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Histpria do amapa e geografia, Resumos de História do Brasil

Historia do amapa e geografia para concursos

Tipologia: Resumos

2025

Compartilhado em 01/02/2026

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JOSÉ FRANCISCO DE CARVALHO FERREIRA

(Organização)

GEOGRAFIA DO AMAPÁ EM PERSPECTIVA

VOLUME II

Maringá – Paraná 2020

APRESENTAÇÃO

Este é o volume II de “Geografia do Amapá em perspectiva”. O primeiro, com o mesmo título, data de 2017, e nele são retratados diversos assuntos relativos à geografia do Amapá. Este volume, na continuação do primeiro, desta feita, em 2020, apresenta oito textos de professores do Curso de Geografia da Universidade Federal do Amapá. Uma das particularidades deste e-book é que todos os textos têm geógrafos como autores. Na verdade, apenas 3 autores não são geógrafos, embora trabalhem, assiduamente, com ge- ógrafos, enriquecendo-se, mutuamente, com suas perspectivas.

Os assuntos são variados, como é mister da pesquisa desenvolvida por cada um dos pesquisadores ou grupos de pesquisadores. Neste contexto, o primeiro texto apresenta a percepção ambiental e sua relação com as aulas de geografia em uma escola estadual de Macapá, a Escola Estadual José do Patrocínio, revelando o muito que ainda temos a apren- der com os nossos alunos e suas vivências amazônicas, sempre muito ricas.

O segundo capítulo apresenta uma visão histórico-geográfica da Vila de São José de Macapá, no período pombalino (1750-1777), tendo como ponto de partida a ideia de que a Fortaleza de São José de Macapá, ao contrário das outras fortalezas da América do Sul, surgiu depois da Vila de São José de Macapá ter sido erigida. Nas outras, primeiro é construída a fortaleza e depois a vila/cidade. O capítulo tem como pano de fundo a noção de planejamento urbano, tão cara à geografia.

O terceiro capítulo, escrito por um dos mais ilustres pesquisadores da fronteira Fran- co-Brasileira (Amapá-Guiana Francesa), reflete sobre a construção da condição fronteiriça amapaense, no contexto das relações entre a instalação dos territórios federais e a fronteira brasileira.

O quarto capítulo trata das relações de trabalho, migração e pesca na colônia Z-3, no Oiapoque, município do extremo norte do Amapá, onde faz fronteira com Saint Georges, município da Guiana Francesa. Este é um espaço muito rico para estudos variados, e este capítulo é mais um contributo para estudar este espaço amazônico.

O quinto capítulo aborda as ações do governo para o desenvolvimento rural e a pre- servação da floresta no assentamento Cruzeiro, no estado do Amapá. A partir da análise desta comunidade, os autores refletem sobre a necessidade de construção de outra forma de desenvolvimento rural, ladeado pelos princípios da equidade, sustentabilidade e auto- nomia daqueles agricultores familiares, resgatando a dimensão social, cultural e econômica da agricultura familiar que garantam sua reprodução social.

O sexto capítulo fornece metodologias para conhecer uma “cidade amazônica”, en- quadradas no contexto da pesquisa e ensino da geografia, por meio da categoria geográfi- ca “paisagem”. O relato de experiência, vinculado ao Laboratório de Pesquisa e Ensino da Geografia (LaPegeo), vale-se de metodologias qualitativas e participativas, como possibili-

dade de compreensão e construção de aportes educativos da interpretação de uma cidade mediados pelo caminhar.

O sétimo capítulo apresenta algumas particularidades geográficas da sub-região Vale do Jari. Vale lembrar que esta sub-região é objeto dos grandes projetos de desen- volvimento, aposta do Governo Federal para o desenvolvimento da Amazônia, o que se contrapõe ao largo espectro de áreas protegidas. Uma particularidade deste capítulo é que a sub-região do Vale do Jari engloba os municípios de Vitória e Laranjal do Jari, no Amapá, e o município de Almeirim, no Pará.

O último capítulo retrata os processos erosivos flúvio-marinhos do Rio Amazonas, a partir da rocha que suporta o monumento onde se encontra a escultura de São José, em risco de desmoronamento em decorrência desses processos.

