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O Teste de Rorschach: Investigando a Estrutura e a Dinâmica da Personalidade, Notas de aula de Psicologia

A aplicação do teste de rorschach na investigação da estrutura e da dinâmica da personalidade. Aborda a evolução do instrumento, desde sua concepção como medida da percepção até sua utilização como ferramenta para revelar aspectos dinâmicos da personalidade, como necessidades, atitudes e conflitos. O texto destaca a importância de uma compreensão abrangente da dinâmica e estrutura da personalidade para a interpretação adequada do rorschach, enfatizando que o instrumento pode ser utilizado para investigar ambos os aspectos da personalidade.

Tipologia: Notas de aula

2024

Compartilhado em 13/03/2025

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camilla-queiroga 🇧🇷

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WEINER, Irving B. “Princípios da interpretação do rorschach”. São Paulo: Casa do Psicólogo 2000.
Investigação da estrutura e da dinâmica da personalidade por meio do
Rorschach
As duas seções anteriores abordaram o que o Rorschach é e como funciona. Trata-se de um instrumento de
investigação da personalidade relativamente pouco estruturado que contém aspectos objetivos e subjetivos,
constituindo uma tarefa cognitivo-perceptíva e um estímulo à fantasia, e que funciona como uma medida da
percepção e uma medida da associação. A próxima questão a ser discutida refere-se a se o Rorschach se presta
basicamente à investigação da estrutura ou da dinâmica da personalidade.
Por uma questão de definição, pode-se dizer que estrutura da personalidade refere-se à natureza do indivíduo,
conforme definida por seus pensamentos e sentimentos atuais, que constituem estados da personalidade, e suas
disposições mais permanentes de conduzir-se de determinadas maneiras, que constituem os troços da personalidade.
Os estados da personalidade compreendem um amplo leque de afetos e atitudes relativamente transitórios eliciados
por circunstâncias situacionais, como estar feliz ou profundamente envolvido nos próprios pensamentos naquele
momento específico. Os traços de personalidade abrangem um amplo leque de características e orientações
bastante estáveis do indivíduo, como ser um tipo de pessoa persistentemente dependente ou desconfiada.
Pode-se dizer que a dinâmica da personalidade refere-se à natureza da pessoa, conforme definida pelas
necessidades, atitudes, conflitos e preocupações subjacentes que influenciam o modo como pensa, sente e age de
determinadas maneiras em momentos específicos e em circunstâncias particulares. A dinâmica da personalidade
refere-se também ao modo pelo qual tais estados e traços do indivíduo podem interagir para influenciar-se
mutuamente como, por exemplo, no caso de um alto nível do traço ansiedade fazer com que uma pessoa apresente
ansiedade situacional em circunstâncias que normalmente não provocariam este estado em pessoas menos
predispostas a ficar ansiosas.
Como se pode esperar, as tradições históricas associadas à investigação da estrutura e da dinâmica da
personalidade pelo Rorschach acompanham as distinções entre processos perceptivos e associativos discutidas na
seção anterior. Os pioneiros do Rorschach que encaravam o instrumento basicamente como uma medida da
percepção tendiam a considerá-lo principalmente como um modo de identificar estados e traços, ou seja, elementos
estruturais da personalidade. Os estudiosos do Rorschach que primeiro voltaram a atenção às associações na
interpretação das respostas, tendiam a considerar o instrumento principalmente como um meio de revelar as
necessidades, atitudes, conflitos e preocupações subjacentes do sujeito, ou seja, aspectos dinâmicos da
personalidade.
A aproximação atual dessas duas tradições divergentes quanto ao Rorschach como medida da dinâmica e
da estrutura da personalidade se deu de maneira um pouco diferente da evolução do consenso amplamente aceito
de que se trata de uma medida da percepção e da associação. Em primeiro lugar, manter uma visão basicamente
perceptiva ou associativa do Rorschach foi, como continua sendo, uma questão de preferência, não suscetível a apro-
vação ou desaprovação a partir de evidências empíricas; e a geralmente reconhecida complementaridade dos
processos perceptivos e associativos na elaboração das respostas do Rorschach representa um avanço significativo
em termos conceituais, mas não como fato estabelecido. Ao contrário, a questão de o Rorschach avaliar a
dinâmica ou a estrutura da personalidade é algo que pode ser imediatamente submetido a testes empíricos,
examinando-se a validade das inferências relativas a esses aspectos do funcionamento da personalidade baseadas
neste instrumento.
Como veremos na seção final deste capítulo, onde são discutidas as propriedades psicométricas do
Rorschach, foi demonstrada uma validade substancial de dados de interpretações tanto dinâmicas quanto
estruturais do instrumento. Assim, sua capacidade para investigar a estrutura e a dinâmica da personalidade não se
reduz a um modo específico de encarar o instrumento, sendo, sim, um tato estabelecido.
Como uma segunda diferença em relação à nítida distinção que pode ser feita entre aspectos perceptivos e
associativos das respostas do Rorschach, os tipos de dados da resposta que podem gerar inferências dinâmicas e
estruturais não são mutuamente exclusivos. No passado, geralmente era sugerido que a investigação da estrutura da
personalidade por meio do Rorschach se daria através das variáveis estruturais, assim como a investigação da dinâmica
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WEINER, Irving B. “Princípios da interpretação do rorschach”. São Paulo: Casa do Psicólogo 2000.

