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Tipologia: Notas de estudo
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Gessé Marques Jr. Março de 2007
De preferência, ao invés de usar “Delimitação do Tema”, crie um título que exprima o conteúdo temático do seu trabalho. Na introdução do trabalho é necessário contextualizar o que se pretende pesquisar, e introduzir o leitor no contexto de problemas, de teorias, e de doutrinas que se quer pesquisar. De uma maneira objetiva, mostramos como o tema vem sendo problematizado e, consequentemente, porque ele precisa ser pesquisado. Tratamos, portanto, de delimitar, de circunscrever o tema-problema. É o momento de se referir aos estudos anteriores já feitos (através da revisão bibliográfica ), assim como mostrar as limitações desses estudos e a necessidade de se continuar a pesquisá-lo. É o momento de mostrar a importância e "as contribuições que o seu trabalho dará, justificando -o desta maneira".^1 Através da revisão bibliográfica, o aluno demonstra que está inserido num tema de conhecimento, e ao mesmo tempo procura limitar a extensão do tema. Esse levantamento permite ao aluno conhecer o "estágio atual das discussões sobre o
(^1) SEVERINO, Antonio J.. Os passos da pesquisa científica. Apostila de Introdução aos Estudos da Educação. FEUSP, 1o sem. 1999. p. 2.
assunto além de possibilitar o contato com as diversas tendências metodológicas, segundo as quais o assunto poderá ser abordado”.^2 Assim, neste momento é a hora de mostrar o que se sabe, mesmo que este conhecimento já faça parte de um “senso comum” da área. Delimitar um tema é um processo onde se parte de um assunto e questão mais gerais (macro), para uma mais particular (micro). Por exemplo: Um tema : "A liberdade". (tema muito amplo que compreende filosofia antiga, contemporânea, abordagem história, em todas as vertentes do direito, da política, psicologia, sociologia, etc.). Delimitando: "A liberdade jurídica". (ainda muito amplo, pois se pode falar de liberdade em todos os tempos, no ocidente, no oriente...). "A liberdade no direito ocidental do século XX". (amplo: em quais países? Antes ou depois da 2a^ Guerra Mundial?)
"A liberdade de agir no sistema jurídico brasileiro". (poderíamos perguntar quando?). "A liberdade de agir do cidadão na Constituição brasileira de 1988". (temos um tema mais delimitado, e possível de se realizar uma pesquisa 3 ).
(^2) LEME, Sueli M.. Subsídio metodológicos para a elaboração de trabalhos acadêmicos (compilação). Apostila de métodos e técnicas de pesquisa. Piracicaba, 1998. (^3) NUNES, Luiz A. R.. Manual de monografia jurídica: como se faz: uma monografia, uma dissertação, uma tese. 2a ed. rev. ampl. São Paulo: Saraiva, 1999. p. 11-12. Apesar deste exemplo ter sido tirado deste livro, o autor não cria um problema de pesquisa.
A justificativa é a hora de se “vender o peixe", de mostrar o valor do seu estudo frente aos objetivos propostos. A pesquisa é importante porque, entre os autores lidos na revisão bibliográfica, a abordagem que pretendemos não foi ainda realizada; não teve a profundidade necessária. É importante porque trará uma nova compreensão sobre um determinado assunto. Porque questiona um princípio constitucional. Porque traz uma nova leitura sobre a prática jurídica. Porque tem relevância social...
É necessários descrever quais os procedimentos e instrumentos que serão utilizados para que a pesquisa possa ser realizada em relação aos objetivos propostos. Se a pesquisa é somente bibliográfica, deve-se fazer um levantamento exaustivo das fontes. Se exigir dados estatísticos, deve-se mostrar como será feito esse levantamento: Onde? Quais dados? Através de qual técnica? Em suma: como e onde vai coletar seu material de pesquisa, e através de quais métodos e técnicas. Metodologia é fundamental no processo de conhecimento. É através dela que podemos esclarecer, para o leitor, qual foi o processo de aquisição de conhecimento.
Ainda que o cronograma possa ser alterado durante a pesquisa, ele deve ser feito com o objetivo de orientar as atividades a serem realizadas. O cronograma deve ser um modo de organização das atividades, descriminando em cada mês os passos da pesquisa, desde a leitura, coleta de dados, encontros com o orientador, redação de esboço, redação final da monografia e sua apresentação.
No projeto de pesquisa deve constar tanto a referências citadas no texto (Referências Bibliográficas), como as referências a serem consultadas (Bibliografia: bibliografia é o material foi citado no texto, assim como o material que é relevante, ainda que não tenha sido citado, para o trabalho). Desse modo, o autor(a) mostra que, ainda que não tenha lido todos os livros, artigos e revistas, ele(a) tem capacidade e empenho na procura de material de pesquisa. O levantamento bibliográfico é a parte inicial e fundamental da pesquisa. Finalmente, a bibliografia deve estar organizada de acordo com as regras da ABNT, ou de acordo com regras de referência que forem escolhidas por determinada instituição.
Os anexos devem ser usados somente para a inclusão de material de difícil acesso. Cuidado com os anexos, pois eles podem dar a impressão de que o autor está somente “enchendo lingüiça”, fazendo volume.
