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da Feira Livre da Epatur no contexto da paisagem urbana de Porto Alegre ... “transformação das formas” do corredor da feira-livre, abrem-se possibilidades ...
Tipologia: Slides
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Não perca as partes importantes!





























































































estudo etnográfico das “artes de fazer” de feirantes e fregueses da Feira Livre da Epatur no contexto da paisagem urbana de Porto Alegre
Viviane Vedana Orientação: Cornelia Eckert
Porto Alegre, janeiro de 2004.
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul como requisito parcial para a obtenção do grau de mestre em Antropologia Social.
estudo etnográfico das “artes de fazer” de feirantes e fregueses da Feira Livre da Epatur no contexto da paisagem urbana de Porto Alegre
Viviane Vedana Orientação: Cornelia Eckert
Porto Alegre, janeiro de 2004.
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul como requisito parcial para a obtenção do grau de mestre em Antropologia Social.
À Ana Paula, pela paciência e esmero em ler e corrigir o “portuga” da dissertação;
Aos meus pais e irmãos, por tudo, principalmente pelo incentivo á leitura e ao estudo desde sempre; À colega Soraya Fleischer, pela disposição em fazer o asbstract;
Aos personagens que me possibilitaram contar esta história, Paulo Renato, Dona Alda, Dona Geni, Rita, Henrique, Cláudio e Pirilampo que dividiram seus cotidianos comigo. A Paulo Renato por me receber em sua cozinha e pela comida maravilhosa, à Dona Alda, por me levar à sua feira, à Dona Geni pelas muitas delícias com que me presenteia constantemente, à Rita pelas imagens delicadas da vida, a Henrique pelas surpresas que compartilhamos sobre a cidade, a Cláudio e Pirilampo pelo riso e pela piada. A todos, pelas muitas coisas que me ensinaram sobre as “artes de viver”; Aos colegas do GEEMPA, Ana, Sônia, Luiza, Esther, Rita , Isabel e tantos outros com que tive a oportunidade de aprender e trocar idéias, pelo compromisso e militância com as aprendizagens que me “contagiaram”; À CAPES, por ter concedido a bolsa de financiamento deste estudo.
INTRODUÇÃO ........................................................................................................... p. 10
PARTE I – ENTRANDO EM CAMPO ..........................................................................p. 14
2 A ARTE DE COZINHAR, EU ACHO, É A ARTE DE FAZER AMIGOS ........................ p. 177
PARTE IV - DE VOLTA PARA A FEIRA ..................................................................... p. 194
CONSIDERAÇÕES FINAIS........................................................................................... p. 228
BIBLIOGRAFIA ......................................................................................................... p. 230
ÍNDICE DE IMAGENS E ILUSTRAÇÕES......................................................................... p. 237
Esta dissertação trata de um estudo etnográfico sobre práticas cotidianas no contexto das feiras-livres em Porto Alegre (RS) a partir da análise das “artes de fazer”, formas de sociabilidade e performance de fregueses e feirantes da feira-Livre da Epatur. Este ato de “fazer a feira” encerra uma série de ações e gestos que evidenciam peculiaridades da “produção” do espaço urbano por certos habitantes da cidade. Em especial, estes gestos engendrados por feirantes e fregueses da feira- livre evocam formas específicas de habitar este território da cidade onde está situada a feira, o Bairro Cidade Baixa, configurando arranjos sociais particulares no que tange as trocais sociais de mercado que lá ocorrem. Enfatiza-se os atos de compra e venda de alimentos no mercado livre, as relações de sociabilidade que lá se estabelecem, a estética particular deste evento, sua ambiência –visual e sonora – como elementos que conformam este “espaço vivido” ao mesmo tempo em que tecem uma vivência particular da cidade de Porto Alegre. Neste estudo etnográfico analisa-se as “artes de nutrir” – gestos de manipulação da matéria – e “artes de dizer” – jocosidades, performances e jogos corporais para atrair clientes – respectivamente, como formas de estetizar o espaço da cidade a partir das práticas sociais de bairro.
