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Este artigo tem como objetivo observar e analisar o ensino musical realizado no projeto da Orquesta de Instrumentos Reciclados de Cateura formada por crianças e jovens em vulnerabilidade social que vivem na comunidade de Cateura, em Assunção, no Paraguai
Tipologia: Trabalhos
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Orquesta de Instrumentos Reciclados de Cateura
Alzira de Jesus Ferreira Arouca São Paulo Junho de 2017
Alzira de Jesus Ferreira Arouca
Musicalização e sustentabilidade:
Orquesta de Instrumentos Reciclados de Cateura
Trabalho de conclusão de curso apresentado como requisito parcial para obtenção do título de Especialista em Gestão de Projetos Culturais e Organização de Eventos, realizado sob a orientação da Prof.ª Dr.ª Soledad Galhardo
São Paulo Junho de 2017
Este artículo tiene como objetivo observar y analizar la enseñanza musical realizada en el proyecto Orquesta de Instrumentos Reciclados de Cateura formada por niños y jóvenes en vulnerabilidad social que viven en la comunidad de Cateura, en Asunción, Paraguay. Lo que distingue a esta orquesta, de tantas otras formadas gracias a proyectos sociales, es la interpretación de obras musicales con instrumentos hechos de material reciclado, formando una estrategia de sostenibilidad. A partir de entrevistas e investigaciones, se pretende identificar si el cruce de la enseñanza musical y la sostenibilidad puede ser efectivamente eficiente, promoviendo el desarrollo sostenible de una comunidad y el fortalecimiento de su potencial ciudadano.
Palabras clave : enseñanza musical, orquesta social, desarollo sostenible, sostenibilidad.
1. Introdução
O ensino da música é, muitas vezes, considerado uma excelente ferramenta para o desenvolvimento e transformação em comunidades em vulnerabilidade social. Neste artigo busca-se compreender as relações que se estabelecem na comunidade de Cateura, periferia de Assunção, Paraguai, tendo por base o conceito de Educação para o Desenvolvimento Sustentável da UNESCO aliado às recentes pesquisas sobre cidadania ambiental. O projeto social da Orquesta de Instrumentos Reciclados de Cateura^3 pressupõe a educação não formal de crianças da comunidade por meio da música e da conscientização ambiental promovida pela reciclagem do lixo do aterro local para a produção dos instrumentos da orquestra. Desta forma, seria possível construir uma estratégia de sustentabilidade, integrando lixo, reciclagem, inclusão educacional e social das crianças. Aparentemente, pelo uso inteligente do lixo reciclado é favorecida uma práxis entre desenvolvimento sustentável/cidadania ambiental com a música como forma lúdica e educacional. Nesse sentido, o presente trabalho busca compreender se um projeto cultural, como esta pequena orquestra, pode atuar como elemento catalisador numa comunidade, estimulando crianças e jovens a aprender música e ao mesmo tempo desenvolver sua consciência ambiental. Busca-se aqui analisar a experiência da Orquesta de Instrumentos Reciclados de Cateura, verificando se o aprendizado da música pode inserir crianças de comunidades em vulnerabilidade social no estudo da música. Além disso, trata-se também de compreender se esta orquestra, que nasce da união entre musicalização e sustentabilidade pode gerar, de alguma maneira, mudanças nas relações sociais através da produção comunitária de instrumentos e aprendizado musical, fortalecendo seu potencial cidadão. Com este estudo tenciona-se perceber se o ensino musical aliado ao uso criativo e funcional de material reciclado poderia criar novas alternativas para a musicalização em comunidades em vulnerabilidade social e se a orquestra proporciona às crianças e aos jovens do projeto experiências que possam ser enquadradas no âmbito da aplicação do conceito da educação para o desenvolvimento sustentável proposta pela UNESCO.
