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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO REVISTA DE PÓS - GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA REVISTA DA PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA ANOI VOLUME 1 1997 NO FINAL DOS ANOS 90, . 64 . 66 INTRODUÇÃO OS AGENTES DA ESTRUTURAÇÃO ESPACIAL DA CIDADE LOS ANGELES E RIO DE JANEIRO: UMA COMPARAÇÃO DAS VISÕES DE MIKE DAVIS E MAURÍCIO ABREU ... AGENTES MODELADORES DO USO DO SOLO URBANO: CLASSIFICAÇÕES E ANÁLISES DE CONTEXTO OS DIFERENTES ENFOQUES DA SEGREGAÇÃO RESIDENCIAL: OS EXEMPLOS DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO... A SEGREGAÇÃO SÓCIO-ESPACIAL NOS ANOS 90: OS NOVOS CONTEXTOS A VIOLÊNCIA ENQUANTO FATOR DE SEGREGAÇÃO.... ESPAÇOS SEGREGADOS PARA O COMÉRCIO E SERVIÇOS: ÁREAS DE REFÚGIO E ÁREAS DE CONFLITO. CONCLUSÕES... ESPAÇOS DE SEGREGAÇÃO E DE MISTURA: ALGUNS COMPLEXOS EXEMPLOS. A PRAIA.... A PRÁTICA DO SEXO PAG O FUTEBOL... BIBLIOGRAFIA. 79 79 79 8 CAPÍTULO VI UNISYS CORPORATION: FORMAÇÃO E MUDANÇAS DA SUA REDE URBANA INTRODUÇÃO... ASPECTOS GERAIS DA UNISYS CORPORATION... A HISTÓRIA DA UNISYS NO BRASIL NO CONTEXTO DO SÉCULO XX: A FORMAÇÃO DE SUA REDE MUDANÇAS RECENTE: MUDANÇAS NA PRODUÇÃO E NA DIVISÃO TERRITORIAL DO TRABALHO. ASPECTOS DA DIVISÃO TERRITORIAL DO TRABALHO NA UNISYS CORR A GESTÃO DO TERRITÓRIO E SUAS MUDANÇAS... CONCLUSÃO. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CAPÍTULO VI REDE URBANA E A GRANDE EMPRESA - O ESPAÇO DE ATUAÇÃO DO GRUPO ARBI INTRODUÇÃO.... ABORDAGENS CONCEITUAIS - CARACTERIZAÇÃO DA GRANDE EMPRESA... INTEGRAÇÃO TERRITORIAL DA GESTÃO E DA PRODUÇÃO. IMPACTOS DA GRANDE EMPRESA, PRÁTICAS ESPACIAIS... EXEMPLIFICANDO - O ESPAÇO DE ATUAÇÃO DA GRANDE EMPRESA. A HOLDING ARBI PATICIPAÇÕES.... SETOR DE METAIS..... SETOR DA COMUNICAÇÕES, SETOR FINANCEIRO. SETOR DE SEGUROS... OT AO 3 «15 «5 «MZ 118 IB 122 «123 24 SETOR DE MATERIAL DE DEFESA.... SETOR DE MATERIAL DE TRANSPORTE. OUTROS SETORE: TEORIZANDO O ESPAÇO DE ATUAÇÃO DO GRUPO............ CONSIDERAÇÕES FINAIS. BIBLIOGRAFIA... CAPÍTULO VIX RELEVO, MANEJO AGRÍCOLA E USO DO SOLO NO MUNICÍPIO DE PATY DOS ALFERES/R] INTRODUÇÃO. RELEVO, MENEJO AGRÍCOLA E USO DO SOLO NA ÁREA DE ESTUDO. O USO DO SOLO E AS ÁREAS DE CULTIVO. PREPARO DO SOLO E O PLANTIO. ADUBAÇÃO E MINERALIZAÇÃO DO SOLO. DEFENSIVOS AGRÍCOLAS. PRÁTICA DE IRRIGAÇÃO. OUTROS PROCEDIMENTO: CONSIDERAÇÕES FINAI REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. CAPÍTULO X ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE O CONCEITO DE ESPAÇO E DE TERRITÓRIO O ESPAÇO, O TERRITÓRIO. BIBLIOGRAFIA, CAPÍTULO XI ELABORAÇÃO DE PROJETO DE PESQUISA - UM GUIA PRÁTICO PARA GEÓGRAFOS A PROBLEMÁTICA, OS QUESTIONAMENTOS... A OPERACIONALIZAÇÃO. OBSERVAÇÕES FINAS. CAPÍTULO XII DISSERTAÇÃO DE MESTRADO E TESES DE DOUTORADO DEFENDIDAS NO 1º SEMESTRE DE 1997 MESTRADO. DOUTORADO, paradigma do início do milênio. Cidade de Quartzo é um ensaio sobre Los Angeles e suas contradições sociais, sobre o pós-modernismo realmente existente, onde os superlativos de riqueza e pobreza convivem em meio a imagens eletrônicas fundidas num espaço devastado de ruínas e mega- construções. Cidade de Quartzo fala sobre uma cidade que teme ficar parecida com o Brasil, sobre um futuro que pertence a todos nós. A comparação de Los Angeles com o Rio de Janeiro soa paradoxal, ao se levar em consideração as diferenças econômicas e culturais entre as duas metrópoles. Entretanto, é instigante pensar que essas duas metrópoles são campeãs em desigualdades de renda. Portanto, foi percorrido um caminho que, gradativamente afastou-se das concepções darwinistas, inspiradoras da Escola de Sociologia Urbana de Chicago, que encarava a cidade como organismo e que definia o processo de segregação como um mecanismo de seleção de indivíduos no espaço urbano, que opera com atributos sociais tais como renda, raça, língua ou características culturais, em constante estado de competição e cooperação, assim como a natureza seleciona em nichos ecológicos determinadas espécies vegetais ou animais, em