Investigação da estrutura e da dinâmica da personalidade por meio do

Rorschach

As duas seções anteriores abordaram o que o Rorschach é e como funciona. Trata-se de um instrumento de investigação da personalidade relativamente pouco estruturado que contém aspectos objetivos e subjetivos, constituindo uma tarefa cognitivo-perceptíva e um estímulo à fantasia, e que funciona como uma medida da percepção e uma medida da associação. A próxima questão a ser discutida refere-se a se o Rorschach se presta basicamente à investigação da estrutura ou da dinâmica da personalidade. Por uma questão de definição, pode-se dizer que estrutura da personalidade refere-se à natureza do indivíduo, conforme definida por seus pensamentos e sentimentos atuais, que constituem estados da personalidade, e suas disposições mais permanentes de conduzir-se de determinadas maneiras, que constituem os troços da personalidade. Os estados da personalidade compreendem um amplo leque de afetos e atitudes relativamente transitórios eliciados por circunstâncias situacionais, como estar feliz ou profundamente envolvido nos próprios pensamentos naquele momento específico. Os traços de personalidade abrangem um amplo leque de características e orientações bastante estáveis do indivíduo, como ser um tipo de pessoa persistentemente dependente ou desconfiada. Pode-se dizer que a dinâmica da personalidade refere-se à natureza da pessoa, conforme definida pelas necessidades, atitudes, conflitos e preocupações subjacentes que influenciam o modo como pensa, sente e age de determinadas maneiras em momentos específicos e em circunstâncias particulares. A dinâmica da personalidade refere-se também ao modo pelo qual tais estados e traços do indivíduo podem interagir para influenciar-se mutuamente como, por exemplo, no caso de um alto nível do traço ansiedade fazer com que uma pessoa apresente ansiedade situacional em circunstâncias que normalmente não provocariam este estado em pessoas menos predispostas a ficar ansiosas. Como se pode esperar, as tradições históricas associadas à investigação da estrutura e da dinâmica da personalidade pelo Rorschach acompanham as distinções entre processos perceptivos e associativos discutidas na seção anterior. Os pioneiros do Rorschach que encaravam o instrumento basicamente como uma medida da percepção tendiam a considerá-lo principalmente como um modo de identificar estados e traços, ou seja, elementos estruturais da personalidade. Os estudiosos do Rorschach que primeiro voltaram a atenção às associações na interpretação das respostas, tendiam a considerar o instrumento principalmente como um meio de revelar as necessidades, atitudes, conflitos e preocupações subjacentes do sujeito, ou seja, aspectos dinâmicos da personalidade. A aproximação atual dessas duas tradições divergentes quanto ao Rorschach como medida da dinâmica e da estrutura da personalidade se deu de maneira um pouco diferente da evolução do consenso amplamente aceito de que se trata de uma medida da percepção e da associação. Em primeiro lugar, manter uma visão basicamente perceptiva ou associativa do Rorschach foi, como continua sendo, uma questão de preferência, não suscetível a apro- vação ou desaprovação a partir de evidências empíricas; e a geralmente reconhecida complementaridade dos processos perceptivos e associativos na elaboração das respostas do Rorschach representa um avanço significativo em termos conceituais, mas não como fato estabelecido. Ao contrário, a questão de o Rorschach avaliar a dinâmica ou a estrutura da personalidade é algo que pode ser imediatamente submetido a testes empíricos, examinando-se a validade das inferências relativas a esses aspectos do funcionamento da personalidade baseadas neste instrumento. Como veremos na seção final deste capítulo, onde são discutidas as propriedades psicométricas do Rorschach, foi demonstrada uma validade substancial de dados de interpretações tanto dinâmicas quanto estruturais do instrumento. Assim, sua capacidade para investigar a estrutura e a dinâmica da personalidade não se reduz a um modo específico de encarar o instrumento, sendo, sim, um tato estabelecido. Como uma segunda diferença em relação à nítida distinção que pode ser feita entre aspectos perceptivos e associativos das respostas do Rorschach, os tipos de dados da resposta que podem gerar inferências dinâmicas e estruturais não são mutuamente exclusivos. No passado, geralmente era sugerido que a investigação da estrutura da personalidade por meio do Rorschach se daria através das variáveis estruturais, assim como a investigação da dinâmica

