhos senhoris uma luz tão serena, E grave como Juno, e belo como Helena! Era assim, a mulher que extasia e domina A mulher que reúne a terra e o céu: Corina!
Neste fundo sentir, nesta fascinação, Que pede do poeta o amante coração? Viver como nasceste, ó beleza, ó primor De uma fusão do ser, de uma efusão do amor.
Viver, —fundir a existência Em um ósculo de amor, Fazer de ambas—uma essência, Apagar outras lembranças, Perder outras ilusões, E ter por sonho melhor O sonho das esperanças De que a única ventura Não reside em outra vida, Não vem de outra criatura; Confundir olhos nos olhos, Unir um seio a outro seio, Derramar as mesmas lágrimas E tremer do mesmo enleio, Ter o mesmo coração, Viver um do outro viver... Tal era a minha ambição. Donde viria a ventura Desta vida? Em que jardim Colheria esta flor pura? Em que solitária fonte Esta água iria beber'? Em que incendido horizonte Podiam meus olhos ver Tão meiga, tão viva estrela, Abrir-se e resplandecer? Só em ti: —em ti que és bela, Em ti que a paixão respiras, Em ti cujo olhar se embebe Na ilusão de que deliras, Em ti, que um ósculo de Hebe Teve a singular virtude De encher, de animar teus dias, De vida e de juventude...
Desiludido, exausto, ermo, perdido, Busquei a triste estância do abandono E esperei, aguardando o ultimo sono Volver à terra, de que foi nascido.
"Ó Cibele fecunda, é no remanso Do teu seio que vive a criatura; Chamem-te outros morada triste e escura, Chamo-te glória, chamo-te descanso!"
Assim falei. E murmurando aos ventos Uma blasfêmia atroz — estreito abraço Homem e terra uniu, e em longo espaço Aos ecos repeti meus vãos lamentos.
Mas, tu passaste... Houve um grito Dentro de mim. Aos meus olhos Visão de amor infinito, Visão de perpétuo gozo Perpassava e me atraía, Como um sonho voluptuoso De sequiosa fantasia. Ergui-me logo do chão, E pousei meus olhos fundos Em teus olhos soberanos, Ardentes, vivos, profundos, Como os olhos da beleza Que das escumas nasceu... Eras tu, maga visão Eras tu o ideal sonhado Que em toda a parte busquei, E por quem houvera dado A vida que fatiguei; Por quem verti tanto pranto, Por quem nos longos espinhos Minhas mãos, meus pés sangrei!
Mas se minh'alma, acaso, é menos pura De que era pura nos primeiros dias, Por que não soube em tantas agonias Abençoar a minha desventura;
Se a blasfêmia os meus lábios poluíra, Quando, depois de tempo e do cansaço, Beijei a terra no mortal abraço E espedacei desanimado a lira;
Podes, visão formosa e peregrina, No amor profundo, na existência calma Desse passado resgatar minh'alma
E levantar-me aos olhos teus, -- Corina!
Quando voarem minhas esperanças Como um bando de pombas fugitivas; E destas ilusões doces e vivas Só me restarem pálidas lembranças;
E abandonar-me a minha mãe Quimera, Que me aleitou aos seios abundantes; E vierem as nuvens flamejantes Encher o céu da minha primavera;
E raiar para mim um triste dia, Em que, por completar minha tristeza Nem possa ver-te, musa da beleza, Nem possa ouvir-te, musa da harmonia;
Quando assim seja, por teus olhos juro, Voto minh'alma à escura soledade, Sem procurar melhor felicidade, E sem ambicionar prazer mais puro,
Como o viajor que, da falaz miragem, Volta desenganado ao lar tranqüilo E procura, naquele último asilo, Nem evocar memórias da viagem;
Envolvido em mim mesmo, olhos cerrados A tudo mais,—a minha fantasia As asas colherá com que algum dia Quis alcançar os cimos elevados.
