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Imprensa e ditadura, Trabalhos de História

O trabalho da revista Manchete na construção do notícias sobre os governos militares

Tipologia: Trabalhos

2017

Compartilhado em 07/09/2017

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Imprensa e ditadura:
O trabalho da revista Manchete na construção de notícias sobre os governos militares
Greyce Falcão do Nascimento
1
RESUMO:
No debate atual sobre a relação entre a História e memória, defende-se que essa
ciência não é só construída pela ação de indivíduos em situações específicas como também
por aqueles que escreveram essas ações e o significados a elas. Diante de inúmeras
tentativas de revisar o período da ditadura militar no Brasil e reconstruir o seu significado,
é importante relembrar o papel, muitas vezes decisivo, que a mídia desempenhou na
preparação e sustentação do golpe civil-militar, constituindo-se como um dos saberes
instituídos que operaram reproduzindo a noção de Segurança Nacional, base ideológica do
governo.
Assim, este trabalho tem como objetivo trazer à luz o papel da revista Manchete,
uma das publicações semanais de maior alcance em nosso país, entre os anos 1960 e 1980,
em sua forma de divulgar e discutir as notícias relacionadas à atuação dos governos
militares durante o período ditatorial. Num clima de tensão nacional, onde prisões e
cassações atingiam milhares de cidadãos do país, boa parte da imprensa brasileira,
dedicava-se a cobrir temas como as corridas de Fórmula 1, a conquista do espaço ou a vida
conturbada das celebridades, devido à censura vigente, ou mesmo aos interesses de quem
detinha os meios de comunicação, ficando o debate político em segundo plano. Além
disso, vemos a atuação de uma “imprensa colaboracionista”, que exaltava o poder
executivo do país em detrimentos dos vários movimentos sociais que atuavam em toda a
nação.
PALAVRAS-CHAVE: ditadura; imprensa; revista.
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Historiadora e Jornalista. Mestranda em História pela Universidade Federal de Pernambuco
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Imprensa e ditadura: O trabalho da revista Manchete na construção de notícias sobre os governos militares Greyce Falcão do Nascimento^1 RESUMO : No debate atual sobre a relação entre a História e memória , defende-se que essa ciência não é só construída pela ação de indivíduos em situações específicas como também por aqueles que escreveram essas ações e dão significados a elas. Diante de inúmeras tentativas de revisar o período da ditadura militar no Brasil e reconstruir o seu significado, é importante relembrar o papel, muitas vezes decisivo, que a mídia desempenhou na preparação e sustentação do golpe civil-militar, constituindo-se como um dos saberes instituídos que operaram reproduzindo a noção de Segurança Nacional, base ideológica do governo. Assim, este trabalho tem como objetivo trazer à luz o papel da revista Manchete, uma das publicações semanais de maior alcance em nosso país, entre os anos 1960 e 1980, em sua forma de divulgar e discutir as notícias relacionadas à atuação dos governos militares durante o período ditatorial. Num clima de tensão nacional, onde prisões e cassações atingiam milhares de cidadãos do país, boa parte da imprensa brasileira, dedicava-se a cobrir temas como as corridas de Fórmula 1, a conquista do espaço ou a vida conturbada das celebridades, devido à censura vigente, ou mesmo aos interesses de quem detinha os meios de comunicação, ficando o debate político em segundo plano. Além disso, vemos a atuação de uma “imprensa colaboracionista”, que exaltava o poder executivo do país em detrimentos dos vários movimentos sociais que atuavam em toda a nação. PALAVRAS-CHAVE: ditadura; imprensa; revista. (^1) Historiadora e Jornalista. Mestranda em História pela Universidade Federal de Pernambuco

