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Febre e inflamação, Notas de estudo de Farmacologia

farmacologia

Tipologia: Notas de estudo

Antes de 2010

Compartilhado em 04/08/2009

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FEBRE E INFLAMAÇÃO
FEVER AND INFLAMMATION
Júlio C. Voltarelli
Docente. Departamento de Clínica Médica (Disciplina de Imunologia Clínica) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP
VOLTARELLI JC. Febre e inflamação. Medicina, Ribeirão Preto, v. 27, n. 1/2, p. 7-48, jan./jun. 1994.
RESUMO: Esta revisão é dividida em três partes. Na primeira, a febre é integrada ao conjunto
de eventos da resposta inflamatória, particularmente da reação da fase aguda, desde que a
maioria dos pirogênios (endógenos e exógenos) estimulam ambas as respostas. São discuti-
dos seus mecanismos patogênicos e regulatórios, seus efeitos benéficos e nocivos, concluindo
com uma análise crítica da avaliação laboratorial da atividade inflamatória em doenças huma-
nas. Na segunda parte, a fisiopatologia e o significado clínico de situações selecionadas de
aumento de temperatura corporal são considerados. Assim, as inúmeras variáveis envolvidas
na definição de estado febril são discutidas, bem como o valor cada vez mais limitado das curvas
térmicas, e a problemática da febre como manifestação isolada ou predominante (febre de
origem indeterminada) é subdividida em suas circunstâncias de ocorrência (clássica, hospita-
lar, neutropênica e associada ao HIV ). A abordagem da febre com erupção cutânea é sistemati-
zada, assim como a fisiopatologia e o diagnóstico da síndrome da fadiga crônica, das febres
benignas, da insuficiência orgânica múltipla e das síndromes clínicas associadas à hipertermia.
Finalmente, em vista das novas informações disponíveis sobre a participação das várias citoci-
nas e de outros mediadores na patogênese e função protetora da febre e sobre o mecanismo de
ação dos antitérmicos, são apresentados alguns critérios para auxiliar o clínico a indicar e
selecionar a terapia antipirética para febre e hipertermia.
UNITERMOS: Febre. Resposta Inflamatória. Reação de Fase Aguda. Febre de Origem Inde-
terminada. Antipiréticos.
1
Medicina, Ribeirão Preto, Simpósio:SEMIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA CLÍNICAS
v. 27, n. 1/2, p. 7-48, jan./jun. 1994 Capítulo I
A evolução exponencial das ciências médicas
e da disponibilidade de novos recursos diagnósticos e
terapêuticos tornou insuficientes, e muitas vezes ob-
soletos, os conhecimentos semiológicos clássicos e
complicou, sobremaneira, a missão cardinal do médi-
co de dispensar o melhor atendimento disponível ao
seu paciente.
Há dez anos, publicamos, nesta mesma Revis-
ta, revisão de cunho didático sobre a patogênese, fisi-
opatologia e significado clínico da febre (Voltarelli &
Falcão, 1984). Este conjunto de conhecimentos, em-
bora válidos em seus princípios e úteis como guia in-
trodutório, não são suficientes atualmente para o mé-
dico avaliar e conduzir os casos de febre que se apre-
sentam em situação ambulatorial ou hospitalar. Na-
quela época, já se reconhecia a resposta febril como
parte integrante da reação inflamatória aguda, sendo
mediada predominantemente por uma citocina, a in-
terleucina-1 (IL-1), de efeitos múltiplos sobre vários
tecidos. Do mesmo modo, era reconhecida a partici-
pação da febre nos mecanismos protetores do orga-
nismo contra infecções e neoplasias, questionando-se,
portanto, o uso rotineiro de antitérmicos em qualquer
elevação da temperatura corporal. Neste período de
dez anos, houve um enorme progresso no entendimento
dos mecanismos bioquímicos envolvidos na reação
inflamatória e na resposta febril, principalmente na par-
ticipação de outros mediadores além da IL-1 e nas
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FEBRE E INFLAMAÇÃO

FEVER AND INFLAMMATION

Júlio C. Voltarelli

Docente. Departamento de Clínica Médica (Disciplina de Imunologia Clínica) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto - USP

VOLTARELLI JC. Febre e inflamação. Medicina, Ribeirão Preto, v. 27, n. 1/2, p. 7-48, jan./jun. 1994.

RESUMO: Esta revisão é dividida em três partes. Na primeira, a febre é integrada ao conjunto de eventos da resposta inflamatória, particularmente da reação da fase aguda, desde que a maioria dos pirogênios (endógenos e exógenos) estimulam ambas as respostas. São discuti- dos seus mecanismos patogênicos e regulatórios, seus efeitos benéficos e nocivos, concluindo com uma análise crítica da avaliação laboratorial da atividade inflamatória em doenças huma- nas. Na segunda parte, a fisiopatologia e o significado clínico de situações selecionadas de aumento de temperatura corporal são considerados. Assim, as inúmeras variáveis envolvidas na definição de estado febril são discutidas, bem como o valor cada vez mais limitado das curvas térmicas, e a problemática da febre como manifestação isolada ou predominante (febre de origem indeterminada) é subdividida em suas circunstâncias de ocorrência (clássica, hospita- lar, neutropênica e associada ao HIV ). A abordagem da febre com erupção cutânea é sistemati- zada, assim como a fisiopatologia e o diagnóstico da síndrome da fadiga crônica, das febres benignas, da insuficiência orgânica múltipla e das síndromes clínicas associadas à hipertermia. Finalmente, em vista das novas informações disponíveis sobre a participação das várias citoci- nas e de outros mediadores na patogênese e função protetora da febre e sobre o mecanismo de ação dos antitérmicos, são apresentados alguns critérios para auxiliar o clínico a indicar e selecionar a terapia antipirética para febre e hipertermia.

UNITERMOS: Febre. Resposta Inflamatória. Reação de Fase Aguda. Febre de Origem Inde- terminada. Antipiréticos.

Medicina, Ribeirão Preto, Simpósio: SEMIOLOGIA E FISIOPATOLOGIA CLÍNICAS v. 27, n. 1/2, p. 7-48, jan./jun. 1994 Capítulo I

A evolução exponencial das ciências médicas

e da disponibilidade de novos recursos diagnósticos e

terapêuticos tornou insuficientes, e muitas vezes ob-

soletos, os conhecimentos semiológicos clássicos e

complicou, sobremaneira, a missão cardinal do médi-

co de dispensar o melhor atendimento disponível ao

seu paciente.

Há dez anos, publicamos, nesta mesma Revis-

ta, revisão de cunho didático sobre a patogênese, fisi-

opatologia e significado clínico da febre (Voltarelli &

Falcão, 1984). Este conjunto de conhecimentos, em-

bora válidos em seus princípios e úteis como guia in-

trodutório, não são suficientes atualmente para o mé-

dico avaliar e conduzir os casos de febre que se apre-

sentam em situação ambulatorial ou hospitalar. Na-

quela época, já se reconhecia a resposta febril como

parte integrante da reação inflamatória aguda, sendo

mediada predominantemente por uma citocina, a in-

terleucina-1 (IL-1), de efeitos múltiplos sobre vários

tecidos. Do mesmo modo, era reconhecida a partici-

pação da febre nos mecanismos protetores do orga-

nismo contra infecções e neoplasias, questionando-se,

portanto, o uso rotineiro de antitérmicos em qualquer

elevação da temperatura corporal. Neste período de

dez anos, houve um enorme progresso no entendimento

dos mecanismos bioquímicos envolvidos na reação

inflamatória e na resposta febril, principalmente na par-

ticipação de outros mediadores além da IL-1 e nas

Voltarelli JC

suas interações neuroendócrinas. Além disto, surgi-

ram novas condições clínicas associadas a febre, como

a AIDS e as síndromes da fadiga crônica e da libera-

ção de citocinas, e a terapêutica sintomática da febre

continuou a ser avaliada criticamente à luz de novos

conhecimentos farmacológicos e imunológicos. Estes

avanços constituem o objetivo desta revisão, que per-

siste em seu objetivo didático e seu enfoque clínico e

não pretende repetir o conteúdo do artigo anterior.

