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Dicionário árabe ali, Teses (TCC) de Medicina Oral

Dicionário ali baba, para quem quer aprender muitas palavras árabes

Tipologia: Teses (TCC)

2020

Compartilhado em 16/01/2020

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UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA
REBECCA RIOS FILGUEIRAS AZEVEDO
ALI BABÁ E AS 200 PALAVRAS
Um estudo da influência do árabe na língua portuguesa
Brasília
2013
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UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

REBECCA RIOS FILGUEIRAS AZEVEDO

ALI BABÁ E AS 200 PALAVRAS

Um estudo da influência do árabe na língua portuguesa

Brasília 2013

UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA

REBECCA RIOS FILGUEIRAS AZEVEDO

ALI BABÁ E AS 200 PALAVRAS

Um estudo da influência do árabe na língua portuguesa

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade de Brasília como exigência parcial para obtenção do grau de Bacharel em Língua Portuguesa e Respectiva Literatura Orientadora: Prof.ª Dr.ª Enilde Leite de Jesus Faulstich

Brasília 2013

“A princípio Shasta só distinguiu no vale um vasto mar de névoa, com algumas cúpulas e pináculos erguendo-se a partir dele; à medida que clareava o dia e ia sumindo a névoa, pôde ver melhor. Um rio largo dividia- se em dois braços: na ilha entre eles ficava a cidade de Tashbaan, uma das maravilhas do mundo. Ao redor da ilha, erguiam-se altas muralhas, encimadas por tantas torres que Shasta logo desistiu de contá-las. Dentro das muralhas, a ilha erguia-se em uma colina, e por toda parte, desde o palácio do Tisroc até o grande templo de Tash, no alto, elevavam-se edifícios, terraços e mais terraços, ruas e ruas, estradas que ziguezagueavam, jardins suspensos, balcões, arcadas, ameias, minaretes, pináculos. Quando finalmente o sol nasceu no mar e a cúpula de prata do templo refletiu a luminosidade, Shasta ficou meio ofuscado.”

(C. S. Lewis)

RESUMO

Embora o português seja uma língua de raiz latina, outras línguas influenciaram sua formação. Uma dessas línguas é o árabe. O primeiro encontro do português com o árabe se deu entre os séculos VIII e XV, durante a ocupação moura na Península Ibérica, e o idioma dos invasores teve grande influência na formação do que viria a ser chamado o português. Os dois idiomas voltaram a se encontrar no Brasil, no século XX, em razão da imigração libanesa, e novos elementos árabes foram incorporados ao português brasileiro. O presente trabalho se propõe a analisar expressões de origem árabe no vocabulário do português do Brasil contemporâneo.

Palavras-chave: Português do Brasil, Árabe, Empréstimos Linguísticos

SUMÁRIO

  • INTRODUÇÃO Sumário
  • 1 O ÁRABE E O PORTUGUÊS PRIMITIVO
    • 1.1 Invasão e dominação árabe na Península Ibérica
    • 1.2 Produção científica e intelectual durante a ocupação................................................................
    • 1.3 O resultado da dominação árabe na Península Ibérica no português
  • 2 O ÁRABE E O PORTUGUÊS NO BRASIL
    • 2.1 Os escravos malês
    • 2.2 Imigração libanesa no Brasil
  • 3 O ÁRABE NA CULTURA POPULAR BRASILEIRA
    • 3.1 Equívocos do olhar brasileiro sobre o Oriente Médio
    • 3.2 Cultura árabe no Brasil
  • 4 200 PALAVRAS DE ORIGEM ÁRABE NO LÉXICO COTIDIANO BRASILEIRO
  • CONCLUSÃO
  • REFERÊNCIAS........................................................................................................................................

