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GAZETA DE LISBOA:, Notas de aula de Linguística

Destacar a Gazeta de Lisboa no panorama jornalístico nacional; ... altura em que o periódico da Corte se intitulava Gazeta de Lisboa ... dominadora (1).

Tipologia: Notas de aula

2023

Compartilhado em 17/01/2023

Jandiara62
Jandiara62 🇵🇹

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COLEÇÃO LINGUÍSTICA 9
UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO
CENTRO DE ESTUDOS EM LETRAS
SUSANA DE FÁTIMA PÓVOA ALVES FONTES
GAZETA DE LISBOA:
Estudo Informático-Linguístico
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SUSANA DE FÁTIMA PÓVOA ALVES FONTES GAZETA DE LISBOA: Estudo Informático-Linguístico
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COLEÇÃO LINGUÍSTICA 9

U N I V E R S I D A D E D E T R Á S - O S - M O N T E S E A L T O D O U R O

C E N T R O D E E S T U D O S E M L E T R A S

SUSANA DE FÁTIMA PÓVOA ALVES FONTES

GAZETA DE LISBOA:

Estudo Informático-Linguístico

R

SUSANA DE FÁTIMA PÓVOA ALVES FONTES

GAZETA DE LISBOA

: Estudo Informático-Linguístico

V I L A R E A L - M M X I I I

R

SUSANA DE FÁTIMA PÓVOA ALVES FONTES

GAZETA DE LISBOA (1715-1716 e 1815):

Estudo Informático-Linguístico

COLEÇÃO L I NG U Í ST IC A 9

CENTRO DE ESTUDOS EM LETRAS

UNIVERSIDADE DE TRÁS-OS-MONTES E ALTO DOURO

V I L A R E A L • M M X I I I

À minha filha, Carlota; Aos meus pais.

  • Apresentar as noções fundamentais relacionadas com a linguística de corpus e com os recursos linguísticos eletrónicos;
  • Proceder a um estudo informático-linguístico do corpus. Este estudo histórico-informático-linguístico encontra-se dividido em três capítulos que, apesar de diferentes, estão estreitamente conexionados. No primeiro capítulo pretendemos mostrar alguns dados fundamentais da história do jornalismo português referente às centúrias analisadas, não descurando as circunstâncias histórico-culturais que condicionaram este percurso. Depois de uma referência ao contexto histórico/jornalístico português que influenciou a nossa publicação nos séculos XVIII e XIX, apresentamos alguns dados que nos permitem conhecer melhor a Gazeta de Lisboa , periódico que se destaca na nossa história e cuja projeção tem sido largamente subestimada. No segundo capítulo, tratamos de questões relacionadas com a linguística de corpus, enumeramos alguns softwares de análise lexical bem como as suas características e terminamos com a apresentação do programa escolhido para o nosso estudo linguístico e com a análise de algumas das suas potencialidades. A Gazeta de Lisboa será, pela primeira vez, analisada sob uma perspetiva linguística e tendo por base um programa informático, o NooJ , o que permitirá uma série de análises contrastivas mais objetivas e rigorosas, reveladoras de uma aproximação cada vez mais evidente entre a linguística e a informática. O último capítulo constitui o cerne da nossa investigação, uma vez que se trata de um estudo informático-linguístico do nosso periódico, no qual procuramos ultrapassar as tradicionais contagens automáticas de formas. Deste modo, nesta análise distinguimos três momentos. Começamos com algumas considerações acerca da grafia na Gazeta para perceber quais foram as principais alterações ocorridas neste espaçamento temporal e de que forma as opções dos redatores são condicionadas pelas teorias dos ortógrafos da época. De seguida, analisamos, com pormenor e numa base comparativa, as classes de palavras plenas, procurando aferir a sua frequência, a sua riqueza vocabular e o percurso trilhado até à atualidade. No caso específico do adjetivo e do advérbio, atentamos também na sua colocação na frase e no modo como podem deixar transparecer as marcas dos redatores. Por fim, procuramos identificar os principais campos temáticos presentes no texto. Pretendemos mostrar, através desta ligação profícua entre a linguística e a informática, como se pode estudar a língua tendo como corpus o texto

jornalístico que denuncia muito mais claramente, em relação aos textos gramaticais, as características e a evolução que se opera na nossa língua. Por último, terminamos com as conclusões, seguidas das referências bibliográficas e anexos.

