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Descrev detalhadamenteas ontologias e os mapas conceituais
Tipologia: Resumos
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Patrícia Cunha França Mestranda em Ciências da Linguagem (Área de Especialização em Língua e Tecnologias de Informação) Universidade do Minho [email protected] Resumo O termo 'ontologia' é frequentemente usado no âmbito da Ciência da Computação para referir-se a uma "especificação [...] de uma conceptualização" (Gruber, 1993: 2). Mas será de conceitos que a ontologia trata? Smith, por exemplo, que tem vindo a desenvolver o seu trabalho sobre ontologias no âmbito da biomedicina argumenta que as ontologias, pelo menos as ontologias científicas de domínio específico e científico, não tratam de conceitos mas de universais (Smith, s.d. b.) Este artigo tem por objectivo analisar os termos usados por diferentes autores, que têm vindo a contribuir para o estudo das ontologias, de forma a encontrar um denominador comum.
Não obstante o termo 'ontologia' ter surgido no âmbito da Filosofia ele tem vindo a ganhar uma nova dimensão no seio da comunidade das Ciências da Computação e Informação pelo menos desde a década de 90 do século passado. As vantagens da criação, uso e aplicação de ontologias têm sido largamente defendidas e demonstradas dentro dessa comunidade (Abecker and van Elst, 2004; Mika et al., 2004), nomeadamente no que concerne à organização e partilha do conhecimento, pressupostos essenciais no que concerne a políticas de acesso livre. Actualmente o interesse pelas ontologias tem vindo a estender-se a outras áreas e domínios específicos: às Ciências Sociais (Lawson, 2004), às Ciências Naturais, especificamente à Biomedicina (Smith, 2008; Heuer and Hennig, 2008), à Bioética (Cohnitz and Smith, s.d.; Smith and Brogaard, 2003) e à informação geográfica (Smith and Mark, 2001), bem como às Ciências da Linguagem (Schalley and Zaefferer, 2008). As ontologias têm vindo a afirmar- se como instrumentos eficazes de disseminação de conhecimento, de partilha e de diálogo. Ora, este alargamento de interesse levou a que diferentes pessoas de diferentes áreas, que trouxeram consigo a terminologia específica das suas disciplinas, começassem a trabalhar em conjunto. Na construção de uma ontologia cooperam – ou idealmente deveriam cooperar – filósofos, linguistas, engenheiros informáticos e especialistas de um domínio específico (no caso específico das ontologias de domínio). Esta interdisciplinaridade, desejável e inevitável, trouxe consigo alguns desafios, nomeadamente a determinação de um consenso terminológico. Em nome de uma compreensão mútua por parte dos intervenientes no processo de construção de ontologias, é desejável que, se não for possível encontrar uma terminologia comum, pelo menos a terminologia usada pelas várias partes seja compreendida reciprocamente. Assim, questões como o que é exactamente uma ontologia, como se constrói e o que faz parte dela tornam-se questões cujas respostas exigem um acordo prévio. O maior problema das terminologias propostas não é, como creio, a sua incompatibilidade nem mesmo as questões em torno de posições epistemológicas opostas, mas a quantidade de termos usados indiscriminadamente sem uma definição clara e compreensível. Neste artigo proponho analisar algumas propostas terminológicas que têm vindo a contribuir para os estudos no âmbito da ontologia, nomeadamente no que ajudam a esclarecer o objecto específico que lhe dá corpo. Este artigo trata especialmente das denominadas ontologias genéricas^1 (de “ top-level ”) (Guarino, 1 As ontologias genéricas - “top-level ontologies” - são definidas por Guarino (1998) como as ontologias que “descrevem conceitos gerais como espaço, tempo, matéria, objecto, evento, acção, etc., independentes de um domínio ou problema particulares”. São usualmente referidas como exemplo deste tipo de ontologias a Wordnet (http://wordnet.princeton.edu) e a Cyc (http:// opencyc.org). As ontologias genéricas distinguem-se das ontologias de domínio, das ontologias de tarefa e das ontologias de aplicação (Guarino, 1998). This work is licensed under a Creative Commons Attribution 3.0 License Linguam´atica — ISSN: 1647– N´um. 1 - Maio 2009 - P´ag. 105–
1998), muito embora considere que a distinção entre os tipos de ontologias propostos por Guarino seja, em certa medida, irrelevante aqui. E isto é assim porque este artigo incide sobre a fase inicial do processo de construção de uma ontologia, fase esta que, à partida, fará parte de todas as ontologias. Como referem Degen e Herre (s.d.) “toda a ontologia de domínio específico terá de usar como base de trabalho alguma ontologia de nível superior que descreva as categorias da realidade mais gerais e independentes de domínio”. No ponto 2 serão analisadas algumas propostas de definição do termo 'ontologia' que partem de conceitos. Partirei da origem da noção de ontologia para a origem da palavra no seio da Filosofia para chegar à definição de Gruber, no seio da Ciência da Computação e à noção de Ontolinguística, no âmbito das Ciências da Linguagem. O ponto 3 trará para discussão algumas objecções à definição que liga ontologia a conceitos, explorando a relação entre ontologia e realidade e, por consequência, a relação entre termo, conceito e realidade. No ponto 4 será exposto e estudado o quadro conceptual de análise das várias propostas para a noção de ontologia proposto por Nickles et al. (2003). Partindo deste quadro as várias propostas de definição de ontologia serão comparadas tendo em conta a sua posição ali. O ponto 5 será deixado para as conclusões.
