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Impacto de Peacock Bass e Piranha na Dieta da Traíra em Lagoas do Rio Doce, Manuais, Projetos, Pesquisas de Engenharia Biológica

Os resultados de um estudo sobre as alterações na dieta da traíra (hoplias malabaricus) devido à introdução de peacock bass (cichla monoeulus) e piranha (pygocentrus nattereri) em algumas lagoas do rio doce. O documento discute as consequências desse introdução em relação às espécies nativas, a alteração na estrutura das comunidades de peixes e a plasticidade alimentar da traíra.

Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas

2012

Compartilhado em 02/10/2012

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Mudança na dieta da traíra Hoplias malabaricus (Bloch)
(Erythrinidae, Characiformes)
em
lagoas da bacia do rio Doce
devido à introdução de peixes piscívoros
Paulo dos Santos Pompeu 1
Alexandre Lima Godinho 1
ABSTRACT. Dict changes of the
trahira
Hoplias malabariCIIs (Bloch)
(Erythr
ini-
dac, Characiformes) due
to
piscivorous introductions in Rio Doce valley lakes.
Two
pi
s
ei
vorous fishes , peacock
bass
(Ci
c
Ma
/IIo//Owlus Spix & Agassi
z,
1831
)
(Perciformes)
and
piranha
(P
ygocenlrus Ilauereri Kner, 1860) (Characiformes), were
introduced
in
some
Rio
Doce valley
lakes
(19°50' S, 42°40 '
W)
for
sport fisheries
enhancement.
As
a consequence, small individuais and species were practically
vanished
in
the host lakes.
In
this study, the effects of peacock bass and piranha
introductions
on
the diet
ofa
native piseivorous fish, the trahira -Hoplias malabaricus
(Bloch, 1794) are presented. Trahira's diet from three lakes were was compared wilh
the
stomach contentsdiet of trahira's living
in
another between three lakes with
and
three withoutstocked with the piscivorous species peacock bass and piranha.
In
the
lakes with introduced fishes species,
the
con
sumption of fish
was
significantly smaller
and
this
food
item have been
thi
s item partly replaced
by
aquatic invertebrates. This
shift
on
of trahira's diet
to
the low abundance
of
its original prey,
is
atlributed
to
the
small fishes . This diet plasticity adaptative capacity
he
diet plasticily detected
for
trahira might be allowing its maintenance
in
the lakes with peacock bass and piranha.
KEY
WORDS. Cichla, Pygocelllrus,
Hoplias
l11alabaricus
, diet, species introduction
A
introdução
de
peixes
fora
de
sua
distribuição
geográfica
original
é
prática
antiga
e
usual.
Incremento
da
pesca,
aqüicultura,
controle
de
organismos
prejudici-
ais
e
ornamentação
estão
entre
as
razões
mais
comuns
(COURTENA Y & STAUFFER
(984).
As
introduções
têm
causado
profundas
modificações
nas
comunidades
hospedeiras
como
e
limina
ção
de
espécies,
remoção
da
vegetação,
introdução
de
parasitas
e
doenças,
alterações
tróficas
(COURTENAY & STAUFFER 1984)
e/o
u
alterações
genéticas
(FERGUSON 1990).
Nos
trópicos,
pouco
se
sabe
sobre
os
efeitos
de
introduções
de
peixes
nas
comunidades
hospedeiras
mas
mudanças
em
larga
escala
como
eliminação
de
espécies
e
modificações
na
estrutura
das
comunidades
hospedeiras,já
foram
registradas
(ZARET & PAINE 1973; BARELetal. 1985;
MILLER
1989; GODINHO & FORMAGIO 1992; GODINHO et
aI.
1994).
Para
incrementar
a
pesca
esportiva,
o
tucunaré
(Ciehla monoeulus
Spix
&
Agassiz,
1
83
1) e a
piranha
(Pygoeentrus nattereri
Kner,
1860)
foram
intr
od
uz id
os
na
década
de
1960
no
sistema
de
lagoas
do
médio
rio
Doce.
O
tucunaré
é
piscívoro
de
origem
amazônica
e
pode
atingir
até
15
kg
(LOWE-McCONNELL
1975; GOUL-
1)
Departamento de Zoologia, Instituto
de
Ciências Biológicas, Universidade Federal de Minas
Gerais. Avenida Antônio Carlos 6627, 31270-901 Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasi
l.
Revta bras. Zool.
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(4): 1219 -1225, 2001
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Baixe Impacto de Peacock Bass e Piranha na Dieta da Traíra em Lagoas do Rio Doce e outras Manuais, Projetos, Pesquisas em PDF para Engenharia Biológica, somente na Docsity!