(^3) Entenda-se aqui pelo termo orquestra um pequeno conjunto de músicos que executam repertório variado (erudito e popular). Esta orquestra, em particular, apresenta-se frequentemente com formações diversas, podendo ser composta por 4 ou 40 alunos, dependendo da ocasião e condições locais do concerto.
a fim de adquirir práticas e valores imprescindíveis à cidadania e ao desenvolvimento sustentável em sociedades multiculturais e multiétnicas. No ambiente de um aterro, a questão do desenvolvimento socioeconômico associado à sustentabilidade é ainda mais evidente, pois a população local tem no lixo sua fonte de sustento, como é o caso das cinco mil famílias que vivem no lixão de Cateura, onde grande parte da população adulta trabalha na seleção e reciclagem do lixo. Segundo Célio da Cunha (2007, p. 26), um desenvolvimento sustentável genuíno só é possível quando não são utilizados mais recursos dos que possam ser renovados e quando há, entre os grupos sociais, capacidade de manter e aperfeiçoar oportunidades econômicas, sociais e políticas. Nesse sentido, o homem dinamiza seu mundo a partir da sua relação com a realidade, “[...] de estar com ela e de estar nela, pelos atos de criação, recriação e decisão. Vai dominando a realidade. Vai humanizando-a. Vai acrescentando a ela algo de que ele mesmo é o fazedor. Vai temporalizando os espaços geográficos. Faz cultura.” (FREIRE, 1977: p.43). Uma comunidade, portanto, teria então a possibilidade de criar uma nova realidade, recriá-la, fazendo uso de recursos não antes utilizados ou reutilizando-os de uma nova maneira, decidindo conjuntamente, ampliando e fortalecendo seu poder cidadão.
3. Lixo e Cidadania Ambiental
Para melhor entendimento do trabalho dos recicladores de Cateura é necessário definir o que é exatamente lixo. O lixo, até pouco tempo, era considerado todo e qualquer material inútil, e/ou sem valor, gerado pela atividade humana e que precisa ser descartado. O lixo é geralmente classificado em quatro tipos: úmido, seco, verde e especial. O lixo úmido (resto de comida, casca de frutas, de raízes e de tubérculos, talos e folhas de legumes, guardanapo, papel toalha, papel higiênico) não é reciclável. O lixo seco (embalagens plásticas ou de vidro inteiro intacto, isopor, madeira, metais, papel e papelão), o lixo verde (resto de podas ou cortes, madeira, serragem) e o lixo de descarte especial (baterias, cartuchos, celulares, computadores, embalagem de agrotóxico, equipamentos eletrônicos e de informática, impressoras, material hospitalar, lâmpadas, pilhas, tablets, tôneres e materiais afins) são recicláveis.^5
(^5) Cartilha de Seleta Coletiva. UNESP, s/d.
Quando o lixo doméstico não é reciclado, é encaminhado para um aterro sanitário. Os aterros são, assim, o local ideal para a disposição final do lixo. Quanto mais material for reciclado, menos lixo será descartado no aterro. Nesse contexto de distribuição do lixo, há dois processos fundamentais: a coleta seletiva e a reciclagem. A coleta seletiva consiste na separação e recolhimento de materiais descartados que podem ser reciclados e que são separados previamente na denominada fonte geradora. A separação a partir da fonte evita a contaminação dos materiais que podem ser reaproveitados, aumentando seu valor agregado e diminuindo os custos do processo de reciclagem. A reciclagem, por sua vez, é a atividade em que materiais já usados são transformados em novos produtos que podem ser comercializados, proporcionando benefícios ambientais, sociais e econômicos. No caso de Cateura, os recicladores da comunidade ajudam a recolher material que poderá servir na confecção de instrumentos a partir de lixo selecionado, portanto além de se poupar recursos naturais do planeta, o próprio aterro é “reciclado”, promovendo recursos humanos e econômicos. Na América Latina, nos últimos anos, as zonas periféricas têm se tornado polos de reivindicação por cidadania, inclusão e integração social. E como é que o desenvolvimento sustentável e, consequentemente uma educação ambiental, pode se relacionar à cidadania? Segundo Pedro Jacobi (2003, p.7), a cidadania nos remete tanto à identidade como ao pertencimento a uma coletividade:
A educação ambiental como formação e exercício de cidadania refere-se a uma nova forma de encarar a relação do homem com a natureza, baseada numa nova ética, que pressupõe outros valores morais e uma forma diferente de ver o mundo e os homens. A educação ambiental deve ser vista como um processo de permanente aprendizagem que valoriza as diversas formas de conhecimento e forma cidadãos com consciência local e planetária.