Esperemos que estes textos sejam do agrado do leitor, sobretudo por se tratar de es- tudos de um espaço amazônico que, ainda, é pouco conhecido dos brasileiros, mas basta lembrar que se trata de uma parte da Amazônia, tão rica em biodiversidade, mas também em história, em cultura, nas relações sui generis desenvolvidas, por milhares de anos, entre o ser humano e a natureza, base de todo o estudo de cariz geográfico.

José Francisco de Carvalho Ferreira

GEOGRAFIA DO AMAPÁ EM PERSPECTIVA - VOLUME II 7

CAPÍTULO 1

A PERCEPÇÃO AMBIENTAL E AS AULAS DE

GEOGRAFIA NA ESCOLA ESTADUAL JOSÉ DO

PATROCÍNIO, MACAPÁ/AP

DAGUINETE MARIA CHAVES BRITO

Universidade Federal do Amapá ELIANE APARECIDA CABRAL DA SILVA Universidade Federal do Amapá GENIVAL FERNANDES ROCHA Universidade Federal do Amapá ROSANA TORRINHA SILVA DE FARIAS Universidade Federal do Amapá

INTRODUÇÃO

Este capítulo tem como proposta ava- liar se a percepção ambiental dos alunos do 9º ano do ensino fundamental da Escola Estadual José do Patrocínio é considerada nas aulas da disciplina Geografia e, é com- plementação de uma pesquisa ocorrida em 2017, tendo a mesma temática e campo de estudo. A instituição educacional está am- bientada no Distrito da Fazendinha, no mu- nicípio de Macapá, Estado do Amapá e os alunos desta escola convivem com ambien- tes importantes, como a foz do Rio Amazo- nas, a Área de Proteção Ambiental (APA) da Fazendinha (instituída desde 1974) e o Bio- parque da Amazônia (inaugurado em 2019).

Neste contexto, no decorrer da pes- quisa, procurou-se demonstrar que a esco-

la é uma organização social fundamental no processo de formação do cidadão atual, portanto, tem o dever de contribuir para a desenvolvimento integral dos alunos e nes- te conjuntura a percepção ambiental é uma ferramenta importante para discutir os con- teúdos da Geografia, desde a construção de seus conceitos, concepções, categorias de análises e metodologias que constam no Projeto Político Pedagógico (PPP), nos pro- gramas de disciplinas e nos planos de aula da escola, até à exposição e discussões dos conteúdos no ambiente escolar.

A pesquisa procurou evidenciar como a dinâmica da percepção ambiental vem sendo vivenciada e utilizada no cotidiano da escola. Entendendo que o processo de ensino e aprendizagem deve contemplar o desenvolvimento de procedimentos que ad- mitam abranger a realidade vivenciada pe- los discentes, permitindo que estes sejam capazes de observar, conhecer, analisar e representar o lugar em que vivem, além de estender esta análise para a sociedade Glo- balizada.

A Percepção Ambiental no universo acadêmico decorre da problemática ambien- tal que se manifesta em todos os níveis da sociedade e instiga pesquisadores e teóri-

GEOGRAFIA DO AMAPÁ EM PERSPECTIVA - VOLUME II Capítulo 1 8

cos a projetar uma nova visão sobre a relação homem e utilização da natureza. Assim, a questão principal deste estudo é vislumbrar ‘Como os docentes vêm utilizando a percepção ambiental dos discentes nas aulas de geografia?’

A hipótese estruturada para responder a esta questão é que a ‘Percepção ambien- tal dos alunos do ensino fundamental II, mais especificamente do 9º ano, não vem sendo considerada no processo de ensino e aprendizagem’. Isto é, nas aulas de geografia as rea- lidades dos educandos não são levadas em considerações para as discussões em sala de aula, assim, as questões ambientais vivenciadas pelos discentes não são discutidas com a finalidade de informar e formar os alunos para o desenvolvimento de suas realidades e atividades cotidianas.

