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Este livro dá continuidade a projeto iniciado por esta editora, em 2006, que visava a traduzir e publicar obras que, embora muito citadas — os clássicos da biblioteconomia — careciam de traduções autorizadas. Naquele ano publicamos Missão do bibliotecário, de José Ortega y Gasset. Em 2009, chegou a vez de As cinco leis da biblioteconomia, de S.R. Ranganathan. Em 2016, concluímos a tradução e edição, exclusivamente em formato digital, daquele que é considerado o primeiro tratado de biblioteconomi
Tipologia: Notas de estudo
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Não perca as partes importantes!





























































































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O QUE É
A
DOCUMENTAÇÃO?
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O QUE É
A
DOCUMENTAÇÃO?
Tradução de
Maria de Nazareth Rocha Furtado
iv
v
Apresentação vii
O que é a documentação?
I. Uma técnica do trabalho intelectual 1
II. Uma profissão distinta 13
III. Uma necessidade do nosso tempo 33
Anexos
Vocês conhecem Suzanne Briet?
Sylvie Fayet-Scribe 52
A dama e o antílope: a contribuição de Suzanne Briet ao movimento pela documentação na França Mary Niles Maack 65
vii
ste livro dá continuidade a projeto iniciado por esta edi- tora, em 2006, que visava a traduzir e publicar obras que, embora muito citadas — os clássicos da biblioteconomia — careciam de traduções autorizadas. Naquele ano publi- camos Missão do bibliotecário, de José Ortega y Gasset. Em 2009, chegou a vez de As cinco leis da biblioteconomia, de S.R. Rangana- than. Em 2016, concluímos a tradução e edição, exclusivamente em formato digital, daquele que é considerado o primeiro tratado de biblioteconomia da era moderna: Conselhos para formar uma biblioteca, de Gabriel Naudé. Hoje publicamos este livro, que muitos consideram como um verdadeiro manifesto da documentação, de autoria de Suzanne Briet, complementado por dois ensaios: de Sylvie Fayet-Scribe e Mary Niles Maack, uma francesa e a outra norte-americana, que ajudarão o leitor a conhecer melhor a autora e seu tempo. O livro de Briet saiu na França no terceiro trimestre de 1951. Em 14 de outubro de 1953, Herbert Coblans, consultor da Unes- co, que viera assessorar o então Conselho Nacional de Pesquisas (cnpq) na criação do Instituto Brasileiro de Bibliografia e Docu- mentação (ibbd), começou a ministrar um curso avulso de dez aulas sobre documentação nos cursos de biblioteconomia da Bi- blioteca Nacional. Em março de 1954 entregou ao Departamento Administrativo do Serviço Público (dasp), revistas e traduzidas sob sua supervisão (“translated into Portuguese under my super- vision”) as súmulas de aula que foram reunidas em livro, embo- ra editado com data de 1957, somente veio a lume em março de
1958.^1 Ali se vê que Herbert Coblans citou Suzanne Briet em suas aulas. Talvez tenha sido essa a ocasião em que bibliotecários brasi- leiros foram apresentados às ideias da documentalista francesa.2, 3
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O ibbd, que teve sua regulamentação aprovada em abril de 1954, começou a funcionar em junho do mesmo ano. Na biblio- teca do atual Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (ibict), sucessor do ibbd, encontra-se um exemplar de Qu’est-ce que la documentation? que ali deu entrada em 12 de janeiro de 1955 e que foi adquirido na Livraria Agir, no Rio de Janeiro. O exemplar apresenta-se em seu acabamento original, cartonado, impresso em papel cuchê, e com marcas de muito uso, inclusive com marcações feitas por leitores. Na edição original, encontram-se ainda o “Projet de présentation des articles de pé- riodiques et des analyses documentaires” (p. 45-46), na realidade exemplos de fichas de referências de artigos de revistas (sinalé- ticas, isto é, sem resumos) e analíticas (com resumo) e a lista de “Normes françaises intéressant la documentation” (p. 47-48). Essa edição encontra-se em: http://martinetl.free.fr/suzannebriet/ questcequeladocumentation/ É nesse mesmo