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Documento de aprendizagem, Provas de Jornalismo

Documento de aprendizagem de lingua portuguesa

Tipologia: Provas

2024

Compartilhado em 24/04/2024

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ESR@D CAMÕES 2022/23 PORTUGUÊS 10º ano MÓDULO 3
NARRATIVA DE VIAGENS
Como pronunciar “cabo Agulhas”
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A pergunta era se eu não sentia orgulho
quando chegava ao cabo da Boa Esperança.
Orgulho de ser português.
Hesitei. Vou ser franco ou não? Dou uma
resposta de circunstância e vaga, ou entro na
questão a fundo? Viajar por muito tempo tem
esta consequência: adquire-se um certo
relativismo.
Fica difícil aceitar os dogmas e os mitos pro-
pagados na pátria ao longo de gerações.
Visitamos outros países e ficamos a saber que
os nossos dogmas e mitos valem tanto como os
deles.
Esse formidável promontório, no fundo de
África, é um ponto de referência impressionante
quer para os que o alcançam por terra quer para os
que o contornam por mar. Aliás, recordo a minha
desilusão quando o visitei pela primeira vez, por
encontrar um dia de mar calmo e translúcido, de
céu cristalino e brisa suave, (…) nada fazia supor ser
ali o lugar do mito do Adamastor. Mas em visitas
seguintes, as coisas smicas alinharam-se de
maneira a poder assistir a tempestades brutais de
mar e vento sobre o cabo que por nós foi pela
primeira vez dobrado.
A pergunta era se eu sentia orgulho. De ser
português no cabo da Boa Esperança.
Não. Passaram muitos séculos. O que eu não
consigo deixar de sentir é uma perplexidade
incomodada. Onde foram parar esses homens
que estavam na vanguarda do seu tempo? Onde
foram parar o arrojo e a antevidência da raça que
soube dar novos mundos ao mundo? O meu
incómodo é ainda maior, se viro as costas ao
cabo e regresso
à cidade, talvez a mais cenográfica e apetecível
de todas as cidades fora da Europa, e penso que
podia ser uma cidade de ascendência portuguesa,
mas que simplesmente deixámos que os
holandeses ficassem com ela. A Cidade do Cabo,
Cape Town,
a “Taverna dos Mares”.
Na realidade, para contornar África, não basta
dobrar o cape of Good Hope, há outro mais a sul
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e que marca, esse sim, o final do continente, o
cabo Agulhas. Não é impressionante.
Não tem uma falésia a pique sobre o mar,
nem um miradouro preparado para rasgar o
infinito nem sequer um posto de turismo com
os gadgets e souvenirs da ocasião, apenas um
acidente de relevo lacónico e definitivo, no
litoral. Extraordinária, pelo contrário, é a
estrada de aproximação ao cabo Agulhas, que
atravessa dezenas de quilómetros de terra
desolada e premonitória, como se nenhuma
outra paisagem fosse digna de anunciar esse
iminente fim de mundo que é o cabo Agulhas.
Uma placa rasa informa que, neste ponto,
se encontram os dois oceanos: Atlântico e
Índico. As rochas são recortadas e pontiagudas,
vagamente como agulhas, e pareceu-me estar
explicada a razão do nome do cabo. Mas não
era nada disso.
Os navegadores portugueses descobriram
que o norte geográfico, aquele indicado pela
Estrela Polar, e o norte magnético, indicado
pelas agulhas das bússolas, coincidiam na
passagem deste cabo. Daí o nome Agulhas.
Ao contrário do cabo da Boa Esperança,
cujo nome foi traduzido em todas as línguas, o
cabo Agulhas mantém a grafia original do
batismo português. É esse, talvez, o meu
motivo de orgulho, não pelo que fomos e
deixámos de ser, mas pelo que encontrámos e
demos a conhecer. E deixámos nomeado.
Neste caso, nada de “cape Needles”, antes,
qualquer coisa como “cape Agâolas”.
Gonçalo Cadilhe, “Qualquer coisa nos lugares”, in Visão, edição online, 19 de junho de 2013 (consultado em maio de 2017).
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ESR@D CAMÕES 2022/23 PORTUGUÊS 10º ano MÓDULO 3

NARRATIVA DE VIAGENS

Como pronunciar “cabo Agulhas”

