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Explicação detalhada de cirurgia de traqueostomia e seus cuidados
Tipologia: Slides
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Fonte: Moore, K. L., Anatomia Orientada para a Clínica
A traqueotomia é a realização de uma abertura cirúrgica na porção cervical da traqueia para ventilação.A comunicação da traqueia com o meio externo permite uma redução de 10 a 50% no espaço morto anatômico, o que reduz a resistência e aumenta a complacência pulmonar, favorecendo pacientes com reserva pulmonar re- duzida. É uma medida extremamente necessária em muitos casos, além de ser uma via aérea mais segura, mais fácil de ser retirada e recolocada do que a cânula de intubação orotraqueal e não aumenta a incidência de pneu- monias. As desvantagens desse procedimento incluem o comprometimento do mecanismo de tosse e da umidifica- ção do ar inspirado, o que reduz a limpeza broncopulmonar e a alteração da composição dos gases alveolares, devido à ausência do fechamento da glote e da pressão expiratória final positiva.
As principais indicações da traqueotomia são: o Obstrução de vias aéreas superiores. o Intubação orotraqueal prolongada (para reduzir risco de estenose subglótica). o Edema devido a queimaduras, infecções ou anafilaxia. o Tempo prévio ou complementar a outras cirurgias bucofaringolaringológicas. o Facilitar aspiração de secreções de vias respiratórias baixas. o SAHOS. o Reduzir o espaço morto durante a ventilação para facilitar desmame de ventilador.
O estabelecimento de uma via aérea efetiva é essencial no suporte à vida, não existindo contraindicação ab- soluta. Uma contraindicação relativa é a presença de carcinoma laríngeo, em que a manipulação do tumor duran- te a traqueotomia pode levar a uma incidência aumentada de recorrência tumoral na região do estoma, optando- se então por uma cirurgia definitiva desde que o estadiamento da neoplasia assim o permita. O mesmo princípio é adotado para papilomatose laríngea. A traqueotomia não está indicada para tratamento da aspiração, uma vez que esse procedimento causa alterações que aumentam o grau de aspiração. O aumento das aspirações se deve ao fato de a traqueotomia causar disfagia por fixar anteriormente o com- plexo laríngeo, além de haver diminuição da sensibilidade laríngea e diferença na mobilidade das pregas vocais pelo desvio do fluxo de ar inspirado. No que diz respeito à obstrução de vias aéreas superiores, tal diagnóstico deve ser suspeitado quando o pa- ciente apresentar dispnéia, estridor expiratório, inspiratório ou bifásico, alteração de voz, dor, tosse, redução ou ausência de sons respiratórios e, em fases mais tardias, instabilidade hemodinâmica e queda do nível de consci- ência. A obstrução pode ser decorrente de anomalias congênitas, corpo estranho em vias aéreas superiores, trauma cervical, neoplasias ou paralisia bilateral de pregas vocais.
A laringe é formada por três grandes cartilagens: epiglote, tireóide e cricóide, situando-se as aritenóides na borda póstero-superior da cartila- gem cricóide.O limite superior da traqueia é a borda inferior da cartilagem cricóide, que recobre parcialmente o primeiro anel traqueal, e o limite inferior está no nível da carina. A traqueia é formada por anéis cartilagi- nosos semicirculares em sua porção anterior e lateral (variando entre 18 a 22 anéis), sendo a região posterior e os espaços entre os anéis forma- dos por tecido membranoso. A hiperextensão cervical, principalmente em pessoas jovens e não obesas, deixa cerca de 50% da extensão total da traqueia acessível na região anterior do pescoço, enquanto que em pes- soas idosas, obesas e cifóticas, a cartilagem cricóide encontra-se no ní- vel da fúrcula esternal, tornando o acesso à traqueia mais difícil. Os nervos laríngeos recorrentes e as veias tireóideas inferiores situ- am-se no sulco formado entre a traqueia e o esôfago estando em posição vulnerável durante a dissecção da região. O nervo laríngeo recorrente
entra na laringe passando profundamente à borda inferior do músculo constritor inferior da faringe, dividindo-se em ramos anterior e posterior. O tronco braquiocefálico cruza da esquerda para a direita anteriormente à traqueia no nível da abertura torá- cica superior, situando-se posteriormente ao esterno. Os grandes vasos cervicais (artérias carótidas e veias jugu- lares internas) também podem ser lesados durante o procedimento, principalmente em crianças e pacientes obe- sos. As veias jugulares anteriores, apesar de não serem estruturas paratraqueais, também podem ser lesadas durante o acesso à traqueia e são fontes de sangramento local. A glândula tireóide situa-se anteriormente à traqueia, com um lobo de cada lado e o istmo cruzando essa es- trutura aproximadamente na altura do segundo e terceiro anéis traqueais, havendo, entretanto, grande variação no nível de cruzamento do istmo. Este tecido é extremamente vascularizado e deve ser dissecado e ligado cui- dadosamente durante a cirurgia.