função de fatores como clima, relevo, solo etc. Tal afastamento se deve ao fato de que, no decorrer desse tempo, os estudiosos das organizações urbanas perceberam quão complexas são as interações entre fatores econômicos, culturais, psicológicos e naturais que orientam os processos de ocupação dos espaços urbanos pelos seres humanos. Daí, a importância de livros como o de Davis, além dos de Soja (1993), Abreu (1987), Leeds & Leeds (1978), Harvey (1980), Valladares (1978) e Zaluar (1994), citados aqui como uma referência ao ecletismo e a complexidade de abordagens que, um pesquisador urbano brasileiro nos anos 90 deve estar preparado para enfrentar as novas tendências de segregação sócio-espacial nas grandes cidades brasileiras. Esse trabalho, embora analisando o assunto, tenta propositadamente afastar-se da corrente clássica que trata da segregação residencial, já bastante estudada, para abrir novos campos de discussão para o tema, como na abordagem da segregação nas áreas de comércio e serviços, articulada ou não com a violência urbana, característica do final do século XX. 65 OS AGENTES DA ESTRUTURAÇÃO ESPACIAL DA CIDADE Los Angeles e Rio de Janeiro: uma comparação das visões de Mike Davis e Maurício Abreu Uma leitura comparativa do capítulo 2 do livro de Davis, Linhas de Poder ( 1993: 99-140) e da segúência dos capítulos 3, 4 e 5 do livro de Abreu, O Rio de Janeiro no Século XIX ; da cidade colonial à cidade capitalista, O Rio de Janeiro no Início do Século XX: as novas contradições do espaço e O Espaço em Movimento : do urbano ao metropolitano. ( 1987: 35 - 135) nos permite ter uma noção bem clara das ações de determinados integrantes da sociedade que estruturam o uso e a forma espacial de uma cidade. Mike Davis vai direto ao ponto, ao desenvolver a complexa resposta à uma pergunta, colocada à guisa de subtítulo : Quem controla Los Angeles? Explica a evolução da cidade, centrando-se em agentes econômicos com nome e endereço, que vai de 1840 com o a inserção, através de casamentos, de americanos do nordeste no fechado círculo de proprietários de terras de origem mexicana e que formam um novo baronato do gado comandados por Abel Stearns e “Juan” Temple. Passa pelo poder militar do General! Otis que controlou a economia e a urbanização entre 1889 e 1917, continuada por seu genro Harry Chandler alravés do controle de um império editorial, o Times até 1944 e chega até os anos noventa com uma miríade de conglomerados industriais e de serviços operando conjuntamente com incorporadores e construtores, financistas de New York e Tókio, em eternas negociações com os políticos locais a fim de viabilizarem mais e mais espaços urbanos e periurbanos. Davis termina seu capítulo com um subtítulo profético Dare ga LA wo ugokashite iruka “É assim que se diz - Quem controla Los Angeles? - em japonês educado. É uma pergunta que será feita cada vez mais frequentemente pelos recém - chegados confusos e curiosos, sobretudo quando vindos de uma sociedade onde o poder continua organizado em grandes dinastias hierárquicas. ”( pg. 136)... “O sucesso estelar de Los Angeles coma uma Meca da tecnologia, da mídia e da atividade imobiliária, está sufocando suas classes dominantes tradicionais, diminuindo sua autonomia e influência. Isto não significa sugerir que elas estejam de alguma forma se pauperizando - na verdade, elas estão ficando mais ricas - mas, go invés disso, que elas estão entregando o poder, o que é diferente de meramente 66 poder financeiro comanda diretamente as ações, no caso carioca, indiretamente, usando o aparato estatal! como mediador, no caso das cidades da antiga União Soviética ou da China o poder que segmenta espacialmente o espaço urbano é de outra ordem, um misto de determinações burocráticas organizadas pelo planejamento centralizado, e de mecanismos de garantia dos melhores espaços aos membros mais poderosos da NomenClatura vigente, Agentes Modeladores do Uso do Solo Urbano: classificações e análises de contexto Os estudos de geografia urbana que enfocam preferencialmente a estrutura interna