“ D. So you define dress by referring to what people think dresses are? A. Yes. […] What I try to define is the concept 'dress' that people have, not actual dresses ” Geeraerts, 2006: 425
É um lugar-comum começar um trabalho sobre ontologias com a definição que liga o termo à Filosofia. Uma ontologia é definida a partir do seu estatuto etimológico: do grego ó n , óntos - ‘ser’ - e logos - ‘palavra’, ‘discurso’, ‘razão’. Da última vez que procurei a palavra num comum dicionário de língua o único sentido existente era retirado do domínio da Filosofia: estudo do ser, do que existe. Não obstante o facto de parecer consensual reportar a origem do termo 'ontologia' a Aristóteles, foi com o cunho de Jacob Lorhard que a palavra ganhou existência em 1606 no seu livro Ogdoas Scholastica^2 , um volume composto por oito livros referentes a matérias como gramática latina e grega, lógica, retórica, astronomia, ética, física e metafísica (ou ontologia) (Øhrstrøm et al., 2007: 3). Lorhard define a sua ‘ontologia’ como the science of the intelligible as intelligible insofar as it is intelligible by man by means of the natural light of reason without any concept of matter Lorhard, J., 1606: Livro 8, p. 1^3 De sublinhar aqui que Lorhard define a ontologia como a ciência do que é inteligível pelo homem através da razão, sem influência da matéria. Esta definição vai contra a proposta de ontologia, ou filosofia primeira^4 , de Aristóteles, tal como é entendida nas suas duas obras mais relevantes sobre o tema: os escritos que mais tarde foram compilados sob o título Metafísica e as Categorias^5. A ênfase de Lorhard na razão em detrimento da matéria é determinante para a construção da mais recente noção de ontologia no âmbito da Ciência da Computação. Ela é também determinante para a noção de ontologia em alguns estudos recentes no âmbito da Linguística.
Segundo pretende Smith (Smith, s.d.a.: 22-23) o termo 'ontologia' é usado pela primeira vez dentro da comunidade da Ciência da Computação em 1967, num trabalho de S. H. 2 Uma tradução em inglês, feita por Sara L. Uckelman (Institute for Logic, Language, and Computation da Universiteit van Amsterdam), do capítulo 8 desta obra de Lorhard está disponível em http://www.illc.uva.nl/Publications/ResearchReports/X -2008-04.text.pdf [cons. 19-09-2008]. 3 Lorhard, J. (1606). Ogdoas scholastica. Sangalli, Livro 8, p. 1, apud Øhrstrøm et al. (2007: 4). 4 O conceito de filosofia primeira de Aristóteles pode ser considerado o embrião do conceito do que mais tarde, já no século XVII, como vimos, viria a chamar- se ontologia. 5 Aristóteles vê a matéria como algo enganoso, mutável, da qual nada se pode dizer com verdade e entende a forma como a essência dos seres. Não obstante, Aristóteles entende a forma como inseparável da matéria. Para Aristóteles, “a substância [entendida como a forma e a matéria] deverá ser qualquer coisa, «um sujeito real e determinado»” (Ricoeur, 1992: 904). 106– Linguam´atica Patr´ıcia Cunha Fran¸ca