Mudança na dieta da traíra Hoplias malabaricus (Bloch)

(Erythrinidae, Characiformes) em lagoas da bacia do rio Doce

devido à introdução de peixes piscívoros

Paulo dos Santos Pompeu 1

Alexandre Lima Godinho 1

ABSTRACT. Dict changes of the trahira Hoplias malabariCIIs (Bloch) (Erythr ini- dac, Characiformes) due to piscivorous introductions in Rio Doce valley lakes. Two pi s ei vorous fishes , peacock bass (Ci cMa /IIo//Owlus Spix & Agassi z, 1831 ) (Perciformes) and piranha (P ygocenlrus Ilauereri Kner, 1860) (Characiformes), were introduced in some Rio Doce valley lakes (19°50 ' S, 42°40' W) for sport fisheries enhancement. As a consequence, small individuais and species were practically vanished in the host lakes. In this study, the effects of peacock bass and piranha introductions on the diet ofa native piseivorous fish, the trahira - Hoplias malabaricus (Bloch, 1794) are presented. Trahira's diet from three lakes were was compared wilh the stomach contentsdiet of trahira's living in another between three lakes with and three withoutstocked with the piscivorous species peacock bass and piranha. In the lakes with introduced fishes species, the con sumption of fish was significantly smaller and this food item have been thi s item partly replaced by aquatic invertebrates. This shift on of trahira's diet to the low abundance of its original prey, is atlributed to the small fishes. This diet plasticity adaptative capacity he diet plasticily detected for trahira might be allowing its maintenance in the lakes with peacock bass and piranha. KEY WORDS. Cichla, Pygocelllrus, Hoplias l11alabaricus , diet, species introduction

A introdução de peixes fora de sua distribuição geográfica original é prática antiga e usual. Incremento da pesca, aqüicultura, controle de organismos prejudici- ais e ornamentação estão entre as razões mais comuns (COURTENA Y & STAUFFER (984). As introduções têm causado profundas modificações nas comunidades hospedeiras como e limina ção de espécies, remoção da vegetação, introdução de parasitas e doenças, alterações tróficas (COURTENAY & STAUFFER 1984) e/o u alterações genéticas (FERGUSON 1990). Nos trópicos, pouco se sabe sobre os efeitos de introduções de peixes nas comunidades hospedeiras mas mudanças em larga escala como eliminação de espécies e modificações na estrutura das comunidades hospedeiras,já foram registradas (ZARET & PAINE 1973; BARELetal. 1985; MILLER 1989; GODINHO & FORMAGIO 1992; GODINHO et aI. 1994). Para incrementar a pesca esportiva, o tucunaré (Ciehla monoeulus Spix & Agassiz, 183 1) e a piranha (Pygoeentrus nattereri Kner, 1860) foram intr od u z id os na década de 1960 no sistema de lagoas do médio rio Doce. O tucunaré é piscívoro de origem amazônica e pode atingir até 15 kg (LOWE-McCONNELL 1975; GOUL-

  1. Departamento de Zoologia, Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Minas Gerais. Avenida Antônio Carlos 6627, 31270-901 Belo Horizonte, Minas Gerais , Brasi l. E-mail: [email protected]