palavras – chave: práticas cotidianas, estética urbana, artes de fazer
INTRODUÇÃO
Esta dissertação de mestrado consiste em um estudo etnográfico sobre as “artes de fazer” de fregueses e feirantes de uma feira- livre de Porto Alegre, onde procuro analisar trocas sociais de mercado de rua enquanto práticas cotidianas no âmbito de uma estética urbana. O trabalho de campo foi realizado de maio de 2002 a setembro de 2003, na feira- livre da Epatur, no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre. Inspirada em uma antropologia urbana no Brasil, nesta pesquisa ocupei- me das formas de apropriação do espaço da rua por atividades de comércio de alimentos, como a feira- livre, e as configurações que estas práticas podem evocar no contexto da cidade. Andar pelas ruas de uma cidade como Porto Alegre pode parecer uma ação ordinária, sem intenções e surpresas, visão de um cotidiano de metrópole que vive em ritmo acelerado, pessoas que se cruzam pelas ruas sem se cumprimentarem ou se conhecerem, indivíduos anônimos, na vivência fragmentada dos papéis sociais que compõem o tecido urbano (VELHO; 1981) na modernidade. No métier do antropólogo, este próprio ato de caminhar pode ser motivo de estranhamento e admiração (ECKERT; ROCHA; 2001), afinal, é a partir dele que o etnógrafo vai constituindo as paisagens urbanas no seu ato de “habitar” a cidade, na observação das formas de apropriação deste espaço por quem circula e freqüenta as ruas, as calçadas, as esquinas, as praças, enfim os lugares públicos da metrópole. Segundo Michel de Certeau (1996), toda cidade é escrita pelos trajetos dos seus habitantes, cujas formas de vida imprimem suas marcas nas ruas do centro urbano e assim conformam ou formatam este espaço a partir de suas “práticas cotidianas” ou dos “usos do espaço público” que tais práticas engendram.
A surpresa que guiou meus passos na descoberta da cidade de Porto Alegre como objeto de estudo foi a diversidade e heterogeneidade das formas de viver na cidade moderna, formas que se contrapõem e/ou se complementam nas práticas cotidianas de seus habitantes. Especialmente, gostaria de pontuar certos sistemas de práticas tradicionais, de um arcabouço de “saberes e fazeres” negociados cotidianamente pelos habitantes com as transformações urbanas que modernizam a metrópole, expressos nas maneiras como estes habitantes fazem uso de seus atos de caminhar pelas ruas da cidade nas suas práticas de comércio e de sociabilidade que se definem na própria experiência deste espaço, no próprio ato de caminhar e produzir este espaço (DE CERTEAU et alli ; 1996) a partir das práticas cotidianas. Neste sentido, foi a partir dos espaços de feiras- livres e das relações e interações estabelecidas entre seus freqüentadores que passei a me indagar sobre estas formas de vida diversas que compõem a dinâmica urbana, na qual um ato aparentemente simples, como a compra de alimentos, pode estar carregada de significados que ultrapassam a razão prática que o envolve no que tange à tessitura das relações sociais presentes à sociedade contemporânea. Na prática cotidiana de “fazer a feira” nos espaços públicos da cidade para adquirir o que será consumido no espaço doméstico durante a semana, inúmeros são os elementos simbólicos acionados para explicar a freqüência ao território da rua, que podem situar-se desde a relação de confiança com o feirante e as formas de sociabilidades aí presentes, até uma idéia de “pureza” do alimento que está sendo adquirido, em função da possibilidade de tocá-lo, escolhê- lo, experimentá- lo com todos os “sentidos”, projetando-se já, de certa forma, a “alquimia” que irá se processar no contexto da cozinha. Nesta perspectiva, para o caso desta dissertação, considero que as feiras e os mercados são identificados como elementos importantes na estrutura social do meio urbano, pois são constituintes de uma dinâmica específica de ocupação do espaço. Segundo Max Weber (1979), o aparecimento das cidades está relacionado estreitame nte com as feiras, que representavam o embrião de uma nova aglomeração humana a partir da atividade comercial. Nos estudos arqueológicos de André Leroi- Gourhan (1965), também a constituição humana das cidades, a partir da domesticação do espaço e do tempo, evidencia um caráter tecno- econômico (LEROI-GOURHAN; 1965), no qual as trocas sociais cumprem um papel fundamental na organização e coesão do grupo. No Brasil, Roberto DaMatta (1985) analisa os espaços de mercado como elementos importantes na relação entre a casa e a rua e a apropriação do espaço público. Ainda cabe citar as considerações de Lévi-Strauss (1996) em
Antes de “adentrarmos” no texto que segue, gostaria de explicitar ao leitor alguns códigos que serão utilizados ao longo da escrita, principalmente no que tange à fala dos personagens que narram esta história, a fim de facilitar “a leitura” da situação etnográfica em questão. É importante ressaltar que se tratam de “imagens sonoras” diferentes para cada situação etnográfica – a feira e sua agitação, a fala dos feirantes, um caminhar pela feira- livre acompanhada de algum informante específico e suas artes de dizer e os relatos de trajetória que se estabeleceram a partir de uma situação formal de entrevista. Para dimensionar estas diferentes imagens sonoras evocadas pela fala dos informantes é que me utilizo de diferentes formatações para estas vozes. Assim: a. Opto pela formatação em letras maiúsculas (caixa alta) para estetizar a fala dos feirantes em suas performances orais nas interações entre si ou com os clientes da feira-livre. Por exemplo:
b. Para a fala que caracteriza-se como relato, optei por uma formatação diferente da utilizada para as falas de interação na feira- livre, com letras minúsculas e itálico. Por exemplo:
- Se duvidar até os cachorros me conhecem por aqui!
