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Maquiavel: a nova “moral” do poder, Manuais, Projetos, Pesquisas de Filosofia

Maquiavel – política – ética – moral

Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas

Antes de 2010

Compartilhado em 14/03/2010

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ivan-balducci-7 🇧🇷

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Maquiavel: a nova “moral” do poder
Por Peter Kreeft
Diplomata de origem humilde, Maquiavel viveu em Florença, numa época de insegurança
social e violentas lutas políticas. Suas receitas para conservar o poder e a ordem incluíam
o sacrifício, por “razões de Estado”, dos pontos mais fundamentais da Ética e da Moral.
Infelizmente, essas receitas têm sido seguidas à risca até hoje por uma multidão de
políticos e empresários.
Niccolò Machiavelli (1496-1527) foi o fundador da moderna filosofia política e social;
raramente houve na História das idéias uma revolução tão completa como a promovida por
ele. E o pensador não ignorava quão radical era: comparou o seu trabalho ao de Colombo,
pois também teria descoberto um novo mundo, e ao de Moisés, pois também lideraria um
“novo povo escolhido”, ansioso por libertar-se da escravidão às idéias morais, rumo à
“terra prometida” do poder e do êxito prático.
Para todos os pensadores sociais anteriores, a meta da vida política era a virtude: uma
sociedade boa era aquela em que as pessoas fossem boas. Não havia “dois pesos e duas
medidas” para a bondade, um no âmbito da vida individual, outro no da vida social. Isso,
até Maquiavel: a partir dele, a Política deixou de ser a arte do bem viver em sociedade para
tornar-se “a arte do possível”. E, neste ponto, a sua influência foi enorme: todos os
principais filósofos políticos e sociais que vieram depois (Hobbes, Locke, Rousseau,
Stuart Mill, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Dewey) começaram por saudar a nova bandeira
hasteada pelo florentino, passando a rejeitar o ideal da virtude e a rebaixar o padrão da
moralidade.
Maquiavel argumentava que as morais tradicionais seriam como as estrelas: belas, mas
distantes demais para poderem iluminar o nosso caminho sobre a terra. Precisaríamos de
lanternas feitas pelo homem, ou seja, de metas que estivessem ao nosso alcance.
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Maquiavel: a nova “moral” do poder

Por Peter Kreeft

Diplomata de origem humilde, Maquiavel viveu em Florença, numa época de insegurança social e violentas lutas políticas. Suas receitas para conservar o poder e a ordem incluíam o sacrifício, por “razões de Estado”, dos pontos mais fundamentais da Ética e da Moral. Infelizmente, essas receitas têm sido seguidas à risca até hoje por uma multidão de políticos e empresários.

Niccolò Machiavelli (1496-1527) foi o fundador da moderna filosofia política e social; raramente houve na História das idéias uma revolução tão completa como a promovida por ele. E o pensador não ignorava quão radical era: comparou o seu trabalho ao de Colombo, pois também teria descoberto um novo mundo, e ao de Moisés, pois também lideraria um “novo povo escolhido”, ansioso por libertar-se da escravidão às idéias morais, rumo à “terra prometida” do poder e do êxito prático.

Para todos os pensadores sociais anteriores, a meta da vida política era a virtude: uma sociedade boa era aquela em que as pessoas fossem boas. Não havia “dois pesos e duas medidas” para a bondade, um no âmbito da vida individual, outro no da vida social. Isso, até Maquiavel: a partir dele, a Política deixou de ser a arte do bem viver em sociedade para tornar-se “a arte do possível”. E, neste ponto, a sua influência foi enorme: todos os principais filósofos políticos e sociais que vieram depois (Hobbes, Locke, Rousseau, Stuart Mill, Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, Dewey) começaram por saudar a nova bandeira hasteada pelo florentino, passando a rejeitar o ideal da virtude e a rebaixar o padrão da moralidade.

Maquiavel argumentava que as morais tradicionais seriam como as estrelas: belas, mas distantes demais para poderem iluminar o nosso caminho sobre a terra. Precisaríamos de lanternas feitas pelo homem, ou seja, de metas que estivessem ao nosso alcance.

