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Filosofia e Linguagem, Manuais, Projetos, Pesquisas de Linguística

Abordagem de filosofia e linguagem.

Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas

2021

Compartilhado em 26/03/2021

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MARXISMO E FILOSOFIA DA LINGUAGEM (orelha do livro)
Mikhail Bakhtin
Publicado na Rússia em 1929 e assinado por V. N. Volochínov,
Marxismo e Filosofia da Linguagem foi posteriormente atribuído a M.
Bakhtin. Não são claras as razões efetivas que teriam levado Bakhtin a
escolher o nome de um dos seus amigos e discípulos para subscrever a
autoria do livro. O fato é que o leitor encontrará aqui vários pontos
comuns com A Poética de Dostoievski e mesmo com a sua obra sobre
Rabelais e a cultura popular.
Volochinov, assim como o teórico da literatura Medviédiev – outro
intelectual que participava das indagações e pesquisas sobre o chamado
método sociológico –, foi vítima dos expurgos stalinistas no começo da
década de 30. Desapareceu desde então, ficando o livro, por muitos
anos, relegado ao esquecimento oficial com que os autoritarismos sabem
sempre brindar a reflexão crítica.
É em meio à controvérsia de que era objeto o formalismo que se dá
a sua publicação. O esforço, que nele se observa, para desenvolver uma
filosofia da linguagem de fundamento marxista, sem as paranóias
histéricas das receitas oficiais, é admirável. A natureza ideológica
do signo lingüístico, o dinamismo próprio de suas significações, a
alteridade que lhes é constitutiva, o signo como arena da luta de
classes, as críticas ao conservadorismo das posições formalistas; as
críticas a Saussure e, lidas hoje, sua adequação ao estruturalismo, os
fenômenos de enunciação que a semântica moderna tanto preza, as
análises dos diferentes tipos de discurso (direto, indireto, indireto
livre, etc.) são alguns dos temas que o leitor encontrará, neste
livro, discutidos, às vezes, com desenvoltura e perspicácia que não
decepcionam.
Em 1950, publica o Pravda a célebre entrevista de Stálin na qual,
repudiando a natureza superestrutural do fenômeno da linguagem,
exorcizava ainda o até então lingüista oficial da U.R.S.S., N. Marr.
No pronunciamento de Stá1in, se a recusa se faz no que diz respeito ao
mecanicismo das determinações da estrutura econômica sobre a língua,
seu autor não evita, entretanto, o deslize para uma concepção também
mecanicista: a da língua como instrumento de comunicação. Vinte anos
antes, o livro de Bakhtin (Volochínov) tratava o problema das relações
entre linguagem e ideologia de forma a superar totalmente as
limitações dessas ortodoxias.
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MARXISMO E FILOSOFIA DA LINGUAGEM (orelha do livro)

Mikhail Bakhtin Publicado na Rússia em 1929 e assinado por V. N. Volochínov, Marxismo e Filosofia da Linguagem foi posteriormente atribuído a M. Bakhtin. Não são claras as razões efetivas que teriam levado Bakhtin a escolher o nome de um dos seus amigos e discípulos para subscrever a autoria do livro. O fato é que o leitor encontrará aqui vários pontos comuns com A Poética de Dostoievski e mesmo com a sua obra sobre Rabelais e a cultura popular. Volochinov, assim como o teórico da literatura Medviédiev – outro intelectual que participava das indagações e pesquisas sobre o chamado método sociológico –, foi vítima dos expurgos stalinistas no começo da década de 30. Desapareceu desde então, ficando o livro, por muitos anos, relegado ao esquecimento oficial com que os autoritarismos sabem sempre brindar a reflexão crítica. É em meio à controvérsia de que era objeto o formalismo que se dá a sua publicação. O esforço, que nele se observa, para desenvolver uma filosofia da linguagem de fundamento marxista, sem as paranóias histéricas das receitas oficiais, é admirável. A natureza ideológica do signo lingüístico, o dinamismo próprio de suas significações, a alteridade que lhes é constitutiva, o signo como arena da luta de classes, as críticas ao conservadorismo das posições formalistas; as críticas a Saussure e, lidas hoje, sua adequação ao estruturalismo, os fenômenos de enunciação que a semântica moderna tanto preza, as análises dos diferentes tipos de discurso (direto, indireto, indireto livre, etc.) são alguns dos temas que o leitor encontrará, neste livro, discutidos, às vezes, com desenvoltura e perspicácia que não decepcionam. Em 1950, publica o Pravda a célebre entrevista de Stálin na qual, repudiando a natureza superestrutural do fenômeno da linguagem, exorcizava ainda o até então lingüista oficial da U.R.S.S., N. Marr. No pronunciamento de Stá1in, se a recusa se faz no que diz respeito ao mecanicismo das determinações da estrutura econômica sobre a língua, seu autor não evita, entretanto, o deslize para uma concepção também mecanicista: a da língua como instrumento de comunicação. Vinte anos antes, o livro de Bakhtin (Volochínov) tratava o problema das relações entre linguagem e ideologia de forma a superar totalmente as limitações dessas ortodoxias. (fim da orelha)