O objetivo geral elaborado para a pesquisa foi ‘Analisar a utilização da percepção ambiental de discentes, nas aulas de geografia em uma escola pública no Amapá’. Tendo como objetivos específicos: (1) Contextualizar a Escola Estadual José do Patrocínio (2) Demonstrar os teóricos e teorias a respeito da percepção ambiental e sua importância para a formação dos educandos e; (3) analisar como a percepção ambiental dos discentes vêm sendo utilizada no processo de ensino e aprendizagem na escola e na disciplina Geografia.

O estudo aconteceu na Escola Estadual José do Patrocínio (figura 1), no Distrito da Fazendinha, no município de Macapá-AP e a pesquisa de campo ocorreu no segundo se- mestre de 2019. Entretanto, as pesquisas teóricas e documentais prosseguiram até 2020. Com relação aos procedimentos metodológicos, o estudo utilizou levantamentos bibliográfi- cos (teorias), análise de documentos (PPP da escola, programas de disciplinas e planos de aula), aplicação de 36 (trinta e seis) formulário a alunos do 9º ano da Escola, além de obser- vações in loco. O formulário continha apenas sete (7) indagações que procurava investigar qual a percepção ambiental dos alunos e se essa percepção era utilizada no processo de ensino e aprendizagem, tendo como foco principal as aulas de geografia. Figura 1 - Escola Estadual José do Patrocínio

Fonte: Arquivo, Marlon Carlos Thomaz Pereira, fevereiro/2020.

GEOGRAFIA DO AMAPÁ EM PERSPECTIVA - VOLUME II Capítulo 1 10

Ainda com base em informações obtidas na Escola e no seu PPP, os alunos são provenientes de famílias que moram no Distrito da Fazendinha ou próximo a este, principal- mente em bairros como: Igarapé da Fortaleza, Vale Verde, Chefe Clodoaldo, Polo Hortifru- tigranjeiro, Murici e Balneário da Fazendinha. Em geral, os alunos são oriundos de famílias com baixo poder aquisitivo e muitos são auxiliados por programas de assistências dos governos Federal e Estadual.

A Escola é construída em alvenaria e possui cinco módulos integrados que abriga dependências administrativas; 13 (treze) salas de aula; uma (1) quadra poliesportiva cober- ta e com arquibancada; um (1) ginásio poliesportivo; um (1) depósito; uma (1) cozinha; um (1) refeitório; cinco (5) sanitários e dez (10) corredores. Além de salas ambientes, como: Laboratório de Informática na Educação, Laboratório de Ciências, Sala de Leitura e Biblio- teca. Entretanto, é pertinente ressaltar que a unidade escolar necessita de manutenção e reformas, principalmente nos banheiros, salas de aula e na biblioteca. O acervo da bibliote- ca não atende integramente as necessidades da comunidade escolar.

A Escola dispõe, também, de computadores que atende ao laboratório de informáti- ca e a administração, Datashow, caixa de som e alguns equipamentos de educação física. A instituição apresenta uma estrutura Técnica Administrativa, constituída pela direção, di- reção adjunta e secretaria escolar, serviço técnico-pedagógico, auxiliares administrativos, educacionais e de disciplina, além de profissionais da Unidade Descentralizada de Execu- ção da Educação (UDE), Caixa Escolar (serventes e merendeiras) e o corpo docente que é composto por 65 (sessenta e cinco) profissionais, todos com nível superior.

A PERCEPÇÃO COMO FONTE DE CONHECIMENTO DO AMBIENTE

A expressão percepção, deriva do latim perception , é conceituado como ato ou efeito de perceber, é a combinação dos sentidos no reconhecimento de um objeto, que é mediada pela motivação, valores éticos, morais, interesses, julgamentos e expectativas daqueles que percebem (MARIM, 2008). A literatura que discute o termo percepção utiliza os pressu- postos teóricos de Bachelard (1993), Bérgson (1991) e Skinner (1931), visando compreen- der esta categoria de análise a partir da percepção socioambiental.

