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Estudo dos efeitos dos fenômenos El Niño e La Nina em Irati/PR
Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas
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Resumo: Este trabalho prezou compreender a influência dos eventos El Niño e La Niña na cidade de Irati, localizada no centro-sul do Paraná com aproximadamente 60 mil habitantes e de grande importância agrícola para o Estado. A referida cidade não possui trabalhos correlacionando os eventos ENOS (El Nino-Oscilação Sul) com o clima local. Desse modo, ao identificar os eventos extremos ocorridos nos últimos anos, associados às informações noticiadas na mídia local, foi observado que o El Niño causa invernos quentes e secos, trazendo prejuízos para a agricultura. No verão as temperaturas também ficam acima da média, concomitantemente às chuvas em excesso, ocasionando alagamentos. Durante eventos La Niña ocorrem invernos mais frios e secos, maior número de geadas e novamente prejuízos para a agricultura da região, além de problemas no abastecimento de água.
Palavras – chave: El Nino, La Niña, Irati, agricultura, eventos extremos.
CORRELATION BETWEEN EL NIÑO/LA NINA AND EXTREME EVENTS IN IRATI-PARANÁ: INITIAL APPROACHES
Abstract: This study sought to understand the influence of El Niño and La Niña events in the city of Irati, located in central-southern of Paraná with approximately 60 thousand inhabitants and of great importance to the agricultural state. The city does not work correlating the ENSO events (El Nino-Southern Oscillation) to the local climate. Thus, to identify the extreme events occurred in recent years, associated with the information reported in local media, it was observed that the El Niño causes warm and dry winters, causing damage to agriculture. In summer the temperatures are also above average, the rainfall in excess concurrently, and causing flooding in the city and some localities. Cold and dry events occur during La Niña winters, more frost damage and again for agriculture in the region, and problems in water supply.
Keyword: El Niño, La Niña, Irati, agriculture, extreme events.
Introdução Área de estudo: a cidade de Irati Segundo Roseghini et al (2004), o Estado do Paraná apresenta diversas ocorrências de clima, solo e cobertura vegetal, possui diferenciada formação geológica e conformação geomorfológica, apresentando todas as características de zona de clima tropical, na sua região norte e de zona de clima subtropical, em quase todo o restante Estado. Ainda segundo os autores, devido à sua posição geográfica, a Região Sul do país é cortada pelo Trópico de Capricórnio, sofrendo influência da Massa Tropical
Atlântica e Continental, dos efeitos da continentalidade e da dinâmica de incursão das massas de ar polares e da Frente Polar Atlântica. O clima subtropical que predomina na Região Sul do Brasil, mais precisamente ao sul do Trópico de Capricórnio, caracteriza-se por apresentar temperaturas médias inferiores a 20ºC, podendo atingir até 30ºC no verão e temperaturas negativas no inverno. Nas áreas mais elevadas, o verão é suave e o inverno frio, com ocasionais quedas de neve. O município de Irati localiza-se na região centro-sul paranaense, no segundo planalto, distante 150 km da capital Curitiba, possuindo 54.151 habitantes (IBGE,2008). Sua topografia é marcada por morros com encostas suaves a intermediarias, com algumas ocorrências de encostas íngremes. O clima da cidade segundo a classificação de Köppen é o Cfb (subtropical temperado), com as quatro estações do ano bem definidas, verões quentes e úmidos e invernos frios e secos, com geadas frequentes e até neve esporadicamente. A agricultura tem um grande peso na economia do município, gerando assim uma apreensão maior com relação ao clima, especialmente no inverno.
Quadro 1: Temperatura média máxima 24,2ºC Temperatura média mínima 11,0ºC Média mensal de precipitação pluviométrica 193,97 mm Total médio anual 1637,2 mm (Fonte: IRATI, 2009).
Figura 1 – localização da área de estudo; fonte: IRATI, 2009.