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1220 Pompeu & Godinho

DING 1980; ZARET 1980). A piranha atinge tamanhos bem menores e tem distribu-

ição original restrita às bacias Amazônica e do Paraná. É também predadora e tem

nos peixes um dos seus principais itens alimentares (RESENDE et aI. 1996). Tanto o tucunaré quanto a piranha ocorrem atualmente em várias lagoas do citado sistema. Na lagoa Dom Helvécio, a maior delas com 6,87 km 2 ( SAIJO & TUNDISI 1985 ), estes peixes foram registrados pela primeira vez no início da década de 1980. Cerca de 10 anos depois, quando essas duas espécies compunham 86 % do número de indivíduos capturados na pesca experimental, pouco mais da metade da riqueza original de peixes já havia desaparecido (GODINHO & FORMAGIO 1992). Os peixes de pequeno porte foram praticamente extintos, sendo que a comunidade da lagoa passou a se{ composta basicamente por espécies e indivíduos de maior porte ( GODINHO & FORMAGIO 1992). Situação semelhante foi também detectada em outras duas lagoas da região (GODINHO et aI. 1994). Essa acentuada modificação nas comunidades de peixes com a introdução do tucunaré e da piranha presumivelmente alterou a disponibilidade de presas para as espécies nativas. Este trabalho teve como objetivo detectar os efeitos dessa modificação na dieta de um piscívoro nativo, a traíra Hoplias malabaricus (Bloch , 1794). O sistema de lagoas do médio rio Doce é composto por cerca de duas centenas de lagoas que ocorrem no Parque Estadual do rio Doce (l9°50'S, 42°35' a 42°40 ' W) (SAIJO & TUNDISI 1985) e em áreas adjacentes. Duas das lagoas estudadas, Dom Helvécio e Carioca, situam-se dentro da área do parque. Nessas, a vegetação circundante é Mata Atlântica do tipo estacionai semidecidual. As demais lagoas estudadas (Jacaré, Ferrugem, Timburé e Palmeiras) estão nas imediações do parque em área onde a vegetação original fo i substituída por monoculturas de Eucalyptus. As lagoas apresentam características morfométricas bastante distintas, com área variando de 13 a 687 ha , e profundidade máxima de 9 a 32 m (TUNDISI et aI. 1997). O clima da região é tropical quente, com dois períodos marcantes: chuvoso (outubro-março) e seco (maio-agosto) (TUNDISI 1997). A temperatura média é de 30°C e a precipitação anual de 1.500 mm (NAKAMOTO et aI. 1997). Até quando da realização do presente estudo, o tucunaré e a piranha eram encontrados em três das lagoas estudadas (Dom Helvécio, Jacaré e Carioca), estando ausentes nas demais.

MATERIAL E MÉTODOS

Os peixes foram capturados com redes de emalhar, armadas na tarde de um dia e retiradas na manhã seguinte. As lagoas foram amostradas uma única vez em julho de 1992 ou julho de 1993 , com exceção da Dom Helvécio que foi amostrada em março de 1992 e setembro de 1993. Em cada lagoa foram armados de três a nove conjuntos de rede, cada um composto por redes das seguintes malhas: 3,4,5, .6,7,8 , 10,12 e 14 cm , medidas entre nós opostos (malha total). Cada rede possuía 20 m de comprimento por cerca de 1,6 m de altura. Os peixes capturados foram fixados em formol 10% e conser- vados em álcool a 70 %.

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A análise do co nteúd o estomacal das traíras r eve lou que os princ ipa is ite ns ingeridos foram peixes , nin fas de Odo nata e ca marões (Tab. I). Ma t ér ia vegetal e insetos terrestres fora m ingeridos em menor propor ção. E ntre os peixes ingeri-

dos , foram identificadas oito espécies: Lycengraulis sp.; Astyanax bimaculatus

( Linnae us, 1758); Oligosarcus solitarius Me nezes , 1987 ; H. malabaricus (B loch ,

1874); Leporinus steindachneri Eigenmann , 1907 ; Cyphocharax gilbert (Q uoy

& Ga imard, 1824) e Crenicich la lacustris (Castel nau, 1855). Os ind ivíduos

dessas espécies fo ram , de maneira geral, ingeridos i nt eiros.

Fo ram de tectadas dife renças n os valores do Índice Alimentar entre os dois grupos de lagoas. Nas lagoas com espécies introduzidas os valores do Índice

Alimentar pa ra peixes foram sig ni ficativamente menores (t = - 2,80; P = 0,0 49 , df

=4). Nessas lagoas, particu larmente na Dom He lv écio e Jacaré, o consumo de peixes

f oi subs ti tuído por inverte br ados aquáticos (Fig. 2), principalmente ninfas de Odo nata e ca marões (Tab. 1).

Lagoas com espécies introduzidas. (^) Lagoas sem espécies introduzidas 100 75 Dom^ Helvécio^ Palmeiras 50

ro 25

cQ) O

.S^100

ãi 75 Q)u 50 i .C::: 25 1J^ o^ O

o 100

ãi 75

25 O Pei xes Invertebrados Peixes Invertebrados Itens alimentares Itens alimentares

Fig. 2. índi c es alimentares (IA) para pei xe s e in vertebrados aquá ti cos inge rid os pela traíra em lagoas com e sem esp écies introduzidas.

