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Este documento discute as observações de um profissional de saúde sobre a necessidade de abordar a saúde feminina além do cuidado com o corpo físico e reprodutivo. Ele aponta lacunas no conhecimento da enfermagem em relação à saúde feminina e a importância de educar as mulheres sobre sua saúde. O texto também discute as transformações na vida da mulher no século xx e a necessidade de um sistema de saúde preparado para atender aos diferentes perfis de mulheres.
Tipologia: Notas de estudo
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Graduei-me pala Universidade Federal de Goiás em 2002 e desde o primeiro ano de graduação me interessei por pesquisa, ingressando no programa denominado PET - Programa Especial de Treinamento, o atual Programa de Educação Tutorial, que é dirigido para pesquisa, ensino e extensão, coordenado localmente por um tutor, com a participação de professores colaboradores. É financiado pela Secretaria de Ensino Superior (SESu) do Ministério da Educação e Cultura. O PET me proporcionou grande aprendizado, tanto em pesquisa quanto em organização de eventos científicos, além de contribuir financeiramente. Meu interesse por Saúde da Mulher surgiu em 2001, no quarto ano de graduação, com as disciplinas de Materno-Infantil e Saúde Coletiva. Período em que compreendi que a saúde da mulher deveria ir além do cuidado com o corpo físico e com a saúde reprodutiva, buscando visualizar a mulher em sua totalidade, sua cultura, crença, valores, estilo de vida, dentre outros. Durante os estágios curriculares, percebi o enfermeiro, em particular o que atuava em saúde coletiva, estava muito voltado para o atendimento a saúde reprodutiva da mulher. Este profissional acompanhava pré-natal, intercalando as consultas com o médico, realizava consultas ginecológicas e prescrevia medicações mediante protocolos e, geralmente, era responsável pela organização do planejamento familiar em sua unidade. Além disto, este profissional podia realizar atividades de educação em saúde junto as mulheres, todavia os temas apresentados nestas reuniões também estavam relacionados à saúde reprodutiva. Entretanto, o espaço das reuniões favorecia a discussão e o posicionamento das mulheres, permitindo uma reflexão das mesmas sobre si e sua saúde, além da troca de experiências. A partir destas observações, notei que havia lacunas no conhecimento da enfermagem em relação à saúde feminina, o enfermeiro realizava atividades importantes para a saúde da mulher, as quais são incentivadas pelo Ministério da Saúde e pelo gestor municipal de saúde. Entretanto, muitas vezes, este profissional não documentava sua prática, o seu atendimento às mulheres, não buscava transformar sua prática profissional em conhecimento científico. Além disso, o enfermeiro ficava muito preso à questão biológica e reprodutiva da mulher, por exemplo, na consulta ginecológica, geralmente era realizada somente a coleta de material para o exame preventivo. A questão emocional, social e cultural da mulher não era valorizada e avaliada. Como pesquisadora em aprendizado e futura profissional, propus a contribuir com a melhor qualidade na assistência à mulher. A partir deste momento, direcionei meus estudos para esta temática, produzindo três trabalhos científicos sobre gravidez de alto
risco e um sobre câncer de colo uterino, todos tendo como sujeito a própria mulher e todos apresentados em eventos científicos. Neste estudo, saúde é entendida segundo a Constituição Federal de 1988, artigo 196, ou seja, “como direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços de para sua promoção, proteção e recuperação”. Demonstrando que para ter saúde é necessário ter qualidade em todos os aspectos da vida. Neste sentido, foi utilizado o conceito de qualidade de vida de Minayo, Hartz e Buss (2000) Qualidade de vida é uma noção eminentemente humana, que tem sido aproximado ao grau de satisfação encontrado na vida familiar, amorosa, social e ambiental e à própria estética existencial. Pressupõe a capacidade de efetuar uma síntese cultural de todos os elementos que determinada sociedade considera seu padrão de conforto e bem-estar. O termo abrange muitos significados que refletem conhecimentos, experiências e valores de indivíduos e coletividades que a ele se reportam em variadas épocas, espaços e histórias diferentes, sendo, uma construção social com a marca da relatividade cultural.