da personalidade se daria por meio das variáveis de conteúdo (por exemplo, J. E. Exner e Weiner, 1982, cap. 1). Os desenvolvimentos atuais da interpretação do Rorschach indicam que esta distinção provavelmente foi exagerada. Como veremos nas discussões de casos adiante, nos capítulos 10 a 14, a análise detalhada de dados estruturais pode também revelar diversos aspectos da dinâmica da personalidade, além da estrutura da personalidade, e a atenção cuidadosa às imagens temáticas pode gerar informações úteis referentes aos estados e traços, além das relativas a necessidades e preocupações subjacentes. Nesse sentido, o Rorschach não deve ser considerado nem como um instrumento de investigação voltado basicamente para a estrutura da personalidade, nem como um instrumento de investigação voltado basicamente para a dinâmica da personalidade. Trata-se, na verdade, de um instrumento de investigação do funcionamento de ambas, estrutura e dinâmica da personalidade. Para utilizá-lo adequadamente, o profissional deve ter um bom conheci- mento sobre dinâmica e estrutura da personalidade, além de familiaridade quanto ao modo como as características dinâmicas e estruturais podem ser inferidas a partir das respostas do Rorschach. Nas mãos de profissionais que disponham de tal conhecimento, os protocolos do Rorschach em alguns casos fornecerão principalmente informações sobre a estrutura da personalidade dos sujeitos e, em outros, revelarão particularmente dados da dinâmica. Em quais circunstâncias isso ocorrerá, depende da abertura do estilo de enfrentamento^1 do sujeito e da maneira pela qual aborda a situação de aplicação, e não pela natureza do instrumento propriamente dito. O Rorschach é igualmente capaz de investigar a estrutura e a dinâmica da personalidade quando aplicado por profissionais bem formados a sujeitos responsivos.