Esta reformulação da definição do termo 'ontologia' trazida por Guarino é um pouco mais compreensível. É de extrema relevância, penso, a distinção que o autor introduz entre conceptualização e ontologia a partir da linguagem. Uma conceptualização é entendida como uma visão do mundo independentemente da linguagem usada para a representar, enquanto que uma ontologia é dependente de um vocabulário^10 (Guarino (1998). Isto significa que duas ontologias podem usar diferentes vocabulários e partilhar, ao mesmo tempo, a mesma conceptualização^11. Aqui está uma das questões deixadas de fora do quadro conceptual da noção de ontologia que será adiantado mais à frente no ponto 4^12. A questão que aqui se coloca é a de saber onde pertencem os termos que estarão dispostos numa ontologia: à conceptualização ou à ontologia? Nas palavras de Guarino, as categorias pertencem à conceptualização, que é, como diz, independente de uma linguagem. Então, sendo assim, não é necessário usar nenhum vocabulário específico para que essas categorias tenham existência? Estará Guarino a referir-se a conceitos quando fala de “categorias”? À partida, se Guarino considera que uma conceptualização é independente da linguagem, deveria pelo menos especificar a que é que ele se refere quando usa o termo 'categorias'. Como se fazem categorizações sem recorrer a termos, a uma linguagem? Porque a questão que Guarino desencadeia é a mesma que tem vindo a ser discutida por filósofos e linguistas há mais de dois milénios e prende-se com a questão do significado^13 e pelas disputas acerca dos elementos que fazem parte daquilo que ficou conhecido pelo triângulo de 10 Guarino usa os termos 'linguagem' e 'vocabulário' como sinónimos. 11 Guarino dá o exemplo do uso de palavras inglesas ou italianas. E aqui cremos que poderiam ser usadas outras formas de convenções que não a linguagem natural. 12 Não obstante, podemos afirmar que na própria definição de ontologia de Gruber que vimos acima, nomeadamente quando se fala de “especificação”, está já subjacente a ideia de um vocabulário ou linguagem. 13 Com questões muito pertinentes acerca de saber se a construção de uma conceptualização pode partir de categorias pré-linguísticas ou extra-linguísticas, seja qual for a linguagem a que nos estejamos a referir. Ou se existem categorias de referência que sejam independentes da língua. Ogden & Richards (1985, 11): (i) o símbolo, (ii) o pensamento ou a referência e (iii) o referente. Ilustração 1: Triângulo semiótico de Ogden & Richards (adaptado de Ogden & Richards (1985: 11)). Pertencerão estas categorias de Guarino à parte (ii) do triângulo de Ogden & Richards? Estas “categorias” a que Guarino se refere correspondem a conceitos, ou àquilo que Ogden & Richards denominam 'pensamento' ou referência? Qualquer que seja o lado do triângulo onde Guarino desejasse colocar as suas “categorias”, seria necessário uma consequente justificação. Não cremos que fosse necessário explorar as teorias semânticas acerca do significado, mas cremos que seria importante saber, para bem do entendimento mútuo, a que se refere Guarino quando usa o termo 'categorias'. Talvez estas questões percam importância no exacto acto de escrever/inserir os termos numa ontologia, mas ganham uma outra importância quando se tenta definir o termo. Questões como a que surgiram neste ponto têm vindo a ser trabalhadas numa área que tem contribuído com alguns estudos importantes para aqueles que se dedicam à pesquisa e elaboração de ontologias. Refiro-me à Ontolinguística e dela tratarei no ponto a seguir.