Utilizamos também o conceito de qualidade de vida apresentado no relatório de reunião sobre marco conceitual da promoção da saúde no Brasil, durante o Fórum Social Mundial, ocorrido em 2003, em Porto Alegre. Assim temos: A qualidade de vida, entendida como a satisfação das necessidades sociais e qualidade de vida e saúde, é derivada dos direitos fundamentais e direitos sociais, expressa na legislação de direitos e está ligada à sobredeterminação social no conceito de saúde. Ela inclui cinco dimensões: a individual, ligada a autonomia; a coletiva, relativa a equidade; a institucional, ligada a ação transetorial, baseada na integralidade; a ambiental, ligada a sustentabilidade, tendo como referência os ecossistemas humanos e as determinações da Agenda21; e a subjetiva, centrada na construção do imaginário coletivo em saúde. Neste trabalho, procuramos estudar a saúde da mulher, a qual é entendida como uma concepção que vai além de uma abordagem biológica, englobando dimensões como direitos humanos e questões relacionadas à cidadania. Considerando também os fatores sociais, econômicos, culturais e históricos.
Durante meu trabalho na USF de Piracanjuba pude observar uma discrepância no comportamento das mulheres que pertenciam àquela área, quando a temática estava ligada ao atendimento à saúde feminina. Neste sentido, três fatores me chamaram a atenção: mulheres que não buscam atendimento; mulheres que buscam atendimento em excesso; e aquelas que buscam atendimento de forma regular. A faixa etária parece influenciar no comportamento feminino, as mulheres idosas sentiam-se inibidas a buscar a consulta ginecológica, por exemplo. Já as jovens buscam o serviço com naturalidade, na maioria das vezes. No primeiro fator, mulheres que não buscam atendimento relacionado à saúde da mulher. Este grupo é informado pelo Agente Comunitário de Saúde (ACS) da existência dos serviços prestados na USF e da importância em buscá-los, no entanto, não buscam a unidade. Quando questionadas pelos ACS de sua decisão de não buscar a unidade, referem falta de tempo, vergonha de se expor, medo de descobrir alguma doença, além de dizerem que não estão sentindo nada. No segundo fator, mulheres que buscam atendimento em excesso, as mulheres buscam certos atendimentos, como o exame preventivo, em intervalos menores que os indicados pelo Ministério da Saúde, sem indicação para novo exame. Quando questionadas relatavam que não sabiam ao certo quando realizar novo exame. Uma vez que estavam apresentado algum sintoma ginecológico, tais como, prurido, secreções vaginais anormais, dentre outros procuravam a unidade para agendar um novo exame preventivo, mesmo tendo feito o último há três meses e com resultados normais. No terceiro fator, mulheres que buscam atendimento de forma regular, estas mulheres realizam os exames de rotina e diante de sintomas novos buscam a unidade para saber qual melhor caminho a seguir. Outro aspecto que poderia estar explicando o comportamento feminino são os paradigmas da assistência, o tecnocrático, o humanista e o holístico, descritos por Davis- Floyd (2001). No paradigma tecnocrático, ocorre a separação entre mente e corpo dos indivíduos e o corpo é comparado a uma máquina e o paciente a um objeto. O médico possui visão fragmentada do paciente, visando basicamente sua estrutura biológica, buscando a cura de doenças e o reparo de disfunções. Para isto o uso da ciência e tecnologia é supervalorizado, e o conhecimento médico sobre o quadro geral do paciente não é compartilhado com o mesmo de forma esclarecedora. Já no paradigma humanista, o corpo e a mente encontram-se em constante comunicação. O corpo é comparado a um organismo, e o paciente é visto como sujeito. A relação médico-paciente ocorre de forma integrada, as informações, a tomada de decisões e as
