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Avaliação na Atenção Básica de Saúde no Brasil: Desafios e Estratégias, Notas de estudo de Políticas Públicas

Este documento discute a importância da institucionalização da avaliação na atenção básica de saúde no brasil, enfatizando a necessidade de fortalecer capacidades técnicas e estruturar processos sistemáticos para monitorar e avaliar a atenção básica. O texto aborda a criação de espaços para discussão e a implementação de mecanismos e instâncias de avaliação, além de estratégias para superar desafios operacionais e funcionais. O documento também discute a reformulação do sistema de informação da atenção básica (siab) e a necessidade de estudos avaliativos.

Tipologia: Notas de estudo

Antes de 2010

Compartilhado em 15/12/2010

Egberto_Ludghério
Egberto_Ludghério 🇧🇷

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Rev. Bras. Saúde Matern. Infant., Recife, 4 (3): 317-321, jul. / set., 2004 317
INFORMES TÉCNICO-INSTITUCIONAIS / TECNICAL INSITUCIONAL REPORTS
Monitoramento e avaliação na atenção
básica: novos horizontes
Monitoring and evaluation in primary
health care: new perspectives
Eronildo Felisberto 1
1
Coordenação de Acompanhamento e Avaliação.
Departamento de Atenção Básica. Secretaria de Atenção à Saúde.
Ministério da Saúde. Esplanada dos Ministérios, Bloco G, 6.andar,
sala 635. Brasília, DF, Brasil. CEP: 70.058-900
Estão claras e não são de hoje as proposições e
posições assumidas por gestores e pesquisadores que
têm refletido sobre a necessidade de se investir na
institucionalização da avaliação.1-11 Entendendo
Institucionalização enquanto incorporação da avali-
ação à rotina dos serviços, estamos assumindo a
necessidade do fortalecimento e/ou desenvolvimento
de capacidade técnica, nos diversos níveis do sis-
tema de saúde, para adotar as ações de monitoramen-
to e avaliação como subsidiárias ou intrínsecas ao
planejamento e à gestão, como instrumento de su-
porte à formulação de políticas, ao processo de-
cisório e de formação dos sujeitos envolvidos
(gestores, usuários do sistema de saúde e profissionais
dos serviços e das instituições de ensino e pesquisa).
Investir na institucionalização da avaliação deve
ser entendido aqui como contribuição decisiva com
o objetivo de qualificar a atenção básica, promoven-
do-se a construção de processos estruturados e sis-
temáticos, coerentes com os princípios do Sistema
Único de Saúde (universalidade, equidade, integrali-
dade, participação social, resolutividade, acessibili-
dade) e, abrangentes em suas várias dimensões - da
gestão, do cuidado e do impacto sobre o perfil epi-
demiológico.
A avaliação da situação de saúde da população,
do trabalho em saúde e dos resultados das ações,
decorre em grande parte das atividades de monitora-
mento realizadas a partir das informações produzi-
das no cotidiano da atenção. Essas, embora sejam
insuficientes para apreender todas as mudanças
desejáveis, são essenciais para orientação dos
processos de implantação, consolidação e reformu-
lação das práticas de saúde.
Por outro lado, a avaliação de políticas e progra-
mas de saúde deve contemplar ampla participação e o
uso de múltiplos focos e métodos, permitindo que a
visão de diferentes grupos seja considerada no objeto
de estudo. Daí a necessidade de estudos e pesquisas
que dêem conta das dimensões não apreendidas pelos
diversos sistemas de monitoramento.
O desafio à consolidação do SUS estabelecido
pela Norma Operacional da Assistência à Saúde
(NOAS/2001)12 com vistas à construção de redes
assistenciais em atenção básica eficazes e resolutivas,
integralmente coesas com os níveis de atenção mais
complexos, prevê o desenvolvimento de mecanismos
que visem a garantia de qualidade. Isso posto, consti-
tui-se de fundamental importância priorizar a qualifi-
cação das equipes técnicas para a apreensão de práti-
cas e capacidades específicas mas, também, para a
aquisição de competências avaliativas.
Para Hartz: (2002: 419).9
" ... Institucionalizar a avaliação tem o senti-
do de integrá-la em um sistema organiza-
cional no qual esta seja capaz de influenciar
o seu comportamento, ou seja, um modelo ori-
entado para a ação ligando necessariamente
as atividades analíticas às de gestão ..."
Este Informe foi publicado anteriormente na Revista Brasileira de Saúde da Família 2003; 5 (7): 24-29.
[edição especial]. (ISSN 1518-2355).
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INFORMES TÉCNICO-INSTITUCIONAIS / TECNICAL INSITUCIONAL REPORTS