É precisamente sobre a noção de conceptualização, numa aceitação da definição de Gruber, que os trabalhos mais recentes no domínio da Ontolinguística^14 assentam. Em 14 Tanto quanto sei, o termo 'Ontolinguística' foi usado pela primeira vez como título de um livro editado por Schalley e Zaefferer datado de 2007. Neste livro foram reunidos vários estudos em torno da contribuição do Pensamento ou referência (ii) Símbolo (i) (iii) Referente 108– Linguam´atica Patr´ıcia Cunha Fran¸ca
termos sucintos, a Ontolinguística pode inserir-se no âmbito da Linguística Cognitiva e apresenta- se como uma área de estudo onde se procura encontrar uma ponte entre os mecanismos linguísticos que usamos no nosso dia-a-dia e o nosso conhecimento ontológico. Na verdade, Schalley e Zaefferer acreditam mesmo que o conhecimento linguístico é um tipo especial de conhecimento ontológico (2003:10). A Ontolinguística assenta no pressuposto que existem universais mentais^15 e que as opções que as línguas fornecem para expressar um conceito estão intimamente dependentes da posição que esse conceito ocupa dentro de um sistema conceptual, i.e., dependem do estatuto ontológico desse conceito, das relações que esse conceito estabelece com outros conceitos dentro de um mesmo sistema. Nas palavras de Schalley e Zaefferer a Ontolinguística entende a ontologia como “uma sistema de conceptualizações”, ou, para ser mais completo, “uma rede de conceptualizações interconectadas do fenómeno que constitui o mundo” (Schalley e Zaefferer (eds.), 2007: 3). Ora, esta definição, como referi acima, não está muito longe da definição de Gruber exposta no ponto anterior. Segundo Schalley e Zaefferer (2007: 8-10), o conhecimento ontológico pode ser caracterizado por conhecimento definicional ou analítico^16 , mas deve ser distinguido do conhecimento enciclopédico ou do conhecimento do mundo^17. conhecimento linguístico para o conhecimento ontológico. Não obstante, o termo 'ontolingua' tinha já sido usado por T. Gruber em 1992 (Gruber, 1992a:5). Ver também Gruber (1992b). 15 Estes universais mentais vêm sendo estudados por exemplo por Wierzbicka (1996; 1992), pela Linguística Cognitiva e pela Linguística Generativa, e são também um dos fundamentos da Ontolinguística – ou pelo menos de uma parte muito considerável de estudos neste domínio. É de notar, no entanto, algumas divergências no seio da Linguística Cognitiva, em relação a este assunto, nomeadamente no que concerne à metodologia. Uma interessante discussão, em forma de diálogo ficional, em torno dos métodos usados nos estudos na Semântica Cognitiva foi elaborada por Dirk Geeraerts (2006). 16 Ao referirem-se ao conhecimento definicional ou analítico Schalley e Zaefferer estão a referir-se ao significado intensional, e ligam-no, precisamente, a conceitos. Não é por acaso que, para estes autores, as relações ontológicas são relações interconceptuais. 17 A única diferença apontada na distinção entre conhecimento ontológico, ou analítico, e o conhecimento enciclopédico, ou conhecimento do mundo, é que o primeiro constitui conhecimento acerca As relações ontológicas são, para estes autores, relações interconceptuais.
Shalley e Zaefferer distinguem cinco relações taxonómicas e cinco relações meronímicas^18. As relações taxonómicas dividem-se em (i) subordinação conceptual, em que o conceito A é c-subordinado ao conceito B se e só se toda a instância de A for também uma instância de B (por exemplo, PÉ HUMANO é c-subordinado ao conceito PARTE DO CORPO HUMANO por que é inconcebível que uma instância do primeiro não seja uma instância do último); (ii) superordenação conceptual, em que se dá o inverso; (iii) equivalência conceptual, em que o conceito A é c-equivalente ao conceito B se e só se toda a instância de A for também uma instância de B e vice-versa (por exemplo, PÉ HUMANO é c-equivalente ao conceito PÉ HUMANO ESQUERDO OU DIREITO porque é inconcebível que uma entidade instancie apenas um destes dois conceitos; (iv) compatibilidade de como o mundo deverá ser, dada a forma como o conceptualizamos, enquanto que conhecimento enciclopédico diz respeito ao conhecimento do mundo como ele é (Schalley and Zaefferer, 2007: 8-9). Não obstante, é de notar que os autores defendem que as linhas que separam os diferentes tipos de conhecimento não são fáceis de traçar (Schalley and Zaefferer, 2007: 10). 