responsabilidades são compartilhadas entre o paciente e o médico. O diagnóstico é realizado tanto de dentro para fora quanto de fora para dentro, sendo que a tecnologia continua a ser utilizada em favor do paciente. O foco agora se encontra na prevenção de doenças. O paradigma holístico traz a conexão ente corpo, mente e espírito. O corpo é visto como um sistema de energia ligado a outros sistemas energéticos. Este paradigma entende o organismo como um todo e a doença como um desequilíbrio no campo energético. O diagnóstico acontece de dentro para fora, o indivíduo é o principal responsável pelo seu tratamento. Os profissionais envolvidos no tratamento são como guias para o encontro do equilíbrio. Nas USF de Piracanjuba-GO, o paradigma tecnocrata está muito presente e é responsável por uma visão fragmentada do ser humano, em particular das mulheres. Já a humanização é uma idéia que, ultimamente, vem sendo difundida pelo Ministério da Saúde, através do PNH, da PNAISM, PHPN, dentre outros, entretanto, a mudança de paradigma é uma tarefa lenta e não depende só do Ministério da Saúde, mas também dos gestores estaduais e municipais, das equipes de saúde e da própria clientela. No modelo humanista, como foi descrito anteriormente, ocorre uma aproximação entre profissional e cliente, este participa efetivamente de seu próprio tratamento. Na realidade das USF de Piracanjuba-GO há alguns profissionais que buscam trazer este tipo de atendimento para sua prática, a clientela demonstra boa aceitação por este modelo, sente-se importante e participativa. Entretanto, são casos isolados, não há uma política municipal neste sentido. Já o modelo holístico, que seria compreender o organismo como um todo, corpo-mente-energia, não está presente na prática profissional das USF do município. Diante dos fatores apresentados surgiu o interesse em estudar a representação social da mulher em relação ao ser mulher e à saúde feminina. A partir do momento em que se compreender a representação social que este grupo possui sobre si mesmo e sua saúde, partindo do seu entendimento como sujeito. Será mais fácil delinear caminhos que possam levar a um atendimento mais efetivo e de qualidade e com adesão desta clientela. Diante do exposto, tivemos os seguintes questionamentos: Qual a representação social da mulher sobre ser mulher e sobre a saúde feminina? Quais são as estratégias utilizadas por este grupo para a busca da saúde? Nesta perspectiva, este estudo se enquadrou na linha de pesquisa Enfermagem e população: conhecimentos, atitudes e práticas em saúde.
I.1. OBJETIVOS Identificar a representação social da mulher sobre ser mulher e sobre a saúde feminina.
Trouxemos também informações sobre a Estratégia Saúde da Família, de modo a mostrar como deveria ser o funcionamento teórico desta estratégia. E por último fizemos um breve levantamento do que é Representações Sociais e como está surge num determinado grupo, a fim de favorecer o entendimento do leitor ao longo desta pesquisa.