ano, no mês de outubro, que encontramos a primeira citação do livro de Briet feita por um brasileiro. O res- ponsável por isso foi José Reis, pesquisador e importante especia- lista em comunicação e divulgação científica, que então era dire- tor da Divisão de Ensino e Documentação Científica do Instituto Biológico de São Paulo. Em palestra no simpósio sobre informa- ção científica, promovido pela Associação Paulista de Bibliote- cários com a colaboração do ibbd, realizado em São Paulo, em 25/10/1955, ele discorreu sobre os conceitos da Federação Inter- nacional de Documentação, de Otlet, de Bradford e de Briet, na palestra intitulada “Alguns problemas da documentação. 4 Em 25 de agosto de 1957, Edson Nery da Fonseca citou-a na apresentação da página semanal sobre documentação que come- çou a publicar no Jornal do Brasil. Voltou a citá-la em 6 de outu- bro do mesmo ano. Edson foi um dos grandes divulgadores do opúsculo de Briet, pois, numa amostra de 82 obras que ele publi- cou de 1942 a 1993, o nome de Briet aparece citado dez vezes, em 11% lugar, entre quase 500 autores.^5 Em sondagem feita por Edson Nery da Fonseca, ainda no Jor-
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Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense mime- ografou para circulação interna, em 1970. Os argentinos foram os primeiros a traduzir este livro. Em 1960, nove anos depois da edição original, saiu ¿Qué es la docu- mentación? sob a égide da Facultad de Ciencias Jurídicas y Socia- les da Universidad Nacional del Litoral, em Santa Fe. Traduzida por Beatriz Favaro com prólogo de Juan Manuel Peralta Pino. Somente decorrido mais de meio século da edição original saiu a tradução inglesa: What is documentation? English translation of the classic French text. Trans. and ed. by Ronald E. Day and Laurent Martinet with Hermina G.B. Anghelescu. Lanham, md: Scarecrow, 2006. Agradecemos a Ronald Day e a Laurent Martinet pelas in- formações que nos permitiram localizar os herdeiros de Suzan- ne Briet. E a estes, Pascal Etienne e Jean-Paul Etienne, também expressamos nossos mais sinceros agradecimentos pela maneira fidalga e imediata com que atenderam a nosso pedido de autori- zação para esta tradução e edição. Muito obrigado às professoras Sylvie Fayet-Scribe e Mary Niles Maack pela autorização para reproduzirmos seus artigos.
Notas e referências
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Estudos sobre a obra de Suzanne Briet, além dos citados por Sylvie Fayet-Scribe (p. 55) e Mary Niles Maack (p. 88)
Bishop, Mitchell Hearns. Briet’s antelope: some thoughts on Suzanne Briet (1894–1989) and conservation documentation. waac Newsletter, v. 25, n. 1, p. 12-16, Jan. 2003. Disponível em: http://cool.conservation-us.org/waac/ wn/wn25/wn25-1/wn25-104.pdf. Buckland, Michael. Le centenaire de “Madame Documentation”: Suzanne Briet, 1894-1989. Documentaliste: Sciences de l’Information, v. 32, n. 3, p. 179-181, 1995. Versão francesa do artigo publicado no Journal of the Ame- rican Society for Information Science, v. 46, n. 3, p. 235-237, Apr. 1995. Buckland, Michael. A brief biography of Suzanne Renée Briet. In: Briet, Su- zanne. What is documentation? Transl. by Ronald E. Day; Laurent Martinet; Hermina G.B. Anghelescu. Lanham, md: Scarecrow Press, 2006. Buckland, Michael. The reception of Suzanne Briet in the United States. Bul- letin of the American Society for Information Science and Technology, v. 39, n. 4, p. 40 -41, 2013. Day, Ronald E. Suzanne Briet: an appreciation. Bulletin of the Association for Information Science and Technology, v. 33, n. 2, p. 21–22, Dec./Jan. 2007. Day, Ronald E. ‘A necessity of our time’: documents and culture in Suzanne Briet’s Qu’est-ce que la documentation? In: Rayward, W. Boyd. European modernism and the information society: informing the present, understan- ding the past. Aldershot: Ashgate, 2008, p. 155-164. Fayet-Scribe, Sylvie. Histoire de la documentation en France: culture, science et technologie de l’information 1895–1937. Paris: cnrs Éditions, 2000. Le Coadic, Yves-François. What is documentation? Library Quarterly, v. 77, n. 4 , p. 484–487, Oct. 2007. Disponível em: http://archivesic.ccsd.cnrs.fr/ sic_00203384/document Poulain, Martine. Connaissez-vous [vraiment] Suzanne Briet? Bulletin des Bi- bliothèques de France, 2012, v. 57, n. 3, p. 81-82, 2012. Disponível em: http:// bbf.enssib.fr/consulter/bbf-2012-03-0081-001>