das cidades, geralmente operam sob duas matrizes: a ecológica, de origem darwinista desenvolvida pela Escola de sociologia humana de Chicago, e a econômica, subdividida em duas vertentes, uma de caráter micro-econômico que se rege pelas leis clássicas do mecanismo regulatório do mercado e outra de abordagem marxista determinada pelo processo de reprodução das relações sociais de produção e pela teoria do uso do solo wbano. Compêndios clássicos como os de Mayer & Kohn (1959), Berry & Horton (1970), Morrill (1970), Carter (1973), Hauser & Schnore (1975) [ livros ], até a década de 70 tratavam somente das perspectivas ecológica e econômica neoclássicas. De meados da década de 70 em diante, a perspectiva marxista toma corpo, principalmente através dos livros de Castells ( 1974), Harvey (1980) e Lefebvre (1991). Os compêndios de Bassett & Short (1980) e de Clark (1985) editado na Inglaterra em 1982, já analisam essa perspectiva, enfatizando apenas a obra de Harvey, possivelmente por restrições lingúísticas ao espanhol e francês dos outros autores. Apesar dessas limitações, o capítulo 6 do trabalho de Clark, concernente ao estudo da estrutura interna da cidade é bem elaborado, analisando comparativamente as principais abordagens vigentes, de forma mais genérica do que o livro de Bassett & Short, que é mais especializado no assunto: estrutura espacial das residências. Mas é a partir do trabalho dos dois autores, que Clark adapta um quadro de referência comparativa enire seis abordagens: ecológica, livre-comércio, análise da área social, ecologia fatorial, conflito/administração e marxista. De maneira sintética, Clark expõe suas comparações ...”Várias abordagens foram usadas pelos geógrafos urbanos na tentativa de entender a estrutura espacial urbana. À primeira é 68 essencialmente ecológica e procura levar em consideração os padrões urbanos em termos de uma luta por localização e espaço na cidade. Ela coloca uma ênfase particular na competição pelo território entre grupos sociais e as maneiras pelas quais isso conduz à emergência de áreas “naturais” em cada centro. A abordagem do livre-comércio surgiu da economia neoclássica e explica os padrões de uso do solo intra-urbano em termos de resultado de uma concorrência pela terra. À análise da área social e a ecologia fatorial são prolongamentos da abordagem ecológica básica, que interpreta as estruturas intra - urbanas em termos de teorias gerais de mudança social e econômica. A abordagem conflito/administração tem suas raízes na ciência política e na análise do poder e do conflito na cidade. Pesquisa a estrutura institucional do uso e desenvolvimento do solo com referência ao papel! dos administradores urbanos e q natureza das forças impostas dos indivíduos ou grupos de indivíduos dentro das cidades. A abordagem final é explicitamente marxista e explica a existência de divisões sociais e espaciais na cidade em termos da organização capitalista da sociedade. Elo salienta a forma como a classe dos donos de terra impõe e manipula as maneiras mais lucrativas para se assegurar de uma ordenação geográfica dos usos do solo na cidade.” ( pg. 181-182). Nessa mesma linha, a tese de Maia (1994) também faz uma análise comparativa entre as várias perspectivas, categorizadas em termos gerais com positivistas, com as de cunho marxista sendo, atualmente, o texio mais recente em língua portuguesa, sobre o tema. Uma breve síntese de seu trabalho está em Maia ( 1993 coletâneas ). Na linha de abordagem que Clark denomina Conflito / Administração, muitos trabalhos foram desenvolvidos, por que tentavam responder questões que não eram capazes de serem eguacionadas pelos estudos de áreas sociais e pela ecologia fatorial. Clark argumenta que essa abordagem é recente e que tomou corpo na esteira de uma ...