INTRODUÇÃO

Ao estudar a formação da língua portuguesa, é importante considerar influências linguísticas que vão além do Latim, língua mãe do português. Uma dessas influências é a da língua árabe, que se faz presente no léxico não apenas do português, mas também de outras línguas neolatinas. A origem da influência árabe na língua portuguesa tem início no século VIII, com a invasão e dominação árabe na Península Ibérica. Essa dominação, que durou cerca de sete séculos, deixou grandes marcas na língua portuguesa. A presença de imigrantes brasileiros no Brasil é outro fator que impulsiona empréstimos linguísticos do árabe para o português. Por isso, esse trabalho tem o objetivo de estudar a influência da língua árabe no português europeu primitivo, causada pela dominação árabe na Ibéria, e no português brasileiro atual, causada pela imigração libanesa no Brasil. No primeiro momento, a pesquisa terá enfoque na invasão árabe na Ibéria e os resultados no português europeu primitivo. No segundo momento, será abordada a imigração libanesa no Brasil e, a partir dela, a entrada de novos vocábulos de origem árabe no português do Brasil. No terceiro momento, será feita uma análise da presença árabe na cultura popular brasileira.

Muitos dos habitantes da Ibéria, além de aprender o idioma dos mouros como língua de cultura, também assimilaram seus costumes. Eles foram chamados de moçárabes ( musta’rab , arabizado). Os moçárabes adotaram o modo de vida árabe, embora em sua maioria não tenham adotado a religião islâmica, mas mantinham o uso do romance local na vida cotidiana, preservando sua língua nativa, ao mesmo tempo em que adicionavam a ela elementos árabes que aos poucos se tornaram comuns no falar Ibérico.

Houve também muitos cristãos que negaram o catolicismo e se tornaram islâmicos. Foram os chamados muladies. Outros, por não desejarem se misturar com os árabes, partiram para o norte da península, onde os mouros não haviam invadido (SAMU, 2010). Esses foram os responsáveis pela Reconquista da Ibéria pelos cristãos.

Foi rápida a conquista muçulmana, mas penosa e apaixonada a Reconquista. Refugiados nas montanhas das Astúrias (Montes Cantabros), os restos dos exércitos hispano-visigóticos e os cristãos fundaram ali, no Nordeste do país, o Reino das Astúrias e iniciaram, sob o comando de Pelágio, o movimento da Reconquista. Era uma guerra militar, santa, abençoada e beneficiada pelos papas. Avançando para o Sul, foram recuperando aos poucos os territórios perdidos; assim se formaram os reinos cristãos de Leão, Aragão, Navarra e Castela. (HAUY, 2011, p. 31).

O domínio árabe terminou em 1492 com a queda de Granada, último reduto árabe na Península Ibérica. Foi nesse período, e por causa das batalhas da Reconquista, que o Estado português foi formado. O português, que ainda era uma só língua com o galego, ainda estava em formação, e, por isso, muitos elementos do árabe permaneceram no vocabulário do que viria a se tornar o idioma português.

1.2 Produção científica e intelectual durante a ocupação

O período de 8 séculos durante os quais os árabes dominaram a Península Ibérica não foi, ao contrário do que possa parecer, um tempo de estagnação intelectual. Na verdade, enquanto boa parte da Europa vivia a Idade Média, a Ibéria conhecia um período de avanço das ciências e das artes. Segundo Zaidan (2005, p. 70 ), “o maior brilho do progresso da Andaluzia não estava somente na indústria, na lavoura ou nas forças navais, mas principalmente na literatura, na ciência, na medicina e na filosofia”.

