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Um estudo sobre os bancos comunitários de desenvolvimento (bcds) no nordeste do brasil, que buscam democratizar o acesso aos recursos financeiros para unidades econômicas de pequena escala. O trabalho descreve a história da criação e expansão dos bcds, suas características e dinâmicas, e as principais linhas de crédito ofertadas. Além disso, o documento discute as atividades educativas e comunicações realizadas pelos bcds para promover a circulação e consolidação de moedas sociais.
Tipologia: Resumos
Compartilhado em 28/08/2022
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Os dados são alarmantes, denunciando um processo de exclusão e evidenciando territórios marginalizados pelo sistema financeiro. A análise demonstra que 39,5% da população brasileira não possui conta bancária. Na região Norte, a exclusão é maior, já que 50% de seus moradores não têm vínculo algum com uma agência bancária. Na região Nordeste, o quadro é um pouco pior, 52,6%. Na região Sul, que é a menos excluída, esse percentual é de 30%, Ipea/Sips (2011).
Anjali Kumar (2004) realizou esforços notáveis no sentindo de apresentar evidências desse fenômeno nas regiões metropolitanas do Brasil, mostrou que apenas 41% dos entrevistados possuíam conta-corrente e que, do total, 67% desses entrevistados gostariam de tê-la. Em relação ao acesso a crédito, 46% dos entrevistados possuíam algum tipo de crédito informal, considerando-se a procura por agiotas, empréstimos familiares ou entre amigos, ou mesmo compra “fiada” no comércio local.
Como resposta a essas condições, aparecem algumas alternativas que tentam democratizar o acesso aos recursos financeiros da sociedade, especialmente, para unidades econômicas de pequena escala, utilizando-se de uma multiplicidade de arranjos institucionais estabelecidos em relações de proximidade. Entre elas, está a iniciativa dos bancos comunitários de desenvolvimento, que utiliza diversas formas de serviços para atender às necessidades do público usuário; como microsseguros, linhas de microcrédito, moedas sociais, poupança coletiva, correspondência bancária, além de outros serviços não financeiros.
Os resultados apresentados neste trabalho referem-se, especialmente, a um tratamento de natureza mais descritiva dos dados levantados com a aplicação de um instrumento de coleta de dados nos Bancos Comunitários de Desenvolvimento (BCDs) do Nordeste do Brasil. Tanto a construção do instrumento quanto o tratamento dos dados foram realizados com o apoio do software Sphinx2000.
O levantamento foi realizado em 26 dos 35 BCDs (74% do total em 2012) da região Nordeste do Brasil no período de julho a setembro de 2012. Especificamente, foram entrevistados: três BCDs na Bahia, dezenove no Ceará, um no Maranhão; um em Sergipe e dois no Piauí. Em 2012, os BCDs da Paraíba e do Rio Grande do Norte ainda não haviam sido inaugurados.
2 DO BANCO PALMAS À REDE BRASILEIRA DE BANCOS COMUNITÁRIOS
De acordo com RIGO et al. (2015), os BCDs surgem a partir da criação do Banco Palmas, em 1998, em Fortaleza, Ceará. Mas é a partir de 2003, com a criação do Instituto Palmas de Desenvolvimento e Socioeconomia Solidária, que o estabelecimento de parcerias com instituições públicas e privadas, o envolvimento de outras Entidades de Apoio e Fomento (EAF) e que a replicação da metodologia de criação de BCDs consolidam-se em todo o Brasil. Em 2004 foi fundado o segundo BCD no Brasil, também no Ceará; em 2009, eram 49 BCDs e, em maio de 2012, a rede brasileira constituía-se de 78 BCDs. No final de 2013, eram 103 BCDs localizados em vários estados. Nesse conjunto, 52 BCDs estão localizados no Nordeste, dezesseis na região Norte, seis na Centro-Oeste, 25 na região Sudeste e um BCD no Distrito Federal. O estado com maior número de BCDs é o Ceará (37), seguido de São Paulo (10) e da Bahia (8).
TABELA 2
Organizações/instituições Respostas Casos (%) Ocorrências (%) Lideranças locais 5 9,8 41, Escolas 2 3,9 16, Sindicatos 3 5,9 25, Instituições religiosas 7 13,7 58, Associação de bairro 9 17,6 75, Associação de classe 3 5,9 25, ONGs 6 11,8 50, Movimento social (MST, MSTS, etc.) 1 2,0 8, Empresas (micro e pequenas) 3 5,9 25, Órgão público (prefeitura, secretarias etc.) 5 9,8 41, Empreendimentos de economia solidária 5 9,8 41, Outros 2 3,9 25, Total 51 100,0 425, Fonte: Pesquisa direta, Ites/UFBA (2012).
