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Gramática Gerativa de Chomsky, Resumos de Teoria Geral do Estado

O gerativismo é uma corrente estruturalista, no sentido mais amplo da palavra, que, inspirada na matemática, procura explicar a linguagem humana de forma abstrata, formal, afastando-se do modo empírico de estudo e aproximando-se das chamadas ciências cognitivas.

Tipologia: Resumos

2022

Compartilhado em 27/05/2022

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D.E.L.T.A., 18:2, 2002 (309-337)
RETROSPECTIVA / RETROSPECTIVE
A EVOLUÇÃO DA NOÇÃO DE PARÂMETROS*
(The Evolution of the Notion of Parameter)
Mary A. KATO
(Unicamp)
ABSTRACT:
This paper presents an overview of the concept of parameter in the
Principles and Parameters theory, showing that a) in the first stage parameters
were conceived as variation associated to the Principles and b) in the second stage as
properties of the lexicon, and more specifically as properties of functional categories. The
latter view has also developed from a substantive conception of functional categories to a
more formal abstract characterization of functional heads. The paper also discusses
parameters related to different levels of representation.
KEY-WORDS:
Principles and parameters; Syntactic variation; Morphological
variation; Generative theory.
RESUMO:
Este trabalho apresenta uma retrospectiva do conceito de parâmetro na teo-
ria de Princípios e Parâmetros e mostra que: a) no primeiro estágio da teoria, os
parâmetros eram concebidos como propriedades associadas a Princípios e b) no segundo
estágio, como propriedades do léxico, mais especificamente do léxico funcional.. Essa
segunda visão também sofreu uma evolução, de um conceito substantivo, para um
conceito formal de classes funcionais. O trabalho discute ainda a noção de parâmetros
associados a diferentes níveis de representação.
PALAVRAS-CHAVE:
Princípios e parâmetros; Variação sintática; Variação
morfológica; Teoria gerativa.
* Agradeço a Ruth Lopes pela leitura cuidadosa da primeira versão deste trabalho e as sugestões
pertinentes incorporadas nesta versão. Meus agradecimentos também a Maria Eugenia L.Duarte e
Sonia Cyrino pela ajuda na localização de exemplos e referências.
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D.E.L.T.A., 18:2, 2002 (309-337)

RETROSPECTIVA / R ETROSPECTIVE

A E VOLUÇÃO DA N OÇÃO DE PARÂMETROS *

(The Evolution of the Notion of Parameter)

Mary A. K ATO (Unicamp)

A BSTRACT : This paper presents an overview of the concept of parameter in the Principles and Parameters theory, showing that a) in the first stage parameters were conceived as variation associated to the Principles and b) in the second stage as properties of the lexicon, and more specifically as properties of functional categories. The latter view has also developed from a substantive conception of functional categories to a more formal abstract characterization of functional heads. The paper also discusses parameters related to different levels of representation. K EY - WORDS : Principles and parameters; Syntactic variation; Morphological variation; Generative theory.

RESUMO : Este trabalho apresenta uma retrospectiva do conceito de parâmetro na teo- ria de Princípios e Parâmetros e mostra que: a) no primeiro estágio da teoria, os parâmetros eram concebidos como propriedades associadas a Princípios e b) no segundo estágio, como propriedades do léxico, mais especificamente do léxico funcional.. Essa segunda visão também sofreu uma evolução, de um conceito substantivo, para um conceito formal de classes funcionais. O trabalho discute ainda a noção de parâmetros associados a diferentes níveis de representação. P ALAVRAS - CHAVE : Princípios e parâmetros; Variação sintática; Variação morfológica; Teoria gerativa.

  • Agradeço a Ruth Lopes pela leitura cuidadosa da primeira versão deste trabalho e as sugestões pertinentes incorporadas nesta versão. Meus agradecimentos também a Maria Eugenia L.Duarte e Sonia Cyrino pela ajuda na localização de exemplos e referências.