Monitoramento e avaliação na atenção

básica: novos horizontes

Monitoring and evaluation in primary

health care: new perspectives

Eronildo Felisberto 1

(^1) Coordenação de Acompanhamento e Avaliação. Departamento de Atenção Básica. Secretaria de Atenção à Saúde. Ministério da Saúde. Esplanada dos Ministérios, Bloco G, 6.andar, sala 635. Brasília, DF, Brasil. CEP: 70.058-

Estão claras e não são de hoje as proposições e posições assumidas por gestores e pesquisadores que têm refletido sobre a necessidade de se investir na institucionalização da avaliação. 1-11^ Entendendo Institucionalização enquanto incorporação da avali- ação à rotina dos serviços, estamos assumindo a necessidade do fortalecimento e/ou desenvolvimento de capacidade técnica, nos diversos níveis do sis- tema de saúde, para adotar as ações de monitoramen- to e avaliação como subsidiárias ou intrínsecas ao planejamento e à gestão, como instrumento de su- porte à formulação de políticas, ao processo de- cisório e de formação dos sujeitos envolvidos (gestores, usuários do sistema de saúde e profissionais dos serviços e das instituições de ensino e pesquisa). Investir na institucionalização da avaliação deve ser entendido aqui como contribuição decisiva com o objetivo de qualificar a atenção básica, promoven- do-se a construção de processos estruturados e sis- temáticos, coerentes com os princípios do Sistema Único de Saúde (universalidade, equidade, integrali- dade, participação social, resolutividade, acessibili- dade) e, abrangentes em suas várias dimensões - da gestão, do cuidado e do impacto sobre o perfil epi- demiológico. A avaliação da situação de saúde da população, do trabalho em saúde e dos resultados das ações, decorre em grande parte das atividades de monitora- mento realizadas a partir das informações produzi- das no cotidiano da atenção. Essas, embora sejam

insuficientes para apreender todas as mudanças desejáveis, são essenciais para orientação dos processos de implantação, consolidação e reformu- lação das práticas de saúde. Por outro lado, a avaliação de políticas e progra- mas de saúde deve contemplar ampla participação e o uso de múltiplos focos e métodos, permitindo que a visão de diferentes grupos seja considerada no objeto de estudo. Daí a necessidade de estudos e pesquisas que dêem conta das dimensões não apreendidas pelos diversos sistemas de monitoramento. O desafio à consolidação do SUS estabelecido pela Norma Operacional da Assistência à Saúde (NOAS/2001) 12 com vistas à construção de redes assistenciais em atenção básica eficazes e resolutivas, integralmente coesas com os níveis de atenção mais complexos, prevê o desenvolvimento de mecanismos que visem a garantia de qualidade. Isso posto, consti- tui-se de fundamental importância priorizar a qualifi- cação das equipes técnicas para a apreensão de práti- cas e capacidades específicas mas, também, para a aquisição de competências avaliativas. Para Hartz: (2002: 419). 9 " ... Institucionalizar a avaliação tem o senti- do de integrá-la em um sistema organiza- cional no qual esta seja capaz de influenciar o seu comportamento, ou seja, um modelo ori- entado para a ação ligando necessariamente as atividades analíticas às de gestão ..."

Este Informe foi publicado anteriormente na Revista Brasileira de Saúde da Família 2003; 5 (7): 24-29. [edição especial]. (ISSN 1518-2355).

