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Praticas de interculturalidade no Mato Grosso do Sul
Tipologia: Notas de estudo
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Universidade Federal da Grande Dourados COED: Editora UFGD Coordenador Editorial : Edvaldo Cesar Moretti Técnico de apoio: Givaldo Ramos da Silva Filho Redatora: Raquel Correia de Oliveira Programadora Visual: Marise Massen Frainer e-mail: [email protected] Conselho Editorial - 2009/ Edvaldo Cesar Moretti | Presidente Wedson Desidério Fernandes | Vice-Reitor Paulo Roberto Cimó Queiroz Guilherme Augusto Biscaro Rita de Cássia Aparecida Pacheco Limberti Rozanna Marques Muzzi Fábio Edir dos Santos Costa Foto de capa: Pôr-do-sol na fronteira sul-mato-grossense, fotografia de Marcelo Lima Impressão: Gráfica e Editora De Liz | Várzea Grande | MT Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central - UFGD Literatura e linguística: práticas de interculturalidade no Mato Grosso do Sul. / Organizadores: Marcos Lúcio de Sousa Góis, Paulo Sérgio Nolasco dos Santos. – Dourados : Ed. UFGD, 2011. 336p. ISBN 978-85-61228-77-
Literatura e Linguística
Apresentação 07
Literatura e Práticas Culturais Literatura e Estudos Regionais, Culturais e Interculturais no Mato Grosso do Sul Paulo Sérgio Nolasco dos Santos
Camalotes e guavirais : Campo Grande e Corumbá revisitadas pela memória de Ulisses Serra Paulo Bungart Neto
Retratos femininos de um Morro Azul Maria Adélia Menegazzo
Douglas Diegues: “Las fronteras siguem incontrolábles” Ana Paula Macedo Cartapatti Kaimoti
Entre Paraguai(s), Bolívia(s) e Brasil(s): Diálogos nas quase fronteiras “dissolvidas” Edgar Cézar Nolasco e Marcos Antônio-Bessa Oliveira
Notas de poéticas, breves notícias de Mato Grosso Mário Cezar Silva Leite
Literatura e Linguística
É indiscutível a necessidade que todo professor-pesquisador tem de publicar os resultados de suas investigações científicas, parti- cularmente para pôr em amplificação e em rede compartilhada a sua própria produção do conhecimento, cumprindo também um elo de intermediação com a função dos Programas de Pós-Graduação em suas respectivas áreas de concentração e linhas de pesquisa. O livro Literatura e Linguística: práticas de interculturalida- de no Mato Grosso do Sul, publicação de textos de professores do Programa de Mestrado em Letras da UFGD e alguns de outros Pro- gramas, reúne em coletânea uma produção representativa das refle- xões em desenvolvimento por pesquisadores comprometidos com a área de Letras, e, grosso modo , com os saberes literários e linguísticos no estado de Mato Grosso do Sul, que justificam, assim, a linha edi- torial deste livro. O Programa de Mestrado em Letras da UFGD, formando uma complementaridade entre literatura e linguística, constitui-se numa proposta de estudos aprofundados onde as duas áreas do Programa
Sob tais perspectivas, vale uma citação do ensaio Literaturas, Culturas e Saberes, da professora e crítica literária e cultural Maria Lui- za Berwanger da Silva, originalmente apresentado como Aula Magna do Mestrado em Letras da UFGD, proferida no Teatro Municipal de Doura- dos em 1 de abril de 2009, ao evocar significativa passagem da famosa aula-conferência de Roland Barthes: Literaturas, Culturas e Saberes aproximados remetem à Le- çon ( Aula ) de Roland Barthes onde diz este crítico francês, no parágrafo de encerramento da conferência pronunciada no College de France em 1977 : [...] Há uma idade em que se ensina o que se sabe; mas vem em seguida outra, em que se ensina o que não se sabe; isso se chama pesquisar. Já o linguista José Luiz Fiorin, no prefácio de Introdução à Lin- guística I, ressalta as relações muito próximas existentes entre a linguísti- ca e a literatura: De um lado, um literato não pode voltar as costas para os estu- dos linguísticos, porque a literatura é um fato de linguagem; de outro, não pode o linguística ignorar a literatura, porque ela é a arte que se expressa pela palavra; é ela que trabalha a língua em todas as suas possibilidades e nela condensam-se as maneiras de ver, de pensar e de sentir de uma dada formação social numa determinada época. O livro está dividido em duas partes: a primeira, representativa da área de literatura, reúne trabalhos explicitamente voltados para a tematiza- ção da literatura sul-mato-grossense, seja pela seleção de obra e/ou autor dessa literatura regional, seja por uma abordagem de natureza teórico- crítica, a contribuir para o discurso crítico em torno do assunto, todos eles procurando constituir uma bibliografia capaz de subsidiar nossas pesqui- sas e estudos acerca das práticas culturais no Estado. Já a segunda parte do