1. A RESPOSTA DE FASE AGUDA

Todos os organismos vivos, desde os procarion-

tes até o Homem, possuem mecanismos adaptativos

para responder a estímulos agressivos no sentido de

manter o equilíbrio homeostático. Nos vertebrados, esta

resposta inclui uma série de alterações bioquímicas,

fisiológicas e imunológicas coletivamente denomina-

das inflamação. Na maioria das vezes, os mediado-

res inflamatórios (produtos de leucócitos e plaquetas

ativados, do metabolismo do

ácido araquidônico-prosta-

glandinas e leucotrienos-e das

cascatas da coagulação e do

complemento) agem local-

mente no sentido de restrin-

gir as conseqüências e a ex-

tensão do dano tecidual. Nes-

te caso, o processo inflama-

tório tem apenas repercus-

sões locais (numa tendinite

ou uma foliculite, por exem-

plo) ou passa completamen-

te desapercebido (como em

microtraumatismos de pele

ou mucosas) (Figura 1A).

Em condições em que esta

capacidade homeostática lo-

cal é superada, ou pela mag-

nitude do estímulo agressor

ou pela insuficiência dos me-

canismos reguladores, a res-

posta inflamatória extravasa

os limites do seu microam-

biente e pode se manifestar

de modo sistêmico em todo o

organismo (Figura 1B) ou ain-

da, dependendo da quantida-

de de citocinas liberadas,

pode ter conseqüências ca-

tastróficas, na forma de choque circulatório grave.

(Figura 1C)(1)^.

Em 1930, foi descrita no soro de pacientes com

infecções agudas uma proteína que precipitava o

polissacarídeo C da cápsula do pneumococo (a prote-

ína C-reativa ou PCR ) e em 1941 foi introduzido o

termo “fase aguda” para descrever as alterações

séricas observadas nestes pacientes (4, 5, 6, 54)^. Atual-

mente se sabe que, além das infecções, muitas outras

formas de injúria tecidual, como trauma, isquemia,

neoplasias e hipersensibilidade, desencadeiam altera-

ções na concentração de várias proteínas plasmáti-

cas, conhecidas como “proteínas de fase aguda”

(PFAg). Elas constituem apenas uma parte da “rea-

ção ou resposta de fase aguda” (RFAg) que inclui

febre, leucocitose e anormalidades metabólicas que

produzem variada manifestação clínica e laboratorial

(vide Secções 2 e 4). Como mostra a Tabela I, na

resposta inflamatória as várias PFAg exibem diferen-

tes alterações na sua concentração sérica (muito ou

LPS TNF IL-1 IL-6 IL- ou outro estímulo

BAIXA [C] MODERADA [C] ALTA [C] Resistência Cérebro Coração periférica Leucócito Débito cardíaco Febre

Célula Endotelial Fígado Vaso sanguíneo

Trombo Proteínas de fase aguda Fígado Músculo

Hipoglicemia

INFLAMAÇÃO EFEITOS SISTÊMICOS CHOQUE CIRCULATÓRIO Ex.: tendinite, foliculite

A B C

Ex.: pneumonia, artrite reumatóide, infarto, neoplasia

Ex.: choque séptico, SARA, politraumatismo, pancreatite aguda

Figura 1 - Diferentes conseqüências clínicas do processo inflamatório, induzido por endotoxina bacteriana (LPS) ou outros estímulos, dependendo das concentrações ([C]) de citocinas liberadas no sítio da inflamação. As citocinas pró-inflamatórias IL-1, IL-6 e IL-8 podem ser estimuladas via TNF (setas grossas superiores) ou diretamente pelo estímulo desenca deante (setas finas superiores). Adaptada da ref. 1.

Voltarelli JC

Marginação Quimiotaxia

broblastos e células endoteliais, causando a liberação

de um segundo conjunto de citocinas que incluem, além

dos próprios IL-1 e TNF, também IL-6 e IL-8 e as

proteínas inflamatória (MIP-1) e quimiotática (MCP)

de macrófago. Esta última proteína, juntamente com

IL-1, IL-8 e TGF -β, atrai para o foco inflamatório

monócitos e neutrófilos, os quais, por sua vez, secretam

um terceiro conjunto de citocinas, incluindo o TNF e

outros fatores quimiotáticos, que retroalimentam o pro-

cesso inflamatório. O endotélio vascular desempenha

papel central na comunicação entre o sítio inflamató-

rio e os leucócitos circulantes, tanto pela expressão

de moléculas de adesão (das famílias de ICAM e

ELAM), que facilitam a migração tecidual de monó-

citos e neutrófilos, como pela modificação do tônus

vascular mediado por metabólitos do ácido araquidô-

nico (prostaglandinas, tromboxane e leucotrienos), pelo

óxido nítrico e pelas cininas, causando vasodilatação

(eritema), aumento da permeabilidade vascular (ede-

ma) e hipotensão arterial. A outra manifestação car-

deal da inflamação, a dor, é mediada, além das prosta-

glandinas, pela bradicinina, um nona-pep tídio liberado

pelo sistema cininogênio (também uma PFAg )-cinina,

que também participa da ativação da cascata da coa-

gulação (6, 47, 48)^ (Tabela III).

O fígado é o alvo principal dos mediadores in-

flamatórios sistêmicos, suprindo os metabólitos essen-

ciais para a resposta de estresse e os componentes

necessários para a defesa de primeira linha no sítio de

inflamação, restringindo os limites da lesão tecidual,

clareando agentes agressores e auxiliando no reparo

celular. Através de seus receptores específicos, o

hepatócito responde a quatro tipos de mediadores da

resposta inflamatória (6)^ : 1) Citocinas do tipo IL-

(IL-1α, IL-1β, TNFα, TNFβ) que estimulam a produ-

ção hepática da proteína C-reativa (PCR), do compo-

nente C3 do complemento, haptoglobina, amilóide sé-

rico A ( SAA ) e aglicoproteína ácida, constituindo as

PFAg do tipo 1; 2) citocinas do tipo IL-6 (IL-6,

IL-11, fator inibitório de leucemia (LIF), oncostatina

M (OSM) e fator neurotrófico ciliar (CNTF), que es-

timulam, pelo receptor gp130, a maioria das PFAg do

tipo 1 e, mais especificamente, o fibrinogênio, hapto-

globina e as antiproteases α1-antiquimiotripsina, α1-

antitripsina, α2-macroglobulina e a ceruloplasmina,

constituindo as PFA g do tipo 2 (2)^ ; 3) glicocorticói-

des: agem sinergisticamente com as citocinas do tipo

IL-1 e IL-6 estimulando a produção de algumas PFAg,

principalmente a a glicoproteína ácida. Entretanto, a

ação mais importante dos glicocorticóides na

RFAg é a de inibir a produção de citocinas pelos

macrófagos e células endoteliais , impedindo que

sua ativação continuada tenha conseqüências lesivas

aos tecidos; 4) fatores de crescimento: juntamente

com os glicocorticóides, estes hormônios, como a in-

sulina, os fatores de crescimento do hepatócito (HGF)

e do fibroblasto (FGF) e o fator de crescimento

transformante (TGF -β) modulam a resposta hepática

SANGUE ENDOTÉLIO TECIDO

FEBRE

IL-1, IL6 SNC TNF Tecido Inflamado

Plaquetas

Cortisol TGF-β (^) Fagócito Mononuclear IL-1, TNF (^) Estroma

Monócito

IL- MCP

IL-

IL-6 Hepatócito

ICAM-

Neutrófilo

ELAM-

IL-1, TNF (^) Proteína de fase aguda

IL-

Figura 2 - Mecanismo molecular da resposta de fase aguda. No foco inflamatório, macrófagos (fagócitos mononucleares) liberam inicialmente duas citocinas (IL-1 e TNF) que agem sobre o estroma e endotélio adjacentes estimulando outras citocinas e iniciando o acúmulo de células inflamatórias com o auxílio do TGF-b produzido pelas plaquetas. As respostas hepática e do eixo hipotálamo- hipófise-adrenal, incluindo a febre, são ativadas por uma segundo conjunto de citocinas (IL-1, IL-6, TNF, IL-8 e outras). Abreviaturas na legenda da Tabela III. Traduzida da ref. 6.