CAPÍTULO I: C ONTEXTO JORNALÍSTICO E SUAS CONDICIONANTES

HISTÓRICAS

A elaboração de um capítulo sobre o contexto jornalístico pressupõe o estabelecimento de constantes confrontos com outros domínios da história geral, isto é, referências a movimentos sociais, literários, económicos, políticos e religiosos que condicionam profundamente a evolução das sociedades em geral. A imprensa é, sem dúvida, um reflexo daquilo que se passa num país e numa determinada época, exercendo, também ela, influência sobre qualquer período da história. Como referem Albert e Terrou (1990: 2): “[…] os jornais são a fonte mais completa e, em sua diversidade, mais objetiva da história geral.” No entanto, não podemos acreditar na falácia de que o jornalismo é um puro reflexo da realidade, pois o que efetivamente acontece é uma representação dos acontecimentos, depois de cuidadosamente selecionados e tratados,^2

A linguagem peculiar de cada época é condicionada pelos níveis culturais, sociais e políticos daquele período, que o investigador pode e deve ter em conta através do estudo e análise das fontes manuscritas e impressas de cada momento histórico.

de acordo com um sistema de interesses, de obrigações e de convenções.

Neste sentido, consideramos que é imperioso atender aos contextos em que o homem se move, de forma a possibilitar um melhor entendimento das múltiplas variantes que o jornalismo assume, neste caso analisamos o jornalismo português nos séculos XVIII e XIX para percebermos de que forma este modelo imprimiu as suas marcas na Gazeta de Lisboa.

1. O jornalismo português setecentista

O século XVII ficou marcado pelo surgimento daquele que é considerado por José Tengarrinha como o primeiro jornal português,^3

(^2) Traquina considera que os jornalistas não são simples observadores passivos mas, pelo contrário, serão participantes ativos no processo de construção da realidade. (cf. Traquina 1999: 135).

a Gazeta em Que se

(^3) Alves (2005 b: 151) considera também a Gazeta de 1641 como o primeiro periódico português, em que “[…] a periodicidade, a continuidade, a interpenetração e a intercompreensão, aliadas ao objectivo de informar um público, mais ou menos alargado, se definem como a génese ou arqueologia do periódico em Portugal.”

Relatam as Novas Todas Que Houve Nesta Corte e Que Vieram de Várias Partes no Mês de Novembro de 1641. Publicada em Lisboa com privilégio real concedido a Manuel de Galhegos,^4

Destaca-se, também, neste século, a publicação do mensal Mercúrio

tem como principal objetivo apresentar as notícias da guerra com Castela e promover a coesão nacional em torno do governo português, no entanto enchiam também as suas páginas novidades ocorridas nos outros países, informações variadas sobre acontecimentos estranhos, curiosidades, morte de pessoas famosas, algumas publicações literárias, etc. Alexandre Herculano refere-se a estas gazetas, na revista Panorama, aludindo aos seus conteúdos e ao estilo simples e conciso da sua redação, que surge em contraste com o modelo adotado pelos seus coetâneos, numa crítica implícita à forma como são narrados os factos pelos periodistas seus contemporâneos, a quem faltam estas duas características basilares da redação jornalística: concisão e simplicidade. (cf. Panorama nº 48, 31 de março de 1838, vol. II, p. 102). 5

Português,^6 editado em Lisboa de janeiro de 1663 a julho de 1667. Embora apresentasse uma designação diferente da publicação mencionada anteriormente, não tem uma estrutura e conteúdo muito diferentes da Gazeta da Restauração, partilhando até, como se anuncia no próprio título, o principal objetivo, que era, de acordo com o seu editor, António de Sousa Macedo,^7

(^4) “Galhegos era homem dotado de talento e superiores predicados literários, que o celebrizaram como prosador e poeta […]” (Cunha 1941: 57).

relatar as novidades da guerra entre portugueses e castelhanos. Alia-se aqui uma vertente política e propagandística a uma preocupação noticiosa, fazendo quase