O ambiente de uma orquestra é frequentemente comparado ao de uma coletividade, onde autonomia, camaradagem, disciplina, liderança e responsabilidade são estimuladas. Nesse contexto onde diferenças são apaziguadas, reforça-se a autoconfiança e o reconhecimento pessoal, possibilitando um aprendizado sadio e reconhecimento dessas competências tanto pela coletividade local como pela sociedade em geral, onde esta comunidade está inserida.
é o lema desta pequena orquestra do Paraguai que vê a possibilidade de fazer música fazendo uso eficiente de material encontrado no lixo, construindo seus instrumentos a partir da sucata encontrada no aterro. Ações como essa parecem também se ajustar ao discurso de Nestor García Canclini (2008, p.156) que declara que
é base de uma sociedade democrática criar as condições para que todos tenham acesso aos bens culturais, não apenas materialmente, mas dispondo dos recursos prévios – educação, formação especializada no campo para entender o significado concebido pelos artistas.
4. Projeto da Orquesta de Instrumentos Reciclados de Cateura
4.1 Histórico/Local
Pode-se considerar que a história das orquestras sociais^6 na América Latina teve início em 1975, na Venezuela, onde o maestro José António Abreu criou um programa de educação musical que veio a ser denominado de “El Sistema” por designar um sistema de educação musical pública de acesso gratuito e livre para crianças e adolescentes em vulnerabilidade social. O programa sociocultural venezuelano tornou-se modelo nos países latino-americanos e, atualmente, o ensino musical através de orquestras em projetos socioculturais é cada vez mais popular nas periferias de várias cidades da América Latina. No Brasil, “El Sistema” inspirou projetos como os do Instituto Baccarelli, Projeto Guri, Neojibá, entre outros. No Paraguai, é conhecido o projeto “Sonidos de la Tierra” do maestro Luis Szarán, ao qual a Orquesta de Reciclados de Cateura esteve associada até 2012. A Orquesta de Reciclados de Cateura é, no entanto, singular no contexto das orquestras sociais latino-americanas, visto combinar o ensino musical com sustentabilidade, interpretando obras musicais com instrumentos reciclados, produzidos a partir do material encontrado no aterro. A história do projeto desta orquestra teve início com a dedicação e trabalho do professor de música e técnico ambiental Favio Hernan Chávez. O diretor da Orquesta de Instrumentos Reciclados de Cateura teve seu primeiro contato com a música ainda na infância
(^6) “Orquestras sociais” é um termo que designa projetos sociais que buscam a inclusão e integração social em comunidades vulneráveis por meio do ensino musical pela prática orquestral.