O Programa Saúde da Família (PSF) vem se constituindo, ao longo do tempo, como indutor desse processo de institucionalização da avaliação na atenção básica. 6 A criação, na estrutura organiza- cional do Departamento de Atenção Básica da Secre- taria de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde (DAB/SAS/MS) de uma Coordenação de Acompa- nhamento e Avaliação (CAA) marca essa caracterís- tica, principalmente quando se atribui a essa a res- ponsabilidade da condução gerencial de iniciativas processuais de grande envergadura como o "Pacto de Indicadores da Atenção Básica", estabelecido medi- ante negociação entre as três esferas de gestão, que tem se constituído num esforço coletivo de incorpo- ração da avaliação à prática da gestão e de articu- lação com os processos de programação; a Investi- gação Avaliativa representada pela realização de es- tudos e pesquisas de abrangência nacional e o Sis- tema de Informação da Atenção Básica (SIAB), prin- cipal instrumento de monitoramento da atenção bási- ca com características muito peculiares de apoio à gestão, ao fazer uso dos conceitos de territorializa- ção, adscrição de clientela e potencialidade de uso

por profissionais integrantes das equipes de saúde para discussão com a comunidade usuária e progra- mação local. 4, Entretanto, para o sistema nacional de saúde, em especial no campo da atenção básica, ainda busca- se clarear as diretrizes de uma política de avaliação, que embora em franco processo de implantação, es- tabelece como desafio a superação dos obstáculos operacionais e funcionais para sua execução. Na atual gestão do Ministério da Saúde, coube ao De- partamento de Atenção Básica da Secretaria de Atenção à Saúde, por intermédio da Coordenação de Acompanhamento e Avaliação, propor estratégias e desencadear ações para o enfrentamento a esse de- safio. Uma primeira iniciativa tomada por essa Coor- denação foi a definição de sua missão institucional e a identificação clara de seus objetivos estratégicos que, a despeito de possíveis limitações, tem sua for- mulação resultante de um processo participativo em seu âmbito, permitindo, dessa forma, traçar as operações a serem desenvolvidas com o fim de atin- gi-los. (Quadro 1)

Felisberto E

Missão Monitorar e avaliar a atenção básica instrumentalizando a gestão e fomentar/consolidar a cultura avaliativa nas três instâncias de gestão do Sistema Único de Saúde (SUS).

Objetivos estratégicos Identificar aspectos relevantes da atenção básica para serem monitorados e avaliados, com destaque para o Programa Saúde da Família (PSF); Desenvolver estratégias de disseminação das informações relevantes, precisas e de forma ágil sobre Atenção Básica (AB) no País; Construir capacidade técnica e política nas três instâncias gestoras do SUS que possibilite a análise dos dados para a tomada de decisão; Induzir processos de articulação intra e intersetorial visando a institucionalização do Monitoramento e da Avaliação da Atenção Básica; Fomentar e dinamizar estratégias de pactuação de metas e indicadores da AB nas três instâncias de gestão do Sistema Único de Saúde; Garantir o acesso aos bancos de dados sob gerência da coordenação para monitorar e avaliar a Atenção Básica; Identificar a necessidade de fomentar e articular estudos avaliativos para a Atenção Básica; Gerenciar o Sistema de Informação da Atenção Básica.

Quadro 1

Missão e objetivos estratégicos da Coordenação de Acompanhamento e Avaliação.

Felisberto E

Esses planos, no momento em fase de elabo- ração, têm como referência os pressupostos con- ceituais e diretrizes propostos pelo Ministério da Saúde e pactuados na Comissão Intergestora Tripar- tite que também definiu os indicadores para a elabo- ração dos mesmos, assim como os critérios técnicos para o financiamento das ações propostas. 13 Tendo como forma de financiamento a transferên- cia direta de recursos financeiros do Fundo Nacional de Saúde para o Fundo Estadual de Saúde, esse se dará mediante a avaliação do cumprimento de metas previamente estabelecidas e aprovadas pelas instân- cias colegiadas de gestão e de controle social. A necessidade de conferir maior organicidade institucional aos processos de avaliação a serem de- senvolvidos prevê que as propostas apresentadas es- tejam pautadas em algumas linhas norteadoras que obedecem aos princípios do SUS e as diretrizes do PSF enquanto estratégia prioritária para a organiza- ção das práticas e serviços de atenção básica. 13 São U$ 17 milhões destinados as SES para a primeira fase do projeto e alguns indicadores estão sendo negociados com vistas a garantir recursos fi- nanceiros durante todo o período de vigência do