II.1. BREVE HISTÓRICO SOBRE A MULHER E O SISTEMA DE SAÚDE
A mulher foi vista desde a antiguidade até o final do século XIX como um ser destinado ao casamento, a procriação, ao cuidado com os filhos, casa e marido. Não sendo dona de seu próprio corpo e de sua sexualidade. Alves & Pitanguy (2003) relatam que na Grécia antiga a função primordial da mulher era a reprodução: gerava, amamentava e criava os filhos. Já em Roma antiga as mulheres não estavam satisfeitas com sua condição, faziam protestos junto ao Senado. No entanto, não foram atendidas em suas reinvidicações. Na idade média algumas mulheres tiveram alguns direitos em lei, trabalharam em algumas profissões e algumas freqüentaram Universidades (cursos de Medicina e Direito), exercendo a profissão. Entretanto as atividades desempenhadas por elas eram desvalorizadas financeiramente e não tinham prestígio social (ALVES & PITANGUY, 2003). No período Renascentista a mulher foi afastada da esfera pública e teve seus direitos reduzidos. O trabalho se valorizou como instrumento de transformação do mundo pelo homem. O trabalho feminino passou a ser depreciado, continuavam a trabalhar só que com menor remuneração e em atividades menos qualificadas. Não freqüentavam Universidades (ALVES & PITANGUY, 2003). Até aqui não havia preocupação efetiva com a saúde da mulher, esta era vista como desprovida de sexualidade e deveria ter quantos filhos pudesse conceber durante a vida. Yalom (2002) relata que no final do século XIX, nos Estados Unidos, uma nova versão da sexualidade feminina começou a rebater a existente. O conhecimento sobre dispositivos anticoncepcionais penetrou na sociedade e tornou-se popular, bem como as informações sobre estes. A justificativa mais comum para a reprodução limitada era de que era bom tanto para a mãe quanto para o filho. Passou-se a discutir controle de natalidade como meio de preservar a saúde da mulher e da criança e evitar superpopulação. Alves & Pitanguy (2003) relatam que no início do século XX as mulheres brasileiras conseguiram que algumas de suas reinvidicações fossem atendidas. Adquiriram o direito de votar, serem votadas, ingressarem nas instituições escolares e participarem do
mercado de trabalho. Começaram a questionar as raízes culturais das desigualdades existentes, perceberam que a diferenciação de papéis se baseava mais no social do que no biológico. Frentes de lutas foram organizadas por estas mulheres, estavam relacionadas principalmente à sexualidade e violência, à saúde, à ideologia e a formação profissional. No Brasil, a saúde da mulher foi incorporada às políticas nacionais de saúde nas primeiras décadas do século XX, sendo limitada, nesse período, às demandas relativas à gravidez e ao parto. Os programas materno-infantis, elaborados nas décadas de 30, 50 e 70, traduziam uma visão restrita sobre a mulher, baseada em sua especificidade biológica e no seu papel social de mãe e doméstica, responsável pela criação, pela educação e pelo cuidado com a saúde dos filhos e demais familiares (BRASIL, 2004a).
Estes programas foram vigorosamente criticados pelo movimento feminista, devido a perspectiva reducionista com que tratavam a mulher, que tinha acesso a alguns cuidados de saúde no ciclo gravídico-puerperal, ficando sem assistência na maior parte de sua vida. As mulheres organizadas reivindicavam, portanto, sua condição de sujeitos de direito, com necessidades que extrapolam o momento da gestação e parto, demandando ações que lhes proporcionassem a melhoria das condições de saúde em todas os ciclos de vida. Ações que contemplassem as particularidades dos diferentes grupos populacionais, e as condições sociais, econômicas, culturais e afetivas, em que estivessem inseridos. (BRASIL, 2004a). Com o exposto, notamos que a função reprodutiva da mulher esteve em foco durante muitos séculos e que ainda hoje, no século XXI, não é tão diferente, mesmo tendo novo discurso, a prática em saúde demonstra uma preocupação maior com a saúde reprodutiva feminina, muitas vezes, sem plena consciência desta realidade. Para continuarmos relataremos um pouco sobre a mulher na atualidade e sobre o que o sistema de saúde dita para ela. As reinvidicações das mulheres resultaram em grandes transformações no mundo feminino, tanto no que se refere à sexualidade e saúde, quanto nas ideologias, formação profissional e mercado de trabalho. O sistema de saúde teve que modificar para atender a estas reinvidicações. Deste modo, foi elaborado em 1984, pelo Ministério da Saúde o Programa de Assistência Integral a Saúde da Mulher (PAISM). Este programa tem como princípio prestar assistência a mulheres em todas as fases de sua vida, da adolescência ao climatério. Orienta para as patologias mais comuns existentes na população feminina, com ações voltadas a sexualidade, ao acompanhamento pré-natal, parto, puerpério, assistência clínica-ginecológica, controle do câncer de colo-uterino e de mama, controle de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST), planejamento familiar e climatério.