c. os nomes que utilizo nesta dissertação são os nomes verdadeiros dos informantes.
PARTE I
ENTRANDO EM CAMPO
relações de trabalho “não capitalistas” em que haja uma distribuição justa dos resultados a partir da autogestão^1. Durante o processo de pesquisa de campo, pude perceber que o discurso acionado sobre “empreendimentos solidários” e seus princípios de autogestão, confrontado à realidade vivida por muitos trabalhadores destes empreendimentos, revelava um certo descompasso relacionado a uma série de fatores que pareciam apontar para a própria diversidade que existia entre estes empreendimentos, quanto às formas de vida e trajetórias sociais dos componentes destes grupos. Por outro lado, a abordagem teórico-conceitual que estava guiando meus passos nesta pesquisa de graduação me levava a analisar estes “empreendimentos solidários” de forma mais geral, na tentativa de inseri- los numa discussão ampla sobre relações de trabalho e produção, no contexto de uma estrutura social dominante, sem me deter na análise mais particularizada das formas de vida dos trabalhadores destes grupos. A opção por pesquisar a Feira do Cooperativismo Alternativo de Santa Maria/RS 2 e os empreendimentos solidários que a constituíam estava relacionada à minha atuação junto à Secretaria de Desenvolvimento do Estado do Rio Grande do Sul nos anos de 1998 a 2001, no Departamento de Economia Popular Solidária 3 e também à minha vinculação anterior com pesquisas na área da sociologia do trabalho. Neste contexto, minha monografia de conclusão de curso dedicava-se a compreender, a partir da política pública do Estado destinada a estes empreendimentos, como se constituíam as relações de trabalho no interior destes grupos, bem como qual era a influência das ideologias e princípios proferidos pelos então dirigentes do Estado na composição e no processo de trabalho destes grupos. Assim, para realizar esta pesquisa procurei estabelecer, a partir do tempo de formação destes grupos, qua is eram as peculiaridades que os constituíam como empreendimentos “não capitalistas” e se estas
(^1) “Este conceito se refere a uma forma de administração e gestão coletiva de empreendimentos ou associações nas quais os participantes interferem diretamente no processo de tomada de decisões. No caso de empreendimentos econômicos, a autogestão apresenta uma perspectiva diferenciada em relação à propriedade e ao trabalho, qual seja: a relação empregado-empregador dá lugar a relações de trabalho nas quais a produção e a gestão são assumidas por todos os participantes do grupo” (VEDANA; 2001: 18). Ver tamb ém Mance, 2000. 2 A Feira do Cooperativismo Alternativo é um evento anual que aglutina os empreendimentos solidários que formam o Projeto Esperança em Santa Maria, um dos municípios pioneiros em termos de cooperativismo no Estado do Rio Grande do Sul. 3 “Entenda-se, neste trabalho, Economia Popular Solidária como iniciativas econômicas regidas pela lógica da cooperação e da solidariedade, e que, ao mesmo tempo, conseguem alcançar níveis de acumulação, apontando- se, dessa forma, como uma alternativa de geração de renda não-capitalista”. (VEDANA; 2002: 05). “A economia solidária surge como um modo de produção de distribuição alternativo ao capitalismo, criado e recriado periodicamente pelos que encontram (ou temem ficar) marginalizados do mercado de trabalho. A economia solidária casa o princípio da unidade entre posse e uso dos meios de produção e distribuição (da produção simples de mercadorias) com o princípio da socialização destes meios” (SINGER; 2000, p. 13).Ver também Gaiger, 1999, Singer, 1997.