Os mouros trouxeram para a Península Ibérica muitos livros que haviam sido traduzidos para o árabe, de autores gregos como Platão, Aristóteles e Arquimedes. Durante sua estada na Ibéria, os árabes traduziram esses livros para o latim, possibilitando aos povos conhecer obras que foram fundamentais para o avanço da ciência. Além disso, em toda a extensão do Império Árabe havia bibliotecas, universidades, e locais de encontro onde sábios e intelectuais discutiam ciência. Os moçárabes também tiveram uma produção cultural importante no período da dominação islâmica. Eles tinham o objetivo de manter a tradição e a fé cristã em meio ao domínio árabe. Muitos deles foram produzidos sob o rótulo de proféticos, anunciando a derrota dos mouros. Em “Literatura Moçárabe. Memória de uma cultura de resistência (Séculos VIII-XII)”, Rei (2008, p. 18), discorre sobre a importância para a comunidade cristã de manter sua identidade como forma de “resistência aos poderes hegemônicos que se lhe foram impondo.” Segundo esse autor, “a herança cultural cristã procurava, pois, revivificar-se através de uma ‘rememorização’ de obras importantes da herança romano-visigótica” (p. 11). Um bom exemplo para demonstrar essa rememorização, além de mostrar a ampla utilização do idioma árabe, é o fato de que o livro “ Historiæ adversum Paganos” , famosa obra do século V, do historiador Paulo Orósio, foi traduzido do latim para o árabe para uso dos próprios cristãos, entre os séculos IX e X. “Era, portanto, evidente que, pelo menos nas comunidades moçárabes dos grandes meios urbanos, o nível de arabização dessas mesmas comunidades seria praticamente completo: era-lhes mais fácil ler Orósio em árabe do que em latim” (REI, 2008, p. 4) Nos séculos seguintes, muito intelectuais de origem árabe surgiram. Eles eram filósofos, filólogos, astrônomos e estudiosos das mais diversas áreas, e, principalmente, escritores de prosa e poesia. Bernard F. Rilley ( 1992 , p. 281) nos fala que até mesmo filósofos escreviam poesia, já que essa era “a principal manifestação cultural dessa época”. Entre esses intelectuais, é preciso destacar Averróis. Nascido em 1126, na cidade de Córdoba, Averróis foi um filósofo cujos trabalhos influenciaram muitos pensadores europeus, como John Locke, Hegel e Descartes. Além de filosofia, Averróis também escreveu sobre religião, medicina, astronomia, filologia e direito (RILLEY, 1992, p. 282). Por suas ideias pouco conservadoras, acabou sendo exilado e teve suas obras queimadas por fundamentalistas islâmicos. Estas, porém, não

língua árabe”, e que um tempo após a reconquista recebeu o novo significado pelo fato de que o árabe não fazia mais parte do cotidiano português e era, portanto, algo ininteligível. Alguns exemplos de palavras que permanecem no vocabulário português são algoz, azulejo, laranja, tâmara, alqueire, arroba, alfândega, açúcar, arroz, açafrão, almoxarife, cenoura, fulano e armazém. É importante notar que a maioria das palavras inicia com a letra a, ou, mais comumente, com a sílaba al. Isso ocorre porque na língua árabe o artigo que antecede os substantivos é al, e os berberes, por não possuírem artigos em sua língua materna, ao aprender o árabe formavam uma só palavra com o substantivo e o artigo. Já que os berberes formavam uma grande parte da comunidade moura na Ibéria, muitas palavras acabaram entrando no português primitivo de acordo com o falar berbere. Assim, enquanto muitas palavras que entraram no português e espanhol, línguas que tiveram contato com os berberes, iniciam com a ou al , em outros idiomas neolatinos, como o italiano, que foi influenciado diretamente pelos árabes do Oriente por causa das Cruzadas e das rotas comerciais, as palavras geralmente não possuem essas partículas. Carlo Tagliavini, em Origini delle Lingue Neolatine (1964), nos dá bons exemplos: açúcar e açafrão , em português, azúcar e azafrán , em espanhol, e zucchero e zafferano , em italiano (do árabe (as-)sukkar e (az-zafaran ). Ao se comparar essas três línguas, pode-se perceber que existem muitos cognatos provenientes do árabe. É válido ressaltar que muitas delas se referem a termos das ciências, como cifra, alquimia, álcool, zênite e zero, além da incógnita X, que foi introduzida pelos árabes na matemática. Outra palavra digna de nota é algarismo, que vem do nome do matemático árabe al-Khwarizmi, autor do célebre Livro Compêndio sobre Cálculo em Restauração e do Balanceamento , obra matemática histórica que trata de resolução de equações e que também apresenta o termo “al-ğabr”, que no português e em outras línguas viria a se tornar álgebra. Além das palavras relativas à ciência, Faulstich e Carvalho (2006, p. 4), trazem bons exemplos de como o léxico árabe penetrou no português em diversas áreas:

 Vocabulário de natureza político-social, como alcaide, alferes, almoxarife, alfândega etc.  Vocabulário comum, como alcova, argola, alicate, alfaiate etc.

 Vocabulário de agricultura, como açafrão, alecrim, alfazema, algodão etc.  Vocabulário de frutos, como laranja, lima, limão, tâmara etc.  Vocabulário de pesos e medidas, como alqueire, arrátel, arroba, quintal etc.  Vocabulário de alimentos, como açorda, açúcar, aletria, almôndega, arroz etc.  Vocabulário de toponímia, como Alfama (refúgio), Alcântara (ponte), Almada (mina) etc.

O professor e pesquisador Antônio José Chediak proferiu, no I Festival da Cultura Árabe, em 1972, um texto, transcrito a seguir, que demonstra perfeitamente a utilização do léxico de origem árabe no cotidiano brasileiro:

Uma história. Suponhamos, primeiramente, um casal com um filho, em algum lugar do Brasil. Altair, recém-casada, mora nos arrabaldes ou arrebaldes de uma aldeia do interior, põe o seu vestido de chita e o xale. Pega o garoto, um azougue de menino, lava-o e passa-lhe talco. Se o garoto tosse, dá-lhe uma colher de xarope, empapa o algodão em cânfora ou alcânfora e faz massagem nas suas costas. Vai à cisterna, prende a azêmola na argola da manjorra, põe água na modesta jarra. Vai fazer café e adoça-o com saboroso açúcar-cândi. O marido, um mameluco, conhecido pela alcunha Boca-Torta, bem cedinho, já se levanta com alguns achaques- enxaqueca, põe as ceroulas (no interior muita gente ainda as usa), o terno cáqui, bem lavadinho com anil, toma um trago de conhaque de alcatrão São João da Barra ou, se não o tem, vai ao alambique, sorve um gole de jeropiga. Toma a tarrafa e vai pescar no açude. Outras vezes, prefere caçar javali; limpa o azinhavre da espingarda de grosso calibre, sai com o fraldigueiro chamado Sultão e volta com algumas arrobas de carne às costas. À hora do almoço, Altair lhe traz umas azeitonas. Senta-se com ele, e principiam uma salada de alface bem regada a azeite. Vêm depois o espinafre, a cabidela, a carne ou peixe escabeche, ou com alcaparra, que ingere com arroz bem soltinho. Ela lhe oferece um prato com acelga ou celga, que rejeita. Prefere alcachofra, por causa do fígado. Vai tomando refresco de tamarindo. À sobremesa, uma boa laranja seleta. Terminado o almoço, descansa, recostando a cabeça na almofada. A casa é modesta, de adobe, mas o alicerce é firme. As janelas não têm alizares. Num pequeno jardim, florescem açucenas ou cecéns e alecrim. Depois da sesta, sai a trabalhar. Mete algum dinheiro na algibeira, algum alimento no alforje e segue para o campo. Tem alguns alqueires de terra. De volta, pára no alfaiate para experimentar um terno. Depois, entra no armazém para algumas compras. Muita gente. Azáfama. À saída, um pobre, cheio de salamaleques, pede-lhe esmola. Não é um nababo, mas também não é um mesquinho. Dá-lhe uns níqueis. Um troço de policiais, com vistosos dólmans, passa ao som de tambores, caminho do aljube. É o reforço que chega. A região foi invadida por uma cáfila de assaltantes. O mameluco tira o chapéu. Passa um ataúde a caminho do cemitério. E retorna à casa. (CHEDIAK, 1972, p.1).

