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relações psicopato e semiologia
Tipologia: Esquemas
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Sumário
- Sumário tológica é, por sua vez, o estudo dos si- nais e sintomas dos transtornos mentais. Embora esteja intimamente relacio- nada à lingüística, a semiologia geral não se limita a ela, posto que o signo transcen- de a esfera da língua; são também signos os gestos, as atitudes e os comportamen- tos não-verbais, os sinais matemáticos, os signos musicais, etc. De fato, a semiologia geral como ciência dos signos foi postula- da pelo lingüista suíço Ferdinand de Saussure [1916] (1970), que afirmou:
Pode-se, então, conceber uma ciência que estude a vida dos signos no seio da vida social; [...] chamá-la-emos de Semiologia (do grego semeion, “signo”). Ela nos ensi- nará em que consistem os signos, que leis os regem.
Charles Morris (1946) discrimina três campos distintos no interior da semiologia: a semântica, responsável pelo estudo das relações entre os signos e os objetos a que tais signos se referem; a sintaxe, que com-
A semiologia, tomada em um sentido ge- ral, é a ciência dos signos, não se restrin- gindo obviamente à medicina, à psiquia- tria ou à psicologia. É campo de grande importância para o estudo da linguagem (semiótica lingüística), da música (semio- logia musical), das artes em geral e de to- dos os campos de conhecimento e de ativi- dades humanas que incluam a interação e a comunicação entre dois interlocutores por meio de um sistema de signos. Entende-se por semiologia médica o estudo dos sintomas e dos sinais das doen- ças, estudo este que permite ao profissio- nal de saúde identificar alterações físicas e mentais, ordenar os fenômenos observa- dos, formular diag- nósticos e empreen- der terapêuticas. Se- miologia psicopa-
Semiologia psico- patológica é o estu- do dos sinais e sinto- mas dos transtornos mentais.
Introdução geral à
semiologia psiquiátrica
Um dia escrevi que tudo é autobiografia, que a vida de cada um de nós a estamos contando em tudo quanto fazemos e dizemos, nos gestos, na maneira como nos sentamos, como andamos e olhamos, como viramos a cabeça ou apanhamos um objeto no chão. Queria eu dizer então que, vivendo rodeados de sinais, nós próprios somos um sistema de sinais. José Saramago (Cadernos de Lanzarote, 1997)
Os sintomas médicos e psicopatológicos têm, como signos, uma dimensão dupla. Eles são tanto um índice (indicador) como um símbolo. O sintoma como índice in- dica uma disfunção que está em outro ponto do organismo ou do aparelho psí- quico; porém, aqui a relação do sintoma com a disfunção de base é, em certo sen- tido, de contigüidade. A febre pode corresponder a uma infecção que induz os leucócitos a liberarem certas citocinas que, por sua ação no hipotálamo, pro- duzem o aumento da temperatura. Assim, o sintoma febre tem determinada relação de contigüidade com o processo infeccio- so de base. Além de tal dimensão de indicador, os sintomas psicopatológicos, ao serem nomeados pelo paciente, por seu meio cul- tural ou pelo médico, passam a ser “sím- bolos lingüísticos” no interior de uma lin- guagem. No momento em que recebe um nome, o sintoma adquire o status de sím- bolo, de signo lingüístico arbitrário, que só pode ser compreendido dentro de um sistema simbólico dado, em determinado universo cultural. Dessa forma, a angús- tia manifesta-se (e realiza-se) ao mesmo tempo como mãos geladas, tremores e aper- to na garganta (que indicam, p. ex., uma disfunção no sistema nervoso autônomo), e, ao ser tal estado designado como ner- vosismo, neurose, ansiedade ou gastura, passa a receber certo significado simbóli- co e cultural (por isso, convencional e ar- bitrário), que só pode ser adequadamen- te compreendido e interpretado tendo-se como referência um universo cultural es- pecífico, um sistema de símbolos deter- minado.
A semiologia psicopatológica, por- tanto, cuida espe- cificamente do estu- do dos sinais e sin- tomas produzidos pelos transtornos mentais, signos que sempre contêm essa dupla dimensão.