Em “Retratos femininos de um Morro Azul”, Maria Adélia Me- negazzo analisa o romance Morro Azul , da escritora sul-mato-grossense Aglay Trindade Nantes, que se inspira na sombra da Guerra do Paraguai para compor, no entrecho de uma narrativa de “estórias pantaneiras”, um mundo carregado de sentidos históricos e ficcionais, numa extração daqui- lo que a personagem protagonista acredita ter sido sua própria vida. Disso, a autora do capítulo elabora um sensível ensaio de “retratos”, resultando em “uma representação da mulher na sua relação com uma natureza inós- pita, com homens rudes, com a guerra, rompendo, dessa maneira, com os estereótipos há muito estabelecidos pela tradição local”. “Douglas Diegues: ‘las fronteras siguem incontrolábles’”, de Ana Paula Macedo Carttapatti Kaimoti, trata-se de mais um capítulo indispen- sável para a literatura sul-mato-grossense e ao mesmo tempo seminal para a compreensão da obra do poeta brasiguaio Douglas Diegues. Aqui, sua poesia é analisada a partir de sua matriz em portunhol, “portunhol selvagem” como quer Diegues, projetando a poética do nosso escritor em um cenário e cartografia da literatura latino-americana, com realce para a condição híbrida e mestiça do escritor de Da gusto andar desnudo por estas selvas: sonetos salvages (2002). No capítulo intitulado “Entre Paraguai(s), Bolívia(s) e Brasil(s): diá- logos nas quase fronteiras ‘dissolvidas’”, os autores Edgar Cézar Nolasco e Marcos Antônio-Bessa Oliveira discutem como uma região de carac- terísticas tão peculiares, a do Estado de Mato Grosso do Sul, permitiria vislumbrar as especificidades da Arte aí produzida – se nacional / local ou nacional / universal –, consideradas as confluências e as influências viven- ciadas pela Arte sul-mato-grossense. Além das representações “simbóli- cas” de fronteiras com outros países, argumentam os autores, o Estado ainda passaria por um processo de “trânsito” cultural nacional. E que, bem antes da divisão (1977) do Mato Grosso, o Estado “sofre” com o rótulo de “Estado de Passagem”. A partir daí, refletindo sobre as convergências
Literatura e Linguística e divergências de culturas em Mato Grosso do Sul, o ensaio desenvolve uma séria e provocadora discussão sobre as produções artísticas realizadas no Estado. Encerrando esta primeira parte do livro, o ensaio “ Notas de poéti- cas, breves notícias de Mato Grosso”, do professor Mário Cezar Silva Lei- te, oferece amplo painel da pesquisa “Diferentes, ícaros, cafés, caldeirões, cordas no pescoço, chamas vivas: breves notícias sobre as (boas) margens da literatura brasileira em Mato Grosso” , que desenvolve atualmente. Nesse ensaio, o autor traça um panorama da atual produção e publicação literária no estado, problematizando sobretudo a possível necessidade de reconhecimento e a inserção no mercado nacional. Trata-se, grosso modo , de um inventário que traz dois representativos escritores – Santiago Vil- lella e Luciene Carvalho – que podem ser considerados uma amostragem da boa produção literária, sem desconsiderar um contingente significativo de outros escritores e obras capazes de ultrapassar as fronteiras poéticas, às vezes restritivas, do “local”. Intitulada Linguística e Transculturalidade, a segunda parte do livro traz, ao longo de seis capítulos, trabalhos de investigadores que têm, em seu fazer científico, se dedicado a pensar o lato e o stricto regional e global no que tange ao campo das ciências da linguagem e sua relação consigo e com o social. No primeiro trabalho, “Estudos Fonológicos da Língua Guató”, os pesquisadores Adriana Viana Postigo e Rogério Vicente Ferreira apresen- tam uma análise fonológica sobre a língua dos guató. Considerados extin- tos na década de 1970, esse povo que habita a Ilha de Ínsua, no alto Panta- nal sul-mato-grossense, a 250 quilômetros de Corumbá, tem reivindicado desde então não apenas seu direito ao território, mas ao reconhecimento de sua identidade, de sua língua. Inicialmente, os autores contextualizam a
