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Dossiê Celso Furtado, Traduções de História Econômica

Prebisch sobre Celso Furtado nos anos 80

Tipologia: Traduções

Antes de 2010

Compartilhado em 14/11/2025

alexandre-sarate
alexandre-sarate 🇧🇷

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RAÚL PREBISCH*
| Celso Furtado**
O
essencial em Raúl Prebisch era a ação. Seu
pensamento esteve sempre a serviço de algu-
ma causa e reflete em boa medida as circunstân-
cias que delimitaram o campo em que pôde agir.
A Argentina de sua juventude era um caso exemplar
de economia em rápido desenvolvimento na qual
tudo girava em torno do comércio exterior. Nada
nesse país lembrava o que depois se viria a conhecer
como a problemática do subdesenvolvimento. Tudo
se passava no âmbito de uma economia de merca-
do, os salários eram elevados, a classe empresarial,
vigorosa. Porém, o comportamento dessa econo-
mia era atípico no que respeita as relações interna-
cionais. À falta de uma percepção clara da situação
por parte de seus dirigentes, a economia argentina
sofria de instabilidade e pagava mais do que a cota
de sacrifícios que lhe correspondia nos ajustamen-
tos que os ciclos econômicos impunham às transa-
ções internacionais.
Prebisch logo percebeu que a teoria corrente dos
ajustamentos das balanças de pagamento igno-
rava esses casos atípicos e conduzia, em seu país,
a políticas totalmente equivocadas. É certo que
essa constatação havia sido feita por outras pesso-
as. O que singulariza Prebisch é ter colocado esse
problema no quadro maior do desenvolvimento da
economia capitalista, visto do ângulo da propaga-
ção do progresso técnico. Esse avanço, ele o fez por
etapas, apoiando-se na experiência que lhe pro-
porcionou a participação em órgãos de comando
da economia argentina. De início, imaginou que
a saída poderia estar na cooperação internacional,
ilusão que logo se desvaneceu em face do com-
portamento da Inglaterra, em 1931, introduzindo
a preferência imperial, e em 1932, na chamada
Conferência do Ouro.
A economia argentina sofria de sua relação assi-
métrica com a Inglaterra: seu principal produ-
to de exportação – a carne – fora desenvolvido
para o mercado inglês e praticamente não possuía
mercado alternativo. Para continuar exportando
para esse mercado, a Argentina deveria obrigar-se
a manter em elevado nível, não obstante a queda
de suas exportações, a transferência de dividendos
dos vultosos capitais ingleses investidos em estra-
das de ferro. Essa confrontação com a Inglaterra
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CADERNOS do DESENVOLVIMENTO, Rio de Janeiro, v. 6, n. 9, p. 442-444, jul.-dez. 2011
DOSSIê CELSO FURTADO
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RAÚL PREBISCH*

| Celso Furtado**

O

essencial em Raúl Prebisch era a ação. Seu pensamento esteve sempre a serviço de algu- ma causa e reflete em boa medida as circunstân- cias que delimitaram o campo em que pôde agir. A Argentina de sua juventude era um caso exemplar de economia em rápido desenvolvimento na qual tudo girava em torno do comércio exterior. Nada nesse país lembrava o que depois se viria a conhecer como a problemática do subdesenvolvimento. Tudo se passava no âmbito de uma economia de merca- do, os salários eram elevados, a classe empresarial, vigorosa. Porém, o comportamento dessa econo- mia era atípico no que respeita as relações interna- cionais. À falta de uma percepção clara da situação por parte de seus dirigentes, a economia argentina sofria de instabilidade e pagava mais do que a cota de sacrifícios que lhe correspondia nos ajustamen- tos que os ciclos econômicos impunham às transa- ções internacionais.

Prebisch logo percebeu que a teoria corrente dos ajustamentos das balanças de pagamento igno- rava esses casos atípicos e conduzia, em seu país, a políticas totalmente equivocadas. É certo que essa constatação havia sido feita por outras pesso- as. O que singulariza Prebisch é ter colocado esse

problema no quadro maior do desenvolvimento da economia capitalista, visto do ângulo da propaga- ção do progresso técnico. Esse avanço, ele o fez por etapas, apoiando-se na experiência que lhe pro- porcionou a participação em órgãos de comando da economia argentina. De início, imaginou que a saída poderia estar na cooperação internacional, ilusão que logo se desvaneceu em face do com- portamento da Inglaterra, em 1931, introduzindo a preferência imperial, e em 1932, na chamada Conferência do Ouro.