És tu a maior glória de minha alma, Se o meu amor profundo não te alcança De que me servirá outra esperança? Que glória tirarei de alheia palma?
IV
Tu que és bela e feliz, tu que tens por diadema A dupla irradiação da beleza e do amor; E sabes reunir, como o melhor poema, Um desejo da terra e um toque do Senhor;
Tu que, como a ilusão, entre névoas deslizas Aos versos do poeta um desvelado olhar, Corina, ouve a canção das amorosas brisas, Do poeta e da luz, das selvas e do mar.
Após o grande ruído a mudez sepulcral.
Mas Diana aparece. A floresta palpita, Uma seiva melhor circula mais veloz; É vida que renasce, é vida que se agita; À luz do teu olhar, ao som da tua voz!
Também eu, sonhador, que vi correr meus dias Na solene mudez da grande solidão, E soltei, enterrando as minhas utopias, O último suspiro e a última oração;
Também eu junto à voz da natureza, E soltando o meu hino ardente e triunfal, Beijarei ajoelhado as plantas da beleza, E banharei minh'alma em tua luz, — Ideal!
Ouviste a natureza? Às súplicas e às mágoas Tua alma de mulher deve de palpitar; Mas que te não seduza o cântico das águas, Não procures, Corina, o caminho do mar!
Guarda estes versos que escrevi chorando Como um alivio à minha soledade, Como um dever do meu amor, e quando Houver em ti um eco de saudade Beija estes versos que escrevi chorando.
Único em meio das paixões vulgares Fui a teus pés queimar minh`alma ansiosa, Como se queima o óleo ante os altares; Tive a paixão indômita e fogosa, Única em meio das paixões vulgares.
Cheio de amor, vazio de esperança, Dei para ti os meus primeiros passos Minha ilusão fez-me talvez, criança; E eu pretende dormir aos teus abraços, Cheio de amor, vazio de esperança.
Refugiado à sombra do mistério Pude cantar meu hino doloroso: E o mundo ouviu o som doce ou funéreo Sem conhecer o coração ansioso Refugiado à sombra do mistério.
Mas eu que posso contra a sorte esquiva?
Vejo que em teus olhares de princesa Transluz uma alma ardente e compassiva Capaz de reanimar minha incerteza Mas eu que posso contra a sorte esquiva?
Como um réu indefeso e abandonado Fatalidade, curvo-me ao teu gesto; E se a perseguição me tem cansado. Embora, escutarei o teu aresto. Como um réu indefeso e abandonado,
Embora fujas aos meus olhos tristes Minh'alma irá saudosa, enamorada Acercar-se de ti lá onde existes Ouvirás minha lira apaixonada, Embora fujas aos meus olhos tristes,
Talvez um dia meu amor se extinga, Como fogo de Vesta mal cuidado, Que sem o zelo da Vestal não vinga; Na ausência e no silêncio condenado Talvez um dia meu amor se extinga,
Então não busques reavivar a chama. Evoca apenas a lembrança casta Do fundo amor daquele que não ama Esta consolação apenas basta; Então não busques reavivar a chama. Guarda estes versos que escrevi chorando Como um alívio à minha soledade, Como um dever do meu amor; e quando Houver em ti um eco de saudade Beija estes versos que escrevi chorando.
Em vão! Contrário a amor é nada o esforço humano; É nada o vasto espaço, é nada o vasto oceano. Solta do chão abrindo as asas luminosas Minh'alma se ergue e voa às regiões venturosas, Onde ao teu brando olhar, ó formosa Corina?
Reveste a natureza a púrpura divina! Lá, como quando volta a primavera em flor, Tudo sorri de luz tudo sorri de amor; Ao influxo celeste e doce da beleza, Pulsa, canta, irradia e vive a natureza; Mais languida e mais bala, a tarde pensativa Desce do monte ao vale: e a viração lasciva Vai despertar à noite a melodia estranha Que falam entre si os olmos da montanha;