A semiologia (tanto a médica como a psicopatológica) pode ser dividida em duas grandes subáreas: semiotécnica e semio- gênese (Marques, 1970). A semiotécnica refere-se a técnicas e procedimentos específicos de observação e coleta de sinais e sintomas, assim como à descrição de tais sintomas. No caso dos transtornos mentais, a semiotécnica con- centra-se na entrevista direta com o pa- ciente, seus familiares e demais pessoas com as quais convive. A coleta de sinais e sintomas requer a habilidade sutil em for- mular as perguntas mais adequadas para o estabelecimento de uma relação produ- tiva e a conseqüente identificação dos sig- nos dos transtornos mentais. Aqui são fun- damentais o “como” e o “quando” fazer as perguntas, assim como o modo de inter- pretar as respostas e a decorrente formu- lação de novas perguntas. Fundamental, sobretudo para a semiotécnica em psico- patologia, é a observação minuciosa, aten- ta e perspicaz do comportamento do pa- ciente, do conteúdo de seu discurso e do seu modo de falar, da sua mímica, da pos- tura, da vestimenta, da forma como reage e do seu estilo de relacionamento com o entrevistador, com outros pacientes e com seus familiares.
A semiologia psico- patológica cuida es- pecificamente do es- tudo dos sinais e sin- tomas produzidos pelos transtornos mentais, signos que sempre contêm essa dupla dimensão.
A semiogênese, por sua vez, é o campo de investigação da origem, dos me- canismos, do significado e do valor diag- nóstico e clínico dos sinais e sintomas. Fi- nalmente, alguns autores utilizam o termo propedêutica médica ou psiquiátrica para designar a semiologia. Propedêutica, de modo geral, é termo empregado em várias áreas do saber para designar o ensino pré- vio, os conhecimentos preliminares neces- sários ao início de uma ciência ou filoso- fia. Prefiro o termo semiologia à pro- pedêutica, mas reconheço que a semiologia psicopatológica (como propedêutica) pode ser concebida como uma ciência prelimi- nar, necessária a todo estudo psicopato- lógico e prática clínica psiquiátrica.
Na prática clínica, os sinais e os sintomas não ocorrem de forma aleatória; surgem em certas associações, certos clusters mais ou menos freqüentes. Definem-se, portan- to, as síndromes como agrupamentos re- lativamente constantes e estáveis de deter- minados sinais e sintomas. Entretanto, ao se delimitar uma síndrome (como síndrome
depressiva, demencial, paranóide, etc.), não se trata ainda da definição e da identi- ficação de causas específicas e de uma na- tureza essencial do processo patológico. A síndrome é puramente uma definição des- critiva de um conjunto momentâneo e re- corrente de sinais e sintomas. Denominam-se entidades nosológi- cas, doenças ou transtornos específicos os fenômenos mórbidos nos quais podem- se identificar (ou pelo menos presumir com certa consistência) certos fatores causais (etiologia), um curso relativamente homo- gêneo, estados terminais típicos, meca- nismos psicológicos e psicopatológicos característicos, antecedentes genético- familiares algo específicos e respostas a tratamentos mais ou menos previsíveis. Em psicopatologia e psiquiatria, trabalha- se muito mais com síndromes do que com doenças ou transtornos específicos, embo- ra muito esforço tenha sido (há mais de 200 anos!) empreendido no sentido de identifi- car entidades nosológicas precisas. Cabe lembrar que o reconhecimento dessas enti- dades não tem apenas um interesse cientí- fico ou acadêmico (valor teórico); ele ge- ralmente viabiliza ou facilita o desenvolvi- mento de procedimentos terapêuticos e pre- ventivos mais eficazes (valor pragmático).