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Para Julien Cain^1
A
latinidade e sua herança sempre deram à palavra ‘do- cumento’ o sentido de lição e prova. O dicionário Ri- chelet e o Littré trazem dois testemunhos franceses.^2 Uma bibliografia contemporânea, ciosa de clareza, lançou esta breve definição: “um documento é uma prova em apoio a um fato”. Se aludirmos às definições ‘oficiais’ da Union Française des Organismes de Documentation (ufod), verifica-se que ‘docu- mento’ é assim explicado: “toda base de conhecimento fixada materialmente e suscetível de ser utilizada para consulta, estu- do ou prova”. Esta definição tem sido discutida por linguistas e filóso- fos, ciosos que são de minúcia e lógica. Graças à análise do seu conteúdo, pode-se propor uma definição, a mais adequada atualmente, mas também a mais abstrata e, portanto, a menos acessível: “todo indício, concreto ou simbólico, conservado ou registrado, com a finalidade de representar, reconstituir ou provar um fenômeno físico ou intelectual”. Uma estrela é um documento? Um seixo rolado pela cor- renteza é um documento? Um animal vivo é um documen- to? Não, mas são documentos as fotografias e os catálogos de estrelas, as pedras de um museu de mineralogia, os animais catalogados e expostos num zoológico. Em nossa época de múltiplas e aceleradas comunicações,
o menor acontecimento científico ou político, quando levado ao conhecimento público, imediatamente assume a solenidade da “roupagem documentária” (Raymond Bayer).^3 Admiramos a fertilidade documentária a partir de um simples fato. Por exemplo: um antílope de uma nova espécie foi encontrado por um explorador na África, que conseguiu capturar um exem- plar e enviá-lo para a Europa, para nosso Jardin des Plantes. Um comunicado para a imprensa faz com que esse fato seja divulgado em notícias de jornais, rádios e atualidades cinema- tográficas. A descoberta é objeto de uma comunicação perante a Académie des Sciences. Um professor do Muséum [National d’Histoire Naturelle] considera-o para suas aulas. O animal vivo é enjaulado e colocado no zoológico. Morto, será empa- lhado e conservado (no museu). Emprestado para uma expo- sição. Mostrado em filme sonoro. Seu berro é gravado em dis- co. A primeira monografia sobre esse animal fará parte de um tratado ilustrado com pranchas, depois, de uma enciclopédia especializada de zoologia geral e, posteriormente, de uma enci- clopédia geral. As obras são catalogadas numa biblioteca, após terem sido anunciadas em catálogos de livrarias e de editoras, e na Bibliographie de la France. Os documentos são reprodu- zidos (desenhos, aquarelas, pinturas, estátuas, fotos, filmes e microfilmes), depois selecionados, resumidos, descritos, tra- duzidos (produtos documentários). Os documentos relativos a esse fato são objeto de uma ordenação científica (fauna) e ideológica (classificação). Enfim, sua conservação e utilização são determinadas por técnicas gerais e métodos válidos para o conjunto dos documentos, métodos esses estudados em asso- ciações nacionais e congressos internacionais. O antílope catalogado é um documento primário e os de- mais são documentos secundários ou derivados. A invenção de Gutenberg desencadeou uma produção ti- pográfica tão volumosa e intensa, sobretudo nos cem últimos anos, que o problema da utilização dos documentos gráficos e sua conservação tornou-se grave. A abundância desses docu- mentos, a partir do século xvii, tornou necessária a criação de um método científico de pesquisa [prospection] e classificação