Linguagem Coleção dirigida por Carlos Vogt Conselho Editorial Cláudia Tereza Guimarães de Lemos Luiz Henrique Lopes dos Santos Maurizio Gnerre Jaime Pinsky MARXISMO E FILOSOFIA DA LINGUAGEM MIKHAIL BAKHTIN V. N. Volochínov)

NOTA DOS TRADUTORES

A presente tradução baseou-se, principalmente, na tradução francesa (Paris, Les Éditions de Minuit, 1977). Recorremos, contudo, constantemente à tradução americana (Nova Iorque/Londres, Seminar Press, 1973), o que nos permitiu, nos casos em que a tradução francesa parecia insatisfatória, optar por uma solução mais adequada. Consultas ao original russo tornaram-se, entretanto, indispensáveis; isso foi possível graças à ajuda de Lucy Seki, a quem agradecemos. Queremos também agradecer a Modesto Carone Netto a colaboração no que respeita às passagens em alemão do texto.

PREFÁCIO

No livro publicado com a assinatura de V. N. Volochínov em Leningrado, 1929-1930, em duas edições sucessivas sob o título de Marksizm i filossófia iaziká (Marxismo e Filosofia da Linguagem), tudo, desde a página de título, só pode surpreender. Acabou-se descobrindo que o livro em questão e várias outras obras publicadas no final dos anos vinte e começo dos anos trinta com o nome de Volochínov – como, por exemplo, um volume sobre a doutrina do freudismo (1927) e alguns ensaios sobre a linguagem na vida e na poesia, assim como sobre a estrutura do enunciado - foram, na verdade, escritos por Bakhtin (1895-1975), autor de obras determinantes sobre a poética de Dostoievski e de Kabelais. Ao que parece, Bakhtin recusava- se a fazer concessões à fraseologia da época e a certos dogmas impostos aos autores. Os adeptos e discípulos do pesquisador, particularmente Volochínov (nascido em 1895, desaparecido pelo fim de 1930), com um pseudônimo escrupulosamente observado e graças a alguns retoques obrigatórios no texto e até no título, tentaram um compromisso que permitia preservar o essencial do grande trabalho. O que poderia surpreender igualmente aqueles leitores menos avisados da história do obscurantismo que da história do pensamento científico, é o completo desaparecimento do próprio nome desse eminente pesquisador de toda a imprensa russa durante quase um quarto de século (até 1963); quanto a seu livro sobre a filosofia da linguagem, só o vemos mencionado nesse mesmo período em alguns raros estudos lingüísticos do Ocidente. Recentemente, algumas citações desse livro foram feitas em publicações soviéticas de tiragem insignificante, como a coletânea dedicada ao 75° aniversário de Bakhtin, cuja edição foi de apenas 1.500 exemplares (Tártu, 1973). A obra em questão é reproduzida na série Janua Linguarum (Haia- Paris, 1972) e traduzida para o inglês (Nova Iorque, 1973), mas esse trabalho, como outras obras-primas do pensamento teórico russo do mesmo período, permanece ainda quase inacessível aos leitores do seu país natal. Apesar de toda a singularidade da biografia do livro e de seu autor, é pela novidade e originalidade de seu conteúdo que a obra mais surpreende todo leitor de espírito aberto. Esse volume cujo subtítulo diz Os problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem, antecipa as atuais explorações realizadas no campo da sociolingüística e, principalmente, consegue preceder as pesquisas semióticas de hoje e fixar-lhes novas tarefas de grande envergadura. A "dialética do signo", e do signo verbal em particular, que é estudada no livro conserva, ou melhor, adquire um grande valor sugestivo à luz dos debates semióticos contemporâneos. Dostoievski é o herói preferido de Bakhtin e a maneira como ele o define caracteriza, ao mesmo tempo e da forma mais justa, sua própria metodologia científica: "Nada lhe parece acabado; todo problema permanece aberto, sem fornecer a mínima alusão a uma solução definitiva". Segundo Bakhtin, na estrutura da linguagem, todas as noções substanciais formam um sistema inabalável, constituído de pares indissolúveis e solidários: o reconhecimento e a compreensão, a