É preciso maior conhecimento de si, para melhor compreender o outro com suas especificidades e para poder ajudar sem procurar impor valores, opiniões ou decisões. Um dos elementos para atingir estes princípios é o acesso da população feminina às ações e aos serviços de saúde nos três níveis de assistência: primário, secundário e terciário. Como foi descrito, no século XX ocorreram grandes transformações na vida da população feminina, surgindo um novo tipo de mulher, chamada neste estudo de nova mulher. Riechelmann (1998) afirma que a nova mulher é dona de si e participa no sistema econômico de produção, embora continue com as responsabilidades do trabalho doméstico, tendo, assim dupla jornada de trabalho. Esta nova mulher possui o controle sobre sua sexualidade, tanto em relação ao prazer quanto à maternidade. Entretanto, convivendo no mesmo cenário desta nova mulher continua a existir a mulher tradicional, que carrega consigo os ideais de mulher como mãe, esposa, e boa dona de casa. Segundo Riechelmann (1998) este tipo de mulher é desvalorizada em relação ao homem, uma vez que é vista como menos inteligente e capaz que este. Ela existe em função do conforto e do prazer masculino e de gerar seus herdeiros. Não é dona de sua sexualidade a qual pertence a seu marido. Limita-se ao ambiente doméstico. Para estas mulheres trabalhar fora do lar é sinônimo de ausência de um homem na sua vida. O sistema de saúde e, principalmente, a Unidade de Saúde da Família (USF) precisam estar preparados para atender aos perfis de mulheres existentes, nesta perspectiva procurar entender as representações sociais destas mulheres sobre ser mulher e sua saúde e como cada uma busca cuidar da própria saúde é essencial.
A Estratégia Saúde da Família (ESF), surgiu em 1994, sob a denominação de Programa Saúde da Família (PSF), como um programa do Ministério da Saúde. Desde então, a ESF tem sido uma das prioridades do governo federal. Será utilizada, neste trabalho, a denominação ESF, mas no que se refere a documentos e textos de outros autores, será caracterizado da mesma forma em que aparece nos mesmos. O Ministério da Saúde (2001), define o PSF como uma estratégia que prioriza as ações de promoção, proteção e recuperação da saúde dos indivíduos e da família, do recém- nascido ao idoso, sadios ou doentes, de forma integral ou contínua. O Ministério da Saúde (2001) afirma também que o PSF tem o objetivo de reorganizar a prática assistencial em novas bases e critérios, em substituição ao modelo
tradicional de assistência, orientado para a cura de doenças e centrado no hospital. A atenção está centrada na família, entendida e percebida a partir de seu ambiente físico e social. A estratégia Saúde da Família reafirma e incorpora os princípios básicos do Sistema Único de Saúde (SUS): universalização, descentralização, integralidade e participação da comunidade. Esta estratégia está estruturada a partir da Unidade de Saúde da Família (USF) - uma unidade pública de saúde, com equipe multiprofissional que assume a responsabilidade por uma determinada população, a ela vinculada, onde desenvolve ações de promoção da saúde, prevenção, tratamento e reabilitação dos agravos. A Unidade de Saúde da Família atua baseada nos seguintes princípios:
estudo, ao utilizar uma USF no interior de Goiás como cenário mostrou, em linhas gerais, como ocorre este funcionamento. III. CONHECENDO UM POUCO SOBRE REPRESENTAÇÕES SOCIAIS A Teoria das Representações Sociais (TRS) teve início na década de 1960, discussão proposta por Moscovici, que se fundamentou em outras teorias para desenvolvê-la. Moscovici se apoiou no conceito de representações coletivas de Durkheim. Moscovici remodelou o conceito de representações coletivas a partir de duas vertentes. A primeira, baseada em Piaget, no estudo de representação de crianças, no qual a criança intercambia o signo e o significado e a imaginação