A explicação de Bachelard (1993) para o termo percepção está relacionado a um conceito próximo da fenomenologia ou da psicanálise, ou seja, a vivência dos indivíduos vai além do cotidiano e se caracteriza pela vivência empírica da realidade da sociedade. Para Bérgson (1991) a definição de percepção ocorre a partir de quatro princípios fundamentais: intuição, duração, memória e elã vital. Isto é, considera o conhecimento relativo à represen- tação, a compreensão, a memória e seus fenômenos.

Enquanto Skinner (1931) divide a percepção humana em dois momentos: o compor- tamento perceptivo como explicação comportamental da percepção e a apresentação das

GEOGRAFIA DO AMAPÁ EM PERSPECTIVA - VOLUME II Capítulo 1 11

vantagens sobre o uso da teoria da cópia. O autor defende que os humanos fazem uso de uma cópia mental para explicar o que ocorre em seu universo e definir sua percepção.

As bases dos estudos sobre percepção ambiental surgiram nos anos de 1950 e tinham como preocupação a exploração das atitudes da população em relação ao meio ambiente. As principais pesquisas sob esse enfoque foram realizadas na Inglaterra com Gi- bson (1966) e nos Estados Unidos com Lynch (1982) e Gould e White (1974). Todas estas pesquisas partiram do campo da Geografia. Rosa e Silva (2002) destacam que a percepção ambiental pode ser definida pelas formas como os indivíduos vêm, compreendem e se co- municam com o ambiente, considerando-se as influências ideológicas de cada comunidade ou sociedade.

Outro autor que discute o tema da percepção é Macedo (2000), para ele a percepção ambiental é definida como as diferentes maneiras sensitivas que os humanos captam, per- cebem e se sensibilizam pelas realidades, ocorrências, manifestações, fatos, fenômenos, processos ou mecanismos ambientais observados em seu meio. Ou seja, não há, necessa- riamente, uma homogeneidade diante da percepção dos indivíduos no que se refere a sua compreensão sobre os diferentes aspectos ambientais.

A defesa de Del Rio (1999, p. 3) a respeito deste tema é que a percepção ambiental é “[...] um processo mental de interação do indivíduo com o meio ambiente que se dá através de mecanismos perceptivos propriamente ditos e principalmente, cognitivos”. Enquanto, para Oliveira (2005) a percepção pode ser analisada, sob o enfoque do construtivismo de Piaget e propõe que seja um processo de atribuição de significados dependentes das es- truturas cognitivas, que detém a função adaptação. Isto é, a percepção é conceituada como uma representação científica de seu meio ambiente, pois, alimenta o processo de media- ção e de julgamento perceptivo, enquanto o conhecimento é um processo epistemológico.

A percepção ambiental é analisada por Vestena e Stoltz (2005), que defendem que as percepções são peculiares a cada sujeito. São extremamente variadas as maneiras pelas quais as pessoas percebem, avaliam o mundo e as registram. Essas maneiras de percepção interferem na elaboração das representações de um determinado ambiente, os quais apresentam diferentes posturas a respeito da valorização, do manejo e da conserva- ção dos recursos naturais.

O tema, também, é discutido por Gorniack (2004) explicando a necessidade de uma percepção ambiental, para melhorar a qualidade de vida de determinada sociedade e a definem como mapas conceituais que formam um retrato parcial do que é adequado a uma proposta, surgindo em ambientes organizacionais, que reduz o que pode ser feito e define os objetivos a serem alcançados. Enquanto Okamoto (2002) afirma que os estudos que utilizam a percepção ambiental visam investigar a maneira como o homem enxerga, inter- preta, convive e se adapta à sua realidade.

Um estudioso mais recente da percepção ambiental é Faggionato (2011) que acres- centa que a percepção ambiental pode ser concebida como uma tomada de consciência

GEOGRAFIA DO AMAPÁ EM PERSPECTIVA - VOLUME II Capítulo 1 13

A PERCEPÇÃO AMBIENTAL E AS AULAS DE GEOGRAFIA

Para avaliar a percepção ambiental dos alunos e averiguar se essa percepção era considerada nas aulas de geografia foi aplicado um formulário a 36 (trinta e seis) alunos de uma turma do 9º ano, do ensino fundamental II. O instrumento de pesquisa continha apenas sete (7) questões que procurava inquirir qual a visão dos discentes em relação as questões ambientais, tanto no espaço da escola (localizada próximo ao delta do rio Ama- zonas, da APA da Fazendinha e do Bioparque da Amazônia), como em sua comunidade. Procurou verificar, ainda, se os conhecimentos ambientais dos alunos eram relevantes para a construção de temáticas discutidas nas aulas, sobretudo na disciplina geografia.

