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livro de poemas - adelaide ivanova
Tipologia: Manuais, Projetos, Pesquisas
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edição juliana travassos projeto gráfico e capa eduardo moura juliana travassos revisão daniel dargains produção executiva xu xuyi ivánova, adelaide [1982 - ] o martelo / adelaide ivánova - 2ª ed. – rio de janeiro: edições garupa, 2017 ISBN: CDD 869-
o martelo a visita a banana para laura o elefante o gato a porca o urubu o cachorro a mula o broche o envelope os testículos o juiz a sentença II o duplo o ministro a mulher casada o sismógrafo a moral as questões técnicas a outra os mecanismos de defesa a briga de galo o marido o bom animal o divórcio o domador o martelo
O tempo, de fina areia, canta em meus braços: me aconchego nele, faca na mão. Paul Celan, tradução de Flávio R. Kothe My body, you are an animal for whom ambition is right Anna Swirzcynska, tradução de Czeslaw Milosz e Leonard Nathan
o martelo durmo com um martelo embaixo do travesseiro caso alguém entre de novo e sorrateiro no meu quarto não bastasse ser um saco ter um ferro me cutucando a cabeça há ainda outro inconveniente: Humboldt nunca pode chegar de surpresa corre o risco de ser martelado e assim morrer ou viver (a quantidade de energia liberada pelo golpe de um martelo é equivalente à metade de sua massa vezes a velocidade ao quadrado na hora do impacto).
a visita and every bed has been condemned, not by morality or law, but by time Anne Sexton quais as traças aranhas piolhos e outras bestas infestam habitam o colchão de visitas que Humboldt não foi buscar fingindo esquecimento depois foi tarde demais e estávamos apaixonados demais para buscar o colchão de visitas na água-furtada então ficou por isso mesmo quais as traças aranhas piolhos e outras bestas em outro colchão maldito testemunharam outro colchão outra visita o arranque o violento o sangue bom sangue não houve houve a chegada e depois silêncio por areia teia pó
musgo mofo aranha eu pulei para outra cama outras bestas antes já haviam me habitado formigas ácaros piscianos percevejos só as traças e Humboldt não me comeram anos antes a desdita embora areia teia pó musgo mofo aranha não pude nunca mais sair daquela cama há bestas menos confiáveis que traças há hienas potós peixes serpentes se há 2 no colchão de 1 visita sempre haverá um que não é inocente.
para laura em 1998 quando encontraram o corpo gay de matthew shepard sua cara tinha sangue por todo lado menos duas listras perpendiculares que era por onde suas lágrimas haviam escorrido naquele dia o ciclista que o encontrou não ligou para polícia logo que o viu porque o corpo de matthew estava tão deformado que o ciclista achou ter visto um espantalho sábado passado em são paulo a polícia matou laura não sem antes torturá-la laura foi filmada ainda viva por outro sujeito que em vez de ajudá-la postou no youtube o vídeo d’uma laura desorientada e quem não estaria tendo sangue na boca e na parte de trás do vestido laura tem um corpo e um nome que lhe pertencem laura de vermont presente! foi assassinada pela nossa indiferença e pela polícia brasileira tinha 18 anos
o elefante quando johanna morreu tinha um ano e oito meses foi encontrada na piscina apertava um elefante na mão que sua mãe até hoje aperta muito embora o alzheimer lhe impeça de lembrar por que ela a mãe pulou na piscina ao ver johanna à deriva no ventinho do norte da renânia boiando na piscina que o pai de johanna esqueceu de cobrir enquanto jogava tênis com outros amigos talvez tão ou mais ricos do que eles a mãe de johanna que hoje já não se lembra de muita coisa como falei por causa do alzheimer lembrou no entanto de guardar o elefante só esqueceu de tirar o vestido molhado dizem que passou dias assim “parecia uma estátua grega” disseram o que ninguém viu era que apertava também o elefantinho em 1958 quando eu morri 50 anos depois tinha vinte e cinco anos e seis meses e apertava o primeiro verso de um poema de sylvia plath e resistia bravamente de olhos fechados enquanto caía morto o mundo inteiro embora soubesse que o resto do poema é uma declaração de amor completamente idiota como são todas as declarações de amor heterossexual e como tantas coisas que plath escreveu recitava o poema enquanto me afogava me perdoe plath me perdoe campilho o mundo é um horror o elefante é de pelúcia e ossinhos não são de mel são apenas cálcio nada mais.