310 D.E.L.T.A., 18:

1. Introdução

Desde o trabalho clássico de Sapir (1921) e de Greenberg (1966), a lingüística vem se preocupando com a variação sintática encontrada nas línguas naturais. A lingüística histórica (Cf Lehmann, 1978 / 1997 e refe- rências ali citadas) e a lingüística relacional e funcionalista (Cf Li (org.), 1975; Comrie, 1981 e outros) tomam como fulcro de suas questões a tipologia lingüística. Na lingüística gerativa a preocupação com a diversi- dade sintática só é manifestada explicitamente no modelo de Princípios e Parâmetros (PP) a partir da década de oitenta (Chomsky, 1981, 1982, 1986). Até então, a preocupação primordial era determinar os Princípios invariantes que governavam as línguas e não o que permitia a sua diversi- dade. Com a introdução da noção de Parâmetros, há uma explosão de trabalhos empíricos em lingüística comparativa, histórica e psicolingüística. Seu uso começou, então, a abalar o próprio conceito de “Princípio”, a au- mentar ou diminuir o inventário de categorias e funções, a refinar a rela- ção léxico/sintaxe e a alterar a própria arquitetura da gramática.

No presente estudo, pretendo examinar a evolução do conceito de “Parâmetro” dentro da teoria de Chomsky. Nem todas as propostas são explicitamente endossadas pelo mestre, mas introduzirei aquelas que dire- ta ou indiretamente afetaram o modelo. Na segunda seção irei descrever a motivação central de Chomsky em introduzir a noção de “Parâmetro”, a saber, o problema lógico da aquisição. Na terceira parte, descreverei a no- ção de “Parâmetro”, aliada à de “Princípio”. Na quarta seção, introduzirei as propostas de que Parâmetros de variação são uma função do léxico, em particular do léxico funcional. Na quinta seção, discutirei as propostas de que “Parâmetros” se ligam ao lugar, ou ao nível, em que os processos gra- maticais acontecem. Na sexta seção, apresentarei a concepção de Parâmetros como conjuntos de propriedades correlatas e, na conclusão, discutirei os ganhos da teoria com a introdução da concepção de Parâmetro, levantan- do as questões que esse conceito traz para a teoria da aquisição.

2. O problema lógico da aquisição

Toda teoria da aquisição traz intrinsecamente uma concepção do que se entende por “língua”. Chomsky (1986) faz uma distinção clara de duas concepções logicamente possíveis: a) a de língua definida como um objeto

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priedades sub-especificadas, precisam ser definidos quanto ao seu valor [+/1 ou -/0], através do “input” que a criança recebe de sua comunidade 2.

As propriedades paramétricas são pressupostas como sendo em nú- mero finito, e sua fixação, positiva ou negativa, como dependente exclusi- vamente de dados positivos. A aquisição não se desenvolve através de correções ou de instruções. É um processo seletivo e não instrucional. Mas essa visão coloca questões precisas para a teoria:

a) de que natureza são esses Parâmetros? b) que propriedades superficiais decorrem de um Parâmetro? c) como limitar o número de Parâmetros?

Nas seções 3, 4 e 5 discutiremos a questão (a), na seção 6, a questão (b). A terceira questão aparecerá discutida rapidamente na conclusão.

3. Parâmetros como propriedades associadas a Princípios

Ao propor a teoria de PP, procurou-se inicialmente considerar os Parâmetros como propriedades sub-especificadas associadas aos Princípi- os. Um exemplo disso é a variação encontrada na posição do núcleo em uma estrutura X-barra. Os sintagmas em qualquer língua obedecem todos a estruturas endocêntricas do tipo (1), mas a posição dos núcleos apresen- taria a opção [+núcleo inicial]/ [-núcleo inicial]:

(1) a. XP b. XP c. XP  / \ /
X X YP YP X

Tratando da ordem sintática, Travis (1984) propõe que a posição dos argumentos tem a ver, não com a teoria X-barra, mas com a teoria do Kaso 3 e dos papéis temáticos. Sua teoria explica a ordem sintática no chi- nês, que apresenta a seguinte variação:

(^2) Para Chomsky, embora a língua-I seja um objeto interno ao indivíduo, uma comunidade que fala a mesma língua partilha o mesmo conhecimento lingüístico, isto é, pode apresentar uma língua-I comum no componente nuclear ( core grammar ) de sua gramática. (^3) Convenciona-se grafar kaso pra o conceito abstrato e caso para o morfema substantivo.