INTRODUÇÃO

A imprensa se constitui, na história do país, um valioso instrumento de poder. Por essa razão, é importante que a sua atuação seja questionada, já que a grande mídia geralmente não atende ao compromisso com a sociedade, mas busca defender seus próprios interesses. Assim, compreendemos que a imprensa desempenhou papel fundamental durante a ditadura, papel que ainda vem sendo paulatinamente explorado. A maioria dos proprietários e diretores dos veículos de comunicação pertence às camadas mais altas da sociedade e suas ideias conservadoras foram de vital importância na implantação e sustentação do regime civil-militar. As consequências desse período podem ser vistas pelo aumento da corrupção e pelo desinteresse do povo brasileiro pela política. Nesse contexto, é importante destacar que o historiador teve uma grande expansão em seu campo de trabalho nos últimos anos, o que nos permite pensar as relações entre mudança e permanência, a influência dos discursos nas práticas sociais e na mentalidade, e os diferentes campos do saber como fontes de pesquisa. Observamos que através das notícias e reportagens, que demonstraram a postura ideológico-partidária assumida pelo veículo investigado, a revista pretendeu passar uma imagem positiva do regime. Utilizaremos os documentos, não como verdade absoluta, mas como eles se encontram, carregados de sentidos e objetivos, buscando compreender e analisar o efeito de verdade produzido pela mídia. Para que o regime ditatorial fosse implantado no Brasil, o golpe civil-militar de 1964 foi articulado por forças civis e militares representadas por diversos segmentos da sociedade, sendo importante ressaltar que a “adesão” da maioria da classe média brasileira deu suporte e legitimidade ao sistema repressor, tendo em vista a profusão dos discursos do “perigo comunista” e da “ameaça de subversão da ordem”, alimentando o imaginário do medo. Nesse contexto, a imprensa foi parte integrante da complexa e eficiente rede de informações que serviu como pilar de sustentação do sistema autoritário. (DREIFUSS, 1987). Para a cooptação das camadas médias urbanas houve um trabalho sistemático promovido pela Assessoria Especial de Relações Públicas (Aerp), orgão pertencente ao governo, pela imprensa, propaganda, cinema e televisão. De modo geral, os meios de comunicação assumiram a tarefa de adequar o público ao status quo social e político

reflexão apreende a existência de jornalistas e de donos de veículos que colaboraram com o regime autoritário. Este trabalho não pretende negligenciar a resistência, mas buscar outras problemáticas da imprensa. Nem todos colaboraram com o regime, da mesma forma que nem todos se opuseram. Um dos intuitos é perceber uma atuação colaboracionista, realizada na grande imprensa, ante a imposição autoritária (KUSHNIR, 2012). Os trabalhos acadêmicos e as pesquisas feitas nos últimos anos evidenciam elementos de colaboração e conivência explícita de parcelas da imprensa àquele regime. Além disso, havia uma recomendação do governo aos meios de comunicação para que não falassem sobre a existência da censura, principalmente nos jornais e revistas que pertenciam a grande imprensa^2. Adolpho Bloch veio de uma grande família judaica. Chegaram ao Brasil em 1922, fugindo à perseguição a Comunidade Judaica após a Revolução Russa. Dedicou-se desde muito cedo ao ramo das gráficas e, após trinta anos de trabalho, sempre prestando serviços a terceiros, decidiu em 1952, lançar sua própria revista de variedades. Conseguindo ser um empresário de sucesso, ainda na década de 50, Bloch acreditava que havia lugar no mercado para mais uma revista de circulação nacional, com condições de concorrer com a forte “O Cruzeiro”.^3 O nome da revista surgiu de uma conversa informal com seu primo Pedro Bloch, que sugeriu o nome Manchete pela semelhança da palavra com o renomado título francês Paris Match^4. O complexo onde funcionava toda a confecção da revista situava-se à beira mar da Praia do Flamengo, num prédio de dez andares, com fachada de vidro e de alumínio, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer. A escolha das capas da revista era tema de importância e destaque, tanto que o (^2) Segundo Maria Aparecida Aquino, o conceito de “grande imprensa” refere-se aos veículos de comunicação que mantinham uma distribuição nacional e por vezes com uma abrangência internacional, cuja circulação poderia ser diária, semanal ou mensal e que possuíam um alto financiamento publicitário do qual dependia a sua sobrevivência. Podemos citar como parte da “grande imprensa” da época, as revistas Manchete, O Cruzeiro e Veja, além de jornais como O Estado de São Paulo, Diário de Notícias e A Última Hora. (^3) O Cruzeiro foi uma revista semanal ilustrada, lançada no Rio de Janeiro, em 10 de Novembro de 1928 , editada pelos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Carlos Malheiro Dias foi seu diretor no período de 1928 a 1933 , sendo sucedido por Antonio Accioly Netto. Foi a principal revista ilustrada brasileira da primeira metade do século XX. Deixou de circular em julho de 1975. (^4) Lançada em 19 de março de 1949, a Paris Match era uma revista francesa de caráter jornalístico- informativo, que competia com as norte-americanas Life e Time tendo como principal característica a qualidade fotojornalística de suas matérias.

