



Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity
Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium
Prepare-se para as provas
Estude fácil! Tem muito documento disponível na Docsity
Prepare-se para as provas com trabalhos de outros alunos como você, aqui na Docsity
Encontra documentos específicos para os exames da tua universidade
Prepare-se com as videoaulas e exercícios resolvidos criados a partir da grade da sua Universidade
Responda perguntas de provas passadas e avalie sua preparação.
Ganhe pontos para baixar
Ganhe pontos ajudando outros esrudantes ou compre um plano Premium
Os resultados de um estudo sobre as alterações na dieta da traíra (hoplias malabaricus) devido à introdução de peacock bass (cichla monoeulus) e piranha (pygocentrus nattereri) em algumas lagoas do rio doce. O documento discute as consequências desse introdução em relação às espécies nativas, a alteração na estrutura das comunidades de peixes e a plasticidade alimentar da traíra.
Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas
1 / 7
Esta página não é visível na pré-visualização
Não perca as partes importantes!




devido à introdução de peixes piscívoros
ABSTRACT. Dict changes of the trahira Hoplias malabariCIIs (Bloch) (Erythr ini- dac, Characiformes) due to piscivorous introductions in Rio Doce valley lakes. Two pi s ei vorous fishes , peacock bass (Ci cMa /IIo//Owlus Spix & Agassi z, 1831 ) (Perciformes) and piranha (P ygocenlrus Ilauereri Kner, 1860) (Characiformes), were introduced in some Rio Doce valley lakes (19°50 ' S, 42°40' W) for sport fisheries enhancement. As a consequence, small individuais and species were practically vanished in the host lakes. In this study, the effects of peacock bass and piranha introductions on the diet ofa native piseivorous fish, the trahira - Hoplias malabaricus (Bloch, 1794) are presented. Trahira's diet from three lakes were was compared wilh the stomach contentsdiet of trahira's living in another between three lakes with and three withoutstocked with the piscivorous species peacock bass and piranha. In the lakes with introduced fishes species, the con sumption of fish was significantly smaller and this food item have been thi s item partly replaced by aquatic invertebrates. This shift on of trahira's diet to the low abundance of its original prey, is atlributed to the small fishes. This diet plasticity adaptative capacity he diet plasticily detected for trahira might be allowing its maintenance in the lakes with peacock bass and piranha. KEY WORDS. Cichla, Pygocelllrus, Hoplias l11alabaricus , diet, species introduction
A introdução de peixes fora de sua distribuição geográfica original é prática antiga e usual. Incremento da pesca, aqüicultura, controle de organismos prejudici- ais e ornamentação estão entre as razões mais comuns (COURTENA Y & STAUFFER (984). As introduções têm causado profundas modificações nas comunidades hospedeiras como e limina ção de espécies, remoção da vegetação, introdução de parasitas e doenças, alterações tróficas (COURTENAY & STAUFFER 1984) e/o u alterações genéticas (FERGUSON 1990). Nos trópicos, pouco se sabe sobre os efeitos de introduções de peixes nas comunidades hospedeiras mas mudanças em larga escala como eliminação de espécies e modificações na estrutura das comunidades hospedeiras,já foram registradas (ZARET & PAINE 1973; BARELetal. 1985; MILLER 1989; GODINHO & FORMAGIO 1992; GODINHO et aI. 1994). Para incrementar a pesca esportiva, o tucunaré (Ciehla monoeulus Spix & Agassiz, 183 1) e a piranha (Pygoeentrus nattereri Kner, 1860) foram intr od u z id os na década de 1960 no sistema de lagoas do médio rio Doce. O tucunaré é piscívoro de origem amazônica e pode atingir até 15 kg (LOWE-McCONNELL 1975; GOUL-
Revta bras. Zool. 18 (4): 1219 - 1225, 2001
1220 Pompeu & Godinho
DING 1980; ZARET 1980). A piranha atinge tamanhos bem menores e tem distribu-