Há ainda como espaço de decisão nos BCDs o Comitê de Análise de Crédito (CAC), que analisa e decide sobre as solicitações de crédito. Em geral sua composição é formada por agentes de crédito, representante da entidade de gestores e representante de organizações locais, que compõe o conselho gestor. Entre os BCDs estudados, 73,1% dos respondentes revelaram possuir o CAC em sua estrutura de gestão.
TABELA 3
Espaços de articulação política
Respostas Casos (%) Ocorrências (%) Organização comunitária 16 15,2 61, Feiras 12 11,4 46, Eventos culturais 11 10,5 42, Fóruns 10 9,5 38, Poder legislativo (vereadores, deputados e senadores) 11 10,5^ 42, Governos (municipal, estadual e federal) 13 12,4 50, Partidos políticos 2 1,9 7, Conselho de políticas públicas 6 5,7 23, Redes 12 11,4 46, Movimento social 6 5,7 23, Outros 6 5,7 23, Total 105 100,0 403, Fonte: Pesquisa direta, Ites/UFBA (2012).
A estratégia de participação em estrutura de organizações articuladas em rede locais e territoriais aparecem de forma bastante representativa entre os BCDs da região Nordeste, conforme tabela 3. As organizações comunitárias são os espaços mais citados (61,5%), seguidas dos espaços ligados aos órgãos de governos e feiras (50% e 46,2%, respectivamente). As redes representam 11,4%. Os eventos culturais, 10,5% dos BCDs e os eventos culturais locais, 42,3%. E 23,1%, movimentos sociais. Esses espaços servem para discussões conceituais e metodológicas, estratégia política e econômica, abertura de espaços para diálogo entre governo e BCDs.
2.2 Características e dinâmica de circulação da moeda social
As linhas de crédito ofertadas em Real e em moeda social constituem os principais serviços oferecidos pelos BCDs. Detalhadamente identificamos cinco linhas de crédito oferecidas em real e três em moeda social, conforme tabela 4.
O crédito Produtivo em Real é a principal linha de crédito dos BCDs na região Nordeste, ofertado em 100% dos casos. O crédito para consumo – linha ofertada, principalmente, em moeda social, ofertado em 46,2% dos casos.
TABELA 4
Respostas Casos (%) Ocorrências (%) Linhas crédito em reais Bolsa Família 7 14,9 26, Crédito produtivo 29 61,7 111, Crédito para consumo 2 4,3 7, Crédito empresarial 6 12,8 23, Crédito habitacional 3 6,4 11, Total 47 100,0 180, Linhas ofertadas em moeda social Crédito para consumo 12 63,2 46, Crédito produtivo 6 31,6 23, Crédito habitacional 1 5,3 3, Total 19 100,0 73, Fonte: Pesquisa direta, Ites/UFBA (2012).
A metodologia de constituição e funcionamento de um BCD envolve um conjunto de ações para sua implementação e consolidação ao longo do tempo, especialmente para circulação da moeda social. Para implementar as moedas sociais no território, os BCDs – apoiados pelas entidades de apoio e fomento – realizam uma série de atividades educativas e sensibilizadoras com diferentes atores locais (moradores, produtores e comerciantes) no intuito de fortalecer uma rede de usuários da moeda social. Observa-se, de acordo com a tabela 5, que até o momento da pesquisa, 16% dos BCDs informaram que realizavam atividades específicas com comerciantes (reuniões, visitas); 20% usavam meios de comunicação local (carro de som, rádio comunitário etc.);
TABELA 6
Avaliação Casos Casos (%) Válido (%) Acumulado (%) Muito ruim 1 3,8 3,8 3, Ruim 5 19,2 19,2 23, Boa 15 57,7 57,7 80, Muito boa 5 19,2 19,2 100, Total 26 100,0 100,0 - Fonte: Pesquisa direta, Ites/UFBA (2012).
Verifica-se que o número de pessoas atendidas por mês (exceto visitas externas) é bastante díspar entre os BCDs da região Nordeste, 40% atendem acima de trezentas pessoas; sendo que 36% atendem até quarenta pessoas, conforme tabela 7.