INTRODUÇÃO

I. Bakhtin, o homem e seu duplo M. M. Bakhtin nasceu em 1895, em Oriol, numa família da velha nobreza arruinada, de um pai empregado de banco. Passou sua infância em Oriol e a adolescência em Vílnius e Odessa. Estudou na Universidade de Odessa, depois na de São Petersburgo, de onde saiu diplomado em História e Filologia, em 1918. Em 1920, instalou-se em Vitebsk, onde ocupou diversos cargos de ensino. Casou-se em 1920 com Helena Okolovitch, que foi sua fiel colaboradora durante meio século. Bakhtin pertencia a um pequeno círculo de intelectuais e de artistas entre os quais se encontravam Marc Chagall e o musicólogo Sollertinsky, amigo íntimo de Chostakovitch. Também fazia parte deste círculo um jovem professor do Conservatório de Música de Vitebsk, V. N. Volochínov, e ainda P. N. Medviédiev, empregado de uma casa editora. Os dois tornaram-se alunos, amigos devotados e ardorosos admiradores de Bakhtin. Este círculo, conhecido sob o nome de "círculo de Bakhtin", foi um cadinho de idéias inovadoras, numa época de muita criatividade, particularmente nos domínios da arte e das ciências humanas. Ainda que contemporâneo dos movimentos formalista e futurista, ele não participou de nenhum deles. Em 1923, atacado de osteomielite, Bakhtin retornou a Petrogrado. Impossibilitado de trabalhar regularmente, deve ter passado por uma situação material difícil. Seus discípulos e admiradores, Volochínov e Medviédiev, seguiram-no a Petrogrado. Animados pelo desejo de vir ajudar financeiramente a seu mestre e, ao mesmo tempo, divulgar suas idéias, ofereceram seus nomes a fim de tornar possível a publicação de suas primeiras obras. Freidizm (O Freudismo, Leningrado, 1927) e Marxismo e Filosofia da Linguagem (Leningrado, 1929) saíram sob o nome de Volochínov. Formalni métod v literaturoviédenie. Kritítcheskoie vvdiénie v sotsiologuítcheskuiu poétiku (O Método Formalista Aplicado à Crítica Literária. Introdução Crítica à Poética Sociológica) que constituiu uma crítica aos formalistas, foi publicado em 1928, também em Leningrado sob a assinatura de Medviédiev^1. Por que, então Bakhtin não os publicou com seu próprio nome? Não há dúvidas quanto à paternidade de suas obras. O conteúdo se inscreve perfeitamente na linha de suas publicações assinadas e, além disso, dispomos de testemunhos diretos. De qualquer modo, na época, o segredo foi bem guardado, pois Borís Pasternak, em uma carta endereçada a Medviédiev, manifestou seu entusiasmo e sua admiração pela presumida obra deste último e confessa que jamais pudera imaginar que em Medviédiev se ocultava "um tal filósofo". Então, por que esse jogo de testa-de-ferro? Segundo o professor V. V. Ivánov, amigo e aluno de Bakhtin, haveria duas espécies de motivos: em primeiro lugar, Bakhtin teria recusado as modificações impostas pelo editor; de caráter (^1) Esta terceira obra foi reeditada em 1971, na revista Trudi po znákovim sistiemam (Trabalhos sobre Sistemas de Signos), Universidade de Tártu, 1971. As outras duas nunca mais foram reimpressas. Mouton (Haia) publicou em 1972 um fac-símile da edição de 1929 do Marxismo e a Filosofia da Linguagem.