Literatura e Linguística muito importantes os conceitos de identidade, subjetividade, (des)acultu- ração, considerando-se que existe, como o texto bem demonstra, todo um processo histórico que determina fenômenos de interferência e influência na estabilidade ideológica de um grupo cultural. No capítulo “Reportagem: um estudo do discurso impresso sul- mato-grossense”, as pesquisadoras Vânia Maria Lescano Guerra e Vanes- sa Amin retornam às eleições de 2006 para Governo do Estado, em busca de problematizar o processo identitário de dois jornais impressos no Mato Grosso do Sul. Ao estudarem aspectos verbais e os deslizamentos de sen- tido em vários textos do gênero discursivo reportagem, as autoras procu- raram mostrar que os veículos de comunicação não são simples meios de transmissão de informações. São instituições organizadas ideologicamente e cujas relações de poder agem no intuito de determinar as diversas pro- duções de sentidos. Há um processo de reflexão inter e transdisciplinar, que mobilizou os campos de saber da Comunicação, da Linguística e da Análise do Discurso de orientação francesa. No texto “Repensar o ensino e o ensino de língua portuguesa no contexto de fronteiras”, Marcos Lúcio de Sousa Góis faz um conjunto de reflexões em busca de aproximar os campos da Análise do Discurso e dos Estudos Coloniais e Pós-coloniais. O autor visa pôr em discussão, ainda que preliminarmente, a Língua Portuguesa, mobilizando conceitos de Boaventura de Sousa Santos para (re)pensar algumas práticas discursi- vas e não-discursivas instauradas em nossa sociedade. Parte-se da ideia de que a Língua Portuguesa e seu ensino encontram-se entrincheirados entre um passado positivista e linear e um futuro, cujos desafios, do ponto de vista da emancipação social, são aparentemente intransponíveis. Acentua- se que os estudos das ciências da linguagem e das humanas têm papel fundamental no sentido de desenvolver nos cidadãos uma visão crítica e emancipatória.
Por fim, no último capítulo deste livro, “Formação continuada de professores de língua e literatura: ações de extensão em MS”, Adair Vieira Gonçalves e Alexandra Santos Pinheiro apresentam um estudo realizado com professores de Língua Portuguesa e de Literatura das escolas públicas da cidade de Dourados – MS, como resultado parcial de um projeto de extensão apoiado pelo MEC e pelo Ministério da Cultura. Em síntese, os autores apresentam, além de resultados qualitativos e quantitativos do pro- jeto “Formação continuada de professores: caminhos para o letramento”, e de uma visão panorâmica de como este está estruturado, uma funda- mentação teórica bastante proveitosa para quem trabalha com Sequências Didáticas.
Ao CNPq, os organizadores e os colaboradores deste volume agra- decem pela concessão de bolsas de produtividade em pesquisa, importante estímulo ao trabalho. Aos leitores, entusiastas e interessados nos estudos linguísticos e literários, particularmente nas reflexões sobre a nossa região cultural, fica o convite para esta incursão pelo extremo oeste do Brasil. Os organizadores
Literatura e Práticas Culturais
Literatura e Linguística Literatura e Estudos Regionais, Culturais e Interculturais no Mato Grosso do Sul Paulo Sérgio Nolasco dos Santos (UFGD/Pesquisador CNPq) Ao ser convidado para proferir palestra inaugural do NECC – Nú- cleo de Estudos Culturais Comparados, da UFMS, coube-me a tarefa de- safiadora de selecionar, a partir da perspectiva da “Literatura comparada e produção do conhecimento”, um tema ou linha norteadora da exposição e também o título dessa exposição. Escolhi o título pensando em minha trajetória no campo da pesquisa, no comparatismo, e em minha atuação na criação de uma linha de pesquisa dentro do Programa de Mestrado em Letras. Por isso, devo iniciar lembrando que a disciplina de Literatura Comparada vem sendo trabalhada na UFMS, antigo campus de Dourados, desde 1985, culminando com o seu oferecimento regular na grade curri- cular no ano de 1992, e que em 1997 nosso projeto de criação de curso de pós-graduação lato sensu , especialização em Literatura Comparada, foi aprovado e implantando no campus de Dourados.