Em pacientes nos quais será realizada uma traqueotomia eletiva, deve-se avaliar a hematimetria e as provas de coagulação, visto que o sangramento é uma complicação temida durante e após o procedimento. Um nível de hemoglobina de 10 g/dl é aceitável para uma cirurgia eletiva. Quanto ao uso de medicamentos, drogas antipla- quetárias devem ser suspensas 10 dias antes da cirurgia e jejum deve ser prescrito 8 horas antes da cirurgia. Em pacientes candidatos à cirurgia eletiva, a região laringotraqueal pode ser avaliada através de diversas técnicas de imagem, destacando-se a radiografia cervical simples, esofagografia, para detecção de compressão extrínseca ou invasão do esôfago, tomografia computadorizada e ressonância magnética. A broncoscopia e a laringoscopia direta, além de fornecerem visão direta das estruturas acometidas, também possibilitam a realiza- ção de biópsias.
A traqueotomia pode ser eletiva ou de urgência, sendo que a técnica cirúrgica possui variação entre as mesmas. Em uma situação de emergência, a operação é realizada quando a intubação orotraqueal não é possí- vel ou não é bem sucedida. Antes da cirurgia, uma cânula traqueal adequada deve ser escolhida. As cânulas mais usadas em nosso meio são as metálicas (Jackson), plásticas (Portex, Shiley), silicone e nylon. As cânulas variam em relação ao seu diâmetro interno, ângulo de curvatura, mecanismos de fechamento, número de cuffs , fenestrações, dentre
Fonte: Atlas de Anatomia Humana Frank H. Netter – 2ª edição
Fonte: www.medstudents.com.br Após revisão da hemostasia, fecha-se a pele incisada, evitando-se o fechamento da incisão próximo a cânu- la. A sutura da incisão pode predispor a enfisema subcutâneo, pneumomediastino, pneumotórax e infecção. O curativo com gaze sob as asas laterais da cânula e a fixação desta com cadarço ao redor do pescoço encerra o procedimento.
Partindo-se do princípio que a anóxia pode levar a morte em 4 a 5 minutos, a traqueotomia de emergência deve ser realizada em 2 a 3 minutos. O procedimento deve ser evitado e geralmente é necessário devido à ma- nipulação inadvertida de uma via aérea tênue, mas pérvia. Com o paciente em decúbito dorsal, a mão esquerda do cirurgião palpa e estabiliza a laringe e estende o pescoço, caso não haja Contraindicações. A incisão é feita em sentido vertical, na linha média, com um compri- mento grande o suficiente para assegurar o acesso à traqueia o mais rapidamente possível. A cricóide é identifi- cada através da palpação, e se possível um gancho é alocado em sua borda inferior, para tracionar a laringe em sentido superior e facilitar o acesso à traqueia. As estruturas pré-tireoideanas são incisadas também em sentido longitudinal, podendo ou não o istmo da tireóide ser dividido neste procedimento. A incisão vertical é estendida para a traqueia, tornando possível a inserção da cânula na traqueia. Uma vez que uma via aérea pérvia tenha sido conseguida, pode-se fazer a revisão da hemostasia e outros procedimentos para o término da cirurgia.