Esse deslocamento acarreta variabilidade significativa para o clima das Américas, como chuvas para o deserto do Atacama (deserto mais seco do mundo) e secas na Amazônia e Nordeste brasileiro. O motivo do aquecimento das águas do oceano ainda é desconhecido, porém já existem várias teorias, como erupções vulcânicas no fundo do oceano, ciclo das manchas solares e até buracos nas camadas magnéticas da atmosfera. O La Niña se apresenta como oposto ao El Niño, apresentando anomalias negativas da TSM (temperatura da Superfície do Mar) do Oceano Pacífico Equatorial Leste. Os ventos alísios sopram com mais força represando as águas mais quentes na parte oeste do Oceano Pacífico, deslocando consequentemente a célula de Walker para a mesma direção. Com esse deslocamento o deserto do Atacama fica ainda mais seco e na Amazônia e Nordeste do Brasil tem mais chuvas. Esses dois eventos são classificados em fracos, moderados e fortes. Para a elaboração deste trabalho foram enfocados os eventos de escala moderada e forte. A intensidade dos eventos é baseada no padrão e magnitude das anomalias da TSM do Pacífico Tropical. Segundo Roseghini et al (2004), grande parte das anomalias de precipitação no Brasil estão associadas aos eventos El Niño – Oscilação Sul (ENOS). No El Niño de 1982-1983 (fase negativa da Oscilação Sul), uma corrente de jato subtropical bem marcada sobre a América do Sul e a Oeste do Pacífico Sul com várias situações de bloqueio, em latitudes médias, favoreceram o ingresso de sistemas frontais ativos no Sul do Brasil. Decorrente disso houve excessiva precipitação nessa região, no período. Para o Estado do Paraná as ocorrências dos eventos El Niño (anomalias positivas da TSM no Oceano Pacífico), e eventos La Niña (anomalias negativas de TSM no Oceano Pacífico) são um dos maiores responsáveis pelos desvios em relação às normais climatológicas ocorridas no Estado (ROSEGHINI et al, 2004). Ainda de acordo com os autores, informações sobre o número de dias com precipitação pluvial, são úteis tanto no planejamento agrícola em curto prazo (práticas agronômicas cuja umidade do solo e/ou ar são condicionantes) como em longo prazo (definições das regiões e épocas mais adequadas para a semeadura de culturas).
Objetivos Um dos aspectos mais importantes deste estudo é o de identificar e analisar os eventos extremos de chuva e sua correlação com impactos sócio-ambientais, que na maioria das vezes é intensificado pelas ações antrópicas, buscando compreender os níveis da interferência humana no ambiente e conseqüentemente identificar os possíveis danos que tais eventos podem acarretar. Busca-se através da análise das condições climáticas a identificação da ocorrência de eventos extremos, particularmente os eventos pluviométricos, bem como sua dinâmica e influência na organização do espaço regional. Tais objetivos culminam com a possibilidade de auxílio no planejamento ambiental e regional da área de estudo, podendo, inclusive, contribuir para futuros processos de mitigação de impactos ocasionados pela ocorrência dos eventos estudados.
Métodos e análise dos dados Procedimentos metodológicos Para analisar esses eventos foram utilizados dados meteorológicos da cidade de Irati fornecidos pelo INMET (Instituto Nacional de Meteorologia), reportagens sobre eventos extremos devidamente datados e coletados no Jornal Folha de Irati, artigos relacionados aos anos de ocorrência dos e intensidade, baseados em Trenberth (1997), nos Quadros 2 e 3:
Quadro 2: anos de El Niño 1877 - 1878 1888 - 1889 1896 - 1897 1899 1902 - 1903 1905 - 1906 1911 - 1912 1913 - 1914 1918 - 1919 1923 1925 - 1926 1932 1939 - 1941 1946 - 1947 1951 1953 1957 - 1959 1963 1965 - 1966 1968 - 1970 1972 - 1973 1976 - 1977 1977 - 1978 1979 - 1980 1982 - 1983 1986 - 1988 1990 - 1993 1994 - 1995 1997 - 1998 2002 - 2003 2004 - 2005 2006 - 2007 Legenda: Forte, moderado, fraco.
Quadro3: anos de La Niña 1886 1903 - 1904 1906 - 1908 1909 - 1910 1916 - 1918 1924 - 1925 1928 - 1929 1938 - 1939 1949 - 1951 1954 - 1956 1964 - 1965 1970 - 1971 1973 - 1976 1983 - 1984 1984 - 1985 1988 - 1989 1995 - 1996 1998 - 2001 2007 2008 Legenda: Forte, moderado, fraco.
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(^19781979198019811982198319841985198619871988198919901991) ANOS 19921993199419951996199719981999200020012002200320042005
PRECIPITAÇÃO (mm)
Figura 2 – precipitação total anual para o período 1978-2005. Fonte: INMET – Org: JUKOLWISK (2009).