18 Algumas das relações propostas pela ontolinguística são equivalentes a algumas das relações semânticas tradicionais, nomeadamente a relação de hierarquia, inclusão, equivalência e oposição (ver Campos e Xavier, 1991; ver também “Terminologia Linguística para o Ensino Básico e Secundário”. http://www.prof2000.pt/users/primavera/ ). A diferença fundamental entre as relações semânticas tradicionais e as propostas pela Ontolinguística é que na semântica tradicional a ênfase é posta nos itens lexicais – de um modo geral, nas palavras e nas relações que se estabelecem entre palavras e sentidos de palavras -, enquanto que na Ontolinguística lida-se com conceitos, muito embora a definição do termo 'conceito' não esteja definida de forma clara, pelo menos no livro a que faço referência aqui: Schalley and Zaefferer (ed.s), 2007. De notar ainda que na Ontolinguística há um aproveitamento do referente, numa aceitação do lado (iii) do triângulo semiótico de Ogden & Richards a que fiz referência acima, contrariamente ao que acontece na semântica tradicional. É a chamada semântica extensional (ou semântica referencial). Sobre a relação entre a linguística tradicional e a Linguística Cognitiva com o referente ver Teixeira (2001). Conceitos, classes e/ou universais: com o que ´e que se constr´oi uma ontologia? Linguam´atica – 109
porque, tomando o exemplo de Schalley e Zaefferer, Edward Teller perdeu o seu pé direito em 1928 quando estudava na Universidade de Munique. Não é que o conceito PÉ DIREITO deixe de estar m-i-subordinado ao conceito PERNA HUMANA ou CORPO HUMANO, no caso preciso do pé direito de Edward Teller (no caso específico desta instância). Segundo os autores, o seu pé direito continua a fazer parte da sua perna direita (concebida como uma entidade completa), apenas a sua perna direita deixou de ser completa. É por casos como este que os autores fazem questão de referir-se a entidades completas^23. Não obstante crer que a noção de completude não deixa de ser passível de crítica, mesmo com a salvaguarda da relativização, entendo que estas relações propostas pela Ontolinguística podem ser úteis para a construção de ontologias. Elas trazem novas formas de encarar as relações semânticas que, por exemplo, na Wordnet, se restringem a sinonímia, antonímia, hiponímia e meronímia^24 (Miller, 1995: 40).
“Ontologies do not represent concepts in people's heads. They represent types in reality” Smith, s.d. c. descritas. E é aqui que se torna extremamente importante a distinção entre relações taxonómicas e relações meronímicas em que as primeiras se ficam pelos conceitos e as segundas podem exigir as instâncias a que os conceitos se referem. 23 Esta noção de completude pode estar directamente relacionada com a noção de prototipicidade, postulado base da Semântica Cognitiva. A teoria dos protótipos baseia-se nas conclusões dos estudos sobre a categorização das cores levados a cabo pela psicóloga Eleanor Rosh e a sua equipa (Rosh, E, 1973. "Natural Categories", Cognitive Psychology , Vol.4, No.3, May 1973, p.328. apud Cuenca & Hilferty, 1999). O protótipo é definido como o elemento mais característico dentro de uma determinada categoria e a partir do qual todos os outros elementos se definiam. O “protótipo-objecto” foi, entretanto, substituído pelo “protótipo-entidade cognitiva”, e passa a ser entendido como uma imagem mental, uma abstracção. 24 No que concerne à categoria dos nomes, ou, na terminologia de Goddard (2007: 145), ao léxico nominal.
Até agora as propostas de definição de ontologia parecem unânimes em relacioná-la com conceptualização. Uma ontologia é definida em relação directa com o termo conceptualização, partindo do pressuposto que é de conceitos que uma ontologia trata. De ressalvar apenas a distinção que Guarino faz de ontologia, tornando-a dependente de uma linguagem e distinguindo-a de uma conceptualização. Ainda que com esta diferença, o autor não fornece uma definição adequada sobre o que entende exactamente por 'categorias' dentro de uma conceptualização. Mas, não obstante este aparente consenso, há uma voz dissonante que insiste em desmistificar drasticamente a noção de que uma ontologia lida com conceitos. Essa voz é representada por Barry Smith. Para Barry Smith o termo 'conceptualização' deve ser rejeitado na definição de ontologias (Smith et al., 2006). Smith distingue dois tipos de ontologias – uma ontologia (simples) e uma ontologia de base realista - para nenhuma delas usa o termo 'conceito'. A principal diferença entre as duas ontologias é que a primeira trata de universais^25 , classes definíveis^26 e das relações entre eles, enquanto que a segunda trata exclusivamente de universais, universais estes que são definidos a partir dos termos gerais de uma teoria científica aceite. Neste último caso, trata-se de uma ontologia científica, e Smith entende que ela deve ter a mesma importância que um texto científico ou qualquer outro produto decorrente da investigação científica^27. 