O primeiro questionamento procurou averiguar em quais disciplinas os alunos dis- cutiam as temáticas relacionadas ao meio ambiente. Os discentes elencaram apenas três: Geografia, Ciências e Estudos Amapaenses e Amazônicos. Sendo que 22,23% (oito alu- nos) afirmaram que a temática meio ambiente é discutida apenas na disciplina Geografia; 16,66% (seis educandos) informaram que os temas ambientais são avaliados na disciplina Ciência; 11,11% (quatro discentes) declararam que os conteúdos ambientais são discutidos somente na disciplina Estudos Amapaenses e Amazônicos e 50% (18 estudantes) assegu- raram que os assuntos relacionados ao ambiente são avaliados nas disciplinas Geografia e Estudos Amapaenses e Amazônicos.

É relevante lembrar que todas as disciplinas (Língua Portuguesa, Arte, Educação Fí- sica, Matemática, Ciências, História, Geografia, Língua estrangeira e Estudos Amapaenses e Amazônicos) ministradas no 9º ano foram contempladas no formulário. As respostas dos estudantes não condizem com os documentos oficiais da escola, como PPP, programas das disciplinas e planos de aula disponibilizados pela instituição de ensino. Os documentos analisados demonstram que a temática ambiental está presente, de forma direta em todas as disciplinas.

Neste sentido, Rosa e Silva (2002) e Macedo (2000) defende que a percepção am- biental é construída com base no que os indivíduos vêm, compreendem e se comunicam com o seu ambiente. São as diferentes formas sensitivas que os homens captam, per- cebem e se sensibilizam pelas realidades, ocorrências, manifestações, fatos, fenômenos, processos ou mecanismos ambientais observados em seu meio. Isto é, há necessidade que as discursões sobre a questões ambientais ocorram em todas as disciplinas, para que os discentes possam construir sua percepção sobre o ambiente local, nacional, regional, e global.

A segunda questão procurava indagar se os discentes tinham conhecimentos sobre o termo meio ambiente. Com relação a essa questão apenas 11,11% dos alunos respon- deram não ter conhecimento sobre o termo, ou seja, 88,89% (32 alunos) responderam que conheciam as questões relacionadas ao ambiente. Entretanto, de acordo com observações

GEOGRAFIA DO AMAPÁ EM PERSPECTIVA - VOLUME II Capítulo 1 14

in loco , esse conhecimento é restrito, pois a maioria não soube explicar, ou mesmo citar exemplos sobre essa questão quando provocados nas aulas de geografia.

Embora, no PPP da Escola esteja explicito conteúdos ambientais no processo de en- sino e aprendizagem, incluindo a geografia, in loco foi possível perceber que a discussões relacionadas aos temas ambientais são baseadas prioritariamente em conteúdos disponibi- lizados pelos livros didáticos e não na realidade cotidiana dos alunos.

Na análise de Vestena e Stoltz (2005), as percepções ambientais são próprias de cada indivíduo. Estes autores afirmam que existem variadas formas pelas quais as pessoas percebem e avaliam o seu mundo. Sendo que estes modos de perceber o ambiente inter- ferem na elaboração das representações de um determinado ambiente e forma adequada de geri-lo. Corroborando com este pensamento Gorniack (2004) defende a necessidade de uma percepção ambiental, para melhorar a qualidade de vida da sociedade.