intransigente, ele teria preferido não publicar do que mudar uma vírgula; Volochínov e Medviédiev ter-se-iam, então, proposto a endossar as modificações. A outra ordem de motivos seria mais pessoal e ligada ao caráter de Bakhtin, ao seu gosto pela máscara e pelo desdobramento e também, parece, à sua profunda modéstia científica. Ele teria professado que um pensamento verdadeiramente inovador não tem necessidade, para assegurar sua duração, de ser assinado por seu autor. A este respeito, o professor Ivánov o compara a Kierkegaard, que também se escondeu sob pseudônimos. De qualquer forma, em 1929, no mesmo ano em que Volochínov assinava Marxismo e Filosofia da Linguagem , Bakhtin publicou, finalmente, um primeiro livro com seu próprio nome Probliemi tvórtchestva Dostoiesvskovo (Problemas da Obra de Dostoievski^2 ). Ele dedicará o resto de sua vida de pesquisador à análise estilística e literária. Volochínov e Medviédiev desapareceram nos anos trinta. Nesta época, Bakhtin vivia na fronteira da Sibéria e do Casaquistão, em Kustanai. Sempre ensinando, começou a compor sua monografia sobre Rabelais. Em 1936, foi nomeado para o Instituto Pedagógico de Saransk. Em 1937, instalou-se não muito longe de Moscou, em Kímri, onde viveu uma vida apagada até 1945, ensinando no colégio local e participando dos trabalhos do Instituto de Literatura da Academia de Ciências da U.R.S.S. Aí defendeu sua tese sobre Rabelais em 1946. De 1945 a 1961, data de sua aposentadoria, ensina de novo em Saransk, terminando sua carreira na universidade desta cidade. A partir de 1963, começou a gozar de uma certa notoriedade, sobretudo após a reedição de sua obra sobre Dostoievski (1963) e de sua tese sobre Rabelais: Tvórtchestvo François Rabelais i naródnaia kultura sriednevekóvia i Renessansa (A Obra de François Rabelais e a Cultura Popular da Idade Média e da Renascença), Moscou, 19653. Em 1969, instalou-se em Moscou, onde publicou contribuições nas revistas Vopróssi literaturi (Questões de Literatura) e Kontiekst (Contexto). Morreu em Moscou, em 1975, após uma longa doença. II. Marxismo e Filosofia da Linguagem É difícil afirmar com exatidão quais as partes do texto que se devem a Volochínov. Sempre segundo o professor Ivánov, que deve a informação ao próprio Bakhtin, o título e certas partes do texto ligadas à escolha deste título são de Volochínov. Não se poderia, evidentemente, colocar em questão as convicções marxistas de Bakhtin; o livro é marxista do começo ao fim. Todavia como sublinha Jakobson em seu prefácio, o título não deixa de surpreender, pois o conteúdo do livro é muito mais rico do que a capa deixa entrever. Bakhtin expõe bem a necessidade de uma abordagem marxista da filosofia da linguagem, mas ele aborda, ao mesmo tempo, praticamente todos os domínios das (^2) Tradução francesa sob o título: Problèmes de la Poétique de Dostozevski , Lausanne, L'Âge d'Homme, 1970. (^3) Tradução francesa sob o título: François Rabelais et la Culture Populaire sous la Renaissance , Gallimard, 1970.

