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Trabalho em Saúde: Produção do Cuidado e a Estratégia Saúde da Família, Trabalhos de Fisioterapia

Este documento discute o processo de trabalho em saúde, enfatizando a produção do cuidado e a importância da estratégia saúde da família. Ele aborda a natureza cooperativa e a direcionalidade técnica do trabalho em saúde, além de discutir a necessidade de reorientar o modo de operar os serviços de saúde para um modelo mais humanizado. O texto também aborda a divisão de trabalho na atenção básica e a importância de uma melhor combinação entre a capacidade de produzir procedimentos e cuidado.

Tipologia: Trabalhos

Antes de 2010

Compartilhado em 21/10/2010

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O FAZER EM SAÚDE: UM NOVO OLHAR SOBRE O PROCESSO DE TRABALHO
NA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA
Maísa Paulino Rodrigues1
Mariza Sandra de Souza Araújo2
Recortes iniciais
Durante os últimos anos, a saúde vem se constituindo como um campo de
construção de práticas cuidadoras, socialmente determinadas, dentro do qual o
formato da ação médica tornou-se hegemônico. Porém percebemos que, mesmo
dentro desse modo peculiar de agir tecnicamente na produção do cuidado, no decorrer
de todos estes anos, há uma grande multiplicidade de maneiras ou modelos de ação.
Nos dias atuais, é comum convivermos com uma gama de problemas que
alteram intensamente a capacidade dos serviços de saúde de responderem de forma
eficaz às demandas por saúde na vida individual e na vida coletiva dos cidadãos
brasileiros, o que pode ser detectado por meio da pouca efetividade das ações de
promoção, proteção e recuperação da saúde.
Essa situação tem sido observada cotidianamente nas instituições de saúde do
Brasil, sendo revelada por meio da insatisfação e da insegurança dos usuários com o
tipo de atendimento prestado e pela forma como os profissionais de saúde operam os
serviços, ou seja, desenvolvendo práticas histórico-socialmente determinadas pela
ação médico-hegemônica.
Nesse horizonte de crise, a estratégia Saúde da Família pode significar um
processo instituinte de mudanças na atenção à saúde, resgatando conceitos
fundamentais de vínculo, humanização, co-responsabilidade e outros, que apontam
para a reorientação do modo de operar os serviços de saúde. A partir desse
referencial, buscamos estabelecer um furtivo olhar sobre o processo de trabalho em
saúde e os desafios necessários para a construção de um novo fazer na estratégia
Saúde da Família.
Nessa perspectiva, para discutir sobre a natureza do processo de trabalho em
saúde, faz-se necessário resgatar alguns conceitos básicos do trabalho, ou seja, a sua
conceptualização e organização nos serviços de saúde. Para tanto, sintetizamos
algumas elaborações de autores como Merhy, Santos, Nogueira, entre outros.
1 Maísa Paulino Rodrigues – Cirurgiã-dentista - Mestra em Odontologia Social - Doutoranda em
Ciências da Saúde/UFRN- Consultora do Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva/UFRN.
2 Mariza Sandra de Souza Araújo – Nutricionista – Mestra em Saúde Coletiva/ UFPE – Coordenadora
da SAS/ Secretaria Municipal de Saúde de Natal.
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O FAZER EM SAÚDE: UM NOVO OLHAR SOBRE O PROCESSO DE TRABALHO

NA ESTRATÉGIA SAÚDE DA FAMÍLIA

Maísa Paulino Rodrigues^1 Mariza Sandra de Souza Araújo^2

Recortes iniciais

Durante os últimos anos, a saúde vem se constituindo como um campo de construção de práticas cuidadoras, socialmente determinadas, dentro do qual o formato da ação médica tornou-se hegemônico. Porém percebemos que, mesmo dentro desse modo peculiar de agir tecnicamente na produção do cuidado, no decorrer de todos estes anos, há uma grande multiplicidade de maneiras ou modelos de ação.