nos peixes um dos seus principais itens alimentares (RESENDE et aI. 1996). Tanto o tucunaré quanto a piranha ocorrem atualmente em várias lagoas do citado sistema. Na lagoa Dom Helvécio, a maior delas com 6,87 km 2 ( SAIJO & TUNDISI 1985 ), estes peixes foram registrados pela primeira vez no início da década de 1980. Cerca de 10 anos depois, quando essas duas espécies compunham 86 % do número de indivíduos capturados na pesca experimental, pouco mais da metade da riqueza original de peixes já havia desaparecido (GODINHO & FORMAGIO 1992). Os peixes de pequeno porte foram praticamente extintos, sendo que a comunidade da lagoa passou a se{ composta basicamente por espécies e indivíduos de maior porte ( GODINHO & FORMAGIO 1992). Situação semelhante foi também detectada em outras duas lagoas da região (GODINHO et aI. 1994). Essa acentuada modificação nas comunidades de peixes com a introdução do tucunaré e da piranha presumivelmente alterou a disponibilidade de presas para as espécies nativas. Este trabalho teve como objetivo detectar os efeitos dessa modificação na dieta de um piscívoro nativo, a traíra Hoplias malabaricus (Bloch , 1794). O sistema de lagoas do médio rio Doce é composto por cerca de duas centenas de lagoas que ocorrem no Parque Estadual do rio Doce (l9°50'S, 42°35' a 42°40 ' W) (SAIJO & TUNDISI 1985) e em áreas adjacentes. Duas das lagoas estudadas, Dom Helvécio e Carioca, situam-se dentro da área do parque. Nessas, a vegetação circundante é Mata Atlântica do tipo estacionai semidecidual. As demais lagoas estudadas (Jacaré, Ferrugem, Timburé e Palmeiras) estão nas imediações do parque em área onde a vegetação original fo i substituída por monoculturas de Eucalyptus. As lagoas apresentam características morfométricas bastante distintas, com área variando de 13 a 687 ha , e profundidade máxima de 9 a 32 m (TUNDISI et aI. 1997). O clima da região é tropical quente, com dois períodos marcantes: chuvoso (outubro-março) e seco (maio-agosto) (TUNDISI 1997). A temperatura média é de 30°C e a precipitação anual de 1.500 mm (NAKAMOTO et aI. 1997). Até quando da realização do presente estudo, o tucunaré e a piranha eram encontrados em três das lagoas estudadas (Dom Helvécio, Jacaré e Carioca), estando ausentes nas demais.
MATERIAL E MÉTODOS
Os peixes foram capturados com redes de emalhar, armadas na tarde de um dia e retiradas na manhã seguinte. As lagoas foram amostradas uma única vez em julho de 1992 ou julho de 1993 , com exceção da Dom Helvécio que foi amostrada em março de 1992 e setembro de 1993. Em cada lagoa foram armados de três a nove conjuntos de rede, cada um composto por redes das seguintes malhas: 3,4,5, .6,7,8 , 10,12 e 14 cm , medidas entre nós opostos (malha total). Cada rede possuía 20 m de comprimento por cerca de 1,6 m de altura. Os peixes capturados foram fixados em formol 10% e conser- vados em álcool a 70 %.
Revta bras. Zool. 18 (4): 1219 - 1225, 2001
1222 Pompeu^ &^ Godinho
A análise do co nteúd o estomacal das traíras r eve lou que os princ ipa is ite ns ingeridos foram peixes , nin fas de Odo nata e ca marões (Tab. I). Ma t ér ia vegetal e insetos terrestres fora m ingeridos em menor propor ção. E ntre os peixes ingeri-
dessas espécies fo ram , de maneira geral, ingeridos i nt eiros.
Fo ram de tectadas dife renças n os valores do Índice Alimentar entre os dois grupos de lagoas. Nas lagoas com espécies introduzidas os valores do Índice
f oi subs ti tuído por inverte br ados aquáticos (Fig. 2), principalmente ninfas de Odo nata e ca marões (Tab. 1).
Lagoas com espécies introduzidas. (^) Lagoas sem espécies introduzidas 100 75 Dom^ Helvécio^ Palmeiras 50
ãi 75 Q)u 50 i .C::: 25 1J^ o^ O
ãi 75
25 O Pei xes Invertebrados Peixes Invertebrados Itens alimentares Itens alimentares
Fig. 2. índi c es alimentares (IA) para pei xe s e in vertebrados aquá ti cos inge rid os pela traíra em lagoas com e sem esp écies introduzidas.
Tabela I. índice Alimentar (IA) dos itens consumidos pela traíra (Hoplias malabaricus) em
aliment o).