O terceiro quesito indagado aos estudantes foi relacionado as atividades e ações que a escola promove para contribuir com a aproximação dos alunos com as questões ambientais, nesta questão o formulário sugeria os seguintes itens: palestras, gincanas, filmes, projetos, debates em sala de aula e trabalhos de campo envolvendo visitas a APA da Fazendinha, ao Bioparque da Amazônia e a observação da Foz do rio Amazonas. Os resultados mostraram que 83,34% (30 alunos) afirmaram que o principal contato com as questões ambientais advém das palestras, que ocorrem principalmente em datas comemo- rativas, como: os dias do meio ambiente, da árvore e da água e 16,66% alegaram ser em debates na sala de aula.

Neste caso foi possível inferir, in loco, que os alunos não têm clareza da correlação de suas atividades escolares com as questões ambientais, pois não consideram que ati- vidades como trabalhos de campo (visitas ao Bioparque e a APA - localizados próximo a escola) e os vários filmes e projetos desenvolvidos na escola têm relação com as questões ambientais. Entretanto, é importante destacar que em sala de aula, na disciplina geografia, o tema é pouco discutido, apenas alguns exemplos, sem que haja maiores discussões e pouco se leva em consideração a percepção que os alunos têm sobre o ambiente da escola e do seu cotidiano.

Analisando este contexto é possível considerar correspondências com os argumen- tos de Del Rio (1999) e Oliveira (2005) que afirmam que percepção ambiental é um pro- cesso mental de intercâmbio do indivíduo com o meio ambiente e esse mecanismo ocorre por meio da cognição e propõem que seja um processo de atribuição de significados de- pendentes das estruturas cognitivas, que detém a função de adaptação, portanto, é um processo epistemológico. Okamoto (2002) complementa esta análise defendendo que a percepção ambiental tem como finalidade investigar a maneira como os indivíduos enxer- gam, interpretam, convivem e se adaptam à sua realidade.

A quarta questão procurava inquirir aos alunos sobre a existência de problemas am- bientais em sua comunidade, neste caso 100% responderam que existem e que são di-

GEOGRAFIA DO AMAPÁ EM PERSPECTIVA - VOLUME II Capítulo 1 16

a vida influenciam no que ele percebe em seu ambiente. Portanto, é necessário que os do- centes proporcionem os conhecimentos sobre as questões ambientais.

A sétima e última questão procurou inquirir ao estudante suas perspectivas sobre a sustentabilidade ambiental do planeta. Ou seja, verificar, se na opinião do educando o planeta está sendo degradado ou se estaria sendo protegido de atividades predadoras, no processo socioeconômico desenvolvidos pelas atividades humanidade. Neste quesito os alunos demonstram pessimismo, pois 100% afirmaram que as atividades socioeconômicas da sociedade vão extinguir os recursos naturais do planeta em curto ou médio prazo.

Analisando as respostas deste quesito é possível inferir que os discentes têm conhe- cimento sobre o uso predador que a humanidade desempenha em relação ao ambiente em que vive. Neste sentido, Sato (2002) defende que a percepção ambiental é importante para construção e formação de novos valores e condutas no espaço educacional.

Portanto, a partir da percepção é admissível conhecer e identificar a inter-relação homem e natureza. Assim, a escola e a geografia têm papel fundamental para construir e modificar a percepção e a utilização dos recursos naturais pela sociedade. Isto é, pode pro- porcionar atividades escolares que modifique o uso predatório da natureza e altere a visão pessimista dos alunos.

Assim, com base na análise dos formulários com informações disponibilizadas pelos alunos, das visitas in lócus e do exame dos documentos fornecido pela direção da institui- ção foi possível perceber que os discentes do 9º ano da Escola Estadual José do Patrocínio têm conhecimentos sobres questões ambientais, vivem e estudam próximo a ambientes que tem como foco a gestão adequada dos recursos naturais e com grande beleza cênica e que a escola desenvolve atividades relacionadas as questões ambientais. Porém, dentro da sala de aula, e mais especificamente, nas aulas de geografia, estes temas são pouco discutidos e as experiências do cotidiano dos educandos, com relação a percepção am- biental, não são adequadamente explorados.