(^5) Esta designação foi adotada nos vários países europeus. (^6) “O Mercúrio Português transformou-se, assim, no detonador de uma longa série de «mercúrios» que surgiram em cadeia até ao primeiro terço do século XIX.” (Pena Rodríguez 1996: 353). Iremos fazer apenas referência aos do século XVII: Le Mercure Portugais ou relations politiques de la fameuse révolution d’État arrivée en Portugal depuis la mort de D. Sebastien jusque au couronnement de D. Jean IV , impresso em Paris por Antoine de Sommaville, em 1643; o Mercurius Ibernicus Que Relata Algunos Casos Notables Que Sucedieran en Irlanda despues Que Tomó las Armas por Defender la Religion Católica , publicado em Lisboa, em 1645 e o Mercúrio da Europa , de 1689. (^7) “Em António de Sousa de Macedo reüniram-se efectivamente todas as qualidades de um grande jornalista à moderna: senso político, estilo apurado, notável ilustração, e finura de espírito realçada por delicado humorismo.” (Cunha 1941: 62-63).

Ainda na primeira metade do século, para além do Zodíaco Lusitânico (Porto,^13

O século XVIII viu também nascer vários mercúrios, como por exemplo o Mercúrio Político e Histórico

janeiro, 1749) e do Folheto Cotovia (Lisboa, 1749, semanal), ocupa um lugar de destaque o Folheto de Lisboa , escrito pelo padre Luís Montez Matoso, que tem início a 2 de janeiro de 1740 e continua com outros títulos até 3 de outubro de 1750, apresentando a denominação geral de Ano Noticioso e Histórico. Ainda que não tenha sido impresso, teve grande importância porque a sua preocupação com a atualidade e a periodicidade que mantém são indícios reveladores da sua circulação em cópias manuscritas.

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Durante a governação pombalina, fundaram-se, segundo Tengarrinha (cf. 1989: 46), quinze jornais, dos quais oito tinham um caráter de entretenimento, três informativos, dois literários, um de ciência ( Diário Universal ) e outro histórico ( Sonho Lembrado ). Esta relativa liberdade de publicação pode ser encarada como uma estratégia contra os opositores de Pombal que criticavam o controlo absoluto exercido pelo marquês. Por outro lado, sabemos que o controlo da informação não foi descurado por parte do primeiro-ministro de D. José I, que percebera perfeitamente o poder de influência da opinião impressa. A sua estratégia passara pela aceitação dos “[…] títulos de divulgação cultural e entretenimento ou especializados em literatura ou medicina, sob o impulso do enciclopedismo francês.” (Pena Rodríguez 1996: 353).

(1741), o Mercúrio Histórico de Lisboa (1743), o Mercúrio Filosófico (1752), o Mercúrio Gramatical (1753), o Mercúrio Correctivo e Parenético (1776) e o Mercúrio Histórico, Político e Literário de Lisboa (1794). Se os mercúrios começam por se apresentar como publicações que retratam determinados acontecimentos esporádicos, aproximando-se, a este nível, das relações, a partir do século XVIII, como deixam antever os títulos mencionados, começam a ganhar um pendor filosófico e literário.

medidas contra este facto, que teve como consequência uma queda nas vendas da Gazeta de Lisboa. (cf. Belo 2005: 67). (^13) Este foi o primeiro periódico publicado no Porto, passados mais de cem anos da Gazeta de 1641, publicada em Lisboa, o que denota a concentração da imprensa periódica na capital do país. (^14) João Buitrago, madrileno, estabelecido em Lisboa, traduz a obra Mercure Historique et Politique, publicada em La Haye por Jean Rousset de Missy, em 1742, e obtém o privilégio para o fazer durante dez anos, no entanto as últimas referências à sua publicação surgem na própria Gazeta , em maio de 1745, sendo que, como refere Belo (2005: 65), “Il n’est pas impossible que cette interruption dans la publication des mercures ait été provoquée par une intervention des propriétaires du privilège de la gazette.”