aparece como um dos modos do pensamento social. A outra vertente baseou-se na teoria sexual das crianças, desenvolvida por Freud que traz elementos como a internalização, que infunde realidade e imagens e símbolos que deixam marcas em nossas vidas a partir da infância (ESCUDEIRO, 1997). Surge assim o conceito de representações sociais na Psicologia Social, o qual seria, futuramente, utilizado por outras áreas do conhecimento, dentre elas a enfermagem. O termo representações sociais designa tanto um conjunto de fenômenos quanto o conceito que os engloba e a teoria construída para explicá-los. Conceituar representações sociais não é uma tarefa fácil, devido a própria complexidade da noção da mesma. Moscovici (2004) não apresenta uma definição precisa das representações sociais. Entretanto este autor comenta que representações sociais são um conjunto de conceitos, proposições e explicações originado na vida cotidiana no curso de comunicações interpessoais. São equivalentes, em nossa sociedade, dos mitos e sistemas de crenças das sociedades tradicionais, podem também ser vistas como a versão contemporânea do senso comum. Jodelet (2005) refere que o conceito de representação social designa uma forma específica de conhecimento, o saber do senso comum, cujos conteúdos manifestam a operação de processos generativos e funcionais socialmente marcados. De modo mais amplo, designa uma forma de pensamento social. Moscovici (2004) nos diz que a estrutura de cada representação possui duas faces, a face figurativa e a face simbólica. A primeira, um polo passivo da estampagem do objeto, expressão e de uma produção do sujeito. E a segunda, um polo ativo da escolha do sujeito. Esta estrutura busca destacar uma figura e ao mesmo tempo, carregá-la de um sentido, inscrever o objeto em nosso universo, isto é, naturalizá-lo e fornecer-lhe um contexto inteligível, isto é, interpretá-lo. Moscovici (2004) formula a hipótese de que cada universo tem três dimensões: a informação, a atitude e o campo de representação ou imagem. A informação está relacionada
objeto. A enfermagem é uma destas áreas, vem utilizando as representações sociais em alguns de seus estudos científicos. Neste sentido nos estamos utilizando as representações sociais na tentativa de identificar o significado de ser mulher e da saúde para um determinado grupo de mulheres, no interior de Goiás. Como mostramos anteriormente, a mulher tem ocupado novos espaços no mundo contemporâneo e a saúde também tem evoluído seu conceito. Mas como está enraizado o pensamento destas mulheres em relação a esta temática, o que é familiar para este grupo. Acreditamos que estas representações interferem nas estratégias utilizadas por estas mulheres na busca da saúde e na qualidade assistencial, tornando-se assim, um bom caminho para mudanças efetivas. IV. TRAJETÓRIA METODOLÓGICA O estudo foi pautado numa abordagem qualitativa, com enfoque nas representações sociais colocadas por Moscovici e Jodelet. A pesquisa qualitativa permite compreender o problema no meio em que ele ocorre, sem criar situações artificiais que mascaram a realidade, ou que levam a interpretações e generalizações equivocadas (GAUTIER, 1998). O estudo qualitativo lida com o aspecto da complexidade humana explorando-a diretamente. Enfatiza a compreensão da experiência humana como é vivida, coletando e analisando materiais narrativos e subjetivos (POLIT, BECK e HUNGLER, 2004). Já a representação social designa uma forma específica de conhecimento, o saber do senso comum, cujos conteúdos manifestam a operação de processos generativos e funcionais socialmente marcados. De modo mais amplo, designa uma forma de pensamento social (JODELET, 2005). A representação social é equivalente, em nossa sociedade, aos mitos e sistemas de crenças das sociedades tradicionais, podem também ser vistas como a versão contemporânea do senso comum (MOSCOVICI, 2004).