PROESF - cerca de seis anos, tempo suficiente, ao nosso ver, para consolidação desta ação com o de- senvolvimento de estratégias de sustentabilidade e construção de estruturas permanentes de avaliação no âmbito dos estados e a conseqüente capilarização da idéia para as gestões municipais, guardando coerência com os estágios de desenvolvimento, amadurecimento e capacidades técnicas evidenciadas pelo processo de descentralização da gestão do SUS. A construção e/ou fortalecimento da capacidade técnica em monitoramento e avaliação, com vistas a sua inserção firme e decisiva nas práticas de saúde, seja do cuidado ou da gestão, remete-nos a longos caminhos a serem percorridos. Entretanto, o que aqui está se apresentando e pondo-se em discussão trata- se de uma estratégia clara, objetiva, como forma de se trazer à prática do cotidiano, ao campo do real e com direcionalidade às necessidades de saúde da população, as reflexões e proposições teóricas da disciplina avaliação, tomando como referência desde as clássicas abordagens concebidas por Donabedi- an 14 até as proposições de sua aplicabilidade por al- guns autores que vêm contribuindo de forma impor- tante para essa construção. 7,15-

Referências

  1. Hartz ZMA, organizadora. Avaliação em saúde: dos modelos conceituais à prática na análise da implantação de pro- gramas. Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 1997.
  2. Schraiber LB, Peduzzi M, Sala A, Nemes MIB, Castanhera ERL, Kon R. Planejamento, gestão e avaliação em saúde: identificando problemas. Cienc Saúde Coletiva 1999; 4: 221-2.
  3. Vieira-da-Silva LM. The field of evaluation and the "sur mesure" strategy. Cad Saúde Pública 1999; 15: 247-8.
  4. Hartz ZMA. Pesquisa em avaliação da atenção básica: a necessária complementação do monitoramento. Div Saúde Debate 2000; 21: 29-35.
  5. Medina MG, Aquino R, Carvalho ALB. Avaliação da atenção básica: construindo novas ferramentas para o SUS. Div Saúde Debate 2000; 21: 15-28.
  6. Ministério da Saúde. Saúde da família no Brasil - linhas es- tratégicas para o quadriênio 1999/2002. Brasília (DF): Secretaria de Políticas de Saúde, Departamento de Atenção Básica; 2000.
  7. Scriven M. Evaluation: future tense. Am J Eval 2001; 22: 301-7.
  8. Bodstein R. Atenção básica na agenda da saúde. Cienc Saúde Coletiva 2002; 7: 401-12. 9. Hartz ZMA. Institucionalizar e qualificar a avaliação: outros desafios para a atenção básica. Cienc Saúde Coletiva 2002; 7: 419-21. 10. Souza HM. O PSF como indutor da institucionalização da avaliação na atenção básica. Rev Bras Saúde Fam 202; 6: 10-5. 11. Stevenson JF, Florin P, Mills DS, Andrade M. Building evaluation capacity in human service organizations: a case study. Eval Progr Plan 2002; 25: 233-43. 12. Ministério da Saúde. Norma Operacional da Assistência à Saúde. Sistema Único de Saúde (NOAS/SUS). Portaria nº 95 de 26 de janeiro de 2001. Diário Oficial da União [DOU] 2001 Jan 29; Sec 1, 139 (20E): 23-31. 13. Ministério da Saúde. Planos estaduais para fortalecimento das Ações de Monitoramento e Avaliação da Atenção Básica - Diretrizes e Orientações. Brasília (DF): Secre- taria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica, Coordenação de Acompanhamento e Avaliação; 2004. [versão preliminar]. 14. Donabedian A. The quality of care-how an it be assessed? JAMA 1988; 260: 1743-8. 15. Contandriopoulos AP, Champagne F, Denis JL, Pineault R. A Avaliação na área da saúde: conceitos e métodos. In:

Harzt ZMA, organizadora. Avaliação em saúde: dos modelos conceituais à prática na análise da implantação de programas. Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 1997. p. 29-

  1. Vieira-da-Silva LM, Formigli VLA. Avaliação em saúde: limites e perspectivas. Cad Saúde Pública 1994; 10: 80-

  2. Hartz ZMA. Institucionalizing the evaluation of health pro- grams and policies in France: cuisine internationale over fast food and sur mesure over ready-made. Cad Saúde Pública 1999; 15: 229-59.

  3. Patton MQ. Evaluation, knowledge management, best prat- ices, and high quality: lessons learned. Am J Evaluat 2001; 22: 329-36.

Recebido em 8 de março de 2004 Versão final apresentada em 9 de junho de 2004 Aprovado em 22 de julho de 2004

Monitoramento e avaliação na atenção básica