KATO : A E VOLUÇÃO DA N OÇÃO DE PARÂMETROS 313

(2) a. SUJ [VP OBL OI V OD ] b. SUJ [VP OBL OI ba-OD V ]

O verbo pode ficar em posição final com todos os complementos à sua esquerda ou o objeto direto pode aparecer à sua direita. Quando este apa- rece à esquerda deve necessariamente ser precedido da preposição ba , isto é, quando tem a configuração de um complemento indireto. Trabalhos anteriores interpretaram essa variação como sendo um fenômeno de mu- dança (Cf Li & Thompson, 1976). O chinês estaria passando de uma lín- gua SVO para SOV. O problema é que a variação tem estado estável por séculos, o que parece indicar que ambas as formas são licenciadas dentro da mesma gramática.

Travis mostra que a imposição de que o objeto se apresente precedido de preposição é indício de que é esta que licencia a anteposição do objeto. Sua tese é de que a gramática deve separar direcionamento de papel temático de direcionamento de Kaso. Na estrutura-profunda todos os argumentos nascem à esquerda do verbo, em uma configuração de núcleo final. Porém, o chinês marca Kaso como conferido à direita. O complemento oblíquo e o objeto indireto sempre são regidos por preposição. Este rege sempre à direita no chinês. Se o OD vem também regido de preposição, ele perma- nece in-situ , uma vez que Kaso pode ser conferido pela preposição e na direção correta. Se o OD vem sem a preposição ba , esse objeto direto fica sem kaso na posição de origem. Para obter Kaso, ele se move para a direita do verbo. O direcionamento do Kaso também é satisfeito nessas condições.

(3) a. [ (^) VP …. ba → DP V] b. [ (^) VP t (^) I V → DP (^) I ]

Mantém-se assim invariante o Princípio do Filtro de Kaso (todo DP precisa de Kaso) e parametriza-se o direcionamento dos argumentos-θ (estrutura-Profunda) e o direcionamento do Kaso (estrutura-Superficial).

Outra propriedade que pode variar em relação à teoria do Kaso é a sua manifestação morfológica. Assim, há línguas que marcam morfologicamente o Kaso, como é o caso do latim, e outras que o atribuem apenas estrutural- mente, como é o caso do português. A marcação morfológica pode tam-

KATO : A E VOLUÇÃO DA N OÇÃO DE PARÂMETROS 315

identificável pela concordância no verbo. O EPP seria inviolável, mas o preenchimento do sujeito poderia ser feito por um pronome vazio. Tal entidade foi ainda proposta para o objeto quando este pode ser nulo e apresenta as propriedades de um pronome, caso do Português do Brasil (PB). Mais adiante o sujeito e o objeto nulos serão vistos com mais detalhes.

O Princípio da Ligação, que procura explicar a complementaridade de distribuição entre um reflexivo (anáfora)^5 e um pronome, também sofreu um abalo em sua postulação de propriedade invariante quando se procu- rou verificá-lo em línguas orientais. Línguas como o japonês e o chinês podem ter seu reflexivo no domínio em que o inglês permite ligar o pronome:

(6) a. John (^) i loves himself (^) i /himi. b. John (^) i said that Sue loves him (^) i/himself (^) i. (ok jibun reflexivo do japonês)

Também o Princípio da Subjacência, segundo o qual um constituinte não se pode mover por mais de dois nódulos limítrofes (sentença ou sintagma nominal), apresentou variação em relação à categoria sentencial (CP ou IP).

(7) a. Tuo fratello, [a cuii mi domando [ (^) CP che storiej abbiano raccontato ti t (^) j ], era molto preoccupato. b. * Your brother, who (^) i [ (^) IP I wonder which stories [ (^) IP they’ve been telling t (^) i , was very worried.

Passa-se, nesses casos, a se falar em parametrização de domínios ( Johnson, 1984, para o domínio da Ligação e Rizzi, 1982, para o da Subjacência).