Literatura e Linguística renovada categoria trans-histórica, que o torna validado ainda hoje, como conceito operatório, para explicar os atuais transladamentos culturais e ao que o discurso crítico latino-americano, a partir de Ángel Rama, denomina “transculturação narrativa”.^2 Sob esta perspectiva, desejamos contribuir com o debate em torno do específico e regional, característico ao rótulo e próprio da literatura sul-mato-grossense. Neste sentido, o presente trabalho deve assinalar, desde logo, certa amplidão de seus raios de interesse, uma vez que põe em destaque o lugar da crítica literária e cultural – o discurso crítico latino-americano –, porém incidindo, neste texto, sobre as regiões e espaços fronteiriços, de “contra- bandos”, que emolduram as literaturas do Cone Sul e em especial sobre o lugar, o entorno do Pantanal e da literatura sul-mato-grossenses. Neste contexto, é interessante sublinhar as linhas de força do nosso projeto de pesquisa, sobretudo na sua tarefa de mapear a “região cultural” do entorno do Pantanal Sul-mato-grossense, numa extensa área territorial que recobre o Chaco paraguaio – região limítrofe com o Paraguai –, que guarda em sua história e cultura traços de identidade comum. A História dessa região do extremo oeste do Brasil pode ser revisitada a partir de perspectivas tão variadas quanto múltipla é a constituição dela mesma. O processo de colonização e desbravamento no estado de Mato Grosso, impulsionado pela gesta dos bandeirantes, deu-se pela (re)demar- cação e consequente rasura das “fronteiras” territoriais, primeiro pelas consequências da Guerra do Paraguai e depois pela divisão do próprio estado de Mato Grosso, em território brasileiro. Independentemente dos 2 Em Transculturación narrativa en América Latina, o crítico uruguaio propôs im- portante hipótese sobre as regiões culturais no subcontinente. Segundo Rama, a suposta homogeneidade cultural latino-americana é apenas ideológica, resultado do projeto de fun- dação das nações, enfatizando que, sob o clave da unidade, desdobra-se uma interior diver- sidade que é a definição mais precisa do continente. Cf. RAMA, A. Literatura e cultura na América Latina. (Flávio Aguiar & Sandra Guardini T. Vasconcelos, organizadores). São Paulo: Editora Edusp, 2001. 381p.
Literatura e Práticas Culturais limites de fronteira, o povoamento nessa “região cultural” deu-se num espaço indelimitado e indiviso, bem diferente do que demonstra a carto- grafia contemporânea. Os trânsitos e travessias que aí se fizeram resultam no dilema da representação cultural que constitui, a um só tempo e num só compasso, o daqueles que vivem do lado de cá, no Brasil, e os do lado de lá, no Paraguai, tomando-se aí apenas esses dois países, sem destacar ainda a Bolívia e a divisão territorial do próprio MT. Assim, a postulação de uma “região cultural”, caracterizadora do extremo oeste do Brasil, deixa entrever aspectos histórico-culturais de for- mação que vêm desde o “descobrimento” pelos europeus, a captura do índio, o encontro de metais e prata na Bolívia, e ouro em Mato Grosso, durante vários séculos, findando no “despovoamento” e no esquecimento que resultou tão rápido quanto foi o fato da ocupação nesta região. Uma faceta singular da vida e dos costumes dessa região fronteiriça com o Pa- raguai permite ser verificada já a partir das próprias produções simbólicas: artes plásticas, língua/literatura, música, costumes/regionalismos, culiná- ria, crendices/lendas, manifestações religiosas e folclóricas, etc. Significativo fato histórico-cultural da região diz respeito aos inter- câmbios feitos, no início do século passado, entre os povos desta região fronteiriça, pois as viagens, o acesso e intercâmbio comercial eram mais efetivados com o Paraguai e não com o Leste ou centros brasileiros da época. Este aspecto é conformador de um particular isolamento e de um destino marcado pelo cultivo e extração da erva-mate e por uma cultura e práticas sociais voltadas à criação das próprias produções simbólicas, como a “guarânia”, música que bem retrata a identidade e alma do povo da região, compartilhador de hábitos e causos nascedouros à sombra da erva- mate e da degustação do “tereré”, bebida típica da região. Sobressai-se então a relevância de estudos e reflexões amparados pela crítica literária e cultural, dos Estudos Culturais e da literatura comparada em suas práticas mais recentes, visando à delimitação e formulação de elementos teórico-