O Rorschach como teste ou método

O que um nome revela? Provavelmente mais do que é imediatamente visível, especialmente quando os rótulos trazem em si implicações de longo alcance. A tradição sugere que teste é a melhor maneira de identificar o Rorschach. Como mencionado anteriormente, Rorschach (1921/1942) denominou seu instrumento "um teste de diagnóstico", no subtítulo de sua monografia; Beck (1930a, 1930b), que apresentou o instrumento no idioma inglês, usou o título Teste de Rorschach, e a terminologia atual geralmente coloca-o na categoria dos "testes psicológicos" e refere-se a sua aplicação como um exemplo de "aplicação de testes psicológicos". Logo, porém, foi questionada a adequação de se considerar o Rorschach como um teste. Krugman (1938) e Ainsworth (1954) concluíram que seria mais vantajoso considerá-lo como um método e não como um teste, e Klopfer (B. Klopfer et ai., 1954) usou "Técnica de Rorschach" no título de suas obras sobre o instrumento. A preocupação de Krugman e Ainsworth devia-se à dificuldade em demonstrar a precisão e a validade dos resultados do Rorschach; concebido como um método de observação e não como um teste, argumentavam, o Rorschach poderia ter seu valor avaliado segundo sua utilidade e produtividade, em lugar de responder pela análise estatística de suas propriedades psicométricas. Com o desenrolar dos acontecimentos, a padronização da aplicação e codificação do Sistema Compreensivo tornou possível demonstrar que o Rorschach atende substancialmente aos requisitos psicométricos, como será apresentado na última seção deste capítulo. No entanto, considerando os objetivos a que os testes pretendem atender, Krugman e Ainsworth aparentemente estavam no rumo certo quando sugeriram que se tratava de algo mais do que um teste. Os testes destinam-se a avaliar o grau em que determinados fenómenos estão presentes. Assim, os testes de inteligência produzem resultados que permitem dizer quão inteligente uma pessoa é; os testes de memória avaliam se a memória de um indivíduo é boa; os testes de depressão indicam o quanto a pessoa está deprimida, e assim por diante. Por este padrão, o Rorschach inclui diversas escalas e índices que funcionam como testes e medem várias características da personalidade, como a receptividade à estimulação

  1. N. do T. - Enfrentamento foi o termo utilizado como tradução da palavra coping, a qual significa dar conta de ou lidar com. que não possui um substantivo perfeitamente equivalente em português. Assim, enfrentamento signirica a utilização pelo indivíduo dos recursos de sua personalidade para atender às demandas originadas pelo ambiente externo ou por sua vida interior. emocional (Quociente Afetivo), extensão de distúrbios do pensamento (Wsumó) e grau de isolamento interpessoal (índice de Isolamento). Ao mesmo tempo, a discussão anterior relativa aos aspectos subjetivos do

mais do que apenas um teste e que conse-qüentemente referem-se a ele como um método, jamais devem deixar de detender e enfatizar as propriedades do Sistema Compreensivo do Rorschach como um teste.

Bases psicométricas do Rorschach

Por mais de 50 anos, desde sua publicação em 1921, o Teste das Manchas de Tinta de Rorschach (RIM) frequentemente foi criticado, por vezes duramente, como um instrumento pouco satisfatório em termos psicométricos. Até certo ponto tais críticas foram favorecidas pêlos repetidos fracassos em demonstrar a precisão e validade de seus resultados. Como já observado, estes "fracassos" levaram alguns dos pioneiros do desenvolvimento do Rorschach a recomendar que o instrumento fosse considerado como método e não como teste, a fim de evitar sua subordinação aos padrões psicométricos. Na verdade, porém, os métodos - tanto quanto os testes - podem ser julgados segundo o critério de sua produção de informações precisas e válidas. Nesse sentido, é necessário responder às questões quanto à adequação cio Rorschach em termos psicométricos, a despeito de como seja denominado.