4. Parâmetros associados ao léxico

4.1. As primeiras propostas

Os primeiros trabalhos que procuram dissociar Parâmetros de Princí- pios são o de Wexler e Manzini (1987) e o de Sportiche (1986), ambos

(^5) Chomsky ignora o conceito já assentado de anáfora, como o usado por Halliday e Hasan (1976) restringindo-o especificamente para os reflexivos e recíprocos.

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lidando com o problema de línguas com anáfora a longa distância, como o caso do japonês.

O trabalho de Sportiche (1986) analisa os casos de anáfora à distância como sendo um caso de “pronome preso”. Na teoria da Ligação, embora o pronome seja postulado como sendo livre em seu domínio clausal, ele pode estar ligado a um antecedente em um domínio sentencial maior, como se vê nos exemplos abaixo:

(8) a. O Pedro (^) j acha que Maria não gosta dele (^) j/i. b. O Pedro (^) j, Maria não fala com ele (^) j/*i desde ontem. c. [Nenhum menino]j acha que os pais não gostam dele (^) j/i.

Para Sportiche, o inglês, e podemos acrescentar o português, codifica o pronome preso e o livre com um mesmo item lexical, enquanto o japonês codifica o reflexivo e o pronome preso como um item único, deixando o pronome kare para o pronome referencial/ dêitico. Sua hipótese é interes- sante para uma hipótese da lexicalização dos conceitos uma vez que ela prevê que não há biunivocidade entre conceito e forma, podendo haver itens bi-valentes ou ambíguos. Assim, parece não haver exemplos de lín- guas que codificam o reflexivo, o pronome preso e o pronome livre em três itens lexicais distintos. Sua teoria também exclui línguas que codificam reflexivos e pronomes livres como um item e pronomes presos como outro item. Sua proposta é que a lexicalização pode se dar pegando horizontal- mente ou verticalmente duas células. O que não pode ocorrer é a lexicalização diagonal das células.

(9)

c- command C-COMMAND required not required Locality condition Anaphors Antilocality pronouns as Referential Conditions variables Pronouns

(Sportiche, 1986: 370)

318 D.E.L.T.A., 18:

(11)

As categorias lexicais mais bem aceitas são: I(nflection), C(omple- mentizer) e D(eterminer). Outros propõem categorias adicionais como Asp(ect), Agr(eement), Neg(ation) etc. Em (11)a. o domínio de VP é o das atribuições de papel temático, o de IP é o da atribuição de kaso 6 e da relação de concordância verbal e o de CP é onde se dão as relações mais vinculadas ao discurso 7. C e I são categorias que podem ou não atrair o verbo para elas e Spec de C e de I são lugares de pouso para sintagmas. 8

Como sabemos, as categorias funcionais incluem as categorias flexionais. A primeira a propor que Parâmetros são uma função da morfologia flexional foi Borer (1984), trabalhando com o hebraico e línguas românicas. Sua proposta é cada vez mais assumida pela teoria como se verá abaixo.

Voltemos aqui ao Princípio da Adjacência de Stowell, que, como vi- mos, tem mais a característica de um Parâmetro. A partir de uma visão morfológica o fenômeno da adjacência começa a ter uma outra explicação.

(^6) No modelo da GB o caso acusativo se conferia por regência do verbo e o nominativo, por concordância. Hoje se unifica o tratamento para a relação entre Spec e seu núcleo, o que exige uma projeção adicional para cujo Spec o objeto sobe. (^7) Note-se que nessa representação o Spec de cada nível codifica funções diferentes associadas ao sujeito na gramática tradicional. Assim,em VP, o Spec pode ser o Agente se o verbo é transitivo; em IP, o Spec é nominativo e concorda com o I; em CP, o Spec tem funções semântico-discursivas. Assim, em muitas línguas o elemento-wh, que é um quantificador, sobe para essa posição interpre- tada como a de foco sentencial. Em outras línguas, o núcleo é sincrético, permitindo tanto foco quanto tópico (por exemplo, línguas V2).. (^8) As outras categorias lexicais N, A e P também determinam estruturas temáticas.

a. b.