estruturas sociais; assim, toda modificação da ideologia encadeia uma modificação da língua. A evolução da língua obedece a uma dinâmica positivamente conotada, ao contrário do que afirma a concepção saussuriana. A variação é inerente à língua e reflete variações sociais; se, efetivamente, a evolução, por um lado, obedece a leis internas (reconstrução analógica, economia), ela é, sobretudo, regida por leis externas, de natureza social. O signo dialético, dinâmico, vivo, opõe-se ao "sinal" inerte que advém da análise da língua como sistema sincrônico abstrato. É o que leva Bakhtin a atacar a noção de sincronia. E o surpreendente, é que Bakhtin não critica Saussure em nome da teoria marxista, largamente proclamada; ele o critica no interior do seu próprio domínio, isto é, encontra a falha no sistema de oposição língua/fala, sincronia/diacronia. No plano científico, objetivo, o sistema sincrônico é uma ficção; com efeito, em nenhum momento o sistema está realmente em equilíbrio, e isto todos os lingüistas admitem. Mas, para o locutor-ouvinte ingênuo, usuário da língua, esta não é tampouco um sistema estável e abstrato de sinais constantemente iguais a si mesmos e isolados por procedimentos de análise distribucional. Ao contrário, a forma lingüística é sempre percebida como um signo mutável. A entonação expressiva, a modalidade apreciativa sem a qual não haveria enunciação, o conteúdo ideológico, o relacionamento com uma situação social determinada, afetam a significação. O valor novo do signo, relativamente a um "tema" sempre novo, é a única realidade para o locutor-ouvinte. Só a dialética pode resolver a contradição aparente entre a unicidade e a pluralidade da significação. O objetivismo abstrato favorece arbitrariamente a unicidade, a fim de poder "prender a palavra em um dicionário". O signo é, por natureza, vivo e móvel, plurivalente; a classe dominante tem interesse em torná-lo monovalente. Trata-se, justamente, de uma crítica ao distribucionalismo "neutro". Segundo Bakhtin, a lingüística saussuriana (o objetivismo abstrato), que pensa estar afastada dos procedimentos da filologia, na realidade, apenas os perpetua. Daí a crítica implícita da noção de corpus , prática reducionista que tende a "reificar" a linguagem. Toda enunciação, fazendo parte de um processo de comunicação ininterrupto, é um elemento do diálogo, no sentido amplo do termo, englobando as produções escritas. O corpus transforma as enunciações em monólogos. Nesse sentido, o procedimento dos lingüistas é o mesmo que o dos filólogos. Donde a idéia sempre reiterada de que o corpus , fundamento da lingüística descritiva e funcionalista, leva ao descritivismo abstrato e faz do signo um sinal (análise distribucional, estabelecimento de classes de contexto e de classes de unidade que fornecem, implicitamente, uma norma, mesmo se o método se pretende "objetivo" e "não normativo" pelo fato de se abster de evocar regras de caráter prescritivo). Os imperativos pedagógicos não deixam de ter influência sobre a prática do lingüista, na medida em que se procura transmitir um objeto-língua tão homogêneo quanto possível. Bakhtin coloca igualmente em evidência a inadequação de todos os procedimentos de análise lingüística (fonéticos, morfológicos e sintáticos) para dar conta da enunciação completa, seja ela uma palavra, uma frase ou uma seqüência de frases. A enunciação,

compreendida como uma réplica do diálogo social, e a unidade de base da língua, trate-se de discurso interior (diálogo consigo mesmo) ou exterior. Ela é de natureza social, portanto ideológica. Ela não existe fora de um contexto social, já que cada locutor tem um "horizonte social". Há sempre um interlocutor, ao menos potencial. O locutor pensa e se exprime para um auditório social bem definido. "A filosofia marxista da linguagem deve colocar como base de sua doutrina a enunciação, como realidade da língua e como estrutura sócio- ideológica." "O signo e a situação social estão indissoluvelmente ligados." Ora, todo signo é ideológico. Os sistemas semióticos servem para exprimir a ideologia e são, portanto, modelados por ela. A palavra é o signo ideológico por excelência; ela registra as menores variações das relações sociais, mas isso não vale somente para os sistemas ideológicos constituídos, já que a "ideologia do cotidiano", que se exprime na vida corrente, é o cadinho onde se formam e se renovam as ideologias constituídas. Se a língua é determinada pela ideologia, a consciência, portanto o pensamento, a "atividade mental", que são condicionados pela linguagem, são modelados pela ideologia. Contudo, todas estas relações são inter-relações recíprocas, orientadas, é verdade, mas sem excluir uma contra-ação. O psiquismo e a ideologia estão em "interação dialética constante". Eles têm como terreno comum o signo ideológico: "O signo ideológico vive graças à sua realização no psiquismo e, reciprocamente, a realização psíquica vive do suporte ideológico". A questão exige mais que um tratamento esquemático. Na verdade, a distinção essencial que Bakhtin faz é entre "a atividade mental do eu" não modelada ideologicamente, próxima da reação fisiológica do animal, característica do indivíduo pouco socializado) e a "atividade mental do nós" (forma superior que implica a consciência de classe). "O pensamento não existe fora de sua expressão potencial e, por conseqüência, fora da orientação social desta expressão e do próprio pensamento". Também não se pode tratar esquematicamente a questão da língua como superestrutura. Nos anos 20, no momento em que Bakhtin compõe sua obra, duas tendências se confrontam em lingüística, o formalismo e o sociologismo dito "vulgar", o marrismo. Nicolau Marr leva a suas últimas conseqüências a assimilação da língua a uma superestrutura: existência de línguas de classe e de gramáticas de classe independentes e teoria da evolução "por saltos"; é difícil confirmar essa teoria nos fatos: a toda revolução na base deveria corresponder uma tão pronta evolução da língua. Tal é, em todo caso, a imagem, sem dúvida parcialmente deformada, que se pode fazer da teoria de Marr a partir da controvérsia de 1950. Bakhtin, por sua vez, insiste sobre a noção de processo ininterrupto. Para ele, a palavra veicula, de maneira privilegiada, a ideologia; a ideologia é uma superestrutura, as transformações sociais da base refletem-se na ideologia e, portanto, na língua que as veicula. A palavra serve como "indicador" das mudanças. Bakhtin não afirma jamais que a língua é uma superestrutura no sentido estrito definido por Marr, o qual acarretará, em 1950, a inapelável condenação stalinista: a base e as superestruturas estão sempre em interação. Em compensação, ele afirma