pelas aulas de violão popular em sua cidade natal, Carapeguá. Tempo depois, começou a se envolver com grupos musicais e, já na adolescência, Chávez começou a ensinar violão no colégio onde estudava como também se juntou e dirigiu o coro de crianças da Catedral de Carapeguá. Mais tarde, ingressou num seminário, onde obteve mais conhecimento de música e cultura geral. Por fim, decidiu deixar o seminário para estudar Teologia e Filosofia na Universidade Católica e, além disso, obteve um diploma de Engenharia em Ecologia Humana na Universidade Nacional de Assunção. Devido a essa última especialização, acabou por ir trabalhar como técnico ambiental no aterro de Cateura.^7 Entre 2006 e 2008, Chávez trabalhou no projeto de educação ambiental Procicla, ligado ao BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento) com diversas associações de catadores de material reciclável na região de Cateura. Foi, portanto, a partir de 2006 que começou a ter um contato mais direto com a comunidade que vive ao redor do aterro de Cateura. O projeto desenvolvido pelo BID buscava implementar processos de coleta seletiva e reciclagem, a fim de facilitar o trabalho dos "gancheros" (recicladores) do aterro. Por sua vez, Chávez que era também músico (na época tinha uma escola de música em Carapeguá, sua cidade natal), conseguiu estabelecer uma relação muito próxima com os recicladores e moradores da comunidade. Em uma ocasião, quando trouxe seus alunos de Carapeguá para um pequeno evento em Cateura, os recicladores perguntaram se haveria possibilidade de que seus filhos também pudessem aprender música. A partir daí, Chávez começou a passar mais horas na comunidade, a fim de ensinar música aos filhos desses trabalhadores e mais tarde a outras crianças da comunidade. No entanto, das crianças que frequentavam as aulas de Chávez, apenas uma pequena percentagem, entre 10 e 15%, tinha verdadeiro interesse em aprender música; a grande parte preferia brincar ou simplesmente aproveitar o tempo de aula para estar fora do ambiente de casa. Como é sabido, instrumentos musicais podem ser danificados facilmente. O risco que esses instrumentos pudessem sofrer danos com as condições de vida no aterro era grande, daí que o grupo de pais recicladores e Chávez começaram a buscar alternativas. E Chávez, como músico e técnico ambiental, sabia que a questão do meio ambiente era importante na vida dos moradores do aterro que convivem com o lixo e seus resíduos todos os dias.
(^7) CORONEL, Jorge. La historia detrás de la orquesta de Cateura. ABC. Assunção, 15 jun. 2004. Disponível em: . Acesso em: 4 fev. 2017.
contratados pela Associação. Recebe fundos de organizações internacionais ambientalistas e de filantropia que se dedicam a projetos em desenvolvimento em regiões de vulnerabilidade social como a Bertha Foundation (de 2013 até 2016), a EcoEmbes que colabora periodicamente com viagens, a Global Family Foundation e a Fundação do escritor estadunidense John Maxwell que ajudaram a construir a atual sede da escola, a Go Campaign, o Prince Claus Fonds (Prêmio a um empreendimento excepcional – 2015), além dos recursos obtidos com as apresentações. Por ser composta sobretudo por menores, a orquestra não pode receber cachês por seus concertos. Recebe, no entanto, recursos que são administrados e investidos na escola. Posteriormente, são elaborados relatórios às entidades que contratam a orquestra para essas apresentações.^9 Até o momento, no entanto, não puderam contar com os recursos captados com o documentário americano sobre o trabalho da orquestra, “Landfill Harmonic” dos documentaristas americanos Brad Allgood e Graham Townsley que tornou a orquestra conhecida em todo o mundo em 2015.
4.3 Oficina de Instrumentos e Processos de Fabricação
Os instrumentos da Orquesta de Reciclados de Cateura são confeccionados principalmente a partir de materiais diversos encontrados no aterro de Cateura. Na oficina da orquestra localizada na comunidade de Cateura, são construídos instrumentos de cordas como violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, guitarras e instrumentos de percussão. Nicolás Gomez, mais conhecido como “Don Cola”, antigo reciclador, habilidoso carpinteiro e lutier oficial da orquestra, tem acesso ao aterro sanitário, de onde são resgatados materiais utilizados que, subsequentemente, utilizará no fabrico dos instrumentos reciclados. Don Cola sabe quais materiais podem ser utilizados na confecção de cada instrumento, bem como dispõe de medidas e modelos de instrumentos de cordas que irá construir, resgatando materiais que atendem às medidas e recursos necessários. Munido desses materiais constrói a estrutura do instrumento na oficina da orquestra. Quando a estrutura fica pronta, o diretor da orquestra e músicos de cada instrumento fazem as finalizações necessárias, testando o instrumento em termos de sonoridade, afinação, como tocar etc. Assim, cada instrumento é ajustado até que se decida que pode ser selecionado para uso na orquestra ou no processo de aprendizagem musical das crianças. Ainda que o som
(^9) Depoimento do diretor acadêmico e maestro da orquestra Favio Chávez no dia 29 de março.