KATO : A E VOLUÇÃO DA N OÇÃO DE PARÂMETROS 319

Para explicar que línguas como o Francês permitem a intromissão do advérbio entre o verbo e o seu objeto e línguas como o inglês permitem essa mesma intromissão entre o elemento flexionado com concordância e o sujeito, Pollock (1989) dá uma versão em que tal fenômeno é derivado do Parâmetro [± movimento de V para I ]. O advérbio aparece fixo em adjunção ao VP e o verbo pode ou não subir para o núcleo flexional I(nflection), o antigo nódulo AUX. No inglês o verbo não sobe dada sua morfologia fraca, incapaz de atrair o verbo, enquanto no Francês o verbo sobe quando o Tempo é finito 9. Nas antigas formulações a flexão do inglês descia na fonologia. As categorias funcionais passaram a ter assim um pa- pel fundamental nos processos gramaticais e na variação lingüística 10.

(12) a. John [ (^) I pres+3S ] [always [ (^) VP speak Portuguese] b. John t (^) I always [ (^) VP speak + pres+3S Portuguese. c. John always speaks Portuguese.

(13) a. Jean [I pres+3S] [ (^) VP toujours [ (^) VP parler Portugais] b. Jean [ (^) I parlerv + pres+3S] [ (^) VP toujours [ (^) VP t (^) v Portugais] c. Jean parle toujours Portugais.

(14) a. PRO [I infintivo [ (^) VP toujours [ (^) VP parler Portugais ] b. PRO toujours parler Portugais

Note-se que a propriedade que faz as línguas variarem não envolve apenas a existência substantiva ou não de morfema de concordância, mas uma propriedade mais abstrata da flexão do verbo na estrutura. Com a visão Minimalista essa dicotomia entre propriedades substantivas e pro- priedades formais fica mais explícita. Em lugar do morfema de flexão apa- recer inserido em I, este teria apenas os traços desses morfemas. O morfema flexional propriamente dito aparece já no verbo. Este sobe carregando tam- bém os traços do morfema flexional e se adjunge ao I para checar esses traços. Essa formulação é mais interessante, na opinião de Sportiche (1995), pois nem toda língua apresenta um sistema flexional com os morfemas claramente segmentáveis e visíveis.

(^9) Belletti (1990) mostra que no italiano o núcleo infinitivo também atrai o V. (^10) Para indicar pessoa e número, estaremos usando número para pessoa (1,2,3) e S e P para singular e plural.

KATO : A E VOLUÇÃO DA N OÇÃO DE PARÂMETROS 321

(17) a. [VP S O V] b. [ (^) IP S [[ t (^) s O t (^) V ] V+I]] c. [ (^) CP Ss [ (^) C’ V+I [ (^) IP [ (^) VP t (^) s O t (^) v ] t (^) v]]] c’. [ (^) CP Oo [ (^) C’ V+I [ (^) IP [ (^) VP S t (^) o t (^) v ] t (^) v]]]

Como nas orações subordinadas o C é ocupado por uma conjunção, não há possibilidade de subida do V+I e consequentemente de qualquer sintagma para a posição de seu Spec. A ordem nas subordinadas é, portan- to, SOV:

(18) a. [CP dass [ (^) IP S (^) s [ (^) VP t (^) s O tv ] V+I ]]

O Português Europeu (PE) e o espanhol exibem características pare- cidas com as línguas germânicas 11 :

(19) a. [CP Que [ (^) C’ comeu (^) v [ (^) IP a Maria (^) s t (^) v [ (^) VP ts t (^) v t (^) wh ]]]] b. [ (^) CP Muitos chocolates (^) o [C’ comeu (^) v [ (^) IP a Maria (^) s t (^) v [ (^) VP t (^) s t (^) v t (^) o ]]]] (20) a. [CP Quem (^) wh [ (^) C’ comeuv [ (^) IP twh t (^) v [VP t (^) wh t (^) v os chocolates ]]]] (21) b. [ (^) CP Os chocolates (^) o [ (^) C’ comeu (^) v [ (^) IP a Maria (^) s t (^) v [VP t (^) s t (^) v t (^) o ]]]]

Mas o fato de não haver assimetria entre oração raiz e subordinada faz presumir uma outra projeção intermediária entre CP e IP (Raposo, 1994; Martins, 1996; Uriagereka,1995) que podemos denominar ΣP, seguindo Martins (1996), cujo núcleo é sincrético, podendo checar tanto um consti- tuinte tópico quanto foco.