Deveríamos guiar-nos pelas coisas da terra, não pelas do céu; por aquilo que os homens efetivamente fazem, não pelo que deveriam fazer.

A essência da sua revolução foi julgar os ideais de acordo com a prática, ao invés de julgar a prática de acordo com os ideais. Um ideal somente seria bom se for prático para mim. Por isso, Maquiavel merece ser considerado o pai do pragmatismo. Segundo o seu modo de pensar, não somente “os fins justificam os meios” (quaisquer meios que funcionem), mas “os meios justificam os fins”, no sentido de que só valeria a pena buscar um fim se dispuséssemos dos meios práticos para atingi-lo. Em outras palavras, o novo summum bonum, o novo bem supremo, seria o sucesso. (Às vezes, o pensador italiano parece falar não apenas como o pai do pragmatismo, mas como o primeiro pragmatista americano...).

Com essas afirmações, Maquiavel na verdade não rebaixou o nível dos padrões morais; simplesmente suprimiu-os. Mais ainda do que um pragmatista, pode-se dizer que era um antimoralista. Segundo ele, a moral só teria a ver com o sucesso por dificultá-lo. Em conseqüência, dizia que um príncipe tinha de “aprender a não ser bom” (O Príncipe, cap. 15), a quebrar as promessas feitas, a mentir, a trapacear e a roubar (cfr. cap. 18) para ser bem-sucedido.

Por causa dessas opiniões, aliás expressas sem subterfúgios, alguns dos contemporâneos consideraram O Príncipe um livro literalmente inspirado pelo demônio (1). Muitos professores modernos, porém, vêem-no como obra científica. Defendem o seu autor afirmando que não queria abolir a moralidade, mas simplesmente escrever um livro sobre outro assunto: sobre como as coisas são, não sobre como deveriam ser. Costumam até elogiá-lo pela sua falta de hipocrisia, o que implicitamente equivale a dizer que moral é hipocrisia.


(1) Costuma-se dizer que o apelido que o demônio recebe na Inglaterra, Old Nick, derivaria do primeiro nome de Maquiavel, Nicolau (N. do T.).


(os turcos e a atual Rússia), ou pela fraqueza e apatia no próprio seio do Ocidente cristão, ou por ambas as coisas.

Maquiavel tinha – e tem – como aliados todos os cristãos indiferentes que prezavam mais a pátria terrena do que a celestial, que preferiam César a Cristo e o sucesso social à virtude. Era a eles que dirigia a sua mensagem, a sua propaganda. O pensador não podia expor ingenuamente os seus verdadeiros objetivos, porque seriam desprezados, e confessar o seu ateísmo lhe seria fatal; por isso, foi muito cuidadoso em evitar toda a heresia explícita. Mas a sua “heresia prática” (2) consistia na destruição da “fraude católica” mediante uma agressiva propaganda secularista. (Alguma pessoa mais exaltada talvez chegasse mesmo a afirmar que nele está fundado todo o atual poderio da mídia...).


(2) Em sentido estrito, não há heresias práticas, mas pecados. Há heresia, porém, no pressuposto tácito de Maquiavel que é impossível viver a santidade recomendada por Deus – porque a graça eleva a natureza humana –, ou no de que Deus não intervém no mundo por Ele criado (N. do T.).


O florentino percebeu que são dois os instrumentos necessários para controlar a conduta dos homens e os rumos da História: a pena e a espada, a propaganda e as armas. Assim tanto os corpos como as mentes podem ser dominados, e dominar era o que ele queria. Considerava que toda a vida humana e toda a História eram determinadas por dois componentes: a virtú (a força) e a fortuna (a sorte). A fórmula do sucesso seria simplesmente maximizar a virtú e minimizar os efeitos da má fortuna. Maquiavel conclui o seu O Príncipe com essa chocante imagem: “A Fortuna é uma mulher e, se a quisermos submissa, será preciso bater nela e sujeitá-la à força” (cap. 25). Em outras palavras, o segredo do sucesso seria uma espécie de estupro (3).


(3) Quem busca o sucesso ao invés da perfeição, isto é, da plena realização da natureza humana por meio do conhecimento da verdade e do amor a Deus e aos outros (o que é o mesmo que dizer

da bondade moral), efetivamente comete violência contra a sua natureza e os seus anseios mais profundos (N. do T.).