I.3. CENÁRIO
O estudo foi realizado numa Unidade de Saúde da Família (USF), selecionada aleatoriamente no município de Piracanjuba-GO. A USF foi escolhida como cenário por possuir território de abrangência definido e ser responsável pelo cadastramento e acompanhamento da população adscrita a área. Permitindo, desta forma, que os sujeitos do estudo pertençam a uma mesma localidade com condições sócio-econômicas semelhantes.
A USF selecionada possui 965 famílias cadastradas, somando um total de 2986 pessoas. Dentre está população há 19 gestantes, 55 crianças, 80 diabéticos e 453 hipertensos acompanhados. Esta USF Abrange seis setores, sua sede é uma casa que foi reformada e reestruturada para ser uma USF. Está localizada de forma estratégica, permitindo acesso fácil da população de qualquer um dos setores abrangidos. Esta unidade está estruturada fisicamente da seguinte forma: possui muros nas laterais e a frente com grades, com dois portões, que dão acesso a uma área que contorna a unidade. A área lateral direita serve como sala de espera para consulta clínica com o médico ou enfermeira, enquanto a área lateral esquerda funciona como sala de espera para atendimento odontológico. Ambas as áreas possuem banquetas de cimento com cerâmica, que são utilizados pela clientela como assento. Entrando pelo lado direito, no final da área encontra-se a recepção, onde é marcada a consulta, solicitado aferição de pressão arterial, glicemia, etc. A recepção dá acesso a um banheiro público, a uma copa, ao consultório médico, a sala de procedimentos técnicos de enfermagem e ao consultório de enfermagem. Entre a recepção e o consultório de enfermagem há banheiro para funcionários. A sala de procedimentos técnicos de enfermagem dá acesso a sala de curativos. Entrando pelo lado esquerdo, há o consultório dentário com acesso com as demais dependências da unidade através da copa, somente para funcionários. O horário de funcionamento da unidade é de 07:00h às 11:00h e de 13:00 às 17:00h, de segunda a sexta feira. Ficando fechada aos finais de semana, feriados e no horário de almoço, 11:00 às 13:00h. A equipe desta USF é composta por um médico, uma enfermeira, uma cirurgião- dentista, uma técnica de enfermagem, uma auxiliar de consultório dentário, uma auxiliar de limpeza, uma recepcionista e seis agentes comunitários de saúde. As principais atividades desenvolvidas pela equipe de saúde desta USF são:
As principais atividades desenvolvidas com as mulheres nesta unidade são:
Foi obedecida a Resolução 196/96, do Conselho Nacional de Saúde/Ministério da Saúde. O termo de consentimento e livre esclarecido (TCLE) utilizado encontra-se no apêndice B.
VIII. ENTRADA NO CAMPO E COLETA DE INFORMAÇÕES
Antes da entrada no campo de coleta de informações, visitei a Secretaria Municipal de Saúde, no dia 10 de julho de 2006, e me apresentei ao Coordenador da Estratégia Saúde da Família de Piracanjuba-GO, entregando-lhe uma cópia do projeto de pesquisa e esclarecendo de que se tratava o trabalho. Este se mostrou solícito e prestou informações de algumas atividades que foram ou estavam sendo realizadas nas USF em relação a saúde da mulher, me forneceu material impresso sobre todas atividades desenvolvidas nas cinco USF do município, bem como a composição de cada equipe, os setores abrangidos e o número de famílias acompanhadas por cada unidade. Nesta ocasião, escolhemos a USF na qual seria realizado o estudo. A primeira visita ao campo aconteceu no dia 12 de Julho de 2006, as 07:50h. Encontrei a unidade quase sem nenhuma clientela, havia clientes somente para atendimento odontológico. Apresentei-me a enfermeira e expus o motivo de minha presença na unidade, fui apresentada por ela aos demais funcionários. Descobri que a unidade estava sem clientela porque o médico encontrava-se de férias. Por sua vez, havia poucos clientes para serem atendidos pelo