Lagoa Item alimentar Peixe Cama rão Ni n fa de Odonata Inseto terrestre Matéria vegetal
Com espéc ies introduzidas Dom Helvécio (n = 26) 0.36 0.24 0.40 < 0.01 < 0. Jacaré (n = 44) 0. 43 0.57 < 0.01 < 0. 01 < 0. Canoca (n= 14 ) <0.01 <0,01 0,18 < 0.01 0. 18 Sem espécies introduzidas Palmeiras (n = 2) 0.69 0, Timburé (n = 10) 0,98 0,02 < 0, 01 Ferrugem (n = 21) 0,84 0,
Revta bras. Zool. 18 (4): 1219 - 1225, 2001
Mudança na dieta da traíra Hoplias malabaricus em lagoas ... 1223
Os peixes piscívoros têm importante papel na estruturação das comunida- des de organismos aquáticos (POWER et aI. 1985). Quando um novo predador é introduzido e se torna abundante, ele geralmente afeta a comunidade existente. Os exemplos mais significativos dessas modificações têm sido relatados para a introdu ção de peixes em lagoas onde a ictiofauna nativa sofre alteração em um curto período de tempo (HUGHES 1986). Alguns desses exemplos envolvem o tucunaré. Em alguns ambientes em que foi introduzido , seu estabelecimento provocou prejuízos evidentes para a fauna autóctone, pois o aumento de suas populações se deu em função da redução ou eliminação das espécies nativas (ZARET & PAINE 1973; GODINHO et aI. 1994; AGOSTINHO & JÚLIO 1996). Por
frequente, com poucos relatos em literatura. A introdução de piscívoros pode afetar as relações tróficas da comunidade de várias maneiras. As atividades de alimentação do novo predador podem, por exemplo, alterar a abundância e tipo de recurso disponível para as espécies nativas, principalmente aquelas com hábitos alimentares similares (COURTENA Y
tem revelado que os adultos consomem basicamente peixes (KNOPPEL 1970; LOWE-McCONNELL 1975), hábito que se sobrepõe ao das espécies introduzidas nas lagoas do médio rio Doce. De acordo com WINEMILLER (1989) indi víduos jovens de traíra podem ingerir uma grande quantidade de invertebrados aquáticos. Sob esse aspecto as diferenças na alimentação da traíra observadas entre os dois grupos de lagoas
lagoas sem espécies introduzidas. No entanto, foi exatamente das lagoas o nde ocorreu maior ingestão de invertebrados aquáticos que proveio o maior percentual de indivíduos de maior porte. A acentuada diminuição das espécies e indivíduos de pequeno porte nas lagoas do médio rio Doce, relatada por GODINHO & FORMAGIO (1992), é um forte indício da elevada pressão que vem sendo exercida pelos predadores introduzidos. Além disso, das oito espécies de peixes identificadas no conteúdo estomacal das traíras, pelo menos cinco delas parecem ter sido extintas em pelo menos uma das lagoas em que foram introduzidos os novos predadores estudados por GODINHO
As diferenças observadas na alimentação da traíra entre lagoas com e sem o tucunaré e a piranha devem refletir diferenças na disponibilidade de sua presa original. Apesar de piscívora, a traíra é uma espécie oportunista pois mudanças na sua dieta em função da oferta de alimento já foram detectadas por alguns autores (WINEMILLER 1989; MACHADO-ALLISON 1994). De fato, os peixes neo- tropicais de água doce parecem ser altamente facultativos na sua alimentação, sendo que muitos deles podem alterar sua guilda trófica, de acordo com a composição específica da comunidade, época do ano e mudanças no ecossistema (LOWE-McCONNELL 1975; WELCOMME 1985; NICO & TAPHORN 1988). No caso
Revta bras. Zoo!. 18 (4), 1 ?Hl - 1 ??'i ?nn
Mudança na dieta da traíra Hoplias malabaricus em lagoas ... 1225
RESENDE. E. K: R.A.C. P EREIRA: VLL. ALMEIDA & A. G. SILVA. 1996. Alimentação de peixes c arn ívoros da planície alagável do rio Miranda , Pantanal, Mato Gro sso do Sul, Brasil. Cor um bá, E MBR APA-CPAP, 36p. SAIJO , Y. & J.G. TUND ISI. ]985. In tro du cti on, p. 3-8.11/ : Y. S AYJO & J .G. T UND ISI (Eds). LimnologicaI Studies in C entral Brazil ; Rio Doce ValIcy Lakcs and Pantanal Wetland. Nagoya, Nagoya Un i v.,20 Ip. TUND ISI. J.G. 1997. Climate, p. 7-1 I. In : J.G. TUND ISI & Y. SAIJ O ( Ed s). Limnological Studie s on the rio Doce ValIey Lakes, Brazil. S ão Ca rl os, Aca d. Br as. Ci ., Uni v. São Pa ul o, 528p. T UND ISI, J .G: T. MATSUMU RA- T uND ISI; H. F UKUARA; O. MIT AMURA; S.M. GUILLÉN: R. H EN RY; O. ROCHA; M.C. CALlJUR I; M.S .R. I BANES: E LG. ESPÍNDOLA & S. G OVON I. 1997. Limnology of fifteen lakes, p. 409-440. 11/ : J.G. T UND ISI & Y. SA IJ O. Limnological Studies on the rio Doce ValIey Lakes, Brazil. São Ca rl os, Aca d. Br as. Ci ., Univ. São Pa ul o, 528p. WELCOMME , R.L. 1985. Ri ve r Fi she ri es. FAO Fi sh. Te ch Papo 262: 1-330. WINEM ILLER. K.O. 1989. Ontogene ti c diet shi ft s a nd reso ur ce partit io nin g among pi scivorous fi shes in lhe Ve nezuelan lI an os. Environ. Biol. Fi shes 26 : 1 77 -1 99. ZARET , T.M. & R.T. PA INE. 1973. Species intr od uc ti on in a tro pi ca llak e. Sciencc 182: 449-455.
Recebido em 27.X II .2000: aceito em 22.X.200 1.