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O Leao Praxedes, Manuais, Projetos, Pesquisas de Cultura

Livro infantil

Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas

2014

Compartilhado em 19/07/2014

cristiane-freitas-22
cristiane-freitas-22 🇧🇷

4.7

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O Leão Praxedes

Copyright © Tarcisio Lage, 1992 Texto: Tarcisio Lage Desenhos: Américo Lucena Lage

Nova Edição do autor www.livroseideias.net

2009

O Leão Praxedes by Tarcisio Lage is licensed under a Creative Commons Atribuição-Vedada a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil License. Permissions beyond the scope of this license may be available at http://www.livroseideias.net.

Na imensa planície africana existia um leão com dentes enormes e afiados. Chamava-se Praxedes. Era só o Praxedes abrir sua boca, balançar a densa juba e fazer explodir seu urro, ouvido a 50 quilômetros de distância, para que toda a floresta tremesse de medo. Os macacos trepavam até os galhos mais altos, as hienas paravam de sorrir e corriam mais do que os veados, os outros leões abaixavam a cabeça e enfiavam o rabo entre as pernas.

Com o Praxedes era na base:

Obediência ou Morte!

  • Sim, Dom Praxedes.
  • Tá certo, é o senhor quem manda.
  • Se Dom Praxedes não quer, eu não faço.

Era uma vergonha ver os outros leões que nem cachorro viralata, fazendo tudo que Praxedes queria, sem reclamar, sem uma pontinha de revolta.

Acontece que, num certo dia, o professor Percy, que vivia fazendo umas experiências malucas, deixou cair debaixo da árvore que dava sombra para Praxedes dormir um tubo cheio de Estreptococos Mutans. O Estreptococo Mutans é um bichinho horroroso. Multiplica-se mais do que coelho nos restos de comida entre os dentes. Inheco, que nojo!

  • Praxedes, leão sem dente. Praxedes, leão sem dente.

Nem mais os macacos tinham medo do leão desdentado. Os chimpanzés, que são os palhaços da floresta, desciam das árvores e faziam uma volta em torno do pobre banguela. Um puxava seu rabo, outro dava um cocorote na testa do antes tão temido leão. Havia um chimpanzé muito sem vergonha que enfiava o dedo naquele lugar do Praxedes e gritava.

  • O Praxedes não é mais aquele! O Praxedes não é mais aquele!

O pobre coitado ficou numa magreza de fazer dó. Não morreu porque comia o que sobrava da caça dos outros leões, chupando os ossos. Que tristeza!

Foi expulso do grupo dos leões mandões. O novo chefe, o que tinha agora os dentes mais afiados, falou:

  • Praxedes, você é uma vergonha. Não queremos nenhum desdentado em nosso grupo. Vá embora daqui. Vá pro meio das hienas e dos abutres comer carniça.

Dona Coruja, que vivia voando pelas redondezas, contou ao Praxedes que na ilha do Rio dos Crocodilos existia um hipopótamo dentista muito bom na feitura de dentaduras. O único problema é que era um preguiçoso de marca maior e só saía de sua ilha para se refrescar no fundo do rio. Para ter a dentadura, Praxedes tinha de nadar até o consultório do Dr. Hipopótamo.

Nenhum problema? E os crocodilos? Quando Praxedes chegou ao barranco pronto para saltar e nadar até a ilha, um bando de crocodilos já esperava por ele, lambendo os beiços:

  • Ora viva, aí vem Dom Praxedes para o nosso almoço.

Praxedes chamou de volta sua antiga coragem e propôs:

  • Olha aqui, seus crocos, faço uma aposta. Se vocês deixarem que eu nade até a ilha, garanto que na volta vocês não conseguem me pegar.
  • Ah é,seu leão desdentado. Pode nadar, nós o esperamos para o jantar, - disse o maior dos crocodilos, esquecido de que o Hipopótamo era dentista.

Praxedes nadou, nadou. Era um rio muito largo. E precisou ficar um tempão na sala de espera, coisa a que não era acostumado.

O Dr. Hipopótamo estava no fundo do rio, refrescando-se e comendo umas gramas que cresciam debaixo d'água. Só à tardinha voltou ao consultório.

  • Ué, Dom Praxedes, por estas bandas? Em que posso servi-lo?

Praxedes não precisou dizer uma palavra. Só abriu a boca e o Dr. Hipopótamo

Praxedes ficou contentíssimo. Só faltou dar um beijo na testa do Dr. Hipopótamo. Disse que faria tudo que ele quisesse, era só pedir. E pulou no rio, nadando de volta para sua planície. Nem se lembrava mais dos crocodilos.

  • Lá vem a nossa janta, atacar! - gritou o chefe do bando dos crocos.

Foi uma luta tremenda. O croco-chefe avançou para abocanhar o pescoço de Praxedes, mas foi ele quem levou uma dentada no papo. E outra dentada. E mais outra. O rio coalhado de sangue. Sangue de crocodilo. Não de leão.

Praxedes saiu na outra margem, sacudiu a juba e foi andando todo garboso, de cabeça erguida, planície afora. O chimpanzé sem vergonha viu de longe o ex-banguela, desceu de sua árvore de observação,

chegou por trás como sempre fazia, levantou o rabo do Praxedes e já ia enfiar o dedo, quando viu aqueles dentes enormes e afiados. O chimpanzé sem vergonha deu um pulo e por pouco escapou dos dentes navalha. Subiu para o galho mais alto da primeira árvore que encontrou, tão rápido como se estivesse descendo. Ainda teve fôlego para gritar lá de cima.

  • Cuidado gente, o Praxedes já tem dente!!!

Foi um corre-corre danado, a bicharada toda em polvorosa ao escutar novamente o urro ouvido a 50 quilômetros de distância. Dona Zebra correu para o seu refúgio, a

  • Está certo, Dom Praxedes. Assim será, - concordaram os outros leões.

Nem todos. Alguns leõezinhos, que assistiam à conversa, até gostaram da idéia de não ter mais chefe. Entretanto, pensavam lá com seus botões, Praxedes estava era sendo chefe de novo, urrando e gritando com os outros, dizendo o que eles tinham de fazer.

É muito difícil eliminar a lei do dente.