25 Smith define universais, ou tipos, como algo que é partilhado por todos os particulares que são as suas instâncias. Um particular é aquilo que tem existência num dado momento e num dado lugar (Smith, s.d. b)). 26 A única diferença que Smith dá para distinguir classes e universais é que as classes referem-se a a conjunto arbitrário de instâncias, enquanto que para os universais não existe essa arbitrariedade. Uma classe é uma colecção de particulares determinada por um termo geral. Podemos pôr todas as instâncias de um universal numa classe (ou set ) e chamaremos a isso a extensão desse universal, mas podemos também constituir uma classe de uma forma mais arbitrária. Todos os universais têm extensões, mas nem todas as classes são extensões de universais (Smith, s.d. b.) 27 Smith define uma ontologia como “um artefacto representacional cujas unidades representativas Conceitos, classes e/ou universais: com o que ´e que se constr´oi uma ontologia? Linguam´atica – 111
Smith argumenta que o termo 'conceito' tem sido usado de forma aleatória e confusa. Aqui terei de concordar com Smith e afirmar que, se analisarmos com atenção as propostas onde se defende que uma ontologia lida com conceitos, como aquelas que vimos atrás, teremos de concordar que nenhuma delas define o termo 'conceito'. De resto, já John Lyons (1980: 84-87), na sua obra Semântica , ao tentar esclarecer o triângulo de Ogden & Richards, que ficou exposto no ponto anterior, reuniu um conjunto de interpretações possíveis para os três elementos (algumas tomadas de outros autores) e que resumi aqui no seguinte quadro: (i) símbolo (ii) pensamento/ referência (iii) referente signo conceito significatum signo intensão extensão palavra / lexema conceito coisa signo significatum denotatum signo pensamento objecto Ilustração 2: Algumas interpretações para o triângulo semiótico de Ogden e Richards dadas por John Lyons (1980: 84-87). Também Lyons afirmava que 'conceito' é “um termo com uma longa história; e quem quer que defina o significado de uma palavra como o conceito correlacionado com essa palavra, deve aos leitores uma explicação subsequente” (Lyons, 1980: 98)^28. Barry Smith teria certamente muitas coisas a dizer acerca das propostas da Ontolinguística, muito especificamente no que concerne às relações meronímicas (porque relativamente às relações taxonómicas, tal como são entendidas ( nodes ) – que podem ser elaborados a partir de uma linguagem natural ou formalizada – pretendem representar:
E que estaria representado pelo esquema seguinte: Ilustração 4: Exemplo de uma relação taxonímica de tipo aristotélica. Este tipo de definições permitem construir uma ontologia com base numa hierarquia, em que cada termo tem apenas uma herança única ou, em outros termos, deve ter apenas um pai. Uma taxonomia, portanto, com relações taxonómicas. Esta relação hierárquica baseia-se numa relação que é conhecida como “ is_a ”. Na verdade, a relação “ is_a ” bem como “ part_of ” são as relações mais básicas nas propostas das ontologias computacionais. Smith admite ainda outras relações, umas que diferem completamente das relações propostas pela Ontolinguística outras que se assemelham. As semelhanças entre as duas propostas é que aquilo que na Ontolinguística se designa por relações taxonómicas, em Smith apresenta-se como relações entre universais. Mas, ao contrário do que seria de esperar, também Smith admite relações entre universais e instâncias e entre as próprias instâncias. E como foi mencionado no ponto 3, as relações ao nível das instâncias têm a variante tempo em consideração. Isto é assim porque as instâncias, como sabemos, existem num determinado tempo e espaço. Não são universais. Mas antes de perceber o tipo de relações que Smith propõe é importante definir aquelas que são as três dicotomias básicas da sua proposta. E estas dicotomias baseiam-se nos pares seguintes:
114– Linguam´atica Patr´ıcia Cunha Fran¸ca