“ crescente desilusão frente aos estudos de ecologia fatorial que, apesar de sua crescente sofisticação técnica, foi incapaz de progredir além do estágio de identificação para dar uma explicação dos mecanismos e processos que contribuíram para a diferenciação urbana.” (Clark, 1985 pg.208) Os trabalhos que enfocaram as ações dos agentes modeladotes do uso do solo urbano desenvolveram-se durante a década de 70. No caso brasileiro, o papel do BNH (Banco Nacional da Habitação) órgão do SFH (Sistema Financeiro de Habitação) incumbido dos repasses de financiamentos habitacionais e da normatização técnica de captação dos recursos do FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), além da gestão estratégica dos planos de urbanização popular (normatizações fundiárias, técnicas e financeiras dos programas de habitação popular), passou a ocupar um espaço importante nos trabalhos dos especialistas 69 O trabalho foi finalizado por um esquema tipológico de 70 bairros, que serviu de referência para o entendimento das futuras atuações da incorporação imobiliária na cidade do Rio de Janeiro ( Almeida, 1986 periódicos ). O esquema dividiu os 70 bairros mais representativos em cinco grupos através do cruzamento de um conjunto de variáveis como valor do solo, status do bairro, condições do estoque de prédios e densidade de construções. Esses cinco grupos de bairros: os de alto valor da terra com estogue de prédios novos, os de alto valor da terra, mas com estoque dominante de prédios velhos, os de valor médio com estoque de prédios novos, os de valor médio com estogue de prédios antigos e os de valor da terra baixo com estoque de prédios novos formaram um grande quadro de referência, onde foi possível perceber o processo de estratificação espacial da cidade do Rio de Janeiro. Processo, que é cada vez mais acelerado pelas ações conjuntas dos incorporadores e do poder público. Nessa mesma linha, os trabalhos de Dezouzart Cardoso ( 1986 teses ) sobre o capital imobiliário e a expansão da malha urbana, os exemplos dos loteamentos de Copacabana e do Grajaú, Kleiman ( 1986 periódicos) sobre os pequenos incorporadores cariocas, Leitão (1990 teses) analisando o plano piloto da Barra da Tijuca e Baixada de Jacarepaguá, Mello Corrêa ( 1991teses) sobre o projeto e a estrutura do condomínio exclusivo Novo Leblon na Barra da Tijucae Ribeiro ( 1991 tese ) sobre as formas de produção imobiliária no Rio de Janeir operaram diretamente com a incorporação imobiliária atuando em alguns bairros, ou na cidade como um todo. Os Diferentes Enfoques da Segregação Residencial : os exemplos da cidade do Rio de Janeiro Os estudos de Mello ( 1981 teses), O” Neil ( 1983 teses), Gonçalves de Abreu ( 1983 teses), Smolka (1992 periódicos), Fridman ( 1993 coletâneas) trabalharam com o mecanismo da segregação, enfocando alguns agentes modeladores : o corretor de venda e aluguel de imóveis, o incorporador de bairro fec ado / condomínio exclusivo, o proprietário fundiário, o loteador, e o poder público municipal, Desses, os estudos de Mello e de Smolka apresentam uma importância ímpar, pois tratam o mercado imobiliário como o modelador espacial das diferenças de renda familiar. A mobilidade espacial das famílias é monitorada e induzida pelos corretores de imóveis, orientando e segmentando o espaço residencial conforme a renda. No mercado americano de moradias, Palm ( 1976a e 1976b periódicos) já mostrava como a função de corretagem 71 induzia e segregava os diferentes espaços econômicos e raciais de uma cidade, a partir das informações passadas aos compradores. No caso carioca, Almeida ( 1982 coletâneas e 1986 periódicos) já mostrava algumas estratégias da incorporação, com vistas “a criação de novas áreas de valorização através de um trabalho de elevação do status de novas áreas ou de áreas anteriormente não consideradas como de aito status. Uma descrição detalhada pode ser vista na subseção b) Criação, Ampliação e Manutenção da Infra - Estrutura Física e da Acessibilidade das Áreas aos Centros de Trabalho, Compras e Lazer ( 1982 coletâneas, pg. 180- 185 ). Os resultados de tais estratégias foram detectados por Smolka ( 1992 periódicos) e expostos em seu artigo, nas duas seções: Relacionando a Dinâmica do Mercado Imobiliário à Mobilidade Espacial das Famílias (pa. 9) e Os Movimentos Espaciais dos Incorporadores (pg. 