(22) .…[CPque [ΣP muitos chocolates (^) o [Σ’ comeu (^) v [ (^) IP a Maria (^) s tv [ (^) VP ts t (^) v to ]]]]

4.3. Parâmetro e níveis de representação

Uma variação intrigante encontrada nas línguas é o movimento obri- gatório/opcional do pronome interrogativo-Q. Para dar conta do motivo

(^11) Não há uniformidade de tratamento quanto à projeção em que tal sujeito se encontra em fenômenos desse tipo no PE. Estou supondo, para fins deste artigo, que o movimento é para uma projeção superior a IP.

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deste movimento, Rizzi (1991) postula o critério-Q (“wh-criterion”), se- gundo o qual, em Forma Lógica (FL), um núcleo wh deve estar em relação Spec-núcleo com um elemento-Q. Para Rizzi, o verbo carrega o traço wh nas línguas em que o verbo sobe para C. O pronome interrogativo-Q sobe para o Spec de C para obedecer ao critério-Q 12. Em línguas em que o verbo não tem a propriedade wh e, portanto, não sobe para C, um morfema abstra- to wh é inserido em C.

Mas esta não é a única variação encontrada em construções-wh. Com- parando línguas que têm movimento-wh e línguas que exibem wh-in-situ , como o japonês e o chinês, Lasnik & Saito ( 1992) propõem movimento em sintaxe vs movimento encoberto em Forma Lógica (FL). No primeiro caso o elmento-wh aparece visível em CP e no segundo aparece em sua posição dentro do IP ou VP. Uma versão mais recente desse fenômeno é dada em Watanabe (1992) e Aoun e Li (1993), que examinam o japonês e o chinês. Para esses autores, os elementos-wh são analisáveis em um com- ponente abstrato semântico com natureza de operador e a matriz fonológica permanece in-situ. O que difere entre o japonês e o inglês, por exemplo, é que no inglês há pied-piping^13 da matriz fonológica junto com o compo- nente abstrato de operador-wh. O movimento encoberto nada mais é do que ausência de pied-piping do material fonológico_._

Nada impede, portanto, de tratar ausência de movimento, em geral, como casos de movimento encoberto, isto é, como ausência de pied-piping. No caso da ausência de subida de verbo do inglês, por exemplo, o que ocorre é que a categoria [+V] e outras propriedades formais sobem para I, mas a matriz fonológica do verbo permanece in-situ.

Em todos esses casos, a subida do elemento se explica por alguma necessidade desse elemento e não para benefício da categoria de pouso. Esse Princípio é o que Chomsky (1993) chamou de avareza (“greed’).

Veremos agora um tipo de movimento, proposto por Zubizarreta (1998), que não respeita tal Princípio. As línguas românicas de sujeito nulo têm um tipo de inversão, conhecido como inversão livre ou inversão românica , cujo efeito é a focalização do sujeito, postulado como externo

(^12) Essa é uma condição que não se limita a construções-wh. Para Sportiche (1995) ele é apenas uma manifestação de um critério geral de licenciamento. (^13) Literalmente “ pied-piping” seria arrastamento em português.

324 D.E.L.T.A., 18:

(27) Jun-wa iku- no? / Jun-wa iki-massu- ka? Jun-top vai- Q Jun-top ir-Aux – Q

Duas são as formas possíveis de representar essas sentenças:

a) no japonês, língua de núcleo-final, o C está à direita de IP

(27)’ [ (^) CP [ (^) IP Jun-wa iku ] -no ] 14

b) todas as línguas são de núcleo inicial e quando, em alguma língua, o núcleo aparece no fim, tal ordem resulta de movimento (cf Kayne, 1994).