Febre e inflamação

às linfocinas. A insulina, por exemplo, inibe a ação das

citocinas do tipo IL-1 e IL-6 sobre os genes das PFAg,

o mesmo acontecendo com o TGF-β em relação à

IL-1. Além dos glicocorticóides e dos fatores de cres-

cimento, vários outros componentes da cascata infla-

matória possuem função inibitória, entre eles os anta-

gonistas de receptores (para IL-1 e TNF) e, principal-

mente, as citocinas do tipo Th2 (vide Secção 2.4.),

que antagonizam a produção e as ações fisiológicas

das citocinas do tipo IL-1 e IL-6. Deste modo, parece

que as citocinas do tipo Th2 (IL-4 e IL-10 principal-

mente) liberadas no sítio inflamatório, em conjunto com

os glicocorticóides produzidos pela estimulação do eixo

hipotálamo-hipófise-adrenal, são suficientes para re-

gular o término da RFAg. De fato, a IL-10, por exem-

plo, protege camundongos dos efeitos letais do cho-

que endotóxico (6)^ e a corticoesterona é necessária para

a sobrevivência de ratos ao choque hemorrágico.

A Tabela III apresenta os mediadores dos

principais fenômenos inflamatórios locais e sistêmi-

cos, com suas respectivas manifestações clínicas e

laboratoriais.

2. Funções fisiológicas e patológicas da reação

de fase aguda

A complexidade e multiplicidade dos eventos

biológicos associados à RFAg dificultam sobremanei-

ra a dissecção de seus efeitos protetores e agressores,

os quais são, em sua grande maioria, ainda desconhe-

cidos. Avanços recentes permitiram classificar estes

efeitos da RFAg em três categorias distintas (4,5,6,47,48).

2.1. Ação biológica direta das PFAg

Coletivamente, as PFAg agem, na sua maio-

ria, como anti-proteases, fatores coagulantes ou

cicatrizantes, com ação protetora contra a destruição

tecidual associada à inflamação (2)^ (Tabela I). Recen-

temente, verificou-se também que certas PFAg como

a PCR e a antitripsina podem controlar retroativamente

a função das citocinas indutoras da RFAg, estimulan-

do, por exemplo, a síntese do inibidor solúvel de IL-1,

o IL-1 RA (51)^. Algumas das PFAg podem ter efeitos

patológicos quando produzidas cronicamente, como

veremos a seguir (48)^.

TABELAIII:CARACTERÍSTICASDOSFENÔMENOSINFLAMATÓRIOSLOCAISESISTÊMICO S

TI PODERESPOST A ME DIADORES MANIFESTAÇÕESCLÍNICAS

ELABORATORIAIS

RespostasLocai s Aumentodapermeabilidad e vascularevasodilatação Sensibilizaçãodasterminações sensitivas Ativaçãoendotelial

Aminasvasoativas,cininas,PAF, LTD 4 ,C 5 a PG,bradicinina,histamina, serotonina

IL- 1 ,IL- 8 ,MCP,LTB 4 ,ICAM,

ELAM,TNF,C 5 a

Edema,eritema,calorlocal

Dor,hiperalgesia

Quimiotaxia,fagocitose, coagulação,extravasamento capilar

RespostasSistêmica s EstimulaçãohepáticadasPFA g

LiberaçãodePMNdamedula óssea Estimulaçãohipotalâmica Estimulaçãodosistemaimune

IL- 1 ,IL- 6 ,TNF,IL- 11 , OSM,

LIF

G-CSF,GM-CSF,IL- 3

IL- 1 ,IL- 6 ,TNF,IL- 8 ,MIP- 1 ,

PG

IL- 1 ,IL- 6

≠ complemento,fibrinogênioe VH S,Ø albumina Leucocitose Febreehipercortisolismo Maioreficiênciadarespostade linfócitosTeB

PAF:fatorativadordeplaquetas,LTD 4 :leucotrienoD 4 ,MCP:proteínaquimiotáticaderivadademacrófago,ICAM:molécula intercelulardeadesão,ELAM:moléculadeadesãoleucocítica-endotelial,TNF:fatordenecrosetumoral,OSM:oncostatinaM,LIF: fatorinibidordeleucemia,G-CSF:fatorestimuladordecolôniasdegranulócitos,GM-CSF:fatorestimuladordecolôniasde granulócitosemacrófagos,MIP- 1 :proteínainflamatóriademacrófago- 1 ,PG:prostaglandina,VHS:velocidadede hemossedimentação.Modificadadaref. 47.

Febre e inflamação

como na AIDS e em várias outras doenças crônicas,

as ações metabólicas dos pirogênios podem ter signi-

ficativa morbidade, causando desnutrição, osteoporo-

se, anemia da doença crônica e fibrose em tecidos

inflamados(9, 13-17, 20, 36)^. Além disto, um episódio único

de febre (> 37,8 ºC) no primeiro trimestre da gestação

duplica o risco de malformações do tubo neural no

feto (20)^.

O mecanismo patogênico destas alterações é

multifatorial e incompletamente desvendado (Tabela

IV). A anemia da doença crônica, por exemplo, pode

ser atribuída à inibição central da eritropoese mediada

pelo TNF e à hipotransferrinemia induzida pela rea-

ção de fase aguda hepática, enquanto a fibrose asso-

ciada à inflamação crônica pode ser decorrente da

estimulação da síntese de colágeno e da proliferação

fibroblástica. A caquexia observada em neoplasias e

outras condições inflamatórias crônicas resulta da

combinação entre anorexia, diminuição da síntese de

albumina, miólise/lipólise, hipoglicemia e anemia(49)^ ,

cada um destes distúrbios sendo mediado por um con-

junto de citocinas, com participação variável das pros-

taglandinas (Tabela IV). Nem sempre é possível atri-

buir-se uma propriedade biológica a uma citocina indi-

vidualmente, devido à complexa rede de interações

entre elas. O TNF e a IL-1, por exemplo, induzem

não só sua própria secreção como a de IL-6 e IL-8,

as quais poderiam mediar ações biológicas inicialmente

atribuídas àquelas citocinas. A administração terapêu-

tica de IL-2, por exemplo, produz febre através da

secreção de TNF, pois a IL -2 por si não tem proprie-

dades pirogênicas (14, 58), o mesmo ocorrendo com o

GM-CSF. De modo geral, a IL-1 e o TNF têm propri-

edades superponíveis, pirogênicas e pró-inflamatórias

e a IL-6 é a mais potente indutora de proteínas de

fase aguda e a que melhor se correlaciona com a

magnitude da febre e com a gravidade de doenças

infecciosas (Secção 3). Por outro lado, ela inibe as

ações inflamatórias da IL-1 e do TNF, pois é secretada

por linfócitos do tipo Th2 (Secção 2.4). Os IFN, por

sua vez, inibem as atividades osteoclástica e fibroblás-

tica da IL-1 e parecem ter papel pirogênico e pró-

inflamatório predominantemente em infecções virais

e doenças auto-imunes (Secção 4).

2.4. RFAg em doenças parasitárias

Em modelos animais de infecções parasitárias,

a produção de PFAg tem mostrado efeitos contraditó-

rios, seja protegendo o hospedeiro (como a PCR na

malária do rato), seja contribuindo para a evasão do

parasita, quando este incorpora a PFAg em sua mem-

brana e elude a resposta imunológica (em Trychomonas,

Leishmania e T.cruzi ). Há poucos estudos de RFAg

em parasitoses humanas; na malária, por exemplo, não

há correlacão entre as alterações das PFAg e a evolu-

ção clínica, medida pela magnitude e duração da febre

e da parasitemia e pela gravidade da doença. Na es-

quistossomose humana, ao contrário da murina, não

ocorre aumento das PFAg no período de formação de

granulomas hepáticos. Entre as parasitoses intestinais,

a ancilostomíase induz, provavelmente, o maior estí-

mulo para a produção de PFAg , enquanto infecções

intestinais por giárdia e por Hymenolepis produzem

os maiores graus de hipoalbuminemia em crianças, o

que se correlacionou com retardo de desenvolvimen-

to. As citocinas participantes da RFAg induzida por

parasitas estão sendo extensivamente estudadas, mas

não emergiu ainda um quadro coerente de seu perfil e

suas interações nas várias doenças. O TNF e a IL-

por exemplo, estão elevados na malária, tripanosso-

míase e leishmaniose, o IFN-γ na doença de Chagas e

a IL-6 na malária (47, 52).