Por se tratar de um discurso proferido quatro décadas atrás, alguns vocábulos acima mencionados já saíram de uso, mas apesar disso, a leitura desse texto é imensamente útil a este estudo.

vinda de libaneses ao Brasil. Assim, a partir da segunda década do século XIX, centenas de libaneses passaram a aportar no território brasileiro. Abreu e Aguilera (2010, p.20) observam que a diferença entre os libaneses e imigrantes de outras nacionalidades que chegavam ao Brasil nesse período é que, enquanto japoneses, alemães e outras etnias se isolavam em colônias para praticar a agricultura, o que funcionava como um tipo de “ilha linguística”, os imigrantes de origem libanesa se espalharam pelo país praticando o comércio, e assim logo tiveram contato com os falantes de língua portuguesa. A maior parte dos libaneses no Brasil se divide entre cristãos e muçulmanos, que, ao se estabelecerem aqui, se preocuparam em manter suas tradições. Assim, os cristãos, que foram os primeiros a chegar ao país, se reuniam em piqueniques com familiares e amigos, mantendo a tradição culinária típica, enquanto os muçulmanos logo se ocuparam de construir mesquitas para preservar suas práticas religiosas. É interessante destacar que, segundo o portal de notícias do Senado, a comunidade libanesa que vive no Brasil, formada em sua maioria por descendentes, é maior do que a população do Líbano. São quase 10 milhões de libaneses e descendentes em território brasileiro, contra 3,5 milhões que vivem no Líbano. (AGÊNCIA SENADO, online ). Embora os libaneses tenham se espalhado pelo Brasil, muitas famílias se estabeleceram na cidade de Londrina, no Paraná, onde iniciaram uma comunidade libanesa que acabou por atrair imigrantes árabes de outras etnias. Com o objetivo de aproximar os integrantes dessa comunidade, surgiu o Jornal Voz Árabe , um jornal escrito em árabe e português, que apresenta notícias do mundo árabe e da cidade de Londrina. Além disso, os integrantes muçulmanos da comunidade criaram a Escola de Árabe com o intuito de ensinar a língua e a tradição islâmicas aos seus descendentes (ABREU, 2009). Como mencionado anteriormente, por terem se estabelecido nas cidades e por terem se envolvido com o comércio, os libaneses puderam ter muito contato com os brasileiros, e dessa forma foram influenciados pela cultura local e influenciaram a língua portuguesa. Embora existam ainda poucos estudos acerca da influência da imigração libanesa no português brasileiro, alguns estudiosos já indicam alguns vocábulos árabes que entraram no português por via desses imigrantes.

A maioria desses vocábulos refere-se à culinária libanesa. Por não terem correspondente no português, os pratos típicos acabam mantendo seus nomes originais, adequando-se apenas, quando necessário, à escrita do português, como é o caso de esfirra, quibe e tabule.

No Brasil, as duas culturas aparecem de forma mista. Boa parte dos elementos que conhecemos como árabes na verdade são persas, assim como muitas das palavras árabes no vocabulário português são de origem persa, mas entraram no nosso léxico pelo idioma árabe. Desta forma, é necessário enfatizar que muitos dos elementos citados nesta seção do trabalho são de origem persa e foram assimilados pelos árabes, que os trouxeram para o Brasil.