literária, que ocuparão a maior parte de sua vida. Como Saussure, ele é, em vários aspectos, um homem do século XIX, um homem de gabinete, de cultura enciclopédica, um verdadeiro "não-especialista". É entre pessoas assim que, freqüentemente, encontramos os melhores especialistas de uma disciplina. Bibliografia V. V. Ivánov, "O Bakhtine i semiotike" ("Bakhtin e a Semiótica"), in Rossía (Rússia), 1, Nápoles, 1975- "Znatchénie idiéi Bakhtina o znákie, viskazivánie i dialóguie dliá sovremiénnoi semiotiki" (A Significação das Idéias de Bakhtin sobre o Signo, a Enunciação e o Diálogo para a Semiótica Moderna), in Trúdi po znákovim sistiemam (Trabalhos sobre Sistemas de Signos) Universidade de Tártu, 1973. Ver também "Ótcheki po istorii semiotiki v SSSR" (Ensaios para uma História da Semiótica na U.R.S.S.), Moscou, 1976. Marina Yaguello SUMÁRIO

NOTA DOS TRADUTORES

PREFÁCIO, Roman Jakobson INTRODUÇÃO PRÓLOGO PRIMEIRA PARTE A FILOSOFIA DA LINGUAGEM E SUA IMPORTÂNCIA PARA O MARXISMO Capitulo 1. Estudo das Ideologias e Filosofia da Linguagem. A ciência das ideologias e a filosofia da linguagem. O problema do signo ideológico. O signo ideológico e a consciência. A palavra como signo ideológico por excelência. A neutralidade ideológica da palavra. A propriedade da palavra de ser um signo interior. Conclusões. Capítulo 2. Relação entre a Infra-estrutura e as Superestruturas. Por quê razão é inadmissível aplicar a categoria da causalidade mecanicista à ciência da ideologia. A evolução da sociedade e a da palavra. Expressão semiótica da psicologia social. Dialetologia social. Formas da comunicação verbal e formas dos signos. Tema do signo. Luta de classes e dialética do signo. Capítulo 3. Filosofia da Linguagem e Psicologia Objetiva. Problema da descrição objetiva do psiquismo. Estudo da psicologia cognitiva e interpretativa (Dilthey). Realidade semiótica do psiquismo. Ponto de vista da psicologia funcionalista. Psicologismo e antipsicologismo. Especificidade do signo interior (discurso interior). Problema da introspecção. Natureza sócio-econômica do psiquismo. Conclusões. SEGUNDA PARTE PARA UMA FILOSOFIA MARXISTA DA LINGUAGEM Capítulo 4. Duas orientações do Pensamento Filosófico Lingüístico. Problema da realidade concreta da linguagem. Princípios fundamentais da primeira orientação do pensamento filosófico-lingüístico (o subjetivismo individualista) e seus representantes. Princípios fundamentais da segunda orientação do pensamento filosófico- lingüístico (objetivismo abstrato). Raízes históricas da segunda orientação. Representantes contemporâneos do objetivismo abstrato. Conclusões. Capítulo 5. Língua, Fala e Enunciação. A língua, enquanto sistema de formas sujeitas a uma norma, é objetiva? A língua como sistema de normas e o ponto de vista real da consciência do locutor. Que realidade lingüística está na base do sistema da língua? Problema da palavra estrangeira. Erros do objetivismo abstrato. Conclusões. Capítulo 6. A Interação Verbal. Teoria da expressão do subjetivismo individualista. Crítica da teoria