11), O processo de expulsão dos mais pobres das áreas mais valorizadas do município do Rio de Janeiro, para áreas localizadas em municípios periféricos da Região Metropolitana : São Gonçalo, Duque de Caxias e Nova Iguaçu, gerou outra estratégia dos incorporadores locais para acolher um estrato social que havia empobrecido no núcleo. A criação de bairros de classe média no padrão periferia metropolitana, espacialmente separados das áreas de classe rica local e dos vastos espaços ocupados pela imensa maioria de pobres que caracteriza a periferia metropolitana. Almeida e colaboradores (1987 periódicos) verificaram essa estratégia nos três municípios já citados e que, atualmente, encontra-se também muito disseminada na Zona Oeste do município do Rio de Janeiro. Quanto a espacialização dos estratos mais pobres da população metropolitana do Rio de Janeiro; na mesa redonda Classes Sociais, Habitação e o Grande Rio, coordenada por Roberto Lobato Corrêa , Almeida ( 1980 coletâneas) apresentou um modelo alternativo de localização dos mais pobres, em viriude da elevação violenta dos custos de lransportes entre o núcleo e a periferia metropolitana que ocorria no início da década de 80. “ A acessibilidade x custo nos trajetos casa - trabalho - casa e casa - local de compras - casa são atualmente as variáveis cruciais na escolha da localização da moradia. Essas variáveis passaram a ter uma função de referência até para q escolha do trabalho, que tenderá a estar próximo do loca! de moradia”. Com isso, dois arranjos espaciais tenderão a se estruturar: - A população que mara na periferia e que não possua um trabalho mais especializado ou fixo (muitos anos de casa) tenderá a procurar trabalho na própria periferia . - A população que possui um trabalho mais especializado ou fixo no município do Rio de Janeiro, tenderá e 72 dos anos 80 e do início dos 90, é possível perceber quão complexo tornou-se o processo de segregação sócio - espacial nas metrópoles brasileiras, principalmente no Rio e São Paulo. Assim como Davis ( 1993) em seu livro Cidade de Quattzo nos capítulos quatro: Fortaleza LA.( pg. 205-235 ) e cinco: O Martelo e a Bocha ( pg. 240-284 ) descreve o que é segregação e violência na atualidade de Los Angeles, Souza ( 1993 coletâneas , 1995 periódicos e 1995 coletâneas) reinicia sob novas bases [ o narcotráfico e o jogo do bicho), os estudos sobre a espacialização da violência na cidade do Rio de Janeiro, que haviam sido pioneiramente iniciados por Massena ( 1986 periódicos ) enfocando o fenômeno da criminalidade violenta. A violência, até então, era campo de trabalho dos sociólogos e antropólogos sociais [ a bibliografia do artigo de Massena aponta essa tendência - pg. 238- 239). O que mudou consubstancialmente, em termos de violência no Rio de Janeiro, entre o trabalho de Massena e as pesquisas que estão sendo desenvolvidas por Marcelo José L. de Souza e sua equipe ? Primeiramente, parafraseando Almeida (1982 teses), alteraram- se as escalas de operações dos criminosos, tanto em termos de volume, quanto em organização logística (incluindo aí a coalizão de segmentos do aparato policial) e alteraram- se também as escalas espaciais de atuação dessas organizações, podendo atuar em vários bairros, ou mesmo alcançar municípios fora da área metropolitana ou outros estados da federação. À visão simplista, passada por pesquisadores da violência que escreveram artigos entre a segunda metade dos anos 70 e início dos 80 ( ver os trabalhos de Oliven, Kovarick & Ant e Paixão na coletânea organizada por Boschi, 1981 ), que dicotomizava a questão em: bandido, o Estado e vítima, a população pobre da periferia ou da favela, tornou-se muito mais complexa. Mesmo naquele período, autores como Perlman ( 1977 livros) e Santos (1979 e 1982 coletâneas) já argumentavam que a população de baixa renda, não deveria ser encarada esterotipadamente como um grupo desorganizado e apático. Seus valores acompanhavam os da classe média, e suas estratégias de vida não se diferenciavam muito das ouiras classes. O livro de Zaluar (1994) mostra