cirurgião dentista, pois o mesmo entraria de férias na próxima semana, estava apenas terminando o tratamento de quem já havia começado. Soube também que o médico recomeçaria as consultas no dia 17 de julho de 2006, assim, deixei acertado com a equipe daquela unidade que começaria a coleta de informações no dia em que o médico voltasse a trabalhar, ou seja, em 17 de julho de 2006. Deste modo iniciei a coleta de informações no dia combinado, as 08:00h. A mesma foi realizada através de um roteiro de caracterização, de uma dinâmica e de uma entrevista semi-estruturada com as mulheres participantes, individualmente. A coleta de informações foi encerrada no dia 28 de agosto de 2006, com total de trinta e três participantes, na medida em que os dados já estavam saturados. A abordagem às mulheres e a coleta de informações foram feitas na sala de espera, no período anterior ou posterior a consulta, ou enquanto aguardavam um familiar ou amigo que estava consultando. A sala de espera foi o local de escolha das próprias entrevistadas, no momento da coleta de informações, ficávamos afastadas do restante do grupo, a fim de conferir privacidade às falas da entrevistada. Primeiramente, eu me apresentava a elas, expunha do que se tratava o estudo, da importância da participação da mesma, bem como o sigilo, o anonimato e a não obrigatoriedade da participação das mesmas, caso se interessassem em participar entregava-lhes o TCLE e explicava a sua importância, após a assinatura deste por mim e por ela e a entrega de uma via à mulher interessada em participar, sentávamos num local mais afastado do grupo e começávamos a coleta de informações que estava dividido em três momentos: 3.5.1) a caracterização; 3.5.2) a dinâmica; e 3.5.3) a entrevista.
VIII.1.. O primeiro momento... A caracterização
As informações contidas na caracterização foram colhidas através de um roteiro estruturado, buscando trazer informações relevantes para traçar o perfil sócio-econômico das participantes do estudo. As informações contidas foram referentes a idade, escolaridade, estado civil, chefe de família, ocupação, renda própria, renda familiar, número de partos e meios de comunicação aos quais as entrevistadas têm acesso. O roteiro foi preenchido por mim em ficha individual após questioná-la sobre cada item. O mesmo foi identificado com um número, o qual foi utilizado tanto para a dinâmica, quanto para a entrevista. A participante também recebeu o número de sua entrevista no TCLE, caso desistisse de participar do estudo deveria fornecer este número para serem excluídas as informações fornecidas pela mesma. (apêndice A).
VIII.2.. O segundo momento... A dinâmica No segundo momento, foi realizada uma dinâmica individual com cada participante, a fim de que esta refletisse sobre sua condição como mulher e sobre sua saúde.Utilizamos para esta dinâmica o seguinte material:
Veja nas fotos abaixo as rosas e os espinhos utilizados na dinâmica.
Foto 01: Rosa sem espinho Foto 02: Espinhos Foto 03: Rosa com espinho
A rosa sem espinhos foi escolhida para ser utilizada na dinâmica por possuir a conotação de beleza, suavidade, harmonia, algo que é puro, sem maldade e sofrimento. Já o espinho é o oposto, é algo que é duro, pontiagudo, machuca, fere e traz sofrimento. E por fim, a rosa com espinho é a mistura de ambos, possui sua beleza, mas pode causar sofrimento a qualquer momento. Neste mesmo caminho, o “Dictionary of simbolism” (2001), através da palavra “rose”, nos revela que na mitologia, as primeiras rosas vermelhas surgiram do sangue de Adonis pelo amor de Aphrodite; assim, elas têm se tornado o símbolo do amor, e freqüentemente ressurreição. Já no simbolismo católico, a rosa vermelha representa o sangue de Jesus derramado na cruz. Ela também tem se tornado o símbolo do amor terreno, uma tradição que continua até hoje. As rosas podem representar a Virgem Maria, e assim a