A cricotireotomia deve ser realizada nos casos em que outros meios para garantir uma via aérea definitiva tenham falhado. Na maioria dos casos a cricoti- reotomia é preferível em comparação à traqueotomia de emergência. A principal vantagem deve-se ao fato da membrana cricotireóidea ser próxima da superfície cutânea, desta maneira menor dissecção é necessária, evitando lesões de es- truturas mediastinais, parede posterior da traqueia e esôfago. A grande limitação é o risco de lesão da laringe subglótica, estando mais associada ao tempo de permanência da cânula. O procedimento é contra-indicado em crianças menores de 12 anos, infecção da laringe, trauma laríngeo e tumores laríngeos. Deve-se palpar a cartilagem tireóide e deslizar o dedo até o espaço cricoti- reóide, sendo realizada uma incisão diretamente pela membrana cricotireóidea. Uma vez que o espaço subglótico é acessado, o cabo do bisturi é inserido na incisão e girado verticalmente, abrindo a incisão e permitindo a introdução da cânula. Se a manutenção da via aérea é necessária por mais de 3 a 5 dias, a cricoti- reotomia deve ser convertida para traqueotomia afim de se evitar estenose sub- glótica e laríngea. Durante a conversão, as cartilagens devem ser exploradas para possíveis fraturas ocorridas no procedimento inicial e corrigidas, assim co- mo os tecidos de granulações na cricotireotomia.
Fonte: www.medstudents.com.br
Anatomicamente, há importantes diferenças entre a criança e o adulto. Nas crianças, a extensão do pescoço faz com que os grandes vasos (especialmente a veia inominada esquerda), o timo e os ápices pulmonares sejam mais inseridos dentro da região cervical. A traqueia é mais mole e pode ser difícil de ser palpada. A laringe é rela- tivamente mais alta na região cervical do que em adultos e a cartilagem cricóide é a estrutura mais proeminente na linha mediana. A criança é colocada em uma posição similar a do adulto, e uma incisão horizontal de 1 a 2 cm é feita na pe- le na metade da distância entre a cartilagem tireóidea e a fúrcula esternal. As estruturas pré-tireoideanas são dissecadas como no adulto e uma incisão vertical é feita na traqueia, dando-se dois pontos laterais à linha média como reparo da traqueia no caso de decanulação. O ponto de Björk e a retirada de parte de anéis traqueais são contra-indicados em crianças devido ao alto risco de estenose traqueal e fístula traqueocutânea. Atualmente, a traqueotomia pediátrica é mais realizada em doenças crônicas que em infecções agudas, o que aumentou a duração das traqueostomias e diminuição da taxa de decanulação. A incidência de complicações da traqueotomia pediátrica é maior que em adultos. A obstrução da cânula foi a complicação pós-operatória precoce mais comum e o tecido de granulação foi a complicação tardia mais co- mum. A duração da traqueotomia foi o fator mais importante no índice de complicações tardias.
Esta modalidade é preferencialmente realizada à beira do leito, principalmente em UTl. Anestésico local com adrenalina é injetado abaixo do nível da cartilagem cricóide e nos tecidos mais profundos, e uma incisão de 1 cm é feita horizontalmente na pele. Respeitando a linha média, uma agulha é inserida a 45° com a pele pela incisão, até que seja aspirado ar da traqueia. O fio guia é passado através da agulha, e um pequeno dilatador é passado, sendo trocado por um dilatador maior e após isso o fio guia é retirado (técnica de Seldinger). Dilatadores suces- sivamente maiores são passados através da abertura da pele, até que haja espaço suficiente para a passagem da cânula de traqueotomia, que é então ligada ao dispositivo de ventilação. Todo o procedimento é realizado sobre visão direta da traqueia através de um broncoscópio, assegurando que a cânula seja inserida no nível do 2° e 3° anéis traqueais. Contraindicações absolutas incluem situações de emergência, crianças, pacientes que não estejam intuba- dos, massa cervical mediana. Contraindicações relativas incluem necessidade de pressão final positiva maior que 20 cm H 2 0 e coagulopatia. Como se trata de um procedimento eletivo os critérios para realização são mais seletivos. Os pacientes devem apresentar cricóide e anéis traqueais palpáveis, capacidade de extensão cervical e facilidade de reintubação. Uma crítica importante ao método é a possibilidade de conversão da traqueotomia percutânea para o méto- do convencional, sendo necessário treinamento cirúrgico para tal, o que não ocorre com parte dos profissionais que realizam a técnica percutânea.