E a principal diferença entre eles está contida no seu próprio nome. Enquanto que os continuants independentes existem por si mesmos, os continuants dependentes necessitam dos continuants independentes para existir. Por exemplo, peso, uma doença, altura, cor, são continuants dependentes, porque necessitam dos seus portadores para existirem. Ao passo que organismos, células, cadeiras são continuants independentes. Como exemplifica Smith, não há corrida sem um corredor e não há doença sem um organismo. Corrida e doença são entidades dependentes, corredor e organismo são entidades independentes (Smith, s.d. b.). De referir ainda que os continuants podem ser materiais (uma célula) ou imateriais (uma cavidade). Se quisermos pôr num esquema as duas dicotomias de que estive a falar, teríamos algo como o seguinte: ser humano doença, aumento temperatura da temperatura Instâncias (com existência no espaço e no tempo) Ilustração 5: Esquema das duas das dicotomias básicas em Smith (adaptado de Smith, s.d.b.) Depois de esclarecidas as três dicotomias básicas, é possível agora expor as relações. Como dissemos acima, Smith entende que é possível estabelecer relações entre universais (com relações como is_a e part_of ,...), entre universais e instâncias (a perna de Edward Teller substances and accidents can be found in the second chapter of the Categories : qualities and quantities are in a substance, while substances are not in a substance (Jansen, 2008: 181). Há que precisar no entanto, como refere Jansen, que este 'estar em' não significa, por exemplo o coração estar no corpo. Um continuant dependente não existe sem o seu portador; se o seu portador deixa de existir, a entidade dependente deixa também de existir. instance of universal perna) e entre instâncias (por exemplo, a perna de Teller part_of Teller). Devo referir que Schwartz e Smith defendem que uma ontologia científica deve construir-se apenas com universais, no entanto, referem, é necessário definir à partida as relações ao nível das instâncias, na medida em que são essas relações que fornecem as relações para o nível dos universais (Schwartz e Smith, 2008: 221). Assim, Schwartz e Smith distinguem seis relações primitivas ao nível das instâncias, a saber: c instance_of C at t - a primitive relation between a continuant- instance and a universal which it instantiates at a given point in time […]. p instance_of P - a primitive relation between a process-instance and a universal which it instantiates independently of time. […]. c part_of c 1 at t - a primitive part-whole relation between two continuant instances and a time at which the one is part of the other. p part_of p - a primitive part-whole relation which, independently of time, obtains between two process-instances (one is a processual part, or segment, of the other). c located_in r at t - a primitive relation between a continuant instance, a 3-dimensional spatial region which this instance occupies, and a time at which this instance occupies this region. p has_participant c at t - a primitive relation between a process, a continuant, and a time at which this instance occupies this region. p has_agent c at t - a primitive relation between a process, a continuant and a point in time (Schwartz e Smith, 2008: 227-228). De notar ainda que Schwartz e Smith defendem que estas relações devem ser neutras em relação a todos os domínios das ciências. Isto significa que elas devem poder ser aplicadas em todos os domínios. E apesar de todas estas relações primitivas se obterem entre instâncias, elas devem poder ser usadas para definir as relações ao mais alto nível dos universais.
Não obstante a convicta afirmação de Smith que nega o termo 'conceito', é o próprio Smith (juntamente com outros autores) que, num artigo acerca das relações nas ontologias biomédicas, faz uma equiparação entre termos, com vista o esclarecimento: the term 'class' here is used to refer to what, in the knowledge-representation literature, is Continuant Ocorrente Continuant independent Continuant dependente Conceitos, classes e/ou universais: com o que ´e que se constr´oi uma ontologia? Linguam´atica – 115
O segundo eixo, denominado eixo da objectividade, é constituído pelo par SUBJECTIVIDADE vs OBJECTIVIDADE, onde se dá conta das noções de ontologia que, ou assentam no pensamento e na razão ou, pelo contrário, na realidade externa. Tomando como base de análise esta dimensão, colocaríamos, por exemplo, a definição de ontologia de Barry Smith ( vd. nota 27) no lado extremo da objectividade e no lado oposto poderíamos inserir, por exemplo, a definição de Lorhard dada acima ( vd. ponto 2.1). Qualquer outra definição de ontologia teria de ser inserida no nosso eixo tendo em conta estas duas definições já inseridas. Eixo da Generalidade Geral Eixo da Objectividade Subjectivo Top-level ontologies (Guarino) Ontologia de J. Lorhard Objectivo Ontologia de B. Smith D omain ontologies (Guarino) Específico Ilustração 6: Eixos da generalidade e objectividade (imagem adaptada de Nickles et al.,2007: 26).