Comecemos pela referência aos jornais de diversão, que também divulgavam aspetos úteis à sociedade. Estes correspondiam ao gosto da população portuguesa, especialmente da burguesia, que utilizava os jornais também como instrumentos de lazer, que propiciam diversão. Este tipo de publicação, tendo em conta a sua finalidade, caracteriza-se por não apresentar grande erudição, inserindo-se muitas vezes no domínio da fantasia, estratégia usada para ultrapassar o rigor do governo pombalino. Enquadrando-se neste domínio temos o Anónimo^15 (Lisboa, 1752-1754, semanal), Amusement périodique^16

O Anónimo “[…] foi concebido a imagem e semelhança do quotidiano The Spectator de Steele e Addison (1711-1712), integra-se na rede européia de difusão do jornalismo filosófico, instrutivo e moralizante de inspiração londrina” (Araújo 2003: 69), apresentando um formato semelhante ao original britânico. Nesta linha de orientação jornalística, o seu editor, Bento Morganti, pretendia estimular o gosto pelas artes, letras e ciências, como forma de combater o estado de ignorância e superstição em que se encontrava a sociedade portuguesa.

(Londres, 1751, mensal), O Oculto Instruído (Lisboa, 1756-1757), Academia dos Humildes (Lisboa, 1758-1770), Tardes de Maio (Lisboa, 1758), Semanas Proveitosas (Lisboa, 1759-1760, semanal), Palestra Admirável (Lisboa, 1759-1760, semanal), História Universal (Lisboa, 1760).

Como exemplares da imprensa de informação temos Lisboa (1760-1762), a Gazeta Extraordinária de Londres (Lisboa, 1762) e o Hebdomadário Lisbonense (Lisboa, 1763-1767). A orientação filosófica, literária e artística entra em Portugal, pela primeira vez, seguindo as pegadas europeias, com a publicação mensal, Gazeta Literária ou Notícia Exacta dos Principais Escritos Que Modernamente se Vão Publicando na Europa (Porto e Lisboa, 1761^17

(^15) “ O Anónimo soit le premier au Portugal, dans la Péninsule, et sans doute dans le reste de l’Europe, qui reprenne, avec plus ou moins de bonheur et d’audience, la formule consacrée par le succès à Londres.” (Piwnik 1979: 10).

-1762) que, devido ao seu pioneirismo, foi considerada como o jornal mais importante desta fase, inserido nesta linha jornalística. O responsável pela sua redação era o padre Francisco

(^16) Pela primeira vez, em Portugal, surge nesta publicação a defesa do protestantismo (cf. Araújo 2003: 68). (^17) No mesmo ano, é criado O Postilhão de Apolo Montado no Pégaso , que se insere na mesma linha da Gazeta Literária.

que estes ideais quase revolucionários pudessem contestar os alicerces do regime. O século XVIII ficou marcado, em Portugal, pelo fenómeno do “enciclopedismo”,^19 tão em voga naquele momento e que se explica pelo interesse humano em aprender e conhecer as principais inovações da época, na linha do espírito das Luzes. Por outro lado, a proliferação deste tipo de jornais explica-se também devido aos condicionamentos censórios, que limitavam o jornalismo político. Deixam de publicar-se apenas jornais noticiosos e verificamos (cf. Tengarrinha 1989: 46, 50 e 52) que o panorama jornalístico português nos finais do século XVIII e inícios do XIX se apresenta já muito diversificado, correspondendo aos diferentes interesses e gostos do público, que procura satisfazê-los nos vários periódicos que tem à disposição. Surgem diversos jornais enciclopédicos, históricos,^20 literários e musicais,^21 científicos e médicos,^22 agrícolas,^23 comerciais^24 e até um feminino^25

(^19) […] dos 84 periódicos fundados entre 1715 e 1807, 33 (quase 40%) têm carácter enciclopédico, isto é, de divulgação de conhecimentos das ciências e das técnicas, quer com a intenção apenas de aumentar a cultura do leitor quer, ao mesmo tempo, com o objectivo de lhe fornecer conhecimentos úteis, com uma roupagem mais ou menos recreativa. (Tengarrinha 1989: 50).

que tinham um

(^20) A imprensa histórica ficou marcada pela História Universal (Lisboa, 1760), Sonho Lembrado (Lisboa, 1762), Tardes Divertidas (Lisboa, 1794), Retratos dos Grandes Homens da Nação Portuguesa (Lisboa, 1804-1825), Retratos e Elogios de Varões e Donas (Lisboa, 1806-1822) e Templo da Glória dos Lusos (Lisboa, 1806-1807). (^21) Nesta linha especializada temos o Teatro Cómico Português (Lisboa, 1759-1787), Gazeta Literária (Porto e Lisboa, 1761-1762), Postilhão de Apolo (Lisboa, 1761-1762), Teatro Estrangeiro (Lisboa, 1787-1805), Jornal de Modinhas (Lisboa, 1796) , Teatro Cómico (Lisboa,