TABELAIV:MANIFESTAÇÕESCLÍNICO-LABO -

RATORIAISMEDIADASPELOSPIROGÊNIOS

ENDÓGENOSCLÁSSICOS

MA NIFESTAÇÕE S IL - 1 TN F IL - 6 IFN

Febre** Sonolência Anorexia* Mialgias,atralgias** Mióliseelipólise* Hipoglicemia Reabsorçãoóssea* Anemia Leucocitose* Proteínasdefaseaguda Hipergamaglobulinemia Extravasamentocapilar* Choquecirculatório* Fibrose

_

_

_

_

_

_

_

_

_

_ _ _ _ _ _ _ + _ _

efeitosmediadostotalouparcialmenteporprostaglandinas e,portanto,inibidosporanti-inflamatóriosnão-esteroidais.

Voltarelli JC

Baseados em estudos com clones de linfócitos

T murinos, foi proposta uma dicotomia no padrão de

secreção de linfocinas pelas células T auxiliares (Th),

em que um precursor Thp (apenas produtor de IL-2)

se diferenciaria em células Th0, de características

mistas, e estas, em subpopulações Th1 ou Th2 (40)^ (Ta-

bela V). Os fatores que determinam esta diferencia-

ção não são completamente conhecidos, mas incluem

o tempo de estimulação (curto para Th0 e longo para

Th1 ou 2), o microambiente em que ocorre (macrófa-

gos do fígado apresentam antígenos para células Th

e não para Th2, IL-4 e IL-10 inibem o desenvolvimen-

to de clones Th 1 enquanto IFN-γ inibe Th2 e IL-

estimula Th1) e, presumivelmente, o estímulo desen-

cadeante. As células Th1 produziriam um grupo de

citocinas (IL-2, TNF-β, IFN-γ) com propriedades pró-

inflamatórias e de estímulo à imunidade celular e, por-

tanto, com efeito protetor nas infecções intracelula-

res, entre as quais se incluem a maioria das parasitoses.

Por outro lado, as citocinas do tipo Th2 (IL-4, IL-5,

IL-6, IL-10), além de controlar as do tipo Th1, estimu-

lariam a produção de anticorpos e teriam uma ação

até facilitadora no desenvolvimento das infecções in-

tracelulares. A limitação desta generalização é demons-

trada, por exemplo, pelo papel patogênico do TNF, uma

linfocina Th1, e não da IL-6 (Th2), na malária cere-

bral, pela indução de RFAg protetora pelo IL-1 e IL-

ainda na malária(52)^ e pela possibilidade da ativação de

células Th1 desencadearem reações inflamatórias

auto-imunes(40)^. De qualquer modo, o alcance prático

destes novos conhecimentos, mesmo que incipientes,

pode ser apreciado pelo sucesso terapêutico da admi-

nistração de IFN-γ em pacientes com calazar(3)^ ou com

micobacterioses disseminadas (22)^ resistentes à quimio-

terapia tradicional. Experiências como estas deverão

se multiplicar em futuro próximo para várias outras

doenças infecciosas, auto-imunes ou alérgicas (40)^ , que

poderão ser tratáveis com citocinas, seus inibidores e,

eventualmente, com PFAg.

TABELAV:DICOTOMIAFUNCIONALDESUBPOPULAÇÕESDELINFÓCITOSTAUXILIARE S

C ITOCIN A TH 0 RE^ STPHO 1 STA TH 2 CÉ^ FLO UNLTAES- CÉ^ ALLU VLOAS- FUNÇÕESPRINCIPAIS

IL- 2

IF N-g TN F - a TN F - b GM-CS F

IL- 12

IL- 3

IL- 4

IL- 5

IL- 6

IL- 10

IL- 13

TG F-b

NT

NT

NT

NT

NT

NT

_ _ _ _ _ _

_ _ + _ + _

Th Th,Tc,NK M,Ta,NK Ta M,Ta,End

M

Th Th,mast

Th M,End Th

Th T,M,PL

T,B,NK

NK,M,End PMN,End PMN,End,NK p(hematop) PMN,M NK,T p(hematop) M B B,Eos B M B M,B T,M

proliferação,ativação ativação inflamaçãosistêmica inflamaçãolocal x e diferenciação ativação ativação,diferenciação x multipotencial Ø ativação produçãodeIgs,IgE proliferação,ativação proliferação Ø produçãodecitocinas, ativação igualàIL- 4 Ø x eativação,quimiotaxia

TNF:fatordenecrosetumoral,GM-CSF:fatorestimulantedecolôniasdegranulócitosemacrófagos,Th:Thelper,Tc:Tcitotóxico,NK: "naturalkiller”,Ta:Tativado,M:macrófago,End:endotelial,PMN:polimorfonuclearneutrófilo,p(hematop):precursorhematopoético, Eo s:eosinófilo,mast:mastócito,x:proliferação,TGF-b :fatordecrescimentotransformante,PL:plaquetasNT:nãotestado.Adaptadadas ref. 1 , 36 e 40.

Voltarelli JC

elevação das PFAg; a maioria das viroses, a esclero-

dermia, o lúpus eritematoso sistêmico e a colite ulce-

rativa constituem alguns exemplos desta exceção (16)^.

N estas doenças, a ausência da resposta hepática de

fase aguda e de neutrofilia pode ser atribuída a inibi-

dores circulantes d e IL-1 e TNF ou à participação do

s IFN , pobres indutores de RFA g, como principais

citocinas de fase aguda (vide Secção 2).

No futuro, a quantificação sérica de citocinas

poderá proporcionar, para o clínico, um entendimento

fisiopatológico mais completo do processo inflamató-

rio do que o proporcionado pelas PFAg , auxiliando o

diagnóstico e, principalmente, a aplicação de terapêu-

ticas específicas dirigidas aos efeitos destas citocinas

(vide Secções 8 e 9). A experiência obtida até agora

com dosagens imunoquímicas (radio imunoensaio e

ELISA ) de citocinas em grupos limitados de pacien-

tes com doenças inflamatórias permite tirar as seguin-

tes conclusões (13-16)^ : 1) o pico febril aparece algumas

horas (1 a 2,5 h) após o das citocinas e não há corre-

lação entre eles, nem quanto à cinética nem quanto

aos níveis atingidos; 2) IL-1 e TNF permanecem ele-

vados por um breve período, enquanto a IL-6 é a mais

persistente, o que explica sua melhor corre lação com

a febre e com as manifestações patológicas de várias

doenças infecciosas; 3) pode haver dissociação entre

a elevação plasmática das citocinas e a presença de

sinais infla matórios, causada pela ligação destas cito-

cinas com proteínas plasmáticas, inclusive PFAg, o u

pelo uso de AINE, que inibem certas manifestações

clinicas (Tabela IV), mas aumentam os níveis das ci-

tocinas; 4) citocinas pirogênicas estão elevadas em

várias doenças inflamatórias (septicemia, queimadu-

ras, malária, rejeição a transplantes, artrite reu

matóide), mas também em condições fisiológicas (ovu-

lação e exercício físico) e até em alguns indivíduos

normais. Por outro lado, deficiências na produção de

citocinas foram observadas em várias doenças, com

significado indefinido. Portanto, serão necessários

muitos estudos para se determinar a sensibilidade e

especificidade da quantificação das citocinas antes que

possa ser usada na prática clínica.