Essa discrepância nos números de atendimentos deve-se a dois tipos de situações, em alguns casos, os BCDs encontravam-se com serviços parcialmente comprometidos e em outros atuavam em comunidades com um contingente populacional pequeno, este último caso refere-se aos BCDs que atuam em comunidades tradicionais de quilombolas e pescadores.
Os BCDs que atendem mais de trezentas pessoas por mês estão em municípios maiores ou em bairros mais populosos, em geral periferia de grandes capitais. Cabe destacar que o número de atendimento está diretamente relacionado com a presença ou não de correspondentes bancários nos BCDs (apenas onze BCDs no Nordeste possuíam correspondente bancários em 2012).
TABELA 7
Quantidade pessoas/clientes Casos Casos (%) Válido (%) Acumulado (%) Até 40 pessoas 9 34,6 36,0 36, Entre 41 e 100 pessoas 1 3,8 4,0 40, Entre 101 e 200 pessoas 4 15,4 16,0 56, Entre 201 e 300 pessoas 1 3,8 4,0 60, Acima de 300 pessoas 10 38,5 40,0 100, Não informou 1 3,8 - - Total 26 100,0 100,0 - Fonte: Pesquisa direta, Ites/UFBA (2012).
Por fim, a formação do fundo de crédito, refletindo a capacidade dos BCDs para ofertar os serviços financeiros nos territórios, constitui o principal dilema enfrentado pelos BCDs da região Nordeste.
Os dados revelam a natureza híbrida do fundo de crédito nos BCDs. Os dados apresentados na tabela 8 a seguir confirmam que a principal modalidade relaciona-se a recursos oriundos de programas de crédito governamental (prefeituras, estado, federal) (23,1%), seguido de doações da entidade gestora (23,1%) e doações de empresas privadas (19,2%). Os BCDs do estado do Ceará possuem uma peculiaridade: 42,3% dos recursos advém do Fundo Estadual de combate à pobreza (Fecop).
Essas informações revelam a estreita interação entre os BCDs e organizações locais, com destaque para o poder público municipal e estadual, na medida em que essas interações permitem constituir um dos elementos centrais que viabiliza a capacidade para ofertar os serviços financeiros, qual seja, a constituição das carteiras de ativos dos BCDs.
TABELA 8
Fontes de formação de fundo
Respostas Casos (%) Ocorrências (%) Doação de empresa 5 13,9 19, Programa de crédito governamental (prefeitura, estado, federal) 6 16,7 23, Programa de crédito de bancos (CEF, BB etc.) 3 8,3 11, Fecop – governo do estado 11 30,6 42, Doação da entidade gestora/conselho gestor 6 16,7 23, Doação de entidade de apoio à criação 2 5,6 7, ONGs de apoio – Pirambu/Fortaleza/Ceará 1 2,8 3, Captação por meio de eventos locais 1 2,8 3, Outros – recursos de rendimento do próprio banco 1 2,8 3, Total 36 100,0 138, Fonte: Pesquisa direta Instituto Palmas/Ites – UFBA, 2012.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Buscou-se apresentar de maneira didática as condições gerais acerca da dinâmica de organização e funcionamento dos bancos comunitários de desenvolvimento da região Nordeste do Brasil, procurando destacar questões relacionadas à interação com o território, à circulação da moeda social, à estrutura econômica, à capacidade de atendimento e à gestão dos BCDs.
Essas questões também dizem respeito à relação entre os usuários e os BCDs, à utilização dos recursos e à participação. Assim, reafirma-se a centralidade da gestão coletiva para compreender a experiência e longevidade da experiência dos BCDs, no sentido de participar das soluções que avançam para ampliar o acesso aos recursos financeiros da sociedade.
O intuito é que a oferta dos serviços financeiros dos BCDs, fundados numa organização autogerida estabelecida em princípios de cooperação e solidariedade, aparece como uma contribuição à superação de dilemas básicos vivenciados nas comunidades, como o acesso precário a serviços financeiros e bancários.
No entanto, cabe apontar alguns desafios que estão postos à experiência dos BCDs nordestinos. Esses desafios estão relacionados a quatro aspectos: i) mobilização de recursos financeiros; ii) formação e capacitação dos membros e usuários; iii) articulação com outras organizações de finanças solidárias; e iv) reconhecimento institucional de suas ações.