PERSPECTIVAS HISTÓRICAS

Fazendo-se uma retrospectiva, em 1965 teve início uma fase crítica quanto à discussão da adequação do Rorschach em termos psicométricos, que durou cerca de 10 anos. As críticas rigorosas e bem fundamentadas quanto às bases psicométricas do instrumento culminaram com a publicação de An Experimental Approach to Projective Techniques de Zubin, Eron e Schumer (1965). Os autores concluíram, a partir de uma extensa revisão da literatura, que as variáveis tradicionais do Rorschach não haviam demonstrado propriedades psicométricas aceitáveis e que provavelmente não viriam a demonstrá-las. Recomendaram, então, uma abordagem "global" em lugar de uma abordagem "atomística", na qual o Rorschach funcionaria não como um instrumento de medida, mas "basicamente [como] uma entrevista" (Zubin et ai., 1965, pg. 239). Por volta da década seguinte ao estudo de Zubin et ai., os entusiastas do Rorschach começaram a responder a estas críticas não com desculpas, mas por meio de uma postura assertiva do ponto de vista académico e de iniciativas científicas. Os estudos inconclusivos que supostamente "fracassaram" na comprovação do rigor e da utilidade do Rorschach foram, eles próprios, questionados por Blatt (1975), Holt (1967), Weiner (1977a) e outros, que ressaltaram a concepção inadequada, o projeto incorreto e o rigor duvidoso da condução da maioria desses estudos iniciais. Nos poucos casos em que os primeiros pesquisadores do Rorschach empregaram metodologias aceitáveis, os resultados tendiam mais a confirmar a adequação psicométrica do RIM do que a colocá-la em dúvida. A partir de meados da década de 1970, a crescente sofisticação dos projetos de pesquisa ampliou o volume de dados disponíveis sobre a condição científica do método das manchas de tinta. Os avanços atuais dos métodos de pesquisa do Rorschach incluíram maior ênfase em hipóteses baseadas em teorias e voltadas para conceitos, maior atenção a correlates objetivos e observáveis das variáveis do Rorschach, utilização de métodos estatísticos meta-analíticos e consideração do impacto do erro Tipo II. Estas e outras questões metodológicas dos projetos de pesquisa do Rorschach são abordadas por J. E. Exner (1995), Meyer (1996) e Weiner (1995a). Os avanços metodológicos obtidos ao longo dos anos confirmaram significativamente uma relação observada pela primeira vez por Holt (1967): quanto melhor a qualidade da pesquisa do Rorschach, avaliada segundo a adequação da metodologia empregada, maior a probabilidade de que os resultados obtidos contribuam positivamente para a validação do instrumento. Quanto às iniciativas científicas, algo foi feito nos dez anos posteriores a Zubin et ai. quanto ao fato de os clínicos e estudiosos do Rorschach, com sua criatividade, há muito representarem seus piores inimigos. S. J. Beck (1968) descreveu o estado autodestrutivo da situação como se segue: "O cenário do Rorschach no momento é um caos de pontos de vista e uma cacofonia de sons. Com raras exceções, pelo que posso julgar pêlos artigos publicados sobre o teste de Rorschach, todos os que utilizam este teste fazem o que é correto segundo sua própria visão" (pg. 131). Logo após as declarações de Beck, J. E. Exner (1969; J. E. Exner e D. E. Exner, 1972), confirmou com dados de pesquisa que o RIM, na década de 70, evoluiu nos Estados Unidos não só em direção aos cinco sistemas principais de Beck, Klopfer, Hertz, Piotrowski e Rapaport/ Schafer, como também rumo a um número quase infinito de variações

idiográficas e combinações de métodos de aplicação e classificação empregados por clínicos individualmente. Com tal variedade de modos pêlos quais os ciados do Rorschach eram obtidos e codificados, não é de surpreender o fracasso em acumular resultados de pesquisas que o validassem, apesar do grande número de publicações. Para superar este grave obstáculo à demonstração do rigor psicométrico do Rorschach, Exner (1974) desenvolveu o Sistema Compreensivo. Como observado anteriormente, o princípio diretor do desenvolvimento deste sistema foi a produção de uma abordagem fundamentada, precisa e padronizada de aplicação do instrumento e codificação das respostas dos sujeitos. Exner acreditava que a padronização dos tipos de dados utilizados na pesquisa do Rorschach - de modo que, por exemplo, M:SiímC e X+% de um pesquisador significassem exatamente a mesma coisa que M:SumC e X+% de outro pesquisador - levaria a resultados positivos cumulativos que demonstrassem o rigor psicométrico do método das manchas de tinta. Os dados atuais, resumidos a seguir, justificaram sua crença.