  1. , Viola de Lereno (Lisboa, 1798) , Divertimento Musical (Lisboa, 1801) , Jardim das Musas e dos Sábios (Lisboa, 1805) e Produções Literárias (Lisboa, 1806). (^22) Como exemplos de jornais científicos lembramos o Zodíaco Lusitânico (Porto, 1749), Semanas Proveitosas ao Vivente Racional (Lisboa, 1759-1760), Diário Universal de Medicina, Cirurgia e Farmácia (Lisboa, 1764 e 1772), Efemérides Naúticas (Lisboa 1789-1860), Ano Médico (Porto, 1796), Efemérides Astronómicas (Coimbra, 1804-1889) e O Engenheiro Civil Português (Lisboa, 1804). (^23) Já no século XIX, surgem os primeiros jornais especializados numa área tão importante para a maioria dos portugueses como era a agricultura: Anúncios Rurais (Lisboa, 1802) e Extractos Práticos e Úteis à Economia Rural Portuguesa ou Gazeta do Campo (Lisboa, 1804-1806). (^24) Entre as publicações comerciais temos Com Privilégio Real (Lisboa, 1778-1807), O Correio Mercantil e Económico de Portugal (Lisboa, 1790-1810) e Preços Correntes na Praça de Lisboa (Lisboa, 1807). (^25) É também de assinalar o aparecimento do primeiro jornal criado para um público feminino, como foi o caso de O Correio das Modas (Lisboa, 1807).

objetivo pedagógico. Pretendiam instruir o público em diversas áreas, divulgando descobertas científicas, novos livros, teorias e conhecimentos gerais em campos diversos. O exemplo paradigmático do enciclopedismo português é o Jornal Enciclopédico Dedicado à Rainha Nossa Senhora e Destinado para Instrução Geral com a Notícia dos Novos Descobrimentos em todas as Ciências, e Artes , que, segundo Sousa (2008b: 96), para além dos objetivos já mencionados que conduziram à sua criação, ocultava “[…] o espírito revolucionário do enciclopedismo e das ‘Luzes’”. Constitui-se como um marco incontornável na história dos “periódicos científicos” em território nacional: Este periódico representa bem o espírito científico do movimento das luzes, segundo o qual o progresso e a felicidade só eram possíveis através da ciência, entendendo-se felicidade como fruição de bens materiais e conforto. […] O Jornal apresenta-se como arauto do conhecimento, pretendendo divulgar conhecimentos úteis e diversificados repartidos por oito artigos. (Reis 2005: 307).

Este jornal tem como referente genealógico a Encyclopédie ou Dictionnaire raisonné des sciences, des arts te des métiers , publicada sob a direção de Diderot e D’Alembert. Fundado em 1779 por Félix António Castrioto, cujo redator é, a partir de 1806, António Policarpo da Silva, vai servir de matriz a mais três periódicos com a mesma denominação, publicados em Lisboa: Jornal Enciclopédico (1788-1793), Jornal Enciclopédico (1806), Jornal Enciclopédico de Lisboa (1820, mensal) e muitos outros que se enquadram na mesma linha, ainda que não assumam esta designação. Os redatores deste tipo de jornais tinham como objetivo a divulgação de acontecimentos científicos, técnicos, literários e culturais de forma a concretizarem-se os seus projetos de renovação política e cultural do país, inseridos no espírito das Luzes. O final da centúria setecentista ficou também marcado pelo florescimento da imprensa humorística, de cariz satírico, que nos dá valiosas indicações sobre os diferentes grupos sociais e suas características, aproveitando o seu caráter velado para criticar pessoas e estruturas até então intocáveis, preparando o terreno para as alterações que iriam assolar a nossa sociedade no período de Oitocentos. Os jornalistas dedicavam-se a este tipo de publicações, como forma de escape, na impossibilidade de comentar o que se passava na sua sociedade: “Impossibilitados de comentarem os factos, recorriam às alegorias, às frivolidades recreativas ou aos devaneios imaginativos.” (Cunha 1941: 107).