CONSIDERAÇÕES

A partir das pesquisas bibliográficas e documentais, da aplicação do formulário aos alunos e das observações in loco é possível inferir que os professores que ministram aulas ao 9º ano da Escola Estadual José do Patrocínio pouco utilizam os conhecimentos dos alunos sobre o ambiente em que vivem e estudam. Contudo, o que é mais preocupante, é que não se tem uma dinâmica de discussão sistemática sobre as questões ambientais nas aulas de geografia, embora estejam explícitos nos documentos oficiais, como Parâmetros Curriculares Nacionais, o PPP da escola, os programas de disciplinas e nos planos de en- sino das disciplinas.

GEOGRAFIA DO AMAPÁ EM PERSPECTIVA - VOLUME II Capítulo 1 17

É importante destacar, também, que a hipótese da pesquisa se confirmou, ou seja, a percepção dos alunos do ensino fundamental II da Escola José do Patrocínio em relação ao ambiente em que vivem são raramente consideradas nas aulas de geografia. O que se percebe é que os docentes e técnicos tem como preocupação prioritária o cumprimento do conteúdo planejados para o 9º ano, do ensino fundamental II.

Outra questão importante a ser considerada é com relação as práticas dos professo- res, pois, embora a Escola esteja localizada próximo as margens do rio Amazonas, de uma APA e do Bioparque, os docentes pouco utilizam esses recursos para ministrar aulas práti- cas e inserir os alunos nas discursões ambientais, esses ambientes poderiam e deveriam funcionar como verdadeiros laboratórios a céu aberto.

É relevante destacar, ainda, que a reduzida utilização dos ambientes que circulam a unidade escolar não é uma característica exclusiva da Escola José do Patrocínio. É co- mum, no Amapá e na Amazônia, onde os professores das escolas que estão cercadas por ambientes naturais não os utilizem em suas práticas educacionais, desconsiderando a re- alidade dos discentes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BACHELARD, Gaston. A Poética do Espaço. Trad. de Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Mar- tins Fontes, 1993. BÉRGSON, Henri. L’évolution créatrice. Paris: PUF, 1991. DEL RIO, Vicente. Cidade da mente, cidade real: percepção ambiental e revitalização na área por- tuária do Rio de Janeiro. In : Percepção Ambiental : a experiência brasileira. São Carlos: Studio Nobel: Universidade Federal de São Carlos, 1999. FAGGIONATO, Sandra. Percepção Ambiental. Material e Textos. (2011). Disponível em: http:// educar.sc.usp.br/biologia/textos/m_a_txt4.html. Acesso em: 15 set. 2019. GIBSON, James Jerome. The Senses Considered as Perceptual Systems. Boston: Houghton Mifflin, 1966. GORNIACK, Fabiana Beckert. Percepção Socioambiental Da Paisagem Urbana Pelo Poder Le- gislativo Municipal De Joinville, SC - um estímulo à compreensão da dimensão emocional na percepção da paisagem urbana. 2004. Dissertação de Mestrado. Centro De Ciências Tecnoló- gicas, Programa De Pós-Graduação Em Engenharia Ambiental, Universidade Regional De Blume- nau, Blumenau, SC, 2004. GOULD, Peter e WHITE, Rodney. Mental Maps. Middlesex: Penguim Books, 1974. LYNCH, Kevin. A imagem da cidade. (tradução: Maria Cristina Tavares Afonso) São Paulo: Arte e Comunicação, 1982. MACEDO, Renato Luiz Grisi. Percepção e Conscientização Ambiental. Lavras/MG: Editora UFLA/FAEPE, 2000.

GEOGRAFIA DO AMAPÁ EM PERSPECTIVA - VOLUME II 19

CAPÍTULO 2

A VILA PLANEJADA DE SÃO JOSÉ DE MACAPÁ NO

PERÍODO POMBALINO (1750-1777)

MARCELUS CLEI DA SILVA BURASLAN

Universidade Federal do Amapá

ROMÁRIO VALENTE SANTOS Universidade Federal do Pará

ELCIMAR DE SOUSA BARROS Secretaria Estadual de Educação do Amapá

JOSÉ FRANCISCO DE CARVALHO FERREIRA Universidade Federal do Amapá

INTRODUÇÃO

A cidade de Macapá, atual capital do Estado do Amapá, fundada em 04 de feve- reiro de 1758 na margem esquerda da foz do rio Amazonas, foi desenhada em um con- texto de disputas e desavenças entre as po- tências europeias que assediavam a Ama- zônia no século décimo oitavo.