possa soar latoso (som metálico), os instrumentos, muitas vezes coloridos devido à variedade de cores de latas utilizadas, atraem bastante as crianças. Por sua vez, os instrumentos de sopro reciclados são feitos em Capiatá, na oficina de Títo Romero, lutier de instrumentos de sopro que, ao conhecer a história da orquestra, se ofereceu para ajudar a produzir instrumentos de sopro a partir do material reciclado disponível. Assim, começou a experimentar até conseguir desenvolver saxofones soprano, alto e tenor, trompetes, flautas e trombones. Segundo Fátima Portilho (2005, p.224), “a sensibilidade ecológica, cada vez mais presente nos diversos setores da sociedade, têm contribuído para incrementar debates e práticas [...].” Nesse sentido, o êxito do trabalho da luteria foi tal que o MIM (Musical Instruments Museum) de Phoenix, no estado do Arizona, nos Estados Unidos, pediu que alguns instrumentos reciclados da Orquesta de Reciclados de Cateura passassem a ser exibidos na exposição permanente do museu.^10
Figura 1 - Instrumentos de corda e sopro construídos pelos lutiers da orquestra
(Fonte: Orquesta de Instrumentos Reciclados de Cateura)
(^10) Dados do site oficial da Orquesta de Instrumentos Reciclados de Cateura. Disponível em: . Acesso em: 20 abr. 2017.
4.5 Musicalização e Sustentabilidade na Comunidade de Cateura
Em todos os países pelos quais a Orquesta de Instrumentos Reciclados de Cateura passa, procura deixar a mensagem de que “a cultura é uma necessidade básica" e de que música, em particular, é um meio de transformação social, ainda que seja feita ao nível mais básico possível. Segundo o maestro Chávez, são nas condições mais precárias que a gente tem de pensar que “não ter nada não é desculpa para não fazer nada”, como faz questão de frisar em todas as apresentações que faz. O mote da orquestra é “O mundo nos envia lixo. Nós mandamos música de volta”, inscrito também nas camisetas, mídia alternativa para divulgação do projeto. Hummes (2004) aponta algumas concepções sobre as funções da música na sociedade e por que é importante o aprendizado de um instrumento musical. Segundo esses estudos, o ensino de música favorece qualquer ser humano em variados aspectos: desde o biológico, pelo desenvolvimento emocional e motor/neurológico até o desenvolvimento de aptidões artísticas e sociais. Tocar um instrumento musical é benéfico para qualquer indivíduo, seja criança ou adulto, desenvolvendo os aspectos psicomotores e podendo conduzir a mudanças estruturais e funcionais em termos educacionais e sociais, melhorando aspectos cognitivos dos indivíduos como a memória, o raciocínio, além do desenvolvimento das habilidades de aprendizagem, importantes no processo de alfabetização. Em sua dissertação de mestrado sobre a construção de instrumentos com material reciclado em alguns projetos musicais na América do Sul, Daniele Garcia (2013, p.31) colheu o depoimento do maestro paraguaio Luis Szarán do projeto “Sonidos de la Tierra”, do qual a orquestra de Cateura fez parte inicialmente, sobre o trabalho desenvolvido pelo professor e técnico ambiental Favio Chávez:
O maior benefício do projeto de reciclados é poder criar com o que se tem, e a partir disso a capacidade de recriar a si mesmo, além do desenvolvimento pessoal e de poder conhecer-se e aos outros. [...] e foi algo que logo alçou popularidade, porque além de gerar muita curiosidade das pessoas, tornou-se algo especial e próximo das pessoas, de verem o que conseguiam fazer os recursos que tinham.