uma nova face da questão quando explora a diferença entre o malandro (antigo) e o bandido (atual) no capítulo: as classes populares urbanas e a lógica do “ferro”e do fumo (pg.13-35) e os trabalhos de Souza (1996 livros ), no capítulo 3 : A dimensão “disfuncional” das metrópoles e Souza (1995 coletâneas), 74 quando delineia os territórios do crime organizado carioca e mostra uma nova e complexa espacialização de um outro processo segregador, que usa a violência e o medo como o principal mecanismo delimitador de espaços. Nas metrópoles brasileiras dos anos 90, os mecanismos de segregação sócio - espaciais tornaram-se muito mais complexos, pois além das clássicas clivagens entre ricos e pobres, exemplificadas por Zona Sul / Zona Oeste ou Baixada para o Rio, Jardins / Zona Leste para São Paulo, Mangabeiras / Magnesita para Belo horizonte e Boa Viagem / Brasília Teimosa para Recife, são percebidas áreas fortaleza ou cercos de defesa para ricos e para pobres. No caso dos ricos: os condomínios exclusivos: Alfaville em Barueri -SP, Nova Ipanema, Novo Leblon, Mandala e Santa Monica na Barra da Tijuca- RJ são exemplos eloguentes; no caso dos pobres os enclaves de favelas em áreas de alto valor da terra como na Zona Sul carioca nos bairros de Ipanema / Copacabana (Pavão / Pavãozinho), Gávea / São Conrado (Rocinha), Leme (Chapéu Mangueira), Botafogo (Santa Marta) Copacabana (Ladeira Tabajaras) e Vidigal; os enclaves da Zona Norte como o complexo do Alemão, Acari, Vigário Geral, Parada de Lucas, favelas controladas pelo tráfico, com sérias restrições de mobilidade da população moradora à total interdição de pessoas estranhas. Além de enclaves novos em áreas de antigas favelas reurbanizadas como a da Maré e Ramos (Vila do João) e invasões em áreas de proteção ambiental em Jacarepaguá. É importante marcar aqui a íntima relação entre favela e área de moradia das classes mais pobres e não necessariamente o subúrbio, como quis fazer crer Fernandes (1996 teses). A favela fez 100 anos em 1993 e foi devidamente “homenageada” com um trabalho de Abreu ( 1993 coletâneos ) que mostrou sua evolução e sua respectiva incorporação ao imaginário da população carioca. À sua ubigiuidade em todo o espaço urbano carioca desde os anos 10 ( Abreu, 1993, pg. 189 coletâneas ) invalida qualquer tese que vincula a distância do Centro ou da Zona Sul como o fator necessariamente determinante da localização dos pobres na cidade do Rio de Janeiro. Outro mecanismo de segregação que apareceu no rastro da violência, contaminou também a classe média : a criação de pseudo - condomínios em loteamentos públicos, em flagrante desrespeito às posturas municipais, num claro processo de privatização da infra- estrutura urbana pór parte de moradores localizados em áreas do tipo “cul de sac”. O “condomínio” pesquisado por O' Neil ( 1983 teses) em sua tese é, na verdade, um loteamento assim. Situações semelhantes estão ocorrendo, tanto nos bairros da periferia 75 por Alexander Haagen, o principal incorporador de prédios comerciais da cidade e o que mais trabalha com terrenos localizados em áreas desvalorizadas próximas ao gueto, justifica o seu poder de dissuasório através de dispositivos que “plagia descaradamente o renomado projeto do século XIX de Jeremy Bentham de uma “prisão panóptica”, com sua econômica vigilância central” (pg. 219), Se fizermos uma comparação entre os conceitos que regem a segregação para as áreas comerciais e residenciais, verificaremos que no caso do comércio o conceito de segregação é mais subjetivo do que quando tratamos de residências, pois envolve mais agentes, diferentemente da segregação residencial, onde a antinomia: o de dentro [morador] eo de fora (visitante ou intruso) é perfeitamente estabelecida . Do ponto de vista dos lojistas situados nas ruas, o shopping é altamente segregador pois retira o consumidor das ruas e o mantém em um espaço restrito, geralmente sob muito conforto. Do ponto de vista do consumidor a questão da segregação pode até ser percebida por alguns, quando seus níveis de exigência exirapolam em