Nessa época, a situação portugue- sa também não era das melhores em suas colônias, haja vista que as commodities coloniais já não satisfaziam a necessidade econômica e, ao mesmo tempo, as próprias terras coloniais estavam ameaçadas por in-

vasores intrusos que objetivam não só con- quistar, mas fixar núcleos de povoamentos nessas regiões.

Este capítulo pretende oferecer sub- sídios para se pensar na fundação da vila de são José de Macapá como suporte do planejamento militar para ocupação e de- fesa da região amazônica no século XVIII, na sua parte setentrional, que iria viabilizar a construção de uma fortaleza como marco de limite da fronteira da embocadura do rio Amazonas.

A abordagem de pesquisa pela qual se optou é qualitativa, já que, para se tra- balhar com um objeto de estudo alicerçado em contextos sócio-históricos específicos, é imprescindível ir à busca de uma compre- ensão aprofundada do mesmo do que de quantificações, embora as últimas possam emergir naturalmente dos dados coletados. Como instrumentos para a coleta de dados, vislumbrou-se, inicialmente, a análise docu- mental de registros históricos oficiais em re- ferências bibliográficas e mapas acerca de seu tema gerador.

Considerando a complexidade dos fa- tos e tendo como propósito norteador deste trabalho a vila de são José Macapá como vila planejada e militarizada no desenho das

GEOGRAFIA DO AMAPÁ EM PERSPECTIVA - VOLUME II Capítulo 2 20

fronteiras da Amazônia no século XVIII, é primordial entender o planejamento e a urbaniza- ção não só como um processo de anseio político, social e econômico de um estado ou de uma sociedade, mas também como um fenômeno de interesse político-militar de defesa e de soberania nacional.

Desse modo, a vila de são José de Macapá serviu aos interesses metropolitanos como alicerce para o processo de militarização como instrumento de defesa dos limites de fronteira da Amazônia colonial, amaçada pelo assédio e interesse estrangeiro.

Para alcançar o objetivo que nos propomos, começaremos por revisar o processo de disputas territoriais no Brasil colonial (primeiro item), passando pelo período pombalino e a fundação da vila de São José de Macapá (segundo item), e pela consideração do pla- nejamento da fundação da vila de Macapá (terceiro item), terminando com os resultados e discussão (quarto item) e pelas considerações finais.

O PROCESSO DE DISPUTAS TERRITORIAIS NO BRASIL COLONIAL

Durante o erguimento do Império colonial português na América, muitos países euro- peus reagiram às excessivas aquisições territoriais dos povos ibéricos em vários continen- tes. O Tratado de Tordesilhas (1494) não era considerado válido por nações como Inglater- ra, França e Holanda, que se dispuseram, por meio de ações bélicas e diplomáticas, a ferir seus fundamentos e a tentar povoar as terras americanas, asiáticas e africanas controladas por Portugal e Espanha. Assim, a América Portuguesa, desde as primeiras décadas do sé- culo XVI, enfrentou a constante ameaça estrangeira. Destacam-se, nesse sentido, segundo Tavares (2008), as invasões francesas, inglesas e as holandesas na região.

Nesse sentido se fez necessário um extremo esforço português para a defesa de suas possessões territoriais na sua parte de Tordesilhas, o que provocou o intenso pro- cesso de construção de fortificações e fundação de vilas na colônia como reação natural às constantes investiduras militares estrangeiras ameaçadoras ao domínio luso na região colonial.

A seguir, três casos exemplares desse processo de disputas territoriais no Brasil desencadearam a ordem de ocupação: A França Antártica e o Rio de Janeiro; A França Equinocial e São Luiz do Maranhão e o Forte do Presépio e a Feliz Lusitânia (Belém/PA) onde, primeiramente, ocorreu a fundação de fortes e, posteriormente, a fundação de vilas (TAVARES, 2008).