4. PATOGÊNESE DA FEBRE E DAS MANI-

FESTAÇÕES ASSOCIADAS

Das várias consequências clínicas da RFAg, a

mais importante do ponto de vista fisiopatológico e clí-

nico é, sem dúvida alguma, a febre. Ela ocorre pela

ação de algumas citocinas (os pirogênios endógenos)

sobre os centros termorreguladores do hipotálamo,

elevando o limiar térmico (que normalmente é contro-

lado rigidamente em torno de 37ºC) e desenca deando

respostas metabólicas de produção e conservação de

calor (tremores, vasoconstricção periférica, aumento

do metabolismo basal) (Figura 3). Quando a tempera-

tura corporal ultrapassa o novo limiar, são desencade-

ados mecanismos de dissipação de calor (vasodilata-

ção periférica, sudorese e perspiração) que tendem a

reduzi-la novamente. Deste modo, na resposta febril

a termorregulação é preservada, ainda que em nível

mais elevado, mantendo-se inclusive o ritmo circadiano

fisiológico (tº máxima entre 16 e 20 h, mínima entre 4

e 6 h).

TABELA VII: UTILIDADE DIAGNÓSTICA DAS PROTE-

ÍNAS DE FASE AGUDA

I. Diagnóstico diferencial Pileonefrite vs. cistite Pneumonia vs. bronquite Artrite reumatóide vs. osteoartrose Artrite psoriásica vs. psoríase Infarto do miocárdio vs. angina estável (30) Meningite bacteriana vs. meningite asséptica Tuberculose pulmonar vs. sarcoidose Trombose venosa profunda Apendicite aguda

- Presença de infecção oculta . Em recém-nascidos . No pós-operatório . Superposta a doenças crônicas

II. Monitoramento de atividade inflamatória

Doenças reumáticas Artrite reumatóide juvenil e do adulto Polimialgia reumática/arterite temporal Lúpus eritematoso sistêmico Espondilite anquilosante Síndrome de Reiter Artrite gotosa aguda e crônica Vasculite sistêmica Outras condições Pancreatite Doença inflamatória intestinal Transplantes renal e de medula óssea(56)

III. Indicadores de prognóstico Artrite reumatóide juvenil Artrite reumatóide do adulto Angina instável (30)

Adaptada das ref. 5 e 54.

Febre e inflamação

A geração de calor pela ativação simpática do

“tecido adiposo marron” indepen dente de tremores

musculares (termogênese ”non-shivering”) pode as-

sumir papel proeminente em algumas situações clíni-

cas (febre dos recém-nascidos, hipertermia maligna

ou associada ao feocromocitoma) (35)^.

Há uma enorme variedade de pirogênios exó-

genos (microorganismos intactos, produtos microbia-

nos, complexos imunes, antígenos não-microbianos,

drogas e outros agentes farmacológicos), mas apenas

um número limitado de pirogênios endó genos foram

identificados: as citocinas IL-1, TNF , IFN e IL-6 (1,13-

16,20,55) e, mais recentemente, entre outros, a IL-8 e o

MIP -1(63, 64)^ (Figura 3). O mecanismo exato da ação

pirogênica destas substâncias não é conhecido e pa-

rece diferir entre estes dois grupos de citocinas: as

quatro primeiras, ao caírem na circulação a partir do

foco inflamatório, estimulam a produção de prosta-

glandina E2 p or várias células (endoteliais, macrofá-

gicas e até neurônios) na vizinhança dos centros

termorreguladores hipotalâmicos, mais especificamen-

te em uma região ricamente vascularizada e despro-

vida de barreira hematoencefálica localizada na por-

ção ânte ro-ventral do terceiro ventrículo (o ”orga num

vasculosum lamina terminalis”, OVLT ) (Figura 4). A

PGE 2 se difundiria para o centro termorregulador

Corticóides Acetaminofeno AINE Dipirona?

MUDANÇAS COMPORTAMENTAIS

OVLT Paraventricular

PGE2 e outros derivados do AA

AMP Ciclico

CÓRTEX 1)^ Lesões Hipotalâmicas Neurolépticos

Corticóides TERMOSTATO ELEVADO

Morfna Clorpromazina Bromocriptina

IL-8, MIP-

Macrófagos Endotélio Astrócitos, Linfócitos, etc

IL-1, TNF, IFN IL-6, IL-8, etc AINE Dipirona

Corticóides

Macrófagos Endotélio Astrócitos, Linfócitos, etc

Núcleo Paraventricular

Ativação Simpática

Termogênese “Non-shivering”

Produção de calor

IL-1, TNF, IL-6, IFN

Produção de calor (^) Retenção de calor

Vasoconstricção

Ativação Simpática CONTRAÇÃO MUSCULAR ESQUELÉTICA

Eferentes periféricos Centro vasomotor

  1. Feocromocitoma 3) Exercícios 4) Anticolinérgicos Anestésicos Desidratação

β-bloqueador α-bloqueador

Pirogênios Exógenos Toxinas e outros produtos microbianos Antígenos. Complexos Ag-Ac. Drogas. Polinucleotídeos. Etiocolanolona

Dantrolene

Diprirona

Figura 3 — Mecanismos bioquímicos e fisiológicos envolvidos na patogênese da febre e hipertermia, localizando, através de linhas tracejadas, os prováveis sítios de atuação das drogas antipiréticas, tanto de ação central como periférica. A linha pontilhada indica a controversa mediaçao pirogênica das prostaglandinas produzidas no foco inflamatório e assetas tracejadas exemplificam mecanismos produtores de hipertermia (1 a 4). MIP-1 : proteína inflamatória de macrófago-1, PG : prostaglandinas, CTR : centro termorregulador, PO/ HA: área pré-óptica do hipotálamo anterior, OVLT : “organum vasculosum lamina terminalis”, CRF : “corticotrophin releasing factor” ou fator liberador de ACTH. AINE : anti-inflamatórios não-esleroidais. Modificada da ref. 63.

Febre e inflamação

II. SIGNIFICADO CLÍNICO DA FEBRE

EM SITUAÇÕES SELECIONADAS

Revisão bibliográfica do verbete “febre” no sis-

tema Medline revelou a produção de aproximadamen-

te 4.000 publicações/ano nos últimos anos. Elas inclu-

em vários aspectos da patogênese, significado clínico

e tratamento da resposta febril e muitas doenças cuja

denominação contém o termo “febre”, até mesmo al-

gumas como a “febre do feno” (ou rinite alérgica) que

não são rotineiramente acompanhadas de febre. Se-

lecionamos algumas situações clínicas em que houve

progresso, não necessariamente consenso, no enten-

dimento e valorização da febre como manifestação

de doença.

5. CRITÉRIOS E MEDIDA DA FEBRE

Não existe acordo sobre os limites da tempera-

tura corporal normal e, portanto, sobre qual nível deve

ser tomado como referência para se definir a presen-

ça de febre em um indivíduo em particular (20, 31)^. Isto

se deve não só às variações individuais como também

a variações fisiológicas da temperatura corporal, que

ocorrem com os períodos do dia (ritmo circadiano, vide

abaixo), com a temperatura ambiental, com o ciclo

menstrual (aumenta até 0,6ºC na segunda metade do

ciclo), com a digestão dos alimentos, com a gravidez

(principalmente no 1º trimestre), com exercícios físi-

cos, estresse emocional e desidratação. No hemisfé-

rio norte, onde se mede rotineiramente a temperatura

TABELAVIII:ALTERAÇÕESMETABÓLICASASSOCIADASÀFEBR E

AL TERAÇÕESMETABÓLICA S IM PORTÂNCIACLÍNICA COMENTÁRIOS

Ometabolismoaumentacercade 13 % paracadaºCdeelevaçãoda temperaturacorporal

Podesernecessáriahiperalimentação, sobretudonasdoençasfebriscrônicas nasquaisopacientenãoconseguese alimentar;podeocorrerproteinúria

Emboraocorramprocessosanabólicos, oefeitometabólicofinaléo catabolismo.Casonãosejam preenchidasasdemandasde aminoácidosecalorias,ocorre desnutrição

Au mentodaperdainsensíveldeágua Haveránecessidadedeaumentara hi drataçãode 300 a 500 ml/m 2 /ºC/dia

Aperdainsensíveléinfluenciadapelo graudafebre,hiperpinéia,umidadee temperaturaambiente