Questões de revisão
pre viu na “alienação mental”, no pathos do sofrimento mental extremo, uma possibi- lidade excepcionalmente rica de reconhe- cimento de dimensões humanas que, sem o fenômeno “doença mental”, permane- ceriam desconhecidas. Apesar de se bene- ficiar das tradições neurológicas, psicoló- gicas e filosóficas, a psicopatologia não se confunde com a neurologia das chamadas funções corticais superiores (não se resu- me, portanto, a uma ciência natural dos fenômenos relacionados às zonas associa- tivas do cérebro lesado), nem à hipotética psicologia das funções mentais desviadas. A psicopatologia é, pois, uma ciência autô- noma, e não um prolongamento da neuro- logia ou da psicologia. Karl Jaspers (1883-1969), um dos principais autores da psicopatologia, afir- ma que esta é uma ciência básica, que ser- ve de auxílio à psiquiatria, a qual é, por sua vez, um conhecimento aplicado a uma prática profissional e social concreta. Jaspers é muito claro em relação aos limites da psicopatologia: embora o ob- jeto de estudo seja o homem na sua totali- dade (“Nosso tema é o homem todo em sua enfermidade.” [Jaspers, 1913/1979), os limites da ciência psicopatológica con- sistem precisamente em que nunca se pode reduzir por completo o ser humano a con- ceitos psicopatológicos. O domínio da psicopatologia, segundo ele, estende-se a “todo fenômeno psíquico que possa apre- ender-se em conceitos de significação cons- tantes e com possibilidade de comunica- ção”. Assim, a psicopatologia, como ciên- cia, exige um pensamento rigorosamente conceptual, que seja sistemático e que pos- sa ser comunicado de modo inequívoco. Na prática profissional, entretanto, participam ainda opiniões instintivas, uma intuição pessoal que nunca se pode comunicar. Des- sa forma, a ciência psicopatológica é tida como uma das abordagens possíveis do homem mentalmente doente, mas não a única.
Em todo indivíduo, oculta-se algo que não se pode conhecer, pois a ciência requer um pensamento conceitual sistemático, pensamento que cristaliza, torna evidente, mas também aprisiona o conhecimento. Quanto mais conceitualiza, afirma Jaspers, “quanto mais reconhece e caracteriza o tí- pico, o que se acha de acordo com os prin- cípios, tanto mais reconhece que, em todo indivíduo, se oculta algo que não pode co- nhecer”. Assim a psicopatologia sempre perde, obrigatoriamente, aspectos essen- ciais do homem, sobretudo nas dimensões existenciais, estéticas, éticas e metafísicas. O filósofo Gadamer (1990) postula que:
diante de uma obra de arte, experimenta- mos uma verdade inacessível por qualquer outra via; é isso o que constitui o significa- do filosófico da arte. Da mesma forma que a experiência da filosofia, também a expe- riência da arte incita a consciência cientí- fica a reconhecer seus limites.
Dito de outra forma, não se pode com- preender ou explicar tudo o que existe em um homem por meio de conceitos psico- patológicos. Assim, ao se diagnosticar Van Gogh como esquizofrênico (epiléptico, ma- níaco-depressivo ou qualquer que seja o di- agnóstico formulado), ao se fazer uma aná- lise psicopatológica de sua biografia, isso nunca explicará totalmente sua vida e sua obra. Sempre resta algo que transcende à psicopatologia e mesmo à ciência, perma- necendo no domínio do mistério.
Em geral, quando se estudam os sintomas psicopatológicos, dois aspectos básicos costumam ser enfocados: a forma dos sintomas, isto é, sua estrutura básica, rela- tivamente semelhante nos diversos pa- cientes (alucinação, delírio, idéia obsessiva, labilidade afetiva, etc.), e seu conteúdo, ou seja, aquilo que preenche a alteração estru-
tural (conteúdo de culpa, religioso, de per- seguição, etc.). Este último é geralmente mais pessoal, dependendo da história de vida do paciente, de seu universo cultural e da personalidade prévia ao adoecimento. De modo geral, os conteúdos dos sin- tomas estão relacionados aos temas cen- trais da existência humana, tais como so- brevivência e segurança, sexualidade, temo- res básicos (morte, doença, miséria, etc.), religiosidade, entre outros. Esses temas re- presentam uma espécie de substrato, que entra como ingrediente fundamental na constituição da experiência psicopatológica. Nesse sentido, é apresentado a seguir um esquema simplificado de temas e temores básicos do ser humano (Quadros 2.1 e 2.2).
O estudo da doença mental, como o de qualquer outro objeto, inicia pela obser- vação cuidadosa de suas manifestações. A observação articula- se dialeticamente com a ordenação dos fenômenos. Isso significa que, para observar, também é preciso produzir, de- finir, classificar, in- terpretar e ordenar o observado em de- terminada perspectiva, seguindo certa ló- gica.