características estavam diretamente associadas, ou não, com os subsídios que recebiam do Estado. Na época, minha hipótese era a de que a delimitação de princíp ios “rigorosos” em termos do que seria uma economia solidária, por parte tanto dos dirigentes do Estado, como por alguns “pensadores” sobre o tema, eram adotadas discursivamente por muitos destes grupos em função da relação estabelecida com o Poder Público. Digo discursivamente, pois na “prática cotidiana” destes trabalhadores, os arranjos e negociações estabelecidos apontavam para formas de trabalho que passavam por categorias e “visões de mundo” (GEERTZ; 1989) diversas e particulares que muitas vezes não eram levadas em conta na conformação dos projetos do Estado para o incentivo financeiro ou até mesmo logístico destes grupos. Neste sentido, na minha hipótese, havia por parte do Poder Público o entendimento de que seria preciso “conscientizar” estes trabalhadores sobre um tipo específico de relação de trabalho para que a chamada economia solidária viesse a concorrer – um paradoxo nos termos desta economia solidária – ou até mesmo suplantar a dinâmica da economia capitalista. Havia assim, claramente, um tensionamento entre as visões de trabalho e produção dos participantes destes empreendimentos e os objetivos previstos pelos dirigentes do Estado na consolidação de uma política de Economia Popular Solidária, tendo em vista ser um momento na conjuntura política do Estado do Rio Grande do Sul em que estas noções de Economia Solidária ganhavam forças e articulava-se com propostas parecidas em outros países do mundo. Na observação de que este tensionamento político estava permeado de profundas diferenças em termos de “visões de mundo” (GEERTZ; 1989) e redes de significados (VELHO; 1999) entre os atores em questão, concluí que os princípios estabelecidos, tanto pelo discurso acadêmico, a partir das teorizações sobre “a nova dinâmica econômica mundial”, quanto pelo discurso do Estado que previa “uma distribuição justa e igualitária dos lucros” pareciam não abarcar aspectos importantes da complexidade deste fenômeno de trocas comerciais – que são também culturais e sociais, e, portanto, simbólicas (SAHLINS; 2003) – e de suas relações de trabalho e produção. Isto porque, principalmente questões concernentes à diversidade cultural e aos universos simbólicos que estão subjacentes às ações dos grupos humanos nas suas relações com o ambiente e com “os outros” pareciam suplantadas por discussões de teor ideológico, nas quais predominavam questões relativas à estrutura social e às relações de trabalho de uma forma geral.
memória coletiva, itinerários urbanos e formas de sociabilidade no mundo urbano contemporâneo, perceber esta forma particular de comércio de hortifrutigranjeiros, efetuada na rua, com os produtos expostos ao ar livre, como um aspecto importante das “maneiras de viver” e das “práticas cotidianas” de certos grupos urbanos, constituindo-se como práticas que de alguma maneira “formatam” o espaço da cidade, estetizando as formas de vida de alguns de seus habitantes. Estas questões me levaram a mergulhar em uma investigação etnográfica sobre práticas cotidianas de feirantes e fregueses na Feira Livre da Epatur, no bairro Cidade Baixa em Porto Alegre, no intuito de desvendar as motivações e trajetórias que levariam certos habitantes da cidade a freqüentar ou vivenciar este espaço de comércio de rua. A minha hipótese, tanto no caso de fregueses como de feirantes, se afirmava em direção a relevância da vivência destas “regiões morais” (PARK; 1979) que estão presentes na formação do espaço urbano como locais de “desordem” (ROCHA; 1994), mas que “produzem” (DE CERTEAU; 1994) a cidade, tendo em vista a multiplicidade de encontros de trajetórias diversas e de práticas sociais que são constituintes do espaço urbano no que concerne às formas de comércio de rua em Porto Alegre. Neste sentido, a questão das trocas sociais totais (MAUSS; 1974) e da reciprocidade (LÉVI-STRAUSS; 1979) se coloca como aspecto fundamental para pensar estas formas de sociabilidade e de comércio de rua que estão presentes no contexto urbano, tendo em vista os tipos de relações estabelecidas entre fregueses e feirantes das feiras-livres. A escolha por privilegiar, nesta pesquisa, a feira- livre da Epatur