5 10 15 20 25 30 35 40 A pergunta era se eu não sentia orgulho quando chegava ao cabo da Boa Esperança. Orgulho de ser português. Hesitei. Vou ser franco ou não? Dou uma resposta de circunstância e vaga, ou entro na questão a fundo? Viajar por muito tempo tem esta consequência: adquire-se um certo relativismo. Fica difícil aceitar os dogmas e os mitos pro- pagados na pátria ao longo de gerações. Visitamos outros países e ficamos a saber que os nossos dogmas e mitos valem tanto como os deles. Esse formidável promontório, no fundo de África, é um ponto de referência impressionante quer para os que o alcançam por terra quer para os que o contornam por mar. Aliás, recordo a minha desilusão quando o visitei pela primeira vez, por encontrar um dia de mar calmo e translúcido, de céu cristalino e brisa suave, (…) nada fazia supor ser ali o lugar do mito do Adamastor. Mas em visitas seguintes, as coisas cósmicas alinharam-se de maneira a poder assistir a tempestades brutais de mar e vento sobre o cabo que por nós foi pela primeira vez dobrado. A pergunta era se eu sentia orgulho. De ser português no cabo da Boa Esperança. Não. Passaram muitos séculos. O que eu não consigo deixar de sentir é uma perplexidade incomodada. Onde foram parar esses homens que estavam na vanguarda do seu tempo? Onde foram parar o arrojo e a antevidência da raça que soube dar novos mundos ao mundo? O meu incómodo é ainda maior, se viro as costas ao cabo e regresso à cidade, talvez a mais cenográfica e apetecível de todas as cidades fora da Europa, e penso que podia ser uma cidade de ascendência portuguesa, mas que simplesmente deixámos que os holandeses ficassem com ela. A Cidade do Cabo, Cape Town, a “Taverna dos Mares”. Na realidade, para contornar África, não basta dobrar o cape of Good Hope , há outro mais a sul 45 50 55 60 65 70 e que marca, esse sim, o final do continente, o cabo Agulhas. Não é impressionante. Não tem uma falésia a pique sobre o mar, nem um miradouro preparado para rasgar o infinito nem sequer um posto de turismo com os gadgets e souvenirs da ocasião, apenas um acidente de relevo lacónico e definitivo, no litoral. Extraordinária, pelo contrário, é a estrada de aproximação ao cabo Agulhas, que atravessa dezenas de quilómetros de terra desolada e premonitória, como se nenhuma outra paisagem fosse digna de anunciar esse iminente fim de mundo que é o cabo Agulhas. Uma placa rasa informa que, neste ponto, se encontram os dois oceanos: Atlântico e Índico. As rochas são recortadas e pontiagudas, vagamente como agulhas, e pareceu-me estar explicada a razão do nome do cabo. Mas não era nada disso. Os navegadores portugueses descobriram que o norte geográfico, aquele indicado pela Estrela Polar, e o norte magnético, indicado pelas agulhas das bússolas, coincidiam na passagem deste cabo. Daí o nome Agulhas. Ao contrário do cabo da Boa Esperança, cujo nome foi traduzido em todas as línguas, o cabo Agulhas mantém a grafia original do batismo português. É esse, talvez, o meu motivo de orgulho, não pelo que fomos e deixámos de ser, mas pelo que encontrámos e demos a conhecer. E deixámos nomeado. Neste caso, nada de “cape Needles”, antes, qualquer coisa como “cape Agâolas”. Gonçalo Cadilhe, “Qualquer coisa nos lugares”, in Visão , edição online , 19 de junho de 2013 (consultado em maio de 2017).

ESR@D CAMÕES 2022/23 PORTUGUÊS 10º ano MÓDULO 3

NARRATIVA DE VIAGENS

1. Viajar durante muito tempo tem consequências como

 (A)^ o esquecimento de locais que deveriam ficar na memória.

 (B)^ a relativização da importância de certos acontecimentos.

 (C)^ a perceção de que afinal valeu a pena fazer aquela viagem.

 (D)^ a valorização da terra ou do país que deixamos para trás.

2. Considerando o conteúdo das linhas 13 a 23, o viajante terá visto

 (A)^ o gigante Adamastor no local visitado.

 (B)^ o promontório como um local de visita obrigatória.

 (C)^ situações climáticas e atmosféricas distintas.

 (D)^ vários portugueses a visitar o cabo da Boa Esperança.

3. Uma certa revolta apoderou-se do viajante quando ele

 (A)^ percebeu que o promontório nada tinha de perigoso.

 (B)^ passou pela cidade do Cabo e se consciencializou da sua beleza.

 (C)^ refletiu acerca da perda da cidade do Cabo para os ingleses.

 (D)^ interiorizou a falta de iniciativa dos portugueses.

4. O "fim de mundo", segundo o autor, poderia associar-se

 (A)^ ao cabo da Boa Esperança.^  (C)^ à localização da cidade do Cabo.

 (B)^ ao cabo Agulhas.^  (D)^ à região envolvente do cabo Agulhas.

5. Justifique, com base em elementos textuais, a descrença do autor nos mitos e nos dogmas.

6. O autor revela a sua perplexidade relativamente à situação dos portugueses.

Comprove de que modo ele a manifesta.

7. Indique o único motivo de orgulho de ser português registado por este viajante.

Adaptado de NOVOS PERCURSOS PROFISSIONAIS • PORTUGUÊS 1 • GUIA DO PROFESSOR • ASA