Nos dias atuais, é comum convivermos com uma gama de problemas que alteram intensamente a capacidade dos serviços de saúde de responderem de forma eficaz às demandas por saúde na vida individual e na vida coletiva dos cidadãos brasileiros, o que pode ser detectado por meio da pouca efetividade das ações de promoção, proteção e recuperação da saúde.

Essa situação tem sido observada cotidianamente nas instituições de saúde do Brasil, sendo revelada por meio da insatisfação e da insegurança dos usuários com o tipo de atendimento prestado e pela forma como os profissionais de saúde operam os serviços, ou seja, desenvolvendo práticas histórico-socialmente determinadas pela ação médico-hegemônica.

Nesse horizonte de crise, a estratégia Saúde da Família pode significar um processo instituinte de mudanças na atenção à saúde, resgatando conceitos fundamentais de vínculo, humanização, co-responsabilidade e outros, que apontam para a reorientação do modo de operar os serviços de saúde. A partir desse referencial, buscamos estabelecer um furtivo olhar sobre o processo de trabalho em saúde e os desafios necessários para a construção de um novo fazer na estratégia Saúde da Família.

Nessa perspectiva, para discutir sobre a natureza do processo de trabalho em saúde, faz-se necessário resgatar alguns conceitos básicos do trabalho, ou seja, a sua conceptualização e organização nos serviços de saúde. Para tanto, sintetizamos algumas elaborações de autores como Merhy, Santos, Nogueira, entre outros.

(^1) Maísa Paulino Rodrigues – Cirurgiã-dentista - Mestra em Odontologia Social - Doutoranda em

Ciências da Saúde/UFRN- Consultora do Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva/UFRN. (^2) Mariza Sandra de Souza Araújo – Nutricionista – Mestra em Saúde Coletiva/ UFPE – Coordenadora

da SAS/ Secretaria Municipal de Saúde de Natal.

O trabalho em saúde enquanto produção cooperativa

Falar sobre o processo de trabalho em saúde remete à compreensão que ele compartilha características comuns a outros processos de trabalho que se dão na indústria e em outros setores da economia. Evidencia-se a divisão social e técnica do trabalho, resultando em três dimensões básicas: a primeira, de natureza formativa dos profissionais de saúde; a segunda, da gestão e da gerência dos serviços; e a terceira, da produção propriamente dita dos serviços, operando ações promocionais, preventivas e curativas sobre a dor, o sofrimento e as demandas de saúde da população.O foco da nossa reflexão está direcionado para a última dimensão, ou seja, a produção dos serviços.

A produção de serviços de saúde pode ser entendida dentro da categoria serviço, expressando a necessidade de cumprir uma finalidade útil, entretanto os resultados do trabalho não constituem mercadorias passíveis de comercialização, como produtos mercantis em si mesmos (Souza et al. 1993), mas são serviços produzidos pelo encontro entre quem produz e quem recebe, ou seja, a produção é singular e se dá no próprio ato.

Dessa forma, o profissional de saúde, durante o exercício de sua atividade, precisa manter uma relação “humanizada” com seus pacientes. André Levy (2000) nos diz que a abordagem clínica – a palavra clínica em sua raiz primitiva significa ao “pé do leito” – supõe sujeitos às voltas com um sofrimento, uma crise que os toca por inteiro. O clínico depara-se com um ser pensante e igualmente desejante, assim como ele próprio o é. Nesse encontro entre dois sujeitos, o fluxo das emoções flui entre ambos, criando uma relação autêntica entre dois seres e não entre um técnico e uma patologia.

Para Merhy (1995), o modo de operar os serviços de saúde é definido como um processo de produção do cuidado. É um serviço peculiar, fundado numa intensa relação interpessoal, dependente do estabelecimento de vínculo entre os envolvidos para a eficácia do ato. Por ser de natureza dialógica e dependente, constitui-se também num processo pedagógico de ensino-aprendizagem.

