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MATURANA - MATURANA
Tipologia: Notas de estudo
1 / 270
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Humberto Maturana
EMOÇÕES E LINGUAGEM NA
EDUCAÇÃO E NA POLÍTICA
TRADUÇÃO DE JOSÉ FERNANDO CAMPOS FORTES
3a Reimpressão
Belo Horizonte
Editora UFMG
2002
Este livro ou parte dele não pode ser reproduzido por qualquer meio sem
autorização escrita do Editor.
EDITORAÇÃO DE TEXTO
Ana Maria de Moraes
PROJETO GRÁFICO
Glória Campos (Manga)
CAPA
Paulo Schmidt REVISÃO DE PROVAS
Flávia Silva Bianchi
Maria Aparecida Ribeiro
Maria Diana C. Santos
Maria Stela Souza Reis
PRODUÇÃO GRÁFICA
Warren de Marilac Santos
FORMATAÇÃO
Eduardo Ferreira
REVISÃO TÉCNICA E DF. TRADUÇÃO
Cristina Magro
Maíra Evo Magro
EDITORA UFMG
Av. Antônio Carlos, 6627 - Ala direita da Biblioteca Central - Térreo
Campus Pampulha - 31270-901 - Belo Horizonte/MG
Tel.: (31) 3499-4650 Fax: (31) 3499-
E-mail: [email protected] http://www.editoras.com/ufmg
A Biologia da Educação ............................................. ......
O Que é Educar? .............................................. .................
Conhecimento e Linguagem ............................................ .
O Explicar e a Experiência .......................................... .....
Objetividade-Entre-Parênteses e
Objetividade-Sem- Parênteses ........................................... 42
A Objetividade e as Relações Humanas ...........................
Racionalidade e Emoções .............................................. ...
Corporalidade ........................................ ........................
As Explicações Científicas .......................................... .....
Linguagem e Ação ................................................. ...........
Emoções e Interações Humanas: o Amor .........................
Relações Sociais e Nào- Sociais ........................................
Ética ................................................ ..............................
Constituição Política e Convivência .................................
Consta que Michel Foucault teria dito que o Século XX seria o
século de Gilles Deleuze. Se não parece óbvio o cumprimento da
profecia foucaultiana, ela sugere uma analogia para se falar de
Humberto Maturana. O próximo século, o XXI, poderá ser dito de
Humberto Maturana. Vinda de uma socióloga, essa afirmação pode
parecer suspeita aos ouvidos dos biólogos. Vejamos por quê.
A Biologia do Conhecimento, como o próprio Maturana costuma
chamar o conjunto de suas idéias, parece-me ser a grande novidade
científica da atualidade, pois permitiu a ultrapassagem da premissa
básica do pensamento ocidental, aquela que sempre opôs o biológico ao
não-biológico ou social, ou cultural. Essa mesma premissa dualista que
reaparece sob formas várias e com vários nomes — corpo x mente,
espírito x matéria, natureza x história, indivíduo x sociedade — foi uma
pedra no caminho do pensamento crítico. A importância da reflexão de
Humberto Maturana tem a ver, portanto, com a possibilidade já
antevista por Lévi-Strauss e desejada por Jacques Derrida, dentre
outros, de se estabelecer uma continuidade entre o biológico e o social
ou cultural.
A concepção de Maturana do vivo, dos seres humanos como
sistemas fechados operacionalmente, autopoiéticos e estruturalmente
determinados, inutilizou as velhas dualidades: indivíduo x sociedade,
natureza x cultura, razão x emoção, objetivo x subjetivo. Ao mostrar
que “emoções são fenômenos próprios do reino animal”, onde nós,
humanos, também nos encontramos, e que o chamado “humano” se
constitui justamente no entrelaçamento do racional com o emocional,
na linguagem, fez desabar o imperialismo da razão.
biológica básica de seres dependentes do amor, isto é, negam o outro
como legítimo outro na convivência e fazem adoecer. Instituições e
práticas baseadas no argumento da racionalidade e da obrigação são,
portanto, anti-sociais e têm de ser repensadas.
Colocando em xeque o argumento da razão, ou da racionalidade,
Humberto Maturana soltou a âncora dessa grande “construção teórica”
da cultura ocidental, o princípio da realidade. Por ter considerado a
captura do real como prova do triunfo da razão, a discussão científica
se tornou uma competição infindável de argumentos justificadores de
um suposto acesso privilegiado à realidade. Maturana, ao rediscutir os
seres vivos como seres determinados estruturalmente, incapacitou o
funcionamento do argumento da realidade, tornou-o dependente do
observador e suporte de grandes dilemas de obediência teórica.
Viver e conhecer são mecanismos vitais. Conhecemos porque somos
seres vivos e isso é parte dessa condição. Conhecer é condição de vida
na manutenção da interação ou acopla-mentos integrativos com os
outros indivíduos e com o meio.
A petulância de instituições educativas e políticas tem muito a
aprender com a simplicidade da reflexão de Maturana.
Pediram-me para responder a esta pergunta: A educação atual serve
ao Chile e à sua juventude? e, em caso de resposta afirmativa: Para quê
ou para quem? Ao mesmo tempo, pediram-me que considerasse essas
questões a partir de ângulos tão distintos quanto a sociedade e a sala de
aula, e o fizesse tendo em mente tanto os que trabalham dando aula
para os jovens quanto os que estudam o processo de aprendizagem e o
fenômeno do conhecimento, buscando compreender como se aprende, e
o que é que permite formar a juventude de um modo ou de outro.
Para responder essa pergunta e atender a esse convite, vou fazer dois
tipos de reflexão. Um, relativo a para que serve a educação, e outro
sobre o humano, considerando a pergunta: O que é ser um ser humano?
Além disso, ao fazer tais reflexões, direi algo sobre a biologia da
educação e sobre a ética, e finalizarei com alguma conclusão geral que,
no meu entender, decorre de tais reflexões.
Quero começar com o “para quê”, por uma razão muito simples. Se
perguntamos: A educação atual serve ao Chile e à sua juventude?,
estamos formulando a pergunta a partir do pressuposto de que todos
entendemos o que ela requer. Mas será que isto acontece? O conceito
de servir é um conceito relacionai: algo serve para algo em relação a
um desejo. Nada
estudante, e outro no qual eu vejo os estudantes de hoje serem forçados
a viver.
Estudei para devolver ao país o que havia recebido dele. Estava
mergulhado num projeto de responsabilidade social. Era partícipe da
construção de um país, no qual se escutava continuamente
conversações sobre o bem-estar da comunidade nacional que seus
membros contribuíam para construir. Eu não era o único. Numa
ocasião, logo no início dos meus estudos universitários, reunimo-nos
todos os estudantes do primeiro ano para declarar nossas identidades
políticas. Quando isso aconteceu, o que me pareceu sugestivo foi que,
na diversidade de nossas identidades políticas, havia um propósito
comum: devolver ao país o que estávamos recebendo dele. Quer dizer,
vivíamos nosso pertencer a ideologias diversas como diferentes modos
de cumprir com nossa responsabilidade social de devolver ao país o que
havíamos recebido dele, num compromisso explícito ou implícito de
realizar a tarefa fundamental de acabar com a pobreza, com o
sofrimento, com as desigualdades e os abusos.
A situação e as preocupações dos estudantes de hoje mudaram.
Hoje, os estudantes se encontram no dilema de escolher entre o que
deles se pede, que é preparar-se para competir no mercado profissional,
e o ímpeto de sua