Não existe, atualmente, uma única análise marxista no domínio da filosofia da linguagem. Nem sequer há nos trabalhos marxistas relativos a outras questões, próximas daquelas da linguagem, alguma formulação, a respeito desta, que seja um pouco precisa e desenvolvida. Portanto, a problemática de nosso trabalho, que desbrava, de certa forma, um terreno ainda virgem, só pode, evidentemente, situar-se num nível bastante modesto. Não se trata de uma análise marxista sistemática e definitiva dos problemas básicos da filosofia da linguagem. Tal análise só poderia resultar de um trabalho coletivo de grande fôlego. De nossa parte, tivemos que nos restringir à simples tarefa de esboçar as orientações de base que uma reflexão aprofundada sobre a linguagem deveria seguir e os procedimentos metodológicos a partir dos quais essa reflexão deve estabelecer-se para abordar os problemas concretos da lingüística. A atual inexistência, na literatura marxista, de uma descrição definitiva e universalmente reconhecida da realidade específica dos problemas ideológicos tornou nossa tarefa particularmente complexa. Na maioria dos casos, esses problemas são percebidos como manifestações da consciência, isto é, como fenômenos de natureza psicológica. Uma tal concepção constituiu um grande obstáculo ao estudo correto dos aspectos específicos dos fenômenos ideológicos, os quais não podem, de forma alguma, ser reduzidos às particularidades da consciência e do psiquismo. Por isso, o papel da língua, como realidade material específica da criação ideológica, não pôde ser justamente apreciado. É preciso acrescentar a isso que categorias do tipo mecanicista implantaram-se solidamente em todos os domínios a respeito dos quais os pais fundadores - Marx e Engels - pouco ou nada disseram. Esses domínios, portanto, encontram-se, com respeito ao essencial, no estádio do materialismo mecanicista pré-dialético. Todos os domínios da ciência das ideologias acham-se, atualmente, ainda dominados pela categoria da causalidade mecanicista. Além disso, persiste ainda a concepção positivista do empirismo, que se inclina diante do "fato", entendido não dialeticamente, mas como algo intangível e imutável. Praticamente, o espírito filosófico do marxismo ainda não penetrou nesses domínios. Por essas razões, foi-nos quase totalmente impossível encontrar apoio em resultados precisos e positivos que tivessem sido obtidos pelas outras ciências que se relacionam com a ideologia. Mesmo a crítica literária, que, graças a Plekhánov, é, todavia, a mais desenvolvida dessas ciências, nada pôde fornecer de útil a nosso objeto de estudo. Este livro apresenta-se, essencialmente, como um trabalho de pesquisa, mas tentamos conferir-lhe uma forma acessível ao grande público. Na primeira parte de nosso trabalho, tentamos mostrar a importância dos problemas da filosofia da linguagem para o marxismo em seu conjunto. Essa importância não tem sido, como dissemos, suficientemente apreciada. E, no entanto, os problemas da filosofia da linguagem situam-se no ponto de convergência de uma série de domínios

essenciais para a concepção marxista do mundo e de alguns domínios que têm interessado muito, atualmente, nossa opinião pública. Convém acrescentar que, nesses últimos anos, os problemas fundamentais da filosofia da linguagem adquiriram uma acuidade e uma importância excepcionais. Pode-se dizer que a filosofia burguesa contemporânea está se desenvolvendo sob o signo da palavra. E essa nova orientação do pensamento filosófico do Ocidente está ainda só nos seus primeiros passos. A "palavra" e sua situação no sistema são a parada de uma luta inflamada somente comparável àquela que, na Idade Média, opôs realistas, nominalistas e conceitualistas. Na realidade, no realismo dos fenomenólogos e no conceitualismo dos neokantianos, assistimos, numa certa medida, a um renascimento da tradição das escolas filosóficas medievais. Na lingüística propriamente dita, após a era positivista, marcada pela recusa de qualquer teorização dos problemas científicos, a que se adiciona uma hostilidade, por parte dos positivistas retardatários, em relação aos problemas de visão do mundo, assiste-se a uma nítida tomada de consciência dos fundamentos filosóficos dessa ciência e de suas relações com os outros domínios do conhecimento. E isso serviu para denunciar a crise que a lingüística atravessa, na sua incapacidade de resolver seus problemas de modo satisfatório. Indicar o lugar dos problemas da filosofia da linguagem dentro do conjunto da visão marxista do mundo : este é o objetivo de nossa primeira parte. É por isso que ela não contém demonstrações e não propõe conclusões definitivas. Seu interesse está mais voltado para a relação entre os problemas do que para a relação entre os fatos estudados. A segunda parte tenta resolver o problema fundamental da filosofia da linguagem, ou seja, o problema da natureza real dos fenômenos lingüísticos. Esse problema constitui o eixo em torno do qual giram todas as questões essenciais do pensamento filosófico- lingüístico contemporâneo. Problemas tão fundamentais quanto o da evolução da língua, da interação verbal, da compreensão, o problema da significação e muitos outros ainda estão estreitamente vinculados a esse problema central. Evidentemente, apenas esboçamos as principais vias que conduzem à sua resolução. Toda uma série de questões permanece em suspenso. Toda uma série de direções de pesquisa, indicadas no começo, permanece inexplorada. Mas não poderia ser de outro modo num pequeno livro que, pela primeira vez, tenta abordar esses problemas de um ponto de vista marxista. Na última parte de nosso trabalho, é realizado um estudo concreto de uma questão de sintaxe. A idéia diretiva de toda nossa pesquisa, o papel produtivo e a natureza social da enunciação, requer exemplos concretos que a sustentem: é indispensável mostrar sua importância, não só no plano geral da visão do mundo e para as questões básicas da filosofia da linguagem, mas também para todas as questões da lingüística, por mais particulares que sejam. Se essa idéia é realmente justa e fecunda, ela deve poder ser aplicada em todos os níveis. Mas o tema da terceira parte, a questão do discurso citado, tem ele mesmo uma significação profunda que vai muito além do quadro da sintaxe. Vários aspectos essenciais da criação literária, o