Muitas pessoas acreditam que o objeto, no campo da saúde, é a cura, ou a promoção e a proteção da saúde, mas podemos dizer que é a produção do cuidado, através do qual poderá ser atingidas a cura e a saúde, os reais objetivos que se deseja atingir, sendo os trabalhadores de saúde sujeitos ativos nesse processo de produção.

Nesse sentido, o trabalho em saúde é um serviço que não se realiza sobre coisas ou sobre objetos, como acontece na indústria; dá-se, ao contrário, sobre pessoas, e, mais ainda, com base numa intercessão partilhada entre o usuário e o profissional, na qual o primeiro contribui para o processo de trabalho, ou seja, é parte desse processo. Ele fornece valores de uso necessários ao processo de trabalho, não apenas a

em equipe, a humanização dos serviços e a criação de vínculos usuá- rio/profissional/equipe de saúde.

O modo de operar os serviços na atenção básica

Diferentemente do que se propaga no discurso médico hegemônico, a atenção básica em saúde não é uma ação simplificada. Quando assumida de forma integral e resolutiva, ela exige dos profissionais que nela atuam um arsenal de atributos e recursos tecnológicos bastante diversificados e complexos.

A característica dos serviços na atenção básica pressupõe a divisão de trabalho a partir de duas perspectivas: a primeira, de natureza horizontal, exigida pela própria complexidade dos serviços oferecidos (unidades produtoras); e outra, vertical, necessária à subdivisão das unidades produtoras, exigindo assim, como pressuposto operacional, a cooperação entre aqueles que executam o trabalho e o conhecimento técnico para a resolubilidade das ações e a garantia da integralidade do atendimento (Souza et al., 1993; Nogueira,1991).

“ Um profissional de saúde, no desempenho de uma ação, mobiliza ao mesmo tempo, seus saberes e modos de agir. Esse modo de agir é definido primeiramente pela existência de um saber muito específico sobre o problema que vai enfrentar, sobre o qual coloca-se em jogo um saber territorializado no seu campo profissional de ação, mas ambos envolvidos por um território que marca a dimensão cuidadora sobre qualquer tipo de ação profissional” (Merhy, p.7,1999 ). Exemplo disso pode ser observado no esquema a seguir.

Núcleo das atividades cuidadoras de saúde

Núcleo profis- sional es- pecífico

Núcleo específico por problemas

Todos os trabalhadores em saúde possuem potenciais de intervenção nos processos de produção em saúde, que são marcados pela relação entre os núcleos de competência profissional e o núcleo cuidador, quer seja esse trabalhador um médico ou um arquivista (Merhy ,1995).

Na produção de um ato de saúde coexistem os vários núcleos, como o núcleo específico definido pela intersecção entre o problema concreto que se tem diante de si e o recorte profissional do problema. Por exemplo, diante de um indivíduo que está desenvolvendo um quadro de tuberculose pulmonar o recorte passa necessariamente pelo modo como o núcleo profissional médico, ou da enfermagem, ou da assistente

social, entre outras, recorta este problema concreto, portado pelo indivíduo, e que são núcleos nos quais operam centralmente as tecnologias duras e leveduras. Mas, seja qual for a intersecção produzida, haverá sempre um outro núcleo operando a produção dos atos de saúde, que é o cuidador, no qual atuam os processos relacionais do campo das tecnologias leves, e que pertence a todos os trabalhadores em suas relações interseçoras com os usuários ” ( Mehry, p.10, 1999).

No modelo médico-hegemônico, o núcleo cuidador ocupa um papel irrelevante e complementar, em relação ao núcleo profissional. A implicação mais séria desse modelo é o enfraquecimento da dimensão cuidadora do trabalho em saúde; em particular, do próprio médico. Um outro problema existente é a submissão dos outros profissionais da equipe à lógica dominante da ação médica: tal lógica empobrece consideravelmente o seu núcleo cuidador. Alguns autores advogam que a baixa incorporação do saber clínico no ato médico compromete seriamente a eficácia da intervenção; inversamente, podemos dizer que a morte da ação cuidadora dos diversos profissionais de saúde tem construído modelos de atenção irresponsáveis perante a vida dos cidadãos.