Considerando os eventos em ordem cronológica inversa, iniciam-se as análises pelo biênio 2002 – 2003, onde houve a ocorrência de um El Niño moderado segundo os parâmetros oceânicos. Nas matérias pesquisadas no Jornal Folha de Irati não foram encontradas notícias relacionando os dados pluviométricos para o ano de 2003 (Figura 3). Porém, foram detectada no ano a ocorrência de cinco meses com anomalias negativas de precipitação, ou seja, as mesmas ficaram abaixo do desvio padrão, apresentando apenas o mês de dezembro com precipitação acima do desvio. Estes cinco meses abaixo da média possibilitaram o fechamento do total anual bem inferior à média, ficando em 1202,4 mm.
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J AN FEV MAR ABR MAI J UN (^) MESESJUL AGO SET OUT NOV DEZ
2003 MÉDIA 1978-
Figura 3 – precipitação mensal para o ano de 2003. Fonte: INMET – Org: JULKOWSKI (2009).
Na sequência, houve um evento de El Niño forte entre os anos de 1997 e 1998. No ano de 1998 (Figura 4) ocorreu o ápice do evento, resultando na publicação de quatro reportagens, sendo dessas, três relatando alagamentos e transbordamentos dos cursos d’água que cruzam a cidade durante o mês de março:
“Fortes chuvas causam alagamentos em Irati”.
“As fortes chuvas que atingiram a cidade de Irati na noite de sábado, dia 28, causaram alagamentos em vários bairros, fazendo com que de as subcomissões de abrigos, de comunicações e de Salvamento (Corpo de Bombeiros e Defesa Civil) fossem acionados.” (Folha de Irati, ano XXIV, N º 1157 Irati 06 à 13/03/1998, P. 4.).
Nesse mês a quantidade de chuva foi de 380,4 mm, bem acima da média em comparação aos outros anos:
pontes, bueiros e das estradas, fez com que o prefeito Luis Everaldo Zak decretasse estado de emergência em Rebouças. Em Irati, o prefeito Rodrigo Hilgemberg, que há poucos dias havia adotado o mesmo procedimento do prefeito reboucense, se não conseguir ajuda imediata do Estado, vai decretar estado de calamidade publica, com o cancelamento por tempo indeterminado, dos serviços de transporte escolar, saúde, viação e obras dentro do município. Nos demais municípios do Centro – Sul, a situação é semelhante.” (Folha de Irati, ano XXV, N º 1165 Irati 30/04 à 08/05/1998, P.3.).
As pessoas que mais sofreram com as enchentes foram as que possuíam suas residências nas margens dos rios, ocupadas irregularmente, e os locais onde durante o planejamento da cidade não foi levado em conta que esse tipo de evento extremo pudesse ocorrer. Foi visto que somente dois meses desse ano (maio e novembro) ficaram abaixo do desvio padrão, porém 05 meses ficaram abaixo da média pluviométrica mensal e 05 meses ficou acima do desvio padrão. Em 1997 foi registrada uma matéria no jornal, porém bem interessante para este trabalho: “Fenômeno meteorológico poderá provocar fortes chuvas.”
“O El Niño é um fenômeno meteorológico que provoca aquecimento excessivo das águas do Oceano Pacifico na altura do Peru. Normalmente essa temperatura não passa de 2 graus e este já atingiu 5, o que no Brasil poderá provocar forte seca na região Nordeste e fortes chuvas e/ou vendavais na região Sul. Essas regiões sofreram grandes impactos nos anos de 1982 e 83 quando foram verificadas as maiores manifestações do fenômeno no Brasil.” (Folha de Irati, ano XXIV, N º 1138 Irati 20 à 26/09/1997, P. 4.).
Essa previsão sobre o fenômeno foi exata, como foi visto anteriormente, esse fenômeno trouxe irregularidades muito grandes na distribuição das chuvas para o ano de 1998 que teve seus picos nos meses de março, abril e outubro. Voltando um pouco mais, os anos de 1994 e 1995 houve a ocorrência de um El Niño moderado.
Para o ano de 1995 foi encontrada apenas duas matéria sobre eventos extremos, delas se destacou: “O feijão está apodrecendo na roça”.
“Nas últimas semanas não se fala em outra coisa, senão nas chuvas que estão destruindo a safra de feijão do Paraná e principalmente da região Centro – Sul onde o produto garante a subsistência de grande número de famílias rurais.” (Folha de Irati, ano XXI, N º 1010 Irati 21 à 27/01/1995, P.4.).