Afreqüênciacardíacaaumentacerca de 15 batimentosporminuto/ºCde elevaçãodatemperatura

Induçãodeinsuficiênciacardíacaou anginaemalgunspacientesfebris

Oaumentodafreqüênciacardíaca podeseratenuadonafebretifóideou quandoexistecardiopatiasubjacente, comoBAVcompleto

Hiperventilaçãoéfreqüentenafase inicialdasdoençasfebris

Po delevaraalcaloserespiratória Aalcaloserespiratóriapodeser encontradainicialmentenochoque séptico:maistardeésubstituídapor acidosemetabólica

De pleçãoeletrolítica Podesernecessáriaareposiçãoda N a+^ , K+^ , eCl_

Perdadeeletrólitosatravésdosuore, algumasvezes,dediarréiaouvômitos

Menordisponibilidadedeferroezinco séricos

An emiadadoençacrônica,IDcelular Oligoelementosnecessáriosao cr escimentomicrobiano;suaØ podeter efeitoprotetor

Ativaçãoe/ousíntesedemediadores humoraisdainflamação,incluindo PFAg

Areaçãoinflamatóriausualmenteauxilia aeliminaçãodemicroorganismose restringealesãotecidual

Searespostaforexagerada,comono choqueséptico,elapodeserdeletéria paraohospedeiro(CIVD,IOM)

BAV:bloqueioátrio-ventricular,CIVD:coagulaçãointravasculardisseminada,IOM:insuficiênciaorgânicamúltipla,ID:imunodeficiência, PFAg:proteínasdefaseaguda.Modificadadaref. 45.

Voltarelli JC

oral, é considerada febre uma temperatura matinal

acima de 37,2ºC e vespertina acima de 37,7ºC (31)^ ; em

nosso meio, onde se utiliza a temperatura axilar, estes

limites são 0,5ºC mais baixos (36,7 pela manhã e 37,

à tarde). Algumas pessoas normais apresentam tem-

peraturas vespertinas de até 37,7ºC na ausência dos

fatores termogênicos relatados acima, sendo este qua-

dro conhecido como hipertermia habitual (Secção

6.5.1). A idade também influencia não só a tempera-

tura basal como a resposta febril: lactentes apresen-

tam grandes variações de temperatura com fatores

ambientais e recém-nascidos, especialmente prema-

turos, podem não desenvolver febre, ou mesmo apre-

sentarem hipotermia, na vigência de infecções gra-

ves. Este padrão de irresponsividade térmica também

é observado em indivíduos idosos, que pode ser atri-

buído a várias causas: distúrbios da termogênese (di-

minuição do metabolismo basal, da eficiência dos tre-

mores musculares e da vasoconstricção periférica),

redução da produção de e da sensibilidade à IL-1,

excesso de lipocortina-1 (um intermediário intracelu-

lar da ação dos corticoesteróides) e alterações com-

portamentais (incapacidade de se aquecer) (24)^. Do

mesmo modo, em outras condições, como na uremia,

insuficiência hepática, desnutrição, em certas fases

do choque séptico e na corticoterapia, a resposta fe-

bril é reduzida (20)^ , o que não ocorre em estados de

neutropenia, mesmo absoluta (vide Secção 6.3).

Na abordagem clínica de um paciente com quei-

xa de febre, principalmente prolongada, é necessário,

em primeiro lugar, documentar-se o problema, pois

muitos deles não o apresentam objetivamente, o que

ocorreu em cerca de 30% dos casos que foram inter-

nados para observação no NIH/USA (20)^. Esta queixa

é muito comum em pacientes que recentemente apre-

sentaram doença febril autolimitada e em crianças pro-

venientes de familias superprotetoras ou muito pro-

blemáticas. Entretanto, para se documentar a ocor-

rência de febre, é necessário medir-se a temperatura

corporal no pico (18 h) e no nadir (6 h) do ciclo

circadiano durante vários dias, construindo-se uma

curva térmica, onde estarão também anotadas as

manifestações associadas (calafrios, sudorese, taqui-

cardia e outras). A ausência destas manifestações

sugere tratar-se de uma das categorias de “febre

benigna” (vide Secção 6.5.1), mas deve-se lembrar

que algumas doenças como febre tifóide, brucelose,

leptospirose, febres medicamentosas e aquelas com

distúrbios de condução cardíaca podem cursar com

bradicardia. Embora a maioria dos estados febris es-

teja associada a vários sintomas inespecíficos, como

a sensação de frio, apenas algumas doenças produ-

zem calafrios bem definidos, com piloereção e tre-

mores musculares. Eles são característicos das septi-

cemias bacterianas, mas também ocorrem na malá-

ria, endocardite bacteriana, brucelose, leptospirose,

influenza, neoplasias (leucemias, linfomas, hepatoma

e hipernefroma) e até em febres medicamentosas (vide

Secção 6.5.2). Deve-se considerar também que exis-

te considerável variação individual e diuturna da tem-

peratura corporal, além da influência de vários fato-

res fisiológicos, o que torna difícil de definir os limites

precisos da temperatura corporal normal, como dis-

cutido acima. O padrão de normalidade mais fidedig-

no seria a determinação repetida da temperatura em

vários períodos do dia (pelo menos no matutino e ves-

pertino) em cada indivíduo saudável, o que é imprati-

cável (31)^. Final mente, devido à preservação do ritmo

circadiano nos estados febris, uma temperatura mati-

nal de 37,7ºC, por exemplo, teria um significado diag-

nóstico maior do que a mesma temperatura observa-

da à tarde; entretanto, deve-se lembrar que algumas

doenças, como a febre tifóide, a tuberculose miliar, o

abscesso amebiano e a endocardite bacteriana podem

inverter este ritmo, observando-se temperaturas mais

elevadas pela manhã(20)^.

Os padrões clássicos de curvas febris (contí-

nuo, remitente, intermitente e periódico) (55)^ atualmen-

te são muito modificados pelo uso indiscriminado de

antipiréticos, corticoesteróides e antibióticos e têm

pequena especificidade diagnóstica. Neste sentido,

constituem exceções alguns tipos de padrões febris

periódicos que têm utilidade clínica: 1) os da malária

terçã (febre nos dias 1 e 3, causada pelo P.vivax) e

quartã ( nos dias 1 e 4, por P.malariae) , mas apenas

observados na zona endêmica, porque os casos novos

de malária demoram 1 a 2 semanas para sincroniza-

ção dos paroxismos, 2) a febre da neutropenia cíclica

(a cada 21 dias, acompanhada de ulcerações muco-

sas) e 3) possivelmente, a febre de Pel-Ebstein (com

3 a 10 dias de duração espaçados por igual periodo

afebril) observada na doença de Hodgkin e em outros

linfomas.

6. FEBRE DE ORIGEM INDETERMINADA

(FOI)

No conceito clássico de Petersdorf e

Beeson(37)^ , febre de origem indeterminada ( FOI) era

definida por 3 critérios: 1) temperaturas superiores a

Voltarelli JC

6.1. FOI clássica

Corresponde grosseiramente à definição de

Petersdorf mencionada acima, com exceção de que a

exigência de uma semana de internação foi reduzida

para 3 dias ou mesmo para 3 consultas ambulatoriais.

As causas mais freqüentes continuam a ser as doen-

ças infecciosas, neoplásicas e auto-imunes ( “mani-

festações incomuns de doenças comuns” ), mas

incluem um número significativo de casos classifica-

dos como “hipertermia habitual” (vide Secção 6.5.1),

ou não diagnosticados conclusivamente.