Essa compreensão implica reconhecer que a construção de um novo modelo de saúde humanizado pressupõe a ampliação da dimensão cuidadora, no sentido de desencadear processos mais partilhados dentro da equipe de saúde e também entre os profissionais e usuários, para que se garanta o vínculo e a co-responsabilização. Implica também uma melhor combinação entre a capacidade de produzir procedimen- tos e cuidado, requerendo competências diversificadas por parte dos profissionais atuantes que se expressam, no campo da cooperação ( núcleo cuidador), pelo conhecimento ético, pela destreza nas relações interpessoais, pelo conhecimento institucional e pela compreensão do processo de trabalho; no campo da direcionalida- de técnica ( núcleo profissional/específico), pelo conhecimento técnico-científico, da clínica, do planejamento e ainda o conhecimento sobre gerência e supervisão dos serviços (Souza et al., 1993).

Moysés e Silveira Filho (2002) afirmam que é necessária a associação dos conhecimentos técnicos, de novas configurações tecnológicas e novas micro-políticas para o trabalho em saúde, inclusive no terreno ético. As tecnologias leves, quando apostam no diagnóstico sensível à subjetividade, nas relações de poder e afeto, nos códigos familiares subliminares etc. induzem à ampliação da pauta técnica para a pauta ética, baseado em cidadania, solidariedade e humanização.

Nessa perspectiva, pensar a estratégia Saúde da Família como eixo reorientador das práticas, nas unidades básicas de saúde, pressupõe uma reestruturação sob uma nova lógica, que só poderá ser concretizada a partir de um novo olhar e um novo fazer, centrado no usuário, dentro desses “novos serviços”.

vistas a autonomização, remetendo necessariamente a um exercício autofágico, por parte dos profissionais. A Estratégia Saúde da Família, em seu modo de operar os serviços de saúde, constitui-se num processo, e, assim sendo, não está concluído, podendo caminhar para o plano da racionalização e flexibilização do processo de trabalho ou da radicalização do processo de humanização do cuidado, garantindo acesso, resolutividade, participação social e qualidade da assistência. Acreditamos que construir novos modelos de processo de trabalho em saúde, em qualquer tipo de serviço, que possibilitem combinar a produção de atos cuidadores de maneira eficaz com conquistas de resultados, cura, proteção e promoção, é tarefa urgente a ser realizada pelo conjunto dos gestores e trabalhadores dos estabeleci- mentos de saúde.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BOFF, L. Saber Cuidar: ética do humano – compaixão pela terra. Ed.Vozes – Petrópolis, RJ: Vozes, 1999.

LEVY, ANDRÉ. O Posicionamento Clínico. Ciências Clínicas e Organizações Sociais. Ed. Autêntica, São Paulo, SP: Autêntica , 2000.

MERHY, E. E. O Ato de Cuidar como um dos nós críticos chaves dos serviços de saúde. Mimeo. DMPS/FCM/UNICAMP – SP, 1999.

MERHY, E. E. O SUS e um dos seus Dilemas: Mudar a Gestão e a Lógica do Processo de Trabalho em Saúde ( um ensaio sobre a micropolítica do trabalho vivo), CEBES. Rio de Janeiro. 1995.

MOYSÉS, S. J. & SILVEIRA FILHO, A. D. Saúde Bucal da Família: quando um corpo ganha uma boca. Os dizeres da boca em Curitiba – Boca Maldita, Boqueirão, Bocas Saudáveis, CEBES. Rio de Janeiro. 2002.

NOGUEIRA, R. P. O Trabalho em Serviços de Saúde. Organização do Cuidado a partir de Problemas: Uma Alternativa Metodológica para Atuação da Equipe de Saúde da Família – OPAS/OMS- Ministério da Saúde.2000.

SOUZA, A. M. A.& SANTOS I. Processo Educativo nos Serviços de Saúde – Série Desenvolvimento de Recursos Humanos n. 01 – OPAS – Brasília. 1993.