Para conseguir o controle, as armas são tão necessárias quanto a propaganda: Maquiavel é uma águia no campo da “sabedoria” prática, e tem consciência disso. Dizia: “Não poderás ter boas leis sem boas armas, e onde houver boas armas, as boas leis seguir-se-ão necessariamente” (cap. 12). Em outras palavras, e parafraseando Mao Tsé-Tung: a justiça “surge do cano de uma arma”. O nosso pensador afirmava que “todos os profetas armados venceram, e todos os profetas desarmados fracassaram” (cap. 6). Moisés portanto, deve ter usado armas, mas a Bíblia teria omitido os relatos sobre isso. Jesus, o supremo Profeta desarmado, deve ter falhado: afinal, foi crucificado e, segundo alguns, não ressuscitou. Mas a sua mensagem conquistou o mundo por meio da propaganda, por meio das armas intelectuais. Foi exatamente esse tipo de guerra que o florentino decidiu empreender.

Também é fruto dessa filosofia o relativismo social, pois o renascentista não reconhecia nenhuma lei acima das promulgadas pelas diversas sociedades; e como tais leis têm a sua origem na força e não na moralidade, a conseqüência é que a moralidade baseia-se... na imoralidade. O argumento, hoje em dia, expõe-se mais ou menos assim: a moralidade só pode vir da sociedade, uma vez que Deus não existe e, em conseqüência, também não pode haver uma moral natural universal por Ele outorgada. Mas toda a sociedade origina- se de alguma revolução ou violência: a sociedade romana, origem da Lei Romana, originou-se com o assassinato de Remo pelo seu irmão Rômulo. A História humana inteira começa com o assassinato de Abel por Caim. Portanto, o fundamento da lei é a ilegalidade, e o fundamento da moralidade é a imoralidade.

A força do argumento reside na sua primeira premissa, que no caso do pensador florentino equivale a um autêntico ateísmo implícito (igual, aliás, ao de todos os relativismos sociológicos, incluído aquele que hoje domina as mentes dos leitores e dos escritores de quase todos os livros-texto de Sociologia).

que se faça temer, uma vez que a amizade representa uma obrigação, um vínculo que, por serem os homens maus, é quebrado sempre que lhes convém; já o temor é alimentado pelo receio do castigo, que nunca é esquecido” (cap. 17).

O mais estranho dessa filosofia tão brutal é o fato de ela ter se apoderado das mentes modernas, de uma forma diluída ou, pelo menos, encoberta nos seus aspectos mais sombrios. Os sucessores de Maquiavel que citamos acima suavizaram os seus ataques à moralidade e à religião, mas não retornaram à idéia de um Deus pessoal ou de uma moral objetiva e absoluta como fundamento da sociedade.

O reducionismo de Maquiavel tem sido considerado por muitos como uma libertação. Mas o que ele fez foi simplesmente implodir todo o edifício da vida humana: nada de Deus, mas somente o homem; nada de alma, somente o corpo; nada de espírito, somente a matéria; nada de dever, mas apenas o ser. Mesmo assim (e graças à propaganda), esse edifício em ruínas é mostrado como se fosse uma nova Torre de Babel. É um cárcere mostrado como se fosse a libertação da “opressora” moralidade tradicional: algo como uma permissão para afrouxar o cinto.

Satanás não é um conto de fadas: é um brilhante estrategista, e perfeitamente real. A linha de argumentação de Maquiavel é uma das mais bem-sucedidas mentiras do diabo até os dias de hoje. Sempre que nos tenta, usa essa mentira para fazer com que o mal pareça um bem desejável, que a sua escravidão pareça liberdade, e que a “gloriosa liberdade dos filhos de Deus” pareça uma escravidão. Aquele que é “o pai da mentira” adora contar-nos, mais do que pequenas mentiras, a Grande Mentira que vira a verdade ao avesso. E continuará a fazer isso impunemente enquanto não desmascararmos os seus ajudantes.

Peter Kreeft Professor de Filosofia no Boston College

Fonte: Site do autor Link: http://www.peterkreeft.com Tradução: Quadrante