Durante a visita às dependências da escola da orquestra e da luteria de instrumentos reciclados em Assunção, foram tomados depoimentos de alunos, professores, pais e membros da Associação de Pais da Orquestra de Cateura, bem como do diretor
acadêmico da orquestra, Favio Chávez, e do lutier Don Cola. Aos pais e ao diretor acadêmico foi indagada qual seria a missão da orquestra. De acordo com esses depoimentos, o projeto se baseia em três pontos: educação, saúde e moradia. Mais que tornar acessível a prática musical entre a comunidade de Cateura, o projeto visa por meio do ensino musical trazer melhorias tanto em termos sociais como econômicos para seus moradores. Além disso, a prática sustentável do uso de instrumentos reciclados gratifica, de algum modo, o trabalho de coleta seletiva dos recicladores locais, estimulando também a conscientização e educação ambiental entre os membros da comunidade. 12 Na comunidade, crianças e jovens defrontam-se com sérios problemas sociais em suas respectivas famílias como alcoolismo, uso de drogas, pais envolvidos com atividades criminosas. Na escola de música são, no entanto, acolhidos e incluídos num processo tanto de conscientização ambiental como de educação musical: as crianças e jovens além de aprender a tocar instrumentos, aprendem também a construí-los e mantê-los. Portanto, em meio de um contexto social conturbado, a escola de música proporciona a essas crianças e jovens não só horas de lazer, mas também de camaradagem e disciplina aliando conscientização ambiental e ensino musical. O projeto, depois de mais de uma década de existência, tem proporcionado bolsas de estudos às crianças e aos jovens da comunidade. Existem vários convênios entre a escola da orquestra de Cateura e escolas privadas, mas também com estabelecimentos de ensino superior: faculdades e universidades para os jovens.^13 Por essas bolsas e convênios, muitos dos filhos da comunidade constituída, sobretudo, por “gancheros” têm oportunidade de educação e trabalho futuro, possibilitando a essas crianças e jovens alcançar um padrão socioeconômico de vida muito mais confortável que o da geração de seus pais. Aos poucos, os instrumentos reciclados que tanto popularizaram a orquestra, vão sendo substituídos por instrumentos verdadeiros. Com a fama e o sucesso internacionais, a orquestra passou a receber constantemente doações de instrumentos. A orquestra, aliás, mantém todos os instrumentos, reciclados e doados, organizados numericamente em um depósito ao lado da secretaria da escola. Atualmente, os instrumentos reciclados são utilizados
(^12) Depoimentos dos pais Carlos Insfrán, Carmen Cabrera, Juan Rojas, Félix Azcona e Miryann Patiño e do diretor acadêmico Favio Chávez, tomados entre 29 de março e 1° de abril.
(^13) Depoimentos de Carmen Cabrera e Juan Rojas, membros da Associação de Pais da Orquestra de Cateura, tomados entre 29 de março e 1° de abril.