PRIMEIRA PARTE

A FILOSOFIA DA LINGUAGEM

E SUA IMPORTÂNCIA PARA O MARXISMO

CAPÍTULO I

ESTUDO DAS IDEOLOGIAS E FILOSOFIA DA LINGUAGEM

Os problemas da filosofia da linguagem adquiriram, recentemente, uma atualidade e uma importância excepcionais para o marxismo. Na maioria dos setores mais importantes de seu desenvolvimento científico, o método marxista vai diretamente de encontro a esses problemas e não pode avançar de maneira eficaz sem submetê-los a um exame específico e encontrar-lhes uma solução. Para começar, as bases de uma teoria marxista da criação ideológica - as dos estudos sobre o conhecimento científico, a literatura, a religião, a moral, etc. - estão estreitamente ligadas aos problemas de filosofia da linguagem. Um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele também reflete e refrata uma outra realidade, que lhe é exterior. Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia. Um corpo físico vale por si próprio: não significa nada e coincide inteiramente com sua própria natureza. Neste caso, não se trata de ideologia. No entanto, todo corpo físico pode ser percebido como símbolo: é o caso, por exemplo, da simbolização do princípio de inércia e de necessidade na natureza (determinismo) por um determinado objeto único. E toda imagem artístico-simbólica ocasionada por um objeto físico particular já é um produto ideológico. Converte-se, assim, em signo o objeto físico, o qual, sem deixar de fazer parte da realidade material, passa a refletir e a refratar, numa certa medida, uma outra realidade. O mesmo se dá com um instrumento de produção. Em si mesmo, um instrumento não possui um sentido preciso, mas apenas uma função: desempenhar este ou aquele papel na produção. E ele desempenha essa função sem refletir ou representar alguma outra coisa. Todavia, um instrumento pode ser convertido em signo ideológico: é o caso, por exemplo, da foice e do martelo como emblema da União Soviética. A foice e o martelo possuem, aqui, um sentido puramente ideológico. Todo instrumento de produção pode, da mesma forma, se revestir de um sentido ideológico: os instrumentos utilizados pelo homem pré- histórico eram cobertos de representações simbólicas e de ornamentos, isto é, de signos. Nem por isso o instrumento, assim tratado, torna-se ele próprio um signo. Por outro lado, é possível dar ao instrumento uma forma artística, que assegure uma adequação harmônica da forma à função na produção. Nesse caso, produz-se uma espécie de aproximação máxima, quase uma fusão, entre o signo e o instrumento. Mas mesmo aqui ainda discernimos uma linha de demarcação conceitual: o instrumento, enquanto tal, não se torna signo e o signo, enquanto tal, não se torna instrumento de produção. Qualquer produto de consumo pode, da mesma forma, ser transformado em signo ideológico. O pão e o vinho, por exemplo, tornam-se símbolos religiosos no sacramento cristão da comunhão. Mas o