O excesso de chuva para o mês de janeiro desse ano foi muito acima da média em comparação ao El Niño de 97-98 que ficaram entre 180 a 200 mm, em 95 ficou em 385,4 mm. Mas essas chuvas foram distribuídas regularmente durante o mês. Esse foi o mês mais chuvoso desse ano. Não foi encontra nenhuma reportagem para o ano de 1994, sendo dezembro o mês mais chuvoso para esse ano com 205,0 mm e o mês mais seco agosto com 5,3 mm. Retrocedendo mais uns anos, de 1990 a 1993, ocorreu um El Niño forte. No ano de 1992 foram registradas no jornal três matérias, sendo uma delas sobre os prejuízos causados pela enchente:
Irati: 2 bilhões de prejuízos causados pela enchente.
“Os prejuízos com a enchente da semana passada em Irati chegam a CR$ 2 bilhões, 238 milhões e 5 mil. Verba para auxilio aos flagelados será reivindicada junto ao governo federal.” (Folha de Irati, ano XIX, N º 880 Irati 4 à 10/06/1992, P.1).
Esse evento bate com os dados pluviométricos do mês de maio onde choveu 456,0 mm, muito alto para esse mês que normalmente é de média 147,8 mm. Para os anos de 1990 e 1991 não foi encontrada nenhuma reportagem sobre eventos extremos, e analisando os dados de chuvas, só em janeiro de 90 houve uma grande concentração de chuva 440,5 mm, sendo que a média normal para esse mês é na casa de 200 mm. Portanto o ponto mais forte desse El Niño foi no ano de 1992. Seguindo, de 1986 a 1988 ocorreu um El Niño moderado.
Ocorreram 03 eventos La Niña considerados moderado ou forte durante os anos pesquisados. O primeiro episódio de La Niña estudado seguindo a metodologia adotada foram os anos de 1998 a 2001, sendo considerado de escala moderada. Começando pelo ano de 2001, não foram encontradas nos arquivos jornalísticos matérias relacionadas com eventos extremos pluviométricos, mas com relação aos dados pluviométricos o total anual apresentou valores de 1509,9 mm, porém as chuvas foram bem distribuídas. Em 2000 a situação foi à mesma, sem matérias relativas as chuvas e média anual ficou em 1530,1mm. No ano de 1999, com exceção de agosto que choveu apenas 6,8 mm, o restante do ano passou com chuvas bem distribuídas, porém a máxima não excedeu 340 mm mensais. A média anual ficou em 1507,6 mm. Os próximos anos na seqüência analisados são 1988 e 1989, porém como já foi mencionado antes, não foi possível pesquisar matérias desses anos devido o extravio do material jornalístico. Começando pelo ano de 1989, os dados pluviométricos evidenciam valores abaixo de 200 mm ao mês, com exceção de janeiro que teve precipitação acima do desvio padrão. Em 1988 a precipitação ficou abaixo dos 150 mm mensais, exceto no mês de maio que registrou 299,7 mm, valor muito acima do normal se comparado a agosto, mês mais seco com apenas 19,4 mm. Esse dois anos mostram que para Irati as chuvas ficam abaixo da média em comparação há anos normais ou de El Niño. Seguindo a análise, destaca-se o ano de 1985 que apesar da classificação do La Niña atuante nesse ano ser fraca, as médias pluviométricas mensais foram muito baixas (Figura 6), sendo que só em 3 meses ficaram acima de media. No total foram 7 meses abaixo do desvio de padrão, porém nos arquivos do jornal não foram encontradas matérias relacionadas com a baixa pluviosidade no ano. No mês de abril a quantidade de chuva foi bem acima da média, sendo o único mês que ficou acima do desvio padrão.
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1985 MÉDIA 1978-
Figura 6 – precipitação mensal para o ano de 1985. Fonte: INMET – Org: JULKOWSKI (2009).
Conclusão Notou-se nas análises que o evento El Niño tem uma influência mais visível com relação ao regime das chuvas quando comparado a La Niña. A correlação entre os eventos extremos e a variabilidade das chuvas foi muito evidente, coincidindo a repercussão dos mesmos com as matérias jornalísticas verificadas e conseqüentemente com a repercussão observada na cidade. No caso da La Nina, as chuvas ficaram abaixo da média em sua maioria, mas não tão significativas a ponto de criar eventos extremos de repercussão na mídia local, apesar de evidente nos dados meteorológicos. Não se descarta a influência do Oceano Atlântico no clima regional e local, o que explicaria alguns eventos extremos mesmo em períodos de El Niño e La Niña fracos, assim como a Oscilação Decadal do Pacífico, com influência direta tanto em escala global como na própria dinâmica do ENOS. Espera-se com essa pesquisa auxiliar trabalhos futuros envolvendo os índices oceânicos e o clima regional e local, contribuindo tanto para o desenvolvimento da área de estudo como para benefício da população que depende em grande parte da agricultura.