3.2 Cultura árabe no Brasil

É notável a facilidade com que se encontra culinária árabe no Brasil. Como mencionado anteriormente, uma das formas com que os imigrantes libaneses mantiveram suas tradições foi a cozinha típica. Daí vêm as palavras relacionadas à culinária árabe que hoje fazem parte do vocabulário brasileiro. Esfirras, quibes e pães sírios são encontrados tanto em lanchonetes e padarias quanto nos vários restaurantes especializados em comida árabe no Brasil, com outros pratos orientais típicos como tabule, arroz com lentilhas e kafta. Há também muitos resultados da presença árabe na Península Ibérica que vieram para o Brasil pela colonização portuguesa, como afirma Oswaldo Truzzi (2007): Na culinária, difundiram o uso do café, de doces próprios e produtos de pastelaria, do azeite (do árabe az-zayt ) em substituição à proibida gordura de porco, e de muitos outros temperos, como o açafrão ( az-zaHafrān ), a noz moscada, o cravo, a canela, pimentas e outros condimentos.

Além da culinária, muitos arabistas contribuíram para a divulgação da cultura árabe em outros meios nas terras tupiniquins. Entre eles merece destaque Júlio César de Melo e Sousa, célebre escritor e matemático brasileiro conhecido por seu heterônimo, Malba Tahan. Estudioso do idioma e da cultura árabe, Malba Tahan escreveu vários livros, destinados a crianças e adolescentes, que remetiam à cultura oriental. Muitos de seus livros eram constituídos de contos que exaltavam virtudes como a honestidade e a sabedoria, como Contos e Lendas Orientais e O Livro de Aladim. Outros eram romances, como A Sombra do Arco-íris , livro dividido em 3 volumes e que se faz notável por trazer em seu texto enorme quantidade de poemas de célebres poetas brasileiros e estrangeiros.

Entretanto, o livro que se faz mais digno de nota é O Homem que calculava , que se tornou famoso por apresentar a matemática como algo simples e que pode ser usado na resolução de problemas cotidianos. O Homem que calculava, além de, por muito tempo, ter sido de leitura obrigatória no ensino médio, também foi traduzido para várias línguas e lido em vários países. Tahan escreveu outros livros relacionados à matemática, além de livros didáticos, e muitos outros relacionados à cultura árabe, da qual era defensor e divulgador, especialmente por meio de contos:

A característica principal da alma asiática está, em verdade, na sua capacidade de renúncia à realidade, na sua tendência, permanente para o sonho, no predomínio, em suma, da imaginação. E nenhum povo no Oriente, exceção do chinês que vai até a eliminação da personalidade, é mais meditativo que o árabe. Isso, mais do que as circunstâncias históricas, contribuiu para que ele fizesse do conto fantástico a sua fórmula literária preferida. E como os contos são leves, e as viagens eram longas, adotaram eles as histórias infindáveis como as travessias surpreendentes como o Deserto, as narrativas, compondo assim coletâneas opulentas, equivalentes pela novidade e frescura das criações, às grandes obras da literatura do Ocidente. (TAHAN, 1963, pp. 8-9). Não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, a cultura árabe é motivo de interesse e curiosidade. Existem vários ícones da cultura pop que estão relacionados ao Oriente Médio, como Lawrence da Arábia , premiado filme inglês que conta a história de T. E. Lawrence, um inglês que luta juntamente com os árabes pela libertação do domínio turco na Península Arábica. Existem também referências ao mundo árabe em jogos de role-playing game (RPG) como Príncipe da Pérsia (Brøderbund, lançado em 1989), jogo inspirado nas Mil e uma Noites e no sufismo, corrente mística do Islamismo. Na série Super Mario (Nintendo, lançada em 1985), há um deserto, chamado Dry Dry Desert (Deserto Seco Seco), onde há ruínas e um entreposto comercial em que os personagens usam túnicas típicas dos beduínos e guardam segredos milenares. Digno de nota também é o jogo Assassin’s Creed (Ubisoft, lançado em 2007), que é inspirado na história da Ordem dos Assassinos, seita islâmica fundada por Hassan-I Sabbah na época das cruzadas com o objetivo de defender a teologia xiita por meio do terror. Um aspecto interessante sobre esse jogo é o seu olhar multicultural, abrangendo tanto os templários ocidentais quanto os sarracenos orientais.