A escola oferece bolsas de apoio que são atribuídas àqueles que passam a fazer parte da orquestra, os chamados miembros estables. Para tal, no entanto, é preciso dedicação e esforço. Contudo, os que falham numa primeira audição ou numa primeira oportunidade de bolsa, recebem sempre uma segunda chance. Além de uma assistência social, os alunos são acompanhados por seus professores e pelos coordenadores acadêmicos. Obviamente há desistências e infelizmente há relatos de evasão escolar, nos quais crianças e jovens acabam por se tornar mais suscetíveis à criminalidade, ao envolvimento com álcool e drogas, não conseguindo terminar a educação fundamental. De qualquer modo, percebe-se na escola um grande comprometimento com a comunidade, no qual os membros da associação de pais e os coordenadores pedagógicos tentam assistir da melhor maneira os alunos mais vulnerabilizados por suas condições sociais. Como a orquestra tem muitos concertos e está constantemente em turnês, a fim de evitar que as viagens da orquestra possam se tornar um empecilho ao desenvolvimento escolar de algumas crianças e jovens, foi criado um sistema de rotatividade. Busca-se também fazer parcerias com escolas mais flexíveis, onde as crianças e jovens possam ter respaldo constante em relação às disciplinas em que tenham mais dificuldade ou que não tenham acompanhado assiduamente.^16 Há uns anos, o maestro Favio Chávez, relatava o fato de que tanto pais como alunos na comunidade de Cateura consideravam o ensino musical como “coisa de rico”, não vendo muito futuro na aprendizagem de um instrumento. (GARCIA, 2013, p.49). No entanto, abordado sobre essa questão durante uma entrevista, o próprio maestro Favio Chávez reconheceu que isso já não ocorre, visto que a escola oferece, além da musicalização, a possibilidade de bolsas de estudo em boas escolas, públicas e privadas, podendo auxiliar famílias na formação de seus filhos. Em praticamente todos os depoimentos, pais e professores enfatizam que a meta da escola é oferecer melhores oportunidades de futuro às crianças e jovens da região, formando, portanto, cidadãos mais atuantes na sociedade. Se esses alunos virem na carreira musical esse caminho, serão apoiados bem como se resolverem ter uma outra profissão, ou ainda ter na música só uma profissão em paralelo. Segundo os professores Marcelo Cárceres e Valencia Baez, as crianças com situação mais familiar mais vulnerável, muitas vezes apresentam mais dificuldades de
(^16) Depoimentos dos membros da Associação de Pais da Orquestra de Cateura: Carlos Insfrán, Carmen Cabrera e
Juan Rojas durante 29 de março e de 1° de abril.
concentração, recebendo, portanto, mais atenção e incentivo para que permaneçam no projeto por parte dos coordenadores acadêmicos e professores. Isso porque a experiência tem demonstrado que aqueles que conseguem vencer essa barreira, acabam, em médio e longo prazo, apresentando melhoras em suas capacidades de comunicação e expressão, conseguindo aprender mais facilmente, incorporando aos poucos mais disciplina às suas vidas, podendo ter a chance de uma vida melhor estruturada. Um dos casos mais extraordinários nesta comunidade é a da jovem Ada Ríos, de 19 anos que foi uma das primeiras alunas do projeto e que hoje é tutora, dando aulas de violino às crianças mais jovens. Além das atividades na orquestra, Ada frequenta um Curso Superior de Música em Assunção. A ela indagou-se sobre o que mudou na sua vida depois da orquestra. Em seu depoimento, declarou que a orquestra ofereceu uma mudança expressiva na sua vida e na de sua família. Ada viaja constantemente com a orquestra, tendo intenso contato com outras culturas bem como outros alunos que fazem parte da orquestra. Hoje, sua família tem casa própria obtida com os recursos advindos da orquestra, seus pais já não trabalham mais no aterro, mas na cantina da escola de música, e sua história tornou-se inspiração para a escrita do livro da autora estadunidense Susan Hood: “Ada’s Violin: The Story of the Recycled Orchestra of Paraguay” (O violino de Ada: A Estória da Orquestra de Instrumentos Reciclados do Paraguai). Um livro que tem sido muito premiado e que já foi traduzido para outros idiomas, certamente inspirando crianças de outras partes do mundo, podendo despertá- las para o aprendizado de um instrumento musical. 17
5. Considerações Finais
Na lata do poeta tudonada cabe Pois ao poeta cabe fazer Com que na lata venha caber O incabível “Metáfora”, Gilberto Gil
Neste estudo pode-se compreender como o ensino musical é portador de possibilidades de transformação: da exclusão para uma vida inclusiva. Pode-se observar com o projeto de Cateura que o treinamento musical é uma experiência rica e complexa que
(^17) Depoimentos de Ada Ríos, Marcelo Cárceres e Valencia Baez tomados no dia 1° de abril.