muito o que o shopping oferece e eles percebem que o hábito de consumir neste espaço, leva a um cerceamento de suas variadas opções de consumo. Entretanto esse tipo especial de consumidor não é a regra geral, No que se refere às relações entre os diferentes níveis de renda dos consumidores e o que certos shoppings oferecem em termos de especialização, de sofisticação e de segregação na maioria de suas lojas e em seus “ espaços comuns”, parece ser um campo ainda pouco explorado pelos geógrafos e antropólogos. Espaços de alta sofisticação tendem a apresentar barreiras subjetivas que segregam alguns tipos de consumidores, mesmo aqueles que eventualmente possuam condições de adquirir certos bens oferecidos em seus luxuosos espaços, imagine para os mais pobres. Entender esses mecanismos de subjetividade é entender uma área importante do estudo do espaço intraurbano. Mike Davis ( 1993) assim se expressa sobre as relações entre a arquitetura de um shopping de luxo e os pobres... “Os pseudo-espaços públicos para consumidores ricos de nossos dias - suntuosos shoppings, centros de escritórios, acrópoles culturais, e assim sucessivamente - estão repletos de sinais invisíveis que impedem a entrada do “outro” da subclasse. Embora os críticos da arquitetura não prestem atenção a como um ambiente construído contribui para a segregação, os grupos de párias - sejam famílias latinas pobres, jovens rapazes negros ou velhas senhoras brancas sem - teto - lêem o sentido imediatamente. "( pg. 207) 7 Em situação oposta a essas áreas de refúgio, estão as áreas de conflitos na atividade comercial caracterizada pela antinomia calçada x loja. o conflito entre o espaço da venda informal a camelotagem e o dos estabelecimentos comerciais formais. O temor de que neste conflito ganhe o informal, e que as cidades brasileiras tornem-se, em algumas áreas, semelhantes às cidades indianas, (onde uma cidade paralela estende-se pelas calçadas, com moradias e atividades de sobrevivência, convivendo diuturnamente com a cidade formal) pesa muito no imaginário dos planejadores urbanos muni Mais uma vez o fator violência estará pairando sobre esses espaços, contaminando os principais atores desse drama : o lojista, o vendedor informal, o consumidor, o representante do poder público, o político. Nesse campo não há espaço para classificações simplistas tipo bandido e mocinho, todos serão em algum momento um pouco bandido e um pouco mocinho. A verdadeira guerrilha urbana entre esses atores se dá através das posturas e das ações de confinamento, por parte do setor público, dos camelôs em espaços, considerados pelos ambulantes como não viáveis em termos de seu comércio. À reação é sentida pela infiliração de milhares de ambulantes em todos os espaços livres em locais de passagem de todos os subcentros disponíveis nas metrópoles. Rio, São Paulo, Recife, Brasília e Belo Horizonte são as mais afetadas por essa guerrilha. No entanto, mesmo as cidades de porte médio, como nos mostra Schaffer ( 1994 periódicos ) também são palco desse comércio informal de rua. Lojistas que também possuem barracas para vender mercadoria sem pagar imposto, ambulantes que comercializam produtos roubados, fiscais corruptos, políticos populistas ou adeptos da filosofia do quanto pior melhor, misturam-se na arena das calçadas, das praças e dos camelódromos, e dessa mistura emerge uma cidade partida para alguns ou complexa e rica para outros. Talvez seja o caso de se tentar uma releitura da principal obra de Milton Santos (1979 livros ). O Espaço Dividido, e cotejá-la com a atualidade dos sistemas de logística de distribuição de atacado e varejo que envolvem cada vez mais uma expressão pouco estudada naquela época, o circuito superior marginal (pág.80) e suas relações com os demais circuitos da economia urbana. O crescimento acelerado de um processo de coabitação de sistemas de distribuição atacadista, entre empresas do circuito superior e do superior marginal, ao se utilizarem dos mesmos dispositivos logísticos de transportes, está gerando uma situação interessante em 78