A história clínica destes pacientes deve enfati-

zar viagens a áreas endêmicas, contatos com outros

pacientes portadores de doenças transmissíveis e com

animais, uso de medicamentos e imunização prévia. O

exame físico deve focalizar o abdômen, gânglios linfá-

ticos e baço, músculos, articulações e artérias tempo-

rais. Neste sentido, a ocorrência freqüente de febre (e

de FOI ) em várias doenças reumáticas (61)^ exige um

exame cuidadoso do sistema músculo-esquelético no

paciente febril. Na investigação laboratorial, após exa-

mes rotineiros de contagens sangüíneas, velocidade de

hemossedimentação, sedimento urinário, sorologias,

testes de hipersensibilidade cutânea, culturas de san-

gue, urina e outras fontes, deve-se concentrar em exa-

mes de imagem (radiografias contrastadas, ultras-

sonografia, gamacintilografia, tomografia computado-

rizada - CT e ressonância nuclear magnética - MRI) e

biópsias. Estas podem ser rotineiras (fígado e medula

óssea) ou orientadas por achados clínicos e laborato-

riais (pele, pleura, gânglios linfáticos, rim, músculo,

Figura 5 - Causas de febre de origem indeterminada distribuídas em praticamente todos os sistemas orgânicos. As mais freqüentes doenças graves e potencialmente tratáveis estão assinaladas em negrito. Reproduzida da ref. 28.

Cérebro: Febre Factícia

Artéria: Arterite temporal Poliarterite Granulomatose de Wegener S. de Churg Strauss Coração: Endocardite Mixoma atrial Pericardite

Boca: Sepse oral Patologia dentária

Área subfrénica: Abscessos

Fígado: Infiltrações Cirrose Hepatorna Outros tumores Hepatite Abscessos Rins: Hipernefroma Infecção urinária Abscesso perinefrético Músculos: (Dermato) rniosite Trato genital: Neoplasia Sepse pélvica Doença venérea Articulações: Febre reumática Lupo eritematoso sistêmico Doença de Still Veias: Trombose venosa

Pulmão: Neoplasia primária Neoplasia secundária Sarcoidose Tuberculose Embolia pulmonar Páncreas: Neoplasia Pancreatite Intestino: Neoplasia Doenças granulomatosas Tuberculose Esquistossomose Sistema retículo: endotelial: Neoplasia Brucelose Tuberculose Toxoplasmose Citomegalovirose Mononucleose Calazar Sangue: Malária Leucemia (Para) tifóide Salmonelose Septicemias SIDA/AIDS

Febre e inflamação

nervo, intestino ou qualquer outro tecido). Embora não

se tenha ainda demonstrado inequivocamente que os

mais novos métodos de diagnóstico de imagem, como

a MRI, tenham maior especificidade diagnóstica do

que os mais tradicionais, como o CT, não há dúvida de

que estes métodos, no seu conjunto, representaram um

grande avanço no esclarecimento etiológico das FOI,

diminuindo drasticamente a necessidade de procedi-

mentos bastante invasivos, como a laparotomia explo-

radora. Esta é ainda indicada nos raros casos em que

todos estes métodos falham em produzir um diagnósti-

co, em especial nos pacientes com alguma localização

clínica, por exemplo, dor abdominal. Cada Serviço de

Moléstias Infecciosas possui um roteiro diagnóstico

próprio para FOI , baseado na epidemiologia e nos re-

cursos locais e o do Hospital das Clínicas da Faculda-

de de Medicina de Ribeirão Preto foi apresentado no

artigo anterior(55)^. Após a investigação laboratorial, o

paciente deve ser observado, com registro cuidadoso

da curva térmica, evitando-se tratamentos empíricos

que possam alterar esta curva ou mitigar uma infec-

ção subjacente.

6.2. FOI hospitalar

Esta categoria inclui pacientes hospitalizados

para tratamento agudo (trauma, cirurgia, transplantes,

queimaduras, câncer , terapia intensiva, por exemplo),

nos quais não se identificou uma infecção na interna-

ção. Não há limitação de idade, pois a FOI ocorre em

muitos recém-nascidos, prematuros e idosos em tera-

pia intensiva, mas pacientes com doenças crônicas e

residentes em asilos são excluídos desta ca tegoria,

porque mais provavelmente apre sentam FOI clássi-

ca.

Tanto a natureza da doença básica como as in-

tervenções realizadas na hospitalização (medicamen-

tos, cateteres, cânulas e outros artefatos) devem ser

considerados na etiologia da FOI hospitalar (infecções

hospitalares, cateteres infectados, embolia pulmonar,

colecistite acalculosa, viroses transmitidas por trans-

fusões, sinusite e febre medicamentosa são causas

freqüentes). O exame físico deve focalizar-se na pele,

ferimentos, locais de punção, pulmões, abdômen e trato

urinário. Ele é particularmente difícil de ser realizado

em ambiente de terapia intensiva; neste caso, deve-se

repetir exames limitados periodicamente.

A maioria dos pacientes com FOI hospitalar

terão realizado freqüentes radiografias de tórax, con-

tagens sangüíneas e testes bioquímicos, tenham ou não

febre. Do mesmo modo, culturas de sangue e urina

são rotineiramente coletadas se a temperatura se ele-

va. O primeiro passo para a investigação laboratorial

da FOI hospitalar é rever os resultados de exames

disponíveis e focalizar novas possibilidades diagnósti-

cas. Exames potencialmente úteis nesta situação são

ultrassonografia e CT abdominais, mapeamento fun-

cional da vesícula biliar, radiografia de seios da face,

ecocardiografia, broncoscopia ou biópsia aspirativa

pulmonar, exames para hepatite e pancreatite e para

a toxina do C.difficile nas fezes.

6.3. FOI em pacientes neutropênicos

Esta nova categoria de FOI é inteiramente dis-

tinta da forma clássica e merece individualização de-

vido à grande expansão do número de pacientes

neutropênicos nos últimos anos, causada pela utiliza-

ção crescente da quimioterapia citotóxica em doen-

ças neoplásicas e não-neoplásicas. Ela é definida pela

presença de febre repetida em paciente com menos

de 500 neutrófilos/ul depois de 3 dias de investigação,

incluindo pelo menos 2 dias de realização de culturas.

O aparente paradoxo entre a presença de fe-

bre na ausência de neutrófilos periféricos hoje é facil-

mente explicado pela produção de pirogênios endóge-

nos ( IL-1 , IL-6, TNF , IFN-γ e outros) por monóci-

tos, macrófagos e células da matriz tecidual (estroma).

No período de neutropenia pós-transplante de medula

óssea, por exemplo, as células do sistema macrofági-

co do receptor são apenas gradualmente substituídas

pelos macrófagos do doador, enquanto o estroma per-

manece do receptor (56)^. Na anemia aplástica grave,

mesmo na ausência de neutrófilos e monócitos circu-

lantes, células do estroma produzem quantidades nor-

mais de IL-1 e IL-6 e reduzida quantidade de IL-1RA,

um inibidor biológico do receptor da IL-1(23)^ , o que

poderia explicar a ocorrência freqüente de FOI nesta

doença, mesmo na ausência de infecção.

Desde a década de 70 está bem estabelecida a

relação estreita entre a redução do número de neutró-

filos circulantes e a frequência de infecções, que se

tornam proeminentes quando a contagem de neutrófi-

los é inferior a 1.000/ul. Os fatores predisponentes

estão bem estudados e incluem a natureza e estágio

da doença básica, o grau e a duração da neutropenia,

o tipo e número de ciclos de quimioterapia, a duração

da hospitalização, a idade e o estado nutricional do

paciente. São comuns as infecções bacterianas fo-

cais, com ou sem bacteremia, envolvendo a cavidade

oral, pele e partes moles, períneo, pulmões e eventu-

ais cateteres. Ao contrário da FOI nosocomial, infec-

Febre e inflamação

teriana ou por P.carini e a neurotoxoplasmose. O nú-

mero total de linfócitos CD4 circulantes (se acima ou

abaixo de 200/μl) orienta quanto à possibilidade de

infecções oportunistas graves e o estado clínico do

paciente indicará se a investigação será ambulatorial

ou hospitalar. Se o paciente tiver menos que 500 neu-

trófilos/μl, deverá ser internado e investigado como

FOI neutropênica. Exames sofisticados de imagem,

como o CT, cintilografias e MRI, podem revelar anor-

malidades, mas, na maioria das vezes, elas são ines-

pecíficas, como linfadenopatia e hepatoesplenomega-

lia difusa.