(27)”[ (^) CP - no [ (^) IP Jun-wa iku ]] Þ [ (^) CP [ (^) IP Jun-wa iku ] (^) i – no [ (^) IP t (^) i] ]

Sportiche (1995) propõe análise semelhante para as línguas em que a interrogação sim/não se manifesta apenas pela prosódia. Ao invés de dizer que a interrogativa se interpreta na prosódia, ele prefere dizer que a prosódia interpreta a estrutura sintática. Assim, suponhamos que no português (tanto PE quanto PB) o complementizador é um morfema abstrato [+Q]. Para o autor, se IP se move pra Spec de C, como no japonês, a estrutura resultante é interpretada pela prosódia como tendo curva ascendente. Note-se que, no inglês, não encontramos a curva ascendente como no japonês e no por- tuguês.

(28) a. O João vai? b. [ (^) CP +Q [ (^) IP o João vai ]] ⇒ [ (^) CP [ (^) IP o João vai ] (^) i + Q [ (^) IP t (^) i] ] ⇒ 

Embora as formulações dos três fenômenos sejam diferentes, o que há de comum é que as três abordagens mostram que a variação encontrada nas línguas envolve a fonologia: o primeiro através da ausência do pied- piping da matriz fonética, o segundo, pelo movimento ser necessário na atribuição do acento nuclear a um determinado constituinte e o terceiro, pela prosódia ascendente ser a interpretação de Comp no fim da sentença.

(^14) A representação com –ka seria a mesma. Estou aqui ignorando a partícula –wa , que pode envolver um movimento extra do DP que ela acompanha.

KATO : A E VOLUÇÃO DA N OÇÃO DE PARÂMETROS 325

Podemos, nesse sentido, dizer que a variação nas línguas se deve em gran- de parte à componentes fonológicos.

Propostas ligadas ao que foi discutido nessa seção têm a ver com a maior ou menor transparência das línguas para funções discursivas como tópico e foco. O trabalho de Zubizarreta mostra que a função de foco pode ser codificada de duas maneiras diferentes: a) através do acento nuclear in- situ , como no inglês e no francês, ou através de um movimento do predicado (TP) para uma posição de adjunção acima do sujeito a fim de permitir que o acento nuclear que marca o foco fique na posição sintática mais encaixa- da, ou linearmente mais à direita. Os trabalhos apresentados no livro de Kiss (1995) discutem a forma como as línguas codificam as funções discursivas de tópico e foco, justificando muitas vezes a postulação de pro- jeções específicas para dar conta da ordem ou ainda para localizar morfemas- núcleos marcadores de tais funções. Esses estudos culminam com um tra- balho de Rizzi (1995) que propõe um CP cindido com várias sub-projeções e outros que procuram desenvolver trabalhos do que ocorre na periferia à esquerda nas línguas. Em uma outra linha teórica, a Teoria da Optimalidade, esse tipo de variação é tratado como uma ordenação de princípios violáveis. Assim, Grimshaw and Samek-Lodovici (1996) pro- põe que as línguas podem privilegiar o EPP (Extended Projection Principle) ou o Princípio da Posição do Foco ( Align Focus Principle) que postula ser o foco não marcado da sentença o elemento recursivamente mais à direita.O inglês, que sempre exige o sujeito pré-verbal, privilegia o EPP e o italiano, que pode focalizar o sujeito no final da sentença, o segundo.

5. Parâmetros como conjunto de propriedades

Os estudos sobre Parâmetros que partiram de fenômenos empíricos de variação têm sua trajetória marcada pela preocupação de procurar cor- relações entre propriedades. Poderíamos dizer que tais estudos buscam não Parâmetros associados a Princípios, mas “princípios” associados a Parâmetros. Assim, uma propriedade singular de uma língua não constitui um Parâmetro, mas sim a manifestação substantiva de alguma proprieda- de formal abstrata da qual decorrem outras propriedades substantivas na língua. Esses “princípios” são similares aos universais de variação persegui- dos desde Greenberg.