Tabela I. índice Alimentar (IA) dos itens consumidos pela traíra (Hoplias malabaricus) em

lagoas do médio rio Doce com e sem piscívoros introduzidos (n =número de estômagos com

aliment o).

Lagoa Item alimentar Peixe Cama rão Ni n fa de Odonata Inseto terrestre Matéria vegetal

Com espéc ies introduzidas Dom Helvécio (n = 26) 0.36 0.24 0.40 < 0.01 < 0. Jacaré (n = 44) 0. 43 0.57 < 0.01 < 0. 01 < 0. Canoca (n= 14 ) <0.01 <0,01 0,18 < 0.01 0. 18 Sem espécies introduzidas Palmeiras (n = 2) 0.69 0, Timburé (n = 10) 0,98 0,02 < 0, 01 Ferrugem (n = 21) 0,84 0,

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DISCUSSÃO

Os peixes piscívoros têm importante papel na estruturação das comunida- des de organismos aquáticos (POWER et aI. 1985). Quando um novo predador é introduzido e se torna abundante, ele geralmente afeta a comunidade existente. Os exemplos mais significativos dessas modificações têm sido relatados para a introdu ção de peixes em lagoas onde a ictiofauna nativa sofre alteração em um curto período de tempo (HUGHES 1986). Alguns desses exemplos envolvem o tucunaré. Em alguns ambientes em que foi introduzido , seu estabelecimento provocou prejuízos evidentes para a fauna autóctone, pois o aumento de suas populações se deu em função da redução ou eliminação das espécies nativas (ZARET & PAINE 1973; GODINHO et aI. 1994; AGOSTINHO & JÚLIO 1996). Por

outro lado, a introdução da piranha (Pygocentrus nattereri) tem sido menos

frequente, com poucos relatos em literatura. A introdução de piscívoros pode afetar as relações tróficas da comunidade de várias maneiras. As atividades de alimentação do novo predador podem, por exemplo, alterar a abundância e tipo de recurso disponível para as espécies nativas, principalmente aquelas com hábitos alimentares similares (COURTENA Y

& STAUFFER 1984). A análise da dieta de H. malabaricus, de diferentes bacias ,

tem revelado que os adultos consomem basicamente peixes (KNOPPEL 1970; LOWE-McCONNELL 1975), hábito que se sobrepõe ao das espécies introduzidas nas lagoas do médio rio Doce. De acordo com WINEMILLER (1989) indi víduos jovens de traíra podem ingerir uma grande quantidade de invertebrados aquáticos. Sob esse aspecto as diferenças na alimentação da traíra observadas entre os dois grupos de lagoas

poderiam ser atribuídas à maior frequência de indivíduos jovens analisados nas

lagoas sem espécies introduzidas. No entanto, foi exatamente das lagoas o nde ocorreu maior ingestão de invertebrados aquáticos que proveio o maior percentual de indivíduos de maior porte. A acentuada diminuição das espécies e indivíduos de pequeno porte nas lagoas do médio rio Doce, relatada por GODINHO & FORMAGIO (1992), é um forte indício da elevada pressão que vem sendo exercida pelos predadores introduzidos. Além disso, das oito espécies de peixes identificadas no conteúdo estomacal das traíras, pelo menos cinco delas parecem ter sido extintas em pelo menos uma das lagoas em que foram introduzidos os novos predadores estudados por GODINHO

et aI. ( 1994).

As diferenças observadas na alimentação da traíra entre lagoas com e sem o tucunaré e a piranha devem refletir diferenças na disponibilidade de sua presa original. Apesar de piscívora, a traíra é uma espécie oportunista pois mudanças na sua dieta em função da oferta de alimento já foram detectadas por alguns autores (WINEMILLER 1989; MACHADO-ALLISON 1994). De fato, os peixes neo- tropicais de água doce parecem ser altamente facultativos na sua alimentação, sendo que muitos deles podem alterar sua guilda trófica, de acordo com a composição específica da comunidade, época do ano e mudanças no ecossistema (LOWE-McCONNELL 1975; WELCOMME 1985; NICO & TAPHORN 1988). No caso

Revta bras. Zoo!. 18 (4), 1 ?Hl - 1 ??'i ?nn

Mudança na dieta da traíra Hoplias malabaricus em lagoas ... 1225

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  1. Li fe hi story and g ro wth relati ons hip s of Cichla ocellari s. a pr edatory South American cic hli d. Biotropica 12: 144- 157.

Recebido em 27.X II .2000: aceito em 22.X.200 1.