6.5. Tipos especiais de FOI

6.5.1. FOI benigna

Em oposicão às “febres clinicamente significan-

tes”, Weinstein (7, 60)^ conceituou as “febres benignas”

como as não associadas a síndromes clínicas especí-

ficas, que são as causas clássicas de FOI (doenças

infecciosas, inflamatórias e neoplásicas). O termo “be-

nigno” não implica em valor prognóstico, que pode ser

sombrio em algumas doenças neurológicas ou psiqui-

átricas associadas a febre. Ele apenas indica que, nes-

tes casos, o diagnóstico da FOI geralmente pode ser

feito por medidas simples, que dependem mais da

suspeição clínica do que de métodos complexos de

investigação subsidiária.

As febres benignas podem ser divididas quanto

a sua magnitude nas de baixo e alto grau (Tabela X).

Entre estas últimas, a hipertermia essencial ou ha-

bitual é observada em mulheres jovens, que apresen-

tam temperaturas vespertinas de até 37,7ºC sem ou-

tras manifestações clínicas ou alterações laboratoriais.

A maioria destes indivíduos provavelmente apresenta

um padrão exagerado de variação circadiana da tem-

peratura corporal, embora alguns deles possam ser

portadores de alguma outra modalidade de FOI, como

a síndrome da fadiga crônica (Secção 6.5.3). Outra

causa não-orgânica de FOI é a febre psicogênica ,

que ocorre geralmente em mulheres jovens, obesas e

depressivas, apresentando temperaturas de até 37,5ºC

e outras manifestações, como fraqueza e mialgia ge-

neralizadas. Estes sintomas não melhoram com a ad-

ministração de antibióticos, mas com prescrição de

baixas doses de tranqüilizantes ou com a remoção da

situação estressante, o que serve de critério diagnós-

tico. Uma variante da febre psicogênica é a “febre da

internação” que acomete pacientes no primeiro dia de

hospitalização.

Embora a presença de temperaturas elevadas

(acima de 38,0ºC) por períodos prolongados geralmen-

te indique doença orgânica grave, existem várias con-

dições benignas responsáveis por febre alta (Tabela

IX). A febre (auto-inflingida) é responsável por apro-

ximadamente 10% dos casos de FOI prolongada e

pode assumir duas formas: classicamente, ela ocorre

em profissionais da saúde do sexo feminino que usam

vários métodos para manipulação dos termômetros.

Embora o paciente possa queixar-se de vários sinto-

mas, ele se apresenta sadio e robusto, apesar da dura-

ção da “febre”, a qual não é acompanhada por mani-

festações concomitantes, como a taquicardia. Para o

diagnóstico desta entidade, a tomada da temperatura

deve ser supervisionada ou medir-se simultaneamen-

te as temperaturas corporal e urinária. Em países que

disseminam o uso de termômetros eletrônicos, este

tipo de febre está se tornando menos freqüente. Ou-

tra modalidade de febre é a “febre fabricada”, em

que o indivíduo se auto-injeta pirogênios ou bactérias

através da pele ou do trato gênito-urinário, resultando

em resposta febril real e mesmo bacteremia por múl-

tiplos agentes. Os pacientes têm aspecto saudável

apesar da febre e do distúrbio psiquiátrico subjacente,

o qual muitas vezes se expressa por automutilação.

As febres medicamentosas, discutidas abaixo,

constituem outro grupo de reações consideradas benig-

nas, pela reversibilidade do quadro com a suspensão

do agente causal. Entretanto, o não reconhecimento do

problema pode levar a consequências graves, princi-

palmente nos casos de hipersensibilidade imunológica.

As febres ocupacionais benignas são rea-

ções idiossincráticas causadas pela inalação de

polímeros na indústria de plásticos ou de metais (zin-

co, cobre, níquel, alumínio, chumbo) em fundições. As

manifestações associadas são tosse, calafrios, disp-

néia, edema pulmonar e leucocitose, que surgem com

a reexposição do trabalhador ao agente causal após

um período de repouso (“febre da segunda feira”) e

desaparecem algumas horas após afastar-se do ambi-

ente de trabalho.

Finalmente, doenças cutâneas (eczema grave,

ictiose disseminada e displasia ectodérmica congênita

anidrótica) e neurológicas que produzem distúrbios nos

mecanismos termorregulatórios podem produzir “fe-

bre” (na realidade, hipertermia) do tipo benigno. Ou-

tras causas raras de febre benigna são doenças meta-

bólicas em que há produção excessiva de etiocolano-

lona, um metabolito pirogênico de andrógenos, ou uma

grande estimulação do metabolismo basal, como no

hipertireoidismo e no feocromocitoma.

Voltarelli JC

6.5.2. Febre medicamentosa

O uso de medicamentos constitui causa relati-

vamente freqüente de febre, principalmente de FOI

prolongada (7,20,45)^. Qualquer padrão febril pode ser

observado, sendo mais comum o contínuo, embora oca-

sionalmente o padrão héctico, com amplas variações

diárias, possa confundi-la com uma infecção grave. A

patogênese da febre medicamentosa pode estar liga-

da 1) à contaminação da droga com pirogênios ou mi-

croorganismos, 2) à ação farmacológica do medica-

mento liberando pirogênios (como a penicilina pela

destruição de treponemas ou drogas citotóxicas pela

destruição de células neoplásicas), 3) induzindo pro-

dução de PGE 2 (anfotericina B) ou 4) alterando me-

canismos centrais (neurolépticos) ou periféricos (anes-

tésicos) de termorregulação, ou 5) a mecanismos

imunológicos (formação de imunocomplexos ou sen-

sibilização por linfócitos T). Somente nesta última ca-

tegoria se observará o típico período de latência de 1

a 3 semanas entre a introdução da droga e o início da

febre, além das manifestações indicativas de hiper-

sensibilidade (eosinofilia, “rash” cutâneo, colestase e

proteinúria). Embora qualquer medicamento possa cau-

sar febre, os mais freqüentemente implicados são os

antibióticos/quimioterápicos (principalmente os

β-lactâmicos, penicilinas e cefalosporinas, sulfonami-

das e antituberculosos), antiarrítmicos (quinidina e

procainamida), anticonvulsivantes (hidantoinatos), anti-

hipertensivos (metildopa) e antitireoidianos (propiltiou-

racil). Na realidade, entre os medicamentos de

uso comum, apenas os digitálicos parecem não

ter o potencial de induzir febre (7)^. Usualmente, a

febre medicamentosa regride 2 a 3 dias após a inter-

rupção da droga suspeita, mas pode demorar mais tem-

po, dependendo da velocidade de sua metabolização

(até 3 a 4 semanas para compostos iodados, por exem-

plo). De qualquer modo, a defervescência associada

à suspensão da droga constitui o único critério confir-

matório de febre medicamentosa e evita outras com-

plicações mais graves nos casos de reação de hiper-

sensibilidade (citopenias, dermatite esfoliativa, vascu-

lite, anafilaxia). Excepcionalmente, quando o medica-

mento utilizado‚ indispensável (anfotericina B ou ou-

tros quimioterápicos, por exemplo), a presença ape-

nas de febre e “rash” cutâneo não contraindica a con-

tinuidade da terapêutica.

TABELA X: FEBRES BENIGNAS

CLASSIFICAÇÃO PATOGÊNESE

1. Baixo grau (até 38,0ºC) - Hipertermia habitual Exagero do ritmo circadiano - Febre psicogênica Resposta a situações de estresse - Febre da internação Estresse da hospitalização - Síndrome da fadiga crônica Infecção viral crônica 2. Alto grau (acima de 38,0ºC) - Febre factícia - Clássica Manipulação do termômetro - Febre fabricada Auto-administração de pirogênios ou bactérias - Febre medicamentosa Contaminação, ação farmacológica ou hipersensibilidade - Febre ocupacional Idiossincrasia a polímeros ou metais gasosos - Distúrbios de mecanismos termorreguladores - Cutâneos Incapacidade de dissipar calor - Neurológicos Termorregulação central alterada - Distúrbios metabólicos Hiperprodução de etiocolanolona Aumento do metabolismo basal Adaptada das ref. 7 e 60.