DADOS ATUAIS

O rigor psicométrico de um instrumento de medida é avaliado pêlos critérios (a) profissionais treinados apresentam um grau de concordância satisfatório quanto à pontuação de suas variáveis; (b) as estimativas do seu grau de fidedignidade indicam que fornece informações satisfatoriamente precisas, ou seja, que os resultados obtidos a partir dele tenham uma variância de erro mínima e que sejam suficientemente próximos dos valores reais ou verdadeiros; (c) seus corolários demonstrados identifiquem objetivos para os quais sejam suficientemente válidos; e (d) existem dados normativos adequados relativos aos dados estatísticos descritivos para várias populações (Anastasi e Urbina, 1997, caps. 3-6; Weiner, 1996). O RIM, quando administrado e codificado segundo o Sistema Compreensivo, atende a estes quatro requisitos psicométricôs. Para fazer uma revisão sucinta das evidências nesse sentido, os resultados das pesquisas mencionadas anteriormente indicam, antes de tudo, que todas as variáveis codificadas no Sistema Compreensivo podem apresentar uma substancial concordância inter-avaliado-res. Segundo, a tidedignidade dos dados do sumário estrutural do Rorschach foi documentada em uma série de estudos de reteste, com crianças e adultos, com intervalos de reteste variando de 7 dias a 3 anos. Entre os 100 adultos não-pacientes reexaminados após 3 anos, 13 variáveis centrais apresentaram coeficientes de estabilidade de 0,80 ou mais (frequência de Z, Lambda, M, Movimento ativo, FC, SumC, Quociente Afetivo, Somatória de T, Somatória de V, X+%, índice de Egocentricidade, Somatória de Códigos Especiais Críticos e Experiência Efetiva); outras seis variáveis centrais mostraram coeficientes de estabilidade superiores a 0,70 (Número de respostas, Movimento passivo, CF+C, Popular, FM e Estimulação Sentida - Exner e Weiner, 1995, pg. 21-27). Em outro relatório sobre os dados de reteste após l ano em 50 adultos não-pacientes, Exner (1997a) também apresentou informações de fidedignidade referentes a numerosas variáveis adicionais. Neste relatório, os dados do sumário estrutural que apresentaram coeficientes de estabilidade superiores a 0,80 foram: Pares, Reflexos e Forma Dimensão; o índice de isolamento e o índice de Intelectualização; movimentos Cooperativos e Agressivos; e Xu%, X- % e WSumó. As respostas de conteúdo Mórbido e de determinantes Mistos apresentaram correlações superiores a 0,70 no reteste. Quanto à validade da avaliação do Rorschach, o mérito científico do instrumento foi confirmado nas revisões meta-analíticas de Atkinson (1986), e por Parker, Hanson e Hunsley (1988), que chegaram a duas conclusões: (a) os estudos com base conceituai e teórica demonstram coeficientes de validade substancialmente maiores para as variáveis do Rorschach do que as pesquisas realizadas sem uma racional teórica empírica; e (b) os estudos de valida- ção conceituai do Rorschach apresentam valores de validade equivalentes aos encontrados para o Minnesota Multiphasic Personality Inventory (MMPI). Especificamente em Parker et ai., os resultados dos 411 estudos publicados apresentaram uma estimativa dos coeficientes de validade convergente para a população da ordem de 0,41 para o Rorschach e 0,46 para o MMPI, uma diferença estatisticamente não significativa. Em outro comentário sobre as tendências das pesquisas sobre o Rorschach, Shontz e Green (1992) declararam que "agora é possível afirmar definitivamente as propriedades psicométricas do Rorschach", pois as revisões meta-analíticas "concluíram, em sua totalidade, que o Rorschach é válido e preciso quando utilizado adequadamente" (pg. 149). Em um estudo meta-analítico publicado posteriormente, Meyer e Handler (1997) examinaram a validade de predição da Rorschach Prognostic Rating Scale (RPRS), uma medida desenvolvida por Klopfer, Kirkner,

hospitalizados, 315 pacientes depressivos hospitalizados, 440 pacientes externos de diagnósticos diversos e 180 pacientes externos com distúrbios de caráter (J- E. Exner, 1993, cap. 12). O tamanho e diversidade destas amostras normativas e de referência fornecem mais informações padronizadas do que as disponíveis para a maioria dos instrumentos de investigação da personalidade e estabelece o RIM como um instrumento adequadamente normalizado para a população dos Estados Unidos. Para concluir este capítulo introdutório, a quinta e última pergunta pode agora ser respondida: o método das manchas de tinta de Rorschach é um instrumento adequado em termos psicométricos. Com esta garantia e fundamentada nas respostas às quatro perguntas anteriores, a discussão dos princípios de interpretação do Rorschach apresentada neste livro pode prosseguir, tendo-se em mente que o RIM apresenta características objetivas e subjetivas de avaliação, presta-se à investigação da percepção e da associação, explora a estrutura e a dinâmica da personalidade e funciona não apenas como um teste, mas como um método multifacetado de coleta de dados referentes a processos da personalidade.