próprio Adolpho Bloch, fazia questão de dar a decisão final. Normalmente três opções lhe eram dadas e mesmo quando ele não estava ou não podia participar da decisão, a capa obedecia a normas não escritas, quase imutáveis ao longo de quatro décadas. Em poucos anos a revista passou a ser o produto que trazia maior lucratividade à Editora Bloch, assim, em poucos anos, o parque gráfico foi acrescido de novas máquinas, que possibilitava a impressão de mais de 800 mil exemplares semanais. O investimento em equipamentos e instalações foi simultâneo à reformulação da política editorial que ocorreu em 1956. A mudança abrangeu todos os setores da publicação, transformando a paginação e atualizando o texto, com o objetivo de fornecer ao leitor elementos necessários à compreensão dos acontecimentos. Politicamente, a revista se identificava com a corrente desenvolvimentista, antiliberal e industrializante do pensamento econômico. No entanto, personalidades que eram assumidamente de “esquerda”, como o arquiteto Oscar Niemeyer, partilhavam da amizade de Adolpho Bloch. A amizade e o apoio irrestrito ao governo Juscelino Kubitschek, desde a campanha eleitoral, também contrastava com as matérias e reportagens de apoio ao regime militar. Na década de sessenta, a revista cresceu, principalmente devido às coberturas sobre a construção e inauguração de Brasília. Em depoimento, o jornalista Roberto Muggiat, ex-funcionário da revista explica a estreita ligação de Adolpho Bloch com o político Juscelino Kubitschek (BARROS, 2008). Segundo José Esmeraldo Gonçalves, jornalista da Revista Manchete nos anos 1970, muitos jornais divulgavam a lista completa com nomes, números de documentos e endereços de vários cidadãos. Involuntariamente ou não, contribuíram com a formação de fichas de elementos considerados “subversivos”. O clipping com dados pessoais dos detidos alimentava as fichas dos órgãos de segurança. Assim como outros grupos proprietários de jornais e revistas, a Bloch tinha interesses econômicos e ideológicos em comum com os governos militares. Muitas vezes esquivava-se de publicar assuntos polêmicos ou que entrassem em confronto com o governo. Um exemplo disso, é que às vésperas do AI-5, na edição de 02 de Novembro de 1968, a revista dedicou vinte de suas páginas a uma reportagem sobre o casamento de Jacqueline Kennedy com o bilionário grego Onassis.

BIBLIOGRAFIA

BARROS, J.A.; GONÇALVES, José Esmeraldo (orgs.) Aconteceu na Manchete : as histórias que ninguém contou. Rio de Janeiro: Desiderata, 2008. BLOCH, Adolpho. O Pilão. Rio de Janeiro: Editora Bloch, 1988. BLOCH, Arnaldo. Os irmãos Karambloch. Ascensão e queda de um império familiar. São Paulo: Companhia das letras, 2008. DREIFUSS, René Armand. 1964, A conquista do Estado : ação política, poder e golpe de classe. Petrópolis: Vozes, 1987. GASPARI, Elio. A Ditadura Envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. MARTINS, Ricardo Constante. Ditadura Militar e Propaganda Política: A Revista Manchete durante o governo Médici. 1999. 247 f. Dissertação (Mestrado em História) – Centro de Educação em Ciências Humanas, Universidade Federal de São Carlos, São Paulo. NISKIER, Arnaldo. Memórias de um sobrevivente. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012. PENA, Felipe. Seu Adolpho. Rio de Janeiro: Usina de Letras, 2010. SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. 2.ed. Rio de Janeiro: Graal,

SODRÉ, Nelson Werneck. Vida e Morte da Ditadura: 20 anos de autoritarismo no Brasil. 2.ed. Petrópolis: Vozes, 1984. SILVA, Marcília Gama da. Informação, Repressão e Memória: a construção do estado de exceção no Brasil na perspectiva do DOPS-PE (1964-1985). 2007. 264 f. Tese (Doutorado em História) - Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco, Recife.