1951; Grã-Bretanha, 1928; Países Baixos, 1937; Bélgica, 1947; Suíça, 1946). Nasceu uma nova profissão — a de documentalista — que corresponde às funções da pessoa que documenta uma outra. O documentalista faz o trabalho de documentação. Ele deve ter o domínio das técnicas, dos métodos e das ferramentas. Já lhe é possível tornar-se um técnico devidamente licenciado. A França outorga um diploma oficial desde a criação do Insti- tut National des Techniques de la Documentation, ligado ao Conservatoire National des Arts et Métiers (portaria de 1° de dezembro de 1950). A teoria da documentação foi sendo construída pouco a pouco a partir do grande período da explosão tipográfica, que começa aproximadamente no terceiro quartel do século xix e corresponde ao avanço das ciências históricas e ao progres- so da técnica. Otlet foi o mago, o líder internacional, com seu instituto de bibliografia em Bruxelas, sua classificação decimal universal, seu Conseil des Unions Scientifiques, seu Munda- neum. 6 Outros, menos ambiciosos do que ele, ou mais pruden- tes, abriram os sulcos de uma cultura que, entre seus discípu- los, não causou surpresa. A documentologia nada perdeu ao se desfazer de um Repertório Bibliográfico Universal, que todo mundo considerava uma quimera e não despertava interesse comparável aos catálogos coletivos de acesso mais local. Enquanto o livro, que surgiu de uma folha impressa, tende atualmente a se manifestar em seus elementos constitutivos, por necessidade de mobilidade, outras formas documentárias surgiram das invenções modernas e enriqueceram o instru- mental humano graças às documentografias. Ninguém não mais se satisfaz apenas com o livro, com o fragmento impres- so, com o artigo de periódico, com o recorte de jornal, com a cópia do arquivo; transfere-se uma obra inteira, com suas ilus- trações, para o microfilme, a microficha e as microcards.* Uma gorda pasta de arquivo desaparece, microfilmada, no bolso do casaco. Uma biblioteca inteira cabe numa bolsa. A pesquisa
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científica se estende às unidades documentárias de toda espé- cie: documentos iconográficos, metálicos, monumentais, me- galíticos, fotográficos e transmitidos por rádio ou televisão. A seleção de documentos incorpora as técnicas mais avançadas. As profissões ‘pré-documentalistas’ também participam dessa corrida aos documentos. As novas gerações de arquivistas e conservadores de museus decifram os textos antigos na ‘leito- ra’ de microfilme e elaboram fichas fotográficas em que a ima- gem da peça de museu vem junto com sua descrição científica, como acontece no Centre de Documentation Egyptologique e no Musée Carnavalet. As bibliotecas mais tradicionais passam a contar com unidades de documentação e laboratórios foto- gráficos, como a Bibliothèque Nationale de Paris, que mostra sua eficiência em matéria de microfilmagem e fotografias colo- ridas. Enormes coleções de filmes e fotografias são organizadas em Washington, na Library of Congress e no arquivo nacional norte-americano. A unidade documentária tende a se aproximar da ideia ele- mentar, da unidade de pensamento, à medida que as formas de documentos se multiplicam, que a massa documentária cresce e a técnica da profissão de documentalista se aperfeiçoa. A documentação para si mesmo ou para outrem aparece aos olhos de muitos como ‘uma técnica cultural’ de novo tipo. Essa técnica prosperou inicialmente no meio da pesquisa científica propriamente dita, ou seja, a das ciências e suas apli- cações. As ciências humanas adotaram-na mais tardiamente. As razões são facilmente compreensíveis. Com efeito, no cam- po da ciência e da técnica, a documentação se renova quase inteiramente, num lapso de tempo muito curto; uma invenção, uma descoberta, se tornam fatos ultrapassados num breve pe- ríodo de tempo. Acontece, então, que logo se tornam muito conhecidos para serem objeto de novos estudos. Já no campo das ciências humanas, a documentação ocorre por acumula- ção: a literatura, a história, a filosofia, o direito, a economia e a própria história das ciências são tributárias do passado. A eru- dição é conservadora. A ciência é revolucionária. A evolução dos conhecimentos humanos é um compromisso permanente