Temas existenciais que freqüentemente se expressam no conteúdo dos sintomas psicopatológicos
Temas e interesses centrais para o ser humano O que busca e deseja
Sexo Sobrevivência e prazer Alimentação Conforto físico
Dinheiro Segurança Poder e controle sobre o outro Prestígio
Temores que freqüentemente se expressam no conteúdo dos sintomas psicopatológicos
Temores centrais do ser humano Formas comuns de lidar com tais temores
Morte Religião/mundo místico Continuidade através das novas gerações
Ter uma doença grave Vias mágicas/medicina/psicologia, etc. Sofrer dor física ou moral Miséria
Falta de sentido existencial Relações pessoais significativas Cultura
O estudo da doença mental, como o de qualquer outro obje- to, inicia pela obser- vação cuidadosa de suas manifestações.
exemplo a questão da delimitação dos ní- veis de tensão arterial para a determina- ção de hipertensão ou de glicemia, na de- finição do diabete. Esse problema foi cui- dadosamente estudado pelo filósofo e mé- dico francês Georges Canguilhem (1978) cujo livro O normal e o patológico tornou- se indispensável em tal discussão. O conceito de normalidade em psico- patologia também implica a própria defi- nição do que é saúde e doença mental. Esses temas apresentam desdobramentos em várias áreas da saúde mental. Por exemplo:
O conceito de saúde e de normalidade em psicopatologia é questão de grande controvérsia (Al- meida Filho, 2000). Obviamente, quando se trata de casos ex- tremos, cujas alterações comportamentais e mentais são de intensidade acentuada e de longa duração, o delineamento das fron- teiras entre o normal e o patológico não é tão problemático. Entretanto, há muitos casos limítrofes, nos quais a delimitação entre comportamentos e formas de sentir normais e patológicas é bastante difícil. Nessas situações, o conceito de normali- dade em saúde mental ganha especial re- levância. Aliás, o problema não é exclusi- vo da psicopatologia, mas de toda a medi- cina (Almeida Filho, 2001); tome-se como
O conceito de saúde e de normalidade em psicopatologia é questão de grande controvérsia.
O conceito de normalidade
em psicopatologia
Que é loucura: ser cavaleiro andante ou segui-lo como escudeiro? De nós dois, quem o louco verdadeiro? O que, acordado, sonha doidamente? O que, mesmo vendado, vê o real e segue o sonho de um doido pelas bruxas embruxado? Carlos Drummond de Andrade (Quixote e Sancho de Portinari, 1974)
destino social, institucional e le- gal de uma pessoa.
processo de avaliação e interven- ção clínica, se tal ou qual fenôme- no é patológico ou normal, se faz parte de um momento existencial do indivíduo ou é algo francamen- te patológico.
Há vários critérios de normalidade e anor- malidade em medicina e psicopatologia. A adoção de um ou outro depende, entre outras coisas, de opções filosóficas, ideo- lógicas e pragmáticas do profissional (Canguilhem, 1978). Os principais critérios de normalidade utilizados em psicopato- logia são:
às possibilidades de transitar com graus distintos de liberdade sobre o mundo e sobre o próprio desti- no. A doença mental é constran- gimento do ser, é fechamento, fossilização das possibilidades existenciais. Dentro desse espírito, o psiquiatra gaúcho Cyro Martins (1981) afirmava que a saúde men- tal poderia ser vista, até certo pon- to, como a possibilidade de dispor de “senso de realidade, senso de humor e de um sentido poético pe- rante a vida”, atributos estes que permitiriam ao indivíduo “relati- vizar” os sofrimentos e as limita- ções inerentes à condição huma- na e, assim, desfrutar do resquí- cio de liberdade e prazer que a existência oferece.
arbitrário, com finalidades prag- máticas explícitas. Define-se, a priori, o que é normal e o que é patológico e busca-se trabalhar operacionalmente com esses con- ceitos, aceitando as conseqüências de tal definição prévia.
Portanto, de modo geral, pode-se concluir que os critérios de normalidade e de doença em psicopatologia variam consideravelmente em função dos fenô- menos específicos com os quais se traba- lha e, também, de acordo com as opções filosóficas do profissional. Além disso, em alguns casos, pode-se utilizar a associa- ção de vários critérios de normalidade ou doença, de acordo com o objetivo que se tem em mente. De toda forma, essa é uma área da psicopatologia que exige postura permanentemente crítica e reflexiva dos profissionais.
Questões de revisão