como objeto de estudo partiu da conjunção de vários elementos. Com uma primeira intenção exploratória, visitei algumas feiras de bairro que já conhecia na cidade, feiras que acontecem em um dia determinado da semana, em apenas um turno, que na maioria das vezes ocupam uma ou duas quadras de alguma rua. Nestes percursos pelas feiras, percebia algumas diferenças entre elas, como tamanho, uso de uniforme ou não pelos feirantes ou os tipos de produtos a serem vendidos. Essas diferenças me levaram até a SMIC (Secretaria Municipal de Produção, Indústria e Comércio de Porto Alegre), na tentativa de descobrir como estas feiras podiam ocupar determinadas ruas, que tipo de regulação da Prefeitura existia sobre estas feiras, enfim, se haviam critérios e quais eram sobre a institucionalização destas feiras na cidade. Nesta visita à SMIC fui informada que existiam diferentes tipos de feiras- livres em Porto Alegre. Destaco, para este trabalho, de um lado, as “Feiras Modelo” que são reguladas pela Prefeitura tanto no que se refere ao espaço ocupado, quanto ao uniforme dos feirantes e os preços dos produtos, e, por outro lado, o que a Prefeitura convencionou chamar de “Mercadão”, que são feiras onde o poder público regula apenas a ocupação do espaço e não os preços ou a estética
da feira- livre. Observando a listage m destas feiras que existem na cidade, vi que a feira- livre da Epatur estava no rol dos chamados “Mercadões”, o que já num primeiro momento a colocou como preferencial em relação às outras. Concomitante a esta visita à SMIC, estava ocupada também em pesquisar, no acervo de imagens da cidade que encontra-se no BIEV^4 , algumas fotos antigas de Porto Alegre que pudessem “contar- me” algo sobre estes espaços de mercado de rua. Nesta pesquisa encontrei diversas fotografias de barqueiros que vendiam frutas e verduras, com os barcos atracados na Rua da Margem, atual Rua João Alfredo, que tinha este nome pois situava-se às margens do antigo Riacho antes de sua retificação. Estas fotografias levaram- me a outras que indicavam a existência de um certo arranjo social neste espaço da cidade – território do bairro Cidade Baixa, próximo ao lugar onde hoje localiza-se o Largo da Epatur – no qual desenvolviam-se atividades de mercado de rua praticamente na beira do Rio Guaíba 5. Por outro lado, dificilmente encontrava em alguma historiografia a descrição deste local de mercado que as fotografias indicavam existir por volta dos anos 1940, na chamada parte “baixa” da cidade. O Banco de Imagens e Efeitos Visuais foi, neste sentido, uma importante fonte de pesquisa sobre a memória da cidade, levando-me a refletir sobre o valor de documento incorporado pela fotografia que “narra a cidade” a partir de imagens visuais. Debrucei- me constantemente sobre estas fotografias da cidade, cruzando-as com os relatos de informantes, na tentativa de recriar técnicas e procedimentos indiretos para uma aproximação com este local e suas formas de vida social (SIMMEL, 1979), pois tratava-se de uma memória “não escrita” que, portanto, demandava outras formas de investigação para acessá-la. A análise destas fotografias permitia- me recriar “a estética do lugar” na composição de diferentes imagens da cidade reunidas às falas e descrições dos informantes sobre alguns territórios específicos, como a Ponte de Pedra, o Arroio Dilúvio e o Riacho antes de sua retificação, as margens do Rio Guaíba antes do aterro e até mesmo a chamada “Perimetral” (Av. Loureiro da Silva). Este processo exigiu- me uma grande minúcia no trato entre as diferentes temporalidades e suas descontinuidades, apresentadas por estes dados. Fui pouco a pouco imaginando um quadro deste território da Cidade Baixa que aproximava- me dos arranjos do lugar.
(^4) Banco de Imagens e Efeitos Visuais, núcleo de pesquisa associado ao Laboratório de Antropologia Social, do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que consiste em um “museu virtual” com imagens digitais da cidade de Porto Alegre, obtidas de acervos históricos, fontes bibliográficas e coleções etnográficas de pesquisadores. 5 O “Rio Guaíba” é, geograficamente, considerado um lago, que, no entanto, é chamado de rio no contexto das lembranças dos moradores de Porto Alegre. Optei por manter a denominação de Rio Guaíba, pois é assim que o