A economia argentina sofria de sua relação assi- métrica com a Inglaterra: seu principal produ- to de exportação – a carne – fora desenvolvido para o mercado inglês e praticamente não possuía mercado alternativo. Para continuar exportando para esse mercado, a Argentina deveria obrigar-se a manter em elevado nível, não obstante a queda de suas exportações, a transferência de dividendos dos vultosos capitais ingleses investidos em estra- das de ferro. Essa confrontação com a Inglaterra

442 | CADERNOS do DESENVOLVIMENTO, Rio de Janeiro, v. 6, n. 9, p. 442-444, jul.-dez. 2011

DOSSIê CELSO FURTADO

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***** O Centro Celso Furtado, em coedição com a editora Contraponto, acaba de lançar o livro Raúl Prebisch (1901-

  1. – a construção da América Latina e do Terceiro Mundo, de Edgar J. Dosman, tradução de Teresa Dias Carneiro e César Benjamin, Rio de Janeiro, 2011. ****** Celso Furtado foi da equipe pioneira da Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e Caribe), organismo das Nações Unidas criado em 1948, com sede em Santiago do Chile. Nos dez anos em que aí trabalhou, foi diretor da Divisão de Planejamento Econômico, viajou em missão a diversos países latino-americanos, com longas estadas no México e na Venezuela, e se tornou o principal colaborador e interlocutor de Raúl Prebisch, então

nos anos da depressão está na raiz das reflexões de Prebisch sobre a estrutura centro-periferia, geradora de efeitos de dominação, que somente podiam ser superados mediante ação deliberada nas relações internacionais por parte das economias primário-exportadoras. Ele será o pioneiro da política de controle de câmbios e o teórico da “substituição de importações” como caminho para a industrialização periférica.

Não fossem as circunstâncias que rodearam a ascensão de Juan Perón ao poder, na primeira metade dos anos 1940, e a influência de Prebisch na Argentina teria sido consideravelmente maior. Contou-me ele que, por muito pouco, não houve uma aproximação sua com o coronel Perón, na primeira fase deste. Todas as conjecturas aqui são possíveis. Houvesse Perón recebido um pouco de instru- ção econômica, chegando a perceber não apenas os pontos fortes mas tam- bém os fracos da economia argentina, e quiçá sua paranoia não fosse a mesma. Anos depois (às vésperas do golpe que o derrubou), Perón buscou contato com Prebisch, sendo a vez de este recusar. Quando, em 1955, sai Perón, Prebisch já havia feito sua opção definitiva por uma carreira internacional, o que deu à sua influência um alcance muito maior, mas o privou de exercer na Argentina o papel de estadista que lhe parecia naturalmente reservado.

Sendo um pensador que não se desprendia do real, Prebisch era dotado de excepcional poder de concentração e de capacidade para traduzir a realidade em categorias abstratas. Demais, nenhuma inibição doutrinária o detinha no uso da imaginação. As inibições podiam advir de seu senso de oportunidade no uso das ideias, mas nunca de autocensura intelectual. Estimulava a todos que com ele colaboravam a desenvolverem cabalmente o próprio pensamento, explicitando todas as premissas e descobrindo todos os corolários. Falecia-lhe contudo o interesse pela especulação puramente gratuita, muitas vezes essen- cial para o progresso da ciência.

O debate que provocou, nos anos 1950, no mundo acadêmico, em torno da divisão internacional do trabalho, é elucidativo da força e das limitações de seu trabalho teó- rico. Seu ponto de partida era o problema dos ajustamentos dos balanços de pagamento, conforme referimos. No centro dessa questão estava a “circulação do ouro”, ou seja, os movimentos internacionais de capitais. Por outro lado, a Argentina se beneficiava de impor- tante influxo migratório e mesmo de importação estacional de mão de obra

“ A referência que me vem ao espírito, quando penso em Prebisch, é Goethe, com quem se parecia inclusive fisicamente. Tinha o mesmo senso de universalismo, a mesma fortaleza interior e a mesma ânsia de viver plenamente.”

CADERNOS do DESENVOLVIMENTO, Rio de Janeiro, v. 6, n. 9, p. 442-444, jul.-dez. 2011 | 443

Celso Furtado