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o mérito de determinar a percentagem (33%) de artigos que interessam a determinado assunto e que se publicam fora das revistas da especialidade, graças a pesquisas estatísticas que lhe permitiram formular a chamada ‘lei de Bradford’.^7 Além disso, estudando detalhadamente o trabalho das revistas de resumos, chegou à conclusão de que, em princípio, dois terços das cole- ções dos serviços de documentação especializada não se refe- riam diretamente ao assunto de interesse da instituição, e que, todavia, toda a documentação relevante para a especialidade não se encontrava em parte alguma. A documentação cumulativa à disposição das ciências hu- manas esmaga em importância e número as cifras, ainda que impressionantes, da produção científica propriamente dita. Parece que um fio de Ariadne ainda é mais necessário ao hu- manista do que ao cientista. As grandes bibliotecas de que se cerca o erudito e as que ele consulta fora de seu domicílio são para si um campo de pesquisa parcialmente inexplorado. Não há sistematização possível na utilização dos testemunhos do passado. Aqui a investigação é mais autônoma do que nos campos científicos. Nesse caso, “a margem de opção pessoal” é mais ampla (Pagès).^8 Entretanto, os instrumentos do trabalho intelectual trans- formaram profundamente o comportamento do estudioso, qualquer que seja sua especialidade. Os fatores espaço e tempo intervêm muito mais do que no passado. A agenda de com- promissos, o telefone, o aparelho de leitura de microfilme, a máquina de escrever, o ditafone e o telex impõem ao esforço intelectual um ritmo diferente. “O conhecimento começa com o exame dos fatos”, dizia Bacon.^9 Carnegie aconselhava não iniciar nada “sem antes ter examinado a fundo todos os trabalhos” que já houvessem sido feitos sobre o assunto em questão.^10 O problema seria mais o de selecionar os melhores trabalhos. É aí que se impõe uma competência. É aí que um método rigoroso acorre em auxílio do pesquisador. “Ordem é o que há de mais raro nas operações do espírito” dizia Fénelon.^11 Ordem, marcação, seleção, três etapas essenciais às ocupações do intelecto.
Na tarefa de ‘coletivização’ dos conhecimentos, que é bem do nosso tempo, o resumo documentário, ou abstract,* aparece como um dos meios mais rápidos e mais seguros para anun- ciar e comunicar ideias. É papel das bibliotecas especializadas, dos centros de documentação e dos periódicos técnicos levar ao especialista, à sua mesa de trabalho, um resumo analítico e às vezes crítico das novidades que lhe interessam, e que lhe permitirá identificar as fontes que, se quiser, poderá examinar, seja pela leitura direta do original, seja por reprodução foto- gráfica. A mecanografia 12 vem ao encontro das exigências das pesquisas em grandes volumes de documentos, com índices estatísticos fáceis de codificar. Devido à pesquisa científica e técnica, a documentação mo- derna tornou-se um dos fatores mais eficazes da produtivida- de em qualquer meio. Bastariam dois exemplos: o do Centre National de la Recherche Scientifique (cnrs) e o da empresa neyrpic. O cnrs, com suas equipes de resumidores e traduto- res especializados, suas coleções de periódicos e seu serviço de microfilmagem, se firmou no espírito dos cientistas franceses como uma instituição da qual não podem prescindir. Os Éta- blissements Neyret-Pictet, com seu serviço de documentação solidamente articulado às atividades dos laboratórios, oficinas e unidades de pesquisa da empresa, contribuíram para um enorme progresso nas aplicações da hidráulica no mundo in- teiro. Guias de orientação permitiram conhecer as possibilidades oferecidas pelos serviços de preservação e disseminação de do- cumentos ou informação. Eles foram criados nacionalmente para o conjunto de interesses e atividades científicas, ou para um grupo mais ou menos extenso. Manuais de pesquisa docu- mentária foram criados na França para orientar os pesquisa- dores sobre as melhores obras, artigos de periódicos, centros e associações, bibliotecas e museus e editoras especializadas. A pesquisa científica tomou consciência de si mesma em quase todos os campos. Para melhor sair do ‘caos’ e do engar-