Este roteiro que apresentamos acima contém os elementos fundamentais de um projeto de pesquisa, ou seja:
trabalhos até então publicados. Isto não quer dizer que devamos fazer grandes questões, ou grandes mudanças em paradigmas já estabelecidos. A proposta é que, de acordo com a fase que estivermos na academia (na graduação, mestrado, doutorado ou livre-docência), criemos um processo investigativo para resolver questões ainda não propostas. Neste sentido, não há diferença na estrutura lógica de um projeto de graduação ou de doutorado. O que muda é a capacidade – no sentido de acúmulo de conhecimentos pelo pesquisador – de propor e realizar questões cada vez mais complexas. Para resolver as questões é necessário fazer pesquisa através de métodos científicos próprios de cada área de conhecimento, ou melhor; de acordo com o tipo de dados e informações que se pretende coletar. Isto é, podemos fazer pesquisa doutrinária e teórica, pesquisa de campo, pesquisa estatística, pesquisa social. É importante que em cada uma dessas abordagens recorramos às metodologias já elaboradas e cientificamente reconhecidas por cada área de conhecimento, ou seja, metodologias jurídicas, antropológicas, estatísticas, ou sociológicas. É possível fazer um trabalho de pesquisa somente com um viés teórico, mas não é possível fazer um trabalho somente prático. Mesmo que se esteja analisando determinada prática, é necessário ter fundamento teórico, pois não existe prática sem teoria. Quando falamos de critérios de um trabalho cientifico, é importante salientar a diferença existente^ entre^ o^ trabalho^ de^ reflexão^ voltado^ à^ prática^ (do^ advogado, promotor, juiz...) e o trabalho científico. É diferente (e aqui devemos frisar que não há julgamento de valor nesta diferença) ter uma resposta anterior e ir atrás de fundamentos
para comprová-la (prático), e ter uma questão (da qual não sabe a resposta) e procurar por dados, teóricos ou práticos, para poder fazer uma análise ou buscar soluções. 4 Em um trabalho cientifico não é possível coletar somente os dados que venham confirmar as nossas hipóteses, os nossos objetivos, ou as respostas que julgamos necessárias. O interesse é analisar determinado campo, buscando todas as informações possíveis para iluminar o objeto de pesquisa. O trabalho prático lida com um problema cuja solução já faz parte de sua formulação. Por exemplo: o advogado tem um determinado cliente que está preso. Neste tipo de problema, a resposta já está dada em princípio, ou seja; tem que elaborar uma argumentação capaz de convencer o juiz e o promotor de que seu cliente deve ser solto. Todo o seu trabalho vai ao encontro de dados e informações que permitam que ele consiga fundamentar a resposta dada pela sua necessidade primeira. Nestes termos, podemos dizer que o “bom” advogado é aquele que consegue argumentos convincentes para uma resposta que estava posta desde o início. Esta resposta - soltar, prender, ganhar uma ação - não permite dúvida, ou incerteza, na sua formulação. O trabalho cientifico não parte de uma resposta, mas sim da dúvida, da incerteza, da desconfiança. Ele cria um problema cuja resposta somente será conhecida depois de a pesquisa ser realizada. E mesmo aí, ela será uma resposta possível, uma visão parcial, uma determinada perspectiva sobre o objeto analisado, e nunca uma verdade. Um conceito fundamental da epistemologia da ciência é que na pesquisa cientifica não existem verdades absolutas, mas sim verdades relativas e provisórias^5. (^4) NOBRE, Marcos. Apontamentos sobre a pesquisa em direito no Brasil. Novos Estudos, São Paulo: CEBRAP, no 66, p. 145-154, julho de 2003. (^5) GEWANDSZNAJDER, F. O método nas ciencias naturais e sociais: pesquisa quantitativa e qualitativa. 2ª ed. São Paulo: Ed. Pioneira, 2000.
possíveis – hipóteses – para o problema que procura analisar. Mas, somente vai afirmar a sua “verdade”, a sua tese , após ter feito uma coleta de dados, em que, através de um método passível de comprovação, analise diferentes respostas que podem vir ao encontro ou de encontro a sua formulação inicial.
Voltemos à lógica do projeto através de um exemplo, onde podemos formular a seguinte questão: É possível obter prisão domiciliar para réus condenados por tráfico de drogas? Sabemos que, de acordo com a legislação, este crime não permite benefícios. Porém, não existem petições nesta direção? Não sei, imagino que sim. Vou ter que coletar dados para saber se existem. Vamos ao fórum! Todavia, antes de ir ao fórum, é necessário saber do que estou falando. E neste sentido, não é possível fazer uma pesquisa somente sobre uma determinada prática. Como dissemos, também temos que ter teoria(s) que fundamente(m) o nosso campo de investigação.
procurando pelos argumentos utilizados pelos advogados nas petições de benefício.
Voltando a nossa proposta inicial de trazer algumas ferramentas para a elaboração do projeto de pesquisa, podemos estabelecer algumas questões fundamentais que vêm ao encontro da organização lógica do projeto que mostramos acima:
Estas questões resumem o esquema lógico do projeto, representado pelos itens introdução, objetivo e justificativa. A partir do exemplo que trouxemos acima, poderíamos esquematizar da seguinte maneira:
(^6) BOOTH, W. C.; COLOMB, G. G.; WILLIAMS, J. M.. Arte da pesquisa. São Paulo: Martins Fontes, 2000. p. 85 e passim.