O manejo adequado do paciente no pós-operatório imediato é fundamental. O paciente deve permanecer monitorizado em unidades de tratamento intensivo ou intermediário. Após a cirurgia, deve ser pedida obrigatori- amente uma radiografia de tórax devido ao risco de pneumotórax e pneumomediastino, além de se poder obser- var a posição da ponta da cânula. Antibióticos podem ser prescritos no pós-operatório, habitualmente uma cefalosporina de primeira geração, apesar de parte significativa dos pacientes já receber antibioticoterapia prévia devido aos problemas de base, não necessitando, portanto de antibióticos relacionados exclusivamente com a cirurgia. A aspiração frequente da traqueia é importante devido à grande quantidade de secreção produzida na tra- queia após a cirurgia, tomando-se o cuidado de evitar lesão direta da traqueia pela sonda de aspiração. A nebuli- zação contínua com oxigênio e o uso de agentes mucolíticos ajudam a fluidificar as secreções, evitando a forma- ção de plugs que podem levar à insuficiência respiratória e morte. O aparecimento de enfisema subcutâneo tam- bém deve ser observado. Se o paciente evoluir bem, o cuff da cânula deve ser desinsuflado em 24 horas, e em 48 horas a cânula de plástico deve ser trocada pela metálica, com alta hospitalar somente se o paciente estiver com a cânula metálica ou de silicone (cânulas sem cuff ). Logo após o cuff ter sido desinsuflado, o paciente deve ser encorajado a falar, ocluindo a cânula com o dedo ou através de cânulas com válvulas e, assim que possível, iniciar a ingestão oral da dieta.
do cuff menor que 25 cm H 2 0, nível a partir do qual os capilares submucosos são ocluídos. O quadro clínico é de desconforto respiratório subagudo semanas após a retirada da cânula. O tratamento é cirúrgico, através de res- secção, ou debridamento e colocação de sten t. A estenose pode ser prevenida pela diminuição do tamanho da traqueotomia, controle do risco de infecção, evitando-se a movimentação da cânula, tratando o refluxo gastro- esofágico quando pertinente e controlando da pressão do cuff. O cuff com baixa pressão pode levar a aspiração de secreção colonizada predispondo a pneumonias hospitalares. A fístula traqueo-esofágica pode levar a aspiração e pneumonite química, geralmente causada pela combi- nação de alta pressão do cuff com sondas nasogástricas rígidas que erodem a parede posterior da traqueia. Ge- ralmente é de tratamento cirúrgico e ocorre em menos de 1% dos pacientes. A fístula traqueocutânea ocorre devido a epitelização do trajeto da pele até a traqueia, costuma ter tratamen- to cirúrgico. O tecido de granulação ocorre na região do estoma ou na região da ponta da cânula, sendo causa de hemor- ragias, obstrução e estenose da traqueia. O tratamento é feito por ressecção ou cauterização. Estudos sugerem que a troca frequente e regular das cânulas de traqueostomia no pós-operatório pode reduzir a incidência desta complicação. A impossibilidade de decanulação pode ser causada por paralisia de pregas vocais, lesão da estrutura larín- gea, ansiedade. Avaliação endoscópica completa da região laringo-traqueo-brônquica pode ajudar na resolução do problema.
A traqueotomia pode ser usada por um período indefinido de tempo, sendo sua retirada dependente princi- palmente da causa de base que levou à sua realização. Apesar da morbidade relacionada ao uso da traqueoto- mia, o paciente pode ter uma qualidade de vida satisfatória, principalmente quando tem apoio familiar e da equi- pe da saúde responsável por seu tratamento. A retirada ou a redução do número da cânula devem ser feitas tão logo o paciente tenha a função respirató- ria recuperada ou melhorada. Após a cânula ser removida, o estoma pode fechar espontaneamente ou necessi- tar de uma cirurgia para seu fechamento. Os princípios da cirurgia para fechamento do traqueostoma são:
Tabela 1: Problemas e Soluções no tratamento de cicatrizes de traqueotomia
Fonte: Grant: Laryngoscope, Volume 117(12).December 2007.2107-
O prognóstico dos pacientes submetidos à traqueotomia, quando relacionado exclusivamente ao procedi- mento cirúrgico, é bom, inclusive em pacientes pediátricos, nos quais as causas de morte pós traqueotomia estão mais relacionadas com a doença de base do que com o procedimento cirúrgico propriamente dito.
Problema Solução Retração traqueal Reaproximação dos planos profundos Enxertos Depressão cicatricial De-epitelização da cicatriz com avanço subcu- tâneo Flaps musculares Enxertos Orientação vertical da cicatriz
Zetaplastia
Cicatriz hipertrófica Excisão da cicatriz/ de-epitelização Infiltrações seriadas Perda tecidual importante Zetaplastia T-plastia Flaps de pele