Uma terceira dimensão tem a ver com diferentes níveis de distinção da ontologia dentro de um campo disciplinar. Nesta dimensão há uma separação clara entre níveis, e não uma gradação como acontece nos dois níveis anteriores, embora possa haver uma sobreposição dos três níveis, como veremos mais adiante. Esta separação é perfeitamente compreensível se entendermos o critério que lhe subjaz: a ele preside a distinção entre 1) o nível do objecto ( object-level ), 2) o nível da teoria que dá conta desse objecto - o meta-nível ( meta-level ) e 3) o nível que poderíamos traduzir por nível trans- meta ( trans-meta-level ). É precisamente esta distinção que pode agora esclarecer o que existe de errado, à partida, e segundo esta proposta, na definição de conceptualização de Gruber. É que Gruber punha num mesmo nível os objectos e os conceitos que dão conta desses objectos, ou seja os níveis 1 e 2^38. Para melhor percebermos os três níveis desta terceira dimensão, Nickles et al. dão como exemplo o termo ‘sintaxe’, que pode ser utilizado para referenciar os três níveis propostos: Syntax as a mass noun means a field, a certain branch of linguistics; its different outcomes – like say Haider’s syntax of German (Haider 1993) – are coded by the corresponding count noun. In fact, in linguistics there is a third use of the term syntax (and a second use of the count noun), one that relates to the subject matter of the second and first use, i.e., that subsystem of a language that constrains the building of phrases from word forms. So there is an object-level use of this term (syntax as language subsystem), a meta- level use (syntax as theoretic account of this subsystem) and in a sense a trans- meta-level use (syntax as subfield or branch of linguistics). Nickles et al., 2007: 25 Como podemos ver, o termo ‘sintaxe’ pode ser usado nos três níveis propostos: ao nível do objecto (entendido como o subsistema da língua), a um meta-nível (as várias teorias sobre sintaxe) e a um trans-meta-nível (o ramo da linguística que se ocupa das regras pelas quais se combinam elementos de uma frase). A questão que os autores colocam é a de saber se também o termo ‘ontologia’ garante esta polissemia assim especificada, i.e., se é possível garantir esta distinção de três níveis para o termo. Segundo os autores, há duas respostas possíveis. A primeira resposta é que há, efectivamente, estes três níveis para o termo ‘ontologia’. E se aceitarmos uma resposta afirmativa, teremos de colocar no primeiro nível o ser, ou, mais especificamente, o que existe (a realidade), e as suas categorias; num segundo nível, as diferentes teorias que dão conta do primeiro nível e, para o terceiro nível, o espaço de discussão das 38 Esta indiferenciação, como veremos mais adiante, não é assim tão errada quanto Guarino ou Nickles et al. parecem crer. Conceitos, classes e/ou universais: com o que ´e que se constr´oi uma ontologia? Linguam´atica – 117
diferentes teorias dentro de um mesmo campo ou disciplina. A segunda resposta é negativa na medida em que, como referem Nickles et al., Only the last two levels are properly called ontology, the second one by transparent metonymic extension (and count noun formation) from the name for the third one, whereas the first one requires different means of expression such as the real world (as opposed to possible counterparts) or simply reality or rather its (ultimate or basic) furniture. Nikcles et al., 2007: 25 Como vemos aqui, segundo Nickles et al ., também é possível distinguir na ontologia os três níveis encontrados para 'sintaxe', apenas teremos que advertir que o nível objecto não tem o mesmo nome dos outros dois níveis. Ora é também nesta terceira dimensão que Barry Smith se apoia para construir uma terminologia capaz de ser usada para a pesquisa em ontologias (no seu caso particular, Smith reporta-se a ontologias no domínio específico da biomedicina). Também Smith propõe três níveis que devem ser considerados aquando da elaboração ou estudo de uma ontologia no domínio da biomedicina, a saber,
Campos, Mª. Henriqueta e Mª. Francisca Xavier.
Shapes the Linguistic Coding of Concepts. Berlin/ New York: Mouton de Gruyter. ISBN: 978-3-11- 018997-1. Schwartz , Ulf e Barry Smith. 2008. “Chapter 10: Ontological Relations” in Smith and Munn, 2008, pp. 219-234. Smith, Barry. s. d. a.^ “Ontology and Information Systems”. http://ontology.buffalo.edu/ontology_long.pdf. Smith, Barry. s. d. b.^ “Video: How to Build an Ontology”. http://ontology.buffalo.edu/smith/articles/ontologie s.htm. Smith, Barry. s. d. c.^ “Towards a Reference Terminology for Talking about Ontologies and Related Artifacts”. ontology.buffalo.edu/07/os3/Smith_3_Terminolog y.ppt. Smith, Barry. 2006. “Towards a Reference Terminology for Ontology Research and Development in the Biomedical Domain”. http://ontology.buffalo.edu/bfo/Terminology_for_ Ontologies.pdf. Smith, Barry. 2008. “Chapter 4: New Desiderata for Biomedical Terminologies” in Smith and Munn,