KATO : A E VOLUÇÃO DA N OÇÃO DE PARÂMETROS 327

A liberdade dos sintagmas se deveria à liberdade da posição de adjunção.

Quanto a constituintes descontínuos, os exemplos do walpiri são de determinantes longe do nominal. Kato e Nascimento (1995) associam esse fenômeno à flutuação de quantificadores. Os demonstrativos, por exem- plo, poderiam flutuar nessas línguas como os quantificadores. No portu- guês, temos o seguinte contraste:

(30) a. (Todos) os meninos (todos) tinham (todos) vindo (todos) à festa. b. (Cinco) dos meninos (cinco) tinham (cinco) vindo (cinco) à festa. c. ( Estes) meninos (*estes) tinham (?estes) vindo (?estes) à festa.

Imagine-se um comportamento uniforme também para o demonstra- tivo e outros determinantes e teremos a descontinuidade desejada do walpiri.

No japonês a descontinuidade é obrigatória, isto é, os quantificadores e os numerais não podem subir junto com o nominal, permanecendo sem- pre mais abaixo. Em lugar de uma forma como (31)a temos a forma (31)b:

(31) a. Cinco meninos vieram. b. Meninos, cinco vieram.

A presença de anáfora zero não é só caracterísitca de línguas de ordem livre como o walpiri e o japonês. A anáfora zero do sujeito é objeto de estudos de línguas consideradas configuracionais, como as línguas româ- nicas, constituindo o que se convencionou chamar Parâmetro “pro-drop”, ou Parâmetro do “sujeito nulo”. A anáfora nula do objeto é proposta como categoria vazia de línguas como o chinês e o japonês, também considera- das línguas de proeminência de tópico 15. Essas línguas, além de permiti- rem a anáfora nula do objeto, licenciam também sujeitos nulos, embora sua identificação seja sempre por antecedência e nunca por flexão de con- cordância, como é o caso das línguas românicas.

(^15) Veja a análise de Pontes (1987) do PB como língua de proeminência de tópico, um dos traba- lhos pioneiros sobre a tipologia do PB.

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5.2. Línguas de sujeito nulo

Um dos Parâmetros mais estudados na literatura gerativista é o cha- mado “Parâmetro pro-drop” (Chomsky,1981:240). O conjunto de proprie- dades relacionadas são:

a) sujeito nulo b) inversão livre c) extração do sujeito à distância d) resumptivo nulo do sujeito e) ausência de efeito * that-t

(32) a. Ho trovato il libro. b. Há mangiato Giovanni. c. L’uomo [che mi domando [chi abbia visto]] d. Ecco la ragazza [che mi domando [chi crede [che possa VP]]] e. Chi credi [che partira ]?

Dentro, porém, do leque de línguas que exibem sujeito nulo, poucos estudos se preocupam em verificar todas essas propriedades. Rizzi (1982) dá uma explicação interessante para a correlação entre sujeito nulo, inver- são e extração. Sua tese é de que o sujeito nulo é posposto ao verbo e que a extração do sujeito se faz da posição posposta. Sendo regido pelo verbo nessa posição, o vazio que se cria não representa uma violação do Princípio da Categoria Vazia (ECP= empty category principle). Isso não explica, contudo, o caso do Português Brasileiro (PB), que perdeu o sujeito nulo referencial, a inversão com verbos de mais de dois argumentos e o sujeito vazio nas subordinadas de tipo em (32)(c) e (d); no entanto, a construção correspondente pelo menos a (32)(e) é ainda perfeita:

(33) Quemi você acredita que ___ (^) i vai partir na hora?

O PB tem sido mostrado como uma língua pro-drop parcial, licencian- do sujeitos nulos de terceira pessoa, mas não os de primeira e segunda (Duarte, 1993, 1995; Kato, 1999). São várias as interpretações desse fe- nômeno, mas confrontando a variação encontrada entre as línguas de su- jeito nulo, como, por exemplo, o estudo de Sigur∂sson (1993) sobre o islandês, podemos afirmar que o Parâmetro pro-drop não é um fenômeno